terça-feira, 9 de maio de 2023

E se você botar aí na ficha sapiossexual? – Manuela Cantuária

 "Seja bem-vinda ao setor de reencarnações. Nós analisamos a sua ficha e vimos que você pagou vários pecados. Parabéns. Sofreu bastante, inclusive. Até me emocionei em alguns trechos. Sinto muito. Bom, pelo menos agora você vai reencarnar numa existência mais tranquila. Achei um bebê perfeito pra você, a Valentina. Saudável, Sol em Sagitário, situação financeira boa, os pais fazem terapia."

"Que ótimo. Só uma curiosidade. A orientação sexual já consta aí nessa sua ficha?"

"Deixa só eu conferir aqui. Ah, você vai ser heterossexual. Que Deus te proteja."

"Não faz uma coisa dessas comigo. Por acaso o senhor já experimentou gostar de homem hétero?"

"Hétero não, graças a Deus".

"Sorte a sua. Um homem que fala top, sextou, tá pago, que tira a camisinha no meio da transa sem a gente perceber, que manda 'oi, sumida' no Whatsapp uma e vinte da manhã, que faz crossfit e curso de cervejeiro, que vaza nude da ex-namorada, que bota foto com golfinho no perfil do Tinder, que faz xixi fora do vaso..."

"Não precisa generalizar. Tem saído uma fornada boa aí de rapazes em desconstrução."

"Mesma coisa, só que de saia, unha pintada, não monogâmico e faz o próprio pão de fermentação natural. Acabei de trombar com um barbudo desses no corredor, cabeludo, de vestido, também não faz meu tipo. O que você tá anotando aí?"

"Acrescentei blasfêmia na sua lista de pecados. Chamar o filho de Deus de esquerdomacho dá nisso. Fica chato. "

"Sabe o que é chato? Gostar de homem. Quer me humilhar e me torturar, me manda pro inferno de uma vez. Tive uma ideia. E se você botar aí na ficha sapiossexual? Daí eu só vou sentir atração por homem inteligente, educado, sensível. Pode ser assexual também, no final das contas vai dar no mesmo."

"Olha, infelizmente, são ordens superiores."

"Isso aí é uma maldição que vocês tão jogando pra cima de mim. Vocês querem me punir, eu tenho certeza."

"Aceita os desígnios divinos, que dói menos. Tudo tem um motivo, tudo tem um porquê, mesmo que a gente não saiba..."

"Foi o pacto satânico ou o atropelamento?"

"Isso, mais o desvio do dinheiro da merenda de uma creche municipal. Mas fica tranquila, depois dessa reencarnação, tá pago."

 

Ilustração de Silvis


sábado, 6 de maio de 2023

Digitando... Online. Digitando... – Antonio Prata


 

Eu tinha me separado há coisa de duas semanas. Estava acampado no apartamento da minha irmã. Umas três da tarde, quarta-feira, toca o telefone. "Senhor Antonio, aqui é da Verisure. O alarme da sua casa disparou. Minha senha é navio, qual é a sua?"

 

Quando não aconteceu nada e o alarme disparou porque abrimos uma janela ou porta esquecendo de desativá-lo, basta dar a contra-senha. Ao ouvir "navio", devo dizer "mar". Caso haja um bandido com uma AK-47 na minha cabeça, devo dizer "tranquilo" e eles chamam a polícia. (Claro que as senhas não são essas. Fica a dica, caso você esteja interessado em assaltar minha ex-casa).

 

Pois bem, a moça disse "navio" e eu respondi "não moro mais nessa casa". Digo para ela ligar pra minha mulher, quero dizer, minha ex-mulher. Ela diz que já ligou várias vezes e não atende. Fico nervoso. Resolvo chamar um Uber e ir até a minha ex-casa ver se está tudo ok. Quando já estou na calçada e o Marcílio do Renaut Kwid com placa de final 98 está há sete minutos de mim, lembro do seu Antonio.

 

Seu Antonio é o segurança da rua. Eu tenho o telefone dele. (Um aparte: é sempre engraçado falar com seu Antonio, porque eu o chamo de "seu Antonio" e ele também me chama de "seu Antonio". Parece uma brincadeira de criança que fica repetindo o que o outro fala. Um dia pensei que devíamos nos tratar por "nosso Antonio", mas isso não tem absolutamente nenhuma relevância para essa história).

