segunda-feira, 12 de abril de 2021

A lagartixa na minha casa - Gilberto Amendola



Estou dividindo apartamento com uma lagartixa. Embora não ajude no aluguel, sua presença não é um estorvo. Discreta, aparece com certa regularidade para me dar um salve e perguntar se estou bem.

Drica, a lagartixa, sabe que essa é uma pergunta retórica. Na verdade, só quer puxar conversa e ouvir umas amenidades. 

No momento, não as tenho, as amenidades. Costumo colhê-las fora de casa, em passeios que não faço mais.

Ainda assim, ela me ouve com generosidade. Algo raro, imagino. Eu mesmo nunca tive essa qualidade – embora saiba emular esse personagem (do bom ouvinte e interessado). 

Poucas coisas me interessam. Mas Drica, a lagartixa, é diferente. Ela é curiosa e se importa. Ela se interessa por tudo. Tudo, tudo parece preenchê-la de alguma energia vital. 

As vantagens de Drica são palpáveis. Ela passeia pelo meu apartamento como se cada cômodo fosse um continente. Minha sala é Paris. Minha cozinha Nova York. A vida inteira dessa minha amiga lagartixa-doméstica-tropical cabe aqui dentro. 

Ela é sensível aos meus desassossegos. Aos murros na mesa, às ligações sem resposta, aos palavrões atirados contra o infinito. Ele é sensível ao meu cansaço e aos meus fracassos solitários. 

Mas, quando quero desabar, Drica, a lagartixa, me olha com seus olhinhos de esperança e me acalma. São uns olhinhos de quem enxerga melhor na escuridão. Uma coisa comovente.

Drica, a lagartixa, acompanha meu home office. Com ela, tiro dúvidas gramaticais, comento os absurdos do governo, assisto Big Brother e algumas séries no serviço de streaming. 

Drica, a lagartixa, prefere os filmes leves. É otimista. A crença dela em finais felizes é quase um poema. 

Tenho medo de esmagar minha amiga com meus pés de chumbo, com minha ansiedade e pessimismo. 

Mas, Drica, a lagartixa, entende meus limites. Não é de dar bobeira. Não fica ao alcance dos meus desastres.

Estou olhando para ela agora. No momento em que escrevo e deleto, escrevo e deleto, escrevo e deleto. Mais deleto do que escrevo. Às vezes, são apenas letras repetidas e enfileiradas. Faço de propósito. Pelo prazer em usar o backspace. Tenho um romance de apagamentos. 

Drica, a lagartixa, me entende. Eu acho que entende. Certeza que sim. 

Do alto, na parede da minha sala, ela me manda uma mensagem: você não precisa sair de casa para se encontrar com Deus. 

sábado, 10 de abril de 2021

Improvável, mas a carta chegou - Ignácio de Loyola Brandão


Nos anos 50, meu sonho era ter uma jovem correspondente no exterior. Preferia uma francesa, adorava a língua, conseguia ler e escrever razoavelmente. E as francesas tinham um quê de sensualidade, eu via filmes com Cécile Aubry, Martine Carol, Pascale Petit, Françoise Arnoul, que o escritor Alex Salomon idolatrava. Fanny Marracini, professora de francês, me impressionou na primeira aula no ginasial: “Bonjour mes enfants. Isso quer dizer bom dia. Bom dia serão as duas únicas palavras em português que me ouvirão falar durante o curso”. 

Francês ela falou ao longo de muitos anos e assim estudamos Chateaubriand, Lamartine, Stendhal, Flaubert, Prévert, Balzac, Victor Hugo, Dumas, Cocteau, chegamos a Collette, George Sand, Camus e, quando surgiu Françoise Sagan, célebre aos 18 anos, best-seller, com um romance que assombrou o mundo, Boa Dia, Tristeza, vi que se podia ser uma estrela, escrevendo. Esperem aí, não explica minha carreira, não. Foi dona Fanny quem me conseguiu uma correspondente na França, Francine Defrancq e era de Mulhouse, Alsácia. Levei dois dias para escrever em francês, levei à dona Fanny, que me corrigiu e elogiou. 

Mandei e esperei. Quando mandávamos carta, sabíamos que esperar era virtude. Esperar com ansiedade, a cada dia, e imaginar o que a pessoa responderia. Passados treze dias, ao chegar em casa no começo da noite, meus pais, rindo, rindo, me entregaram o envelope com bordas em azul escuro e vermelho. Da França.

