domingo, 3 de setembro de 2017

Deu bandeira! - Marcos Piangers


Foi com algum constrangimento que falei sobre maconha com minha filha pela primeira vez. Ela tinha 10 anos. Não pelo tema, que aqui em casa achamos que é dever dos pais falar sobre tudo, mas pela situação. A menina estava fazendo um trabalho escolar sobre o México, cartolina com letras enfeitadas contando a história da nação, e bem grande no meio do cartaz tinha uma bandeira mexicana tirada da internet. 

Era a bandeira do México, sem dúvida, verde branca e vermelha, a águia com uma serpente no bico, ramos de louro embaixo, mas, na bandeira que minha filha pegou da internet, uma gigantesca folha de sete pontas aparecia em destaque na boca da águia. Se você procurar bandeira do México no Google Images vai encontrá-la, no meio de tantas outras bandeiras mexicanas caretas, a bandeira que minha filha escolheu. Achei esta mais enfeitada, me disse a pequena. Mas esta tem uma folha a mais, não é a bandeira correta, argumentei. É a mais bonita, ela me disse.

Bonita ou não, por alguns momentos pensei em deixar que a menina fizesse a apresentação na frente da turma. A professora, talvez, nem notasse. Minha filha iria mostrar as virtudes do batalhador povo mexicano, explicando o brasão de armas e o deus da guerra, e quando perguntada sobre a estranha folha no bico da água diria: "é só um enfeite". 

Mas sempre existe um garoto de 10 anos com um irmão mais velho, um garoto que já identificou um padrão nas roupas do irmão e perguntou o que era aquela planta na camiseta, no boné ou no caderno. Identificando a folha, denunciaria para toda a turma: "Maconha! Aquilo é maconha!". Minha filha diria que é apenas um enfeite que deixa a bandeira mais bonita, mas tenho certeza de que o mole impactaria sua nota.

"É uma planta ilegal que as pessoas fumam pra ficarem tipo bêbadas", disse pra ela. "Pegaria mal usar essa imagem no trabalho de classe", expliquei. "Mas porque as pessoas não bebem cerveja pra ficarem bêbadas?", perguntou Anita, a menina das argumentações intermináveis. "Algumas preferem fumar", expliquei, relembrando os colegas da faculdade. "Mas porque cerveja é legalizada e essa planta não?", me perguntou a menina. É uma boa pergunta, eu reconheço. Não sei porque eu insisto em responder às perguntas infantis. Crianças são especialistas em perguntar, eu sou um amador na arte de responder.

"Anita, simplesmente tira esta bandeira do México e substitui pela bandeira sem a folha", eu disse. "Por favor!" Substituição feita, trabalho apresentado, Anita voltou pra casa com uma nota oito. Foi prejudicada por alguns erros de português. Desatenção boba, você sabe como é. Papai aqui ficou tão atrapalhado com a bandeira que não deu atenção pro trajeto com g.

Desculpas pra Ciça, guisado de ovas - Antonio Prata



Eu marquei de jantar com a Ciça e não fui. Simplesmente esqueci. Fiquei aqui em casa assistindo a velhos DVDs do "Seinfeld" enquanto, lá no restaurante, sozinha, vendo fotos de gatos de desconhecidos no Instagram, minha amiga me amaldiçoava. Escrevo esta crônica como uma forma de reparação. Talvez, se eu declarar ao Brasil como admiro a Ciça, ela possa me perdoar. Admiro a Ciça, entre outras coisas, porque ela é a pessoa mais inteligente que eu conheço. Não inteligente do tipo que faz raiz cúbica de cabeça, mas inteligente tipo sábia. Vou contar só uma história e vocês vão entender.

A Ciça tem uma casa na praia. Na casa há um deque que avança mar adentro e diante do qual, toda manhã, nos feriados, aporta uma velha lancha de alumínio. É o Jorginho, pescador, que vai de casa em casa perguntando se o pessoal quer alguma coisa, passa o dia pescando e volta no fim da tarde com o que tiver conseguido pegar. Naquela manhã, já faz uns 15 anos, pedimos caranguejos. Lembro que era baratíssimo. Encomendamos duas dúzias.

 A ideia era ferver tudo e ficar naquele deque estendido entre o Atlântico e a Via Láctea bebendo cerveja e quebrando patas de caranguejo às pauladas até que os estômagos ou os bíceps pedissem arrego.

