quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Lemingues

 Geração lemingue - Luis Fernando Verissimo

24 de setembro de 2020



Sabe lemingue? É aquele bicho que migra em bandos na direção do mar atrás de um líder, qualquer líder, e quando o líder se atira no mar se atira junto e morre. Ninguém entende bem essa propensão do lemingue ao suicídio coletivo, mas está no seu DNA, impossível discuti-la. O lemingue é descrito como um pequeno roedor de cauda curta e cor amarelada, mas essa é sua descrição zoológica. Para nosso efeito, ele é uma pessoa jovem que gosta de aglomeração e para o qual o suicídio coletivo é apenas mais um programa com a turma. 

Me lembrei de um episódio contado pelo Mino Carta. Num cinema do Bexiga, em São Paulo, passa um documentário sobre a vida animal e seus horrores, inclusive cenas sangrentas de pobres gazelas sendo trituradas por bichos mais ferozes do que elas. É quando se ouve uma voz com indisfarçável sotaque do Bexiga, de alguém que provavelmente entrou num cinema pela primeira vez na vida, e diz “Que mentalidade!”. É o comentário que merece a estranha compulsão dos lemingues. Que mentalidade!

2020 vai ser lembrado como o ano que se revelou a vocação para lemingue de toda uma geração. Uma insuspeitada vontade de seguir o contemporâneo que passar por perto com claros sinais de que vai se matar e ir atrás dele com todo o bando para morrer também. O que mais impressiona nos bandos que enchem as praias a caminho do mar e as calçadas dos bares é sua alegria. Sem máscaras e sem distância um do outro. 

Os lemingues estão nas ruas. Se há mesmo uma crise internacional, uma pandemia viral que grassa no planeta sem controle à vista, o problema não é deles. Afinal, que crise internacional é essa em que o presidente de um dos países mais supostamente afetados por ela não acredita nas medidas recomendadas para detê-la? Bolsonaro & Filhos se comporta como se ele também fosse um lemingue, jovem e sem compromisso com a realidade. Que mentalidade!



Bolsonaro e os eleitores lêmingues, por Erick Kayser

21/10/2018

Existe um mito, muito difundido, que os lêmingues – espécie de roedor que vivem no ártico e tundras – seriam animais com um bizarro ímpeto suicida. Conta-se que se um dos líderes do bando se atira de um penhasco, todo o grupo de roedores o seguiriam sem pestanejar, morrendo todos juntos em uma marcha coletiva para a própria morte. Esse suposto hábito suicida dos lêmingues é uma noção muito antiga, nunca fundamentada, mas que se popularizou, principalmente graças a um documentário da Disney, chamado White Wilderness, ganhador do Oscar de Melhor Documentário em 1959.

No documentário aparecem dezenas de lêmingues pulando de um penhasco para o Oceano Ártico, enquanto o narrador conta que os pequenos roedores que nadam em direção ao horizonte vão morrer afogados após um exaustivo e inútil esforço.(cena disponível neste link: https://www.youtube.com/watch?v=xMZlr5Gf9yY . O filme, no entanto, não passou de uma grande farsa. Os produtores da película produziram uma engenhosa montagem para sustentar um mito irreal, soube-se, décadas depois, que não houve suicídio em massa, mas que os animais foram encurralados e jogados deliberadamente na água. 

Hoje sabemos que este mito suicida dos lêmingues, mesmo que muito popular (retratado em animações, jogos de videogame, etc) não corresponde a realidade. Mas o comportamento dos lêmingues serve como uma metáfora válida dos riscos de se seguir as massas estupidamente sem levar em conta riscos e consequências.

Valendo-se desta figuração dos lêmingues, é inescapável a comparação com os chamados “Bolsominions”, o barulhento grupo de apoiadores radicais do candidato Bolsonaro. Grupo de baixa capacidade argumentativa, eles basicamente repetem, de forma agressiva, os argumentos de seu líder, por mais absurdos e ilógicos que eles sejam. Incapazes de refletir sobre qualquer tema que escape a um binarismo primário, muitos destes abraçam abertamente as teses mais tresloucadas, muitas delas ferindo a seus próprios interesses imediatos.

