segunda-feira, 11 de abril de 2022

Meus brasileiros preferidos - Gilberto Amendola

 


O vovô da banquinha do Jogo do Bicho. O barbeiro português. O eleitor arrependido. O vira-lata manco e banguela. A garota de programa do oitavo andar. O Zé Louquinho da minha rua. O porteiro gente fina e torcedor do Campinense. O bêbado que começa cedo. O bêbado que é o último a ir embora. A dona de muitos gatos. O nerd fã de Star Wars. O cover do Elvis. A cantora de igreja. O amolador de facas comunista. A enfermeira que casou com o paciente de 90 anos. As crianças que tocam a campainha e saem correndo.

 

Quem não quer deixar de usar máscara. O professor aposentado que faz palavras cruzadas embaixo da árvore. O desempregado que faz bolão da Mega Sena. O ex-lutador de boxe que vive com uma foto da esposa falecida no bolso da calça. A ciclista que usa um capacete com as cores da bandeira francesa. O manobrista que nunca tirou habilitação. A amiga que manda nudes. O amigo que entende de drinques. O papagaio que canta o Hino da Bandeira. A tiazinha que lê a mão sem cobrar um tostão. O presidente do fã-clube de um cantor ruim. A coruja que dormiu em cima da placa de proibido estacionar. O inventor de traquitanas inúteis.

 

O vizinho que empresta a senha do Wi-Fi. A jornalista de moda que passeia com o cachorro de pijama e chinelinho. O vendedor de bolhas de sabão que nunca acertou fazer uma bolha de sabão. O torcedor do Juventus que categorizou 659 maneiras de xingar o juiz. O padre que largou a batina e se casou com uma dançarina de boate. O porteiro de boate que troca o dia pela noite. O tocador de tuba que nunca mais conseguiu afinar seu instrumento. O adolescente cheio de espinhas que sonha com a Scarlett Johansson. O marido traído que voltou para a mulher. A bibliotecária que faz curso de pompoarismo por correspondência. O velhinho que conta sempre a mesma história. A organizadora de rifas.

 

O vizinho que ouve Leonard Cohen no último volume. A solteirona que ainda suspira por um amor platônico da adolescência. A malabarista de farol que se apaixonou por um agente de trânsito. A velha turca que faz doces de pistache e nozes. O mudo que escreve discursos para futuros presidentes. O cego que viu a luz. O sujeito que garante ter sido abduzido por alienígenas. O cobrador de ônibus que conhece os passageiros pelo nome. A ex-participante de reality show que foi viver sozinha no deserto. O poeta que nunca publicou um livro, mas guarda todos os seus versos na cabeça. O atleta olímpico que perdeu sua medalha no aeroporto. Quem se dedica a avistar passarinhos. O resto. O resto não me interessa.


terça-feira, 5 de abril de 2022

Como calcular o tempo de uma vida? - Gilberto Amendola

 



Como calcular o tempo de uma vida?

Desconta-se o tempo do cafezinho e as intervenções desnecessárias acerca do clima.

Subtraia a mensagem de WhatsApp respondida por educação. A escolha das figurinhas ou emojis também entram nessa conta.

Idas ao banheiro, claro. Idas demoradas ao banheiro. Leituras de banheiro ou banhos sem consciência ambiental.

Intervalos para o cigarro. Conversas entrecortadas pela fumaça. 

Horários eleitorais gratuitos – não importa o partido. Discursos inflamados.

O trabalho, sempre o trabalho. O trabalho e suas horas mortas.

As digressões sobre a morte de algum famoso.

O pôr do sol ou o cair da tarde. O barquinho que vai sabe-se lá para onde.

A ioga ou a esteira. As horas na academia também precisam ser descontadas.

Comentários sem nenhuma base sobre guerra ou pandemia. O tempo que se perde negando a ciência.

Consultas ao saldo de conta corrente via aplicativo de banco – quando eles estão funcionando (ou não).

Respostas negativas ao serviço de telemarketing da operadora de celular. E as dezenas de tentativas de cancelamento de algum serviço. Falar com robô é tempo perdido.

As ponderações sobre o número de estrelas que um motorista de aplicativo merece. A conversa política/eleitoral com taxistas.

Séries que perderam o sentido depois da primeira ou segunda temporada.

A espera do delivery de pizza. Reclamar com o delivery da pizza que não chega também leva tempo.

Leitura de textão em redes social e/ou problematizações subsequentes (tretas e threads). Brigas em rede social.

Explicação de piadas. A contextualização de piadas. A irritação causada pela falta de interpretação de texto.

A ansiedade que antecede o resultado do exame. Qualquer exame.

A expectativa das férias. As próprias férias. A frustração com o fim das férias. 

