quinta-feira, 30 de abril de 2020

Geometria - Luis Fernando Verissimo

Por que certas coisas sem importância aderem à nossa memória como craca num casco velho? Uma vez, o Barão de Itararé foi visitar meu pai. Não sei se já se conheciam ou se conheceram-se então. Eu devia ter uns 12 anos, o suficiente para saber quem era o Barão de Itararé e para não querer perder um minuto da conversa. E, no entanto, só o que me lembro daquele dia foi o Barão descrevendo como se abotoava uma camisa:
– Abotoa, espera um pouquinho, abotoa, espera um pouquinho, abotoa, espera um pouquinho...
Eu sei, a lembrança não está à altura do grande humorista, que deve ter dito coisas memoráveis. Mas o que ficou foi isso. Abotoa, espera um pouquinho, abotoa, espera um pouquinho, abotoa, espera um pouquinho. E o pior é que, até hoje, quando fecho uma camisa, repito mentalmente as palavras do Barão.
– Abotoa, espera um pouquinho, abotoa, espera um pouquinho, abotoa...
E aquelas músicas que não nos saem da cabeça? Geralmente são músicas ruins, que você tenta abafar pensando numa música boa. Em vão. A música reincidente volta sempre. Às vezes, você nem sabe que música é. Onde foi que eu ouvi isso, meu Deus? Será que eu mesmo inventei e não consigo parar de me atormentar com ela, numa espécie de suicídio auricular? Sempre imaginei que um sintoma de loucura irreversível é a pessoa não parar de ouvir o Bolero de Ravel na sua cabeça, o tempo inteiro.
Nós não nos conhecemos. Tive uma prova disso quando comecei a estudar num high school americano e me vi em território nunca explorado na minha experiência prévia de estudante brasileiro, principalmente na área da matemática. Dois mais dois também eram quatro nos Estados Unidos, mas fora isso eu estava perdido, incapaz de acompanhar os trabalhos de aula. Tudo agravado pela minha timidez e meu horror congênito a escola, qualquer escola, americana ou brasileira.
Até que um dia... Completei um trabalho de geometria e, ao entregar o trabalho para a professora, notei que era o primeiro a fazer isso e que os outros demonstravam dificuldade em terminar o que eu completara em poucos minutos. A professora elogiou meu trabalho e dali em diante, sempre que precisava de alguém para mostrar no quadro-negro a solução que escapara a todos os outros, chamava: “Mr. Verissimo...”.
O mistério dessa história é que eu não sabia que sabia geometria. Tinha uma vaga lembrança de estudar geometria no Brasil, mas nada que me transformasse, milagrosamente, naquele mestre na matéria. A geometria, em mim, era inata, um dom. Deixei de ser o estrangeiro que não compreendia nada e passei a ser requisitado para dar cola aos colegas. De onde saíra aquela sabedoria, aquela familiaridade com hipotenusas e ângulos? Eu não tinha a menor ideia.
Anticlímax. Depois que deixei o high school, e pelo resto da minha vida, nunca mais precisei usar a geometria.

 01/05/2016

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Tudo, menos uma estrela - Ruy Castro

O velho jazz está sendo ceifado pela Covid-19. Depois do pianista Ellis Marsalis e do guitarrista Bucky Pizzarelli, foi a vez, na semana passada, do saxofonista Lee Konitz, ainda na ativa aos 92 anos. Os jornais deram a sua morte não por ter sido um grande músico, mas por "ter tocado com Miles Davis", nos discos de um revolucionário noneto que, em 1949-50, lançou o cool jazz. Era um estilo com raízes na big band de Claude Thornhill, de onde tinham saído, além de Lee, o sax-barítono Gerry Mulligan e o arranjador Gil Evans, todos no noneto. Mas só Miles levou a fama.

Lee foi dos poucos sax-altos nascidos no bebop que não tentaram copiar Charlie Parker. Suas frases longas e sem vibrato eram a antítese de Parker. E, desde então, sempre esteve na contramão do jazz, gravando discos em que tocava sozinho, ou com um trio sem piano ou com uma orquestra de 90 figuras.

