sexta-feira, 30 de julho de 2021

O invencível bate-estacas? - Ignácio de Loyola Brandão

 bonde na Avenida São João




Meu pai ao voltar do escritório comunicou: “Este mês vocês irão comigo para São Paulo”. De tempos em tempos ele participava na capital de uma reunião com chefes de Contadoria das ferrovias brasileiras. O aviso era recebido com alvoroço por mim e meu irmão Luis Gonzaga. Aquela era uma viagem encantada. Só quem nasceu no interior viveu a experiência arrepiante de chegar de trem na Estação da Luz, passando por baixo da rede de fios elétricos de uma super aranha acima de nossas cabeças. Havia a expectativa na capital de outra viagem dentro da viagem. Pegar o bonde Penha-Lapa, ida e volta, o que nos ocupava meia-tarde atravessando a cidade. 

As reuniões dos chefes eram na Estação da Sorocabana, e Luis e eu ficávamos em um jardim interno à espera até o final, quando meu pai nos apanhava para almoçar no Hotel das Bandeiras, ou do Giuseppino, na Rua da Conceição. O prediozinho foi sacrificado pelo metrô. Ah, aquele jardim hoje é a Sala São Paulo. No restaurante, sentávamos e começava o desfile de travessinhas, uma com ovo, outras com bife, linguiça, abobrinha, berinjela, jiló, chuchu, ervilhas, couve, saladinha, arroz, feijão, macarrão. Também visitaríamos a Catedral da Sé em construção, e eu achava inacreditável ver um bonde que entrava na igreja com material de construção. 

Maravilha das maravilhas sempre foi o anúncio luminoso de um café (seria o Paraventi?), em cima do prédio da Light, vizinho ao Mappin. Em uma animação (pensem, eram os anos 1940), o bule se inclinava e derramava o líquido na xícara. Para mim, havia um mistério. Por que as lojas mantinham luzes acesas durante o dia? No interior, luzes só eram acesas depois de seis da tarde. Isso significava o que era para mim a cidade grande, luzes acesas durante o dia. 

Mas São Paulo era a cidade dos prédios, dos arranha-céus. Araraquara não tinha ainda nenhum. Meu pai, Luis e eu nos instalávamos na calçada, do outro lado da rua, a contemplar elevadores de madeira periclitantes que subiam e desciam, levando carrinhos com pedras, concreto, cal, tijolos. Víamos pedreiros se equilibrando nos andaimes sem nenhum medo. Homens dos ares, dizíamos arrepiados. Os prédios subiam lentos, muitas vezes ao voltarmos, meses depois, eles tinham crescido pouco. Para tudo há um ritmo, dizia seu Totó, não adianta ter pressa ou o prédio cai. Não existiam ainda os caminhões de concreto com betoneiras girando, girando. Assim se constrói uma grande cidade, murmurava meu pai, aquilo era progresso.

Em 1957 vim morar aqui. Os prédios subiam velozes. O encantamento continuava, havia cinemas, teatros, livrarias, eu trabalhava em jornal, tinha um único medo, ser demitido, mas se você perdia a vaga, em uma semana estava empregado de novo. Agora, não tenho mais medo de demissões, me demiti, aposentei, e trabalho mais do que antes. Continuei fascinado pelas construções, cada vez mais velozes. Um dia era um buraco, vinha o bate-estacas ruidoso, pram, bum, tcham, tchum, logo anunciavam o apartamento decorado, abriam o showroom. Piscou um dia, no dia seguinte edifício pronto. Passei por muitas fases da história da construção. Agora chegamos aos tempos de aceleração total. Um tapume, um buraco, um andar hoje, outro amanhã, no final da semana tem mais não sei quantos caminhões de todos os tipos. Concreteiras mandam o cimento armado por tubos a alturas inacreditáveis. 

Porém, há um mistério indecifrável. Pensem bem. Vejam se não tenho razão. A revolução industrial avançou, veio a tecnologia de ponta, a informática, o celular, o computador, os robôs, a descoberta do DNA, implantes substituem as dentaduras, transplantam-se corações, fígados, rins, um dia transplantarão almas. O homem foi à lua, a Marte, os trens (europeus, claro) correm a 500 por hora, usa-se a energia solar, criaram-se os games, a internet, o Twitter, a revolução digital, as fake news, os caminhões gigantescos, os treminhões, o radar, o laser, a corrupção.