 

Um exemplo: uma quantidade importante de apoiadores do Bolsonaro são trabalhadores, pessoas que dependem da renda de seu trabalho para sobreviver. Mesmo assim, abraçam e apoiam teses que lhes retiraram direitos básicos, como Carteira de Trabalho, 13º salário, férias remuneradas, etc.

 

Neste mesmo terreno, é interessante observar nas pesquisas do 2º turno apontam que, para a maioria dos eleitores, Bolsonaro representaria uma candidatura alinhada aos interesses dos ricos. Sabemos que a imensa maioria do povo brasileiro não é constituída por pessoas ricas, no entanto, a maioria dos eleitores entrevistados expressaram intenção em votar no militar da reserva. O que faria pessoas votarem em alguém que, sabidamente, não defenderá os seus próprios direitos, mas de uma minoria de privilegiados?

Outro exemplo é o próprio tema da democracia: abraçam teses autoritárias e de supressão da democracia sem refletir, por nenhum momento, que o fim da democracia não atingirá apenas seus oponentes, mas a todos e todas. O aliado circunstancial de hoje será o alvo da perseguição de amanhã. Todos os regimes ditatoriais do século XX tiveram este comportamento de, após eliminar as oposições, perseguir alguns setores que lhe deram sustentação, num movimento de “purificação” contra setores mais moderados (portanto, menos convictos da infalibilidade de seu líder) ou ainda contra setores excessivamente radicais (por estarem indo muito além da vontade expressa pelo regime).

 

A marcha suicida dos lêmingues é um mito, mas os seguidores do “mito” agem como os lêmingues da Disney: marcham decididamente para o abismo, mesmo que isso os leve ao seu próprio fim.

https://jornalggn.com.br/opiniao/bolsonaro-e-os-eleitores-lemingues/




Por que os lemingues se atiram no mar? 

Esses pequenos roedores, que habitam os países escandinavos, não se atiram e sim caem no mar por acidente. Assim, não passa de ficção a história de que correm em bandos até a beirada de precipícios e se jogam de propósito no oceano em um cinematográfico suicídio coletivo. Os especialistas chegaram à conclusão de que isso por causa de explosões populacionais que surgem, em média, a cada quatro anos. Quando o número de lemingues cresce demais, falta comida e eles iniciam, no final do verão ou no outono, movimentos migratórios em busca de alimento. Esse deslocamento nem sempre é ordenado e muitos acabam se dirigindo para as bordas de penhascos e despencando no mar, pressionados pelo numeroso bando de lemingues que vem logo atrás deles. “É uma estratégia natural de sobrevivência. Se eles ficarem no mesmo lugar, morrerão de fome. Quando se deslocam, no entanto, muitos caem e se afogam em rios e lagos”, afirma o biólogo Peter Tuchin, da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos.

https://super.abril.com.br/mundo-estranho/por-que-os-lemingues-se-atiram-no-mar/


 



quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Máscaras e dúvidas - Roberto DaMatta

 Quebrei um dente e fui obrigado a romper a quarentena atual e a outra, de 50 anos, para visitar o Dr. Rodrigo Medina, meu competente dentista. Como era uma emergência, marcamos ao anoitecer, quando seria prontamente atendido.

Devidamente mascarado e me sentindo um pouco bandido de história em quadrinho ou um reles político nacional, andei pelos intermináveis corredores do prédio e, driblando a insegurança da idade, cheguei ao consultório, sentei-me e fiquei esperando minha vez. 

Vivemos com grande intensidade e, em todo lugar, a experiência de entrar numa democrática fila, instituição sobre a qual, em 2007, produzi com Alberto Junqueira o livro virgem de leitores Fila & Democracia. Seguro de um atendimento igualitário, suspirei alegre, agasalhado pela confiança que me era dada pela rotina da fila avessa à hierarquia brasileira – do quem chega primeiro, é primeiro atendido. 

Minutos depois, entrou no consultório uma jovem senhora. Após os reconhecimentos mútuos demandados pela “boa educação”, começamos uma conversa trivial. Observamos o terror da pandemia que nos obrigava a usar máscaras; comentamos o nosso nojo pelos governantes que roubaram recursos médicos e construíram hospitais fantasmas. Notando a percepção de minha companheira de espera, perguntei no que ela trabalhava.

