sexta-feira, 28 de maio de 2021

Felícia longe daqui - Milton Hatoum

 Podia ser sábado, terça ou sexta-feira: andava uns dois quilômetros, só para tomar o café da manhã na padaria onde ela trabalhava. Saudade da fala mansa e do sotaque do Norte, saudade das águas de lá. 

Quando ela perguntava: “Maninho, tu queres uma tapioca com queijo coalho e um tiquinho de manteiga, né?”, os sons das vogais nasalizadas me levavam a Belém, onde Felícia nascera.

Quando saiu da infância e do orfanato, trabalhou no Ver-o-Peso, depois passou a vender açaí, “puro ferro e delícia”. Um dia uma mulher lhe ofereceu emprego de doméstica; Felícia aceitou: o salário era baixo, ia ganhar menos na casa, mas vender açaí na rua era mais perigoso. 

“Ou tu pegas o ruim, ou tu ficas na pior.”

Em 2011, quando completou dezoito anos, fez a longa viagem de ônibus para São Paulo.

“Vim na doideira de viver melhor, rapaz.”

Ficou meio perdida na rodoviária, perguntando às pessoas por um quarto de pensão; foi assim que conheceu a viúva Dalva, que acabara de chegar de Ibotirama. A paraense e a baiana conversaram, se deram bem, riram. Dessa conversa, surgiram duas coisas cruciais na vida: a amizade e um lugar para dormir. Outras coisas, não menos cruciais, surgiram com o tempo, que nem sempre é traição. 

Dalva, também migrante, morava em Guaianases desde o século passado. Viajara a Ibotirama para ver o irmão, dono de um pequeno sítio. Dalva deu a Felícia teto, comida, palavras e atos de afeição. Com as palavras, trocaram histórias de vida, que Felícia me contava a conta-gotas, enquanto eu mastigava uma tapioquinha e tomava um pingado. 

Eu chegava à padaria às oito da manhã; Felícia, para ser pontual, se levantava às quatro e meia e pegava duas conduções; antes das sete, já estava detrás do balcão ou perto da chapa quente. 

“Com sol ou com chuva, sempre chego na hora. Quando atraso, é culpa do metrô.”

Tinha feições indígenas, o cabelo muito liso e preto, e o rosto arredondado; as sobrancelhas, um arco perfeito; e o sorriso, franco. Às vezes, depois de atender um cliente, olhava para fora, bem longe e pensativa; eu percebia nesse olhar longos sofrimentos, mas não lhe perguntava sobre o passado; o pouco que ela me contou, sem autocomiseração, bastava para sofrer um século: palavras que traduziam o absoluto da solidão. No entanto, não parecia uma mulher triste. Voltava a Guaianases no fim da tarde, ajudava Dalva a preparar o jantar, dormia às nove. Nos fins de semana, as duas amigas limpavam a casa, lavavam e passavam a roupa, às vezes iam ao mercado municipal e passeavam pelo centro. 

Felícia leu, aos poucos e sempre aos sábados, os contos de Antes do Baile Verde e de Alexandre e Outros Heróis. Ela não conhecia esses livros nem os autores. De Belém, trouxera onze livros velhos, que ganhara de uma freira e da ex-patroa. Agora tinha treze. Gostava de ler e de cozinhar, desde o tempo do orfanato. 

Certa vez, quando a gente falava dos pratos do Norte, Felícia perguntou se eu já tinha provado filhote na brasa, maniçoba, pato no tucupi...

Sim, mas faltou a sobremesa divina: sorvete de bacuri com castanha ralada.

“É mesmo, faltou um docinho.” 

Ficou radiante quando levei para ela uma garrafa de tucupi, um pacote com jambu congelado e outro com farinha d’água de Cruzeiro do Sul. Felícia olhou a garrafa e os pacotes como se fossem totens: há quantos anos não provava essas delícias? Ia fazer uma surpresa à amiga baiana: arroz com jambu e molho de tucupi, farofa com banana, alho e cebola, e peixinho frito. Pediu licença, foi atender um freguês e, lá perto da chapa quente, disse em voz alta: 

“Tás com água na boca?”

Muita, mana. Toda a água do Guamá e do rio Negro. 

No ano passado, eu a vi uma só vez, em junho. Estava preocupada: temia perder o emprego na padaria, não podia parar de trabalhar, a pobreza no bairro aumentara.

