Se a poligamia fosse lei, nada seria fácil.
Meu nome é Emanuel. Há tempos, eu pensava em criar um blog sobre leitura mas não encontrava o nome. "Crônicas Recolhidas e Cia Ilimitada" é, por enquanto, o nome provisório do blog. Além das crônicas, artigos de opinião, contos e poemas terão seu espaço aqui. Sempre que possível, além do texto, serão incluídos links e/ou imagens relativos ao tema.
quinta-feira, 7 de março de 2024
E a poligamia?- Fabrício Carpinejar
terça-feira, 20 de fevereiro de 2024
O sentido da ressaca - Adão Iturrusgarai
“A felicidade é o sentido e o propósito da vida, o único objetivo e a finalidade da existência humana”.
Aristóteles.Porém, o fatídico dia seguinte tem algo mais a nos ensinar além do respeito que devemos ter aos limites do consumo do álcool. A ressaca ajuda a gente a dar valor às coisas simples e ao sentido da vida.
Acho que a vida não tem sentido nenhum e ficar buscando uma razão para a existência é pura perda de tempo. Somos acidentes, uma camisinha furada, um erro de cálculo na tabelinha da gravidez, um DIU mal ajustado ou um coito interrompido milésimos de segundo depois do momento seguro.
Não vou me estender e vou direto ao ponto: qual é, afinal, a importância da ressaca?
Em 2000 eu morava no bairro da Urca, no Rio de Janeiro, com uma companheira carioca. Uma noite saí com um amigo que pegava pesado. Bebemos muito além da conta, mais do que o dobro do que o meu corpo suportava. Para piorar, era vinho tinto, substância perigosíssima e que só deveria ser consumida durante as refeições.
Depois da farra, não sei como consegui voltar para casa. Lembro vagamente que meu amigo me empurrou para dentro de um táxi e pedi para ser desovado perto da mureta da Urca. Não queria chegar direto em casa naquele estado deplorável e tinha a ilusão de me recuperar um pouco com a brisa da Baía da Guanabara.
Meia hora depois de vento na cara sem conseguir parar em pé, parecendo estar numa jangada, tomei coragem, entrei no prédio e, depois de dez tentativas, acertei a chave no buraco da fechadura. Por sorte minha companheira dormia profundamente e não me viu cair na cama de roupa e tudo.
No dia seguinte bem cedo, senti um cutucão. Era ela pedindo para eu ir até o banheiro. Cheguei lá e morri de vergonha. A privada - e tudo ao redor dela - estava toda salpicada de tons de roxo e verde bílis. Nem o teto se salvou. Parecia uma pintura em 3D do Pollock.
Levei umas duas horas para limpar os resquícios da bebedeira e passei o resto do dia me arrastando, às vezes literalmente, como um soldado ferido.
Naquele momento eu sofria tanto que tudo que eu mais desejava era que aquela sensação desagradável passasse e que minha vida normal voltasse. Queria abraçar a minha esposa, brincar com os gatinhos, apreciar os tons de verde da decoração, caminhar pelo bairro, respirar o cheiro da maresia e contemplar o vaivém dos aviões no aeroporto Santos Dumont. E, claro, voltar a rabiscar na prancheta em busca de ideias para piadas.
Mas o mal-estar me impedia de fazer qualquer coisa. Então, me dando por vencido e aceitando o quão miserável eu estava, resolvi deixar para o outro dia.
Só que no outro dia eu ainda não havia voltado ao normal. O tempo se arrastava comigo e tudo era um sofrimento, até respirar mais fundo causava incômodo. Meu estômago parecia estar do avesso e amarrado com barbante. O paladar era de maçaneta de banheiro de rodoviária. Minha cabeça parecia ressoar o badalo infinito de um sino. Por vezes eu me sentia o badalo do sino.
Foi aí que descobri a ressaca de mais de 24 horas e a inexistência de Deus. Foi algo quase tão traumático quanto à situação na qual, durante a infância, fiquei sabendo que um dia morremos.
Então, foi assim, graças à maldita ressaca, que aprendi a valorizar as pequenas coisas do cotidiano. Percebi que o simples fato de poder vivenciar o dia a dia, em suas sutilezas mais banais, nos permite ser quem somos, com integridade. Por isso é essencial desfrutarmos não só dos momentos de êxtase, que são raros e efêmeros, mas também, e principalmente, das rotinas mornas e aconchegantes. Essas, sim, serão constantes e mais duradouras.