– Sou professora, disse. E você?

– Sou do mesmo ramo, sou professor da PUC-Rio.

– De quê?

– De Antropologia Social ou Cultural, respondi de pronto como sempre faço para explicar que o “cultural” que eu ensino nada tem a ver com “show business” (teatro, cinema, TV, etc...), mas com valores e costumes...

– O senhor conhece o Roberto DaMatta?, perguntou imediatamente a minha companheira de espera.

– Acho que sim, disse o mascarado, creio que conheço um pouco...

– Eu adoro o que ele escreve. Como ele é?, perguntou a moça para uma cara surpresa, escondida pela máscara.

A pergunta banal me pegou. Afinal, quem era mesmo eu? Seria o pai, avô, irmão, filho, viúvo, tio e primo? Ou seria um velho professor pesquisador conjugado por um esforçado cronista e autor? Ou simplesmente um velho?

– Bem, respondi, ele é um cara complicado, indeciso, enfático e até mesmo grosseiro. Acho que é impaciente com a burrice nacional, mas isso é um direito dele... 

– Então, você teve convivência com ele..., questionou a moça do rosto escondido.

– Convivo com ele desde os tempos de primeira comunhão, escola e faculdade... Aliás, fui ao seu casamento e ao lançamento do seu primeiro livro aqui em Niterói... Ele é muito difícil de conviver, pois sempre usa uma máscara.

– É mascarado?

– Não. Mas sofre de uma profunda e neurótica honestidade, disse, tirando a minha máscara e revelando que era eu quem – num raro momento – falava da minha própria pessoa...

A moça sorriu e pediu uma desculpa impossível, pois sempre vivemos num país no qual todos devem saber com quem falam. Exceto quando nos mascaramos como fazem os governantes desonestos, os poderosos e os muitos ricos...

Em seguida, fui consertar o dente.

PS: O fato é real, mas foi devidamente mascarado.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Mudança de apartamento - Gilberto Amendola

 Essa é uma das últimas crônicas que escrevo nesse apartamento. Depois de quase 18 anos morando no mesmo endereço, deixo o lugar que foi o cenário dos meus piores e melhores momentos. 

Pelo apartamento 23, passaram todos os meus amigos. Aqui, vivi o suficiente para encher as prateleiras da memória com essas bugigangas emocionais que um adulto costuma carregar. 

O fato da mudança acontecer durante a pandemia do coronavírus só está agregando um traço dramático a algo que, por si só, já é bastante intenso. 

Não sei se consigo lidar com tantas coisas práticas de uma só vez. Para muitos não deve ser nada demais, mas me sinto movendo um Everest de pequenos (e médios) pepinos. Eis o bololô de ações, contra-ações e obrigações da minha mudança: “Procurar apartamento na internet. Mandar e-mail. Marcar visita. O corretor pode no fim de semana? Presta atenção no piso. Tem piso solto. Cabe no orçamento? O taco está novo? E a vizinhança? Tem que dar sorte com vizinho. O apartamento tem vazamento? E armário? Os quartos têm armário? Olha que armário é caro.

Aí vem a proposta, a contraproposta, os contratempos e o contrato. As letras miúdas e as letras graúdas que não fazem sentido. Quanto é o IPTU? Precisa de fiador? Prefere seguro-fiança? Vou amolar meu pai com essa história de fiador. Precisa reconhecer firma?

Reconhecer firma! Em que ano estamos? Ir ao cartório no meio da pandemia. Tem aglomeração no cartório? Pra que isso? Eu nem tenho uma assinatura decente. Olha o carimbo! Carimba logo duas vezes. A sala é boa, mas a cozinha é pequena demais. Será que cabe a máquina de lavar? Vamos tirar as medidas da máquina de lavar! Eu tinha que ter visto isso antes. Onde eu coloco a televisão?Não tem lugar para essa prateleira. Será que eu preciso trocar o fogão? Eu nem cozinho. Tenho que ligar para o serviço de TV a cabo. Tenho que instalar a internet logo para não atrapalhar meu home office. Cuidado com o computador do jornal.

