terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Me 'anvise', amor (sambinha) - Gilberto Amendola

 Amor, não se zangue. Hoje só posso amanhã. Ou depois de amanhã. Sei que parece, mas até onde se sabe, talvez o mundo não se acabe esta semana.

Amor, me avise só depois da Anvisa. Me “Anvise”. Diz que vai ficar tudo bem, que deu tudo certo, que não esqueceram nenhum carimbo e que a cópia que faltava já está autenticada. 

Amor, não vou sair da cama. Hoje bateu um bode. Não tenho nenhuma estrofe pra dar ou vender (ainda temos o que comer?). 

Amor, o nosso laço, essa marquinha no braço, me ataca a libido. Repete comigo, fazendo biquinho: BCG. Diz de novo, quero ver: B-C-G.

Amor, lembra da cadernetinha? A gente era tão legal nos tempos da Tríplice Viral. Você sempre foi o meu reforço. Meu palpite, aquela terceira dose da poliomielite foi o que nos salvou.

Amor, agora está tudo mudado. Confere no calendário quando eu vou ser vacinado. E você? E você minha riqueza? É muito cedo pra morrer. Tem uma vida pra depois da pandemia. Tem muita cerveja, muito avião, muita festa de aglomeração para quando tudo isso acabar. 

Amor, deita comigo. Espera um pouquinho. Vou respirar. É tanta coisa na cabeça que pode até acontecer (ou não acontecer). Na “Hora H”, talvez não “D”. Problemas de logística, eu também posso falhar. 

Amor, tanta ansiedade pela Coronavac. Faz aí um sinal da cruz, pela Fiocruz. Sussurra no meu ouvido. Sussurra algo como SUS. Ai que gostoso. Já estou arrepiado. Faz SUS de novo, faz.

Acho que vai dar pé. Já sinto a eficiência global da coisa toda atingindo o mínimo exigido pela OMS. 

Amor, vem, vamos brincar de jacaré.




terça-feira, 12 de janeiro de 2021

A regra dos cinco segundos - Gilberto Amendola

 



Na minha casa, depois da última reunião, desligo o computador e vou para o sofá. Controle remoto na mão, meio segundo para cada canal, serviços de streaming e plataformas digitais em geral. Nada me comove. 

Comida, talvez. Abro um salgadinho. Rasgo o pacote. Perco metade dos Cebolitos. Devo recuperá-los? Quanto tempo um salgadinho pode ficar no chão até se tornar inadequado ao consumo? 

Pelo celular, faço uma rápida pesquisa no Google. Esse parece ser um dos grandes temas da humanidade. Diz a sabedoria popular que se eu recuperar os Cebolitos em até cinco segundos, serei mais veloz do que as bactérias sonolentas do meu chão. 

A chamada regra dos cinco segundos ainda é bastante popular. Ouço isso desde criança. Uma fake news clássica – que deve estar na origem de todos os problemas modernos. A pessoa começa comendo os Cebolitos que caíram no chão e termina acreditando que a Terra é plana. Pior, o sujeito come os salgadinhos do chão e se transforma, automaticamente, em um antivacina.

Penso em fazer um Twitter sobre o assunto. Se eu não postei, não aconteceu. Quero dividir com o mundo que a “regra dos cinco segundos” foi a responsável pelo Trump, pelo Brexit e pela eleição do Bolsonaro. 

Mas meu impulso tuiteiro não dura outros 5 segundos. Fico com preguiça de abrir a “caixa de Pandora” para mais um debate sanguíneo. Algum infectologista pode me contestar. Serei acusado de elitista? Cebolitos com poeira é uma delícia? Vou quebrar a internet. Mas nada disso me comove também. 

Recolho os salgadinhos no chão. As formigas, que estavam em marcha, pararam repentinamente. Uma formiguinha distraída atropela as companheiras da fila – criando uma certa aglomeração. 

Me sinto em um desenho da Disney. Mas isso também não me comove.

Esmago as formiguinhas com o dedão. Paciência. Um pernilongo entra pela janela. Penso em ataques coordenados.