Carpe diem.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2024
Sonoplastia - Luis Fernando Verissimo
Carlos Alberto e Maria Cristina estão num motel. Toca o telefone celular que ele deixou na mesinha de cabeceira ao lado da cama redonda. É a mulher de Carlos Alberto, Cynara.
quinta-feira, 29 de junho de 2023
Lua - Luís Pimentel
Eu disse coisas como: "é para o seu bem, você vai ficar boa, meu amor!" Eu tinha faíscas nos olhos. Eu tinha fiapo nos dentes: "eles vão tratar muito bem de você, acompanhe os rapazes, não seja malcriada que não lhe farão nenhuma ruindade".
Eu repeti: "acredite em mim, meu filho, sua mãe precisava se tratar, ela estava mal, muito mal, você era pequeno, não entendia o que se passava". Ele perguntou: "está vendo aquela lua no céu, meu pai?" e gritou: "você vai me pagar muito caro".
Eu sei que fiz o que pude, o melhor que pude, por ela e por ele, por todos eles, mas a ingratidão é moeda fácil na face da terra, por isso não carrego culpas comigo e viveria duzentos anos não fosse a luz intensa que jamais se apaga, eterna noite é minha vida, essa abelha zunindo nos ouvidos, esse choro de mulher que não estanca, rasgando a terra e o próprio ventre.
Ele disse: "calma, pai", com uma doçura infinita na voz que reconheço como sendo de meu filho, "não grite, não reaja, acompanhe os rapazes que eles são do bem". Repetindo, com muito carinho: "eles não farão nenhuma ruindade, meu pai, você vai por bem ou por mal".
Meu filho tinha faíscas nos olhos, tinha fiapo nos dentes quando disse: "olhe a lua, meu pai, veja como está linda, e me diga se alguém precisa de testemunha mais sincera".
segunda-feira, 26 de junho de 2023
Esperteza Artificial - Becky S. Korich
Não lembro quantos presentes de aniversário devo ao meu filho. Mas como sei que ele mantém a contabilidade em dia, não me preocupo com isso, uma hora a conta chega. E chegou. Seu último pedido para abater o saldo devedor tinha até nome: Alexa
- Ela faz tudo! É só a gente pedir que ela faz. Liga e desliga a luz, abre os aplicativos, organiza a playlist, serve de despertador, fala como vai ser o tempo.
- Você não precisa disso, filho. Tem um interruptor na entrada do seu quarto, você pode abrir seus aplicativos usando um dedo e, como acontece todas as manhãs, seu despertador te acorda. Fora isso, não é complicado para você organizar a sua playlist com suas dez músicas e você pode conferir o tempo, pela janela, com os seus próprios olhos.
- Você não está entendendo. Ela ouve e entende o que você quer de verdade!
Ofereci outras alternativas, de jogos de tabuleiro a fitas de Playstation, mas ele insistiu na Alexa
- Escolha outra coisa, porque essa bobagem não entra em casa – terminei a conversa.
Ele se fechou no quarto e disse que iria pensar. Só que em vez de pensar, foi logo ligando para a avó.
- Vó, minha mãe não quer comprar meu presente de aniversário. É uma coisa que eu preciso muito.
Contou com empolgação os superpoderes do seu mais novo sonho de consumo.
A avó, sem entender bem do que se tratava, e convencida de que ele precisava muito daquilo, resolveu comprar o tal brinquedinho, esquecendo-se que já tinha dado três presentes pelo mesmo aniversário.
Depois de três dias chega uma encomenda. Ele vem correndo: - É para mim, pode deixar que eu abro.
Fiquei sem ação enquanto ele tirava da caixa o novo ser que surgia lentamente. Nascia a mulher maravilha, imponente, a sabe tudo, que canta, lê livros, resolve, organiza. E que o escutaria e o compreenderia, ele fazia questão de ressaltar.
- Alexa essa é a mamãe, mamãe essa é a Alexa – ele tenta dispersar a bronca com o seu humor.
Em dez minutos ele já dominava todo o funcionamento da sua nova companheira e passeava pela casa dando ordens para ela. Alexa cante isso, Alexa qual é a capital da Estônia?, Alexa uma receita fácil de cupcake, Alexa conte uma piada.