Quando vou pegar as chaves? Quando vou devolver as chaves? Preciso pintar o apartamento antes de devolver. Que cor é essa? Não, não, antes de pintar tem que tampar os buracos dos quadros. Como tem maçaneta quebrada? Em que lugar a gente compra maçaneta? Preciso chamar um chaveiro. Preciso arrumar o banheiro. Será que vou precisar pagar dois aluguéis? Alguém vai querer esse sofá. O cachorro destruiu, mas talvez se aproveite alguma coisa. Quanto custa um sofá? Quero trocar de cama, mas não tenho grana. E os livros? Quais devo doar? Esse, aquele, nenhum... Eu preciso me desfazer das coisas, mas as coisas são parte de mim. Não quero acumular, mas sou fruto de toda essa acumulação. Essa camiseta não serve mais em mim. Vou doar tudo.

Não quero mais nada. Coragem. Lembrete: comprar plástico bolha. Tenho uma centena de garrafas para embalar. Máximo cuidado para não quebrar nada. Alguma coisa eu vou quebrar. Esse copo era da minha avó. Já era. Quebrou. O pessoal do caminhão não é muito cuidadoso. Eles estão de máscara. Outro lembrete: trocar titularidade das contas. Como é que faz isso? Pela internet? Mas tô sem internet. Será que o zelador do meu novo prédio pode me ajudar. Não consigo lidar com esses móveis de montar. Nunca montei direito. Preciso de ajuda. Quanto? Cinquentinha. O que eu faço com essa chave philips? Que raios é uma chave philips? Vou morar sozinho e não sei usar uma chave philips. Quando eu vou chamar meu novo apartamento de lar? Quando vence o aluguel?

Essa mudança nunca termina. Olha quanta caixa, quanta coisa fora do lugar. Pra que tudo isso? Tem até foto da ex, conta de 2011, jornal velho, poema ruim, romance inacabado, bilhete de suicídio. Esse apartamento ainda vai ficar com a minha cara? O que é a minha cara? Isso nunca vai ter fim. Espero que o cachorro acostume. Socorro. Alguém viu essa chave phillips por aí?” 

domingo, 6 de setembro de 2020

A Lua - Luis Fernando Verissimo

 “Todos eles estão errados, a Lua é dos namorados.” Lembra da música? Não sei se seu lançamento coincidiu com a chegada dos americanos ao nosso satélite em 1969, mas sua mensagem era clara: a Lua não é de nenhuma grande potência, a Lua é de quem sabe aproveitá-la, a Lua é um adereço do amor. Deixem-na em paz, americanos. Mas nós também nos enganamos com a Lua. A ideia de que ela só existe como complemento de uma paisagem romântica - ou seja, não existe para nada aproveitável - é falsa. 

A Terra é o único planeta no sistema solar com um satélite do tamanho da nossa Lua, o que faz dela menos um satélite do que um planeta companheiro. Os dois satélites de Marte têm meros dez quilômetros de diâmetro cada um. A Lua tem quase um quarto do diâmetro da Terra. Esta relação é importante porque sem a influência estabilizadora da Lua a Terra andaria pelo espaço como um bêbado, com consequências inimagináveis no nosso clima, sem falar no nosso equilíbrio. É a força gravitacional da Lua que faz a Terra girar na velocidade, no ângulo e com a sobriedade que garantem sua estabilidade e a existência de vida na sua superfície.

Agora, a má notícia. Sinto muito, mas a Lua está se afastando de nós, uma polegada e meia por ano, todos os anos. Daqui a dois bilhões de anos, ela estará tão longe que não poderá mais influenciar a vida na Terra. Você pode se consolar imaginando que serão descendentes seus os namorados que em dois bilhões de anos estarão olhando para o céu e se perguntando que fim levou a tal de Lua que tanto cantavam os poetas.