Juntava um dinheirinho pra viajar com Dalva a Ibotirama, mas só depois da pandemia. 

Esse “depois” não veio: parece que o tempo parou, cativo de forças maléficas. 

Em dezembro, fui levar um presente de Natal à amiga paraense, mas não a vi na padaria. Uma moça, colega dela, me reconheceu: 

“Felícia não está mais aqui. Foi embora...” 

As frases curtas eram ambíguas: Felícia não trabalhava mais lá ou tinha sido mais uma vítima da pandemia? 

Pensava nisso com tristeza, quando a moça deu um tapa na testa, foi até o freezer e voltou com uma caixinha de plástico. 

“Felícia deixou esse sorvete pra você. Foi passar o Natal em Ibotirama, parece que vai viver lá, com uma amiga.” 

Fiquei duas vezes contente: minha amiga estava viva, e o sorvete era de bacuri, minha fruta preferida. 



Bacuri na cesta Foto: Neide Rigo|Estadão



terça-feira, 25 de maio de 2021

O eterno drama dos machos é pensar demais com o órgão errado - João Pereira Coutinho

 Sou um preguiçoso desgraçado. Quer exemplos? Os aplausos. Sempre que assisto a um concerto ou a uma peça de teatro, nunca aplaudo realmente. Faço apenas o gesto.

Meu raciocínio é preguiçoso: para que bater palmas quando isso é cansativo e redundante? Basta simular. Já há muita gente batendo.

Minha vida é isso: um esforço constante para não fazer esforços. Exceto, é claro, quando está em causa a minha masculinidade.

Anos atrás, li algures que as aeromoças que nos recebem à entrada do avião não estão ali por mera simpatia. O assunto é sério: quando entramos, elas olham para as nossas figuras com atenção clínica. Só para identificarem os passageiros fisicamente pujantes, que podem dar uma ajuda em caso de acidente ou sequestro terrorista.

Depois de ler essa informação, meu comportamento mudou na hora da viagem: encho o peito de ar, encolho a barriga, caminho com passos firmes. Até a voz fica mais grossa, acompanhada por um belo sorriso californiano. Só falta dar um grito de Tarzan. E para que tanta vaidade, meu Deus?

Na hora decisiva, o mais provável era atropelar mulheres e crianças para fugir dali.

Poderia dizer, em minha defesa, que a culpa não é minha. Meus instintos apenas cumprem os rigores da seleção sexual: confrontado com uma “oportunidade de reprodução”, o macho adota certos comportamentos para atrair a fêmea, mesmo que esses comportamentos sejam contrários à sua sobrevivência.

O caso do pavão, que tanto intrigava Charles Darwin, é o melhor exemplo: o bicho abre a sua cauda para conquistar a donzela; mas, ao fazê-lo, o leque das penas chama a atenção dos predadores.

Por isso abri a boca de espanto com a polêmica que rodeia os 150 anos da publicação de “A Descendência do Homem”, em 1871, do referido Darwin.

Fato: o cientista sempre deu boas polêmicas. A maior de todas foi afirmar nesse livro o que toda a gente sabe desde que esteja atenta nos almoços de domingo: há macacos na família.

Acontece que a polêmica recente é de outra natureza: como acusa o antropólogo Agustín Fuentes na Science, Darwin estabeleceu hierarquias entre raças e sexos que ensombram a sua contribuição científica.

Como aceitar que a raça europeia é superior aos povos indígenas da Austrália? E como aceitar que os homens são intelectualmente superiores às mulheres?

A resposta é menos dramática do que os críticos imaginam: não aceitando. Como qualquer cientista, em qualquer época, trabalhando em qualquer área, Darwin era filho do seu tempo. Isso significa que os preconceitos da sociedade vitoriana não ficavam à porta do seu estúdio.

Por outro lado, a afirmação de que Darwin, com tais teorias, ofereceu uma justificação para o imperialismo, o colonialismo e o genocídio, como sustenta Agustín Fuentes, coloca sobre os ombros do velho Charles a responsabilidade pelos crimes que os seus sucessores (e deturpadores) cometeram.

Existe algum cientista ou filósofo que possa afirmar, hoje, com toda a confiança, que jamais será usado e abusado por gerações futuras?

