terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Estranhos frutos - Luis Fernando Verissimo

 Billie Holiday não podia cantar Strange Fruit, Estranho Fruto, quando e onde quisesse. Muita vezes, a permissão para cantar a canção dependia de uma negociação com o dono do bar ou o promotor do evento, preocupados com a reação do público, na sua maioria branco. A gravadora Columbia, da qual Billie era contratada, recusou-se a gravar Strange Fruit. Billie teve que recorrer a uma gravadora menor e, em 1939, lançou a incômoda canção junto com um certo Lewis Allan, pseudônimo de um professor judeu do Bronx chamado Abel Meeropol, autor do poema musicado por Billie, e sobre quem se sabe muito pouco. Meeropol e a mulher adotaram os filhos de Julius e Ethel Rosenberg, executados nos Estados Unidos por espionagem.

O poema de Meeropol que Billie transformou em letra foi em reação ao linchamento de dois afro-americanos no sul dos Estados Unidos, caçados e enforcados por nenhuma outra razão além da cor da sua pele. Há uma foto dos dois corpos pendendo, como estranhos frutos, do galho de um álamo, cercados por uma multidão de brancos com uma coisa em comum: todos sorriem de satisfação pelo que acabam de fazer.

Apesar do sucesso do disco, a ameaça de represália ou protestos onde a canção fosse apresentada continuou. Um lugar onde se podia ver e ouvir Billie Holiday cantando Strange Fruit ao vivo sem problemas era o Café Society, não por acaso a primeira boate integrada de Nova York, numa época em que, por exemplo, o Cotton Club apresentava os melhores artistas afro-americanos para uma plateia segregada, e afro-americanos só entravam para trabalhar na cozinha. 

Linchamentos eram comuns no sul do país. Enquanto o sul fornecia exemplos repetidos de selvageria racista, o resto do país vivia uma contradição que o estranho sucesso de Strange Fruit tipificou, a de um racismo que não se reconhecia, que amava Billie Holiday, lamentava a selvageria, admirava o poema, mas não se envolvia. A grande novidade das atuais manifestações antirracistas nos Estados Unidos é a participação de jovens brancos, que resolveram se envolver.



segunda-feira, 1 de agosto de 2022

O povo das coberturas - Luis Fernando Verissimo

 

Vai-se para uma cobertura atrás de um quintal

Amigo nosso, que acabei de inventar, mudou-se de um apartamento no quarto andar para um apartamento de cobertura. E nos contou que descobriu outra civilização: o povo das coberturas.

Começara investigando as coberturas próximas à sua, num raio que permitia o abano e a identificação fisionômica. Havia quatro à sua volta e ele estabeleceu contato com três. A quarta era de uma mulher de idade indefinível que molhava suas plantas de biquíni e desprezava os seus acenos matinais.

Todas as coberturas próximas tinham plantas, duas tinham pequenas piscinas. Uma tinha o que parecia ser uma coleção de esculturas eróticas. Ele está convencido de que, como um arqueólogo ao contrário, tropeçara numa civilização desconhecida no céu. O povo das coberturas é diferente. Ele só não sabe se é a diferença que o faz procurar as coberturas ou as coberturas que o torna diferente.

Ele encheu o terraço da sua cobertura com plantas, o que serviu para aproximá-lo da mulher de biquíni, com quem ele agora troca saudações entusiasmadas todas as manhãs. Agitam os braços, fazem grandes gestos de agradecimento ao sol e à chuva e desenvolveram uma sólida identificação comunitária pela mímica, de pomar a pomar.

Nosso amigo acredita que é a vegetação que faz a diferença entre o povo das coberturas e o dos outros andares. O povo das coberturas distancia-se o máximo possível do chão atrás de uma paradoxal compulsão agrícola. Em vez da fascinação milenar do jardim suspenso, o que ele tem, no fundo, é uma nostalgia da casa.

A cobertura é o térreo invertido e, portanto, uma espécie de exaltação do térreo. Ao contrário do que se pensa, vai-se para uma cobertura por humildade, pela mais rasteira das virtudes. Vai-se atrás de um quintal.

