sábado, 25 de setembro de 2021

Cancelamentos possíveis - Antonio Prata

 J. foi o primeiro antropólogo a traduzir os fundamentais cânticos fúnebres da língua Baruna. Num debate entre J. e o pajé Wa’am’biipi, parte da comemoração pela demarcação das terras Baruna —vitória para a qual os trabalhos e o ativismo do antropólogo não podem ser desconsiderados—, alguém gritou da plateia: “usurpador!”. Tratava-se de M., membro da bancada ativista de São Joaquim D´Oeste. Segundo M., receber os louros pela tradução de uma obra indígena e comemorar a demarcação ao lado do pajé fazia de J. a versão intelectual dos Pizarros, dos Cortéses, dos Pedro Álvares Cabrais, um “neoextrativista dos bens culturais ameríndios”.

Em alguns meses, a campanha “antitradução”, corrente segundo a qual apenas um membro de sua própria etnia, aprendendo uma língua alheia, poderia verter para ela seu idioma, levou J. de herói a facínora. J. foi afastado da faculdade. Seus artigos encomendados por publicações acadêmicas foram cancelados.

Com o caso J., M. acabou ficando bombadinho nas redes e foi filmado numa praça batendo boca com a namorada. Surgiu então uma campanha barulhenta exigindo a expulsão de M. da bancada ativista de São Joaquim D´Oeste, pois tratava-se de um “machistx em pelx dx cordeirx”. “Trata as mulheres com a mesma opressão colonialista que finge combater! Lixo humano!”.

M. e a namorada, com quem tinha feito as pazes na mesma tarde, na mesma praça, acharam que seria uma boa estratégia divulgar a foto dos dois num sex-shop, segurando uma cinta peniana, com a qual, revelariam, ela costumava penetrá-lo. Provariam, assim, o quanto M. estava, “através da desdomesticação heteronormativa colo-colonial”, engajado “na subversão dos afetos patriarcais”.


O brinquedo erótico, porém, tinha tiras de couro e suscitou a ira de ativistas veganos, que lançaram nas redes montagens de imagens do casal sobrepostas a de bois ensanguentados em matadouros, trespassados por enormes cintas penianas. Uma semana depois, toda a bancada ativista de São Joaquim D´oeste renunciou ao mandato —dando mais espaço, aliás, para a vereança ruralista, dona dos abatedouros.

Nas redes, os ruralistas chamaram M. de homossexual. M. disse que, se fosse, seria feliz, pois na Grécia clássica e em Roma, por exemplo, relações sexuais entre homens não eram nenhuma vergonha, eram motivo de orgulho.

M. certamente não estava à par das últimas polêmicas sobre o período clássico. Como era comum, àquela época, homens feitos terem relações sexuais com mancebos, Sócrates, Platão, Aristóteles, Ésquilo, Sófocles, Aristófanes e companhia não passavam de pedófilos, abusando de menores “no gozo perverso do privilégio gerontocrático”. Gregos e latinos foram cancelados.

Há quem diga que as únicas obras dignas de mérito em toda a história do pensamento são os livros da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Uma tendência mais recente, contudo, contesta Chimamanda ferozmente, por ter se mudado para os Estados Unidos e escrever em inglês, não em uma das 510 línguas atualmente faladas no país africano. “Feminista e antirracista sendo filha de professor universitário e ganhando em dólar, é fácil”, escreveu um membro do movimento #fuckfakeafrican —em seu iPhone, nos Jardins. “Mas e as mulheres que ficaram na Nigéria? As que não têm o auxílio imperialista de uma Chimamanda? O palanque etnocêntrico de um J.? O privilégio machista e especista de um M.? Todo o lobby branco dos gregos e latinos? Quem as lê? Quem as enxerga, sequer?”.

A. escrevia na Folha de S.Paulo, até que.


ilustração: Adams Carvalho



Só os filósofos de língua portuguesa podem pensar em coisíssima nenhuma - Ricardo Araújo Pereira

 

Dizem que Tales de Mileto estava um dia tão embrenhado a olhar para o céu, observando as estrelas, que acabou por cair num poço. Platão acrescenta que uma bela e espirituosa criada da Trácia riu dele e o fez notar que a sua ambição de conhecer as coisas do céu o impediu de ver as coisas que tinha mesmo debaixo do nariz.