No entanto, quem me explica, esclarece, justifica, encontra uma única razão para a existência dos bate-estacas ruidosos como tiros de canhão que continuam a nos atormentar desde 7 da manhã? A cada pancada, vibram os edifícios todos em volta. Há silenciadores de armas, mas não se criou um para o bate-estacas. De Newton a Darwin, de Niels Bohr a Pauling, de Einstein a Fleming a Osvaldo Cruz, de Madame Curie e Steve Jobs, de Salk a Mendel, sempre tivemos pessoas querendo o bem-estar da humanidade. Mas nenhum se colocou frente a esse tormento primitivo, rompedor de tímpanos e mentes. Mistérios.

terça-feira, 27 de julho de 2021

Uma criança nessa coisa de ser velho - Gilberto Amendola

 



Com o avanço da vacinação e a compulsão coletiva em postar selfies do momento mais importante do ano, tenho me especializado em...

– O quê? Ele só tem 34 anos? 

Sim, me transformei naquilo que eu mais temia: um fiscal da idade alheia. 

Como assim fulana ainda não se vacinou? O quê? Ela tem 27 anos!

Ainda que alguns tenham aplicado o golpe “Gloria Maria”, e postado a foto da vacinação semanas ou meses depois da data em que ela aconteceu, consegui montar uma espécie de linha do tempo com todos os meus amigos e conhecidos.

O meu círculo mais próximo é 36+. No meu trabalho, a idade cai bastante e, pelas minhas contas, esse círculo aumenta e abraça uma turma que é 24+. 

Da minha parte, aos 45, e com o registro da minha primeira dose devidamente postado nas redes sociais (obedecendo algum artigo constitucional), sinto que ainda sou uma criança nesta coisa de ser velho.

Ou já sou suficientemente velho para entender que, a partir de agora, tudo é sobre o tempo. Sobre como gastei o tempo que tive e, principalmente, sobre como posso usá-lo daqui pra frente. 

Veja só os milionários que estão protagonizando uma nova corrida para o espaço. Penso que são impulsionados pela montanha de dinheiro em que vivem sentados, mas também pela sensação de finitude, pelo tic-tac traiçoeiro da mortalidade.

Já não sonho com o espaço (talvez um coach possa me convencer do contrário). A minha sensação de finitude vai precisar ser preenchida com prazer e conquistas muito mais pés no chão.

Ao encarar a passagem do tempo, cada um de nós vai fazer suas contas e elencar suas prioridades. Quer salvar a Amazônia? Faça por onde. Quer tomar o melhor dry martini da vida? Faça por onde. Quer acabar com a fome no mundo? Faça por onde. Quer comer um boeuf bourguignon em um bistrô parisiense? Faça por onde.

Em algum ponto do infinito, a consciência social e a frugalidade irão se encontrar. Por isso, sem julgamentos. Faça o que quiser fazer (e tente não machucar ninguém no caminho).

A pandemia está prestes a tirar dois anos de vida plena de quem teve a sorte de sobreviver até aqui, até o momento da vacina (e da selfie). Por isso, acho justo e necessário que a gente possa subtrair dois anos do nosso calendário. Para efeitos práticos e legais, não contarei o meu aniversário do ano passado e o deste ano. Ou seja, corrigindo o que disse acima: tenho 44 (e pretendi fazer 45 só em 2022).

Vou organizar um abaixo-assinado.

Quero começar de onde parei. 

