quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Etiqueta - Luis Fernando Verissimo



A duquesa de Noailles era conhecida na corte de Luiz XVI como “Madame la Etiquette”. Era obcecada pelo protocolo. Tanto que, quando ficou senil, começou a escrever longas cartas para a Virgem Maria discutindo questões de etiqueta no céu e ditando regras de conduta e prudência na eternidade. O padre confessor da duquesa respondia às cartas, assinando-as “Maria”. As respostas aparentemente não agradavam à velha e ela uma vez comentou a respeito da sua correspondente no Além, que não se podia esperar demais de uma camponesinha de Nazaré que, afinal, só entrara para a nobre Casa de Davi através do casamento. 
A duquesa de Noailles ficou como um exemplo extremo das pessoas que não entendem o tempo em que vivem. Certamente, o comentário que faria sobre a revolução que rugia à sua volta, se tivesse lucidez para notá-la, seria que se tratava de uma coisa de muito mau gosto. Pelas normas da duquesa, tudo se dividia entre o que era e não era de bom-tom. Um recado para a elite e a classe patronal brasileiras, que deveriam mudar seus termos de referência para não acabar como a duquesa - que, por sinal, foi guilhotinada.
Não se sabe a opinião da duquesa de Noaille sobre outra questão protocolar francesa. O restaurante Laperouse, que fica na beira do Sena, na esquina com a Rue des Grands Augustins, tem salas particulares, usadas, há mais de século e meio, por grandes senhores e suas “petites filles”. Na parede de uma dessas salas ainda existe um espelho, todo riscado. Era na sua superfície que as meninas testavam a autenticidade dos diamantes que acabavam de receber - e, portanto, o caráter e as intenções dos seus acompanhantes. A cada arranhão daquele vidro correspondia um romance, um caso bem-sucedido ou no mínimo uma hora de amor agradecido. Tudo feito com elegância e distinção.
Mas a verdadeira prova de comportamento civilizado - e, pensando bem, de todos os valores da época - devia ser quando o diamante do anel não produzia nenhuma marca no espelho. Imagine a cena, a moça esfregando o falso diamante contra o espelho e este, com silenciosa eloquência, denunciando a falsidade tanto da pedra quanto do cavalheiro. Ninguém, certamente, diria uma palavra sobre o vexame. O único efeito do fiasco seria que, pelo resto da noite ficaria, entre eles, um clima que só pode ser descrito como meio assim. Eles teriam que conviver, educadamente, com a evidência de que “monsieur” era um patife. 
Restaurant Lapérouse