Sempre me submeti a testes de paciência, por ouvir minha mãe dizer: a paciência é uma virtude, torna a pessoa melhor. Só que ela é difícil. Hoje, a paciência se volatizou. Todo mundo vive ansioso, nervoso, angustiado, apressado, acelerado. Minha amada tia Terezinha usava uma palavra que pouco ouvi em minha vida: açodado. Famosa na família era a expressão dela, “você parece um Bernardino flagelado”, diante de uma pessoa impaciente, excitada, inquieta. Há meio século, meu primo Zezé Brandão, filho dela, publicitário em Araraquara, procura a origem do Bernardino.

Bem, aquela foi a primeira carta de uma série que se prolongou por anos. Francine escrevia com regularidade em papel rosa, tinha letra pequena, às vezes eu precisava adivinhar. Ela contava da vida cotidiana, de costumes, me corrigia, indicava filmes, livros e me enviava revistas como Cinémonde, Positif e Jeune Cinéma. Dela, recebi uma foto do filme O Salário do Medo. Ela foi fazendo minha cabeça. Nem imaginam o que aquelas cartas que atravessavam o oceano significavam para mim. Eram minha janela, libertação, eu não estava restrito a mesmice do meu dia a dia. Deixava de ir ao cinema – o que era quase impossível para mim – para ler e reler as cartas, uma vez que o carteiro chegava no final da tarde. Pouco antes que eu deixasse a cidade, 1957, vindo para São Paulo, Francine me avisou que estava se mudando para Paris, ia trabalhar em um banco. Avisei que também estava indo para a “vida”. 

Meu pai, certo dia, me ligou: “Tem uma carta da Francine! Abro?” Ela me avisava que trabalhava em um banco no Boulevard Haussmann, 102. Envolvido pelos meus primeiros anos em São Paulo, deixei Francine de lado. 

Em 1963, cheguei a Paris, levava o endereço do banco. Na manhã seguinte, cheguei ao local, vi que ali tinha morado Proust. No banco, descobri um jovem que trabalhara com Francine e ele me revelou “Elle est décédée, monsieur, je regrette”. Tinha falecido havia dois anos, me pareceu. Deixei para o final, o porquê dos meus pais rindo tanto quando chegou a primeira carta de minha correspondente. O envelope trazia meu nome e o endereço. Araraquara, Brasil. Nada mais. Um dia, ela explicou: “Perdi a tua primeira carta, me perdoe, tudo o que lembrava era o complicado nome de tua cidade, repleto de A. Impronunciável. Arrisquei, mandei”. 

Chegou. No correio, comentaram divertidos a ousadia, “quem ele acha que é?”, mas um carteiro me conhecia, queria namorar a Cecilia, uma prima minha. Trouxe a carta.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Paixões mitológicas - Mario Vargas Llosa


Ticiano, que nunca esteve na Espanha, conheceu Felipe II em Milão no final de 1548, quando este ainda era um príncipe. Ele tinha trabalhado para Carlos V, pais de Felipe, que o encarregou de pinturas religiosas, algo a que Ticiano era também adepto, mas seu enorme prestígio entre os nobres vinha sobretudo dos seus quadros eróticos, aos quais costumava dar um título mitológico para salvar as aparências. Isto porque a Igreja, muito suscetível neste aspecto, respeitava rigorosamente as imagens supostamente validadas pela mitologia e, especialmente, quando o pintor dizia ter se inspirado na Metamorfoses, de Ovídio, obra muito lida e reverenciada naquela época.

Felipe II encomendou a Ticiano (ou foi ele quem propôs e o monarca aceitou) seis obras mitológicas, que ele chamou de “poesias”, exatamente porque baseadas na mitologia clássica, e que ele foi enviando para a Espanha ao longo de uma década, entre 1552 e 1562. De acordo com o crítico inglês Peter Humphrey, as telas que Ticiano chamou de “poesias” constituem “um dos conjuntos de quadros mais célebres e de maior influência na história da pintura ocidental”.

