quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Fofo - Luis Fernando Verissimo

No dia em que completaram 35 anos de casados, Valdir perguntou a Eunice:
– Posso lhe pedir uma coisa?
– Claro, fofo. – Não me chama mais de fofo. – Ai, fofo! Por quê?
– Porque eu não quero mais. – Mas fofo... – É ridículo.
– É um apelido carinhoso. Por que você nunca reclamou antes?
Era verdade. Todos aqueles anos sendo chamado de fofo, desde o tempo de namorados, e Valdir nunca se queixara. E agora aquela rebelião.
– É o efeito cumulativo, entende? – disse Valdir, sem certeza se ”cumulativo” estava certo. – Não quero mais.
– Mas todo mundo chama você de fofo.
– Chamam porque você chama. É gozação. Devem rir muito de nós, nas nossas costas. Devem pensar que eu também chamo você de fofa, na intimidade. Para eles, somos “os fofos”.
– Você nunca me chamou de fofa.
– Porque nós não somos fofos, Eunice. Somos de uma raça cheia de defeitos, condenada ao desespero e à morte, sem nada que nos salve. Nosso caráter é inconfiável, nosso destino é trágico, somos tudo menos fofos.
– Valdir, eu nunca vi você amargo assim!
– Pois agora está vendo como eu não sou fofo. Ninguém é fofo.
– Mas você não acha que a gente deveria... deveria...
– Deveria o que, Eunice?
– Deveria viver como se fôssemos fofos? Pelo menos um para o outro?
– Você quer dizer viver uma mentira?
– Não, mas também não desistir. Se fingir de fofos para não acabar desse jeito, amargos como você, depois de trinta e cinco anos.
– A vida é um absurdo, e nada faz sentido.
– Viu só como você ficou, fofo? – Fofo, não.
– Como é que eu posso chamar você, então?
– Dico. – Dico?! – Era como a minha mãe me chamava...
– Dico. E olha aí, você ficou comovido! Que fofura.

Estado de São paulo - 7/2/2016

De SP pro RJ pra SP pro RJ pra... - Antonio Prata

Quando li a enésima notícia de taxistas espancando motoristas do Uber, em SP, chamei imediatamente um Uber e falei: “Toca pra Ipanema!”. Em Ipanema, o recepcionista do hotel disse que não conseguia encontrar minha reserva online, mas que se eu o ajudasse a ajudar-me ele poderia estar me ajudando a ajudá-lo, o que compreendi que significava lhe dar duzentão ali mesmo, de modo que entrei num táxi e falei: “Toca pro Santos Dumont!”.
O taxista fez Ipanema – Santos Dumont passando por Belford Roxo, Niterói, Quixeramobim, Lima e Bogotá. Chegando ao aeroporto, 11 meses depois, vendi pela internet meu carro, minha alma e um poncho de alpaca comprado no Peru, paguei a corrida de R$ 189 mil e embarquei para São Paulo.
Chovia em SP, Congonhas estava fechado, pousamos em Cumbica, seis e meia da tarde, aluguei um carro e depois de nove semanas e meia parado na Marginal Tietê entre um ônibus da Mancha Verde e uma SUV com adesivo do Russomano, tive um ataque de pânico, larguei o carro no acostamento, cruzei o Tietê escalando uma adutora da Sabesp e peguei uma carona pro Rio, do outro lado.
Sentei no Bar Lagoa, chamei o garçom, ele não veio. Chamei de novo. Ele não veio. Depois de sete horas chamando, ele veio: disse que eu não podia ficar ali sem consumir e me botou pra fora. A sede era tanta que fui andando até um bar na Oscar Freire, em São Paulo.
Os vallets ficaram desorientados ao ver um cliente chegando a pé, o segurança consultou o gerente para saber se era permitida a entrada de pedestres, mas como sou branco e tenho cabelo liso, acabaram me sentando. Sete garçons me atenderam. Vestiam camisa de seda, gravata, sapato italiano, mas não eram registrados, não recebiam horas-extras nem os 10%, que ficavam pro dono. Eu ia pagar a conta e fugir pro Rio numa bicicleta do Itaú, mas um chope mais couvert deu R$ 489 e para não acabar no Serasa precisei arrumar um emprego.
Consegui um trabalho na Berrini. Minha patroa anoréxica não via o filho há dois anos por causa de um job top que estava managing alinhada com uns coworkers numa joint-venture de um fund com uma kickstarter de apps para incubadoras, o estagiário de 19 anos já tinha rugas e cabelo branco, almoçavam shake de proteína e injetavam Redbull na jugular. Fiz uma asa-delta com clipes e post-its e saltei do alto do prédio.
Ia pousar em Copacabana, mas fiquei apavorado com 200 paparazzi fotografando a vice-miss bumbum 2011 de bruços na areia (“Bunda na nuca!”, seria a legenda do Extra), fiz meia volta pra SP, ia pousar na Paulista, mas fiquei apavorado com 200 PMs espancando praticantes de Tai chi chuan (“adeptos da técnica ninja black bloc”, seriam as aspas do capitão), peguei um vento leste, subi acima das nuvens e tô pensando se tento um pouso em BH ou se sigo o rumo do padre dos balões -- um homem que, à época, todos julgamos lunático, mas que agora me parece apenas um visionário à frente do seu tempo.
* Texto descaradamente chupado de N.Y.C. to L.A. to N.Y.C. to L.A., ad infinitum, de Cirocco Dunlap, publicado na revista New Yorker, 1/2/16. Pela sugestão do texto e do plágio, agradeço ao amigo cariolista (ou paulistoca?) Charly Braun.