 

Pois: seu Antonio atende. "Oi, seu Antonio", eu digo. "Oi, seu Antonio", ele repete. Conto da ligação da Verisure e peço para que ele toque a campainha e veja se está tudo bem. Desligamos. Uns três minutos depois, seu Antonio me escreve. (Marcílio, do Renaut Kwid com placa de final 98, ainda está há seis minutos de mim, porque o tempo do Uber passa em uma dimensão diferente da dos nossos telúricos relógios, de forma muito mais lenta).

 

Seu Antonio me acalma: "Seu Antonio, está tudo bem". Escrevo: "A Julia tá em casa?". E é neste momento que esta história realmente começa. O WhatsApp mostra seu Antonio "digitando...". Então "online". Então "digitando..." de novo. Então "online". Então "digitando..." de novo.

 

O que faria com que seu Antonio se comportasse como se estivéssemos num xaveco na madrugada, hesitante, em dúvida se o próximo passo seria ousado ou pudico demais? Depois de uns trinta segundos de "digitando..." e "online", chega a resposta: "Está sim. Com o massagista".

 

Entendo imediatamente a hesitação do seu Antonio e sou grato por seu cuidado. O massagista é um cara de um metro e noventa, careca, musculoso e tatuado. Evidente que seu Antonio não acredita que ele seja um massagista. Deve estar pensando, neste momento, coitado do seu Antonio, saiu de casa há duas semanas e a Julia já o trocou pelo fortão.

 

Imagino a fofoca na rua. A Márcia, faxineira do 165, falando pra patroa: "Dona Julia se deu bem. Botou o baixinho pra fora e tá pegando um homenzarrão". Ou "agora entendi porque separaram. Entre o barrigudinho e o sarado, eu também ficava com o sarado".

 

Eu agradeço a seu Antonio e desligo, mas o incômodo vai crescendo. Sei que o massagista é de fato um massagista, conheço-o e também seu namorado, mas o famigerado patriarcado tem suas raízes bem fincadas em minh’alma. Passo a tarde aflito, imaginando a fofoca correndo pelo bairro. Oito da noite, cinco horas depois do ocorrido, mando um áudio. "Tranquilo, seu Antonio. Conheço ele. Ele é gay". Ridículo, eu sei. Patético. Mas é o que temos para hoje.


ilustração: Adams Carvalho 



sexta-feira, 5 de maio de 2023

Sou um aspirador de pó - Fabrício Carpinejar

 

Se quiser me ofender, terá trabalho. Não facilito a vida do agressor. Ele vai suar frio, passar sufoco, esclarecer questões, explicar posicionamentos.
Não sairei de cena chorando logo que ganhar um desaforo. Não aceitarei o figurino de vítima. Não me farei de coitadinho. Não me trancarei no quarto. Não evitarei o convívio.
Sou muito escolado em bullying para acolher rapidamente desaforo. Só eu mesmo posso me ofender e me perdoar – mais ninguém.
É o que todos deveriam pensar antes de sofrer.
O debochado não tem repertório. Ele guarda uma ou duas tiradas engraçadas que podem ser rebatidas com a autocrítica e inteligência.
Não se veja derrotado no início do jogo, não se enxergue constrangido por antecedência.
No Ensino Fundamental, na abertura das aulas, Marquinhos, líder da bagunça e das baixarias, buscou me humilhar na frente dos colegas. Quando a professora abandonou a sala para repor o giz, aproveitou a ausência e se aproximou de minha mesa.
Ele me analisou, analisou e despejou o veredito: – Você tem cara de “aspirador de pó”. O novo apelido vinha do nariz avantajado. Era uma versão doméstica para tamanduá.
Pronto: a turma inteira gargalhava alto de mim. A investida sugeria uma desmoralização do nome e sobrenome dali por diante.
Mas engoli a vergonha como uma aspirina a seco. Respirei fundo. E, de modo inédito, diferente de todas as vezes que me tolhi e me escondi, que fechei meu rosto nos braços, decidi responder. Concordei com a observação.
– Sim, eu sou um aspirador de pó. Ele não atinou o que desejava concordando, e completei: – Sou mesmo um aspirador de pó, que bom que você descobriu. Vem trocar meu saco!
Ele se calou. A turma agora reagiu a meu favor, dobrou o volume das risadas. Foi uma histeria coletiva, cadernos voando, pés batendo no chão, palmas estalando.
É certo que ele não sabia o que retrucar. Comeu a língua. Patinou na palavra. Demorou a perceber o estrago. Ficou branco, pálido, lesma.
Não contava com uma reação bem-humorada. Uma resposta espirituosa. Quem agride não programa a tréplica. Planejava criar uma tristeza em mim e abandonar a vítima no chão.
Mas não deixaria por menos. Nunca mais.
Marquinhos desapareceu ao longo do tempo, como poeira ranzinza da classe. Não esperava que o aspirador de pó estivesse ligado.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Mala pesada, sem alça e sem rodinhas - Fabrício Carpinejar

