quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

O Coringa e as incertezas do nosso mundo - Roberto DaMatta


Vi muitos coringas lendo nos gibis as aventuras de Batman & Robin e indo ao cinema para ver suas réplicas e realidades, pois o que salva ou destrói um filme é precisamente o seu ultrarrealismo tão complicado de fantasiar. 
A novidade desse filme de Todd Phillips sobre o Coringa é a sua centralidade. O dualismo do “mocinho” contra o “bandido” – nos clássicos americanos e bem longe de nós, brasileiros, e da lei contra o crime – não existe nessa versão e talvez isso seja um sintoma da nossa descrença no progresso e no final feliz, quando o Bem triunfa sobre o Mal e o progresso engloba a miséria. Afinal, temos dois papas e os sinais de que não há sistemas perfeitos são claríssimos. 
Como o filme mostra, o Bem e o Mal coexistem dentro de nós, tal como o aquecimento global é um hóspede não convidado da nossa tecnocracia consumista e globalizada.
Nesse filme, testemunhamos a transformação de Arthur Fleck num misto de ressentido e rejeitado vingador social em paralelo à indiferença da patologia urbana capitalista do Bruce Wayne de Gotham City. A cidade que precisou do Batman (ao contrário do Coringa – morcegos não riem...) para deixar de ser uma combinação do pior da Londres de Jack, o Estripador, com o Rio de Janeiro de hoje. Uma urbe na qual o pior é o melhor. 
Impressionei-me com a ausência do dualismo do Bem e do Mal, pois, se os filmes americanos reiteram uma história de heróis que, com coragem e confiança, viram vencedores, o que vemos no Coringa é um cruel processo de marginalização de um indivíduo perdido na sua patologia. Um processo causado pela indiferença institucional, que olha mais para a doença do que para o doente – um pobre-diabo anônimo que nem sequer pode ser um palhaço – um joker.
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Sei “ler” o baralho, esse espelho do nosso mundo social com cartas pretas (copas simbolizam o clero; paus, o povo; espadas remetem aos nobres e o vermelho, ao ouro dos comerciantes). Já as figuras eram nobres (rei, rainha, valete) e os números, os comuns. No meio dessa gramática rígida, porém, havia uma carta singular porque ela combinava com todas as outras: o coringa. Esse “joker”, ou gozador, que foi introduzido no baralho nos Estados Unidos.
O joker, como revela o filme, deveria, mas não consegue entrar em nenhum naipe ou jogo. Ele é marcado pela rejeição institucional e pela infelicidade de uma condição psicológica que o faz rir desbragadamente num sistema no qual todos devem ser sérios. 
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Alguém poderia escrever um livro sobre o riso e o sério; sobre a gargalhada que joga tudo para cima e o discurso burguês salvacionista; sobre o riso desbragado e o grave discursar, sobre a ordem da palavra (ou a palavra de ordem) e a desordem satírica do riso que denota zombaria, baderna, malandragem e descaso. 
Eu não conheço muitos mitos da origem do riso, mas Mikhail Bakhtin, no livro A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: O Contexto de François Rabelais, ensina: “No começo do mundo, os homens eram sérios. Mas o diabo enviou o riso para o mundo e apareceu aos homens com a máscara da alegria e eles o acolheram com agrado. No entanto, mais tarde, o riso tira a máscara alegre e começa a refletir sobre o mundo e os homens com a crueldade da sátira”. 
O que remete à tragédia de um mundo consumista no qual cabe a marginalidade, mas não o gargalhar do Coringa, que promove mal-estar em meio a uma necessária impessoalidade. A compulsão ao riso destoa do foco, do projeto que todos devem ter. Afinal, só os ricos riem à toa e, como disse Henri Bergson, não rimos de tudo a todo momento. O riso é um sinal de indiferença e distanciamento. Matar com um riso aberto não seria o estigma inconsciente desse Coringa, cujo riso descontrolado o impede de entrar do mundo? 
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No filme, o riso descontrolado é o sintoma de uma sociedade marcada por ganhadores ou perdedores, os que não sabem a gramática do riso e da seriedade. O mundo pós-moderno, mas ainda burguês, exige seriedade tanto à direta (com seus contratos de expropriação) quanto à esquerda (com suas sagradas e utópicas palavras de ordem). No Coringa, o riso leva à marginalidade e se transforma num poder dos fracos. O riso do Coringa produz o seu esmagamento, mas sugere a legitimação da violência transformadora como revanche. 
Em suma, esse Coringa pode ser lido como um avatar de um mundo certo de suas incertezas. Pelo menos, foi essa a emoção que o filme em mim despertou.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Instrumentos - Luis Fernando Verissimo

