Carlos Alberto e Maria Cristina estão num motel. Toca o telefone celular que ele deixou na mesinha de cabeceira ao lado da cama redonda. É a mulher de Carlos Alberto, Cynara.
Meu nome é Emanuel. Há tempos, eu pensava em criar um blog sobre leitura mas não encontrava o nome. "Crônicas Recolhidas e Cia Ilimitada" é, por enquanto, o nome provisório do blog. Além das crônicas, artigos de opinião, contos e poemas terão seu espaço aqui. Sempre que possível, além do texto, serão incluídos links e/ou imagens relativos ao tema.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2024
Sonoplastia - Luis Fernando Verissimo
quinta-feira, 29 de junho de 2023
Lua - Luís Pimentel
Eu disse coisas como: "é para o seu bem, você vai ficar boa, meu amor!" Eu tinha faíscas nos olhos. Eu tinha fiapo nos dentes: "eles vão tratar muito bem de você, acompanhe os rapazes, não seja malcriada que não lhe farão nenhuma ruindade".
Eu repeti: "acredite em mim, meu filho, sua mãe precisava se tratar, ela estava mal, muito mal, você era pequeno, não entendia o que se passava". Ele perguntou: "está vendo aquela lua no céu, meu pai?" e gritou: "você vai me pagar muito caro".
Eu sei que fiz o que pude, o melhor que pude, por ela e por ele, por todos eles, mas a ingratidão é moeda fácil na face da terra, por isso não carrego culpas comigo e viveria duzentos anos não fosse a luz intensa que jamais se apaga, eterna noite é minha vida, essa abelha zunindo nos ouvidos, esse choro de mulher que não estanca, rasgando a terra e o próprio ventre.
Ele disse: "calma, pai", com uma doçura infinita na voz que reconheço como sendo de meu filho, "não grite, não reaja, acompanhe os rapazes que eles são do bem". Repetindo, com muito carinho: "eles não farão nenhuma ruindade, meu pai, você vai por bem ou por mal".
Meu filho tinha faíscas nos olhos, tinha fiapo nos dentes quando disse: "olhe a lua, meu pai, veja como está linda, e me diga se alguém precisa de testemunha mais sincera".
segunda-feira, 26 de junho de 2023
Esperteza Artificial - Becky S. Korich
Não lembro quantos presentes de aniversário devo ao meu filho. Mas como sei que ele mantém a contabilidade em dia, não me preocupo com isso, uma hora a conta chega. E chegou. Seu último pedido para abater o saldo devedor tinha até nome: Alexa
- Ela faz tudo! É só a gente pedir que ela faz. Liga e desliga a luz, abre os aplicativos, organiza a playlist, serve de despertador, fala como vai ser o tempo.
- Você não precisa disso, filho. Tem um interruptor na entrada do seu quarto, você pode abrir seus aplicativos usando um dedo e, como acontece todas as manhãs, seu despertador te acorda. Fora isso, não é complicado para você organizar a sua playlist com suas dez músicas e você pode conferir o tempo, pela janela, com os seus próprios olhos.
- Você não está entendendo. Ela ouve e entende o que você quer de verdade!
Ofereci outras alternativas, de jogos de tabuleiro a fitas de Playstation, mas ele insistiu na Alexa
- Escolha outra coisa, porque essa bobagem não entra em casa – terminei a conversa.
Ele se fechou no quarto e disse que iria pensar. Só que em vez de pensar, foi logo ligando para a avó.
- Vó, minha mãe não quer comprar meu presente de aniversário. É uma coisa que eu preciso muito.
Contou com empolgação os superpoderes do seu mais novo sonho de consumo.
A avó, sem entender bem do que se tratava, e convencida de que ele precisava muito daquilo, resolveu comprar o tal brinquedinho, esquecendo-se que já tinha dado três presentes pelo mesmo aniversário.
Depois de três dias chega uma encomenda. Ele vem correndo: - É para mim, pode deixar que eu abro.
Fiquei sem ação enquanto ele tirava da caixa o novo ser que surgia lentamente. Nascia a mulher maravilha, imponente, a sabe tudo, que canta, lê livros, resolve, organiza. E que o escutaria e o compreenderia, ele fazia questão de ressaltar.
- Alexa essa é a mamãe, mamãe essa é a Alexa – ele tenta dispersar a bronca com o seu humor.
Em dez minutos ele já dominava todo o funcionamento da sua nova companheira e passeava pela casa dando ordens para ela. Alexa cante isso, Alexa qual é a capital da Estônia?, Alexa uma receita fácil de cupcake, Alexa conte uma piada.