Tem uma mensagem do trabalho no meu WhatsApp. Abro o computador de novo. As vacinas serão vendidas em clínicas particulares. Vou ler outra vez: clínicas particulares negociam a compra de vacinas contra a covid. Só mais uma vez: clínicas particulares negociam 5 milhões de doses da vacina da Índia.

Também li todos os desmentidos, ponderações e os tais “não é bem assim” de sempre. 

Sei... Você também sabe o que vai acontecer, não é? 

– Quer pagar quanto? – perguntava o garoto-propaganda, sem nunca me deixar responder.

– Quero pagar nada! – falo sozinho (aliás, tenho falado muito sozinho e resmungado, o tempo inteiro, comigo mesmo). 

Eu devia ter comido os Cebolitos que caíram no chão.








sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Por que não liguei? - Ignácio de Loyola Brandão

 Não pensem que foi por estar próximo ao final de ano, quando se diz que é hora de fazer revisões ou mudanças. Nada disso. De repente, me deu aquilo que o povo chama de “cinco minutos”, repentino ataque de coragem e joguei fora papéis, recortes, cadernos, fotos, anotações, caixinhas, vidrinhos, bibelôs que nem sabia ter. Há dias, olhei para uma caixa e me perguntei: o que tem ai? Abri e dei com pacotes de papel pardo, embrulhinhos, envelopes. 

Na hora, lembrei-me de meu pai que mantinha uma velha cesta de Natal de vime em cima do guarda-roupa. Um dia, ele chamou a mim e ao meu irmão Luis Gonzaga e abriu a cesta. De dentro, jorraram recortes de jornais, fotografias, santinhos, cartas para minha mãe, páginas datilografadas. “São contos que escrevi. Tem uma poesia do meu pai, feita aos 21 anos. Isto vai ficar para vocês, depois que eu morrer.” Um dos contos e a poesia do meu avô, recolhi. Os resto desapareceu, sabe-se lá como. Pessoas e memórias se dissolvem. Quanto a este avô, José Maria, ele é o personagem de meu livro Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos. A escrita serve para recuperarmos pessoas e coisas.

Assim, abri minha caixa. Dela, saltaram pacotes, pacotinhos, envelopes. Os pacotes, lembrei-me, são de primeiras edições de livros meus, embalei para que não fossem atingidos pelo tempo, por roedores, poeira, umidade. Como se roedores recuassem diante de uma folha de papel pardo!

Achei um envelope enviado por um senhor chamado Livio Euler de Araujo, assessor técnico em metalurgia. Datado de 2011, há um bilhete: “Sou seu leitor assíduo, tenho 87 anos e me considero em fim de vida. Sou amante de aviões, locomotivas, trens e carros. Sou apreciador de Araraquara, que frequentei durante vários anos, a serviço. Moramos na mesma região e tenho imenso prazer em convidá-lo para um papo sobre os assuntos comuns aos dois. Faço uma bela caipirinha preparada com um blend de cachaças de variada procedências.” Vinha o telefone para marcar o encontro que nunca se deu. 

Porque esta carta ficou perdida em meio a outros envelopes, papéis, contas, rascunhos, marketing, folhetos. Liguei para o número. Tocou, tocou. Nada. Liguei de novo à tarde. Nada. Foi na semana anterior ao Natal. Talvez a família tivesse viajado. Agora, estou apreensivo. O telefone toca até cessar de repente. Mas subitamente Livio me liga. Ou não mais. Se, em 2011, ele tinha 87, pode estar hoje com 96. 

Nestes esquecimentos ou deixar para amanhã, tenho tido baques, como dizia minha mãe. Eu era fã da atriz Gilda Nery, que fez sua carreira na Cinematográfica Vera Cruz. Mais que isso, paixão. Um dos sonhos quando vim para São Paulo era conhecê-la. Namorá-la. Nos vimos em estreias, festivais de cinema, no Gigetto, onde todos se reuniam. Tímido, nunca me declarei. Os anos passaram, não soube mais dela. Mudou-se para o Rio. Um dia, consegui o telefone, não liguei. Anos depois, chamei. Ela tinha morrido em 2004, aos 69 anos.