Discute-se qual é o melhor, o baixo acústico ou o baixo elétrico, que se segura como uma guitarra. O baixo elétrico é mais leve e mais fácil de carregar, mas o baixo acústico, daquele tamanho, é sempre um companheiro com quem você pode conversar, mesmo que ele nunca responda. E você jamais terá com um baixo elétrico a mesma intimidade que tem com o baixo acústico, como dedilhar a sua cabeça com uma mão enquanto faz cócegas na sua barriga com a outra. Em certas situações o baixo acústico substitui a amante ou o amante e passa a noite inteira roçando a sua perna – com a vantagem que nas viagens de avião você pode despachar o baixo acústico no compartimento de bagagens, coisa que jamais faria com sua mulher ou seu marido. 
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Se você estranha a violência com que o baterista às vezes toca é porque ele já está pensando no trabalho que terá para desmontar seu instrumento, enquanto o flautista, por exemplo, guarda a sua flauta no estojo em dois minutos e vai tomar um chope com a banda, e ainda lhe dá um tchau irônico. 
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O maior instrumento conhecido é o órgão de uma pequena cidade no interior da França tão poderoso que, da primeira e última vez em que foi tocado, deixou a igreja de pé, mas destruiu toda a cidade à sua volta. A cidade está sendo reconstruída como atração turística e os restos do organista estão sendo retirados, pouco a pouco, de dentro do órgão.
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Os menores instrumentos do mundo são, na ordem regressiva, a harmônica, ou gaitinha de boca, o pífaro ou piccolo, que é uma espécie de filhote de flauta, e aquela folha que a gente arrancava de certas árvores da adolescência que não existem mais, dobrava, levava à boca, assoprava e produzia um som aproximado de trompete com surdina, fingindo que era o Miles Davis. A principal característica dos instrumentos menores é que podem ser carregados no bolso da camisa – para raiva do baterista.
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A família dos saxofones vai do sax barítono, que, só pelo tamanho, exerce uma espécie de autoridade moral sobre o resto do naipe e cuja nota mais baixa é tão baixa que só pode ser tocada com autorização da Saúde Pública, ao sax alto, passando pelo sax tenor e pelo sax soprano. O som do sax tenor é o que mais se aproxima da voz humana, tanto que é comum o músico encerrar um solo de tenor e ouvir a pergunta: “O que você quis dizer com isso?”. 
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E chegamos ao trombone de vara, o instrumento que mais cria caso numa orquestra. A vara do trombone se estende por uma boa distância e é praxe os trombonistas sentarem atrás dos saxofonistas, e é inevitável que, volta e meia, uma vara de trombone acerte a nuca de um saxofonista à sua frente. O saxofonista reage, e está armada a confusão, que vira guerra, com instrumentos sendo usados como armas, de nada adiantando os pedidos repetidos de calma do sax barítono.
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Faltou o piano. Mas todo o mundo sabe que o piano não é um instrumento, o piano é um mundo. 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Sempre anunciaram o fim do mundo, mas agora não é a Bíblia, é a comunidade científica - Gregorio Duvivier

André Dahmer

Toda a nossa sociedade se baseia na ideia de que a gente herdou o mundo dos nossos antepassados, e tudo se organiza para honrar o seu legado. Nosso nome carrega o nome deles, as ruas carregam o nome deles, os estádios, as cidades, as doenças, as ideias. "I seed ded people", dizia o garoto de "O Sexto Sentido" e ele não estava maluco. As leis que nos governam foram escritas, maioria, por gente que já morreu. Os discursos que nos moldara? Não tá mais aqui quem falou. O Brexit foi votado por gente que não estará mais viva quando ele ocorrer. "Os vivos são e serão cada vez mais governados pelos mortos", dizia Augusto Comte, um morto que nunca imaginou que governaria o Brasil.