Por diversas razões, esse grupo de pinturas concebidas como um todo orgânico, conforme explicação do pintor em uma das suas remessas, e que deviam ser vistas sempre juntas, foram se espalhando no decorrer dos anos, mudando de proprietários, residências e museus e não se tem certeza que o próprio Felipe II as tenha visto alguma vez reunidas. O que se sabe com certeza é que as damas da nobreza costumavam passar rapidamente diante delas, pois estavam cobertas para não as deixar ruborizadas.

As seis obras que Ticiano pintou e chamou de “poesias” hoje se encontram em vários locais, na Wellington e a Wallace Coleções, de Londres, no Museu do Prado em Madri e nas Galerias Escocesas de Edimburgo, na National Gallery de Londres e no Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston. Dá vertigens pensar no que deve ter sido a correspondência do diretor do Museu do Prado, Miguel Falomir, que teve a ideia de realizar esta exposição e é seu curador, durante três anos até ela se materializar. E, para piorar as coisas, a pandemia do coronavírus coincidiu com a inauguração da mostra em Madri. Mas não importa, a exposição é soberba, fora do comum e os madrilenhos (e muitos franceses recém-chegados também para os feriados de Semana Santa) que a virem não conseguirão esquecê-la facilmente.

E alguns, como nós, tivemos a sorte de ter como cicerone o próprio Miguel Falomir, que nos deu as necessárias informações sobre a exposição, enriquecida com quadros de Rubens, Veronese, Allori, Ribera, Van Dyck, Poussin e Velásquez.

Todas estas pinturas são extraordinárias, algo que não costuma se verificar nas melhores exposições. Em todas elas, reina uma liberdade ilimitada que expressa ao mesmo tempo a história quando era apenas mito e fantasia e as razões profundas que levaram os seres humanos a criarem uma arte que enriquece a vida e a eleva à altura dos nossos sonhos. E também expõe as limitações da realidade na qual nos locomovemos, como num cárcere em que não podemos nunca expressar de maneira plena as nossas expectativas de viver mais e melhor, realizar todos os nossos desejos, e daquilo que chamamos de cultura, arte, civilização.

Além da liberdade com que foram concebidos, esses quadros radiografam a comunidade da cultura europeia e ocidental, explicam a insignificância das fronteiras que separam seus homens e mulheres quando acreditam e fantasiam, mostram que constituímos uma única sociedade múltipla e versátil, unida por um denominador comum quando revelamos nossa intimidade (ou estamos contra todas elas) porque na hora de sonhar e desejar somos todos os mesmos. Quando caminhamos em meio a esses quadros, como parecem insignificantes o desespero com que certas minorias se empenham em exagerar suas diferenças, como se elas, que naturalmente existem, fossem o bastante fortes para destruir a solidez de uma cultura que tem suas raízes numa unidade mais profunda e visceral, da qual todos nós participamos, pois ela é muito generosa para incluir todos nós em seus sonhos.

Talvez esta exposição seja um sinal de alarme no que se refere aos desvios e traições cada vez mais frequentes na pintura ocidental, no caso de tantos artistas sem escrúpulos – palhaços no fundo – que esqueceram, apesar do sucesso que têm junto às galerias, os críticos e colecionadores, algo que é o mais importante em seu empenho criativo: inventar formas que renovam e consolidam a tradição. Os quadros de Ticiano são excepcionais, mas não são menos extraordinários os que os acompanham, de Rubens, Allori, Poussin, Van Dyck, Roberta e o excepcional Velázquez.

A razão de ser da arte, neste caso a pintura, como complemento central da existência, está também aparente nestas poucas salas onde parece que se vive de outra maneira, não apenas mais livre como também com mais prazer e mais saciado, mais consciente das coisas que importam e as que não são importantes para impulsionar a vida e enriquecê-la.

Aqueles eram tempos de guerras religiosas e intolerâncias, mas, apesar disso, a violência e o sangue desapareciam nas obras dos mestres, como prova esta exposição, nestes recintos de sonho e perfeição, que nos dignificam e elucidam e em que nos vemos retratados, vivendo outra vida, mais rica, mais intensa, mais livre, mais imaginativa, do que a que levamos todos os dias como uma corda no pescoço.