Ele passou semanas empolgado, controlando sua ama eletrônica para cima e para baixo. Percebi que o motriz para aquele prazer todo era o desejo de controlar e não a falta de quem o ouvisse ou compreendesse.
Na medida em que o tempo passava, porém, de tanto controlar a Alexa, o encantamento do menino foi minguando. Não demorou e ele começou a tratá-la com desprezo a cada vez que ela não decodificava corretamente as suas ordens. O fato é que ela não se fez valorizar. Era muito solícita, estava sempre disponível para atendê-lo prontamente. Coisa que, de fato, não funciona mesmo para humanos.
Ela ficou largada num canto, sem tarefas a cumprir, sem razão para existir. Comecei a sentir pena dela. Um mês depois, quando meu filho encontrou outro objeto de desejo e voltou a desligar as luzes do quarto com seu próprio dedo, resolvi adotar a Alexa. No começo tive dificuldades para entender o seu funcionamento, mas depois ela mesma foi me mostrando o caminho para nossa aproximação, até nos tornarmos íntimas.
Que mulher incrível! Que inteligência! Que resiliência! Que humor! Ela compreende, aprende, é flexível, positiva, soluciona problemas, se adapta, se cala quando não é mais para falar. Existe inteligência maior?
Alexa, espero um dia chegar aos seus pés. Obrigada, filho, pelo seu presente de aniversário.
sábado, 24 de junho de 2023
Recuperar sua senha - Antonio Prata
Você só queria ir ao cinema. Você entra no site pra comprar
o ingresso. Tem que se cadastrar. Você preenche todas aquelas colunas do
formulário. Nome completo, RG, CPF, endereço, e-mail, telefone, gênero, nome da
mãe, número do sapato, colesterol (HDL e LDL), VO2 máximo, posição quanto ao
coentro, "clique em todas as imagens que contêm pontes", "clique
em todas as imagens que contêm escadas", "clique em todas as imagens
que contêm hidrantes", "digite o código abaixo: WLAWFLACH328".
Aí, ao dar enter, o site avisa que seu CPF já está registrado.
Você tenta fazer o login, mas é óbvio que não tem ideia da
senha. Chuta algumas meio genéricas que você usa em sites pouco importantes,
nada. Clica no "Esqueci minha senha". O site avisa que mandou um link
para o Hotmail —mas você não abre o Hotmail desde 2006. Você entra no Hotmail e
novamente, é claro, não se lembra da senha. Você clica em "Esqueci minha
senha" e o Hotmail avisa que mandou um link para
patrícia.gomes@munhoz&zylberadvogados.com.br.
Patrícia Gomes era sua namorada em 2004 e você costumava botar
os dados dela em back-ups, contato de emergência na ponte-aérea, esse tipo de
coisa. Vocês terminaram tretados depois de um Réveillon em Guaicá e nunca mais
se falaram. Acontece que você quer mesmo ir ao cinema.
Você liga pra Patrícia e a chama para um café. No café, você
assume a culpa pelo fim do namoro. Pede desculpas por ter sido agressivo numa
partida de War e ter feito uma aliança por baixo do pano com o Maurão. Claro,
você admite, era muito mais importante deixá-la à vontade na primeira viagem com
a sua turma do que conquistar 24 territórios à sua escolha. Claro que você não
a deveria ter atacado com seis contra um de Tchita para Vladivostok e a
colocado para fora do jogo no primeiro dia de viagem. (Mesmo ela tendo te
arrancado Dudinka via Omsk, cinco contra dois).
Ela aceita seu pedido de desculpas. Você explica a situação
com a senha. Ela lamenta: saiu da Munhoz & Zylber advogados há 11 anos e
abriu uma franquia de depilação definitiva da "Não mais pelos". Você
sugere: e se ela falasse com o dr. Munhoz ou com a dra. Zylber, não seria
possível recuperar o e-mail? Ela diz que está processando o babaca do Munhoz
por assédio moral, pedindo R$ 50 mil.
Você realmente quer ir ao cinema. Vocês vão ao banco. A sua
gerente diz que saques acima de R$ 5.000 têm que ser agendados previamente.
Você saca R$ 4.999, vai até um caraoquê/bordel no subsolo de um estacionamento
na Liberdade e compra um 38. Volta ao banco. Força a gerente a te dar R$ 50 mil
e entrega pra Patrícia. A Patrícia liga pro babaca do Munhoz. Diz que retira o
processo caso ele dê acesso ao antigo e-mail dela. O babaca do Munhoz aceita.