Eu disse que o Jorginho passava o dia pescando. É verdade –mas não é toda a verdade. Ele passava o dia pescando e bebendo cachaça, de modo que quando ele voltou lá pelas seis e dissemos que não aceitaríamos nenhum dos quase 50 caranguejos vivos porque estavam cheios de ovas, ele resmungou um "bobagem" não muito amoroso, começou a tirar os bichos do seu balaio e a jogar na nossa bacia.

"Jorginho", eu insisti, imbuído de um súbito ímpeto ecológico, "Se você pescar caranguejo com ova, logo não vai mais ter caranguejo pra você pescar". "Imagina, ó o tamanho desse mar", ele desdenhou e continuou a jogar caranguejos na nossa bacia. Ao perceber que não haveria diálogo, passei a jogar os caranguejos de volta no balaio dele. Mas o tempo que leva pra um paulistano estudante de ciências sociais pegar um caranguejo vivo dentro de uma bacia e jogar no balaio de um caiçara pescador é o tempo de um caiçara pescador pegar cinco caranguejos vivos dentro de um balaio e jogar na bacia do paulistano. Bacia cheia, Jorginho decreta, acariciando o cabo de uma peixeira: "É 30 real".

Quando eu já estava refletindo se seria heroico ou patético morrer defendendo a descendência de 24 caranguejos, a inteligência da Ciça, essa amiga querida e genial que eu cretinamente deixei mofando na mesa de um restaurante na última sexta, surge para me salvar.

"Jorginho, quanto você quer por todos os caranguejos?". "Todos?". "É. Todos. A gente vai fazer um guisado de ovas de caranguejo". "Hm. Cinquenta". A Ciça pagou, virou balaio e bacia no mar e os caranguejos saíram nadando felizes em direção às suas doulas e Pro Matres submarinas. Jorginho deu uma risada, disse "Cês são tudo louco!" e partiu no seu barquinho –não sem antes deixar de me esfaquear.


Acho que a Ciça tinha que fazer um TED com essa história. Acho que ela devia escrever um livro de autoajuda "Guisado de Ovas: identificando problemas e encontrando soluções". Acho que ela podia, ao menos, perdoar esta besta quadrada que não sabe nem sequer salvar caranguejos; o que dizer sobre cultivar amizades? 


O tridente - Luis Fernando Verissimo


Deu o que falar, um homem maduro (ou “podre”, como diria a mulher, quando pediu o divórcio) como ele namorando uma menininha. Mas como resistir, se a primeira coisa que a menininha disse para ele foi:
– Posso arruinar a sua vida?
Não “quer me namorar?”, ou “topas?” ou “tem horas aí, tio?”, mas:
– Posso arruinar a sua vida?
Ele teve que pensar muito numa resposta, quase um minuto. No fim disse:
– Arruinar, como?
E ela:
– A escolha é sua. Paramos por aqui, ou continuamos. Você diz “não” e eu vou embora, ou você diz “sim” e eu arruíno a sua vida.
*
Ela tinha o quê? Dezessete anos. Talvez menos. 
– Arruína, como?
– Ruína completa. Escândalo. Você sai de casa. Nós vamos morar juntos. Em um mês ou dois, eu provavelmente deixo você. Você vai atrás de mim, dá vexame. Talvez até me mate. Ou eu mato você. Mas pense no que seria esse mês, ou dois...
Ele pensou em dizer “isso é uma brincadeira?” Pensou em dizer “não faça isso com um velho”. Pensou em dizer “por que eu?”. Só não pensou em dizer “não”, para ela não ir embora. Os olhos dela eram de um castanho esverdeado. Ela insistiu:
– E então?
– Começando quando?
– Quando você quiser. Por mim, já começou.
Começou no carro dele, àquela tarde mesmo. Foi quando ele notou a pequena tatuagem que ela tinha na parte interna da coxa. Um tridente. Perguntou o que era aquilo. Ela disse:
– Nós todas temos uma igual.
– “Nós” quem?
Ela apenas sorriu.
– Vocês são o quê? Um clube? Uma irmandade? Uma seita? 
Ela só sorrindo.
– As menininhas que arruínam vidas, é isso?
Ela deu uma risada. Depois prendeu a cabeça dele entre suas coxas tostadas. 
*
Foram vistos. Naquela noite, a mulher dele já sabia. No dia seguinte, todo o mundo sabia. Foi um escândalo. A mulher pediu divórcio, em seguida. Ele não se enxergava, não? A menina podia ser sua filha! 
Ele foi morar com a menina. Largou o trabalho, largou tudo. Quando não estava com a menina no apartamento que lhe comprara estava por perto, controlando a vida dela, louco de medo de ser traído, desconfiando até de entregador de pizza.
No fim, ela declarou que iria deixá-lo. Quando viu, ele estava no chão, agarrado aos pés dela, implorando para que ela não fosse embora. Ela foi. Pisou na cabeça dele antes de sair.
*
Hoje, ele é uma ruína. Bebe, tem problemas circulatórios, mas, como largou o emprego, não tem dinheiro para se tratar. Uma ruína. Tinha durado pouco mais de um mês. Mas que mês e pouco, pensa ele, às vezes, e sorri com a lembrança. Que mês e pouco. E até hoje ele não sabe o que significa aquele tridente que ela tinha tatuado na parte interna da coxa. Que todas elas têm.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Hitchcockiana – Luis Fernando Verissimo