Não somos mais a mesma pessoa quando saímos de uma exposição como esta. Algo mudou na nossa maneira de ser e de ver as coisas. O mundo parece mais feio e a feiura se sobressai confrontada com as formosuras e delicadezas que acabamos de ver. Mas não há pessimismo, porque o que vimos não é um milagre, mas um fato humano, obras construídas com as mãos e uma exigência intelectual que é possível alcançar com a pugnacidade com a qual esses artistas inspirados se entregaram à sua tarefa, algo acessível e sem mistério, ao alcance todo aquele que, como eles, trabalha seguindo a sua inspiração e que, não se contentando com ela, leva-a mais adiante, enriquece-a com detalhes e formas que a fortalecem e inovam.

Poucas vezes fiquei tão impressionado com uma exposição como esta em curso no Museu do Prado: Paixões Mitológicas. Com certeza porque, nestes tempos, não obstante o nosso otimismo com o que cremos ser a vitória da ciência sobre o mundo natural, percebemos como somos vulneráveis, como a vida continua sendo precária, e ao mesmo tempo vemos a imensidão da arte e da cultura, as luzes e sombras que as compõem. 

Tenho certeza de que não peco por ser otimista quando afirmo que a melhor emulsão para nos protegermos do terror que sentimos quando vemos tantas mortes imprevistas no nosso entorno, e a luta das autoridades da saúde e médicos para salvar essas vidas, que melhor do que todos os remédios é caminhar por um museu como o Prado e descobrir porque alguns quadros são um canto à imortalidade, à sobrevivência em meio ao horror. 

 Tradução de Terezinha Martino


'Vênus e Adonis', obra de Ticiano -  Foto: Museu do Prado


segunda-feira, 29 de março de 2021

O amor cobra sua fatura - Vera Iaconelli

 Cantado em verso e prosa, o amor entre humanos, quando correspondido, é das maiores fontes de satisfação que se tem notícia. Seja fugaz ou duradouro, paixão ou amor, com ou sem sexo, trata-se de uma experiência da qual ninguém sai ileso.

Não é de se estranhar que no auge do encontro amoroso a realidade da morte se apresente da forma mais cristalina para os amantes. O orgasmo, também chamado de “petit mort”, revela como o máximo do prazer flerta com o fim —o apagamento da consciência.

A jura de amor tem sempre algo de despedida, pois cada segundo no qual se desfruta da presença do outro é um segundo a menos do tempo que resta. O desejo se renova na exata medida do temor de perder o amado.

Nos casais, o amor é o que pode sobrar, quando acaba o chantilly da paixão. Por vezes, o amor erótico muda o destino de uma amizade, transformando, de repente, o que era casto e fraterno em sexo e espanto, que pode ser seguido de arrependimento ou gostinho de quero mais. O amor a qual me referi até aqui é herdeiro do ideário romântico que nasce com o homem moderno.

Mas o amor é bem menos circunscrito a um período histórico, sendo a base das relações humanas. Basta citar o amor fraterno, o amor filial, o amor espiritual, cada um com seu grau de apaixonamento próprio, ainda que apartados do intercurso sexual.

Os rituais fúnebres da pré-história humana revelam formas de honrar e lamentar a perda de pessoas queridas e são os primeiros indícios da capacidade humana de simbolizar a morte e o amor, na forma de lamento por sua perda.

O amor transferencial proposto por Freud no dispositivo psicanalítico, por sua vez, trata de um desencontro previsto e que não pode prescindir de um bom e ético manejo. O paciente ama no analista algo que ele mesmo —paciente— deposita lá. O analista sustenta esse equívoco sem se permitir a impostura de acreditar que o amor que o paciente lhe transfere diga respeito aos encantos do analista.

Como o próprio nome diz, é afeto transferido de outrem e cabe ao analista abster-se de corresponder-lhe.

Nada impede que reconheçamos no trabalho e na pessoa do analista seu valor, e que o amor decorrente da gratidão e da admiração surjam ao longo do tratamento. Mas se trata de afeto que não pode ser confundido com o que o paciente deposita de excesso na relação.

Breuer, parceiro de Freud na pré-história da psicanálise, escorregou na casca da banana deixada por Anna O., a musa da histeria e paciente fundadora do dispositivo analítico. Acreditou que o amor da jovem paciente por ele fosse devido a seus irresistíveis dotes de senhor barbudo. Freud, de sua parte, foi impecável no quesito abstinência. Lacan  foi bem mais questionável como podemos ler no delicioso “A Vida Com Lacan” (Zahar, 2017) da psicanalista Catherine Millot —paciente e amante do analista francês.