Ela recupera o seu link do Hotmail. Você entra no Hotmail e encontra o link pra
mudar a senha no site de ingressos. Você refaz a senha no site de ingressos.
Você consegue fazer o login. Você compra o ingresso, mas a
gerente chamou a polícia, que quebrou seu sigilo digital e descobriu seu
paradeiro. Você vai preso no meio do trailer da nova "A Pequena
Sereia".
Seu colega de cela te vende um celular. Você descobre que o
filme que queria tanto ver está passando no Star+. Você baixa o Star+ no
celular. O Star+ te pede a senha. Você não faz a menor ideia de qual seja.
ilustração: Adams Carvalho
quarta-feira, 21 de junho de 2023
Casa da sogra - Fabrício Carpinejar
– aconteceu de
verdade – A operadora telefônica não parava de ligar.
O telefone vivia
ocupado. Milagrosamente, entre uma conversa e outra, a sogra colocou
rapidamente o fone no gancho e, sem nenhum trinado, no mais completo silêncio,
escutou uma voz do além, um timbre plangente do outro lado:
– Alô, alô, senhora
Clara, senhora Clara? Não desligue. Pode falar agora?
– Pronto! Sim, sou
eu. Posso falar. Quem é?
– É da operadora de
sua linha. A conversa será gravada. O número do protocolo é 458438. Gostaria
que repetisse?
– Não. O que deseja?
– Mudar o plano da
senhora.
– Mas o plano é
ótimo: ilimitado. Não preciso mudar.
– Mas, senhora, é um
plano antigo.
– Estou satisfeita,
muito obrigada, não pretendo mudar nada.
– Senhora Clara? –
Sim!
– A senhora não
entendeu, nós desejamos mudar. A operadora deseja mudar. A senhora usou 9 mil
minutos no último mês no aparelho fixo.
– Tudo isso? Então
estou aproveitando. – Sim, só que está nos trazendo prejuízo.
– Que horror se
dirigir assim a um cliente. – Senhora, não desligue, por favor, raciocine
comigo: a senhora usou 9 mil minutos de 44 mil. É um recorde, não tem
precedente.
– Nem falo muito, as
minhas amigas é que me telefonam na maioria das vezes.
– Não, senhora, com
todo o respeito, um comitê de 30 teleoperadores foi escalado numa operação
chamada de “Fidel Castro” para lhe ligar ao mesmo tempo porque ninguém
conseguia a linha desocupada. A força-tarefa durou 20 dias, das 8h às 22h, sem
cessar...
– Pois é, será que a
linha estava com algum problema? – Não minha senhora, o problema é a senhora, a
senhora é o nosso problema.
– Não pode falar
comigo desse jeito. E não gosto de Fidel Castro, é um ditador. Por que logo
Fidel Castro? – Os discursos dele são intermináveis, senhora.
– Preciso desligar,
alguém pode estar querendo falar comigo.
– Senhora Clara,
tenha compaixão da operadora. Você fica quase cinco horas em média por dia no
telefone. Não há nenhum parâmetro igual no mercado. Oferecemos um celular
grátis em troca, qualquer aparelho, que pode ser retirado em nossas lojas.
– Não gosto também de
celular. Prefiro a privacidade doméstica.
– Senhora, o que
podemos propor para demovê-la do plano? Está excessivamente oneroso.
– Uai, meu plano não
é ilimitado?
– Estou buscando
explicar que até o que é ilimitado tem limites.
– Passe bem, tenho
mais coisas a resolver do que perder o meu tempo no telefone.
O Tigre - Luis Fernando Verissimo
Contam que faziam um teste com candidatos a cargos
importantes em instituições e grandes empresas para conhecer suas tendências
sexuais. O homem era deixado sozinho numa sala com um corte de veludo grená, e observado
através de uma câmera de TV. Se ignorasse o veludo grená, seria considerado
normal e contratado. Se alisasse o veludo grená para sentir sua textura, seria
aceito, mas sujeito a reavaliações periódicas. Se segurasse o corte de veludo
grená na frente do corpo e se olhasse no espelho para ver se ficava bem, era
vetado.
Isso em tempos mais homofóbicos, em que as preferências
sexuais eram disfarçadas, e que felizmente passaram. Mas um teste parecido pode
ser necessário para diferenciar um desenvolvimentista de um monetarista, já que
os sinais exteriores - e o que eles dizem - nem sempre revelam o que eles são.
Deveria ser fácil distingui-los: membros de um mesmo partido de esquerda teriam
que ser todos a favor de mais gastos sociais e investimento, os de direita
conservadores e rígidos monetaristas, a favor de responsabilidade fiscal mesmo
que doa. Mas isso não acontece neste país do mingau ideológico.
