Toda família tem um médico, um padre e um louco. Tivemos os nossos, ainda que fajutos. Nosso médico, não; foi grande clínico e cuidou de nós gratuitamente durante toda a sua vida. Nosso padre não chegou a terminar o seminário e provavelmente esqueceu de rezar por nós criando os seus cinco filhos. E nosso louco comportou-se muito bem, trabalhando na pacata prefeitura de sua pequena cidade. Era meu tio Silas.
Meu nome é Emanuel. Há tempos, eu pensava em criar um blog sobre leitura mas não encontrava o nome. "Crônicas Recolhidas e Cia Ilimitada" é, por enquanto, o nome provisório do blog. Além das crônicas, artigos de opinião, contos e poemas terão seu espaço aqui. Sempre que possível, além do texto, serão incluídos links e/ou imagens relativos ao tema.
quarta-feira, 3 de julho de 2024
Tio Silas e o pequeno fotógrafo - Denise Fraga
segunda-feira, 27 de maio de 2024
No aeroporto - Antonio Prata
Sete meninas altas, de uniforme esportivo, passam à minha frente. Tento ler nas mochilas, perto do logo do Banco do Brasil, umas letrinhas que devem revelar a modalidade. Não consigo, elas se movem rápido, com a pressa de seus dezesseis ou dezoito anos. Penso: é um pouco irônico os jovens terem pressa e os velhos, paciência. Não deveria ser o contrário?
Acho que elas jogam vôlei, são todas altas, mas não tão altas como as profissionais. Imagino-as daqui a algumas décadas —advogadas, veterinárias, engenheiras— contando para amigos, namoradas ou namorados surpresos, "sim, eu era federada, cheguei a ficar em terceiro no sub-17 paulista".
Dois homens bebem cerveja e comem x-burgers. São nove e quarenta e sete da manhã —fora do aeroporto. Ali dentro o tempo é outro. Quem sabe eles estejam no fuso da Alemanha? De Kiribati? Ou talvez seja apenas a licenciosidade concedida pela proximidade da morte. (Uma proximidade apenas imaginada, claro, é muito mais perigoso andar de carro do que de avião, mas vai explicar isso para nossos cérebros que se formaram durante milhares de anos com os pés no chão.).
Não só a gula decola nos aeroportos. Um cara de uns 30 anos, tênis Vert e coletinho estilo XP, com a segurança de quem acaba de receber 10 milhões de investimento em sua startup, troca olhares com uma moça mais ou menos da mesma idade, calça preta, paletó e salto alto, com a segurança de quem acaba de aportar 20 milhões numa startup. (Gostaria de obter dados comparando as vendas de camisinha e Viagra nas farmácias dos aeroportos às das existentes fora dali. Certeza que deve comprovar a minha teoria).
Com todo respeito à sacrossanta Igreja Católica, não pretendia passar do citrato de sildenafila às freiras em um parágrafo, mas três delas cruzam meu caminho. Por que será que freira viaja tanto? Eu nunca as vejo caminhando pelas ruas. Passeando num shopping. Tomando sol num parque. Mas basta eu pisar num aeroporto que elas brotam, sempre aos cachos. (Não existe a freira individual, assim como não existe padre em grupo).
Uma vez viajei ao lado de uma freira. Confesso que, apesar de ateu, me deu uma certa segurança. É sempre bom, numa situação tensa, ter ao lado alguém que fala diariamente com Deus. Mas bastou o avião correr na pista pra ela puxar um papo não muito tranquilo com o divino: começou a rezar fervorosamente, apavorada. Quase a repreendi. "Minha senhora, se você que acredita ir pro céu depois da morte fica assim, o que espera de nós outros que imaginamos virar minhoca? Por favor! Recomponha-se!". Acabei não falando nada, apenas olhei em volta, instintivamente, procurando as outras freiras, que obrigatoriamente estariam no voo. Uma dormia, outra comia uma barra de cereais —o que me pareceu, não sei explicar porquê, uma atitude repreensível.
Um piloto cruza o salão com seus passos imperiais. Gosto de ver o orgulho com que os pilotos transitam pelos aeroportos. Não gosto de como os médicos se portam em hospitais. Há neles uma arrogância que não vejo nos pilotos. Os pilotos são os mágicos da festa. Os médicos são domadores de leão.
Um cara de uns quarenta e cinco anos abre o notebook sobre a mesa de um café. Pensa no trabalho que precisa ser feito. Pensa nos filhos que deixou em casa, dormindo. Pensa numa moça de mansos olhos verdes e revoltos cabelos negros de quem não queria se afastar. Sete meninas altas, de uniforme esportivo, passam à sua frente.