O amor romântico foi criado e assim poderá desaparecer, como seu declínio vem apontando. Não vejo grandes problemas nisso, inventa-se outras formas.

O mesmo não se pode dizer do amor fraterno, cujo declínio aponta para o fim da civilização. De fato, de todos os amores, o que mais carecemos hoje é esse último.

Nem políticos, nem soldados, nem cientistas… os heróis do nosso tempo são as pessoas ainda capazes de amar o outro, o desconhecido, o anônimo. O resto é o horror da indiferença. O resto é contar pessoas como se fossem números: até ontem, 312 mil.


Grafite em Salvador retrata amor em tempo de pandemia 



Saudade com colarinho - Gilberto Amendola


Saudade do barulho de copo quebrando. De gelo trincando. De reclamar da música. De me encher de amendoim. De elogiar o colarinho. De dividir a conta com a calculadora do celular. De discutir os 10%. De esperar uma mesa. De segurar um lugar para quem está atrasado. De concordar sem ouvir o que o outro disse. De ganhar uma saideira. De tremoço. De pedir água. De esperar na fila do banheiro. De achar ruim com quem demora no banheiro. De dividir uma porção. Que saudade de dividir uma porção!

De uma televisão sem som. De esbarrar em desconhecidos. De meu número de telefone anotado em guardanapos. De ouvir que a “cozinha vai fechar”. De perguntar o que o outro está bebendo. De dar um gole na bebida de um desconhecido sem me achar um louco. Da caneta atrás da orelha do garçom. Das bolachas de chope. Aliás, de contar as bolachas de chope. De coqueteleiras gritando. De sussurrar uma bobagem no ouvido de alguém. De invejar a mulher do próximo. De pedir a receita do drinque. De ganhar um shot. De virar um shot.

De olhar o cardápio. De decorar um cardápio. De pedir alguma coisa fora do cardápio. De pedir alguma coisa acebolada. De bacon. De pururuca. Das fritas. De ouvir o “Parabéns a Você” vindo de outra mesa. De perguntar se “esqueceram o meu pedido”. De pedir para “caprichar”. De observar as mesas sendo recolhidas. De me apaixonar por uma desconhecida.

De discutir política. De deixar uma caixinha. De pedir outra caipirinha. De beber na calçada. De chorar por uma segunda saideira. De ganhar uma cortesia. De esquecer o celular. De tirar fotos bobas. De ficar até fechar o bar. De ajudar a fechar o bar. De perguntar se estão precisando de funcionários.

De comprar um livro de um escritor que oferecia exemplares de mesa em mesa. De levantar as pernas para o funcionário passar o rodo. De pedir a conta fazendo aquele gesto com a mão. De ser convidado a se retirar. De dar vexame. De desmarcar exames. De mandar mensagens pra contatinhos. De lembrar da ex. De reclamar da ex. De perguntar se ainda dá pra tomar mais uma coisinha.

De voltar para casa andando. De voltar pra casa sozinho. De voltar pra casa acompanhado. De errar a chave na fechadura. De me jogar na cama. De me sentir feliz. De acordar de ressaca. De prometer que nunca mais. De descumprir essa promessa no outro final de semana. De ouvir meu nome repetido no bar. De me sentir bem-vindo. Da vida que eu levava antes.

terça-feira, 16 de março de 2021

Estações de Metrô - Gilberto Amendola

 

Palmeiras-Barra Funda

A plataforma está cheia. Do alto, sou o aqualouco decidindo se devo ou não pular naquela piscina. Se a covid  fosse fosforescente, eu teria uma estratégia de como nadar até o vagão. Talvez se eu nadasse de costas. De costas. 

República 

Dois fanáticos por futebol entram no vagão. Um passageiro usa uma máscara do Corinthians; o outro, a do Palmeiras. Sinto uma troca de olhares, uma briga silenciosa, uma promessa de violência que nunca será consumada. Não são negacionistas. Foi um empate com sabor de vitória para os dois lados. 