Ele era tudo, menos uma estrela do jazz. Nunca teve agente ou assessor de imprensa e, ao morrer, devia ser o único músico do mundo sem email. O incrível é que, avesso a qualquer carreira comercial, tenha gravado tanto. Levantei sua discografia e, de 1949 a 2018, contei 95 álbuns como líder. Somando-se os de que só participou, são mais setenta.

Quem comprava os seus discos? Em 1996, o saxofonista brasileiro Mauro Senise, tocando em Nova York com o grupo Cama de Gato, deu um pulo à famosa loja de discos Tower, na Broadway. Como ia voltar para o Rio aquela noite e tinha uma baganinha de maconha com que não queria embarcar, Mauro depositou-a no escaninho dos CDs de Lee Konitz, seu ídolo. Em 2003, de novo a trabalho em Nova York, voltou à Tower e, ao folhear os CDs de Konitz, encontrou a baganinha que deixara ali sete anos antes.


Não é que ninguém comprasse os discos de Lee Konitz. Seus fãs é que, muito chiques, deviam achar que o baseado pertencia a alguém e não era para ser levado dali.

O saxofonista Lee Konitz, morto por Covid-19 

domingo, 26 de abril de 2020

Konitz, Marcello e Bach - Luis Fernando Verissimo

Estávamos passando uma temporada em Nova York e recebemos a visita de amigos de Porto Alegre, que chegaram dizendo que queriam fazer um programa bem, mas bem nova-iorquino. Fiz um rápido levantamento mental do nosso orçamento e consultei uma revista da semana atrás de um programa bem, mas bem nova-iorquino para oferecer aos amigos sem nos arruinar. Descobri: Lee Konitz no Village Vanguard. No caminho do bar tentei resumir a carreira e a importância do músico que iríamos ouvir. Seu instrumento era o saxofone alto. Ainda muito jovem, tinha participado da famosa gravação de um noneto liderado pelo Miles Davis, com arranjos, entre outros, do Gil Evans, e lançado com o título Birth of the Cool, pois registrava o nascimento de uma sonoridade nova no jazz, um estilo “cool” em contraste com o calor do bebop, em voga na época. Depois Konitz participaria de outro grupo inovador, formado em torno do pianista Lennie Tristano – talvez o mais longe que o jazz experimental já chegou. O Village Vanguard, um porão apertado em que a circunferência das mesas induz a uma escolha – ou você usa para apoiar um cotovelo ou colocar um copo – estava cheio. Konitz não era exatamente um músico popular, mas tinha seu público e era presença constante nos bares de jazz da cidade, da qual raramente saía. Eu tinha julgado mal nossos visitantes, que insistiram em pagar a conta, maravilhados com o programa bem, mas bem nova-iorquino, que tínhamos lhes proporcionado. Konitz morreu na semana passada, com mais de 90 anos. Não sei que idade tinha quando o ouvimos naquela noite. Olhando a sua figura, ninguém diria que se tratava de um revolucionário.
Adaptação. Declarações desse tipo são temerárias, podem ser contestadas em um minuto e liquidadas em dois, mas eu declaro sem medo: a música mais bonita já feita na Terra é o adágio do concerto para oboé e cordas em ré menor de Alessandro Marcello. Não fui eu que descobri a beleza do adágio, claro, mas durante muito tempo ela foi ignorada e a própria existência do Alessandro, confundido com seu irmão mais conhecido Benedetto Marcello, não era certa. Talvez por Alessandro ter sido filósofo, poeta, fidalgo veneziano e muitas outras coisas antes de ser compositor. E, para complicar ainda mais, ter composto algumas das sua obras usando um pseudônimo, Eterio Stinfalico. Hoje o concerto para oboé faz parte do repertório de muitas orquestras e o adágio brilha. E se ainda for preciso reforçar meu voto, convoco do passado o testemunho de ninguém menos que Johann Sebastian Bach, autor de uma adaptação para cravo do adágio que ele também amava. Bach fazia arranjos de obras de outros compositores, principalmente dos italianos, e o concerto para oboé do Alessandro devia fazer parte de algum lote de partituras, nada indicando que Bach, de tanto admirá-lo, resolvera ficar com o adágio como se fosse dele. Se bem que – fofoca – numa das poucas cópias publicadas do concerto a única assinatura que aparece é “JSB”. 