Ainda posso melhorar o mundo e tomar meu dry martini. 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

The day after - Antonio Prata


ET – E acabou por que?
Último Remanescente da Humanidade – Resumindo bem, a Terra esquentou muito e a gente, tipo, cozinhou.
ET – Ah... Foi meteoro? Vulcão? Gigante Vermelha?
URH – Não, no caso, foi vacilo, mesmo. A gente queimou petróleo, muito petróleo, até o mundo virar uma sauna seca.
ET – E queimaram petróleo pra que?
URM – Pra se locomover, basicamente. A gente criou umas caixas de metal que queimavam petróleo e te levavam de lá pra cá, sem você ter que cansar as pernas.
ET – E vocês iam de lá pra cá, pra que? Pra fugir de predadores?
URH – Não, não. Os predadores viraram bolsa e tapete bem antes. A gente queimava petróleo pra ir e voltar do trabalho, da padaria, do posto, onde a galera ia encher a caixa de metal com mais petróleo e fazer uma social na lojinha, tomando Skol latão.
ET – E por que vocês não iam a pé pro trabalho, pra padaria, pro posto, fazer social na lojinha, tomando Skol latão?
URH – Porque todo mundo se aglomerava numas cidades enormes e acabava ficando meio longe do trabalho, da padaria, do posto.
ET – E por que vocês não se dividiam em cidades menores, onde dava pra fazer tudo a pé?
URH – Porque nas cidades enormes tinha mais possibilidade de trabalhar e de ganhar dinheiro pra poder comprar uma caixa de metal maior e mais cara, que gastasse mais petróleo.
ET – E por que alguém quereria isso?
URH – Porque dava status e status era tudo. No trabalho, na padaria, no posto, neguinho via tua caixona de metal, capaz de ir a 240 KM/H e dizia: “pô, ó o cara!”.
ET – Nossa, olhando esses escombros, agora, nem dá pra imaginar que por aqui passavam caixas de metal a 240 quilômetros por hora.
URH – Não, na verdade, não era assim, não: como eram muitas caixas de metal e todos queriam se locomover ao mesmo tempo, ficava tudo engarrafado. Nos horários de pico a média era de de oito quilômetros por hora.
ET – Ué, até onde eu sei, com as pernas vocês podiam ir mais rápido que isso, não?
URH – Poder, podia. Mas a gente preferia ir devagarinho na caixa de metal, com os vidros fechados, ar condicionado e insulfilm, de boa, ouvindo notícias sobre o trânsito e tirando meleca do nariz.
ET – Tirando meleca do nariz? Dava algum prazer físico, isso?
URH – Dava um prazer medíocre. E uma culpinha, também. Prazer mesmo dava era o sexo, mas no fim ninguém mais tinha tempo pro sexo, porque tava ou trabalhando que nem louco pra comprar uma caixa de metal, ou parado dentro da caixa de metal, por horas, tentando chegar ao trabalho, onde trabalharia que nem louco pra comprar outra caixa de metal.
ET – Então vocês todos morreram porque gostavam de ficar parados em caixas de metal que queimavam petróleo pra levar vocês de lá pra cá a uma velocidade inferior a das próprias pernas?
URH – É. Por causa disso, das bandejinhas de isopor e de umas pessoas que insistiram até o fim em empurrar folha na calçada com o esguicho.
ET – Oi?
URH – Esquece. Podemos falar de outro assunto? E lá de onde cê vem, é bonito? Fresquinho? Tem praia?

publicada na Folha - 25/06/2015 (estava nas minhas lembranças do Face)

domingo, 25 de julho de 2021

A primeira vez - Marcelo Rubens Paiva

 


Ele se surpreendeu quando entrou e a viu com roupa de grife, esmaltes bem pintados, a pele bem tratada, o cabelo mais bem penteado do câmpus, numa cadeira escolar rabiscada, lascada, bamba, com chiclete debaixo da tampa. 

Ela tinha olhos esverdeados que brilhavam e o queimaram. O seu coração disparou, pois ela o convidou para se sentar ao lado, com o gesto de tirar a bolsa de cima da carteira vizinha. Era uma aula de francês do Instituto de Linguagem. Alunos da graduação de outros departamentos podiam estudar línguas de graça. Serviam de cobaias para professores recém-formados, experiências didáticas.

Ao sair da classe, se despediram formalmente. No ponto de ônibus, ele fechava os olhos e respirava fundo para sair do estado de encantamento. Nunca uma garota o tinha afetado daquele jeito. 