Wendel Berry, poeta e ambientalista foi quem primeiro propôs a inversão: "Nós não herdamos o mundo de nossos antepassados, nós pegamos emprestado dos nossos filhos". O mundo é uma casa alugada e o proprietário acabou de nascer. Normal que esteja revoltado com o estado em que ela se encontra. A geração anterior pensa que é dona do mundo, mas é o cupim.

"Todo millennial é um mimado! o jovem tem tudo de mão beijada e nunca tá feliz."

Por tudo, eles querem dizer: um smartphone, um wifi e uma  patinete elétrica. Obrigado por tudo, foi muito legal da parte de vocês, mas acho que o jovem trocaria o iPhone X por alguma perspectiva de futuro.

A  Greta Thunberg não deveria ter substituído a "paixão" pela "raiva", reclamou o Eduardo Jorge, que continuou: "Mais compaixão e menos ressentimento vai nos ajudar mais". Admiro a autoestima desse político que teve menos de 1% de intenção de voto à vice-presidência e continua  ensinando estratégias de comunicação. Tivesse mais humildade,  estaria se perguntando porque o discurso de Greta comove tanta gente e o dele não.

É fácil manter a placidez quando você vai morrer. A raiva é um direito alienável de uma menina que ver o mundo acabar antes dela.

Sempre anunciaram o fim do mundo, mas agora não é a Bíblia, nem Nostradamus, é a comunidade científica ---------as mesmas pessoas excêntricas que dizem que a Terra é redonda. Negar o apocalipse eminente é uma forma de terra planismo.

Trump, Bolsonaro, Putim, todos devem morrer antes do mundo.  O fim do mundo, pra eles, é indiferente. Não vão estar aqui mesmo. Abaixo os mortos e todos os que querem que o mundo morra junto com eles.

Todo poder às pirralhas, aos secundaristas, aos recém-nascidos, a todos que não têm planos de morrer tão cedo.


Catarina Bessell/Folhapress

Minha feminista predileta - Carlos Gerbase

Tento aprender cada vez mais sobre os feminismos. Faço isso em casa, ouvindo e debatendo com minhas três filhas. Amplio a discussão na universidade com minhas alunas. E, é claro, dentro de minhas possibilidades, leio as autoras contemporâneas, que são muitas e têm ideias às vezes bem contrastantes. Admiro o trabalho pioneiro de Laura Mulvey na área audiovisual, me diverti horrores com as teses anarquistas, mas sempre coerentes, de Paul B. Preciado (que já assinou como Beatriz Preciado), e sei da importância de Judith Buttler, recentemente hostilizada de forma covarde quando visitou o Brasil. Preciso me dedicar mais às feministas brasileiras, que já criaram uma sólida bibliografia e têm contribuído muito para o debate. Haja tempo e haja óculos de leitura.

Minha feminista favorita, contudo, ainda é Camille Paglia. A lúcida e sensacional entrevista que ela deu para Gunter Axt em meados de 2019 me levou a percorrer com voracidade sua obra, que demonstra uma grande erudição no campo das artes plásticas. Leio agora Imagens Cintilantes: uma Viagem através da Arte, desde o Egito a Star Wars, uma introdução brilhante e acessível à história da arte. 

Li boa parte de Vampes e Vadias e espero um dia ter a oportunidade de me dedicar com seriedade a Personas Sexuais: Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson, um monumento de 616 páginas com letras bem pequeninhas. As teses de Paglia com certeza estão bem distantes de um feminismo hostil aos homens. Ela os quer como aliados, e não como inimigos, e aí as ásperas contendas do famoso lugar de fala se acendem e provocam incêndios de proporções australianas. Não vou entrar nessa.