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Uma fábula de nosso tempo - Ignácio de Loyola Brandão

Quando criança, havia um tipo detestável no meu bairro. Carmelo. Sujeito desagradável, prepotente. Como era forte, as pessoas o evitavam, mas ele se metia em tudo e chefiava um bando, ajudado por seus primos Energúmeno, Carlota e Fifuca. Carmelo era maldoso, andava com o nariz escorrendo e, quando você estava na sorveteria, ele, de propósito, chegava e tossia ou espirrava em cima do seu sorvete. Bagunceiro, rebelde, tinha sido expulso de todas as escolas e se vangloriava. Onde Carmelo estava, ali estavam seus primos, conhecidos como turminha do ódio. Muitas vezes, os quatro agarravam um moleque franzino, levavam para um terreno baldio e passavam horas a machucá-lo com tabefes e socos. Ou pegando galhos de roseira cheios de espinhos e laceravam a pele do infeliz. Quem orientava as maldades era um garoto de nome estranho, Lustro (ele odiava quando diziam Lustre), que vivia a maltratar os outros. Adiantava reclamar? 
O pior do Carmelo é que tudo que ele afirmava hoje, negava amanhã. Se dissesse besteira de manhã, negava à tarde. Dizia e desdizia. Logo, teve um apelido que permaneceu por largo tempo: “Carmelo obra para trás”. A palavra não era exatamente obrar, vocês devem conhecer a verdadeira. É que gente educada não usava o sinônimo vulgar de evacuar. Defecar também era feio. Diziam obrar, para não ofender. Obrar, ato que todos praticam por necessidade fisiológica, era um eufemismo, aprendemos com o Jurandir, professor de português. 
O outro termo que começava com C não era suave nem poético nem elegante. Na vida, devíamos usar palavras amenas para definir pessoas, mesmo que elas fossem péssimas, maus-caracteres, mal-educadas, grosseiras. Assim, quando o Carmelo afirmava e não confirmava, ele estava obrando para trás. Obrava para trás o tempo inteiro e ria disso. Evacuando para trás. Ou seja, não se podia confiar nele. Traduzia-se: fala e não sustenta, portanto a palavra dele equivalia a matéria fecal. 
Havia outra definição para gente como Carmelo. Quem dizia e não sustentava, também era conhecido como frouxo, fresco, maricas, fronha ou fruta. Ou molenga, sujeito sem-palavra. Minha mãe, mulher piedosa e boa, tinha uma frase que ainda costumo usar para definir certas pessoas. “O Carmelo falar e um burro obrar, para mim é igual.” Os antigos sabiam das coisas. Havia educação e bons modos.
Como era forte, Carmelo não era desafiado para nada. Ninguém dizia essas coisas na frente dele. Era violento. Quando alguém comentava: mas ontem você disse outra coisa, ele reagia, brutal: “Acha que sou cara de pedir penico? Digo e desdigo o que eu quiser. Quem é o mais forte aqui, pô? Eu que mando, pô! Se duvidar, tiro você do bando, expulso, você não vai mais poder andar pela rua, comunistinha de merda, pô! Isso, posso te demitir”. A gente era pequeno, não tinha ideia do que significava demitir, mas devia ser coisa ruim, dita pelo Carmelo.
Comunistinha? Naqueles anos 40, nunca tínhamos ouvido aquela palavra. Quem sabia? Perguntamos ao Zé da Pinga, que ficava sentado na soleira do bar do Tito Tobias, e ele, amicíssimo do Carmelo, respondia com palavrões e mandava a gente perguntar para as éguas lazarentas que eram nossas mães. Aliás, a turminha do Carmelo gostava de xingar as mães da gente e tínhamos de ficar quietos. Somente décadas mais tarde soube o que era comunista. Parece que eram antropófagos, que comiam criancinhas, que horror.
Cresci, mudei de bairro, esqueci Carmelo, vim para São Paulo, fiz minha vida, família, o normal. Dia desses, ao voltar à minha cidadezinha, passei por um boteco malacafento e achei que conhecia o velho, de bermudão, sandálias semiapodrecidas e camiseta furada de um time da 20.ª Divisão do Brasileirão, que tomava rabo de galo. É o Carmelo, revelou o dono do bar. Lembra-se? O que evacua para trás? Continua igual, foi expulso do Tiro de Guerra, nunca deu certo na vida. Passa o dia sentado a esbravejar. Ninguém mais ouve nem fica perto. Morador de rua, não toma banho, cheira mal, garante que vai ser prefeito. Ao ouvir isso, Carmelo gritou lá de sua mesa, tossindo muito e, coisa nojenta, escarrando no chão: “Claro que vou, pô! Essa política velha é do satanás, disse meu pastor, vou mudar tudo na cidade, pô!”. 