Nosso amigo conta que está à beira de uma revelação. Suspeita que todas as coberturas da cidade formam uma rede semafórica, uma silenciosa conspiração de sinais trocados acima da percepção comum e do controle das autoridades. Ele já captou luzes piscando numa cobertura e respondida da outra num código desconhecido. E acha que ainda não foi incluído na rede porque talvez duvidem das suas credenciais. Podem ter concluído, observando-o através de suas lunetas (todas as coberturas têm lunetas), que a dele é uma irreversível alma de quarto andar.

Ele tem passado as noites em claro, tentando decifrar o código e saber o que eles dizem. Não tem dúvida de que existe um intercâmbio clandestino entre os tetos da cidade e não descansará enquanto não descobrir o que combinam. Ou o incluírem no mistério.










Comprando uma britadeira - Antonio Prata

 Quando dei por mim estava petrificado, na Leroy Merlin, diante de uma britadeira. Dez mil reais. Parcelando em doze, calculei, daria uns 800 por mês. É caro? É. Mas rola? Rola. Por que não?

O que eu faria com uma britadeira? Quebraria coisas, óbvio. Que coisas? Não sei. Mas tive certeza de que a vida, com seu infinito manancial de oportunidades, me apresentaria situações "britadeiráveis". E, convenhamos, mesmo que não apresentasse, a gente sempre pode achar umas brechas.

Meu amigo Márcio, por exemplo. Ele atira de arco e flecha. Quando comprou um arco, ele pensava em caçar faisões? Jacus? Imaginava se defender de um ataque apache? Não. Ele queria, com o arco, o mesmo que eu com a britadeira. Todo fim de semana ele vai a um clube e atira nuns alvos. Por que eu não poderia achar os alvos pra minha britadeira? Seria uma britadeira, digamos, para uso recreativo. Seria o meu caiaque. O meu drone. A minha pipa.

Antes dessa racionalização, contudo, diante da britadeira, tentei me convencer de sua utilidade. Que casa não tem uma parede, uma mureta, uma pia, que seja, que não possa ser derrubada? E mesmo que não haja. Não temos amigos? Família? Será que nenhuma pessoa no meu ciclo de amizades precisa quebrar um piso? Uma laje?

Caso não houvesse nenhuma utilidade possível, cheguei a me imaginar no crime. Como um pichador. Sairia de casa à noite, britadeira no porta-malas. Iria, sei lá, pra Vila Nova Cachoeirinha. Pra Jundiaí. Angatuba. Quebraria uma calçada, derrubaria uma estátua e voltaria a milhão no carro, fugindo. Numa vibe mais civilizatória, quem sabe não me ofereceria como voluntário em demolições? (Galo de Luta: vamos derrubar o nefasto Borba Gato?).

Não foi a primeira vez que senti este comichão. A Leroy Merlin mexe em algo muito profundo "do meu eu". Algo de "homem branco hétero cis" do século 20. (Desculpa. Eu sou). Casa & Construção também tem esse poder.


Dez anos atrás, fui morar na Granja Viana. Fiquei cinco minutos diante de um machado. Era que nem de desenho animado. Pica pau. Cabo de madeira, lâmina vermelha com a parte afiada metálica. Tentei me convencer: moro no campo.

Um dia, uma árvore vai cair no meio da rua. Alguém perguntará: "quem tem um machado?!". E eu apareceria. Cortaria a árvore. Sairia como herói. Não me convenci. Eu não seria sequer capaz de usar o machado. Talvez matasse ou morresse no processo.

Dez mil reais. Dividido em doze... O machado era bem mais barato. Assim como cem metros de corda. Uma peixeira. Um carrinho de mão. Outro dia, voltando de uma festa, passei diante da Leroy. Movido pela empolgação pós quarentena e pelos eflúvios do álcool, mudei o destino do Uber. Entrei. Um ombrelone: quem não quer? Um carrinho de mão: vai saber quando se precisa? Tijolos, cimento, areia: é sempre bom estar prevenido. Cordas. Cem metros de cordas. Duzentos. Se eu tiver que amarrar a árvore caída e cortada com o machado pra levar no carrinho de mão?