É possível compreender? - Roberto DaMatta

Um dos mistérios das sociedades humanas é a constatação de como os seus membros são (e estão) convencidos de que suas crenças, gestos, comidas, rituais, utopias, ideologias (e tudo o mais que denominamos “estilo de vida”) são óbvios, virtuosos, legais e religiosamente certos. O deles é fantasioso. Mas o nosso é mais do que verdadeiro - é real. 
Além disso, é espantoso descobrir que toda essa tonelagem de valores é invisível aos seus membros. O crente não tem consciência da sua crença. O feitiço é tão grande a ponto de pensarmos que falamos uma língua quando é a língua que nos fala. E só tomamos consciência disso quando nos confrontamos com a aparente algaravia de um outro idioma. O encontro com o outro obriga a perceber a diferença e a diferença é o limite que condena a traduzir e a tentar compreender.
Para o portador da boa-nova e para o crente, o extraordinário é descobrir o tamanho do batalhão de outros crentes que, com crenças diferentes das suas, também formam a humanidade. Esse foi o susto desagradável que a antropologia social deu no eurocentrismo. A tolerância é um hóspede não convidado de um mundo que confunde tecnocracia com sabedoria. 
A diversidade agencia dúvidas, conduz a escolhas e engendra o inimigo capital dos crentes: a liberdade, o ceticismo e o inesperado abraço da compreensão. O caminho da transcendência anunciada por alguns santos, poetas e filósofos. 
Mesmo quando o crente conhece outras crenças, ele não as percebe como alternativas, mas as encara dentro de uma matriz que vai do infantil e do eventualmente divertido até chegar ao “esquisito”. Daí para o errado, o proibido, o censurável, o louco e o abominável, é um passo. 
Mas como toda rigidez contém o seu contrário, só a crença produz descrença. E, assim, toma o infiel como desafiador - o outro absoluto -, como forte ou superior justo porque ele resiste. A religião abolida torna-se feitiçaria; a ideologia reprimida vira virtude, a música censurada é a mais ouvida. E o estrangeiro branquela e louro, engalanado por sotaques, é tido como mais civilizado; enquanto o nosso familiar universo misturado é apresentado como doente e atrasado.
Para o nosso lado permanentemente colonizado, os estrangeiros brancos - os “de fora” - sempre foram superiores. Eles contrastam com os negros africanos e os nativos que, no Brasil, constituem uma ficção chamada de “povo”. Na nossa mitologia, cada qual tem uma cota de poder. 
Mas nenhuma atinge o ideal atribuído aos “brancos”, que reiteram o paradigma clássico segundo o qual o herói civilizador é um superestrangeiro. Só que eles não vieram do céu, como os deuses, mas nos “descobriram”. Assim, imperadores e imperatrizes austríacas que falavam com sotaque, mandavam na multidão de mestiços e negros dominados por costumes tidos como exóticos e atrasados. De um lado, a Corte; do outro, o Brasil...
O modelo de cima e de fora proibia o de dentro, lido como inferior e doente. Aceitamos costumes de fora tanto quanto ignoramos as nossas práticas cotidianas. Tudo o que é de fora é “legal”. Tudo o que é de dentro é visto como “tupiniquim” - como atraso. Daí resulta essa imensa segmentação entre a máquina administrativa, com seus formalismos supostamente civilizados, e o Estado e a sociedade feitos de jeitinhos nos quais se concretiza o mal-estar de uma indisfarçável ilegalidade recorrentemente produzida. Ilegalidade que cresce na medida em que recusamos levar a sério hábitos e estilos de vida e inventamos leis que não podem pegar. De fato, que fazer quando o compadrio e o parentesco puxam para a nomeação do sobrinho, contrariando a regra que criminaliza o nepotismo costumeiro? O administrador público segue a lei até ser capturado pela força das crenças embutidas nos costumes. Achar que costumes mudam com leis é uma crença que, como diz Gilberto Freyre, promove enormes mudanças formais, mas deixa intocados costumes e crenças para os quais essas mudanças foram dirigidas. Mudamos as leis, mas não preparamos a sociedade para as mudanças por elas requeridas. Seria muito melhor diminuir o fervor legalista para dar mais atenção às demandas dos costumes. Pois a sua força só será domesticada quando eles forem reconhecidos, compreendidos e, na medida do bom senso, atendidos.
Enquanto isso não for realizado, vamos continuar a ter Estado e sociedade como inimigos. Cada qual cavando a sepultura do outro como é o caso dessa crise interminável na qual as demandas da amizade se confundem com as responsabilidades dos cargos e poderes. 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Crianças, cachorros e deuses - Leandro Karnal


Na Idade Média, não havia crianças e não existia o amor materno como o entendemos hoje. A ideia é tradicional para os historiadores. Costuma encontrar alguma reação em públicos de outras áreas. “Não havia crianças? Nasciam adultos”? Sim, adultos “inaptos” que deveriam ser treinados para que se tornassem produtivos e responsáveis. Criança está ligada ao verbo latino para aumentar, produzir, erguer. Infantil é literalmente quem não sabe falar. A criança era definida pela negativa do adulto. É difícil pensar sobre outros modos de significação quando estamos diluídos no nosso.
Um processo de séculos, como a invenção da criança, perde objetividade. Vamos para uma transformação mais recente: a relação dos humanos com animais domésticos de companhia. 
Nasci no interior, em uma casa de pátio amplo. Cães e gatos eram frequentes. Aprendi a gostar deles desde muito cedo e ainda tenho saudades de animais que morreram há mais de 30 anos, como o cocker spaniel Drop ou a gata Lucrécia (sem raça definida).
Nosso amor era compartilhado pela família e, mesmo assim, cães e gatos comiam, quase sempre, restos das refeições familiares. O veterinário existia, mas, mesmo entre bem situadas famílias de classe média do interior, era um apelo extraordinário em caso grave. Animais não eram levados regularmente a consultas. 
Tudo isso foi sendo transformado em ambientes urbanos brasileiros. A ideia de alimentação deu um passo quando se popularizou o hábito de misturar uma polenta com alguma carne de segunda ou miúdos de frango. Quem fazia isso já indicava um pertencimento social acima da média. 