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Em favor de Pérez Galdós - Mario Vargas Llosa

Considero Javier Cercas um dos melhores escritores da nossa língua e creio que, quando o esquecimento tiver enterrado seus contemporâneos, pelo menos três das suas obras-primas, Soldados de SalaminaAnatomia de um Instante e O Impostor, ainda terão leitores que voltarão a ler essas obras para saber como era nosso presente, tão confuso. Ele é também uma pessoa audaz. Ama sua terra catalã, vive nela e quando escreve artigos políticos, criticando a demagogia independentista, é convincente e inconteste.
Na civilizada polêmica que manteve há algum tempo com Antonio Muñoz Molina sobre Benito Pérez Galdós, Cercas disse que não gostava da prosa do autor de Fortunata e Jacinta. “Entre gostos e cores não escreveram os autores”, dizia meu avô Pedro. Todo mundo tem direito às suas opiniões e também os escritores; e o fato de dizer aquilo no centenário da morte de Pérez Galdós, quando ele é lembrado e comemorado em toda a Espanha, tinha algo de provocação. Eu, por exemplo, não gosto de Marcel Proust e por muitos anos ocultei isso. Agora não. Confesso que o li descuidadamente; deu-me trabalho terminar a leitura do seu livro Em busca do Tempo Perdido, obra interminável, e consegui a duras penas, entediado com suas longuíssimas frases, a frivolidade do autor, seu mundo pequenino e egoísta e, principalmente, suas paredes revestidas de cortiça para ele não se distrair ouvindo os ruídos do mundo (que eu gosto tanto). 
Temo que, se tivesse sido leitor de livros da Gallimard quando Proust apresentou seu manuscrito, talvez tivesse desaconselhado sua publicação, como fez André Gide (e se arrependeu o resto da vida por esse erro). Tudo isso para dizer que, naquela polêmica, estive ao lado de Muñoz Molina e em oposição ao meu amigo Javier Cercas.
Acho injusto dizer que Benito Pérez Galdós foi um mau escritor. Não era um gênio – existem muito poucos – mas foi o melhor escritor espanhol do século 19 e, provavelmente, o primeiro escritor profissional da nossa língua. Naqueles tempos, na Espanha ou América Latina, era impossível para um escritor viver dos seus direitos de autor, mas Pérez Galdós teve a sorte de pertencer a uma família próspera que o admirava e que o sustentou, garantindo a ele o exercício da sua vocação e, sobretudo, a independência que lhe permitiu escrever com liberdade.
Ele nasceu em Las Palmas de Gran Canaria, em 10 de maio de 1843, filho do tenente-coronel Sebastián Pérez, chefe militar da ilha e, além disso, possuía terras e várias empresas às quais dedicava boa parte do seu tempo. Ele teve dez irmãos e sua mãe, dona María de los Dolores de Galdós, estava no comando da casa. Ela decidiu que Benito, que ao que parece se apaixonara por uma prima que ela não gostava, devia partir para Madri, quando estava com 19 anos de idade, para estudar Direito. Benito obedeceu, foi para Madri, matriculou-se na Computense, mas se desencantou muito rápido com as leis. Sentiu-se mais atraído pelo jornalismo e pela boemia madrilenha – a vida dos cafés onde se reuniam pintores, escritores, jornalistas e políticos, e se direcionou para a literatura. E o fez com um amor a Madri como nenhum outro escritor, nem antes, nem depois dele. Foi o mais fiel e o maior conhecedor de suas ruas, comércios e pensões, seus tipos humanos, costumes e ofícios, e, claro, a sua história.