Outra a quem fui ligado fortemente foi Ruth de Souza. Mulher altiva, engraçada, bonita, excelente atriz. Premiada em Veneza com Sinhá Moça. Nos festivais de cinema do interior, estávamos sempre juntos, quando nos pediam autógrafos. A mim, não sei porque, mas, como jornalista, estava no meio de artistas, deviam achar que eu também era. Então, eu assinava Ruth de Souza ou Norma Bengell ou Marlene França. Hoje, não se pedem autógrafos, se fazem selfies. Norma era engraçada. Quando chegava um chato que gruda, ela assinava o nome completo na cadernetinha: Norma Aparecida Almeida Pinto Guimarães d’Áurea Bengell. Depois que Ruth mudou-se para o Rio, perdemos contato. Pouco tempo atrás, um jovem, Ygor Kassab, apareceu em casa fez uma entrevista, estava escrevendo a biografia de Ruth, então com 98 anos. Deu-me o telefone dela. Chamei? Antes que eu ligasse, ela morreu. Custava ela ouvir a voz de um amigo de juventude tão próximo?

Desta caixa, saltou um envelope recheado de bilhetes. “Ligue-me urgente. Lucia Camargo.” Ela foi secretária de Cultura em Curitiba, teve grande atuação em sua época. Respondi? O que ela queria? Onde está Lucia? Outro, escrito à mão, meio apressado. “Em Morretes, desça do trem, venha comer um Barreado. Assinado Douglas Brito.” Lembro-me que tomei o trem em Curitiba rumo a Paranaguá, na época eu que escrevia a biografia de Avelino Vieira, fundador do Bamerindus, início dos anos 1990. Desci em Morretes, comi o famoso Barreado, adorei, peguei o trem e voltei a Curitiba, nem fui a Paranaguá. Mas estava sozinho. Quem é o Douglas? 

Cartões e mais cartões de visita. De Gilbert Aca, do Poder Judiciário. O que fiz? De Evangelina Novaes, tabeliã de notas de Pato Branco, Paraná. O que fui fazer lá? Bilhete de Wilson Bueno: “Me ligue logo, estou no 225-71-17”. Nossa, ele morreu em 2010. Liguei, nos encontramos

Finalmente, um mistério. Um cartão do Hotel Buci Latin, de Paris. “Te esperei até às oito, você não veio, fui embora. Nunca mais”. Assinatura ilegível. O hotel conheci, era um duas estrelas, barato. Mas o Google me diz que agora é um quatro estrelas, fechado temporariamente pela pandemia. Quem me esperou e se foi? Olho o montão de caixas. O que há nelas? Outros pequenos e insignificantes mistérios? Ou significantes? Um deles teria mudado minha vida?


01/01/2021

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Le Carré - Luis Fernando Verissimo

 



John Le Carré escrevia livros de espionagem para quem não queria ser visto lendo livros de espionagem, para quem fazia questão de ostentar seu gosto pelos prazeres do gênero, sem discriminação, ou para quem simplesmente buscava boa literatura popular, de qualquer gênero. Teve a sorte de ser o exemplo mais bem-sucedido da tradição anglo-saxônica de autores superiores produzindo para um grande público – gente como Eric Ambler, Len Deighton e, acima de todos, Graham Greene – sem sacrificar a qualidade literária. A sorte, ou a competência de Le Carré, foi a de reunir os três públicos num só mercado que, a partir do primeiro sucesso, O Espião que Saiu do Frio, incluindo as adaptações para o cinema, nunca parou de crescer e render.

A qualidade literária da obra de Le Carré é indiscutível. Pelo menos três dos seus livros – O Espião que Saiu do Frio, A Guerra no Espelho e A Vingança de Smiley – são modelos de roteirização e caracterização de personagens. O Smiley do título é George Smiley, fiel servidor do serviço secreto da Rainha, baixinho, gordinho, de óculos, obviamente traído pela mulher, um perfeito anti-James Bond. Smiley trava uma espécie de guerra fria particular com Karla, chefe do serviço secreto soviético. Não aposte contra os gordinhos.