A alegada superioridade de certas raças ou sexos foi oferecida como hipótese. A evolução da ciência pós-Darwin desacreditou essa hipótese, jogando o conceito de “raça” ou uma eventual diferença de inteligência entre os sexos no local apropriado: o caixote do lixo.

Escutando alguns críticos, que se acham tão modernos nos seus julgamentos anacrônicos, uma pessoa pergunta se não terão sido eles a ficar no século 19, imunes ao progresso da ciência. Mesmo quando reconhecem esse progresso.

E, já agora, imunes também ao exemplo do pavão: numa famosa carta a um colega americano, Darwin confessava que as penas do pavão não o deixavam apenas intrigado; também o deixavam enojado. Fácil entender por quê: o eterno drama dos machos é pensarem demasiado com o órgão errado.

Na minha próxima viagem de avião, prometo controlar os meus instintos e entrar na lata como devo: pálido, queixoso, derreado, quase a desfalecer.

De que vale mostrar a penugem quando eu quero é que me deixem em paz?


ilustração: Abu



terça-feira, 11 de maio de 2021

Três siricuticos - Gilberto Amendola

 

O primeiro

Eu quero viajar. Pagar uma fortuna em um café ruim de aeroporto. Check-in antecipado. Expectativa do embarque. Fila desnecessária para o embarque. Pensar na mala. Medo de extravio. Esperança de romance entre desconhecidos que se encontram em um avião. Fileira do meio. Travado entre duas pessoas pouco amigáveis. Dor nas costas. Pernas adormecidas. Fila para o banheiro. Criança chorando. Beef or chicken? Coffee or tea? Remédios para dormir. 

A aeronave arremeteu uma vez. Apertar os cintos. Tentar lembrar de uma oração. Respirar aliviado. Correr para não perder a conexão. Perdê-la. Me perder em um aeroporto desconhecido. Pegar uma van no desembarque. Chegar ao hotel e descobrir que foi enganado pelas fotos no site. Tomar um banho e sair andando pela cidade. 

O primeiro museu. A primeira foto. O primeiro vinho. A primeira promessa de não realizar conversões mentais. Cartão de crédito tremendo na mão. Só se vive uma vez.

*

O segundo

Eu quero festa. Escolher a camisa que esconde a barriga. Banho mais demorado. “Esquenta” em casa. Umas três gim tônicas para chegar no “grau”. Chamar um aplicativo de carro. Aglomerar no carro. Cantar uma música ruim. Fila na porta da balada. Encontrar conhecidos na fila. Comprar latinhas de cerveja para tomar na fila. Maldita fila que não anda. Arrependimento por não comprar ingressos antecipados. 

Se interessar por alguém na fila. Ela já está acompanhada. Ser revistado de forma ostensiva. Um mar de gente na balada. Demorar uma eternidade para chegar no bar. Cerveja gelada. Vodca barata. Fingir que sei dançar. Dançar. A culpa é sempre do DJ.

Tentar puxar assunto com uma desconhecida que não me escuta. Sentir calor. Me afastar da pista para descansar. Me decepcionar com a noite. Ir embora sozinho. Parar na van do Dog. Pedir um dogão completo. Comer um dogão sentado em um banquinho de plástico. Purê e batata palha na minha calça jeans. Achar que tive alguma epifania. Não tive. Chamar o aplicativo de carro. Me jogar na cama com a mesma roupa da balada. 

*

O terceiro

Eu quero você na minha casa. Quero arrumar minha casa para te receber. Quero me arrumar também. A excitação do interfone tocando. O porteiro repetindo seu nome com uma voz que me parece maliciosa. A campainha tocando. Uau! 

Ficar na duvida sobre o tom do elogio. Tentar não parecer ansioso. Ansiedade é um problema. Beijo no rosto. Abraço. Não olhar para o decote. Morar no decote. Tour pelo apartamento minúsculo. Para uma pessoa sozinha até que está bom. Falar do condomínio e aluguel. Vai beber o quê? Eu é que sei? Eu não sei nada (não falo, mas penso). Vou fazer um martini. Colocar um som. Já ouviu o Wilco? Uma ou duas azeitonas? Piadinha sobre calorias. Vamos para o sofá. 