 Quem não tem medo de ser chato torna-se chato. Talvez a prepotência seja o caminho mais rápido até a chatice. Ao se considerar imune ao perigo, é mordido pela mosca azul. Chato é aquele que não se dá conta do seu exagero. Monopoliza a atenção, não oferece espaço para mais ninguém falar. O chato é a overdose da presença.

O chato não sabe se despedir, não sabe o momento de se retirar, não sabe o instante de se calar. Ameaça um "tchau" e retoma o "oi", recomeçando a saudação. Você viverá uma saideira de pé, infinita. Ele é o último a abandonar uma festa, a visita que não vai embora, que não respeita o cansaço e o sono alheios, que dá palestras ao telefone. Não percebe que as pessoas têm outros compromissos.

Todo chato conversa segurando o ombro ou o braço do interlocutor e fica beliscando para criar suspense ou pontuar a emoção de suas histórias.

Você não desfrutará de liberdade para se desvencilhar de seu cerceamento, encontrando-se preso a uma cotoveleira eletrônica. Ele também se destaca p ela compulsão de ser engraçado, de ser simpático, inventando piadas desprovidas de graça e rindo alto de cada uma delas. Acredita que tudo o que diz é importante e inadiável. Ele é, simultaneamente, o orador e o próprio público.

É aquele que jura que não está incomodando e arranja um pretexto para emendar assuntos. Apresenta incontinência verbal, apocalíptica, como se o mundo fosse acabar no próximo minuto. Não pode esquecer nada. Leva lista de supermercado para o bate-papo mais banal.

O chato jamais sofre de pressa. Não confere o relógio. Ou seja, acompanhará você para qualquer lado que esteja indo. Ele é um carrapato, sua escolta nas horas impróprias. Tanto faz se avisar que seguirá pela direita ou esquerda, para o lado oposto, ele é carente como cachorro de rodoviária. Não há como despistá-lo, porque ele não tem nenhum lugar agendado. Não apresenta um destino predeterminado - vem vagando sem rumo.

Chatice é tempo ocioso. Você logo se transforma no seu paradeiro, no seu alvo - vai querer almoçar com você, tomar café com você, passear com você, sair às compras com você.

Ele não guarda nem um pouquinho de timidez, de cautela, de pudor. Seu lema é "vou junto". Confunde a indiscrição com solicitude. Pensará que está fazendo um favor não o deixando sozinho.

O chato é perigoso e demorado, porque não tem consciência de que é chato. Não arca com culpa.

A chatice é um excesso, um sol a princípio simpático que se transforma em insolação. Pode até ser um excesso de virtude. Quem é preocupado demais com você vira chato. Quem é atento demais com você vira chato. Quem é romântico demais, a ponto de ser grudento, vira chato.

O chato sempre antecipa algo que era para ser segredo. É ele que vai revelar ao aniversariante a festa surpresa. Tudo é literal para o chato: você comenta, de modo educado, para ele passar em sua casa qualquer dia desses. E não é que ele entende que se trata de uma urgência e aparece na mesma tarde?