 

Não sei em que medida é que o fato de a moça ser bela, espirituosa e criada oriunda da Trácia acrescenta peso à humilhação de Tales, mas Platão achou importante que tivéssemos essas informações. Talvez seja mais humilhante fazer figura de bobo à frente de pessoas belas. Pode ser isso.

 

Costuma dizer-se que, quando o sábio aponta para a Lua, o louco olha para o dedo. O que me interessa é que o autor dessa observação olhou para todo o lado: para o sábio, para a Lua, para o louco e para o dedo. O que quer dizer que olhou através dos seus olhos (porque viu o sábio e o louco), e olhou através dos olhos do sábio e através dos olhos do louco (porque também viu a Lua, como o primeiro, e também viu o dedo, como o segundo). Na história de Platão, Tales só viu as estrelas. A criada viu Tales, as estrelas e o poço. Ela era uma filósofa melhor.

 

Heidegger recupera essa história no seu livro "O que É Uma Coisa?", cujo título dá vontade de rir, pelo menos até a gente começar a ler, altura em que toda a alegria nos abandona.

 

O livro é uma investigação sobre a substância das coisas, a nossa relação com elas, e o modo como a nossa relação com elas pode influenciar a sua substância. Ou seja, é chato (eu sou um leitor de filosofia muito sofisticado).

 

Mas todas aquelas reflexões sobre as coisas fizeram-me lembrar aquela expressão que os falantes de português usam: coisíssima nenhuma. E afastei-me um pouco do pensamento de Heidegger para me maravilhar com a improbabilidade dessa expressão.

 

Como assim, coisíssima? Coisa é um substantivo. Quem teve a ideia de o superlativar? E então concluí que qualquer filósofo pode dedicar-se a pensar as coisas. Mas só os filósofos de língua portuguesa podem ser bem-sucedidos na difícil, quase impossível tarefa de pensar em coisíssima nenhuma.

 

Ilustração: Luiza Pannunzio



segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Encontros - Luis Fernando Verissimo



No outro dia, me encontrei com Adolf Hitler. Ele parecia bem, para um homem com 125 anos. E feliz. Talvez fosse o clima de Itatiaia, onde ele veio morar depois da guerra e onde tem uma pequena pousada no estilo bávaro. Perguntei a que ele atribuía sua jovialidade, e ele respondeu: “A uma vida bem vivida”. E continuou:

– Fiz tudo o que me propus fazer, na vida. Sou um homem realizado. Um vitorioso.
Eu não quis ser indelicado, mas era preciso lembrá-lo:
– A Alemanha perdeu a guerra, Adolf.
– Ach, a Alemanha. EU ganhei. Consegui tudo o que queria. Me vinguei!
Não entendi. Ele se vingara dos aliados, que tinham vencido a I Guerra Mundial e imposto pesados castigos à Alemanha derrotada? Se vingara dos seus inimigos políticos, que tinham tentado impedir sua ascensão ao poder? Dos judeus? Se vingara de quem, exatamente?
– Da Academia de Artes de Viena, que não me aceitou. Sabe o que eles disseram das minhas pinturas quando eu quis me matricular? Que eram muito água com açúcar. Água com açúcar! Jurei, então, que me vingaria. Que minha arte ainda iria espantá-los. Que eles iriam ver.
Depois de tanto tempo, Hitler ainda se entusiasmava com a lembrança do que fizera. Mesmo com seus 125 anos, dava pulinhos de satisfação. As pessoas não tinham entendido que a destruição da Alemanha e de boa parte da Europa num holocausto de fogo era o seu objetivo: era a sua obra.
A cada notícia de uma cidade alemã arrasada por bombardeios, a cada nova barbaridade, ele dava gargalhadas. Seu único sentimento ao ver Berlim totalmente em ruínas, antes de fugir para o Brasil, fora o de não poder assinar o quadro como se assina uma pintura. Ele conseguira. Um fim apoteótico, wagneriano. Queria ver a Academia chamar aquilo de água com açúcar!
Quando nos despedimos, ele me convidou a visitar sua pousada, onde serviam um apfelstrudel respeitável.
No mesmo dia (que dia!), dei com o Martin Luther King na rua. Não pude me controlar a exclamei:
– Negrão! Ele não gostou. – What?
– Desculpe! É um hábito brasileiro... “Negrão” é um termo carinhoso. Quer dizer, carinhoso não. É... comum. A gente diz sem pensar. É como chamar negro de crioulo. Não é desrespeito, entende? Ou é mas não é. A gente também chama crioulo – quer dizer, desculpe, afrodescendente – de negrinho, mesmo que ele tenha dois metros de altura. Não é racismo, é... é...
O King só me olhava. Finalmente disse: – É racismo, sim.
Ele começou a se afastar. Eu ainda gritei: – Mas é inconsciente! Não adiantou. Ele nem se virou.