Folha 7/2/2016

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Gaúcho gosta de homem - Martha Medeiros

Ainda nem comecei o texto e você, que é gaúcho, já está me odiando, mas me dê um parágrafo de vantagem para explicar. O assunto aqui não é sexo. Não tem nada a ver com homossexualidade. Eu sei que você gosta de mulher. Ou talvez goste de homem mesmo, no sentido sexual. Mas o assunto é outro. É sobre com quem preferimos partilhar ideias, experiências, piadas - não lençóis.

Conversando num bar com uma turma mista de amigos (todos nascidos no RS), chegamos à conclusão de que o gaúcho, em geral (com exceções, você é a prova), não gosta de mulher. Ele gosta de futebol, de churrasco, de posto de gasolina, de atividades em que possa estar com outros homens suando a camisa, palitando os dentes, discutindo política, à vontade com a própria rudeza. Ele gosta dos seus parceiros: do Carlão, do Gringo, do Marco, do Valdo. É entre eles que sua identidade é confirmada, é com eles que se sente mais livre e mais autêntico. Mas ele quer namorar e casar como todo mundo, e aí precisa de uma mulher, sendo hétero, e então namora, casa e tem filhos, sem nenhum esforço. E está resolvida essa questão da mulher na vida dele. Bora jogar uma pelada com a rapaziada.

Homem que gosta de mulher é homem que admira todas elas, mesmo apaixonado por uma em particular. Torna-se amigo delas sem segundas intenções. Gosta de conversar com elas, de ir a livrarias com elas, de ir a shows com elas, de viajar com elas, de se aconselhar com elas - sejam bonitas ou não. Ele valoriza o universo feminino, se sente enriquecido pelo modo como as mulheres enxergam o mundo. Talvez tenha tido a sorte de, na infância, ter convivido com muitas primas e tias, de ter recebido uma educação que não se baseou em conceitos ultrapassados, então cresceu sabendo que mulheres são companhias inteligentes, divertidas, perspicazes. Se, além disso, forem atraentes, é um bônus, não uma prioridade.

Durante a minha conversa com a turma, reconhecemos, claro, que as coisas estão mudando, que o desprezo pela mulher era mais evidente em outros tempos. Meninos evitavam brincar com as meninas na escola para não sofrer bullying dos colegas. Hoje as relações avançaram, mas aí o papo no bar já estava rendendo gargalhadas e logo começamos a estereotipar, fazendo um mapeamento geográfico da nossa teoria. O nordestino, por exemplo, gosta de mulher. O carioca adora. O gaúcho atura. No fundo, gosta mesmo é de um bom clube do Bolinha, mesmo que seja para falar de mulher o tempo inteiro.

Talvez seja esta a razão de, anos atrás, a turma do Casseta e Planeta ter propagado a história de que todo gaúcho é gay. Uma bobagem, óbvio, mas a provocação visava desestabilizar os guetos de virilidade que ainda resistem. O gaúcho bronco continua não vendo muito sentido em se aproximar das mulheres se não for para cantá-las. As trata bem porque a civilidade exige, mas gostar de mulher da mesma forma que ele gosta de homem, sem chance. Não é por deformação de caráter nem nada, simplesmente ele não vê que função, afora a sexual, uma mulher possa ter na vida dele.