David Cornwell, o verdadeiro nome de Le Carré, teve uma infância difícil. Apanhava do pai, um notório trambiqueiro, e foi abandonado pela mãe. No governo, trabalhou como espião de segunda categoria, sem muitos riscos, mas aproveitou a experiência para adotar o jargão e dar autenticidade ao mundo que retrataria em O Espião que Saiu do Frio. Le Carré descreveu como ninguém, no seu primeiro livro de sucesso, o clima de crise no país e no seu serviço de inteligência com as revelações sobre espiões nas altas rodas do reino, e de traidores como Kim Philby entre a nobreza. De certa forma, em todos os livros que publicaria depois, Le Carré abordaria o dilema da traição, de indivíduos tendo que definir suas relações com um estado opressor e intratável como um pai violento. 







sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Pianistas na infância - Milton Hatoum

 A lição de piano começava às duas da tarde, a hora mais dura do dia, quando o calor abrasador e a digestão ainda em curso produziam na mente e no corpo um efeito anestésico. Lutava contra o sopor e cancelava a sesta de quinze minutos na rede sombreada por um jambeiro, só para assistir às lições de piano. 

A pontualidade da professora Jerusa Mustafa era britânica. Mas ela nada tinha, nada tem de britânica. Filha de um imigrante sírio e de uma judia de origem francesa, a pianista era uma das virtuoses da minha então pequena cidade. 

Quem viveu na província deve ter admirado um(a) professor(a) ou artista, uma dessas figuras que podem mudar nossa vida, ou dar à vida um encanto e uma emoção de que nem sequer suspeitávamos. Hoje, aos noventa e quatro anos, não sei se a pianista ainda exerce sua arte. No entanto, ao completar oitenta, deu um concerto em Manaus. Infelizmente, eu não estava lá. Mas na minha infância e nos três primeiros anos da década de 60, assisti a inúmeras de suas aulas de piano na minha casa.

No início, não sabia o que ouvia, apenas me deixava levar pelos acordes da pianista, sem nada conhecer da vida e da obra dos compositores europeus e brasileiros. Com o tempo, soube que ela interpretava Noturnos de Chopin, Serenatas de Schubert, chorinhos de Nazareth e o Choro n. 5 (Alma brasileira) de Villa-Lobos. Os sons me tiravam da modorra mental, me desintoxicavam do barulho da maioria das músicas tocadas nas rádios, um barulho que só cresceu nas últimas décadas. 

Era como se a vida, naquelas tardes de calor úmido, adquirisse um sentido mais pleno. Eu queria entender mais sobre harmonia, escutava a professora falar sobre legato, staccato, acordes com tríades, dominantes e subdominantes, sem entender essas palavras, estranhas para um curumim. Em surdina, me aproximava do piano e via os dedos da professora bailar no teclado como aranhas mágicas guiadas por fios invisíveis. O movimento cadenciado dos dedos me fascinava, e, de volta ao assoalho da sala, me perdia de novo na emoção, sem procurar entender a dança mágica de dedos e teclas. 

Certa vez o poeta amazonense Luiz Bacellar (1928-2012) contou que, no final dos anos 50, gostava de fazer passeios vespertinos pelas ruas do centro de Manaus, só para ouvir lições de piano; ele ficava à sombra de uma mangueira ou de um oitizeiro e, enlevado pela melodia de uma sonata, esboçava num lampejo um de seus belos haicais ou sonetos. 

“Ouvia Mozart e Bach a torto e a direito”, dizia o poeta, alisando o castão prateado de sua bengala. “Quase todos os sobrados antigos de Manaus tinham um bom piano.” Ele me olhava por cima das lentes em meia-lua e, com um sorriso irônico, acrescentava:

“Tu sabes que as interpretações de Mozart, o grande compositor austríaco, são vícios benignos em Belém e Manaus. Só perdemos para Viena e Salzburgo. E nossas duas pianistas virtuoses só perdem para Glenn Gould”. 

O autor de Sol de feira referia-se a Jerusa Mustafa e a Ivete Ibiapina, outra grande professora, ainda viva na memória de Manaus, onde a belíssima residência em que viveu e lecionou piano tornou-se uma Casa da Música com o nome dela.