*

Cientistas fizeram os cálculos e concluíram que a vida na Terra seria impossível se o nosso planeta estivesse 5% mais perto ou 15% mais longe do Sol. Mais perto e a Terra seria uma queimada permanente em que nada sobreviveria, mais longe e tudo congelaria. A conclusão é que somos todos filhos fortuitos de uma eventualidade, o fato de habitarmos um planeta com todas as condições para nos alimentar e sustentar, se não fizermos a burrice de dilapidá-las. O que dá razão a quem especula que em todo o Universo só este planetinha tem vida, mas também dá razão ao físico e matemático inglês Freeman Dyson, que disse: “Quanto mais eu examino o Universo e estudo os detalhes da sua arquitetura, mais evidência eu encontro que o Universo, em algum sentido, deve ter sabido que nós viríamos”.

domingo, 30 de agosto de 2020

O Elefante - Luis Fernando Verissimo


Meu pai foi convidado a lecionar literatura brasileira na Universidade da Califórnia. Um ano em São Francisco, um ano em Los Angeles. Fomos todos: pai, mãe, minha irmã Clarissa e eu com inimagináveis 7 anos de idade. Na nossa primeira noite na casa de São Francisco, um choque: terremoto! Felizmente, dos mais fracos, calibrado só para assustar brasileiros. Mais traumatizante do que o terremoto foi o primeiro dia na escola, onde nos botaram sem saber uma palavra de inglês e pedir para ir ao banheiro. E aconteceu o inevitável. Fiz xixi nas calças e voltei pra casa escoltado por dois solenes colegas, sem tirar os olhos do chão. Não fiz uma boa primeira impressão na América. 
Em Los Angeles, Clarissa e eu já estávamos ambientados e falando inglês como nativos. Todos os sábados íamos a um cinema do bairro para ver o último capítulo do seriado Masked Marvel, Maravilha Mascarada, e não me pergunte como eu ainda me lembro do título depois de tantos anos. O Maravilha lutava contra espiões e outros inimigos da democracia dentro dos Estados Unidos. Pelo menos ele nunca foi visto de paletó e gravata numa selva do Pacífico ou trincheira da Europa. Ao contrário de mim, que lutava com armas de brinquedo contra inimigos imaginários, mas em todas as frentes.
Nossa escola de Los Angeles tinha um programa de artes e me botaram numa turma de quatro que esculpia um elefante de argila do tamanho aproximado de um cachorro médio. Meus companheiros de turma foram desistindo do projeto, um por um, mas eu – era isso que eu queria contar – tinha desenvolvido uma ligação com o bicho que até hoje não consigo decifrar. Era uma espécie de cumplicidade, nós dois contra os desistentes do mundo? Ou uma coisa assim meio, sei lá, mística? Não esqueça que eu estava com 9 anos de idade, ainda vibrava com o Maravilha Mascarada no cinema. Mesmo que entendesse a minha persistência não saberia lhe dar um nome. 
A professora veio me elogiar.
– Muito bem. Você foi o único persistente. Acho que o elefante está pronto, não?
– NÃO! – gritei. Pra dentro ou pra fora, isso eu não me lembro.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Crônicas de SP: O homem de papelão - Gilberto Amendola