A não ser sua mãe, mas mãe não é mulher.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

O pai e a mãe do porco-espinho - Humberto Werneck

Não garanto nada, mas acho que estou curado da mania que tive, quando menino, de sair usando palavras e expressões que acabara de ouvir ou ler pela primeira vez. Com o risco, já contei, de provocar pasmo ou gargalhadas entre os circunstantes - como no dia em que, tendo ouvido meu pai dizer “o diabo a quatro”, tratei de passar adiante, crente que estava abafando, o que a meus ouvidos chucros soara como “diabo aquático”. O demo, já pensou?, a dar braçadas no seu caldeirão fervente...
O desastre vocabular me fez cauteloso, levando-me a frequentar mais amiúde os dicionários que tínhamos em casa, o Caldas Aulete e o Laudelino Freire. Em nenhuma parte, porém, encontrei explicação para a ameaça inusitada que ouvi de meu pai, no dia em que chegou ao seu conhecimento a estripulia que um de nós havia perpetrado no colégio: “Eu te mando pro Acre!”, bramiu o velho, na verdade mal chegado aos 40 anos.
Só fui decifrar o enigma quando, já marmanjo, li sobre as centenas de moradores do Rio de Janeiro que, por seu envolvimento nas revoltas da Vacina e da Chibata, em 1904 e 1910, foram condenados ao degredo no mais remoto rincão do país, aquele que, em alusão aos campos de trabalhos forçados da União Soviética, alguém chamou de “a Sibéria do Brasil”.
Imagino que o papai tenha ouvido a expressão dos lábios do pai dele - do qual, além do prenome, Hugo, herdou asperezas de macho que a vida haveria de aplainar. Não era brincadeira o dr. Hugo Furquim Werneck, falecido 10 anos antes de minha chegada ao mundo, avô cujos verdadeiros traços fui conhecer não nos relatos hagiográficos de meu pai e tios, mas no retrato que dele pinta, em copiosas páginas de Beira-Mar, o ex-aluno Pedro Nava. Pouco menos que um verdugo, aquele Hugo: diretor da Escola de Medicina de Belo Horizonte, quis expulsar o Nava a poucos meses de formar-se.
Órfão aos 16 anos, meu pai foi uma das raspas do enorme tacho reprodutivo - 13 filhos - do Dr. Hugo e Dona Dora. Décimo primeiro a chegar, até por isso terá penado menos que os mais velhos sob o rigor de um homem em quem a correção de caráter convivia com espinhenta severidade no trato com o semelhante.
Ao contrário dele, falecido cedo, aos 56, meu pai teve tempo e condições de, como os antigos automóveis, amaciar com o uso, tendo para isso contribuído, e muito, a delicadeza de minha mãe, com quem viveu por mais de meio século. Tolerante com os filhos mais novos, com os mais velhos foi bem duro - ao ponto de os felizardos que o pegaram já amaciado se dizerem frutos de um segundo casamento dos mesmos Hugo e Wanda.
Reconheço no meu pai uns traços fortes que terá herdado do meu avô. Não chegou a nos mandar para o Acre, mas recorreu com frequência a um arsenal de punições digno do professor de Pedro Nava. Vistos de hoje, quando já não doem nem revoltam, os castigos que o papai nos aplicava tinham um quê de homeopatia, pois em geral guardavam relação com o malfeito. Que nem o pai dele, que, tendo apanhado um filho com cigarro aceso, lhe fez fumar o maço inteiro, que por isso ficou sendo o último.
Um dia, ao se dar conta de que eu, discretamente, ia dizimando uma garrafa de Old Parr, meu pai me fez beber o resto. Com é que o que o nosso ébrio gosta de beber uísque?, ironizou. Com leite, respondi no mesmo tom - e paguei o intragável preço de sorver, de cara boa, uma beberagem morna cuja lembrança ainda hoje me nauseia.
Em outra ocasião, na minha ausência, mandou jogar fora meia garrafa de cerveja preta - munição de minha mãe para incrementar a amamentação - e abastecê-la com outro tanto de café gelado e salgado, mistura da qual um gole ávido e gordo chegou a me descer pela garganta antes de voltar estrepitosamente à luz.
Uma das meninas, durante a refeição, brincava com a argola do guardanapo, desafiando a proibição paterna? Diante da mãe e dos irmãos, que não podiam rir, teve que encaixar na boca a argola de ebonite e assim permanecer por uns minutos, chorando um choro cilíndrico de vergonha e raiva.
Um dia, chegando em casa, dei com um dos irmãos pendurado no flamboyant do jardim, qual presunto em viga de armazém, como penitência por ter dado uma de Tarzan no galho em que o pai enganchara uma gaiola. Outro, por ter fuçado numa pilha de materiais de construção, foi sentenciado a passar longos minutos com os braços abertos e um tijolo em cada mão.
Mais uma. Na ausência dos pais, eu e um dos irmãos encenamos uma missa, para a qual fizemos hóstias de miolo de pão, uma recheada de sal, outra de pimenta, que demos em comunhão a duas das meninas. Não me lembro se sobrou para mim, mas não esqueço do meu coroinha a esguichar lágrimas desencadeadas por uma colherada de pimenta braba.
*
O que ficou da pedagogia rude de um pai que a humildade, o tempo e os filhos se encarregaram de adoçar, fazendo dele uma pessoa bem melhor que as encomendas? Virou conversa boa de família, historinhas em que ele próprio achava graça. Provar de seu “veneno” - não era assim também que funcionava seu esquema educativo? De minha parte, nada ficou de mágoa nem ressentimento. Nenhuma sombra em meu amor por ele. Foi às vezes duro? Muito mais sofreu a mãe do porco-espinho - dito que aprendi com um gaiato no colégio e, claro, tratei de usar na primeira oportunidade, antes mesmo de saber o que foi que se passou com a desditosa genitora do ouriçado roedor em questão.