Vi surgir o mercado de rações. Propagandas ressaltavam como era saudável e como era prático comprá-las. Os ramos se especializavam: havia para gatos, para cães e para filhotes em geral. Embalagens começaram a destacar virtudes: pelos sedosos, disposição, saúde dental. Brotaram biscoitos caninos, bifinhos, ossos artificiais, brinquedos e casinhas cada vez mais sofisticadas. 
Canis e gatis brotavam junto a pet shops. Assisti também às primeiras propagandas de passeadores, hotéis de fim de semana para animais e, bem mais recentemente, acupuntura, ofurô e hidroginástica para nossos amados quadrúpedes. 
Parece, por simples observação empírica sem método científico, que há mais raças e maior variedade pelas ruas hoje. Minha infância tinha muitos sem raça definida ao lado de um minoritário pastor-alemão, pequinês, fox paulistinha e um punhado escasso de outros.
Os nomes? Meu avô tinha um cão denominado Piloto que o acompanhava em caçadas e pescarias. Nós tivemos uma Lady: por influência do desenho A Dama e o Vagabundo. A já citada Lucrécia era uma exceção ligada ao meu gosto por História (de Lucrécia Bórgia). A norma eram nomes como Rex para cães e Mimi para gatos. Hoje, nome e sobrenome, quase sempre sofisticados, substituem os simples e diretos do passado. 
Um cão dormindo do lado de fora de casa, amarrado por um fio de arame ou corrente, é algo menos comum hoje, ainda que existam muitos animais abandonados. 
Cães e gatos, especialmente na classe média e alta, foram humanizados. Em vez de adereços simpáticos, transformamos cães e gatos em parte integrante da afetividade humana. As raças são variadas e, como todo dono de animal sabe, ao passear com seu animal, parte do sucesso do bípede está relacionada ao quadrúpede. 
Usei esse exemplo para pensar o que eu dizia no começo. O século 20 viu surgirem códigos de proteção aos animais e, hoje, uma cena de espancamento de um cachorro na rua pode causar indignação muito intensa. A antropomorfização dos animais é quase completa e visível ao longo da minha geração. Cães e gatos foram tornados filhos. Sua morte provoca luto familiar e até depressão. 

Graciliano Ramos inovou muito ao fazer o conto Baleia, que daria origem a Vidas Secas. Imprimiu personalidade ao animal. Baleia parece mais matizada nos sentimentos do que os pais Fabiano e Vitória. As crianças nem têm um nome. 
Há dois anos, eu dei um curso em São Paulo sobre a história da concepção de Deus. Dois jornalistas de um importante órgão de imprensa vieram fazê-lo. Perguntei, no intervalo, sobre a motivação. Eles disseram que havia sido feita uma pesquisa no jornal e foram identificados dois temas de máxima atenção do público. Com a pesquisa, os diretores enviaram jornalistas em missão de angariar conhecimentos a fim de que a empresa se afinasse com a vontade soberana dos leitores-clientes. Quais os temas? O primeiro era óbvio: Deus, o que explicava a presença no curso. O segundo? Animais de estimação. Não me recordo se a ordem era crescente ou decrescente de importância. Em todo caso, pensei em silêncio: a ideia bíblica de um Adão nomeando e submetendo a natureza ia dando lugar à divinização egípcia dos seres. O Gênesis recuava diante do Livro dos Mortos. 
Tivemos um santo cachorro na Idade Média, São Guinefort. Os animais foram humanizados. Será que o próximo passo seria torná-los deuses? Há cemitérios para animais de estimação. Campos-santos guardam a vontade de homenagear com a esperança do reencontro. Há sempre uma promessa de alma quando sepultamos com reverência. 
Estamos em maior sensibilidade em relação aos outros seres vivos ou diminuindo nossa crença no humano? Não sei. Só sinto que tenho saudades da Lucrécia e do Drop.


domingo, 3 de setembro de 2017

A triste vida sem gordura - David Coimbra



O detetive Philip Marlowe estava sozinho em seu apartamento, quando ouviu batidas na porta. Foi abrir e deparou com uma loira que, só de olhar, dava vontade de uivar para a Lua. Ele a encarou. Ela o encarou. Ela perguntou:

- Tem alguma coisa gelada aí?

Ele respondeu: - Só o meu coração.

Ah! Que cena! Que resposta do bom e velho Marlowe! Desde que li esse trecho de um dos romances de Raymond Chandler, fiquei esperando que uma loira de fazer uivar para a Lua batesse à minha porta e me jogasse essa pergunta no peito. Podia ser morena também. Ou negra. Ou ruiva. Tanto fazia, mas eu precisava dizer, com um toque de cinismo amargo:

- Só o meu coração. Tristemente, nunca tive a mesma sorte do personagem de Chandler. Mais uma frase genial que não digo.