Sua elegância, aparência, olhar flamejante e a autoconfiança eram um contraste com o ambiente informal daquela universidade pública degradada, tomada por jovens inseguros. Reprisava o convite, ou melhor, a indireta, de o convidar para se sentar ao seu lado, assim que o viu: ela gostou dele, tirou a bolsa da carteira vizinha, indicando é aqui que você tem que ficar. 

Se perguntou o que acabou de acontecer. Via na janela do ônibus o rosto dela refletido, como se estivesse ao lado. Um arrepio involuntário percorreu a espinha. Torceu muito para o tempo acelerar e chegarem as próximas aulas de francês.

Eram calouros, tinham 18 anos e nada em comum. Quer dizer... Ele era de Humanas, morava numa república esculachada e não tinha um tostão. Ela, da Engenharia, e o pai era um grande empreiteiro, nasceu e se criou numa Campinas que ele não conhecia: rica, ainda agrária, mas também tecnológica. 

Campinas já foi do café. Passou a ser da indústria e logística, com o maior centro de carga aérea da América Latina, o Viracopos. Lá, foi inventada a fotografia, por Hercule Florence. De Campinas é Carlos Gomes, o compositor de óperas. Campinas foi maior que São Paulo. Dela, saíam várias ferrovias, e chegava o café. Cresceu demais e desordenadamente. Até ser atacada por uma epidemia mortal de febre amarela. 

Ela falava de tudo isso com tanta veemência, que ele começou a achar a Elétrica um dos ramos mais importante do conhecimento, e Campinas um polo de inovação, cultura e tecnologia. E a empolgação era tamanha, que ele se perguntava como viveu até então sem saber da história de Campinas, que tem uma escola centenária com o belíssimo nome de Colégio Culto à Ciência, em que estudou Santos-Dumont, o poeta Guilherme de Almeida e o jornalista Julio de Mesquita, do Estadão

Um dia, ela o convidou para uma festinha da Engenharia. Foi pegá-lo na sua república caindo aos pedaços, no seu carro zerinho. Ele foi com a roupa que tinha. Ela caprichou. Ao redor, um perfume doce e envolvente.

Entraram na festa. Ela o segurou na mão e puxou. E as mãos não se desgrudaram. Seus dedos, entrelaçados. Como com o dedo na tomada, uma onda de choque circulou por todo o corpo. Se desgrudaram para cumprimentar as pessoas. Queriam que não fosse obrigatório cumprimentar os outros. Beberam.

- No que você está pensando? - ela perguntou. 

- Vamos dançar?

Ele dançava bem para os padrões da estudantada de Exatas. Quer dizer, era uma dança exótica, livre, não matemática, como uma girafa tonta e com um prego na pata.

Deviam achá-lo um menininho drogado, espaçoso, que queria aparecer, como coreografado por Nijinsky, exibindo Stravinski a Paris. Ela fazia os passos que todos faziam, os da moda: os pés parados, mexendo os braços e quadris, balançando cabelos. 

Foram para uma varanda respirar. Tinha vista para a cidade. Ficaram grudadinhos. Até se beijarem pela primeira vez. Daqueles beijos que se dão com amor e tesão, que as bocas não se desgrudam, e cada um tenta abri-la mais, para se oferecer e sentir o gosto do outro.

- Por que estamos aqui? - ela perguntou do nada.

- Para beber, dançar e beijar.

- No planeta. Você pensa no futuro? Nós existimos por alguma razão. Pra salvar o planeta, melhorar a vida das pessoas. E temos pressa. A maioria aqui quer se formar e trabalhar numa grande concessionária, estrangeira de preferência, em parques industriais, fábricas, para construir, erguer e faturar. A gente tem uma missão. Somos privilegiados: nascemos, temos saúde e entramos numa universidade de ponta. Não quero me formar e trabalhar para uma empresa. Penso em fazer algo de útil.

- Eu não sou nada, mas devo ser tudo. Qualquer um que saiba alguma coisa da história, sabe que grandes mudanças sociais são impossíveis sem o fermento feminino.

- Que lindo. Quem disse isso?

- Marx. 