Ele gritou: — “Janela indiscreta”! Ela: — O quê?
— O filme que você está vendo. Posso ver a sua televisão daqui.
Os fundos dos dois apartamentos davam para o mesmo poço. Mesmo andar. Da área de serviço de um se via tudo do outro.
Ele:
— Adoro o Hitchcock.
Ela:
— Eu também.
Já tinham se visto no elevador. Ela morava com uma amiga que nunca aparecia.
— Qual é o seu Hitchcock favorito?
— Estou vendo “Janela indiscreta” pela décima vez. Mas acho que meu favorito é “Um corpo que cai”. O seu?
— “Os pássaros.”
Ela fez uma cara feia.
Dias depois se encontraram na loja de vídeos.
— Olha o que eu achei — disse ele.
Era “Notorius”. Aquele em que a Ingrid Bergman e o Cary Grant se encontram na Cinelândia e concordam que o Rio é muito chato. Ela mostrou o filme que tinha alugado. “Os pássaros.” Ia rever para ver se desta vez gostava.
— Você não precisa gostar só porque eu gosto.
-— É por boa vizinhança — disse ela, rindo.
Naquela noite conversaram, área de serviço a área de serviço. Ele disse que o “Notorius” tinha envelhecido um pouco. E ela, o que achara de “Os pássaros”?
— Sei não... — disse ela.
— Vamos ter que vê-lo juntos.
Foi na noite seguinte. Apartamento dela. A amiga, diplomaticamente, no seu quarto. Os dois na sala. “Os pássaros”, argumentou ele, é o filme metafísico do Hitchcock. O único filme de terror na história do cinema sem monstros e sem vilões. O vilão é o mundo, é a natureza reagindo ao homem, uma ordem pré-humana se...
Antes de ele terminar a frase já estavam se beijando. Nem chegaram a colocar o DVD.
Passaram a se encontrar quase todas as noites. Só viam Hitchcock.
Às vezes discutiam, “‘Topázio’ é um Hitchcock menor!”. “O quê? O quê?!”
Passavam alguns dias sem se ver. Aí ele batia na porta dela com uma raridade (“Sabotagem”, por exemplo) e faziam as pazes. Até que um dia a amiga saiu do quarto e ele viu que se tratava de uma loira irresistivelmente hitchcockiana, e se apaixonou, apesar de a loira dizer que seu filme favorito era “Ghost”.

Ele tentou explicar sua traição (“Eu sou coerente! Eu sou coerente!”), mas não adiantou. Foi morto com uma tesourada, como em “Disque M para matar”.





Notorious, 1947 - Hitchcock 


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Apelidos – Luis Fernando Verissimo

Minha tese é a seguinte: o que falta para qualquer relacionamento dar certo é o apelido. O homem e a mulher — ou o homem e o homem e a mulher e a mulher, ninguém aqui tem preconceito — devem providenciar apelidos um para o outro assim que o relacionamento der sinais de que vai ser sério. Não valem apelidos já existentes, de infância. Os dois devem se dar apelidos novos, só deles. Pichuchinha. Gongonzongo. Não importa que sejam ridículos.

O apelido é uma forma de você tomar posse de outra pessoa. Dos dois anularem suas identidades anteriores e assumirem outras, só deles. Por isso a troca de apelidos entre namorados deveria ter a solenidade de um batizado, sem padre nem testemunhas. Deveria ser um sacramento secreto, um ritual particular de apropriação mútua, para toda a vida. Uma união só é indissolúvel com apelidos. O único amor verdadeiro é o amor com apelido.