Adams Carvalho
Por que é célebre o poema de William Carlos Williams sobre as ameixas? - Ricardo Araújo Pereira
Por que será célebre o poema de William Carlos Williams
sobre as ameixas? Traduzo, mais ou menos. Título: "É só para dizer".
"Comi/ as ameixas/ que estavam/ na geladeira/ e que /
provavelmente você estava/ guardando/ para o café da manhã/ desculpe / eram
deliciosas/ tão doces/ e tão frescas".
Comer ameixas não é uma atividade notável, e sobretudo está
longe de ser um crime, mesmo sendo as ameixas de outra pessoa.
Mas há qualquer coisa no poema que nos faz sentir que quem
comeu as ameixas cometeu uma infracção grave, da qual nem está arrependido
(comunicar à dona das ameixas que elas estavam mesmo boas parece uma provocação
desnecessária), e que essa transgressão vai indispor a legítima proprietária
das ameixas.
Mas, vamos lá, são ameixas. Estas comeram-se, amanhã haverá
outras. Sim, a dona das ameixas tinha, ao que parece, planos para elas. Mas não
era propriamente um projeto grandioso, cuja não concretização vá produzir um
transtorno irreparável.
Quem se preocupa assim tanto com fruta? Bom, a resposta é:
Deus. Quando cria o homem e a mulher, Deus faz-lhes uma única advertência. Não
há mandamentos (isso virá mais tarde), nem instruções de funcionamento do
paraíso, nem cuidados a ter com os seus corpos novinhos em folha, nada.
A única preocupação de Deus é: vocês não podem comer o fruto
de determinada árvore. Minto. Quando Deus emite essa lei, a mulher ainda não
existe.
Eva só conhece esse ditame por interposta pessoa. Deus nunca
lhe disse diretamente. Talvez seja por isso que a manhosa serpente se dirige a
ela, e não a Adão.
O resto da história é conhecido: a serpente convence Eva,
que convence Adão, e eles comem o fruto da árvore do conhecimento do bem e do
mal.
Depois, Deus aparece, e Adão culpa Eva, que culpa a
serpente. E Deus castiga-os a todos —mas apenas por terem desobedecido à ordem
de não comer aquele fruto.
O delito bem mais feio de se denunciarem mutuamente, Deus
deixa passar sem fazer uma punição.
Há um pormenor muito curioso nessa história: a bíblia não
especifica qual o fruto que Adão e Eva comeram, mas todo o mundo supõe que era
uma maçã.
Erradamente, parece-me. Cá para mim, eram ameixas.
Ilustração de Luiza Pannunzio
terça-feira, 16 de abril de 2024
Um brinde às inimigas - Manuela Cantuária
Duas amigas em uma mesa de bar. Uma delas ergue seu copo.
"Um brinde às inimigas, que elas tenham saúde em dobro para aplaudir nosso sucesso de pé!"
Elas brindam. E a amiga continua a falar.
"Tira uma foto minha? Quero exibir meu colar novo. É um amuleto contra inveja e mau-olhado. Rebate energia negativa."
Ela posa para a foto e, em seguida, confere o resultado.
"Ficou ótima. Vou ter que postar, em tempo real. Já sei até qual vai ser a legenda. ‘Dia difícil para as inimigas…’ Hashtag: blindada. Hashtag: elas que lutem. Hashtag: você reclama do meu apogeu."
"Amiga, posso te perguntar? Quem são essas inimigas?"
"Não vale a pena perder tempo. São um bando de recalcadas que não têm o que fazer."
"Só me fala o nome de uma delas. Uma só, que seja."
"Se eu fizer isso, vou ter que limpar a boca com alvejante logo em seguida, para tirar o ranço. Elas não merecem."
"Você não é a Coreia do Norte para ter tantas inimigas assim. Que bobagem ficar alimentando essa competição. Rivalidade entre mulheres hoje em dia é tão demodê."
"Concordo cem por cento. Não tenho inimizade com ninguém. São os outros que têm contra mim. E agora eu que estou sendo julgada? Por que você não cobra sororidade delas, em vez de cobrar de mim?"
"Delas quem?!"
"Não é com elas que você deveria se importar. Cadê a sua empatia? Você fala assim porque não sabe o que é ser alvo constante da inveja alheia."
"Inveja de quê? Sou eu que vou pagar sua conta, amiga. Você está com o nome mais sujo que banheiro de rodoviária. Sua filha de 13 anos que te sustenta, monetizando vídeos no TikTok, enquanto você passa a maior parte do tempo correndo atrás de macho que não tem nada a te acrescentar além de chifre e clamídia. Já que você gosta tanto de pegar bandido, por que não faz um concurso para a Polícia Militar? Seria mais digno que enganar os outros com esquema de pirâmide."