É tempo de encontrar pontos de quase consenso, em vez de potencializar atritos. Mas quem discorda das frases a seguir, retiradas de Imagens Cintilantes?: "O único caminho para a liberdade é a educação de si mesmo para a arte. Para qualquer civilização avançada, a arte não é um luxo - é uma necessidade sem a qual a inteligência criativa definha e morre. Mesmo em tempos de economia conturbada, o apoio à arte deveria ser um imperativo nacional". Obrigado, Camille. Não importa o sexo e o gênero de quem lê: ainda há verdades acima de confrontos estéticos e ideológicos. Os atuais governantes brasileiros, infelizmente, não apreciam amontoados de palavras escritas. E aí não tem santo que salve. Eles morrerão gostando de outros tipos de amontoados.

Livramentos - Roberto DaMatta

Deixem-me repetir: um dos mais surpreendentes triunfos de ficar velho (velhice é outra coisa) é descobrir, com um sorriso irônico e um enorme alívio, que não se tem futuro. 
Uma analogia batida é imaginar o final de uma viajem de trem quando passamos pelos subúrbios e pelas zonas mais pobres da cidade e, em seguida, entramos no enxame de gente ansiosa da estação. Neste momento, a viagem termina, não há mais trilho a ser trilhado. Acabar é ficar com um absoluto presente no colo. Um presente que não será mais vivido e transmitido para ninguém.
Faz algum tempo que eu descobri que não tenho mais que carregar o meu futuro. E eu lhes confesso: ele foi pesado, cheio de coisas escondidas e de memórias empoeiradas como é comum acontecer com o reprimido, o ocultado e o aprisionado, que imploram livramento. 
Quando mencionei isso numa aula, alguns jovens me olharam intrigados, mas nenhum ficou decepcionado. Acho até que alguns me invejaram por ter consciência de que estou mais próximo do fim da linha, mas – e esse ponto é absolutamente fundamental – não finalizei o gosto da viagem. O fim tem uma vantagem: ele torna o presente algo único e precioso. Se para os jovens o futuro demanda múltiplas escolhas imperiosas, que podem ou não dar certo – sobretudo com o poderoso preocupar-se com o que se “vai ser”, essa exigência do individualismo que, no caso americano, é muito mais obsessiva do que entre nós e faz com que o futuro assuma uma tremenda e muitas vezes agoniada proporção. 
Nesses tempos globalizados e um tanto sinistros, eu – no papel de pai, avô e professor – sei como é complicado sair da verdadeira prisão de um Brasil no qual a gente só tinha futuro como médico, advogado, engenheiro e oficial das Forças Armadas (com ênfase no oficial) e em uma elitista carreira diplomática, para poder ser “alguém”. Hoje, porém, pode-se até ser polícia, dono de bar, motorista e garçom.
Convenhamos que esse naipe de escolhas se tornou muito amplo e, certamente, demasiado democrático no contexto de um universo profissional preciso e estruturado para as camadas médias, um leque no qual o futuro invariavelmente deveria repetir o passado.
Quando, nos anos 50, entrei numa Faculdade de Filosofia, um amigo decretou que ia estudar numa escola para mulheres e veados. De lá, disse ele, você sai professor o que, no Brasil, é pior do que ser lixeiro, pois não aprender algo novo, descobrir o que ninguém sabe, é uma dimensão indesejada. Pode-se ser do contra, mas é crime, pecado e tabu falar em alternativas e liberdade. Até hoje, pagamos salários de merda aos lixeiros, mas não há verbas previstas para conferências e palestras acadêmicas que, obviamente, não precisam de honorários. 
Quando virei um leitor aplicado, disseram-me que poderia enlouquecer, pois é justamente isso o que ocorre com quem relativiza costumes estabelecidos e prisões culturais solidamente construídas. Como duvidar ou questionar se o caminho já estava traçado primeiro pelo catolicismo e depois pelo chamado “pensamento crítico”? 
Tornei-me, Deus e eu sabemos como, antropólogo social. Um profissional da dúvida, um investigador do por que gostamos de comer misturando arroz com feijão e o que isso teria a ver com a mestiçagem mascaradora e criadora de hierarquias. Pesquisei ainda como os chamados “índios”, que andam sem roupa, inventam seus mundos. Um conhecido me perguntou se eles não ficavam excitados vendo aquelas mulheres nuas.
Questão tão esdrúxula quanto válida quando descobrimos por que a “política” foi transformada num espaço de enriquecimento e aristocratização, porque não se resiste aos dinheiros públicos que até anteontem, sendo de todos, não seriam de ninguém... 
Um dia ouvi num ato falho que, além de louco, era antropófago. Fiquei feliz. Descobri o meu futuro pesquisando sociedades modestas, muito mais pobres do que a pobreza que vive ao nosso lado e é mantida pelo nosso estilo de vida. Encontrei futuro no Museu Nacional que, não obstante, pegou fogo. 
Lamento ver instituições como a Casa de Rui Barbosa serem atingidas. Para mim, elas deveriam ser independentes. Pesquisadores e professores não podem ser funcionários públicos – os papéis não combinam. 
Ponto final: sem liberdade, amor e perseverança não há, mesmo velho, nenhum futuro. Aliás, o que está para chegar depende de lucidez intelectual: o verdadeiro livramento.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Andrea - Luis Fernando Verissimo