Há fotos que mostram a grande concentração de madrilenhos no dia do seu enterro, em 5 de janeiro de 1920, acompanhando seu féretro até o cemitério de Almudena; pelo menos 30 mil pessoas participaram dessa homenagem póstuma. Embora todos aqueles que acompanharam o carro funerário não o tivessem lido, ele desfrutava de uma enorme popularidade. A que se devia isso? Aos Episódios Nacionais. Ele fez o que Balzac, Zola e Dickens, que admirava muito, fizeram em suas respectivas nações: contar em romances a história e a realidade social do seu país, e, embora não tenha superado nem o francês nem o inglês (mas Émile Zola sim) com seus Episódios, esteve na linha de frente deles, convertendo em matéria literária o passado vivido, colocando ao alcance do grande público uma versão amena, animada, bem escrita, com personagens vivos e documentação séria de um século decisivo da história espanhola: a invasão francesa, as lutas de independência contra os exércitos de Napoleão, a reação absolutista de Fernando VII, as guerras carlistas. 
Seu mérito não é tê-lo feito, mas como o fez: com objetividade e um espírito compreensivo e generoso, sem partidarismos ideológicos, procurando distinguir o tolerável e o intolerável, o fanatismo e o idealismo, a generosidade e a mesquinhez, no mesmo sentido dos adversários. Isto é o que mais chama a atenção quando lemos os Episódios: um escritor que se esforça para ser imparcial.
Ele era um homem civil e liberal que, além disso, em certas épocas se sentiu republicano, mas, antes de ser político, foi uma pessoa decente e serena; ao narrar um período nevrálgico da história da Espanha, esforçou-se para fazê-lo com imparcialidade, diferenciando o bem do mal e procurando estabelecer que existiam manifestações dos dois em ambos os adversários. Essa limpeza moral dá aos Episódios Nacionais seu ar justiceiro e por isso seus leitores, desde Trafalgar até Cánovas, têm uma forte aproximação com seu autor.
Ele escrevia assim porque era um homem de bom caráter, ou, como dizemos no Peru, gente muito boa. O que não é sempre o caso dos escritores; alguns pecam ao contrário, sem deixar de ser magníficos. O talento de Pérez Galdós era enriquecido por um espírito de equidade que o tornava irremediavelmente amável e digno de confiança.
Permaneceu solteiro e seus biógrafos descobriram que ele teve três amantes duradouras e, ao que parece, muitas outras transitórias. À primeira, Lorenza Cobián González, uma nativa das Astúrias humilde, mãe de sua filha María (que ele reconheceu e deixou como herdeira), que era analfabeta e ele ensinou a ler e escrever. Seu caso com dona Emilia Pardo Bazán, mulher ardente, salvo quando escrevia romances, foi bastante inflamado. “Eu te esmagarei”, disse ela em uma das cartas para o escritor. E não se trata de uma licença poética. Dona Emília, escritora pudica, pelo visto era um pequeno demônio de luxúria. A terceira foi uma aprendiz de atriz, muito mais jovem do que ele: Concepción Morell Nicolau. Pérez Galdós apoiou sua carreira teatral e a ruptura, na qual muitos amigos intervieram, foi discreta. 
Seu grande defeito como escritor foi não ter entendido que o primeiro personagem a ser inventado por um romancista é o narrador das suas histórias, que este, seja personagem ou narrador onisciente – é sempre uma invenção. Por isso seus narradores costumam ser personagens onipresentes que, como Gabriel Araceli e Salvador Monsalud, têm um conhecimento impossível dos pensamentos e sentimentos dos outros personagens, algo que conspira contra o “realismo” da história. Pérez Galdós dissimulava isso atribuindo aquele conhecimento aos “historiadores” e testemunhas, algo que introduziu uma sombra de irrealidade em suas histórias; passavam despercebidos, mas seus leitores mais experimentados tinham de adaptar sua consciência àqueles deslizes, depois que Flaubert, nas cartas que escreveu a Louise Colet enquanto fazia e refazia Madame Bovary, deixou clara essa concepção revolucionária do narrador como personagem central, embora com frequência invisível em toda a narrativa. 