Foram embora sem se despedir de ninguém. Ela estacionou na porta da república dele e subiu no seu colo. Com as pernas bem abertas, o agarrou, beijava, segurava seu pescoço, se esfregava, fechava os olhos, mexia o quadril, ia explodir, quando uma ereção se completou. Ela travou, fulminou seus olhos e disse:

- Sou virgem.

- Eu também.

Ela voltou para o lugar da motorista, arfando, ajeitando-se. Sorriu e disse:

- Não temos pressa.


sexta-feira, 23 de julho de 2021

Aquários de Proust - Milton Hatoum

 Numa noite fria de junho, aproveitei os últimos minutos do nosso encontro para perguntar a Irma se a memória dela ainda estava afiada. 

Minha amiga respondeu sem titubear:

“Quando o sono leva uma pessoa para longe do mundo habitado pela lembrança e pelo pensamento, através de um éter onde essa pessoa estava sozinha, mais que sozinha, sem nem mesmo esse companheiro em que é possível reconhecer-se a si mesmo, é sinal de que essa pessoa estava fora do tempo e de suas medidas.” 

Tomou fôlego e acrescentou:

“Mas o duro é quando o sono acaba numa curva súbita e a gente abre os olhos para a realidade assustadora. Porque o prazer do sono não se renova durante o dia, ainda mais nesses dias de tanta ira e de tantas mentiras.”

Irma talvez seja a mais proustiana das minhas amigas; ela cita em tradução libérrima e voz comovida passagens de Sodoma e Gomorra. Inspirada, acrescenta palavras ou frases que lhe vêm à mente. 

Desde o século passado, quando ficamos amigos, Irma me humilha com sua memória prodigiosa, que parece mais elástica com a passagem do tempo, pois há anos nós dois já ultrapassamos a linha do Equador. 

Quando digo que ela tem a memória de Funes - o personagem borgiano capaz de se lembrar de tudo com todos os detalhes -, Irma sorri com ironia: 

“É a releitura, mon cher. O que mais pode fazer uma aposentada? Reler bons livros, rever filmes, fazer uns bicos e ajudar os necessitados.”

Nasceu numa família humilde de Ribeirão Preto; estudou, batalhou e, como se diz, subiu na vida. Subiu tanto, que alcançou um cargo importante num banco, onde trabalhou por décadas. Não teve filhos; nunca teve carro. Fez viagens ao exterior a trabalho, e andou por muitos lugares do Brasil, para conhecer nossas graças e desgraças. 

E a Trovoada, vai bem? 

“Por enquanto, ignora a velhice”, ela riu. “Ainda late, salta, brinca e morde. Você conhece minha companheira. A idade dela equivale à minha. E agora tenho quatro gatos.

Não sentem falta de afeto nem de comida.” 

Comprou um apartamento em Perdizes e, mesmo aposentada, dá consultoria a pequenos e médios investidores; não é preciso dizer que fez uma poupança gorda. Agora faz centenas de sanduíches por semana e os distribui aos pobres. 

“Sei que é um paliativo. Mas uma família na miséria, com pai e mãe sem emprego, não sobrevive com 250 reais por mês. Vale o paliativo. Vale todo tipo de ajuda...

Sanduíches, dinheiro, cobertor, roupa, livros para crianças...” 

Ela se lembrou do passeio noturno da Trovoada e se apressou a voltar a Perdizes. A caminho do metrô, a gente parou diante de um restaurante com janelões de vidro; na sala cheia, a luminosidade era um pouco menos exagerada que as gargalhadas; na calçada, uma mulher e duas meninas esperavam alguma sobra. 

“Você se lembra da cena do aquário?”, perguntou.

Cena de um filme?

“Não, de um livro, do meu querido autor francês.”

Tirou da bolsa duas cédulas, entregou-as à mãe das crianças e se agachou para conversar com elas. Depois mencionou uma cena do romance de Proust: o restaurante cheio de comensais elegantes, e os pobres na calçada parisiense, olhando através da vidraça o jantar.

Não me recordava desse aquário proustiano, mas sim de outro, talvez no Sodoma e Gomorra. 