— Sei não. Romeu e Julieta...

— Não tiveram tempo de ser "Ro" e "Juju".

— O Duque e a Duquesa de Windsor?

— "Bobsky" e "Bubsky." Li em algum lugar.

O importante é não esperar para se darem apelidos. Achar que com o tempo os apelidos virão. É um erro pensar que uma união feliz produz apelidos carinhosos. É o contrário: apelidos carinhosos produzem uniões felizes.

Claro, há sempre o perigo de um apelido entre casais ser usado para chantagem. Um homem chamado de "Tiquinho" em segredo pela mulher jamais se separará dela com medo que ela espalhe o apelido e explique sua origem.

E há casos pungentes.

— Bem, posso lhe pedir um favor?

— Qual é?

— Em vez de "Chururuca"...

— Sim?

— Pode ser "Morenão"?

— "Morenão"?!

— Ninguém vai ficar sabendo.

— Mas você nem moreno é!

— Eu sei. Mas eu prefiro "Morenão".

— Tá bem.

Ela passaria a chamá-lo de "Morenão" quando estivessem sozinhos. Mas com uma ressalva:


— Sem efeito retroativo.


                                       Só Levando - Fria é apelido


A Legítima e A Outra - Luis Fernando Verissimo

   A Outra tanto fez que conseguiu entrar na UTI, onde encontrou a legítima agarrada à mão dele. Deitado de barriga para cima, com tubos e fios saindo para todos os lados e conectando-o à aparelhagem em volta, ele parecia um avião recém-pousado depois de uma longa viagem. Um Boeing com as turbinas apagadas, mantido vivo pelo pessoal da terra.
   - Querido! - gritou a Outra, procurando uma parte dele que também pudesse agarrar.
   A Legítima nem piscou.
   - O que você fez com ele? - exigiu a Outra.
   A Legítima nada.
   - Eu sabia que cedo ou tarde você o mataria. - acusou a Outra.
   A Legítima, uma pedra.
   - Só comigo ele tinha o carinho de que precisava. Você fez isso com ele! Você! Com sua frieza, com sua maldade, com sua...
   Então a Legítima falou:
   - Nós estávamos fazendo amor.
   A Outra recuou como se tivesse levado um choque.
   - Mentira!
   A enfermeira fez "sssh", mas a Outra falou ainda mais alto.
   - MENTIRA!
   - Ele morreu nos meus braços - disse a Legítima no mesmo tom triunfal.
   - Ele não está morto - corrigiu a enfremeira.
   - Morreu nos meus braços, está ouvindo?
   - Despeito! Despeito! Ele só fazia amor comigo.
   - Sabe quais foram as suas últimas palavras?
   A Outra tapou os ouvidos.
   - Eu não quero ouvir!
   - Suas últimas palavras foram "Agora cruza!".
   - Não!
   - Sim! Sim! Nós estávamos fazendo o Alicate!
   - NÃO!
   Um médico apareceu e ameaçou retirar as duas de perto do paciente. Elas não lhe deram atenção. A Outra soluçava.
   - Não, O Alicate não!
   - Sim! Tudo o que ele fazia com você, ele fazia em casa. Experimentava em você para fazer comigo.
   A Outra interrompeu os soluços para espiar por entre os dedos que tapavam seu rosto e perguntar, incrédula:
   - A Borboleta também?
   - A Borboleta, A Chinesa Assoviadora, o Baile dos Cossacos...
   - NÃO!
   - Sssshh!!
   - Tudo. Tudo! Você era um campo de provas. Eu era pra valer. Com você era treino. Comigo era pelos pontos!
   Então a Outra gritou uma palavra indecifrável e avançou num dos aparelhos que cercavam a cama, tentando arrancar os fios, até ser controlada pelo médico e a enfermeira e empurrada para fora do cubículo. Da porta a Outra ainda conseguiu gritar:
   - O Salgueiro Despencado ele não fazia com você!
   - Fazia! Fazia!
   Perfilada ao lado da cama, a Legítima respirou fundo. Depois, sentou-se. Ia pegar a mão dele, mas recuou. Em vez disso, cochichou no seu ouvido.
   - Joca?
   Insistiu:
   - Joca?
   Depois:
   - Como era o Salgueiro Despencado?
   Depois:
   - Seu safado. Como era o Salgueiro Despencado?

   E o Boeing quieto.


Amely - Priscila Vieira

GPS / Dois Destinos - Luis Fernando Verissimo

Amely - Priscila Vieira


GPS

– Em 700 metros, vire à direita, e logo em seguida à esquerda.