Ele passou semanas empolgado, controlando sua ama eletrônica para cima e para baixo. Percebi que o motriz para aquele prazer todo era o desejo de controlar e não a falta de quem o ouvisse ou compreendesse.
Na medida em que o tempo passava, porém, de tanto controlar a Alexa, o encantamento do menino foi minguando. Não demorou e ele começou a tratá-la com desprezo a cada vez que ela não decodificava corretamente as suas ordens. O fato é que ela não se fez valorizar. Era muito solícita, estava sempre disponível para atendê-lo prontamente. Coisa que, de fato, não funciona mesmo para humanos.
Ela ficou largada num canto, sem tarefas a cumprir, sem razão para existir. Comecei a sentir pena dela. Um mês depois, quando meu filho encontrou outro objeto de desejo e voltou a desligar as luzes do quarto com seu próprio dedo, resolvi adotar a Alexa. No começo tive dificuldades para entender o seu funcionamento, mas depois ela mesma foi me mostrando o caminho para nossa aproximação, até nos tornarmos íntimas.
Que mulher incrível! Que inteligência! Que resiliência! Que humor! Ela compreende, aprende, é flexível, positiva, soluciona problemas, se adapta, se cala quando não é mais para falar. Existe inteligência maior?
Alexa, espero um dia chegar aos seus pés. Obrigada, filho, pelo seu presente de aniversário.
sábado, 24 de junho de 2023
Recuperar sua senha - Antonio Prata
Você só queria ir ao cinema. Você entra no site pra comprar
o ingresso. Tem que se cadastrar. Você preenche todas aquelas colunas do
formulário. Nome completo, RG, CPF, endereço, e-mail, telefone, gênero, nome da
mãe, número do sapato, colesterol (HDL e LDL), VO2 máximo, posição quanto ao
coentro, "clique em todas as imagens que contêm pontes", "clique
em todas as imagens que contêm escadas", "clique em todas as imagens
que contêm hidrantes", "digite o código abaixo: WLAWFLACH328".
Aí, ao dar enter, o site avisa que seu CPF já está registrado.
Você tenta fazer o login, mas é óbvio que não tem ideia da
senha. Chuta algumas meio genéricas que você usa em sites pouco importantes,
nada. Clica no "Esqueci minha senha". O site avisa que mandou um link
para o Hotmail —mas você não abre o Hotmail desde 2006. Você entra no Hotmail e
novamente, é claro, não se lembra da senha. Você clica em "Esqueci minha
senha" e o Hotmail avisa que mandou um link para
patrícia.gomes@munhoz&zylberadvogados.com.br.
Patrícia Gomes era sua namorada em 2004 e você costumava botar
os dados dela em back-ups, contato de emergência na ponte-aérea, esse tipo de
coisa. Vocês terminaram tretados depois de um Réveillon em Guaicá e nunca mais
se falaram. Acontece que você quer mesmo ir ao cinema.
Você liga pra Patrícia e a chama para um café. No café, você
assume a culpa pelo fim do namoro. Pede desculpas por ter sido agressivo numa
partida de War e ter feito uma aliança por baixo do pano com o Maurão. Claro,
você admite, era muito mais importante deixá-la à vontade na primeira viagem com
a sua turma do que conquistar 24 territórios à sua escolha. Claro que você não
a deveria ter atacado com seis contra um de Tchita para Vladivostok e a
colocado para fora do jogo no primeiro dia de viagem. (Mesmo ela tendo te
arrancado Dudinka via Omsk, cinco contra dois).
Ela aceita seu pedido de desculpas. Você explica a situação
com a senha. Ela lamenta: saiu da Munhoz & Zylber advogados há 11 anos e
abriu uma franquia de depilação definitiva da "Não mais pelos". Você
sugere: e se ela falasse com o dr. Munhoz ou com a dra. Zylber, não seria
possível recuperar o e-mail? Ela diz que está processando o babaca do Munhoz
por assédio moral, pedindo R$ 50 mil.
Você realmente quer ir ao cinema. Vocês vão ao banco. A sua
gerente diz que saques acima de R$ 5.000 têm que ser agendados previamente.
