terça-feira, 7 de janeiro de 2020

2020 - Luis Fernando Verissimo

E vamos nós para o ano vinte-vinte, na esperança de que a repetição dos números signifique alguma coisa. Vivemos sempre com a expectativa que uma anomalia, qualquer anomalia, qualquer ruptura com o normal – como um ano com números reincidentes – seja um sinal. Estão querendo nos dizer alguma coisa. Quem, e o quê? Os avisos chegam de todos os lados, caberia a nós entendê-los. A Terra fala conosco por meio dos seus desastres naturais: terremotos e vulcões seriam recados a serem decifrados. A História fala conosco por meio dos seus intérpretes. E o Universo se dirige a nós pelos astros.
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As pessoas procuram nos astros a evidência de que não estão sozinhas, que algo guia seu passos e orienta sua vida – de longe, bem longe. A persistente crença em astrologia, apesar da dificuldade em conciliar seus princípios e sua linguagem com o bom senso, não tem explicação – ou só se explica pela renuncia à racionalidade que também é uma forma de buscar uma direção na vida, venha ela de onde vier, das religiões ou de Júpiter. 
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História pessoal, que já contei mais de uma vez: quando comecei a trabalhar na imprensa, há 200 anos, fazia de tudo na redação, depois de passar o dia no meu outro emprego de redator de publicidade. Um dia me pediram para fazer o horóscopo, já que o astrólogo profissional insistia em ganhar um aumento, uma reivindicação irrealista, dadas as condições do jornal. Como eu já fazia de tudo na redação, comecei a fazer o horóscopo também. Todos os dias inventava o destino das pessoas e distribuía as previsões e os conselhos pelos 12 signos do zodíaco.
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O horóscopo era a última coisa que eu fazia no jornal antes de ir me encontrar com a Lucia e, se tivéssemos sorte, ir a um cinema, de modo que meu horóscopo era sempre feito às pressas, e com a escassa energia que sobrava depois de um dia fazendo de tudo, na agência de publicidade e na redação. E então bolei uma solução genial para liquidar o horóscopo em pouco tempo e ir embora. Como era óbvio que as pessoas só querem saber o texto do seu próprio signo e não o dos outros, comecei a fazer um rodízio: mudava os textos de signo e de lugar. O que um dia era o texto para libra no dia seguinte era para sagitário, etc. Ninguém iria notar a trapaça sideral, os deuses me perdoariam.
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Não demorou para que o editor do jornal me chamasse. Tinha muita gente reclamando do horóscopo. O que eu pensava que era óbvio não era. Minha pseudoesperteza tinha sido descoberta, aparentemente todo o mundo lê todo o horóscopo todos os dias. Minha breve carreira de astrólogo terminou ali. Mas eu só queria dizer que, mesmo quando era eu que escrevia os textos, nunca deixava de olhar para ver o que libra reservava para meu futuro. Fazer o quê? Precisamos de uma direção na vida, venha ela de onde vier. 