Sim. Sou um homem branco, hétero, cis, frágil e perdido como Tony Soprano ou Walter White. Não peço, de forma alguma, a vossa compaixão. Todo mundo tá mais ferrado do que eu. Eu sei. Mas tem um vazio no peito que, no corredor de "ferragens" da Leroy ou na gôndola de "furadeira e brocas" do Casa & Construção, sinto que pode ser preenchido. Dez mil. Parcelado em doze. Dá?


ilustração: Adams Carvalho









terça-feira, 3 de maio de 2022

Cada coisa tem seu cada qual - Gilberto Amendola

 A moeda que caiu no vão do sofá – é sozinha.

O brigadeiro pisado no carpete felpudo – é sozinho.

A garrafa pet que navega o Tietê – é sozinha.

Uma tampa de caneta Bic mordida – é sozinha.

O guarda-chuva pingando na entrada da loja – é sozinho.

Um fone de ouvido quebrado – é silêncio.

O calendário do ano passado – é memória.

Um passaporte vencido – é saudade.

O buraco na parede – é ausência.

Um relógio sem ponteiros – é meio-dia.

O barulho da geladeira – é meia-noite. 

Um copo sujo de café – é futuro.

A bengala cinza encostada na parede – é passado.

Fotografias de um amor perdido – é castigo

Um livro não lido – é ficção.

Um celular no modo avião – é viagem.

Um All Star desamarrado – é juventude. 

Uma cortina que voa – é Aladdin.

Uma tesoura sem ponta – é precaução.

Um dedo postiço – é mágica (e também serve para nos lembrar que nem tudo precisa ter utilidade). 

Cada coisa tem o seu cada qual. Ou pelo menos tinha. Não sei se hoje ainda é assim.

Antigamente, atrás da tampinha de Coca-Cola tinha uma figurinha ou um brinde – e isso era esperança.

Antigamente, nos palitos de sorvete a gente lia que havia outro picolé nos esperando – e isso também era esperança.

Antigamente, eu esperava horas até carregar uma foto de mulher pelada no meu computador – e isso era resiliência (e esperança também).

Antigamente, para não pagar a viagem de ônibus, a gente descia por trás. 

Antigamente, eu tinha uma vitrola da Gradiente. Nela, minha mãe ouvia Álibi, um disco lindo da Maria Bethânia – e desde muito novo cantava com ela: “de noite eu rondo a cidade e lá, lá, lá...” 

Antigamente, a gente “andava de cavalinho” nos ombros do pai; aprendia a fazer barulho de peido com a avó (assoprando as costas da mão) e a beber espuminha de cerveja com o tio.

Antigamente, a gente escrevia cartas para o Papai Noel, para parentes do exterior, para garotas impossíveis e para o Porta da Esperança.

O e-mail guardado na caixa de rascunhos não é nada – e nem ninguém.

A mensagem no site pede para que eu confirme, com um clique, que eu não sou um robô. Que eu não sou.

A mão treme

Às vezes.


Foto: Tiago Queiroz


domingo, 24 de abril de 2022

Costela no escapamento da moto - Antonio Prata

 


Eu tenho um novo ídolo. Não sei o nome dele, a idade, onde mora nem o que pensa sobre blocos de Carnaval, o VAR ou a descriminalização da maconha. Só sei que aparece no YouTube sempre que eu teclo "costela no escapamento da moto" --e eu tenho teclado "costela no escapamento da moto" sempre, ultimamente. É meu cigarro, minha cachaça, meu cafezinho.

 

Ó o que o cara faz: embrulha uma costela de boi em bastante alumínio. Com arames e um alicate, prende a costela ao escapamento de uma moto e sai de Cananeia, litoral de São Paulo, em direção à Itapetininga, interior. Segundo meu Google Maps, são 217 km, ou 3h37. Se eu fosse opinar, diria que uma costela precisa de pelo menos 400 km para assar direito. Rio x São Paulo seria o ideal, mas a costela do figura era pequena, vai quê?

 

Meu ídolo chega em Itapetininga e vai abrir o embrulho. Família e amigos o cercam, apreensivos, naquela tensão que eu chamaria de gastrossuspense. Quem nunca sofreu, ao abrir um alumínio com carne, peixe, porco ou legumes, as dores do gastrossuspense? Ao puxar a bandeja de um Airfrier? Ao destampar a panela de barro de uma moqueca? Ao abrir uma lata de leite condensado colocada na pressão?