“Bem lembrado”, disse Irma. “É uma das cenas com o barão de Charlus. Esse aristocrata é o personagem mais excêntrico, mais cômico e um dos mais perturbados... E quanta desgraça!”

Perto da estação, Irma ainda falava do barão, difamado por parentes e amantes. Ela notou que Proust usara o aquário como metáfora da falta do sentido de visibilidade e das distâncias. 

“Charlus, Charlus”, repetia Irma. “Memé para os íntimos, lembra? O barão é como um peixe que quer nadar além de seu aquário, enganado pelo reflexo do vidro na água. O atormentado Memé não vê ao lado dele um piscicultor, o sujeito todo-poderoso que tira o peixe de seu meio natural para trancafiá-lo sem piedade num cárcere de vidro.” 

Foram as últimas palavras da minha amiga, antes do adeus. 

No caminho de volta, parei por uns segundos diante do restaurante-aquário, tão pleno de luz e risadas. Reparei numa parede um colar de lâmpadas miúdas, que emitiam um brilho de pérolas falsas. Olhei a calçada: a mulher e suas filhas, ausentes. 

Onze graus, neblina, céu sem estrelas. Andava devagar na noite gelada de junho; pensava na filantropia de minha amiga, no difamado barão de Charlus, nos que estão dentro e fora dos aquários, em Paris, aqui, por toda parte... 

sábado, 12 de junho de 2021

Os comunistas - Marcelo Rubens Paiva


Quando vim morar em São Paulo em 1974, descobri não ser popular no colegial da escola religiosa, que de religiosa tinha muito pouco; não era escolhido para nada, sabia escrever e tocar violão, o que não interessava a muitos. Me juntei ao grupo chamado de “comunistas”. 

Ele se politizou graças às professoras de História e Filosofia, comunistas de carteirinha e presas na ditadura, e ao de Antropologia, indianista por quem toda a escola se apaixonou, mais radical do que os mais bolcheviques. 

Estudamos Marx, Tolstoi, Sartre e Max Webber no primeiro ano. Não sofríamos com a luta de classe, tínhamos ódio de classe, portanto, da maioria dos colegas, porque eram populares e de família muito rica, e nós, lumpesinato. 

Tudo que era do contra era comunista: aqueles e aquelas desenganadas esquecidas ignoradas atordoadas e em crise que ficavam numa saleta entulhada do colegial, depois segundo grau, atual ensino médio, chamada Centro Acadêmico, ou “centrinho”, que rodava o jornal da escola que ninguém lia, apenas o diretor, o inspirador Padre Charbonneau. 

Lemos Dostoievski, Kafka, Dürrenmatt, Aristóteles, Camus, obrigatoriedade da escola, vimos filmes italianos e franceses, por conta de um professor entusiasta por clássicos, que nos exibia num cineclube amador, cujo projetor de 16 mm ficava no meio da sala e por vezes pifava, queimava a lâmpada. Na troca do rolo, parava tudo. Ou o acetato da película pegava fogo, ou era engolido pelo projetor. Geralmente a classe vaiava.



Não censurava as cenas picantes. Catherine Deneuve apareceu seminua em A Bela da Tarde, de Buñuel (1967), numa camisola transparente. Não teve queixa de pais conservadores sobre a pornografia de Buñuel, que aliás era comunista, por contaminar a mente limpa de seus herdeiros, como os ricos se referem aos filhos.

Ele nos indicava filmes pela cidade, especialmente os do Cineclube da FGV. Éramos “de menor”, mas não se pedia carteirinha em pulgueiros. Até Pasolini vimos. O que víamos nos atormentava, pois demolia convenções. 

Em A Aventura, de Antonioni (1960), some a namorada de Sandro e ele pega a melhor amiga dela, Claudia (Monica Vitti), apesar da resistência. Seduz, e quando ela se apaixona, numa jornada em busca da ex-namorada desaparecida, e ela se apaixona, depois o flagra com uma prostituta num hotel. Ao final, ele chora, e ela faz o quê? O consola. 



Em A Amante, de Louis Malle, Jeanne (Jeanne Moreau) é casada com o rico dono de um jornal, mora no campo e tem um amante assumido, rico, jogador de polo, em Paris. Mas quando todos se juntam, na casa do marido, ela fica com um terceiro, um pobretão arqueólogo e divertido, que deu carona pra ela, quando seu carro quebrou. 