Vou parar por aqui antes de me sentir chato.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Estranhos frutos - Luis Fernando Verissimo

 Billie Holiday não podia cantar Strange Fruit, Estranho Fruto, quando e onde quisesse. Muita vezes, a permissão para cantar a canção dependia de uma negociação com o dono do bar ou o promotor do evento, preocupados com a reação do público, na sua maioria branco. A gravadora Columbia, da qual Billie era contratada, recusou-se a gravar Strange Fruit. Billie teve que recorrer a uma gravadora menor e, em 1939, lançou a incômoda canção junto com um certo Lewis Allan, pseudônimo de um professor judeu do Bronx chamado Abel Meeropol, autor do poema musicado por Billie, e sobre quem se sabe muito pouco. Meeropol e a mulher adotaram os filhos de Julius e Ethel Rosenberg, executados nos Estados Unidos por espionagem.

O poema de Meeropol que Billie transformou em letra foi em reação ao linchamento de dois afro-americanos no sul dos Estados Unidos, caçados e enforcados por nenhuma outra razão além da cor da sua pele. Há uma foto dos dois corpos pendendo, como estranhos frutos, do galho de um álamo, cercados por uma multidão de brancos com uma coisa em comum: todos sorriem de satisfação pelo que acabam de fazer.

Apesar do sucesso do disco, a ameaça de represália ou protestos onde a canção fosse apresentada continuou. Um lugar onde se podia ver e ouvir Billie Holiday cantando Strange Fruit ao vivo sem problemas era o Café Society, não por acaso a primeira boate integrada de Nova York, numa época em que, por exemplo, o Cotton Club apresentava os melhores artistas afro-americanos para uma plateia segregada, e afro-americanos só entravam para trabalhar na cozinha. 

Linchamentos eram comuns no sul do país. Enquanto o sul fornecia exemplos repetidos de selvageria racista, o resto do país vivia uma contradição que o estranho sucesso de Strange Fruit tipificou, a de um racismo que não se reconhecia, que amava Billie Holiday, lamentava a selvageria, admirava o poema, mas não se envolvia. A grande novidade das atuais manifestações antirracistas nos Estados Unidos é a participação de jovens brancos, que resolveram se envolver.



segunda-feira, 1 de agosto de 2022

O povo das coberturas - Luis Fernando Verissimo

 

Vai-se para uma cobertura atrás de um quintal

Amigo nosso, que acabei de inventar, mudou-se de um apartamento no quarto andar para um apartamento de cobertura. E nos contou que descobriu outra civilização: o povo das coberturas.

Começara investigando as coberturas próximas à sua, num raio que permitia o abano e a identificação fisionômica. Havia quatro à sua volta e ele estabeleceu contato com três. A quarta era de uma mulher de idade indefinível que molhava suas plantas de biquíni e desprezava os seus acenos matinais.

Todas as coberturas próximas tinham plantas, duas tinham pequenas piscinas. Uma tinha o que parecia ser uma coleção de esculturas eróticas. Ele está convencido de que, como um arqueólogo ao contrário, tropeçara numa civilização desconhecida no céu. O povo das coberturas é diferente. Ele só não sabe se é a diferença que o faz procurar as coberturas ou as coberturas que o torna diferente.

Ele encheu o terraço da sua cobertura com plantas, o que serviu para aproximá-lo da mulher de biquíni, com quem ele agora troca saudações entusiasmadas todas as manhãs. Agitam os braços, fazem grandes gestos de agradecimento ao sol e à chuva e desenvolveram uma sólida identificação comunitária pela mímica, de pomar a pomar.

Nosso amigo acredita que é a vegetação que faz a diferença entre o povo das coberturas e o dos outros andares. O povo das coberturas distancia-se o máximo possível do chão atrás de uma paradoxal compulsão agrícola. Em vez da fascinação milenar do jardim suspenso, o que ele tem, no fundo, é uma nostalgia da casa.

A cobertura é o térreo invertido e, portanto, uma espécie de exaltação do térreo. Ao contrário do que se pensa, vai-se para uma cobertura por humildade, pela mais rasteira das virtudes. Vai-se atrás de um quintal.

Nosso amigo conta que está à beira de uma revelação. Suspeita que todas as coberturas da cidade formam uma rede semafórica, uma silenciosa conspiração de sinais trocados acima da percepção comum e do controle das autoridades. Ele já captou luzes piscando numa cobertura e respondida da outra num código desconhecido. E acha que ainda não foi incluído na rede porque talvez duvidem das suas credenciais. Podem ter concluído, observando-o através de suas lunetas (todas as coberturas têm lunetas), que a dele é uma irreversível alma de quarto andar.