A porta da cozinha - Fabrício Carpinejar




Há duas portas para entrar em casa: a da sala e a da cozinha.

Quem eu não conheço muito bem recebo com a formalidade da porta da frente. Pisará no capacho bonito, com a tabuleta de boas-vindas. Existe um gancho para pendurar o casaco e um porta guarda-chuvas por perto. Enxergará o espaço organizado do sofá, ornado de estátuas e da estante de livros. Convidarei para sentar, devo cruzar as pernas e oferecer café em jogo completo de xícaras e bandeja de metal. Questionarei: açúcar ou adoçante. Colocarei música ambiente e abrirei as janelas, controlando o fluxo do ar.

Apesar do extremo acolhimento, não estarei à vontade. Pensarei com cautela cada palavra dita e jamais falarei mal de alguém. As visitas ganham o melhor da residência e o pior do anfitrião.

Já quem eu amo entra pela porta da cozinha, no meio da bagunça das panelas e dos jornais espalhados. É o umbral secreto do afeto, simples e despojado, sem tapete, com os perfumes dos temperos e dos alimentos descongelando.

Se está chovendo, levo o guarda-chuva pingando, correndo, como um paciente para o tanque da lavanderia. Não haverá cerimônia nenhuma. Casacos são dobrados na cadeira mais próxima.

Eu sou um abrindo a porta da frente e outro totalmente distinto abrindo a porta de trás. Na frente, vou de roupa social. Aperto a mão em firme cumprimento.

No acesso secundário, apareço de calção, regata e chinelo. Abraço para quebrar os ossos. A alma também muda. Falo gritando, com a passionalidade de um cortiço, não medindo as confissões e as fofocas. Não me arrumo ou calculo as frases.

Nem me preocupo com a expectativa de agradar, eu tenho o outro como parte do lar.

Tampouco serei garçom. Pergunto se quer algo e digo para se servir. Acomodamos-nos por ali mesmo, empurrando o que há na mesa com os cotovelos, assistindo à louça suja empilhada na pia e ao detergente soberano de escolta.

A porta que beira o fogão e a geladeira é da intimidade. Dos risos e das implicâncias. Do choro apressado e do conforto do pano de prato. Quem não limpou as lágrimas no pano de prato ainda não foi fundo na tristeza.

Só entregamos a nossa pobreza para aqueles em quem confiamos inteiramente.





