domingo, 20 de janeiro de 2019

Grega - Fernanda Torres

Marta Mello


Fugi do inferno, mas recebo relatos a respeito da onda de calor que castiga o Brasil. A foto de uma cratera de vulcão ativo me foi enviada por meu irmão com a legenda: "Lagoa Rodrigo de Freitas, 10/01/2019".
De longe, também me chegam as notícias sobre os primeiros atos dos governantes recém-eleitos. No Rio de Janeiro, antes de praticar flexões com a tropa, Wilson Witzel suspendeu a performance do coletivo És Uma Maluca, na Casa França-Brasil.
Alertado pelo secretário Ruan Lira a respeito das cenas de "nudismo e mulheres" da apresentação, o governador alegou falta de avaliação prévia da Vara da Infância e Juventude, para caracterizar quebra de contrato e não censura.
Guinamos para a extrema direita numa virada tão abrupta quanto a do possível salto do polo magnético da Terra, que tem apresentado acentuado movimento errático no Ártico e corre o risco de virar de vez, invertendo o sentido das bússolas de Norte para Sul.
São fenômenos naturais tanto na história da humanidade quanto do planeta, mas assusta que aconteçam justo na hora em que você está vivo com dois filhos para criar.
Tenho me preparado para a era Bolso-Witzel devorando a história das religiões. No capítulo sobre a Torá, descubro que o niilismo do Eclesiastes, com sua vaidade, tudo é vaidade, é fruto da influência grega sobre Israel.
A elite dos territórios conquistados por Alexandre foram seduzidas pelos filósofos críticos às teologias tradicionais. Por mais de um século, o cosmopolitismo helenístico floresceu, disseminando o estoicismo, o epicurismo e o hedonismo.
Na primeira metade do século 2º a.C., a tensão entre os abastados helenófilos da Judeia e seus conterrâneos devotos da Torá dividiu a população com uma violência comparável à de coxas e mortadelas do Brasil do terceiro milênio.
O influente escriba judeu Ben Sira acusava os jovens ricos fascinados pelo iluminismo grego de apóstatas libertinos. O poder econômico dos pais dos moleques, no entanto, falou mais alto, privilegiando o interesse dos xenófilos.
Em 167 a.C., em troca de um molha-mão, Antíoco 4º Epifânio baixou um decreto proibindo a circuncisão, o shabat e tudo o que envolvia o culto judaico. Não satisfeito, o rei vassalo de Roma transformou o Templo de Jerusalém em um santuário sincrético, devotado a Javé, Zeus e Baal.
A indignação dos zelotes e dos hassidim culminou numa guerra civil, que varreu para sempre a influência grega da Terra Prometida.
O caso me lembrou os últimos 20 anos de democracia no Brasil.
Lutas identitárias, feminismo, direitos indígenas e quilombolas, desarmamento, tudo aquilo que o atual chanceler chama de globalismo marxista, realmente prosperou nas duas últimas décadas.
Assim como os helenófilos judeus, parte da população, muitas vezes acusada de elite, alimentou ambições progressistas, tratando a fé e o patriotismo de farda como algo arcaico e demodê.
O ideário de liberdade, igualdade e fraternidade durou mais do que o Zeus-Javé do corrupto Antíoco, mas terminou por sucumbir nas urnas. Nos próximos 4 anos, quiçá 20, estaremos sob o zelo do Templo de Salomão da Igreja Universal, batendo continência para a Roma de Donald Trump.
Sempre me vi como liberal, mas tenho sido chamada de esquerdopata com frequência. Talvez eu esteja mais para hedonista epicurista estoica ainda na ativa, lutando para sobreviver em meio às novas guerras santas.
É impressionante como a história se repete.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Prendem meu corpo, minha mente continua livre - Ignácio de Loyola Brandão

Pouco antes do final do ano, voltei a Araraquara. Direto para a Penitenciária de Pinheirinhos, como é conhecida por lá. Não, não fui preso, como alguns gostariam. Vocês nem imaginam o que é a vida literária. Tem de esconjurar um colega, apenas porque a foto dele saiu no jornal. Fui para um projeto dos mais comoventes, o da Remição de Pena por Meio da Leitura, que vem sendo desenvolvido pela Fundação Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel em conjunto com a Academia Paulista de Letras e também com editoras como a Companhia das Letras. 