Quando o homem se enganava e não seguia suas instruções, a voz não perdia a calma. Dava novas instruções para corrigir o erro, pausadamente e sem fazer comentários. E o homem nunca deixava de se admirar com aquilo: de algum lugar do espaço um satélite o seguia, e uma voz etérea – Como? Saindo de onde? – lhe dizia o que fazer, baseada na informação do satélite. E o satélite via tudo, e nunca errava. Era como um deus em órbita estacionária da Terra.
Mas um dia o homem discordou do satélite. Depois de ouvir as instruções da voz, disse:

– Não mesmo.

E ouviu a voz dizer:

– O quê?

– Esta estrada eu conheço bem, e sua direção não está certa – disse o homem, antes de se dar conta que a voz estava dialogando com ele. A voz estava dialogando com ele!

– Vai por mim – disse a voz.

E o homem, apavorado (“Devo estar ficando louco”, pensou), obedeceu, e descobriu que o satélite tinha razão. O caminho indicado era mais curto do que o que ele conhecia. E quando chegaram ao destino desejado mais cedo, pelo atalho, a voz disse:

– Viu só?

*

O homem e a voz passaram a conversar. Ficaram íntimos. Agora, a voz terminava cada instrução com um “querido”. E tornou-se confidente do homem, que lhe contava sua vida e pedia sua orientação. Era muito sozinho. Gostava de uma moça, mas ela ainda não sabia. Ele deveria declarar-se?

– Declare-se – mandou a voz.

– Será?

– Vai por mim.

Ele estava descontente no trabalho. Tinham lhe oferecido outro cargo, em que não precisaria viajar tanto. Deveria aceitar? Sim, disse a voz. Ele estava ficando estressado com tantas horas sozinho nas estradas.

Noutro dia ele declarou que sua vida era uma porcaria e ele não queria mais viver.

– Vire para a esquerda, agora! – ordenou a voz.

– Peraí. Se eu virar para a esquerda vou invadir a outra pista.

– E ser amassado por uma jamanta, certo. Não é isso que você quer?

Depois a voz do GPS mandou:

– Daqui a 200 metros, vire para a direita.

– Onde nós estamos indo?

– Um hospital psiquiátrico que eu conheço. Esta nossa conversa é obviamente uma alucinação sua. Você precisa de tratamento.

– Você acha?

– Vai por mim.


Dois Destinos
Você nasceu num vilarejo da África Equatorial. Não importa o seu nome, você é uma entre milhares. Além das outras desgraças que a esperavam, você nasceu mulher. Sobreviver ao parto já foi uma vitória sobre as estatísticas. Chegar viva à sua idade sem sofrer qualquer tipo de mutilação foi um milagre. Sua mãe morreu de uma epidemia, você mal a conheceu. Seu pai você nunca soube quem foi. E seu destino está fixado nas estrelas.

Deve haver uma palavra na sua língua para “destino”. Talvez seja a mesma palavra para “danação”. Sua biografia já foi decidida, antes de você nascer. Quem a decidiu você também nunca soube quem foi.
Seu destino está fixado nas estrelas – mas as estrelas se movem. Não estão fixadas no mesmo lugar todas as noites. E algumas fogem. Você vê os riscos que deixam no céu as estrelas que fogem. E você decide fugir também. Fugir do seu destino. Fugir da danação. É pouco provável que exista o termo “livre-arbítrio” na sua língua. Você o descobre em você. Você inventa sua própria liberdade.
E você foge da sua biografia. Com outros do seu vilarejo, caminha para o Norte, para o Mediterrâneo. Não morre no caminho – outro milagre! Não morre sufocada no barco abarrotado de fugitivos que atravessa o Mediterrâneo. Não morre afogada antes de chegar ao seu outro destino, o destino que você escolheu. E começa outra biografia.
Ou:
Você nasce numa cidade chamada Londres. Seu nome não só importa como é sujeito de uma especulação nacional, até ser escolhido. Sua mãe é linda, seu pai é rico e tem emprego garantido, sua foto provoca êxtases, você já é uma celebridade internacional. Ah, e um detalhe: você é a quarta na linha de sucessão ao trono da Inglaterra. Dependendo da disposição das estrelas, pode acabar Rainha. Nada lhe faltará.
Mas, mesmo que queira, jamais poderá fugir da biografia que prepararam para você. Danação.





Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...