A expectativa do sexo, o sexo em si e o depois do sexo. Todo o sexo mais ou menos bom também entra na conta.

O tempo que demora para um e-mail ser respondido.

As horas de sono e de insônia. O tempo que perdemos tentando decifrar sonhos que não querem ser decifrados.

E o tempo que, sob efeito de alguma coisa um pouco mais forte, você se achou ótimo. Ninguém é ótimo sempre.

Faz a conta. 

Quanto é que sobra? 


Pôr do sol sobre a cidade de Ascalão, em Israel. Foto: Amir Cohen / Reuters



sexta-feira, 18 de março de 2022

Entre uma pandemia e uma guerra - Gilberto Amendola

 


Entre uma pandemia e uma guerra tem que nascer uma flor.

Em nome das crianças que atravessam a fronteira sorrindo, brincando com bonecas de pano e fantasias de Homem-Aranha. 

Em nome das mães que empurram carrinhos de bebê, que amamentam nos bunkers frios e cantam para seus filhos adormecerem.

Em nome dos velhinhas que saem às ruas de avental e colher de pau, que enfrentam invasores como se ‘ralhassem’ com a meninada.

Em nome do jardineiro que ainda não desistiu do seu jardim; do professor que ainda tenta ensinar alguma coisa aos seus alunos; em nome do engenheiro que sonha em reerguer um prédio bombardeado. 

Em nome da cozinheira que preparou uma ‘quentinha’ e saiu distribuindo entre os soldados.

Em nome do soldado que abandonou as armas e abraçou um inimigo. 

Em nome também dos vira-latas, que, mesmo assustados com o barulho das bombas, não saem do lado dos seus donos mortos.

Em nome dos homens de fé que continuam rezando mesmo sem nenhuma resposta. 

Em nome dos órfãos que ainda chamam pelo pai. 

Em nome de quem arrisca a própria vida para salvar um desconhecido.

Em nome do palhaço que passa o dia ensaiando um número engraçado – mesmo sem saber se alguém, algum dia, vai poder voltar a rir.

Rússia - Ucrânia
Tanque russo dispara durante exercício militar perto da cidade Rostov, na fronteira com a Ucrânia  Foto: AP

Em nome da cantora que atingiu o seu agudo mais potente e desviou a rota de uma bomba nuclear.

Em nome da bailarina que, na ponta dos pés, atravessa a cidades em chamas.

Em nome dos namorados que ficaram em lados opostos desta rinha.

Em nome dos poetas que continuam escrevendo. 

Em nome dos repórter que, de coração apertado, não deixa de cumprir o seu ofício.

Em nome dos que ainda tomam café e procuram por boas notícias no jornal pela manhã.

Em nome dos ratos – porque são apenas ratos.

Em nome dos sonhos que morreram inconclusos com o despertar do caos.

Entre uma pandemia e uma guerra tem que nascer uma flor. Não qualquer flor. Mas uma flor distraída, desocupada, inconsciente da sua própria responsabilidade.

Entre uma pandemia e uma guerra tem que brotar uma rede onde a gente possa descansar um pouco.

Entre uma pandemia e uma guerra tem que existir uma rota de fuga, uma saída. Pode ser um amor, um cigarro, um dry martini ou um bom filé. 

domingo, 13 de março de 2022

Chaves do coração - Milton Hatoum

 


Em poucos anos, muita coisa mudou neste quarteirão. Eu gostava de conversar com um vizinho, homem alto e um pouco corcunda, neto de italianos. Era Clemente: o chaveiro mais famoso das redondezas. Vivia com a Siciliana, uma gata cor de açafrão; ela esperava seu dono ao lado de bromélias exuberantes, que davam vida ao sobradinho cinza.

Clemente era meio mágico: abria portas que pareciam fechadas para sempre. Saía cedinho, segurando uma tabuleta em que se lia: “Não se desespere! Destranco portas e corações, dia e noite”. 

Além de chaveiro, ele orientava casais em crise; mais de uma vez evitou separações, amistosas e litigiosas. Era um homem magnânimo nesse tempo de guerra fratricida e racismo escancarado. Era também bom de copo, mas sábio: conhecia a fronteira da alegria eloquente com a embriaguez. Certa vez, num boteco, me contou ter atendido ao chamado de uma mulher que trancara o namorado no quarto. Ela jurava que perdera as chaves. 

“Me ligou às nove da manhã de um domingo. Só que o cara estava trancado desde a noite de sexta-feira. E sem celular. Ele conseguiu arrombar a porta de madeira, mas tinha outra, de ferro. Mais de 30 horas sem comer e beber! Soltava uns miados chochos. ‘Me solta, amor... Não faço mais isso, prometo.’ Minha Siciliana tinha mais voz que ele. Voz e coração.”

“E o que você fez?”