sábado, 4 de janeiro de 2020

Formiguinhas - Fábio Porchat



Aí você acorda às 3 da manhã morrendo de sede e com a boca seca, percebe que não deixou na mesinha de cabeceira aquele copo de água salvador da madrugada e tem que se levantar como um zumbi e ir até a cozinha torcendo para isso não tirar seu sono em definitivo. E, de repente, você está lá, tomando a água mais gostosa do mundo quando repara, iluminada pela luz da geladeira, que na parede há uma filinha de formigas vindas não se sabe de onde e tomando não se sabe qual rumo. São microformiguinhas, inofensivas, mas que fizeram da sua casa uma rota alternativa. Você procura entender para onde vão e vai seguindo com o olhar aquela trilha. Depois volta para saber de que pequeno buraco veem esse (qual o coletivo de formigas?) mundo de insetinhos. Não há o que fazer. Você volta a dormir.
Nos dias que se seguem, você tenta de tudo: coloca cravo da índia nos cantos da cozinha porque sua vó lhe disse que era bom. Pó de café. Passa álcool nas paredes. Joga inseticida no começo e no fim. Tapa o buraco com Durepoxi. Só falta atear fogo na casa. E o que acontece no dia seguinte? Elas voltam. Elas dão um jeito, fazem um malabarismo qualquer e continuam usando sua cozinha de passagem. E elas são infinitas.
Nem adianta perder o seu dia esmagando uma a uma com seu maldoso dedão, porque elas não acabam. E depois de tentar de tudo, inclusive de tentar conviver com elas pacificamente, você resolve tomar uma atitude. Aquela atitude que você deveria ter tomado desde aquela primeira noite. Se mudar de casa? Não. Chamar um dedetizador. Ele vem, você paga um X que você não queria pagar desde o início, porque achou que resolveria do seu jeito, ele dá o "jeito" dele e no dia seguinte o que acontece? As formiguinhas não estão mais lá. Simples assim.
No Brasil, todos nós sabemos de onde vêm as formiguinhas e para onde vão. É conhecido por qualquer brasileiro de onde entra a droga no País e qual o seu destino final. Sabemos quem são os políticos corruptos e como eles fazem para roubar. Sabemos quem são as autoridades sempre subornadas, como são subornadas, qual o esquema delas e como funciona seu mecanismo. Sabemos quem são as torcidas organizadas, quem são os assassinos que vão aos estádios para arranjar briga, inclusive sabemos a data, hora e o local das confusões. Sabemos que a educação vai mal. Sabemos que os hospitais não têm infraestrutura. Sabemos que a polícia é mal paga. Sabemos em que ruas ficam as cracolândias. Sabemos quais são os lugares perigosos da cidade. Sabemos onde moram os bandidos. Sabemos que a tributação no País é a maior do mundo. Sabemos que o dinheiro pago com os impostos é muito e, misteriosamente, não dá conta de resolver nenhum problema.
Sabemos que cartórios são inúteis e verdadeiros cartéis. Sabemos que tudo é superfaturado e sabemos o porquê. Aqui, o governo acompanha as formiguinhas com olhares muito atentos, mas ninguém se dá ao trabalho de levantar a bunda do sofá, pegar o telefone e ligar pra uma dedetizadora.


O Estado de S.Paulo - 05/01/2014

Ornitologia - Luis Fernando Verissimo



O escritor americano nascido no Canadá Saul Bellow disse certa vez que era um pássaro, não um ornitólogo. Querendo dizer que fazia seus romances, mas pouco entendia da teoria do romance. Era um ficcionista, não um ensaísta, e não esperassem outra coisa dele.
Bellow estava sendo falsamente modesto ou exageradamente autocrítico, pois pertencia a um seleto grupo de escritores – John Updike, Italo Calvino e Vladimir Nabokov são outros exemplos – tão bons críticos quanto romancistas, uma estranha estirpe de pássaros ornitológicos. Híbridos como eles são raros, em qualquer profissão. Poucos jogadores de futebol conseguiriam descrever, em termos de física aplicada, o que fazem com uma bola. Imagine o Garrincha num quadro-negro, explicando, com gráficos, uma jogada sua. Ninguém era mais pássaro do que Garrincha.
Bellow, Updike, Calvino, Nabokov e poucos outros fizeram sua literatura e escreveram sobre a literatura dos outros com a mesma maestria. Talvez sua experiência como pássaros informasse suas incursões pela teoria. Alguém já disse que crítico é aquele cara que fica assistindo à batalha de uma colina e, quando a batalha acaba, desce ao vale e atira nos sobreviventes. Um escritor seria mais benevolente com o trabalho de um colega.
Sobre a diferença entre a prática e a teoria, me lembrei da história da faxineira do labirinto. Todos os dias, a faxineira entrava no labirinto, varria seus corredores, limpava o que havia para limpar, lustrava o que havia para lustrar e, terminado o seu serviço, ia para casa. Um dia, a faxineira encontrou um grupo de turistas aflitos dentro do labirinto. O grupo estava havia horas procurando a saída, em vão. Corredores davam para corredores que davam para corredores que terminavam em paredes sem saída. A faxineira poderia ajudá-los a encontrar a saída? Claro, disse a faxineira. E começou a dar direções.
– Vocês peguem a direita aqui, depois a esquerda, depois a... Não. Peguem a esquerda aqui, depois a direita, depois outra vez a direita... Ou será a esquerda? Meu Deus, eu não sei como sair do labirinto!
A faxineira nunca tinha se dado conta porque não precisava.