O projeto contempla 12 penitenciárias paulistas, masculinas e femininas, as quais mantêm clubes de leitura com 20 detentos cada uma. Esses recebem um livro, que deve ser lido em 30 dias. Penso: tem universitário que não lê um só livro o curso inteiro, só apostilas. Após a leitura, o grupo se reúne para uma conversa com mediadores. A cada livro lido, o preso pode reduzir em 4 dias sua pena, num máximo de 12 livros por ano, um por mês.
Cheguei cedo, com o ameno sol araraquarense castigando nos 37 graus e dei com aquele maciço de concreto que me conduziu aos filmes clássicos sobre Alcatraz, Sing Sing, o Castelo de IF, onde ficou Edmond Dantès, o futuro Conde de Monte Cristo e outros. Monitores e mediadores vinham chegando de toda região. Entrei e me vi dentro de portas pesadas de ferro abrindo e batendo, abre-se uma, fecha-se outra às suas costas, você anda um trecho, outra barreira, depois scanners e sensores, a segurança é rígida. Um botão de metal em minha calça quase me obrigou a tirá-la, encontraram uma solução, entrei de lado. Caminhei e cheguei à capela, bom espaço como auditório. Bom astral. Tinham me dado uma pauta. Falar sobre gêneros literários, crítica e resenhas. Olhei para aquela plateia, bem à minha frente estavam quatro presos que fazem parte do projeto. Olhavam-me com caras ansiosas. Pensei: eu ia falar de teorias, assuntos gramaticais importantes, mas áridos? Literatura é emoção, prazer, abertura. Mudei o trajeto em um instante.
Desandei a contar histórias. Coisas que se passaram comigo e outros, que vi e vivi, e imaginei, e transformei em contos, cônicas, romances. Contei de onde vêm os meus assuntos: de um olhar, uma frase, uma conversa. Disse como capturamos os temas, o que é um personagem, como se começa um livro e se termina, o que é inspiração. Em minutos a atmosfera mudou, as pessoas riam, calavam, ficavam em suspense, se entreolhavam admiradas. Os olhos daqueles quatro presidiários me seguiam à medida que eu “desmontava” o ato de escrever, caminhando de um lado para outro. 
Abri para perguntas e elas vieram de todos os cantos, todos os tipos. Uma se repetia. E a inspiração? Eu voltava a minha infância, quando Ruth e Lourdes, minhas professores do primário (fundamental hoje) nos diziam: inspiração é observação, é o olhar, o escutar, o conversar, o perguntar, o usar tudo em volta. Imagino, disse, a quantidade de temas que fornece uma prisão, a vida de cada um, lembrei a trajetória do Drauzio Varella, que, com poucos livros, chegou ao primeiro plano de nossa literatura. Contei crônicas, tristes e divertidas e o que deveria durar uma hora durou duas. E ainda me cercaram, perguntaram, sorriram. 
Um dos presos me disse: “Ler é prazer, não é?”. Completei: “E fuga”. Ele deu uma gargalhada, compreendeu. Porém o que me abalou foi o presidiário que me acompanhou até o corredor, havia uma mesa com café, sucos, bolos, alguns salgadinhos, haveria um lanche, o encontro ia continuar. 
“Não quis perguntar na frente de todos, tive vergonha de não ter entendido. O que o senhor quis dizer foi: podem me prender, podem prender meu corpo, mas minha cabeça, minha mente serão livres. É isso?” 
“É isso. Se há uma coisa nossa que ninguém pode prender é a imaginação!”