Crônica publicada em 07/09/2014

domingo, 5 de setembro de 2021

Canção do exílio - Antonio Prata

 

Chuva no mar. Gota grossa na nuca debaixo do chapéu de sol. Cheiro de Sundown e farelo de polvilho no fundo da mochila. Preta, preta, pretinha. Vai, malandra. Vai-Vai. Treze de Maio. Joaquim Nabuco, Manuel Bandeira, Chico Science e Nação Zumbi. Manamauê, auêia, auê. Minha terra tem primores,/ Que tais não encontro eu cá;/ Em cismar —sozinho, à noite—/ Mais prazer encontro eu lá.

 

Senhorinhas fazendo hidroginástica no SESC. A moça da bilheteria com dreads roxos. As meninas com joelheira de vôlei quase atropelam o japonês do violoncelo. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A passagem por baixo da Consolação a caminho do Belas Artes. O passe do Pelé pro Carlos Alberto na final da Copa de 70. O texto do Pasolini sobre o futebol prosa dos europeus versus o futebol poesia dos brasileiros. O futebol poesia dos brasileiros. E por falar em beleza/ Onde anda a canção?/ Que se ouvia na noite/ Dos bares de então/ Onde a gente ficava/ Onde a gente se amava/ Em total solidão.

 

Embrapa, Lygia Clark, Magalu, Artur Avila, Grupo Corpo, Santos Dumont, Embraer, família Gracie, IMPA (Instituto de Matemática Pura e aplicada), INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País), ASPONE (Assessor de Porra Nenhuma), camarão VG (Verdadeiramente Grande), CB (Sangue Bom).

 

Clarice Lispector, Karen Jonz, Ingrid Silva, Marta, Mara Tara, Rê Bordosa, Laerte, Leila Diniz, Iemanjá, Oxum, Iansã. Quem é você que não sabe o que diz?/ Meu Deus do Céu, que palpite infeliz!/ Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz/ Que sempre souberam muito bem/ Que a Vila Não quer abafar ninguém,/ Só quer mostrar que faz samba também.

 

Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Tarsila, Oswald, Mário e toda antropofagia. Sócrates, Casagrande, Wladimir e toda a Democracia. A cabeçada do Guerrero contra o Chelsea em Yokohama. As faixas nas arquibancadas: Fiel Vila Matilde, Fiel Jardim ngela, Fiel Itaquaquecetuba. Mano Brown. Mestre Pastinha. Caetano Veloso. Mãe Menininha. Grande Otelo. Zeca Pagodinho. Paulo Freire. Zilda Arns. Dorothy Stang. Marielle. Chico Mendes.

 

O pra e não o para. O “já é” e não o “sim, senhor”. A pororoca e não as margens plácidas. O erudito, sim, o experimental, sim, o popular, sim, o axé, sim, o pagode, sim, o funk, sim, o sertanejo, sim, Hermeto Pascoal, sim —coragem grande é poder dizer sim.

 

Água mole em pedra dura. Trinca. Trepadeira. Drible. Contratempo. O que brota apesar de. O que cresce muito embora. O que se enxerga a contrapelo. Tudo o que já foi motivo pra cadeia por vadiagem ou subversão. Tudo o que já foi construção e não é ruína. A missão francesa fundando a USP. Movimento Armorial. Aterro, Artigas. Brasília. Refavela. A seleção de 82. Diretas Já! A promessa do encontro entre o morro e o asfalto numa segunda abolição. A Amazônia de pé e garotas sentadas sob a marquise do Masp, sem medo, às seis horas de um domingo, vendo o sol nascer lá pros lados do Tatuapé.

 

Vou voltar/ Sei que ainda vou voltar/ Vou deitar à sombra/ De uma palmeira/ Que já não há/ Colher a flor/ Que já não dá/ E algum amor/ Talvez possa espantar/ As noites que eu não queria/ E anunciar o dia/ Vou voltar/ Sei que ainda vou voltar/ Não permita Deus que eu morra/ Sem que eu volte para lá.