"Não é pirâmide. É um grupo de ajuda mútua para mulheres bem-sucedidas. Era só o que me faltava. Mais uma tomando conta da minha vida. Eu não tenho nem um segundo de paz."
"Só estou tentando te ajudar."
"Com amigas assim, quem precisa de inimigas…?"
Ilustração de Silvis
quinta-feira, 7 de março de 2024
E a poligamia?- Fabrício Carpinejar
Se a poligamia fosse lei, nada seria fácil.
terça-feira, 20 de fevereiro de 2024
O sentido da ressaca - Adão Iturrusgarai
“A felicidade é o sentido e o propósito da vida, o único objetivo e a finalidade da existência humana”.
Aristóteles.Porém, o fatídico dia seguinte tem algo mais a nos ensinar além do respeito que devemos ter aos limites do consumo do álcool. A ressaca ajuda a gente a dar valor às coisas simples e ao sentido da vida.
Acho que a vida não tem sentido nenhum e ficar buscando uma razão para a existência é pura perda de tempo. Somos acidentes, uma camisinha furada, um erro de cálculo na tabelinha da gravidez, um DIU mal ajustado ou um coito interrompido milésimos de segundo depois do momento seguro.
Não vou me estender e vou direto ao ponto: qual é, afinal, a importância da ressaca?
Em 2000 eu morava no bairro da Urca, no Rio de Janeiro, com uma companheira carioca. Uma noite saí com um amigo que pegava pesado. Bebemos muito além da conta, mais do que o dobro do que o meu corpo suportava. Para piorar, era vinho tinto, substância perigosíssima e que só deveria ser consumida durante as refeições.
Depois da farra, não sei como consegui voltar para casa. Lembro vagamente que meu amigo me empurrou para dentro de um táxi e pedi para ser desovado perto da mureta da Urca. Não queria chegar direto em casa naquele estado deplorável e tinha a ilusão de me recuperar um pouco com a brisa da Baía da Guanabara.
Meia hora depois de vento na cara sem conseguir parar em pé, parecendo estar numa jangada, tomei coragem, entrei no prédio e, depois de dez tentativas, acertei a chave no buraco da fechadura. Por sorte minha companheira dormia profundamente e não me viu cair na cama de roupa e tudo.
No dia seguinte bem cedo, senti um cutucão. Era ela pedindo para eu ir até o banheiro. Cheguei lá e morri de vergonha. A privada - e tudo ao redor dela - estava toda salpicada de tons de roxo e verde bílis. Nem o teto se salvou. Parecia uma pintura em 3D do Pollock.
Levei umas duas horas para limpar os resquícios da bebedeira e passei o resto do dia me arrastando, às vezes literalmente, como um soldado ferido.
Naquele momento eu sofria tanto que tudo que eu mais desejava era que aquela sensação desagradável passasse e que minha vida normal voltasse. Queria abraçar a minha esposa, brincar com os gatinhos, apreciar os tons de verde da decoração, caminhar pelo bairro, respirar o cheiro da maresia e contemplar o vaivém dos aviões no aeroporto Santos Dumont. E, claro, voltar a rabiscar na prancheta em busca de ideias para piadas.
Mas o mal-estar me impedia de fazer qualquer coisa. Então, me dando por vencido e aceitando o quão miserável eu estava, resolvi deixar para o outro dia.
Só que no outro dia eu ainda não havia voltado ao normal. O tempo se arrastava comigo e tudo era um sofrimento, até respirar mais fundo causava incômodo. Meu estômago parecia estar do avesso e amarrado com barbante. O paladar era de maçaneta de banheiro de rodoviária. Minha cabeça parecia ressoar o badalo infinito de um sino. Por vezes eu me sentia o badalo do sino.
Foi aí que descobri a ressaca de mais de 24 horas e a inexistência de Deus. Foi algo quase tão traumático quanto à situação na qual, durante a infância, fiquei sabendo que um dia morremos.
Então, foi assim, graças à maldita ressaca, que aprendi a valorizar as pequenas coisas do cotidiano. Percebi que o simples fato de poder vivenciar o dia a dia, em suas sutilezas mais banais, nos permite ser quem somos, com integridade. Por isso é essencial desfrutarmos não só dos momentos de êxtase, que são raros e efêmeros, mas também, e principalmente, das rotinas mornas e aconchegantes. Essas, sim, serão constantes e mais duradouras.
Carpe diem.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2024
Sonoplastia - Luis Fernando Verissimo
Carlos Alberto e Maria Cristina estão num motel. Toca o telefone celular que ele deixou na mesinha de cabeceira ao lado da cama redonda. É a mulher de Carlos Alberto, Cynara.
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