Quando se trabalhava bem - Humberto Werneck

Família grande, dessas que outrora requeriam Kombi, tinha lá suas vantagens, entre elas a de encher uma fotografia, povoando-a de gente em três ou mais camadas. Havia, é verdade, um monte de inconvenientes, como ter de ouvir de outro frangote, na rua ou no colégio, uma declaração do tipo “pô, seu pai trabalhou bem!”, proferida entre o admirativo e o malicioso, tão logo o interlocutor se inteirava de que você fazia parte de uma prole numerosa. 
Longe de ser ofensivo, o verbo “trabalhar” não deixava de fazer sentido, num universo de famílias quase obrigatoriamente católicas, nas quais o sexo parecia ter função exclusivamente reprodutiva. Dez filhos? Então dez vezes, nem mais nem menos, trabalhou seu pai. Quantas vezes Deus mandasse, e Deus, naquele tempo, mandava bem. Do sexo recreativo, não se falava abertamente, ou não se falava nunca - toda a informação, nesse departamento dos países baixos, costumava remeter mais à botânica do que à zoologia, em graves e cautelosos textos, prenhes de eufemismos, aos quais, fossem eles orais ou escritos, nunca faltava a palavra “sementinha”, como a sugerir que em se plantando tudo dá, e vice-versa. 
Ninguém, muito menos o padre confessor, contava a você que aquilo era também uma fonte de prazer, esse mesmo que você, menino ou menina, instintivamente procurava, servindo-se, em sua trancada intimidade, daquilo que, em mais de um sentido, estava à mão. (Conheço um camarada que, maravilhado, julgou ter inventado a coisa enquanto folheava uma enciclopédia farta em reproduções de estátuas gregas.) 
Sozinho ou acompanhado? - interrogava o padre, mal você se punha de joelhos no confessionário, soturna caixa de madeira escura dotada de treliça pela qual vazava, direto às narinas do confessante, um bafo que parecia ser modalidade olfativa de penitência. Sozinho, admitia você, com uma ponta de humilhação e o arrependimento adicional, nada cristão, de quem não cuidou de ser minimamente gregário naquele ramo de atividade. 
*
Mas eu falava das vantagens de ter nascido em família numerosa - fenômeno que se verificou também na casa ao lado, numa comprovação, quem sabe, de que nosso bairro era especialmente fértil quando se tratava de determinado tipo de sementinha, pois o tio João Antônio, irmão da mamãe, e a tia Yedda, com suas onze crias, não trabalharam menos que o dr. Hugo e a d. Wanda. O primo caçula, aliás, no auge da contestação adolescente, certa vez houve por mal recriminar o pai, cujo ímpeto reprodutivo lhe pareceu ter ido além da conta, mesmo para os padrões das Minas Gerais daquele tempo - e sobre ele recaiu a ironia inigualável do tio João Antônio: “Tem razão, meu filho, eu deveria ter parado no décimo filho...”
Quais vantagens, afinal? Vistas de longe, são elas numerosas, e nenhuma é tão bem-vinda quanto o fato de que, naquela extensa tribo, você podia passar razoavelmente despercebido, pois não existe pai e mãe que possam dispensar a cada um de seus rebentos os cuidados não raro sufocantes que consideram indispensáveis. Já contei que, número 2 por ordem de chegada ao mundo, lá em casa eu pertencia, pertenço ainda, a uma entidade batizada “Os Três Mais Velhos”. Ou, no dizer cáustico de uma das irmãs, “os filhos do primeiro casamento”, pois na sua vez, quase no fim da fila, já se havia dissolvido, num processo que não cessa de me emocionar, o rigor com que nosso pai tratou “Os Três Mais Velhos”. À semelhança dos carros (usava-se mais o substantivo automóvel) daquela Idade Média, também os pais zero km, para bem funcionarem, requeriam um período de amaciamento. Requeriam? Melhor botar o verbo no presente.
Não estou reclamando se disser que fui criado num pacote em que, por cima das características individuais, Rodrigo, Humberto e Otávio eram tratados da mesmíssima forma - o que, aliás, aconteceu também com os demais irmãos, quase todos eles, para efeito de gestão, organizados em outros pacotinhos. 
Para começar, éramos vestidos com o mesmo guarda-roupa, o qual, para as chamadas ocasiões especiais, não dispensava calças curtas, camisas e meias três-quartos, tudo isso branco como deviam ser as nossas almas, combinando com o azul-marinho dos cintos, suspensórios e sapatos. Idêntico era também o corte de cabelo, a cargo do Seu José, um barbeiro - e põe barbeiro nisso! - com cara de Geppetto que ia atender em casa e que reiteradas vezes perpetrou em nossos cocos, ao desmatá-los à la ministro Sales, aquelas moitinhas de pelos que décadas mais tarde o Ronaldo Fenômeno ameaçou botar em moda. Não adiantava a mamãe protestar ante o fato consumado, quando se deparava com aquelas três marmotas, pois o Seu José, impassível por detrás dos ‘oclinhos’ redondos, tinha pétrea opinião formada: “É o corte que lhes assenta, d. Wanda!” Hoje, mais do que as moitinhas pilosas, me impressiona a colocação do pronome. (Fosse o Seu José o autor desta frase, você teria lido “impressiona-me”.)
Umas tantas vezes por ano, pousava lá em casa a Noésia costureira, com a missão de pilotar, por não menos de uma semana, a Singer da mamãe, na qual, entre risadas de gordo em paz com suas banhas, produzia pilhas e mais pilhas de roupas, cuja matéria-prima a d. Wanda ia comprar nos atacadistas da Rua dos Caetés. Não esqueço uma peça de linho cinza-azulado que rendeu, para “Os Três Mais Velhos”, umas prodigiosas calças, capazes de espichar-se, ao longo do tempo, muito mais que eles em sua fase de impetuoso crescimento. Lá de casa, a Noésia saltava para a do tio João Antônio e da tia Yedda, ou da tia Bethinha e do tio Fernando, ou de qualquer outra do nosso sangue. Por pouco, não ficou fazendo parte da família.
*
A divisão da prole em blocos não era, é claro, exclusividade do clã da Padre Severino 178. Tenho na memória um casal cujos filhos, para todos os efeitos, sociais, inclusive, eram divididos em dois blocos. Os convites de aniversário que lá chegavam orientavam os pais para que mandassem “Os Três Mais Velhos”, ou “Os Três Mais Novos”. Tudo estaria muito bem, se entre os dois times não houvesse nascido um quarto filho, o qual, por boas razões, ninguém queria convidar.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Carona - Luis Fernando Verissimo