Tradução de Terezinha Martino

Melhores Momentos - Luis Fernando Verissimo

A ideia era cada um descrever o seu melhor momento. O ponto mais alto de sua vida, diferente de tudo que viera antes e de tudo que viria depois. Sua apoteose pessoal.
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Um contou que seu melhor momento fora terminar um elefante de argila numa aula de Trabalhos Manuais. Lembra Trabalhos Manuais? Tinha 7 ou 8 anos. O elefante de argila ficara bom. Feito de memória, até que ficara muito bom. Nada na vida o deixara tão contente como aquele elefante de argila.
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A Bela contou: “Foi a primeira vez que acertei um pudim. Minha mãe vivia dizendo que eu não acertava o pudim porque era muito nervosa. Fazia tudo certo, não errava nos ingredientes, não errava na mistura, mas, de alguma maneira, meu nervosismo se transmitia ao pudim e o pudim desandava. O pudim também ficava nervoso. No dia em que acertei o pudim, tive uma crise de choro. Saí da cozinha para não influenciar o pudim, que poderia ter uma recaída. Mas, na mesa, quando minha mãe disse ‘O pudim é da Bela’ e todo o mundo aplaudiu, meu Deus do céu. Nunca mais senti a mesma coisa. Nem quando nasceram os gêmeos. Nunca mais”.
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Já outra disse que nada se igualara a ter o primeiro filho. “Olha aí, até hoje não posso contar que me emociono. E o engraçado é que foi um sentimento extremamente egoísta. Me enterneci por mim mesma. Eu olhava aquela coisinha, tão bem feitinha, e me achava formidável, até ficava com ciúmes quando só elogiavam o bebê. Eu é que queria festa. Queria dizer ‘fui eu, fui eu, ele é apenas o produto da minha genialidade’. No meu marido, coitado, eu nem pensava. Ele não tinha nada a ver com aquilo. E eu não deixei ele acompanhar o parto. Sempre considerei pai acompanhando parto uma espécie de penetra. Alguém querendo participar de uma glória que não merece, como prefeito inaugurando obra da administração anterior. A glória era só minha. Aliás, em todo o processo de procriação, parto, essas coisas, o homem é um penetra. Sem duplo sentido, claro. O primeiro filho. Sem dúvida nenhuma, o primeiro filho... Depois, o desgraçado cresceu e foi aquilo que todo o mundo sabe.”
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Para outro, foi a formatura o maior momento. Outro, o primeiro caso. Não, não o primeiro caso, assim, caso. O primeiro caso como advogado! Outro contou que seu maior momento fora a vez em que acertara uma bicicleta no futebol. “Nunca tinha tentado uma bicicleta antes, mas do jeito que a bola veio não havia alternativa. Fechei os olhos e fiz o que tinha visto outros fazerem. Atirei-me para trás, pedalei no ar e senti o segundo pé acertar a bola. Quando me levantei do chão vi que a bola tinha entrado no ângulo, bem no ângulo da goleira. Não havia plateia para aplaudir, era um jogo de praia. O goleiro adversário, ressentido, só disse ‘Sorte’.
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Em seguida, foi a vez da Thaís, e a Thaís arrasou. Contou como foi sua apoteose. A justificativa da sua existência, o prêmio final por todo o seu empenho em viver com bom gosto e gastar o dinheiro do Gegê com inteligência. Foi a vez em que entrou no café do Hotel Carlyle, de Nova York, no meio do show do Bobby Short, acompanhada por uns brasileiros que nunca tinham conseguido entrar no lugar, e quando a viu o Bobby exclamou “Thaís”!
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Para completar a humilhação, Thaís contou que Bobby Short pronunciou o “agá” do seu nome.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

A Nova Regra - Marcelo Rubens Paiva

Muitos concordam que o fim da pandemia trará mudanças comportamentais profundas. Uma delas será o jeito de se torcer num estádio de futebol, já que vão ser repensados os eventos com aglomerações. O número de cadeiras num estádio será reduzido. Cada torcedor ficará a uma distância segura de dois metros do próximo. 
Como todos estarão de máscara, “Timão, ê-ô!” será um uníssono “Hmmm, em-hum!”. “Pooor-cooo...” será “Hooom-hoom...”. “É tri-co-lor!”, “Hu, hum-huu-huum!”. No gol, os torcedores se olharão e, sem se encostar, piscarão uns para os outros. Os das torcidas organizadas terão a audácia de encostar os cotovelos. 
Dizem os empreendedores que, em momentos de crise, pode-se fazer fortuna. Claro que eis uma chance de faturar: as máscaras virão com o escudo do time e o patrocinador do momento, e serão feitas pelo fornecedor do material esportivo do mesmo, com o logo no canto.