O religioso entra no vagão. Tira a máscara, abre a Bíblia e começa a pregar. A palavra gritada, lançando perdigotos negacionistas pelo ar, vai perdendo o sumo. Ele fala em amor, compaixão, respeito, mas o que se ouve é apenas um zunido de rádio mal sintonizado. Daquela boca sem máscara pululam conceitos abstratos, folhas podres, slogans de morte. Perto de mim, alguém grita: “Põe a máscara, maluco”. E essa foi a verdadeira e única palavra do Senhor. 

Brás

O ambulante não sabe usar o produto que está tentando me vender. Qual a razão de usar a máscara no queixo? Dever ser como usar preservativo na orelha, não é? Ainda assim, ele insiste em dizer que a máscara é excelente e que tem um material qualquer capaz de esganar a covid que, porventura, venha com alguma saliência viral para cima de nós, potenciais compradores. Ele garante que a máscara também é eficaz contra todas as cepas e tretas que existem ou que ainda não foram descobertas. São cinco máscaras por R$ 10. Levo três por R$ 5. 

Tatuapé

Em pé, perto da porta, o casal se beija. Impossível não reparar no desespero de línguas enroladas, afogadas, famintas, sacanas e insaciáveis. Um beijo como se não houvesse amanhã. Talvez não tenha mesmo. Em tempos de pandemia, o amanhã é um luxo sem garantias. Imagino corações de covid sobrevoando a cabeça da dupla. Todo meu apoio, mas seria melhor se eles arrumassem um quarto. Mas um quarto está muito difícil de se achar.

Penha

Tem um jovem sentado no lugar reservado para os idosos. Uma senhora de idade bastante avançada e cabelos brancos se aproxima. Sinto que ela tenta chamar atenção do menino de forma educada. Ele finge que não está vendo. Penso em intervir, mas sou pego de surpresa pela reação de velhinha. Ela começa a conjurar uma espécie de praga ou maldição contra o folgadão. O garoto dá de ombros. Finge que não é com ele. A idosa, sem mais delongas, afastou-se e sumiu entre os outros passageiros. Sumiu, literalmente. Desapareceu, sacou? O garoto ainda não pode perceber, mas eu já vejo os efeitos do seu descaso. Coitado. Amo as bruxas. E sempre torci por elas. 

Guilhermina-Esperança

O vagão está tão cheio que agora a estação só se chama Guilhermina. 

Corinthians-Itaquera

Abrem-se todas as portas, com meu “abre-te, Sésamo” imaginário. Quem não foi ungido pelo home office desceu apressado – depois de arrancar a fórceps da muquirana mão da existência mais um dia de pão e de leite. Agora, é chegar em casa, tirar os sapatos, tomar um banho, brincar com as crianças, jantar com a patroa, assistir um pouco de TV e torcer para essa tosse chata não ser nada demais. 


Foto: Daniel Teixeira ( O Estado de Sã Paulo)



sábado, 6 de março de 2021

Sexo, paixão, amor e ciúme - Marcelo Rubens Paiva

 Paixão:

Colocou lençóis limpos e um vasinho com flores. Ela chegou, e logo se deitaram. Meu mocinho, amor... Nus, na posição. Massagem nas costas, carinhos, beijos no pescoço, na orelha, na testa, nos olhos, no nariz, na boca, nos ombros, em toda a barriguinha. Júlia, virgem como ele, era magra como ele, com as pernas esguias. Pareciam dois grilos na cama trançando braços e pernas. O desejo era enorme. Assim como as dificuldades. Pensavam que seria fácil. Fizeram tudo certinho. Nada. Doía. Não era para doer, era para ser lindo, do outro mundo, inédito, apaixonante. Não entrava. O que faltava? Relaxaram. Olharam o teto. Riram da situação. Massagem, beijos, lambidas, carinho, sobe novamente, ela encaixa as pernas nas costas dele, se acomoda, abraça, queria tanto quanto ele, vai, agora vai, vai! Dói! Posso? Dói. Não entra? Não entra. Mais uma vez. Para, para, para!