Às vezes, durante uma aula, alguns loucos da cidade passavam pela avenida Joaquim Nabuco e soltavam berros e gargalhadas cheios de frescor e liberdade, pois eles tinham fugido do hospício da Estrada de Flores. A pianista não interrompia a lição, e os gritos e as risadas se misturavam aos acordes de um chorinho ou de uma Bachiana Brasileira. Quando a aula terminava e ela ia embora, tudo silenciava, a tarde e o deleite morriam bruscamente, e a noite era promessa de um sonho com a pianista. 

Depois veio uma grande explosão: um verde sombrio manchou o país, um parente foi preso, a modorra das tardes quentes foi interrompida por outros sons, outras vozes. Uma noite longa, aflita e bruta nos esperava, e muita coisa chegaria a seu fim: a cidade em harmonia com a natureza, os igarapés de água limpa, as ruas arborizadas, a floresta ao redor da cidade, as estórias narradas por um velho imigrante, a liberdade… 

No Amazonas, duas décadas depois do verde obscuro e destruidor, chegaram os homens à paisana, inchados de demagogia, do mais vil populismo e, por que não dizer, homens inflados até o grotesco, de tanto engolir o vil metal. Esses impostores têm necessidade de mentir: a mentira é uma arma poderosa do triunfo deles.

Há uns sete anos, soube que a professora Jerusa Mustafa pediu ajuda para consertar seu piano desafinado, com teclas soltas e pedal quebrado. Mesmo com a saúde já um pouco fragilizada, a pianista desejava tocar, um verbo que lhe dava sentido à vida. Não sei se algum filantropo pagou o conserto do piano, ou comprou um novo para ela. A filantropia e o mecenato são gestos raros no Amazonas. 

Como a memória é estranha! E os sonhos, além de estranhos, enigmáticos. Agora, quando as festas natalinas se aproximam, acordo com acordes de piano, que parecem vir de muito longe, no tempo e no espaço. Nesses sonhos aparecem as duas pianistas e sua aluna, que estudou doze anos com ambas. Não sei quem tocava, e os acordes da música eram misteriosos. Seria uma sonata, um chorinho? Ou apenas um surto de nostalgia da infância, esse paraíso perdido para sempre?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Como venci o Coronavírus nos anos 80 - Gilberto Amendola

 



Coronavírus, você não me escapa. Te pego lá fora. Na saída da escola. Depois da última aula. Não adianta correr. Nem se esconder debaixo da mesa. Será só eu e você.

E eu, que nunca briguei na rua, que tenho medo de barata e de trovão, vou fechar os cinco dedos da minha mão na sua cara.

Vai ser um socão. Desses que tiram sangue do nariz – e que fazem voar os óculos. 

A turma vai fechar a rodinha. Bater palmas. A garota mais bonita da escola, a Meg Ryan, vai se impressionar com a minha coragem. Vou me encher de confiança e amarrar uma faixa de kung fu na testa, no maior estilo Chuck Norris nervosão. Neste momento, vou ganhar um piscadinha cúmplice da garota mais bonita da escola, da Kim Cattrall.

Mas... acordei do meu devaneio no meio dessa balbúrdia. 

Distraído, e quem não se deixaria distrair com esse sorriso da Kelly LeBrock, levo um contra-ataque pelas costas. No chão, percebo que perdi um dente da frente. A galera urra de emoção. Limpo o sangue com as costas da mão esquerda e ouço uma voz na minha cabeça.

O Coronavírus sacode os mullets e arregaça as mangas de um terninho azul (com ombreiras). Ele me chama de fracote com uma voz de dublador da Sessão da Tarde. Ele diz que vai acabar comigo. 

De repente, o Senhor Miyagi aparece na minha frente como em um flashback repentino. O sábio me aconselha a usar o “Golpe da Garça” contra o Coronavírus. 

O mundo começa a passar em câmera lenta enquanto eu preparo o movimento, mas...um rock farofa rouba minha concentração bem na hora de executá-lo.