O meu amigo Ivan Pinheiro Machado gosta de usar outra frase que Chandler colocou entre os dentes de Marlowe. É quando alguém lhe conta algo e pede discrição. Então, ele invariavelmente cita:

- Jogue um segredo dentro de mim e não ouvirá bater no fundo.

Um homem que diz algo assim é um homem de princípios. Tenho cá também os meus. Repito sempre:

"Nenhuma mulher paga com David Coimbra".

Que tal?

Mas algo em que realmente acredito é o seguinte:

"A vida sem um pouco de gordura não vale a pena ser vivida".

É sobre essa profunda filosofia que queria discorrer. Ocorre que médicos descobriram que a gordura animal não faz mal à saúde.

Você sabe o que isso significa? Significa que a banha de porco, enfim, irá se redimir.

Minha avó, dona Dina, só fazia feijão com banha de porco. Se você nunca comeu feijão feito com banha de porco, você não é feliz.

A banha era fartamente utilizada na cozinha da minha avó. Devido ao preço proibitivo da manteiga, ela às vezes nos servia pão com banha e sal. Nós adorávamos.

Hoje, o regime alimentar na casa da minha avó seria considerado pouco ortodoxo. Como refrigerante, por exemplo, volta e meia ela nos dava vinho com água e açúcar. Coca-Cola, jamais.

Mas o que importa aqui é que a redenção da gordura animal tirará do ostracismo também o bacon. Nos Estados Unidos, come-se bacon sem medo, porém com culpa. No Brasil, dizem que há tolerância, mas a verdade é que existe preconceito dissimulado contra o bacon. O Brasil é assim.

Pois bem, é hora de mudar. Abra sua cabeça. Pense que o bacon é nosso amiguinho. Tanto, que vou lhe dizer o que fazer neste final de semana: você irá adquirir bacon em finíssimas tiras da espessura de uma folha de papel almaço. Feito isso, irá estirá-las gentilmente na frigideira, que estará sobre fogo baixo, bem baixo. Tape a frigideira. E espere. Espere.


Adrede preparados estarão uma cebola de bom tamanho e três dentes de alho, e preparados que digo é que eles estarão picados em pedacinhos minúsculos. Preste atenção: a gordura deve estar escorrendo do bacon, como a verdade escorre das bocas dos delatores da Lava-Jato. É com essa gordura fervente que você fará o refogado da mistura do alho com a cebola. Assim que o refogado estiver pronto, deite sobre ele uma xícara de arroz. Mexa, mexa rapidamente, mas nunca com pressa. Derrame água na panela. Acrescente sal. Mexa mais uma vez e não toque mais na panela, até que a água tenha evaporado.

Ainda há um pouco de gordura na frigideira. Deixe que fique por lá, porque você a usará no futuro próximo. Mas retire as fatias de bacon e triture-as como se elas fossem políticos de Brasília.

Veja! O arroz já está pronto. Agora é hora de usar o resto de gordura que está na frigideira. É com ele que você fritará dois ovos. Lembre-se: gema mole, clara dura, com bordas douradas e crocantes. Este é o ponto divino.

No frigir dos ovos, revolva o arroz com o bacon triturado. Faça com que os dois ovos aterrissem suavemente no monte. O acompanhamento pode ser feito com uma cerveja de trigo da cor das pernas longas de Gisele Bündchen. Coma assistindo a um antigo filme noir na TV. E repita para você mesmo minha frase imortal:

- A vida sem um pouco de gordura não vale a pena ser vivida.


Deu bandeira! - Marcos Piangers


Foi com algum constrangimento que falei sobre maconha com minha filha pela primeira vez. Ela tinha 10 anos. Não pelo tema, que aqui em casa achamos que é dever dos pais falar sobre tudo, mas pela situação. A menina estava fazendo um trabalho escolar sobre o México, cartolina com letras enfeitadas contando a história da nação, e bem grande no meio do cartaz tinha uma bandeira mexicana tirada da internet. 

Era a bandeira do México, sem dúvida, verde branca e vermelha, a águia com uma serpente no bico, ramos de louro embaixo, mas, na bandeira que minha filha pegou da internet, uma gigantesca folha de sete pontas aparecia em destaque na boca da águia. Se você procurar bandeira do México no Google Images vai encontrá-la, no meio de tantas outras bandeiras mexicanas caretas, a bandeira que minha filha escolheu. Achei esta mais enfeitada, me disse a pequena. Mas esta tem uma folha a mais, não é a bandeira correta, argumentei. É a mais bonita, ela me disse.