Marido e amante ficam a ver navios. Ela abandonou tudo, filha, casamento, amante, vida social. Foge com ele sem rumo, depois de uma transa de tirar o fôlego (deles e nosso). 

Aliás, transam a noite toda, na casa dela, enquanto marido e amante dormem em outros quartos no fundo do corredor. Transam até na banheira. E diz: “Não se resiste à felicidade”. Vai embora com o pobretão, e diz: “Estava com medo, mas não me arrependia de nada”. 

Imagino os casais saindo mudos e calados dos cinemas em 1958. As mulheres se olhando. É possível? A mesma atriz, Jeanne, aparece em Julles et Jim, de Truffaut, cuja tradução do título em português explica tudo: Uma Mulher para Dois. 



Em La Dolce Vita, do Fellini (1960), um repórter sedutor e sensacionalista deixa a noiva deprimida em casa, paparica as celebridades disponíveis por Roma, e é levado pela amiga aristocrata casada pra cama, no quarto de uma prostituta. 

Tudo rolou na germinada Revolução Sexual. Tudo isso para colocar a semente em gerações e gerações da emancipação feminina. O papel da mulher foi questionado. Casamentos infelizes acabam. 

Encontramos no existencialismo explicações e consolo para a falta de explicação para a existência e, vingança, para a existência dos outros. Os comunistas, nós, éramos na verdade niilistas, de um pessimismo que nem botava fé no comunismo ou em regime algum. Afinal, diria o filósofo, o inferno são eles, os outros.

Odiávamos modas. Só as antigas. Não sabíamos o funcionamento da camisinha nem de gel no cabelo, nem de lâminas de barbear ou depilar, a não ser quando imaginávamos nossos ídolos cometendo um suicídio visualmente convincente. Mas sabíamos como acender um Gauloise com um isqueiro que abre e fecha. 



Nos rendíamos com Jane Birkin cantando: “Je vais, je vais et je viens, entre tes reins...”. Sem chance de sermos populares na escola, em cujas festinhas dançavam Donna Summer, The Stylistics e Barry White.

Enquanto os outros colegas lotavam as sessões de Guerra nas Estrelas e E.T., a gente via A Bela de Tarde, em que a dona de casa frígida Deneuve começa a se prostituir às tardes num bordel discreto e... Adora, vicia-se, encontra um sentido de vida (nada fácil). 



Ninguém era de ninguém, passou a ser o ditado da minha turma. Se as dúvidas da puberdade de Anne Frank hoje causam pavor, imagine as da nouvelle vague e realismo italiano.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

A volta da casa 842 - Ignácio de loyola Brandão

 Para Maurice Capovilla, 

cujo primeiro filme eu escrevi, 

amizade de uma vida


Rita Mazzoni, parente minha e neta de Sebastião Bandeira, contou que Mário de Andrade, certa tarde em que esteve em Araraquara, em uma de suas visitas à chácara de Pio Lourenço, desceu a Avenida Guaianases, hoje Djalma Dutra. Foi visitar Sebastião Bandeira, famoso por estar desenvolvendo um moto-contínuo. Ao chegar, Mário deu com Sebastião a conversar com José Maria Brandão. Entrou na conversa e foram confirmar os progressos de Sebastião. Assim teria sido o encontro de meu avô com um dos mais célebres intelectuais brasileiros. Vovô Gegé, como dizia vovó Branca, vindo de Matão, morou até o final da vida na esquina da rua 8, número 842. Aquela casa faz parte da memória afetiva de gerações. Ali vivi o episódio que me angustiou a vida inteira até que, 60 anos depois, consegui escrever Os Olhos Cegos do Cavalos Loucos, um dos cinco Jabutis que ganhei.