Valeu aquela fala. Que meus colegas escritores, se convidados, não percam esse grande instante. Falar nas penitenciárias. Ajudar a libertar pessoas.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Dr. Jekyll e Mr. Hyde - Luis Fernando Verissimo

O título completo do livro é O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Foi escrito pelo escocês Robert Louis Stevenson, no século 19, e adaptado para o nosso século. O estranho caso narrado é de dupla personalidade: o respeitado Dr. Jekyll, que todos chamam simpaticamente de “Capitão”, tem um grande círculo de amigos e são estes que o convenceram a concorrer à Presidência do Brasil. Mr. Hyde é o oposto do Dr. Jekyll. Não só não tem amigos como espanta os amigos do Dr. Jekyll com sua truculência e seus modos à mesa. Nada disso teria muita importância – afinal, quem não tem amigos embaraçosos? – se Jekyll e Hyde não fossem a mesma pessoa. Eles constantemente se contradizem. E Hyde tem o irritante hábito de contradizer a si mesmo, argumentando que um dos direitos humanos fundamentais é o direito de voltar atrás. 
– Na campanha, você disse que não toleraria o nepotismo no seu governo.
– Pois então? “Nepotismo” é quando se dá cargo a um sobrinho, “nepote”, do papa. E não tem nenhum sobrinho de papa no meu governo!
– Qual é sua posição quanto ao tratado de Paris?
– A de ontem ou a de amanhã?
O problema da candidatura dupla Jekyll/Hyde era que nunca se sabia qual dos dois ia aparecer – e continua não se sabendo. Jekyll faz pronunciamentos perfeitamente sensatos, Hyde, ao contrário, pode chegar cuspindo fogo e assustando os vermelhos. Jekyll pode escolher um ministério no mínimo divertido, nada impede Hyde de preferir um gabinete maluco. Dizem que existe uma força-tarefa de prontidão em Brasília para garantir que Hyde não tenha muita liberdade para improvisar e dizer o quiser, e o seu lado Jekyll apareça mais. Mas sempre há o perigo de que o sensato seja o Hyde disfarçado. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A feiura da pessoa interessante - Humberto Werneck

E ela é bonita?
Perguntei por perguntar, sou mesmo perguntador, mas ele reagiu como se eu tivesse lhe aplicado um choque. 
Até àquela altura da conversa, só ele falava, enfático, preenchendo com gesticulação esgalhada um vasto espaço em torno, por pouco, em sua exuberância, não me acertando uns involuntários tabefes. 
O assunto obsessivo era a moça, as inigualáveis qualidades da moça, e para enumerá-las meu amigo se esparramava, equilibrando-se à beira do ridículo. Às vezes empacava, sem palavras para descrever o indescritível, e a empolgação se metamorfoseava em algo que lembrava o ar beatífico, meio abobalhado, de quem, entre os banhistas, despistadamente faz xixi no mar.
– Bonita? – insisti.
Como num desses programas de TV em que a resposta vai levar à fortuna ou ao infortúnio, sem meio-termo, ele franziu os lábios numa rosquinha pregueada, apanhou o queixo entre dois dedos, revirou os olhos para o alto, ruminativo – e por fim desembuchou, numa hesitação tamanha que dava para ver uns hifens pingando entre as sílabas:
– Ela... é... interessante...
Bem que eu desconfiava: a moça não era exatamente uma beldade. Simpática, prendada, virtuosa, trabalhadora, o diabo – mas bonita, bonita mesmo, não era. Se fosse, não haveria, da parte de meu interlocutor, lábios franzidos, dedos beliscando o queixo, nem olhos perscrutando os céus: bonita é bonita, ponto. E interessante – as muito interessantes que me perdoem – está mais para feia. Se a gente recorre a esse adjetivo, é para camuflar ausência ou rarefação de formosura. 
(Antes que feios, bonitos e interessantes de qualquer sexo me acusem de machismo: é óbvio que a constatação vale também para a banda que, conforme receita da ministra Damares, deve se vestir de azul; com a diferença, porém, de que marmanjo não está socialmente obrigado à formosura. De qualquer forma, a história que ouvi poderia ter sido contada, em igual ênfase, por moça embevecida por moço desprovido de atrativos físicos aparentes.)