Bonita ou não, por alguns momentos pensei em deixar que a menina fizesse a apresentação na frente da turma. A professora, talvez, nem notasse. Minha filha iria mostrar as virtudes do batalhador povo mexicano, explicando o brasão de armas e o deus da guerra, e quando perguntada sobre a estranha folha no bico da água diria: "é só um enfeite". 

Mas sempre existe um garoto de 10 anos com um irmão mais velho, um garoto que já identificou um padrão nas roupas do irmão e perguntou o que era aquela planta na camiseta, no boné ou no caderno. Identificando a folha, denunciaria para toda a turma: "Maconha! Aquilo é maconha!". Minha filha diria que é apenas um enfeite que deixa a bandeira mais bonita, mas tenho certeza de que o mole impactaria sua nota.

"É uma planta ilegal que as pessoas fumam pra ficarem tipo bêbadas", disse pra ela. "Pegaria mal usar essa imagem no trabalho de classe", expliquei. "Mas porque as pessoas não bebem cerveja pra ficarem bêbadas?", perguntou Anita, a menina das argumentações intermináveis. "Algumas preferem fumar", expliquei, relembrando os colegas da faculdade. "Mas porque cerveja é legalizada e essa planta não?", me perguntou a menina. É uma boa pergunta, eu reconheço. Não sei porque eu insisto em responder às perguntas infantis. Crianças são especialistas em perguntar, eu sou um amador na arte de responder.

"Anita, simplesmente tira esta bandeira do México e substitui pela bandeira sem a folha", eu disse. "Por favor!" Substituição feita, trabalho apresentado, Anita voltou pra casa com uma nota oito. Foi prejudicada por alguns erros de português. Desatenção boba, você sabe como é. Papai aqui ficou tão atrapalhado com a bandeira que não deu atenção pro trajeto com g.

Desculpas pra Ciça, guisado de ovas - Antonio Prata



Eu marquei de jantar com a Ciça e não fui. Simplesmente esqueci. Fiquei aqui em casa assistindo a velhos DVDs do "Seinfeld" enquanto, lá no restaurante, sozinha, vendo fotos de gatos de desconhecidos no Instagram, minha amiga me amaldiçoava. Escrevo esta crônica como uma forma de reparação. Talvez, se eu declarar ao Brasil como admiro a Ciça, ela possa me perdoar. Admiro a Ciça, entre outras coisas, porque ela é a pessoa mais inteligente que eu conheço. Não inteligente do tipo que faz raiz cúbica de cabeça, mas inteligente tipo sábia. Vou contar só uma história e vocês vão entender.

A Ciça tem uma casa na praia. Na casa há um deque que avança mar adentro e diante do qual, toda manhã, nos feriados, aporta uma velha lancha de alumínio. É o Jorginho, pescador, que vai de casa em casa perguntando se o pessoal quer alguma coisa, passa o dia pescando e volta no fim da tarde com o que tiver conseguido pegar. Naquela manhã, já faz uns 15 anos, pedimos caranguejos. Lembro que era baratíssimo. Encomendamos duas dúzias.

 A ideia era ferver tudo e ficar naquele deque estendido entre o Atlântico e a Via Láctea bebendo cerveja e quebrando patas de caranguejo às pauladas até que os estômagos ou os bíceps pedissem arrego.

Eu disse que o Jorginho passava o dia pescando. É verdade –mas não é toda a verdade. Ele passava o dia pescando e bebendo cachaça, de modo que quando ele voltou lá pelas seis e dissemos que não aceitaríamos nenhum dos quase 50 caranguejos vivos porque estavam cheios de ovas, ele resmungou um "bobagem" não muito amoroso, começou a tirar os bichos do seu balaio e a jogar na nossa bacia.

"Jorginho", eu insisti, imbuído de um súbito ímpeto ecológico, "Se você pescar caranguejo com ova, logo não vai mais ter caranguejo pra você pescar". "Imagina, ó o tamanho desse mar", ele desdenhou e continuou a jogar caranguejos na nossa bacia. Ao perceber que não haveria diálogo, passei a jogar os caranguejos de volta no balaio dele. Mas o tempo que leva pra um paulistano estudante de ciências sociais pegar um caranguejo vivo dentro de uma bacia e jogar no balaio de um caiçara pescador é o tempo de um caiçara pescador pegar cinco caranguejos vivos dentro de um balaio e jogar na bacia do paulistano. Bacia cheia, Jorginho decreta, acariciando o cabo de uma peixeira: "É 30 real".