Ele tem passado as noites em claro, tentando decifrar o código e saber o que eles dizem. Não tem dúvida de que existe um intercâmbio clandestino entre os tetos da cidade e não descansará enquanto não descobrir o que combinam. Ou o incluírem no mistério.










Comprando uma britadeira - Antonio Prata

 Quando dei por mim estava petrificado, na Leroy Merlin, diante de uma britadeira. Dez mil reais. Parcelando em doze, calculei, daria uns 800 por mês. É caro? É. Mas rola? Rola. Por que não?

O que eu faria com uma britadeira? Quebraria coisas, óbvio. Que coisas? Não sei. Mas tive certeza de que a vida, com seu infinito manancial de oportunidades, me apresentaria situações "britadeiráveis". E, convenhamos, mesmo que não apresentasse, a gente sempre pode achar umas brechas.

Meu amigo Márcio, por exemplo. Ele atira de arco e flecha. Quando comprou um arco, ele pensava em caçar faisões? Jacus? Imaginava se defender de um ataque apache? Não. Ele queria, com o arco, o mesmo que eu com a britadeira. Todo fim de semana ele vai a um clube e atira nuns alvos. Por que eu não poderia achar os alvos pra minha britadeira? Seria uma britadeira, digamos, para uso recreativo. Seria o meu caiaque. O meu drone. A minha pipa.

Antes dessa racionalização, contudo, diante da britadeira, tentei me convencer de sua utilidade. Que casa não tem uma parede, uma mureta, uma pia, que seja, que não possa ser derrubada? E mesmo que não haja. Não temos amigos? Família? Será que nenhuma pessoa no meu ciclo de amizades precisa quebrar um piso? Uma laje?

Caso não houvesse nenhuma utilidade possível, cheguei a me imaginar no crime. Como um pichador. Sairia de casa à noite, britadeira no porta-malas. Iria, sei lá, pra Vila Nova Cachoeirinha. Pra Jundiaí. Angatuba. Quebraria uma calçada, derrubaria uma estátua e voltaria a milhão no carro, fugindo. Numa vibe mais civilizatória, quem sabe não me ofereceria como voluntário em demolições? (Galo de Luta: vamos derrubar o nefasto Borba Gato?).

Não foi a primeira vez que senti este comichão. A Leroy Merlin mexe em algo muito profundo "do meu eu". Algo de "homem branco hétero cis" do século 20. (Desculpa. Eu sou). Casa & Construção também tem esse poder.


Dez anos atrás, fui morar na Granja Viana. Fiquei cinco minutos diante de um machado. Era que nem de desenho animado. Pica pau. Cabo de madeira, lâmina vermelha com a parte afiada metálica. Tentei me convencer: moro no campo.

Um dia, uma árvore vai cair no meio da rua. Alguém perguntará: "quem tem um machado?!". E eu apareceria. Cortaria a árvore. Sairia como herói. Não me convenci. Eu não seria sequer capaz de usar o machado. Talvez matasse ou morresse no processo.

Dez mil reais. Dividido em doze... O machado era bem mais barato. Assim como cem metros de corda. Uma peixeira. Um carrinho de mão. Outro dia, voltando de uma festa, passei diante da Leroy. Movido pela empolgação pós quarentena e pelos eflúvios do álcool, mudei o destino do Uber. Entrei. Um ombrelone: quem não quer? Um carrinho de mão: vai saber quando se precisa? Tijolos, cimento, areia: é sempre bom estar prevenido. Cordas. Cem metros de cordas. Duzentos. Se eu tiver que amarrar a árvore caída e cortada com o machado pra levar no carrinho de mão?

Sim. Sou um homem branco, hétero, cis, frágil e perdido como Tony Soprano ou Walter White. Não peço, de forma alguma, a vossa compaixão. Todo mundo tá mais ferrado do que eu. Eu sei. Mas tem um vazio no peito que, no corredor de "ferragens" da Leroy ou na gôndola de "furadeira e brocas" do Casa & Construção, sinto que pode ser preenchido. Dez mil. Parcelado em doze. Dá?


ilustração: Adams Carvalho









Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...