Andrea Motis quintet - Saudades Da Guanabara


Estou apaixonado! Calma. É platônico, eu nem conheço a moça e a Lúcia aprovou. Mas vinha eu andando despreocupadamente, na medida que alguém pode andar despreocupado hoje em dia neste vale de sustos, pela internet, quando dei com uma banda tocando a todo volume. Uma afiada banda de jazz, profissionais experientes, maravilha – com uma única discrepância: ninguém na banda parecia ter mais do que 15 anos. Tratei de me informar sobre aquela aparição juvenil. Descobri que a orquestra era da Sant Andreu, uma escola municipal de música de Barcelona que aceita alunos de 7 a 20 anos e se apresenta regularmente, em concertos e excursões, em diferentes formações, de “big band” a pequenos grupos, muitas vezes com músicos convidados. A internet está cheia de sites deles. Fiquei saltando de um para outro, encantado. 
E então ela apareceu. Andrea Motis. Cantora, certamente formada na Sant Andreu, mas não apenas cantora. Ela também toca trompete e sax soprano, mas não apenas toca trompete e sax soprano. Toca trompete e sax soprano muito bem. Parece ser a artista principal dos grupos, embora o comum seja as formações se misturarem e ninguém ser estrela. E eu falei que ela é bonita? Pois ela, além de tudo, é bonita. Tem um jeito tímido de agradecer os aplausos. Quando sopra o trompete aparece uma covinha no lado da sua boca. E eu aqui sem saber de nada. Sem saber se ela já veio ao Brasil, se é casada ou solteira, se ainda tem fé na humanidade. Sem saber, meu Deus, da covinha no lado da sua boca, todos esses anos!
O repertório dos grupos é, principalmente, de clássicos do jazz e “standards” americanos, mas eles também tocam e cantam muitas músicas brasileiras, e a escolha pode ser surpreendente. Saudade da Guanabara, do Moacyr Luz, dá para acreditar? Sonho Meu, da Dona Ivone Lara. Desilusão, do Paulinho da Viola. Todas cantadas em português com um irresistível sotaque catalão. 
A primeira visão que tive da Andrea foi uma gravação feita na rua, ela cantando Antonico, do Ismael Silva, um samba genial tristemente ausente dos repertórios de cantores nacionais. No fim, acho que foi isso que me emocionou, ouvir o Ismael Silva ecoando numa rua de Barcelona, pedindo uma viração pro Nestor. Na voz da Andrea, quem resistiria ao pedido?

Andrea Motis Quintet - Antonico


sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A história contada por um vestido preto - Ignácio de Loyola Brandão