Aqui, além de desenvolvimentistas que não ousam dizer seu
nome e monetaristas que não saíram do armário, há os incongruentes de esquerda
e os incongruentes de direita, que pregam desenvolvimentismo e austeridade ao
mesmo tempo. Como saber quem é sincero, quem é oportunista, quem é
inconsequente, quem é do PMDB e quem simplesmente não sabe o que diz?
Proponho um teste por escrito. O veludo grená por outros
meios. Você e sua família encontram um tigre. Não um metafórico tigre asiático
- como um daqueles países que nos apontavam como exemplo de empreendimento
livre e mercado soberano, quando na verdade eram exemplos de um dirigismo
estatal furioso, mas deixa pra lá. Um tigre mesmo, e um tigre falante. Ele diz
que é o dono da floresta e que você pode viver nos seus domínios se aceitar
suas condições - que incluem, vez por outra, dar um filho para ele comer. Se você
aceitar as condições e aceitar o neoliberalismo dominante na floresta, ele
ajudará você a, com o tempo, prosperar. Se não aceitar, ele devorará sua
família inteira, na hora.
Você a) aceita as condições do tigre, já que a floresta é
dele mesmo e não há alternativa, e que é melhor dar um filho, vez que outra,
para não perder a família inteira, e prosperar com o tempo; b) desconfia da
autodeclarada onipotência do tigre e pede para ver o seu registro de posse da
floresta, etc. e ainda lhe dá uma banana antes de sair correndo, ou: c) tenta
negociar de igual para igual com o tigre enquanto pensa em tentar a vida em
outra parte da floresta, dominada, quem sabe, por um tigre mais camarada. Quem
escolher a) é um resignado ao monetarismo ortodoxo, quem escolher b) é um
desenvolvimentista disposto a brigar por uma alternativa, quem escolher c) é um
sonhador.
Pechada - Luis Fernando Verissimo
O apelido foi instantâneo. No primeiro dia de aula, o aluno
novo já estava sendo chamado de "Gaúcho". Porque era gaúcho.
Recém-chegado do Rio Grande do Sul, com um sotaque carregado.
— Aí, Gaúcho!
— Fala, Gaúcho!
Perguntaram para a professora por que o Gaúcho falava
diferente. A professora explicou que cada região tinha seu idioma, mas que as
diferenças não eram tão grandes assim. Afinal, todos falavam português. Variava
a pronúncia, mas a língua era uma só. E os alunos não achavam formidável que
num país do tamanho do Brasil todos falassem a mesma língua, só com pequenas
variações?
— Mas o Gaúcho fala "tu"! — disse o gordo Jorge,
que era quem mais implicava com o novato.
— E fala certo — disse a professora. — Pode-se dizer
"tu" e pode-se dizer "você". Os dois estão certos. Os dois
são português.
O gordo Jorge fez cara de quem não se entregara.
Um dia o Gaúcho chegou tarde na aula e explicou para a
professora o que acontecera.
— O pai atravessou a sinaleira e pechou.
— O que?
— O pai. Atravessou a sinaleira e pechou.
A professora sorriu. Depois achou que não era caso para
sorrir. Afinal, o pai do menino atravessara uma sinaleira e pechara. Podia
estar, naquele momento, em algum hospital. Gravemente pechado. Com pedaços de
sinaleira sendo retirados do seu corpo.
— O que foi que ele disse, tia? — quis saber o gordo Jorge.
— Que o pai dele atravessou uma sinaleira e pechou.
— E o que é isso?
— Gaúcho... Quer dizer, Rodrigo: explique para a classe o
que aconteceu.
— Nós vinha...
— Nós vínhamos.
— Nós vínhamos de auto, o pai não viu a sinaleira fechada,
passou no vermelho e deu uma pechada noutro auto.
A professora varreu a classe com seu sorriso. Estava claro o
que acontecera? Ao mesmo tempo, procurava uma tradução para o relato do gaúcho.
Não podia admitir que não o entendera. Não com o gordo Jorge rindo daquele
jeito.
"Sinaleira", obviamente, era sinal, semáforo.
"Auto" era automóvel, carro. Mas "pechar" o que era? Bater,
claro. Mas de onde viera aquela estranha palavra? Só muitos dias depois a professora
descobriu que "pechar" vinha do espanhol e queria dizer bater com o
peito, e até lá teve que se esforçar para convencer o gordo Jorge de que era
mesmo brasileiro o que falava o novato. Que já ganhara outro apelido: Pechada.
— Aí, Pechada!
— Fala, Pechada!
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