Não é tão simples assim, eu sei. No extenso território que vai da beleza à feiura, há de tudo e um pouco mais, e os conceitos são discutíveis. Quem ama o feio... Meu avô materno achava que a balança pendia decididamente para um lado, e me lembro, menino, da observação que fez num dia em que, na beira da calçada, esperávamos o sinal abrir para os pedestres. “Meu filho, como a humanidade é feia!”, murmurou ele, olhos na manada que, no lado oposto, também engatilhava o bote. 
Ressentimento? Não, o vovô Santos era um belo homem. Arrogância, também não, pois não lhe faltava compaixão pelo ser humano, aí incluídos os bonitos. Sua observação, gravada em mim qual indelével tatuagem, tinha o corte frio da experiência de quem levava décadas na observação de tudo o que vai da beleza embasbacante à feiura mais teratológica. Ele sabia que, no fundo, bonitos podem ser horrendos, e feiosos, fascinantes. Deve ter sido por ele que a lição chegou à minha mãe: quando via o filho adolescente saindo para a festa, dona Wanda recomendava não dançar apenas com “as bonitinhas”, visto de que outras, “menos aquinhoadas pela natureza”, eram portadoras de encantos insuspeitados, não necessariamente, acrescento eu, sob os recatados vestidos da época.
Talvez num centro de cidade, em países como o nosso, vivendo à margem dos spas, academias e salões de beleza, à margem sobretudo das proteínas consumidas desde o berço, a humanidade penda mesmo para a fealdade. Mas sempre se podem comparar coisas comparáveis. No centro como nos redutos ricos, pessoas há que são flagrantemente bonitas, e outras, insofismavelmente feias. Há também – e aqui a coisa se torna um tanto mais sutil — gente que é bonita-aos-poucos e gente que é feia-aos-poucos. 
Não é caso, por favor, de sair correndo rumo ao próximo espelho. Você sabe do que estou falando. Daquelas pessoas que, no primeiro contato, nos parecem feias, ou bonitas, e que, com o correr do tempo, às vezes pouquíssimo tempo, vão mudando de posição em nosso espectro estético. Os olhos não são belos, o nariz é um nariz qualquer e as orelhas, de abano, ou com os lóbulos por demais grudados à cabeça – mas, de repente, a reunião desses “aparelhinhos”, como dizia minha mãe, vai compondo um arranjo potável, daqui a pouco apetecível, quem sabe mesmo, no final da noite, irresistível. 
Também o contrário pode se passar: a progressiva sem-graceza de um conjunto formado por peças que, individualmente, são irretocáveis – e eis que a pessoa que nos parecia linda vai assumindo um feiume tão inesperado quanto inapelável, até tornar-se, no máximo, interessante. 
Mais do que com os “aparelhinhos”, num caso como no outro o ajuste de foco tem a ver com encantos imateriais, imponderáveis – com a presença, quase sempre, do imponderável atributo, invisível para os olhos, a que se dá o nome de borogodó. Razão pela qual devo insistir: inútil você sair correndo para conferir no espelho.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Nada - Luis Fernando Verissimo

Sempre tive uma certa simpatia pelo outro lado da Lua. O veículo explorador que os chineses colocaram na sua superfície há dias não esperava encontrar nada no outro lado da Lua, e o outro lado da Lua não decepcionou – não tinha nada. O outro lado da Lua é um monumento ao Nada. O outro lado da Lua é um enorme estacionamento. 
Os chineses não tinham ilusões sobre o que encontrariam no outro lado da Lua. Foram preparados para o Nada. Levaram a volúpia do Nada amarrada ao lado como uma hérnia inoperável. Se surgisse alguma coisa de trás de uma duna lunar, algo vagamente animal, algum vestígio de civilização, uma cabine de pedágio ou qualquer outra coisa que destoasse do Nada, os monitores em terra da sonda chinesa tinham ordens para eliminar as imagens. A missão da sonda chinesa era encontrar Nada. Qualquer surpresa seria uma distração.
*
O outro lado da Lua também serve como metáfora para a discrição. Ela está eternamente virada para o outro lado não para nos esconder alguma coisa, mas para nos poupar da sua nudez. É, simplesmente, pudor.