Esta casa voltou a fazer parte de minha vida depois de 40 anos. Há décadas ela desligou-se da família e de repente ressurge. Acabou de chegar um e-mail de dois jovens, Flávia e Gabriel Paduan, contando que se casaram e compraram a casa. Souberam que ela tinha pertencido ao meu avô e gostariam de saber o que o lugar significa para mim. “Que espaço é este em que vamos morar?”, indagaram. Aquela casa ainda tem para mim a fragrância das madeiras amontoadas na marcenaria de meu avô. O cheiro dos pudins que vovó Branca assava no fogão a lenha com brasas na tampa. O aroma espesso do “virado” de banana e farinha de milho, no qual tia Maria era tão craque quanto Rita Lobo. O cheiro de licor de abacaxi, criado a partir da casca da fruta fermentada, e também o dos pães quentinhos trazidos pela carrocinha do Pasetto. O perfume de tia Ignácia, minha madrinha, flutuando pela casa, quando ela saia domingo para a sessão de cinema. O verde transparente e mágico dos olhos de tia Terezinha, mulher do tio José. As arruaças dos netos vindos de Bauru ou de alguma cidade da Araraquarense, ansiosos por ouvir tia Margarida ler os contos da Carochinha. Os perfumes diferentes (franceses?) de tia Inez, mais bela que Rita Hayworth, mulher do tio Geraldo, quando vinham encontrar a família, para irem a um teatro, cinema ou reza solene. Tio Geraldo, conhecido como Celso Davila, foi dos melhores atores das novelas da PRD-4 Rádio Cultura. 

O número 842 ficava na frente da casa de Cristina Machado, Iaia, minha primeira professora. Ela vendeu sua escola para Lourdes Prado, que ficava na esquina oposta. Lourdes me ensinou redação. Naquela esquina, aos 11 anos, durante o ano inteiro de 1947, no começo da noite de quarta-feira, eu esperava por Carmem de Paula. Ela assinava o Diário de São Paulo e me entregava o suplemento juvenil que trazia os quadrinhos de Drago, clássico de Burne Hogart (um dos criadores de Tarzan nos gibis) e de Brick Bradford, de William Ritt e Clarece Day. Incendiavam minha imaginação. Sôfrego, eu lia sentado na sarjeta à luz do poste e tremia com vilões como o assassino Stiletto, o nazista Barão Zodiac e a bela Tosca. 

Na esquina da rua 8, em frente à escolinha da Lourdes, ficava o ônibus circular à gasogênio do Braz Pirolla, que tinha uma oficina mecânica. Brincávamos dentro, até que Braz aparecia e fim da festa. “Dirigi” tanto aquele ônibus que nunca mais dirigi na vida. Poucos souberam que na esquina oposta a de vovô, na avenida 7 de Setembro, morou uma mulher vinda de Santa Rita do Passa Quatro, de nome Branca, paixão de Zequinha de Abreu, o compositor de Tico-tico no Fubá. Para ela, Zequinha escreveu a valsa que leva seu nome, um clássico. Branca foi vivida no cinema por Tônia Carrero em filme de 1952 dirigido por Adolfo Celli e produzido por um dos melhores amigos que tive, Fernando de Barros. Vizinhos, os Carmona, produziam macarrão eu ia lá buscar letrinhas de massa para fazer sopa, mas eu preferia escrever frases colando-as em papel.

Nos finais de tarde, vizinhos e amigos sentavam-se na calçada para a roda de conversas e café, encontro que seguia até 10 da noite, quando a sirene da Meias Lupo tocava, para o novo turno de funcionários. Alguém alertava: “A sereia da Lupo tocou, vamos entrar”. A cidade ia dormir. Sereia era a sirene. Este costume foi retratado por Zé Celso Martinez Corrêa em sua primeira peça teatral Cadeiras na Calçada.

Agora, vejam só, Flávia é bisneta de Vicente Gullo, imigrante italiano que montou seu açougue na esquina da rua 6 com a avenida Sete. Vicente e Domingas, dona Didi, são avós de Marcia, minha mulher. Dona Didi foi das melhores amigas de minha mãe, Maria do Rosario, unidas pela devoção a São José. De vestido preto e fitas amarelas iam juntas para a Matriz, no começo da noite. Morando na casa 842, o que é a vida? Pontos soltos se encontram. Acaso, ou simultaneidade? 





Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...