O George Soros anunciou em Davos que vai doar alguns dos seus milhões a universidades que se comprometam a combater o que ele vê como um pendor direitista, no mundo atual e na academia. Soros é daquelas personalidades que valem a pena acompanhar de perto, se possível em mesas de bares, para ouvir o que ele tem a dizer sobre como salvar o capitalismo de si mesmo. Com a certeza de que ele, pelo menos, pagará os chopes para todo mundo.
Há outra razão para tentar se aproximar de Soros e entrar na sua “entourage”, como dizem na Mooca, nem que seja só para carregar a merenda. Como se sabe, a Terra, nossa velha e boa Terra, está chegando ao fim. Talvez demore, mas, do jeito que vai, e do jeito que nós a maltratamos, é certo que o fim da Terra virá: pelo aquecimento global, pelo crescimento das águas até que a Estátua da Liberdade dê um último abano e naufrague, por choque com asteroide ou simplesmente por enfarte. Amigo meu se declarou um otimista, disse que não sabe se há vida depois da morte, mas, por via das dúvidas, vai levar um cartão de crédito. Mas os otimistas estão cada vez mais raros. O fim está próximo, e ninguém faz nada a respeito.
Errado. Tem gente – ou bilionários, uma pequena subdivisão de gente – planejando a fuga antes que o mundo acabe. Você pode apostar que os bilionários estão tomando medidas. Estão construindo arcas em estaleiros camuflados na Nova Zelândia, por exemplo, na esperança de que algo sobreviva ao dilúvio final. Estão fazendo reservas na primeira classe de foguetes que serão disparados para bases na Lua e em Marte. Bases que já existem, ou você pensa que os programas espaciais do Primeiro Mundo até agora eram só por interesse científico, e não a construção secreta de colônias para bilionários?
Você e eu, que não somos bilionários, teremos que contar com o bom coração de alguém que nos assegure uma carona na fuga final. E falou bilionário de bom coração, falou Soros, um filantropo conhecido. Procure Soros. Tente convencê-lo de que você daria um bom garçom na viagem para Lua ou Marte, e um bom limpador de piscinas quando chegassem à colônia. Se não conseguisse convencer Soros a lhe dar carona, paciência. Você pelo menos tomaria uns chopes na conta dele. 

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...