Através de um aplicativo, o torcedor poderá expor sua opinião a respeito do juiz, da sua mãe, ou do técnico, da sua mãe, que será transmitida via alto-falantes. Os cantos das torcidas também podem ser transmitidos em conjunto. Enquanto o torcedor estiver sentado, escolhe com o smartphone na mão a opção, e pelos alto-falantes sua voz se juntará a milhares de outras, num coro bem mixado que ecoa: “Aqui tem um bando de loucos...”.
Em alguns esportes, nada mudará. No tênis, por exemplo, em que a torcida é seleta, educada, bem-vestida, rica e pouco exaltada, os fãs ficarão numa distância apropriada, mas poderão continuar os “óoooo” e as palmas. Assim como os jogadores, que já ficam bem distantes uns do outros, deverão então se cumprimentar com a ponta da raquete. O juiz continua no alto, no seu saber.
No vôlei, o mesmo. Cumprimentarão com pés se encostando por baixo da rede. A bola que deverá sofrer higienização antes de cada saque. Tênis de mesa, sinuca, esqui na neve, atletismo, hipismo, nada será alterado. A não ser o bastão, no revezamento 4 x 100 metros, ou 4 x 400, que deverá ser higienizado antes da troca pelo próprio corredor e enquanto corre.
Esportes de contato sofrerão alterações. Judô será abolido de competições. Entra a capoeira: muito gingado, pontapé, rasteira. Esgrima não mudará nada, por motivos óbvios: a proteção é absoluta. Os esportes na piscina, ou de bicicleta, também. No basquete, só será permitida a marcação por zona, a dois metros de distância. Os jogadores estarão de luvas. Que serão trocadas em cada tempo técnico. Apenas um jogador poderá entrar no garrafão.
Paradoxalmente, o esporte de maior contato físico, feito para o agarra-agarra e trombadas, o futebol americano, não precisará mudar as regras. Os jogadores já estão de capacetes, máscaras e luvas, pois normalmente ele é praticado no outono e inverno, comemoram o touchdown com dancinhas individuais, no máximo uma peitada. Porém, os estádios sempre lotados da NFL terão que reduzir o público. 
O rúgbi será extinto. O beisebol também pouco será alterado. Quase não há contato físico. Quem pega a bola já está de luvas. O bastão é pessoal. E a partir de então, poderá ser utilizado caso alguém fure o distanciamento de dois metros: vira também uma arma de proteção individual.
Automobilismo também pouco sofrerá. Todos usam capacetes, máscaras, luvas, e ninguém chega perto. E como todos os pilotos no fundo se odeiam, será a chance de abolir o cumprimento protocolar no pódio.
Videogame, truco, pôquer, xadrez, Detetive, Imagem & Ação, palavras cruzadas se tornarão esportes olímpicos, dada a distância entre jogadores. Nosso futebol que sofrerá alterações nas regras. Como no basquete, permitida apenas a marcação por zona. A homem-a-homem e mulher-a-mulher, proibidas. 
Quem cuspir no gramado, vermelho. Falta, vermelho. Quem se aproximar do juiz ou bandeirinha, vermelho. Quem comemorar o gol abraçando o companheiro, enquanto a torcida exclama “Hoooooooooommm!”, vermelho. Quem cumprimentar o companheiro na substituição, vermelho, pros dois. 
O agarra-agarra na área, vermelho para o atacante e o defensor. Contraditoriamente, a falta que atualmente dá em expulsão imediata, o carrinho por trás, voltará a ser permitida, exaltada, afinal, ficarão expostos a fraturas, que encerram a carreira de um atleta, mas não ao temido vírus.


Dum

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...