05/01/2016

A vendedora de jornais - Nílson Souza

Sua estratégia de vendas é um sonoro “Bom dia!”. Ela caminha na calçada, ao lado dos carros que esperam o sinal verde e, como se estivesse desfilando numa passarela, presenteia cada motorista com um sorriso desfalcado, mas autêntico:
– Bom dia! – canta com igual alegria, para condutores sonolentos e vidros fechados.
Nem oferece o produto que carrega nas mãos e na bolsa a tiracolo. Economia de palavras e de gestos que me faz lembrar uma célebre e sábia lição de síntese. Aquela do feirante que colocou um cartaz na frente de sua banca: “Vende-se peixe fresco aqui”. Passou um especialista e criticou o excesso de obviedades. Se o feirante estava vendendo peixe, só podia ser naquele lugar. Lime-se o “aqui”.
Como não podia vender peixe estragado, só podia ser fresco. Na feira, ninguém doa mercadorias: fora com o “vende-se”. Em alguns desfechos, sobra o “peixe”. Em outros, nem o substantivo fica, pois a única mercadoria exposta era visível demais para que precisasse ser denominada. Todos que contam e recontam essa história dizem que, sem o cartaz, o feirante vendeu tudo.
Mas a jornaleira que amanhece numa das esquinas mais movimentadas da minha cidade não parece ter a mesma sorte. A maioria sequer se digna a olhá-la, poucos retribuem o afável cumprimento, e raríssimos estendem a mão com cédulas ou moedas em troca da sua oferta diária. É o que percebo no breve instante em que a observo, pois, quando o sinal abre, também sigo adiante, cheio de dúvidas: Será que ela vende todos os jornais? Será que sabe que sua atividade está ameaçada de extinção? Será que está mesmo?
Recolhi outro dia de um assinante de ZH um interessante raciocínio sobre essa questão. Ele está muito mais convicto do que os próprios jornalistas a respeito da sobrevivência dos jornais de papel. Seu argumento: os portais de internet vivem de cliques, por isso colocam em destaque celebridades, catástrofes e bizarrices, na compreensível tentativa de atrair a atenção dos internautas. Muitas notícias relevantes ficam escondidas.
Como o leitor de internet não tem o hábito de sair procurando, acaba deixando de ler coisas importantes. Já o jornal de papel inclui tudo no mesmo pacote, as chamadas de capa (que também buscam atrair a atenção dos leitores) e as demais nas páginas internas. Então, o leitor que compra a capa também recebe um complemento de boa qualidade. Até para não desperdiçar o que comprou, acaba dando uma volta pela edição e, quase sempre, sai lucrando em informação.
Gostei da argumentação.
Bem que a vendedora de jornais podia acrescentar uma frase ao seu “bom dia”.
– Aqui tem o que você não encontra na internet...
Pensando bem, é melhor seguir a lição do homem dos peixes. E confiar na inteligência dos leitores.