 

Ilustração:  Adams Carvalho





segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Latir, latir, latir - Antonio Prata

 


Mais do que o cheiro da chuva no quintal, o ipê amarelo do vizinho ou as maritacas na amoreira, o que me pegou ao mudar para uma casa foram os sons da vizinhança. Uma porta range. Uma panela de pressão apita. Um bebê chora. Alguém varrendo às vezes lembra um afoxé endiabrado num baião do Gil, outras a vassourinha langorosa num jazz do Chet Baker. Pios, claro, sempre —se é verdade que os pássaros produzem sons para atrair parceiros, a vida deles é um Tinder ininterrupto. Todo domingo de manhã uma pessoa estuda tuba. Está na mesma lição desde maio, mas não me incomodo, pelo contrário: os sofridos fom fum fem fam fum me reafirmam que a vida segue, que apesar dos pesares, a poucas dezenas de metros da minha janela alguém se dedica a algo que não tem nada a ver com mentiras, queimadas, fuzis.

 

Os sons que mais me interessam nesta nova vida ao rés do chão, no entanto, não vêm de humanos: são os latidos. Eu diria que estou cercado por uma matilha, pois embora estejam separados por muros e talvez não se conheçam pessoalmente, fica evidente pelos latidos a intimidade da turma. Tô aqui trabalhando, de repente um puxa o coro e todos seguem, empolgadaços, numa conference-call. Latem, latem, latem, como se não houvesse amanhã, aí a coisa vai esfriando, arrefecendo e voltam todos para seus silenciosos afazeres.

 

As pautas mudam. Há momentos em que a indignação é patente: um salsicha lá da ponta do quarteirão começa a ganir bravíssimo para —quem sabe?— um carteiro e todos o acompanham, solidários. É o panelaço deles. Posso ouvir por entre as rosnadas: #FORACARTEIRO, #VOUMORDERSEDEX #XIXINACONTADELUZ. Outras vezes eles parecem estar se divertindo. Como se um latisse “Vai, Curintchaaaa!” e os outros seguissem com “El el el, bulldog da Fiel!”, “Aqui é vira-lata, porraaaa!”.

 

Ontem eu estava lendo “O corpo encantado das ruas”, do grande Luiz Antonio Simas. Fluente na língua dos homens e dos deuses, passeando entre a Gamboa e o Daomé, o historiador falava sobre as muitas entidades que moram nas ruas da cidade. Exu, Zé Pilintra, Legba: “inimigo do conforto, vez por outra desarticula tudo para estabelecer a necessidade de fundar a experiência em bases diferentes”. Eram umas duas da manhã, eu lia sobre tais deuses que fomentam a vida bagunçando os coretos e a cachorrada começou a uivar, como lobos pra lua num desenho animado. “Ó eles aí!”, pensei na hora. Exu em prédio não deve dar conta do serviço. Um só pra vinte, quarenta apartamentos. Dilui. Em casa, os ouvimos com mais clareza.

 

Antes, eu não via muita graça em cachorro. Achava-os de uma fidelidade, perdão, canina. Puxa-sacos de uma espécie que, convenhamos, não merece respeito. Mas quando eles começam a latir em uníssono às duas da manhã, mandando às favas a submissão, lembram-me mais uma turma de skatistas, uns punks, uns Novos Baianos, uns Monty Pythons. Com a cachorrada não tem lei do Psiu, criança dormindo, manhã, tarde, noite, doutor, madame ou general. Se não são os cachorros também entidades encantadas das ruas, meu caro Simas, certamente têm parte com.

 

Eu nunca tive cachorro. Na infância, meus pais não deixaram, depois de adulto eu é que não quis –já basta alimentar, lavar, e limpar a mim mesmo e a duas crianças. Agora, no meio desta madrugada interminável, minha vontade não é nem de comprar um cachorro, mas de me juntar a eles: sair no quintal e latir, latir, latir, como se não houvesse amanhã. Até porque, pelo andar da carruagem, talvez não haja.

Ilustração:  Adams Carvalho




domingo, 22 de agosto de 2021

Papai, por que você não é hippie? – Antonio Prata

 

Após dois anos quase sem sair de casa, seis anos depois de vir ao mundo, no fim de uma trilha em Ubatuba, meu filho viu pela primeira vez um hippie. Era um hippie de quadrinho do Crumb: pele curtida pelo sol, tatuagens, dreads trabalhados na parafina, regata tie dye, chinelão de couro, brinco de pena, “símbalo da paz dependurado no pescoço”, como diria outro bicho-grilo, uma canga com bijuterias, maricas de bambu e duendes de Durepoxi.