*
Ou então, ou então... Também se diz que o outro lado da Lua é o seu lado oculto, como o de pessoas que ostentam seus mistérios. O que o lado oculto da Lua nos diz é que há mistério em tudo, inclusive no Nada,
– Bonita, essa Lua cheia, né?
– Não sei...
– Como, não sabe? 
– Este lado está bonito. Mas e o lado oculto? O que ela está escondendo de nós, há séculos? Nós só estamos vendo um lado, da Lua, portanto uma Lua incompleta, uma mentira. A sonda chinesa só servirá para aumentar o mistério. O lado oculto da Lua pode conter a explicação de tudo, ou o desmentido de tudo, portanto do Nada
– Está bem, esquece.
– Tudo – nosso conhecimento de tudo, ou do Nada – continuará um mistério até a sonda chinesa começar a mandar fotos. E...
– Esquece. Esquece! 

A roupa nova do presidente - Marcelo Rubens Paiva

Num certo país, escolheram um presidente que era seguro de si e aclamado. Mas que se cercara de gente boa e ruim: os que o apoiavam. Ele duvidava da capacidade de o seu grupo governar. Na política, há malandros por toda parte, e poucos em quem confiar. 
Dois tecelões pilantras perceberam a oportunidade de faturar. Ofereceram ao novo presidente uma roupa que apenas os competentes e inteligentes podiam enxergar. Não pediram dinheiro, mas fios de nióbio para tecer a roupa da posse. Uma roupa de nióbio? 
“Deve ser uma roupa incrível. Se eu usar um manto tão especial, não usual, já no começo do mandato, poderei descobrir quais ministros estão ou não preparados para os cargos, distinguir os tolos dos sábios.”
Os tecelões foram instalados numa ala do prédio do governo em transição. Todos ficaram empolgados com a notícia e ansiosos para ver o tecido mágico. No entanto, os dois pilantras apenas embolsavam os fios do minério e nada teciam.
Desconfiado de tanto nióbio enviado, o presidente pediu para o ministro em quem mais confiava, o das finanças, checar o trabalho dos tecelões. O futuro ministro chegou à ala e tomou um susto. Nada viu, apenas um tear vazio. Os tecelões passavam tesouras e agulhas no vazio, davam pontos com linhas invisíveis e ainda pediram a opinião sobre a cor, o molde e a estampa. O novo ministro nada via, mas fingia, e disse que o trabalho estava admirável. 
“Meus sais, serei um tolo? Ninguém pode saber disso! Será possível que eu não estou preparado para o posto que assumirei? Não, não, eu não posso dizer que eu não consigo ver o tecido.” Falou ao presidente que era o tecido mais lindo que já tinha visto.
Desconfiado com a exaltação do ministro, o prudente presidente enviou o ministro que acabara de escolher, o das escolas. “Meu Deus do céu!”, arregalou os olhos ao chegar à ala. “Eu não estou conseguindo ver nada em absoluto!” Mas ficou em silêncio. Os malandros pediram para o especialista em educação se aproximar. Não admirava o molde primoroso? “Oh, é muito bonito, extremamente belo”, respondeu o recém-escolhido. “Que modelo impactante, que cores brilhantes... Irei imediatamente dizer ao presidente que gostei.”
Os pilantras escondiam todo o fio que recebiam e continuavam a trabalhar em teares vazios. Finalmente, o próprio presidente resolveu checar com os próprios olhos, quando a roupa ainda era “tecida”. 
Foi acompanhado pelo séquito de futuros ministros, secretários, seguranças, políticos, assessores. Ao chegarem... “Não é maravilhoso?”, perguntaram os dois ministros a serem nomeados, apontando para teares vazios. Não queriam ser qualificados como tolos e tinham de disfarçar e mostrar a todos os outros que o enxergava. Ninguém via bulhufas. Ninguém estava preparado para cargo algum?
“Mas o que é isso?”, pensou o novo presidente. “Todos veem, e não estou vendo nada. Isso é terrível! Serei eu o tolo? Será que estou despreparado para liderá-los? Seria a coisa mais terrível que poderia acontecer à Nação.”