Conversa fiada. Olhares que se cruzam. Mão na perna. Distância encurtada. Beijo. Beijo. Roupas no chão da sala. Procurar o preservativo. Falar besteira. Sentir o coração batendo. É a vida. É a vida. Relaxar. Olhar para o teto. Preparar outra bebida. Ficar em silêncio. Começar de novo. Devagar. 

terça-feira, 4 de maio de 2021

Poeira de estrelas - Cláudio Moreno



Quando Zeus transformou Órion, o caçador, numa estrela, ele não se sentiu sozinho, pois o céu de antigamente era habitado por dezenas de personagens e animais mitológicos. O próprio Sol, a Aurora, a Lua – todos eram divindades, maiores ou menores, que povoavam o firmamento graças à imaginação de nossos antepassados.

Muitos foram os mitos criados para explicar os planetas e as constelações. Um dos mais curiosos, talvez, é o que narra o nascimento da nossa galáxia: Zeus, mesmo sendo casado com Hera, elegeu uma mortal para ser mãe de um filho especial, Hércules, a quem reservava um destino glorioso.
Para garantir que o bebê se tornaria um homem excepcional, levou-o às escondidas para o Olimpo e deixou-o mamar em Hera, que estava adormecida. Contudo, o pequeno Hércules sugava com tanta força que a deusa acordou sobressaltada e, ao ver aquela criança agarrada a seu seio, afastou-a com um gesto instintivo. Com o susto, o guloso deixou escapar da boca um jato do leite divino, que atravessou o céu e deu origem ao que chamamos até hoje, com justa razão, de Via Láctea.
Com o passar dos séculos, veio o declínio do mundo greco-romano – e, consequentemente, de toda essa mitologia; com isso, tornou-se deserto aquele céu tão densamente povoado. Todas aquelas criaturas familiares desapareceram, restando apenas o Universo organizado por suas leis imutáveis. Expressando o sentimento da nova época, o filósofo Pascal, no séc. 17, confessava o temor que sentia diante do que ele definiu como “o silêncio eterno desses espaços infinitos”.
Ora, se ao olharem para cima os gregos viam os deuses e Pascal via o infinito, nós outros não vemos mais nada. Numa madrugada de 1994, um violento terremoto abalou a Califórnia, destruindo cidades e rodovias e provocando um blecaute em toda a região. Ao saírem à rua para avaliar os danos, os californianos, talvez pela primeira vez na vida, viram-se mergulhados na mais profunda escuridão.
Pois naquela noite e nas que se seguiram, a Defesa Civil recebeu incontáveis ligações relatando que depois do terremoto havia surgido no céu uma grande e estranha nuvem prateada, cheia de pontos luminosos – e só a muito custo as pessoas foram convencidas de que a “nuvem” gigantesca e ameaçadora era apenas a Via Láctea, que sempre esteve ali desde a origem do planeta.
Ninguém vai negar que a iluminação elétrica veio aumentar nosso dia e melhorar nossa vida, mas poucos se deram conta do preço secreto que acabamos pagando por isso: o clarão da cidade moderna, ao privar-nos do majestoso espetáculo do céu noturno, tirou-nos também a oportunidade, renovada a cada noite, de sentir o ínfimo papel que representamos na ordem natural das coisas.


texto de 2013

segunda-feira, 12 de abril de 2021

A lagartixa na minha casa - Gilberto Amendola



Estou dividindo apartamento com uma lagartixa. Embora não ajude no aluguel, sua presença não é um estorvo. Discreta, aparece com certa regularidade para me dar um salve e perguntar se estou bem.

Drica, a lagartixa, sabe que essa é uma pergunta retórica. Na verdade, só quer puxar conversa e ouvir umas amenidades. 

No momento, não as tenho, as amenidades. Costumo colhê-las fora de casa, em passeios que não faço mais.

Ainda assim, ela me ouve com generosidade. Algo raro, imagino. Eu mesmo nunca tive essa qualidade – embora saiba emular esse personagem (do bom ouvinte e interessado). 

Poucas coisas me interessam. Mas Drica, a lagartixa, é diferente. Ela é curiosa e se importa. Ela se interessa por tudo. Tudo, tudo parece preenchê-la de alguma energia vital. 

As vantagens de Drica são palpáveis. Ela passeia pelo meu apartamento como se cada cômodo fosse um continente. Minha sala é Paris. Minha cozinha Nova York. A vida inteira dessa minha amiga lagartixa-doméstica-tropical cabe aqui dentro. 