O homem de papelão trabalha como totem em estádio de futebol. Sorridente, assiste a um sofrido 0 x 0 sem reclamar, sem xingar o juiz ou pedir a cabeça do treinador.
Mesmo se um gol tivesse acontecido aos 45 minutos do segundo tempo, ele permaneceria com aquela fleuma aristocrática de quem não admite emoções vadias.
Sustos, supetão, tropeços, arrepios e surpresinhas não fazem parte do seu repertório. Ou seja, do ponto de vista do Senhor Papelão, um 0 x 0 é totalmente satisfatório. 
Profissional dedicado ao ofício de ocupação de espaços vazios, já atuou no comércio popular, em supermercados, shoppings, concessionárias, campanhas políticas e parques de diversão.
Ele teve uma breve passagem pelo mundo das artes, mais especificamente no canto esquerdo do palco de um espetáculo musical. Mas essa experiência não foi satisfatória. O homem de papelão não se sentia confortável no chamado “meio artístico”. 
No caminho de casa, ele não se abala com a chuva. Mesmo ensopado, continua sorrindo. É impecável em sua confiança de papelão.
No trajeto, ignora os apelos para que use uma simples máscara no rosto. A covid, segundo o seu próprio evangelho, é uma invenção da mídia-comunista-globalista-gayzista-candomblé.
No máximo, admite que ela pode ter a força de uma gripezinha. Nada que abale seu histórico – que também é de papelão. 
Em casa, mesa posta, orgulha-se de ver a família totem reunida. Por uma questão de ordem, prefere não chamar os filhos pelo nome, usa apenas números para identificá-los. 
Antes da refeição, puxa uma oração dedicada ao seu deus particular, um deus que cabe direitinho no seu próprio evangelho. Um deus que também é de papelão, que não admite curvas, dobraduras ou furinhos. Um deus implacável com os outros, com os diferentes. Um deus totalitário e infalível.
Com a televisão ligada, o homem de papelão transforma-se no juiz do mundo. Sem reações exasperadas, como é do seu feitio, demonstra seu desprezo por essa gente de carne e osso, por essa gente emocionalmente desequilibrada, por essa gente que grita quando se machuca.
O homem de papelão tem opiniões inabaláveis sobre coisas que desconhece. 
Na cama, com sua mulher de papelão, o sexo é protocolar. Pronto, acabou. Mais de plástico do que de papel (vai entender...). Acho que tem mais pressa do que amor. Se fosse possível espiar pelo buraco da fechadura, não me surpreenderia de encontrar ali mais raiva do que pressa.
Enfim, o homem de papelão dorme. 
E nessa noite, pela primeira vez em muito tempo, ele sonha. O homem de papelão sonha que é um origami. O homem de papelão sonha que está sendo dobrado e transformado. 
Agora, o homem de papelão é um cisne. 
Um lindo cisne de papel. Maleável, curioso, leve e oriental como outros tantos origamis. 
Ele acorda assustado. E jura que nunca ninguém vai saber nada sobre aquilo que acabou de sonhar. Aquela “imaginação”, aquela peça pregada pelo seu subconsciente, não faz parte do seu evangelho.
Então, o homem de papelão vira-se para o lado. Ele precisa dormir mais um pouco. Amanhã tem mais um dia de trabalho. E um outro 0 x 0 para acompanhar. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Pombas - Luis Fernando Verissimo

Num dia do ano 1859, o editor de uma respeitada revista inglesa chamada Quarterly Review recebeu os originais do livro de um certo Charles Darwin, que leu e achou interessante, mas que, na sua opinião, não atrairia muitos leitores. O editor aconselhou Darwin a escrever sobre pombas. O público adorava livros sobre pássaros. E o título do livro de Darwin não ajudava: Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida. Pouco comercial, segundo o editor, que mesmo assim concordou em publicar o livro, com uma tiragem de 1.250 exemplares, vendidos todos num dia só. Desde então e até hoje o livro não parou de vender, e nunca deixou de ser discutido. Nada mal para um autor que, se não tivesse publicado sua teoria sabendo o alvoroço que provocaria, nunca seria mais do que um anônimo naturalista provinciano especializado em minhocas. 

O alvoroço continua. Quase 160 anos depois, muita gente ainda prefere que Darwin tivesse seguido o conselho de escrever sobre pombas. Os índices de leitura de horóscopos atestam o fracasso de Copérnico em convencer a humanidade de que a Terra não é o centro do Universo, como ela ainda pensa. A ciência em geral tem tido um péssimo desempenho na tarefa de vencer a crendice e o obscurantismo, embora a versão “oficial” da História humana desde, pelo menos, o século 18 tenha sido a de conquistas irreversíveis da razão secular, com alguns soluços de irracionalidade.

Darwin também não convenceu muita gente. Numa enquete recente, mais de 70% dos americanos pesquisados responderam que preferem a explicação bíblica da origem da sua espécie à de Darwin. Em vários Estados americanos há leis que obrigam o ensino da versão bíblica juntamente com a da evolução, que deve ser identificada como apenas uma especulação teórica em contraste com a palavra de Deus. A influência do fundamentalismo religioso cresce na política e nos costumes do mundo e, cada vez mais, do Brasil. E ainda por cima, ou por baixo, vem a pandemia mexer com nossos nervos.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...