 

O auge do meu gastrossuspense foi durante a quarentena, em São Francisco Xavier. Eu e dois amigos pegamos uma panela gigante. Jogamos lá dentro batata-doce, mandioquinha, abóbora japonesa, cebolas, alho, repolho, pimentão, tomates, abobrinha, berinjela. Uma picanha, paio, linguiça portuguesa, linguiças frescas de diferentes tipos, uma costela de porco. Temperamos com todas as ervas que tínhamos a mão: muito cheiro verde, tomilho, alecrim, manjericão, manjerona, cominho, pimenta-do-reino, sal e azeite.

 

O jardim da casa de São Francisco tinha um buraco no chão, feito para fogueiras. Enchemos de lenha e deixamos queimar por umas duas horas, até que o círculo parecesse a entrada principal do inferno. Pusemos o caldeirão sobre as brasas, tampamos, fechamos o buraco com ripas de madeira, folhas de bananeira e lacramos com um monte de lama, tirada com enxada da beira do rio. (Sim, estou me exibindo como um Putin cavalgando sem camisa, mas a nossa masculinidade não era tóxica, era orgânica e inofensivamente patética, pela distância entre nossas panças branquelas respingadas de lama e, digamos, um Rambo com os peitorais riscados por carvão).

 

Pois bem, esperamos quatro horas, saboreando cada gotinha de adrenalina e cortisol do gastrossuspense. Tiramos o panelão com auxílio de conchas, panos e alavancas. Abrimos e... Tava cru, infelizmente. Tivemos que finalizar no fogão. Mas isso é outra história. Eu queria era falar da costela no escapamento.

 

Lá em Itapetininga, o figura abre o alumínio. Num primeiro momento, todos acham que a costela tá crua. Mas o cara corta um pedacinho e prova. Sorri. Dá pra ver a tensão desaparecer do ombro de cada um ali. Eu, já praticamente um membro da família, também me alegro, em casa –todas as vezes. Conseguimos.

 

Imagino um super-herói. Ele erra pelo mundo em sua motoca, roupa de couro e capacete, cheio de embrulhos laminados no escapamento. Quando percebe uns amigos famintos, bebendo no bar, um coração partido num ponto de ônibus, um casal lariquento na madrugada, surge: o cheiro precede o ronco do motor. Sem jamais tirar o capacete, ele saca um alicate do bolso, corta os arames e serve o banquete de carnes, tubérculos e legumes. Depois some no horizonte, deixando só um rastro de fumaça e uns esvoaçantes pedacinhos de papel alumínio a brilhar sob as luzes dos postes.

 

 

Ilustração: Adams Carvalho



terça-feira, 19 de abril de 2022

Quiproquó - Gilberto Amendola

A frase que eu usava saindo da boca dela. As mesmas pausas. A ênfase na sílaba

 errada. E aquela palavra que eu sempre repetia: quiproquó.

Tem mais humor quando é ela quem diz – isso não posso negar. O meu quiproquó não tem tanta cor. Acho um quiproquó meio sem energia. 

O dela é um quiproquó pueril. Sexy. Lascivo. Imagino corpos sobrepostos em um quiproquó erótico.

Diferente do meu, que é vulgar e italianado. O meu é um quiproquó de corpos sobrepostos como o espólio de uma guerra perdida.

Amor é linguagem, fluidez de sintaxes e construções.

Língua e quiproquó.

O dela, o quiproquó dela, ficaria bonito em qualquer idioma. Não precisaria de legenda. 

Quando ela foi embora, e foi pra sempre, esqueceu de deixar pra trás o verbo, a camisa do verbo, o humor do verbo e o emprego do verbo.

Foi com ela o tal do verbo. Lá ficou. Vez ou outra, quando tenho coragem, me ouço. Me ouço no discurso, no tom, no som, no vento que passa entre os dentes, por entre o diastema dela. Diastema, que baita palavra!

Quando digo diastema penso em um antibiótico amargo. Na boca dela, o diastema é um tipo de brigadeiro.