“Realmente”, disse o presidente. “O tecido é esplêndido, tem a nossa aprovação.” Toda a comitiva, surpresa, olhou e concordou com o líder. Decidiram que o presidente usasse uma roupa com o tecido já na posse, quando desfilaria para uma multidão. 
“A nova roupa do presidente eleito ficou pronta”, anunciaram os tecelões no dia da posse. Foram todos ao salão principal. Como se estivessem segurando alguma coisa nas mãos, os pilantras mostraram: “Essas são as calças, o casaco. Aqui está o manto. São tão leves, que quem veste se sente como se não estivesse usando nada”.
Diante de um grande espelho, os tecelões pediram para o presidente se despir e o auxiliaram nos ajustes. Fingiram colocar nele peça por peça. Ninguém conseguia ver nada, porque não tinha nada para ser visto. Todos tinham medo de parecer tolos ou despreparados. Ouviu-se: “Incrível...”. “Estupendo...” “Deslumbrante!”
Estavam prontos para a parada. Seguranças ajudaram a carregar o manto. Estenderam suas mãos até o chão, como se estivessem levantando algo, e fingiram segurar alguma coisa em suas mãos. O novo presidente foi às ruas, começou a desfilar. 
Diante da comitiva, saudava eleitores. Caminhavam em direção ao palácio do governo. “Mas ele não está usando nada”, disse uma criança. “Ouviram o que ela disse?”, perguntou o pai. Um passou a sussurrar para o outro. “Mas ele não está usando nada”, gritaram alguns. 
O presidente, no entanto, estufou o peito e pensou: “Agora não posso parar, vou até o fim”. Enquanto os seguranças caminhavam solenemente, com muita dignidade e orgulhosos do novo chefe de Estado, o ministro das finanças disse ao colega das escolas: “Demita o professor daquela criança e recolha os livros adotados”.
*
Alguns já sacaram: essa é uma adaptação livre do conto infantil de Hans Christian Andersen, dinamarquês considerado excêntrico, que politizou a literatura para crianças, questionou regimes, reis e governos, mostrou as diferenças sociais, abordou a miséria do seu povo, como no triste conto A Menina dos Fósforos
Revelou a incomunicabilidade da sociedade, enquanto os reinos se esfacelavam, as democracias e repúblicas se fortaleciam, e o marxismo se desenvolvia no ambiente acadêmico. Hoje, nomeia o Nobel da literatura infantil. É dele o conto A Pequena Sereia, cuja estátua é ponto turístico em Copenhagen.
*
O marco de Londres é um relógio. O de Paris, uma antena gigante. O de Nova York, uma estátua que representa a liberdade. Na capital da Dinamarca, a sereia personagem de um conto infantil. No Rio, Cristo. Em São Paulo, bandeirantes. Pense nisso.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Romeiro acidental - Humberto Werneck


Sabe Nossa Senhora de Fátima que pecados não me faltam, alguns deles graúdos, mas não foi para purgá-los que visitei, faz alguns anos, a cidade portuguesa onde a Mãe de Deus fez algumas de suas aparições mais espetaculares, ante o olhar embasbacado de três infantes do pastoreio. Caso perdido, lá estive na exclusiva condição de jornalista. 
Com risco de estar adicionando mais uma nódoa à minha já encardida alma, devo confessar que não gostei de Fátima, e chego a me perguntar, com todo respeito, o que teria levado Nossa Senhora a pousar num município tão destituído de encantos naturais, se à disposição está, não longe dali, a encantadora Leiria. 
Das conversas que tive com gajos locais, ficou-me a impressão de que em Fátima tudo é difícil – até mesmo pecar. Não que o repórter estivesse interessado nisso, mas o fato é que não há na cidade um único motel, um solitário inferninho, muito menos uma sex shop. O pecado mais à mão, me pareceu, é o da gula, sendo recomendado ir praticá-lo no restaurante Tia Alice.
Depois de contemplar o espetáculo de romeiros a se arrastar de joelhos rumo à basílica (a maioria deles, ninguém é de ferro, usando joelheiras), fui visitar a loja onde, entre artigos religiosos (ou nem tanto, caso das joelheiras), é possível comprar ex-votos, para pagar promessa ou agradecer graça alcançada. 