“Que trabalheira, meu. Eram duas fechaduras diferentes, para chaves sextavadas. Parecia uma cela. Destranquei a porta de ferro, ele saiu murcho, sedento e faminto. Senti pena? Não. Ele tinha sido bruto com a moça, mas só no gogó. Por isso ela não chamou a polícia. O cara foi embora. Aí, dois dias depois, me procurou. Morria de saudade da moça... Papo de arrependido. Dei outra bronca nele, mas o diabo é que ela também gostava do sujeito. Fui o mediador, falei coisas sérias, orientei os dois. Cobrei caro, e ele pagou. Levo jeito pra psicólogo? Mas não pude estudar. Dá trabalho trocar duas fechaduras... Difícil mesmo é amaciar corações.” 

Clemente morreu de ataque cardíaco. Não tinha filhos. O irmão herdou a casinha, e não quis ficar com a gata nem com as flores. Então eu trouxe a bichana e as bromélias para o meu canto. Da janela, Siciliana olha o sobradinho lá embaixo, agora um bar feio e barulhento, que tira o nosso sono. Tão bela e pensativa essa felina! O que pode dizer o olhar dela? Especulo, busco palavras, e enfim me vêm à mente os versos de Murilo Mendes: 

“Para a catástrofe, em busca/ Da sobrevivência, nascemos”.



quarta-feira, 9 de março de 2022

A última festa - Gilberto Amendola



Rita estava lavando a louça quando ouviu, sem prestar muita atenção, alguma coisa sobre armas nucleares. Secou as mãos molhadas de Limpol e correu para a sala. Demorou uns segundos para achar o controle remoto – que estava enfiado em um vão do sofá. Mesmo sem nenhuma necessidade, aumentou o volume da televisão. A notícia era clara...

Quando o filho chegou da escola, encontrou o seu bolo preferido em cima da mesa. Na vitrola, um álbum dos Beatles.

– É aniversário de alguém?

– Só quis te fazer um bolo, Jorginho. Aproveite.

– Vou tirar o uniforme para não sujar de chocolate.

– O gostoso é se lambuzar.

Jorginho estranhou o desapego da mãe com a impecabilidade do seu uniforme, mas preferiu não discutir.

– Que música é essa, mãe?

– Faz tempo que eu tô pra te mostrar. São os Beatles...

– Legalzinho.

– Escuta essa aqui. Como está o seu inglês? Ela se chama When I’m Sixty-Four.

– Ah, acho que são 64 anos, né? O cantor tinha 64 anos.

– Quando gravou essa música, ele só tinha 24 anos. Agora, já tem quase 80. 

– Nossa, imagina quando você tiver 64, mãe. E eu? Acho que já vai ter carros voadores...

Rita tentou disfarçar, mas sentiu o coração apertar.

A campainha tocou no apartamento de Rita. Eram duas vizinhas chegando com minicoxinhas, garrafas de vinho e um engradado de cerveja.

– Que festa é essa, mãe?

– Festa nenhuma. A gente só quis fazer uma reuniãozinha.

Uma das vizinhas, dona Filomena, aproximou-se de Jorginho e perguntou: “Você tem namorada?” 

O menino, encabulado, disse que não.

– Vou buscar minha sobrinha agora. Ela tem a sua idade – disse Filomena.

Outros vizinhos chegaram no apartamento trazendo quitutes, sorvetes e bastante bebida alcoólica. 

Rita colocou um documentário sobre Paris na televisão e começou a choramingar.

– Nunca conheci. Não tive a chance.

Filomena, enfim, entrou com a sobrinha pela mão.

Na vitrola, saíram os Beatles. E os sucessos de Roberto Carlos foram cantados em uníssono pela turma.

No celular de Rita, a notícia sobre um botão que já havia sido apertado.

– Beija, beija, beija – gritavam para Jorginho e para a sobrinha de Filomena.

No início, eles não estavam entendendo nada. Logo depois, não haveria mais nada para entender – nem o tempo, nem o espaço.

Impossível saber se Jorginho beijou. 


Dedo de Deus - Arrigo Barnabé

 https://youtu.be/J1dB4wHVMxw




terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A festa do caqui - Gilberto Amendola

 

O rosto melado de caqui. As mãos ainda mais meladas do que o rosto. Em solidariedade, a mãe vem com um paninho, mas logo é detida por uma algazarra generalizada. Alguém corre para o quarto e começa a procurar a Polaroid. 

– Cadê? 

– Olha em cima do armário! 

Eis que um parente surge na sala com uma máquina fotográfica nas mãos. 

A criança ensaia um choro. Está desconfortável com todo aquele caqui pelo corpo. 

Ao redor, familiares fazem caretas, batem palmas e cantam algum sucesso do rádio.

O bebê sorri. 