Quando eu já estava refletindo se seria heroico ou patético morrer defendendo a descendência de 24 caranguejos, a inteligência da Ciça, essa amiga querida e genial que eu cretinamente deixei mofando na mesa de um restaurante na última sexta, surge para me salvar.

"Jorginho, quanto você quer por todos os caranguejos?". "Todos?". "É. Todos. A gente vai fazer um guisado de ovas de caranguejo". "Hm. Cinquenta". A Ciça pagou, virou balaio e bacia no mar e os caranguejos saíram nadando felizes em direção às suas doulas e Pro Matres submarinas. Jorginho deu uma risada, disse "Cês são tudo louco!" e partiu no seu barquinho –não sem antes deixar de me esfaquear.


Acho que a Ciça tinha que fazer um TED com essa história. Acho que ela devia escrever um livro de autoajuda "Guisado de Ovas: identificando problemas e encontrando soluções". Acho que ela podia, ao menos, perdoar esta besta quadrada que não sabe nem sequer salvar caranguejos; o que dizer sobre cultivar amizades? 


O tridente - Luis Fernando Verissimo


Deu o que falar, um homem maduro (ou “podre”, como diria a mulher, quando pediu o divórcio) como ele namorando uma menininha. Mas como resistir, se a primeira coisa que a menininha disse para ele foi:
– Posso arruinar a sua vida?
Não “quer me namorar?”, ou “topas?” ou “tem horas aí, tio?”, mas:
– Posso arruinar a sua vida?
Ele teve que pensar muito numa resposta, quase um minuto. No fim disse:
– Arruinar, como?
E ela:
– A escolha é sua. Paramos por aqui, ou continuamos. Você diz “não” e eu vou embora, ou você diz “sim” e eu arruíno a sua vida.
*
Ela tinha o quê? Dezessete anos. Talvez menos. 
– Arruína, como?
– Ruína completa. Escândalo. Você sai de casa. Nós vamos morar juntos. Em um mês ou dois, eu provavelmente deixo você. Você vai atrás de mim, dá vexame. Talvez até me mate. Ou eu mato você. Mas pense no que seria esse mês, ou dois...
Ele pensou em dizer “isso é uma brincadeira?” Pensou em dizer “não faça isso com um velho”. Pensou em dizer “por que eu?”. Só não pensou em dizer “não”, para ela não ir embora. Os olhos dela eram de um castanho esverdeado. Ela insistiu:
– E então?
– Começando quando?
– Quando você quiser. Por mim, já começou.
Começou no carro dele, àquela tarde mesmo. Foi quando ele notou a pequena tatuagem que ela tinha na parte interna da coxa. Um tridente. Perguntou o que era aquilo. Ela disse:
– Nós todas temos uma igual.
– “Nós” quem?
Ela apenas sorriu.
– Vocês são o quê? Um clube? Uma irmandade? Uma seita? 
Ela só sorrindo.
– As menininhas que arruínam vidas, é isso?
Ela deu uma risada. Depois prendeu a cabeça dele entre suas coxas tostadas. 
*
Foram vistos. Naquela noite, a mulher dele já sabia. No dia seguinte, todo o mundo sabia. Foi um escândalo. A mulher pediu divórcio, em seguida. Ele não se enxergava, não? A menina podia ser sua filha! 
Ele foi morar com a menina. Largou o trabalho, largou tudo. Quando não estava com a menina no apartamento que lhe comprara estava por perto, controlando a vida dela, louco de medo de ser traído, desconfiando até de entregador de pizza.
No fim, ela declarou que iria deixá-lo. Quando viu, ele estava no chão, agarrado aos pés dela, implorando para que ela não fosse embora. Ela foi. Pisou na cabeça dele antes de sair.
*
Hoje, ele é uma ruína. Bebe, tem problemas circulatórios, mas, como largou o emprego, não tem dinheiro para se tratar. Uma ruína. Tinha durado pouco mais de um mês. Mas que mês e pouco, pensa ele, às vezes, e sorri com a lembrança. Que mês e pouco. E até hoje ele não sabe o que significa aquele tridente que ela tinha tatuado na parte interna da coxa. Que todas elas têm.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...