 

Depois dos dinossauros, o que mais interessa ao Dani é pedra. Tem sacos cheios de pequenas rochas colhidas em todos os lugares que já visitamos, da brita da obra da esquina ao quartzito dos Andes —e eu só sei o que é um “quartzito” porque ele pediu de aniversário um livro sobre pedras, que lemos noite após noite, desde fevereiro. E o que o hippie tem na canga? Bijuterias feitas com jaspe verde, vermelha, turmalina, ágata, selenita, olho de tigre —paro por aqui, pois já tô abusando do “Pequeno Livro das Rochas e Minerais”.

 

Embasbacado, meu filho encara o hippie. Sabia da existência de maestros e palhaços, esquimós e astronautas, freiras e corcundas, mas aquele, de fato, é um tipo muito particular, meio xamã, meio medusa, saído de algum desenho animado japonês situado num futuro tribal pós-apocalíptico. Parece do mal, mas é do bem —e tem a coleção de pedras mais sensacional já vista em seis anos sobre a Terra.

 

No carro, depois de me convencer a comprar um colar para a mãe, Dani me pergunta: “Aquele homem é o quê?” “Um hippie.” “O que é um hippie?” É mais fácil responder sobre rochas sedimentares, mas vamos lá: “Hippie é um tipo de pessoa cabeluda que gosta muito da natureza, é contra emprego, acha que todo mundo deveria namorar um monte de gente, sem casar, veste roupas confortáveis, chinelo, jamais terno e gravata, gosta de música e tem um lema: paz e amor”. “Eles são um povo?” “Não, são um estilo de vida. O cara, tipo, resolve ser hippie e vira hippie.”

 

“Tem que estudar pra ser hippie?”. “Não. Quer dizer, tudo na vida, pra fazer direito, tem que estudar. Pra ser um hippie bom mesmo tem que ler vários livros, ouvir muitas músicas, aprender a fazer artesanato, dread, tocar algum instrumento. Mas não tem, tipo, escola pra hippie.”

 

Vejo pelo retrovisor a curiosidade sendo engolfada pela indignação: “Papai, por que você não é hippie?!”. Com ciúmes, na defensiva, digo que sou um pouco hippie, que tenho muitos discos e livros de hippie, que na adolescência eu tinha um cabelão comprido e tocava bongô, mas não vou muito longe: “Você não é nada hippie, papai! Você raspa seu cabelo e a barba com máquina, trabalha muito no seu emprego, é casado com a mamãe, usou terno e gravata no casamento da tia Maria e quando você fica bravo com a gente não é nada disso aí de amor e paz”.

 

Derrotado, balbucio que as coisas não são tão simples. Que se eu fosse hippie não teria dinheiro pra pagar escola nem pra comprar dinossauro de brinquedo, que namorar todo mundo é trabalhoso e solitário, que tem outras formas de lutar pela paz e o amor, mas vejo no olhar do meu filho que, comparado à figura áurea que ele acaba de conhecer, meu hippismo é puro ouro de tolo (pirita ou dissulfeto de ferro, não que alguém tenha perguntado).

 

“Eu vou ser hippie”, declara o Daniel. Então levanta a camiseta, infla a barriga e encara a tatuagem, quer dizer, o decalque encarquilhado que dias antes havia sido um tiranossauro rex verde limão. “Já é um começo”, digo, ao que ele me responde com orgulho e desdém: “Eu sei".

 

Ilustração de Adams Carvalho




sexta-feira, 30 de julho de 2021

O invencível bate-estacas? - Ignácio de Loyola Brandão

 bonde na Avenida São João




Meu pai ao voltar do escritório comunicou: “Este mês vocês irão comigo para São Paulo”. De tempos em tempos ele participava na capital de uma reunião com chefes de Contadoria das ferrovias brasileiras. O aviso era recebido com alvoroço por mim e meu irmão Luis Gonzaga. Aquela era uma viagem encantada. Só quem nasceu no interior viveu a experiência arrepiante de chegar de trem na Estação da Luz, passando por baixo da rede de fios elétricos de uma super aranha acima de nossas cabeças. Havia a expectativa na capital de outra viagem dentro da viagem. Pegar o bonde Penha-Lapa, ida e volta, o que nos ocupava meia-tarde atravessando a cidade. 