Diastema e quiproquó na boca dela.

Vocabulário é uma coisa que entra na gente por osmose. Não posso recriminá-la. 

Mas claro, gostaria de ao menos ver minha influência reconhecida. 

Não seria preciso fazer grande estardalhaço (quiproquó). Bastaria, ao meu juízo, uma discreta nota de roda pé com a seguinte sentença: “sim, isso eu peguei de você”.

E pegou de mim porque, sei lá, em algum multiverso desses da loucura você também gostou de mim. 

Penso em reclamar, mas calo. Calo com as palavras que ela usa até gastar. Palavras que vão perder o viço antes mesmo que eu possa me apropriar delas novamente.

Seria preciso me desalfabetizar. Desaprender o bê-a-bá da velha convivência.

O amor educa até os caducos. Maluco?

Não há nada para ser feito com o que feito está. O “mundo gira e a Lusitana roda” – conhece essa, meu bem?

Eu mesmo roubei umas coisas. Umas gírias. Uns hiatos. Umas interjeições tímidas e recatadas. Agora sou eu mas era dela. Foi algo que eu comprei sem precisar.

Ela também não precisa daquilo que levou e, de certo, usa só por distração. Usa sem notar que é meu. Nem gosto dela. É só um jeito de falar. Um jeito de falar quiproquó.


Amor é linguagem, fluidez de sintaxes e construções.' Foto: Pixabay/@ThorstenF



segunda-feira, 11 de abril de 2022

Meus brasileiros preferidos - Gilberto Amendola

 


O vovô da banquinha do Jogo do Bicho. O barbeiro português. O eleitor arrependido. O vira-lata manco e banguela. A garota de programa do oitavo andar. O Zé Louquinho da minha rua. O porteiro gente fina e torcedor do Campinense. O bêbado que começa cedo. O bêbado que é o último a ir embora. A dona de muitos gatos. O nerd fã de Star Wars. O cover do Elvis. A cantora de igreja. O amolador de facas comunista. A enfermeira que casou com o paciente de 90 anos. As crianças que tocam a campainha e saem correndo.

 

Quem não quer deixar de usar máscara. O professor aposentado que faz palavras cruzadas embaixo da árvore. O desempregado que faz bolão da Mega Sena. O ex-lutador de boxe que vive com uma foto da esposa falecida no bolso da calça. A ciclista que usa um capacete com as cores da bandeira francesa. O manobrista que nunca tirou habilitação. A amiga que manda nudes. O amigo que entende de drinques. O papagaio que canta o Hino da Bandeira. A tiazinha que lê a mão sem cobrar um tostão. O presidente do fã-clube de um cantor ruim. A coruja que dormiu em cima da placa de proibido estacionar. O inventor de traquitanas inúteis.

 

O vizinho que empresta a senha do Wi-Fi. A jornalista de moda que passeia com o cachorro de pijama e chinelinho. O vendedor de bolhas de sabão que nunca acertou fazer uma bolha de sabão. O torcedor do Juventus que categorizou 659 maneiras de xingar o juiz. O padre que largou a batina e se casou com uma dançarina de boate. O porteiro de boate que troca o dia pela noite. O tocador de tuba que nunca mais conseguiu afinar seu instrumento. O adolescente cheio de espinhas que sonha com a Scarlett Johansson. O marido traído que voltou para a mulher. A bibliotecária que faz curso de pompoarismo por correspondência. O velhinho que conta sempre a mesma história. A organizadora de rifas.

 

O vizinho que ouve Leonard Cohen no último volume. A solteirona que ainda suspira por um amor platônico da adolescência. A malabarista de farol que se apaixonou por um agente de trânsito. A velha turca que faz doces de pistache e nozes. O mudo que escreve discursos para futuros presidentes. O cego que viu a luz. O sujeito que garante ter sido abduzido por alienígenas. O cobrador de ônibus que conhece os passageiros pelo nome. A ex-participante de reality show que foi viver sozinha no deserto. O poeta que nunca publicou um livro, mas guarda todos os seus versos na cabeça. O atleta olímpico que perdeu sua medalha no aeroporto. Quem se dedica a avistar passarinhos. O resto. O resto não me interessa.


Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...