Ato:

Numa tarde em que estavam apenas os dois, foi com tudo, sem medo de vê-la sofrer, porque a culpa era dele e da sua sociedade patriarcal, de sacerdotes e ancestrais. Perdão, você vai sofrer, vai sangrar, tabu meu não querer machucá-la, vou machucar esta pele tão valorizada em culturas primitivas, como escreveu Freud, vou rasgar, desculpe, eu vou te salvar, nos salvar. Deus está morto! Nu, sobre ela, encaixado, forçou, não parou, forçou mais, tensionava, abriu mais sua perna, e empurrou com uma força descomunal, ela pulou, entrou, ela se contorceu de dor, abriu, sangrou, ele sabia que doía, ela o beijou, forçou novamente, ela se contorceu mais, abriu mais as pernas, ficaram com as bocas grudadas, estava tensa, apertada, e em cada forçada, um gemido de dor, um corpo enrijecido e nenhuma expressão de prazer, só de dor. Júlia dizia:

– Não pare. 

Sexo:

Não se lembra de ter insônia naquela casa, apesar da agitação. Dormia com tranquilidade, profundamente, sempre que se deitava. Nessa noite, Júlia já tinha se ido, e ele não sabia que horas eram. A porta se abriu. Iluminou. Uma penumbra nela. Achou que era o amigo que dividia o quarto com ele. Fechou os olhos. A porta se fechou. Um corpo se sentou de pernas abertas sobre ele. O vulto tomava forma. Tinha o cabelo comprido preto, uma boca enorme. Eloá estava sem calcinha. A amiga da namorada dele. Não sei como conseguiu, foi tudo tão rápido. Ela se esfregou nele, encaixou. Estava muito lubrificada. Entrou fácil. Como entrou fácil... Sem dor. Sem pudor. E lá dentro ele ficou, embrulhado, acariciado, tomado. O máximo que conseguiu foi colocar as mãos nas coxas dela. Ela fez tudo. Sem abrir a boca. Sem pedir ou explicar. Sem culpa. Sem dúvidas. E não recuou. Não recusou. Nem se beijaram.

Amor:

Júlia chegou, ele sentia culpa, e foi emocionante revê-la renovada. Rolou de novo aquela sensação boa subindo a espinha, se espalhando por toda a corrente sanguínea. Ela mexia com ele, ele mexia com ela? Ficavam eufóricos toda a vez que estavam numa cama. Em menos de um minuto, depois da olhada no olho, para se certificar como o outro estava, e confirmar que estava tudo bem, estavam nus se pegando. Logo, estavam grudados, colados, untados, encaixados, se amando da cabeça aos pés. As bocas não se desgrudavam, as línguas não paravam, o suor os colava mais, suas pernas agarradas nele o grudavam mais nela, ele dentro dela, e de lá não sairia tão cedo, sugado, os braços os prendiam num nó, num abraço difícil de desatar. Dessa vez, foi em silêncio, concentrados. Só foram se desgrudar quando anoiteceu. Ela disse:

– Hoje, vou dormir com você.

Ciúme:

Foi tudo sem querer. Nos apertaram no apertado 147 de Júlia. Estávamos todos bêbados. Viemos de uma festa. No banco de trás, quatro pessoas. Não cabia uma mosca, ele se lembra. 

Júlia dirigia. Ele no banco de passageiro. Sua melhor amiga, Eloá, entre eles. Mas era tão estreito que Júlia não conseguia passar a marcha. Ela sugeriu para a amiga Eloá se sentar no colo dele. Aos poucos, uma reação fenomenal se formou. A menina continuou encaixada. As curvas e o chacoalhar só pioraram. Teve que segurá-la, para não cair. Passou o braço direito em torno do seu quadril, e ela colocou a mão no seu antebraço. Apertavam no carro apertado. Estava todo mundo bêbado, já disse. Ela ficou superencaixada com seu colo. A mãozinha dela ficou alisando os pelinhos do seu antebraço. Ela era demais. Todos têm desejos secretos. Até achou que Júlia fizera de propósito, com o propósito de ela sentir o mais tarado dos caras de 18 anos que namorou. Parecia até que dirigia, fazia curvas e freava, para aquele quase coito chegasse a um ápice. Que não sei como juntou forças para não chegar. 

Ao chegar ao destino, ele abriu a porta, a amiga zarpou, e Júlia viu o resultado de suas manobras. Olhou furiosa. Deixou cada um na sua casa, até desabafar e jogar na cara, num ataque de ódio e ciúme que ele nunca tinha visto. Quando ele saiu do carro, ela só disse:

– Você é inacreditável...

Rompeu o namoro.






Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...