Você saca R$ 4.999, vai até um caraoquê/bordel no subsolo de um estacionamento
na Liberdade e compra um 38. Volta ao banco. Força a gerente a te dar R$ 50 mil
e entrega pra Patrícia. A Patrícia liga pro babaca do Munhoz. Diz que retira o
processo caso ele dê acesso ao antigo e-mail dela. O babaca do Munhoz aceita.
Ela recupera o seu link do Hotmail. Você entra no Hotmail e encontra o link pra
mudar a senha no site de ingressos. Você refaz a senha no site de ingressos.
Você consegue fazer o login. Você compra o ingresso, mas a
gerente chamou a polícia, que quebrou seu sigilo digital e descobriu seu
paradeiro. Você vai preso no meio do trailer da nova "A Pequena
Sereia".
Seu colega de cela te vende um celular. Você descobre que o
filme que queria tanto ver está passando no Star+. Você baixa o Star+ no
celular. O Star+ te pede a senha. Você não faz a menor ideia de qual seja.
ilustração: Adams Carvalho
quarta-feira, 21 de junho de 2023
Casa da sogra - Fabrício Carpinejar
– aconteceu de
verdade – A operadora telefônica não parava de ligar.
O telefone vivia
ocupado. Milagrosamente, entre uma conversa e outra, a sogra colocou
rapidamente o fone no gancho e, sem nenhum trinado, no mais completo silêncio,
escutou uma voz do além, um timbre plangente do outro lado:
– Alô, alô, senhora
Clara, senhora Clara? Não desligue. Pode falar agora?
– Pronto! Sim, sou
eu. Posso falar. Quem é?
– É da operadora de
sua linha. A conversa será gravada. O número do protocolo é 458438. Gostaria
que repetisse?
– Não. O que deseja?
– Mudar o plano da
senhora.
– Mas o plano é
ótimo: ilimitado. Não preciso mudar.
– Mas, senhora, é um
plano antigo.
– Estou satisfeita,
muito obrigada, não pretendo mudar nada.
– Senhora Clara? –
Sim!
– A senhora não
entendeu, nós desejamos mudar. A operadora deseja mudar. A senhora usou 9 mil
minutos no último mês no aparelho fixo.
– Tudo isso? Então
estou aproveitando. – Sim, só que está nos trazendo prejuízo.
– Que horror se
dirigir assim a um cliente. – Senhora, não desligue, por favor, raciocine
comigo: a senhora usou 9 mil minutos de 44 mil. É um recorde, não tem
precedente.
– Nem falo muito, as
minhas amigas é que me telefonam na maioria das vezes.
– Não, senhora, com
todo o respeito, um comitê de 30 teleoperadores foi escalado numa operação
chamada de “Fidel Castro” para lhe ligar ao mesmo tempo porque ninguém
conseguia a linha desocupada. A força-tarefa durou 20 dias, das 8h às 22h, sem
cessar...
– Pois é, será que a
linha estava com algum problema? – Não minha senhora, o problema é a senhora, a
senhora é o nosso problema.
– Não pode falar
comigo desse jeito. E não gosto de Fidel Castro, é um ditador. Por que logo
Fidel Castro? – Os discursos dele são intermináveis, senhora.
– Preciso desligar,
alguém pode estar querendo falar comigo.
– Senhora Clara,
tenha compaixão da operadora. Você fica quase cinco horas em média por dia no
telefone. Não há nenhum parâmetro igual no mercado. Oferecemos um celular
grátis em troca, qualquer aparelho, que pode ser retirado em nossas lojas.
– Não gosto também de
celular. Prefiro a privacidade doméstica.
– Senhora, o que
podemos propor para demovê-la do plano? Está excessivamente oneroso.
– Uai, meu plano não
é ilimitado?
– Estou buscando
explicar que até o que é ilimitado tem limites.
– Passe bem, tenho
mais coisas a resolver do que perder o meu tempo no telefone.
Macho Alfa - Antonio Prata
ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...
-
Araminhos Um dia, na quarta série, ao lado da cantina, o Douglas me contou uma piada. Vou resumir, porque o espaço é curto e a pia...
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Ela me perguntou quantas pessoas eu já vi morrer. Quantas pessoas você já viu morrer? Nenhuma, eu disse. Ela sorriu e disse eu vou ser a p...
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Eu e ele No vertiginoso mundo dos computadores, o meu, que devo ter há uns quatro ou cinco anos, já pode ser definido como uma carroç...