A vida não precisa ser complicada o tempo inteiro. Num desses encontros de começo de ano, Dora elogiou o vestido de Magali. Feliz, esta comentou: “Sabe que tenho há seis anos? É a vantagem de comprar coisa boa”. Pouco depois, por acaso, Anna Candida comentou: “Pois tenho um vestido há oito anos, gosto dele, é daquelas roupas que não acabam nunca. Mas vez ou outra ao vê-lo, pergunto: ainda?”.
Nessa altura, a conversa tomou rumo, cada uma daquelas mulheres tinha uma roupa que adorava, mas era repetida, repetida, e vinha sempre a dificuldade de se desfazer da peça. Todas aquelas mulheres sempre deixaram roupas nas caixas das campanhas sociais para necessitados. Mas cada uma tinha peças especiais e relutavam em se desfazer delas. Havia algo que as prendia. Uma boa lembrança, um momento especial, o sentir-se bem dentro delas, dar segurança e assim por diante.
Naquele dia, Clara propôs: “E se fizéssemos uma espécie de bazar entre nós e trocássemos as roupas? Temos mais ou menos a mesma idade, corpo, gosto”. A ideia flutuou, cada uma pensou, pensou, e foi aderindo, já pensando no que poderia levar. Os dias passaram, começaram os telefonemas: quando vai ser? E a coisa tomou corpo até que Anna Candida determinou: “No próximo domingo! Podem começar a separar as roupas”.
Durante a semana soube que Clara e Helena, mãe e filha despejaram roupas e roupas dos armários. Esta não, esta mais ou menos, esta claro que não, esta sim, esta vou pensar, esta sim, esta não, será que esta? Foi um tal de tirar e recolocar coisas no lugar durante dias e dias, mas as descartáveis emergiram, foram repensadas, ponderadas, veio a decisão final.
Sei como é. Tenho uma capa Burberry, comprada em Londres em 1969, que me consumiu todas as reservas, mas era um sonho, eu via nas revistas, nos filmes, aquele interior xadrez, para mim sinal de elegância, durabilidade. Pelo pouco que usei, com medo de gastar, de perder, esquecer em algum lugar, ela dura até hoje, perfeita. Não a troco por nada neste mundo, não empresto nem a meus filhos. Tolice, talvez. TOC. Vaidade. Dia desses penso em consultar o Caligaris, pode ser que ele explique. E saibam que jamais fiz esse tipo de consulta em mesa de bar, restaurante, festa, como muita gente que se acha esperta. Ligo, marco, pago. 
Então, o tal bazar amigo aconteceu. E foi um domingo diferente, sem futebol, sem estresse, sem a tevê ligada em Eliana ou Faro, um dia animado. Seis mulheres. Anna Candida e a filha Amanda, Clara e Helena, Dora e Magaly. Na casa de Clara e Helena, estava uma arara cheia de roupas em desuso. Depois do almoço, ali pelas três e meia, começaram a chegar as outras com malas ou sacolas. Juntaram-se em um dos quartos e nós, os maridos, podíamos ouvir as gargalhadas, os risos, as exclamações, as “brigas”. Este é meu, você já pegou aquele. E o vinho Rosé correu, era um domingo quente. 
Os homens ficaram a conversar, excluídos. Estávamos proibidos de ir lá, por motivos óbvios, uma vez que o provador era o próprio quarto fechado, ali elas se despiam e se vestiam e se olhavam no espelho e buscavam a aprovação das outras e concorriam, se divertiam. Veio-me à cabeça um dos primeiros choques culturais de minha vida. A viagem a Londres, em 1969 enviado pela revista Claudia. A Swinging London. King’s Road, Carnaby Street, Soho, Biba, Pink Floyd, David Bowie, o filme Blow-Up, ácido, pôsteres de Guevara, Beatles e Martin Luther King. Mary Quant e a minissaia. Efervescência e liberação. Em Carnaby Street, eu entrava em cada loja, bar, butique, tudo era diferente, colorido, espantoso. Na maior parte das lojas, não havia provadores. Jovens apanhavam as roupas, ficavam nuas, mas nuas em pelo, indiferentes ao público que, por sua vez, se mostrava indiferente a elas. Eu, entre assustado e fascinado, percebi que uma nova época estava mesmo se iniciando. Meu Deus! Damares enlouqueceria.
Essas coisas me vinham à cabeça. Três horas depois as mulheres se deram por satisfeitas com os “negócios” feitos, felizes com os escambos, as conversas e como era domingo, tudo terminou em pizza e garrafas de vinho. Então, se viu que um lindo vestido preto, que tinha sido de Anna Candida, passara para Helena muitos anos atrás e, como é roupa boa, agora estava com Amanda. Pensei: dá para escrever um filme, uma noveleta, um conto. A história de cada uma e de todas e de uma época contada por meio de um vestido preto. 

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...