As reuniões dos chefes eram na Estação da Sorocabana, e Luis e eu ficávamos em um jardim interno à espera até o final, quando meu pai nos apanhava para almoçar no Hotel das Bandeiras, ou do Giuseppino, na Rua da Conceição. O prediozinho foi sacrificado pelo metrô. Ah, aquele jardim hoje é a Sala São Paulo. No restaurante, sentávamos e começava o desfile de travessinhas, uma com ovo, outras com bife, linguiça, abobrinha, berinjela, jiló, chuchu, ervilhas, couve, saladinha, arroz, feijão, macarrão. Também visitaríamos a Catedral da Sé em construção, e eu achava inacreditável ver um bonde que entrava na igreja com material de construção. 

Maravilha das maravilhas sempre foi o anúncio luminoso de um café (seria o Paraventi?), em cima do prédio da Light, vizinho ao Mappin. Em uma animação (pensem, eram os anos 1940), o bule se inclinava e derramava o líquido na xícara. Para mim, havia um mistério. Por que as lojas mantinham luzes acesas durante o dia? No interior, luzes só eram acesas depois de seis da tarde. Isso significava o que era para mim a cidade grande, luzes acesas durante o dia. 

Mas São Paulo era a cidade dos prédios, dos arranha-céus. Araraquara não tinha ainda nenhum. Meu pai, Luis e eu nos instalávamos na calçada, do outro lado da rua, a contemplar elevadores de madeira periclitantes que subiam e desciam, levando carrinhos com pedras, concreto, cal, tijolos. Víamos pedreiros se equilibrando nos andaimes sem nenhum medo. Homens dos ares, dizíamos arrepiados. Os prédios subiam lentos, muitas vezes ao voltarmos, meses depois, eles tinham crescido pouco. Para tudo há um ritmo, dizia seu Totó, não adianta ter pressa ou o prédio cai. Não existiam ainda os caminhões de concreto com betoneiras girando, girando. Assim se constrói uma grande cidade, murmurava meu pai, aquilo era progresso.

Em 1957 vim morar aqui. Os prédios subiam velozes. O encantamento continuava, havia cinemas, teatros, livrarias, eu trabalhava em jornal, tinha um único medo, ser demitido, mas se você perdia a vaga, em uma semana estava empregado de novo. Agora, não tenho mais medo de demissões, me demiti, aposentei, e trabalho mais do que antes. Continuei fascinado pelas construções, cada vez mais velozes. Um dia era um buraco, vinha o bate-estacas ruidoso, pram, bum, tcham, tchum, logo anunciavam o apartamento decorado, abriam o showroom. Piscou um dia, no dia seguinte edifício pronto. Passei por muitas fases da história da construção. Agora chegamos aos tempos de aceleração total. Um tapume, um buraco, um andar hoje, outro amanhã, no final da semana tem mais não sei quantos caminhões de todos os tipos. Concreteiras mandam o cimento armado por tubos a alturas inacreditáveis. 

Porém, há um mistério indecifrável. Pensem bem. Vejam se não tenho razão. A revolução industrial avançou, veio a tecnologia de ponta, a informática, o celular, o computador, os robôs, a descoberta do DNA, implantes substituem as dentaduras, transplantam-se corações, fígados, rins, um dia transplantarão almas. O homem foi à lua, a Marte, os trens (europeus, claro) correm a 500 por hora, usa-se a energia solar, criaram-se os games, a internet, o Twitter, a revolução digital, as fake news, os caminhões gigantescos, os treminhões, o radar, o laser, a corrupção.

No entanto, quem me explica, esclarece, justifica, encontra uma única razão para a existência dos bate-estacas ruidosos como tiros de canhão que continuam a nos atormentar desde 7 da manhã? A cada pancada, vibram os edifícios todos em volta. Há silenciadores de armas, mas não se criou um para o bate-estacas. De Newton a Darwin, de Niels Bohr a Pauling, de Einstein a Fleming a Osvaldo Cruz, de Madame Curie e Steve Jobs, de Salk a Mendel, sempre tivemos pessoas querendo o bem-estar da humanidade. Mas nenhum se colocou frente a esse tormento primitivo, rompedor de tímpanos e mentes. Mistérios.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...