Ela é sensível aos meus desassossegos. Aos murros na mesa, às ligações sem resposta, aos palavrões atirados contra o infinito. Ele é sensível ao meu cansaço e aos meus fracassos solitários. 

Mas, quando quero desabar, Drica, a lagartixa, me olha com seus olhinhos de esperança e me acalma. São uns olhinhos de quem enxerga melhor na escuridão. Uma coisa comovente.

Drica, a lagartixa, acompanha meu home office. Com ela, tiro dúvidas gramaticais, comento os absurdos do governo, assisto Big Brother e algumas séries no serviço de streaming. 

Drica, a lagartixa, prefere os filmes leves. É otimista. A crença dela em finais felizes é quase um poema. 

Tenho medo de esmagar minha amiga com meus pés de chumbo, com minha ansiedade e pessimismo. 

Mas, Drica, a lagartixa, entende meus limites. Não é de dar bobeira. Não fica ao alcance dos meus desastres.

Estou olhando para ela agora. No momento em que escrevo e deleto, escrevo e deleto, escrevo e deleto. Mais deleto do que escrevo. Às vezes, são apenas letras repetidas e enfileiradas. Faço de propósito. Pelo prazer em usar o backspace. Tenho um romance de apagamentos. 

Drica, a lagartixa, me entende. Eu acho que entende. Certeza que sim. 

Do alto, na parede da minha sala, ela me manda uma mensagem: você não precisa sair de casa para se encontrar com Deus. 

sábado, 10 de abril de 2021

Improvável, mas a carta chegou - Ignácio de Loyola Brandão


Nos anos 50, meu sonho era ter uma jovem correspondente no exterior. Preferia uma francesa, adorava a língua, conseguia ler e escrever razoavelmente. E as francesas tinham um quê de sensualidade, eu via filmes com Cécile Aubry, Martine Carol, Pascale Petit, Françoise Arnoul, que o escritor Alex Salomon idolatrava. Fanny Marracini, professora de francês, me impressionou na primeira aula no ginasial: “Bonjour mes enfants. Isso quer dizer bom dia. Bom dia serão as duas únicas palavras em português que me ouvirão falar durante o curso”. 

Francês ela falou ao longo de muitos anos e assim estudamos Chateaubriand, Lamartine, Stendhal, Flaubert, Prévert, Balzac, Victor Hugo, Dumas, Cocteau, chegamos a Collette, George Sand, Camus e, quando surgiu Françoise Sagan, célebre aos 18 anos, best-seller, com um romance que assombrou o mundo, Boa Dia, Tristeza, vi que se podia ser uma estrela, escrevendo. Esperem aí, não explica minha carreira, não. Foi dona Fanny quem me conseguiu uma correspondente na França, Francine Defrancq e era de Mulhouse, Alsácia. Levei dois dias para escrever em francês, levei à dona Fanny, que me corrigiu e elogiou. 

Mandei e esperei. Quando mandávamos carta, sabíamos que esperar era virtude. Esperar com ansiedade, a cada dia, e imaginar o que a pessoa responderia. Passados treze dias, ao chegar em casa no começo da noite, meus pais, rindo, rindo, me entregaram o envelope com bordas em azul escuro e vermelho. Da França.

Sempre me submeti a testes de paciência, por ouvir minha mãe dizer: a paciência é uma virtude, torna a pessoa melhor. Só que ela é difícil. Hoje, a paciência se volatizou. Todo mundo vive ansioso, nervoso, angustiado, apressado, acelerado. Minha amada tia Terezinha usava uma palavra que pouco ouvi em minha vida: açodado. Famosa na família era a expressão dela, “você parece um Bernardino flagelado”, diante de uma pessoa impaciente, excitada, inquieta. Há meio século, meu primo Zezé Brandão, filho dela, publicitário em Araraquara, procura a origem do Bernardino.

Bem, aquela foi a primeira carta de uma série que se prolongou por anos. Francine escrevia com regularidade em papel rosa, tinha letra pequena, às vezes eu precisava adivinhar. Ela contava da vida cotidiana, de costumes, me corrigia, indicava filmes, livros e me enviava revistas como Cinémonde, Positif e Jeune Cinéma. Dela, recebi uma foto do filme O Salário do Medo. Ela foi fazendo minha cabeça. Nem imaginam o que aquelas cartas que atravessavam o oceano significavam para mim. Eram minha janela, libertação, eu não estava restrito a mesmice do meu dia a dia. Deixava de ir ao cinema – o que era quase impossível para mim – para ler e reler as cartas, uma vez que o carteiro chegava no final da tarde. Pouco antes que eu deixasse a cidade, 1957, vindo para São Paulo, Francine me avisou que estava se mudando para Paris, ia trabalhar em um banco. Avisei que também estava indo para a “vida”. 