E um tio bate a foto.

*

No mercado, alguém explica para o Rodolfo que ainda não é época de caqui – e que ele deve esperar até março para encontrar um bom, docinho e carnudo… caqui. Carnudo? Adjetivo estranho. Não combina com a fruta. Uma fruta carnuda. Que coisa maluca.

*

Todo aniversário, Rodolfo procura, em uma caixa de sapatos escondida no fundo do armário, a tal foto do caqui. Era um bebê quando tiraram aquele retrato. 

*

Daquela festa do caqui não sobrou mais ninguém. Essa é uma coisa triste de pensar, mas é verdade. Filho temporão tem isso. Os parentes mais próximos já foram tombados pela marcha do tempo: mãe, pai, avós, tios… Nada incomum. É o que acontece quando a gente vai ficando velho.

*

No tempo daquela foto, ele ainda podia tudo. Podia ter sido médico, músico, poeta, presidente, ator, engenheiro, astronauta, marinheiro, assassino, traficante, cantor de ópera, bailarino, inventor, cabeleireiro… Mas aquilo tudo foi dar no que ele é hoje. Rodolfo, esse é seu nome. Um número de RG. E outro de CPF.

*

Queria ter de novo aquela obstinação de criança concentrada em devorar o seu caqui. Um ardor. Isso! Era um ardor. Hoje, soa como algo quase sexual. Mas é só um caqui. 

*

Alguém disse uma vez que era a fruta preferida de Zeus. Zeus chupando os dedos sujos de caqui é uma imagem perturbadora demais. 

*

Rodolfo precisou disfarçar a emoção ao encontrar caquis tão bonitos no Mercado Municipal. 

*

Às vezes, Rodolfo tem a impressão que ninguém mais liga para caqui. Injustiça. Uma fruta assim tão carnuda merecia mais respeito.

*

Caquis são muito sensíveis. Rodolfo também. 




terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Vai dar ruim - Gilberto Amendola

 





Algumas coisas a gente nem precisa experimentar para saber que “vai dar ruim”.

Jantar Miojo com uma taça de Dry Martini do lado, vai dar ruim. Tirar chefe em amigo secreto, dormir sem meia no inverno ou viajar na poltrona do meio, vai dar ruim. 

Eu e você, hahaha, seria muito, mas muito, ruim.

A sequência da sequência do filme que você já amou um dia, vai dar ruim. O cartão de crédito piscando na sua carteira, fazer carinho em um leão enjaulado ou comer bolacha crocante em cima da cama, vai dar ruim.

Eu e você, vixe! 

Um mergulho no Tietê vai dar ruim. Enfiar vários crayons pelo nariz, tomar água direto de um chafariz ou gritar gol no meio da torcida adversária, vai dar ruim.

Eu e você, Ave-Maria! 

A reeleição do Jair, vai dar ruim. Cutucar feridas abertas com alfinete, dançar balé no parapeito ou chacoalhar uma nota de cem no centro da cidade, vai dar ruim.

Eu e você, não tem cabimento, nunca teve.

Aquela coxinha de anteontem sozinha no balcão da padaria, vai dar ruim. Esquecer o guarda-chuva no ônibus, deixar a louça acumulando na pia ou gastar um salário mínimo em loteria, vai dar ruim. 

Eu e você, na real, nem existe. Pode apostar. 

Deixar o computador aberto na mesa do trabalho, vai dar ruim. Mandar tudo para o espaço, acender uma fogueira no meio do mato ou usar o secador de cabelo debaixo do chuveiro, vai dar ruim.

Eu e você, nem que a vaca tussa. Ou cante uma ópera.

Atravessar a rua de olhos vendados, vai dar ruim. Panela de pressão bufando e nervosa, acender velas perto da cortina ou arrumar briga na academia, vai dar ruim. 

Eu e você, colega, pode chamar a cavalaria. 

Rodízio de caipirinha no verão, vai dar ruim. Perna de pau na seleção, nariz para fora da máscara, dois dedos em uma tomada, vai dar ruim.

Eu e você, minha amiga, seria o caos na Terra, o fim dos dias, o meteoro chegando, o boleto atrasado, a caspa no paletó, o dedo podre, a saideira da saideira da centésima saideira, o apagão, a seca no sertão, o maremoto, o furacão, o pontapé na porta, a boca no formigueiro, o frango de um goleiro, a dor de cabeça de um carcereiro, o dente que a fada contrabandeou, a turbulência no aviãozinho de papel, o cheiro do pecado, a raiva dos coitados, o rascunho no papel de pão, a última volta do peão, o apocalipse, o calipso, a rumba, o tcha tcha tcha, puro rock and roll e carnaval.

Eu e você, amém, seria bom demais. Mas vai dar ruim.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...