Moldadas em cera, encontram-se à venda, num setor que poderia chamar-se “Pedaços de Mim”, as mais diversas partes do corpo humano, com a exceção que se imagina. Lembro-me de ter visto fígados, cérebros, pulmões, rins, pâncreas, novelos de intestinos, toda sorte, enfim, de miúdos humanos, organizados nas estantes com o critério de um bom açougue.
– Quanto vale o seio? – ouvi um moço perguntar. 
– Três euros – informou o vendedor, acrescentando que sai mais em conta se o freguês leva o par.
– Mas a doença foi num só... – argumentou o romeiro. 
Quanto às velas votivas, é praxe escolhê-las conforme a estatura do fiel, e ao saber disso não pude deixar de pensar na economia que faria em Fátima o cantor Nelson Ned, e no rombo que a fé abriria no bolso do Oscar do Basquete.
É praxe, também, atirar as velas, assim como os ex-votos, numa fornalha de pedra a meia altura, e como o tempo todo há quem o faça, o espetáculo chega a sugerir uma daquelas batalhas medievais de filme, com nuvens de lanças voadoras a toldar o céu. 
Para onde vai a cera derretida?, quis saber o abelhudo repórter brasileiro. Nós a reutilizamos, segredou um frade. Muito razoável. Se às almas se dá uma segunda chance, mediante escala no Purgatório, por que não se permitiria à cera ressurgir, ainda que mais escura, e por isso mais barata, sob a forma de ex-ex-votos?
*
Minha antipatia por Fátima não é extensiva a outras localidades portuguesas por onde também peregrinei, todas elas, sem exceção, muito dignas de visitar, ainda que não seja para lavar a alma. 
É o caso, a meia hora dali, da já citada Leiria, onde, ao contrário de Fátima, tentações e prazeres se oferecem ao forasteiro. Tudo se pode encarar ali, sem esquecer o Tromba Rija, assustadora denominação de um ótimo restaurante. Após tanta reza, o corpo anseia por algum pecado – sem o qual, não custa lembrar, a virtude não existiria. 
No mesmo capítulo culinário, hoje infelizmente apenas como referência histórica, vale conhecer, em Alcobaça, o Mosteiro de Santa Maria, cuja cozinha, no século 18, engordava 999 monges ali reclusos. 
Os santos e roliços servos de Deus comunicavam-se por mímica, só abrindo a boca para comer – o que faziam em quantidades alarmantes. Assavam-se seis ou sete bois ao mesmo tempo, e a louça era lavada num braço do rio Alcoa que, com peixe e tudo, atravessava a monumental cozinha.
Na litorânea Nazaré, deslumbrante polo de veraneio, meca dos surfistas mais audaciosos, os moradores não escondem um ressentimento municipal: com suas retumbantes aparições, a Virgem de Fátima teria ofuscado a mais discreta Nossa Senhora de Nazaré. Discreta, porém operosa: padroeira de Portugal, a madona tem no currículo pelo menos um prodígio. 
Conta-se que no ano de 1182 o guerreiro nobre d. Fernando Gonçalves Churrichão, celebrizado como d. Fuas Roupinho, com direito a citação nos Lusíadas, perseguia um veado, desses providos de galhada, o qual, acuado, acabou por despencar de um penhasco sobre o mar. 
No galope em que vinha, o cavalo de d. Fuas teria caído também, não fora a mão providencial da Senhora de Nazaré, puxando as rédeas à beira do precipício. Oito séculos depois, há quem jure ver, na ponta da rocha, marcas da milagrosa brecada das ferraduras. 
Aos desavisados não custa esclarecer que nada tem a ver com o nome de d. Fuas Roupinho a repolhuda indumentária das mulheres de Nazaré, dadas a usar, superpostas qual camadas de cebola, sete saias de cores vivas, a serem despidas uma a uma – para frustração, pode-se imaginar, de marido afoito que, tendo ido com excessiva sede ao pote, corre o risco de acabar sem ter chegado ao fim.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...