Meu pai, certo dia, me ligou: “Tem uma carta da Francine! Abro?” Ela me avisava que trabalhava em um banco no Boulevard Haussmann, 102. Envolvido pelos meus primeiros anos em São Paulo, deixei Francine de lado. 

Em 1963, cheguei a Paris, levava o endereço do banco. Na manhã seguinte, cheguei ao local, vi que ali tinha morado Proust. No banco, descobri um jovem que trabalhara com Francine e ele me revelou “Elle est décédée, monsieur, je regrette”. Tinha falecido havia dois anos, me pareceu. Deixei para o final, o porquê dos meus pais rindo tanto quando chegou a primeira carta de minha correspondente. O envelope trazia meu nome e o endereço. Araraquara, Brasil. Nada mais. Um dia, ela explicou: “Perdi a tua primeira carta, me perdoe, tudo o que lembrava era o complicado nome de tua cidade, repleto de A. Impronunciável. Arrisquei, mandei”. 

Chegou. No correio, comentaram divertidos a ousadia, “quem ele acha que é?”, mas um carteiro me conhecia, queria namorar a Cecilia, uma prima minha. Trouxe a carta.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Paixões mitológicas - Mario Vargas Llosa


Ticiano, que nunca esteve na Espanha, conheceu Felipe II em Milão no final de 1548, quando este ainda era um príncipe. Ele tinha trabalhado para Carlos V, pais de Felipe, que o encarregou de pinturas religiosas, algo a que Ticiano era também adepto, mas seu enorme prestígio entre os nobres vinha sobretudo dos seus quadros eróticos, aos quais costumava dar um título mitológico para salvar as aparências. Isto porque a Igreja, muito suscetível neste aspecto, respeitava rigorosamente as imagens supostamente validadas pela mitologia e, especialmente, quando o pintor dizia ter se inspirado na Metamorfoses, de Ovídio, obra muito lida e reverenciada naquela época.

Felipe II encomendou a Ticiano (ou foi ele quem propôs e o monarca aceitou) seis obras mitológicas, que ele chamou de “poesias”, exatamente porque baseadas na mitologia clássica, e que ele foi enviando para a Espanha ao longo de uma década, entre 1552 e 1562. De acordo com o crítico inglês Peter Humphrey, as telas que Ticiano chamou de “poesias” constituem “um dos conjuntos de quadros mais célebres e de maior influência na história da pintura ocidental”.

Por diversas razões, esse grupo de pinturas concebidas como um todo orgânico, conforme explicação do pintor em uma das suas remessas, e que deviam ser vistas sempre juntas, foram se espalhando no decorrer dos anos, mudando de proprietários, residências e museus e não se tem certeza que o próprio Felipe II as tenha visto alguma vez reunidas. O que se sabe com certeza é que as damas da nobreza costumavam passar rapidamente diante delas, pois estavam cobertas para não as deixar ruborizadas.

As seis obras que Ticiano pintou e chamou de “poesias” hoje se encontram em vários locais, na Wellington e a Wallace Coleções, de Londres, no Museu do Prado em Madri e nas Galerias Escocesas de Edimburgo, na National Gallery de Londres e no Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston. Dá vertigens pensar no que deve ter sido a correspondência do diretor do Museu do Prado, Miguel Falomir, que teve a ideia de realizar esta exposição e é seu curador, durante três anos até ela se materializar. E, para piorar as coisas, a pandemia do coronavírus coincidiu com a inauguração da mostra em Madri. Mas não importa, a exposição é soberba, fora do comum e os madrilenhos (e muitos franceses recém-chegados também para os feriados de Semana Santa) que a virem não conseguirão esquecê-la facilmente.

E alguns, como nós, tivemos a sorte de ter como cicerone o próprio Miguel Falomir, que nos deu as necessárias informações sobre a exposição, enriquecida com quadros de Rubens, Veronese, Allori, Ribera, Van Dyck, Poussin e Velásquez.