Acabo de cair de bunda no chão. E o Coronavírus ri com gosto. Aliás, todos em volta estão rindo também – inclusive a garota mais bonita da escola, a Molly Ringwald.

Antes que eu pense desistir, Jean-Claude Van Damme surge no meio da multidão e manda um “retroceder nunca, render-se jamais”. 

Me levanto, de pernas bambas, faço um gesto torto de boxeador, no estilo Rock Balboa. A menina mais bonita da escola, a Amanda Peterson, começa a me incentivar. Cheio de coragem, vou pra cima... e sou atingido por um pedaço de pau. 

A garota mais bonita da escola, a Jennifer Grey, grita que o Coronavírus é um covarde. A turma ao meu redor concorda e começa a me apoiar. O Coronavírus parece descontrolado. Acho que ele vai me matar. Quando o Coronavírus está pronto para me castigar com um golpe fatal, a menina mais bonita da escola, a Brooke Shields, se coloca entre nós dois e começa falar algo mais ou menos assim: “Se quiser bater nele, vai ter que bater primeiro em mim”.

O Coronavírus está mais ensandecido do que nunca. Parece não se importar com nada. Ele vai acabar comigo do mesmo jeito.

De repente, todos os meus colegas de escola repetem o gesto da menina mais bonita do colegial, a Kelly McGillis. Agora, estão todos postados na minha frente e chamando o Coronavírus para a briga.

Injuriado, o Coronavírus cospe no chão e sai correndo. Ele entra em seu carro conversível e amarelo, acelera, canta pneu, e vai embora. 

A turma me carrega pelos ombros. Sou festejado. A garota mais bonita da escola, a Mia Sara, também é carregada pelos ombros.

Começa a tocar Is This Love, do Whitesnake. Nos encontramos no alto. A câmera se aproxima. Vai acontecer. Eu sempre quis beijar a Winona Ryder.













https://youtu.be/GOJk0HW_hJw

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Dona Vidraça - Gilberto Amendola

 Dona Vidraça tem refletido muito sobre os últimos acontecimentos. De ilustre e lustrosa cepa, fala sem nenhum “embaçamento” sobre sua posição privilegiada em nossa sociedade.

Dona Vidraça transparece todos os preconceitos de uma classe acostumada com o pano seco e suave que muitos insistem em passar. Não pode com sol, não pode com chuva, tudo nos trinques para não trincar.

Dona Vidraça gosta de ser borrifada com mimos e “não me toques”. Ela deseja que as mãos gordurosas do povo permaneçam distantes de sua superfície imaculada. Dona Vidraça não tem moedinha pra ninguém. Sem abrir sequer uma fresta, diz “não” com seus dedinhos de para-brisa (para logo se fechar). 

Dona Vidraça não gosta de se misturar. De certa forma, sua função é mesmo manter cada um no seu lugar, nos separar. Dona vidraça é temperada – e estufa-se (orgulhosa!) na defesa da propriedade de outrem. 

Dona Vidraça fez carreira em bancos, supermercados e concessionárias. Suas netas já são à prova de balas. Seu filho, o Telhado de Vidro, não gosta muito do ofício. Não quer ninguém revirando seus caquinhos por aí.

Na juventude, Dona Vidraça sonhou em ser espelho. Sempre achou que tinha talento, um humor afiado e cortante.

Dona Vidraça conta com a proteção da polícia e da política. Dona Vidraça não fica em cima do muro. Dona Vidraça mente quando se declara daltônica. Ela tem lado. E planeja uma rica e tranquila aposentadoria. Quem sabe, talvez, passar o resto dos seus dias em uma bonita cristaleira – em uma sala de capa de revista. 

Dona Vidraça só tem um medo. Aquele medo de estilhaçar o coração, de espatifar a própria alma. Dona Vidraça tem medo de pedra. O filho dela, o Telhado de Vidro, também. Ele tem pavor.

Só a pedra humaniza a Dona Vidraça. Mas Dona Vidraça não se deixa abater. Ao se sentir pisada, pode fazer sangrar. Sim, Dona Vidraça faz sangrar.

Tem uma história de sangue por de trás dos tapumes que protegem a Dona Vidraça. 

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...