Todas estas pinturas são extraordinárias, algo que não costuma se verificar nas melhores exposições. Em todas elas, reina uma liberdade ilimitada que expressa ao mesmo tempo a história quando era apenas mito e fantasia e as razões profundas que levaram os seres humanos a criarem uma arte que enriquece a vida e a eleva à altura dos nossos sonhos. E também expõe as limitações da realidade na qual nos locomovemos, como num cárcere em que não podemos nunca expressar de maneira plena as nossas expectativas de viver mais e melhor, realizar todos os nossos desejos, e daquilo que chamamos de cultura, arte, civilização.

Além da liberdade com que foram concebidos, esses quadros radiografam a comunidade da cultura europeia e ocidental, explicam a insignificância das fronteiras que separam seus homens e mulheres quando acreditam e fantasiam, mostram que constituímos uma única sociedade múltipla e versátil, unida por um denominador comum quando revelamos nossa intimidade (ou estamos contra todas elas) porque na hora de sonhar e desejar somos todos os mesmos. Quando caminhamos em meio a esses quadros, como parecem insignificantes o desespero com que certas minorias se empenham em exagerar suas diferenças, como se elas, que naturalmente existem, fossem o bastante fortes para destruir a solidez de uma cultura que tem suas raízes numa unidade mais profunda e visceral, da qual todos nós participamos, pois ela é muito generosa para incluir todos nós em seus sonhos.

Talvez esta exposição seja um sinal de alarme no que se refere aos desvios e traições cada vez mais frequentes na pintura ocidental, no caso de tantos artistas sem escrúpulos – palhaços no fundo – que esqueceram, apesar do sucesso que têm junto às galerias, os críticos e colecionadores, algo que é o mais importante em seu empenho criativo: inventar formas que renovam e consolidam a tradição. Os quadros de Ticiano são excepcionais, mas não são menos extraordinários os que os acompanham, de Rubens, Allori, Poussin, Van Dyck, Roberta e o excepcional Velázquez.

A razão de ser da arte, neste caso a pintura, como complemento central da existência, está também aparente nestas poucas salas onde parece que se vive de outra maneira, não apenas mais livre como também com mais prazer e mais saciado, mais consciente das coisas que importam e as que não são importantes para impulsionar a vida e enriquecê-la.

Aqueles eram tempos de guerras religiosas e intolerâncias, mas, apesar disso, a violência e o sangue desapareciam nas obras dos mestres, como prova esta exposição, nestes recintos de sonho e perfeição, que nos dignificam e elucidam e em que nos vemos retratados, vivendo outra vida, mais rica, mais intensa, mais livre, mais imaginativa, do que a que levamos todos os dias como uma corda no pescoço.

Não somos mais a mesma pessoa quando saímos de uma exposição como esta. Algo mudou na nossa maneira de ser e de ver as coisas. O mundo parece mais feio e a feiura se sobressai confrontada com as formosuras e delicadezas que acabamos de ver. Mas não há pessimismo, porque o que vimos não é um milagre, mas um fato humano, obras construídas com as mãos e uma exigência intelectual que é possível alcançar com a pugnacidade com a qual esses artistas inspirados se entregaram à sua tarefa, algo acessível e sem mistério, ao alcance todo aquele que, como eles, trabalha seguindo a sua inspiração e que, não se contentando com ela, leva-a mais adiante, enriquece-a com detalhes e formas que a fortalecem e inovam.

Poucas vezes fiquei tão impressionado com uma exposição como esta em curso no Museu do Prado: Paixões Mitológicas. Com certeza porque, nestes tempos, não obstante o nosso otimismo com o que cremos ser a vitória da ciência sobre o mundo natural, percebemos como somos vulneráveis, como a vida continua sendo precária, e ao mesmo tempo vemos a imensidão da arte e da cultura, as luzes e sombras que as compõem. 

Tenho certeza de que não peco por ser otimista quando afirmo que a melhor emulsão para nos protegermos do terror que sentimos quando vemos tantas mortes imprevistas no nosso entorno, e a luta das autoridades da saúde e médicos para salvar essas vidas, que melhor do que todos os remédios é caminhar por um museu como o Prado e descobrir porque alguns quadros são um canto à imortalidade, à sobrevivência em meio ao horror. 

 Tradução de Terezinha Martino


'Vênus e Adonis', obra de Ticiano -  Foto: Museu do Prado


Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...