04 de janeiro de 2014

A literatura dos filhos - Sérgio Augusto


A gente lê de uma sentada o romance Formas de Voltar Para Casa, do chileno Alejandro Zambra. Primeiro, porque é curto: 151 páginas. Segundo, por ser um belo romance, que, embora escrito e publicado oito anos atrás, continua em perfeita sintonia com o que os chilenos estão vivendo e combatendo nas ruas de Santiago e outras cidades desde outubro. 
Terceiro ou quarto livro de Zambra traduzido no Brasil pela Tusquets e quase certamente o melhor, os tumultos que lhe servem de pano de fundo são as manifestações estudantis de 2011, quando o Chile já sofria as consequências da perebice neoliberal de Sebastián Piñera, sem ainda ter-se livrado do fantasma do sanguinário general Augusto Pinochet. 
Também corrupto do quepe ao coturno, Pinochet, ídolo confesso de Bolsonaro, tornou-se, com todos os deméritos, o símbolo máximo do neofascismo continental. Ao longo dos 16 anos que durou sua ditadura, mais de 30.000 pessoas foram mortas e 200.000 buscaram o exílio. 
Zambra não desce a tais detalhes. Interessam-lhe mais ou apenas os efeitos danosos do autoritarismo sobre a sociedade e as relações familiares, o silêncio espontâneo ou imposto aos chilenos, a indulgência covarde e cúmplice da alta e pequena burguesia diante da repressão e da tortura. E também os medos e traumas de alguns de seus sobreviventes, como um professor que aparece no segundo capítulo. Preso e torturado durante a ditadura, ele quase enfarta ao ouvir os estampidos de um banal tiroteio entre policiais e assaltantes, no estacionamento da escola. 
“Vivemos um momento em que não é bom falar sobre essas coisas”, diz outro professor, referindo-se, obviamente, aos abusos do período pinochetista, que o pai do narrador justifica: “Ao menos naquele tempo havia ordem”. O que leva o filho a se perguntar em que momento o pai se tornara um reaça – se é que não fora sempre daquele jeito. 
Qualquer semelhança com brasileiros saudosistas da ditadura militar de 64 e inocentes úteis do bolsonarismo não é mera coincidência. A rigor, os sismos são a única coisa que abala a simetria entre o Chile e o Brasil dos últimos 46 anos. 
O narrador do romance nasceu, como Zambra, em 1975, dois anos depois do golpe que derrubou Allende, numa família “sem mortos e sem livros”. Ou seja, sem incentivo familiar à leitura nem vítimas fatais da ditadura, de que ele só guardou lembranças difusas e a certeza de ter sido uma época em que “a gente boa às vezes era perseguida por pensar diferente”.
Nas eleições de 2010, os pais votam, coerentemente, em Piñera. Desalentado, o filho/narrador prevê a vitória do candidato de centro-direita nos dois turnos, o que de fato ocorre, e uma cândida e plácida entrega do país aos agentes do grande capital, ao Opus Dei e aos legionários de Cristo. Seu desabafo (“Chile é um país de merda que será governado por um ricaço branco que vai fazer discursos e mais discursos celebrando o bicentenário”) também se confirmaria, antes e durante as celebrações do bicentenário da independência do Chile, em 2018. Em novembro, apenas 13% do eleitorado apoiavam o presidente.
Apesar de criado sem livros em casa, o protagonista de Formas de Voltar Para Casa virou um escritor, passível de ser confundido com o próprio autor, como o Julian de A Vida Privada das Árvores, outro hábil criador de matrioscas narrativas da têmpera de Roberto Bolaño e Paul Auster. 
“Mesmo que queiramos contar histórias alheias, terminamos sempre contando nossa própria história.” Com essa observação, Zambra praticamente nos liberou para acreditar no caráter autobiográfico de suas obras ficcionais. Para disfarçar um pouco as semelhanças entre ele e o narrador de Formas de Voltar Para Casa, Zambra desistiu de também fazê-lo sofrer de crônicas enxaquecas, como planejado na primeira versão do romance. 
Os pais de Zambra não o adormeciam com a leitura de ficções de qualquer gênero, e sua avó só lhe contava histórias das vítimas fatais de um terremoto ocorrido em 1939, que também matou os bisavós e um tio do escritor. Terremotos sempre foram os pinochets da natureza no Chile. Natural, portanto, que Formas de Voltar Para Casa comece e termine com um abalo sísmico.
A intenção inicial de Zambra era escrever algo indefinido sobre Las Terrazas, a vila da comunidade de Maipu, na zona urbana de Santiago, onde ele cresceu. Queria deixar as ideias correrem soltas, sem planificação, embora atentas ao desejo de retratar e refletir sobre o sentido de comunidade, a solidariedade entre as pessoas e a nossa necessidade de pertencer a algum lugar. 
O cruzamento com a ditadura era inevitável. “É quase impossível para mim separar a ditadura da minha infância e a democracia da minha adolescência”, disse numa entrevista. “Minha geração viveu a democracia e a adolescência ao mesmo tempo, e nos demos conta de que só a segunda era totalmente segura.”
Foi Zambra quem criou a expressão “literatura dos filhos” (título do terceiro capítulo do romance), depois utilizada para rotular as narrativas carregadas de culpa, cobranças e perplexidade da nova geração de escritores chilenos, como Lina Meruane, Alia Trabucco, Nora Fernández etc, todos herdeiros desse jovem senhor de 44 anos, que, na minha modestíssima opinião, é o mais cativante ficcionista latino-americano vivo. 

Formas de voltar para casa - Alejandro Zambra


Martha Rocha - Luis Fernando Verissimo


O Brasil avança para trás. Tem saudade de si mesmo. O que explica o ressurgimento no noticiário nacional do movimento integralista senão uma auto-nostalgia? Uma organização que se denomina integralista anunciou não ter nada a ver com os coquetéis Molotov atirados contra o prédio da produtora do Porta dos Fundos, programa humorístico da TV. O que espantou muita gente: por saber que o integralismo não apenas ainda existe como tem uma organização, e não só tem uma organização como uma dissidência que atira bombas.
O movimento integralista que deixou saudade foi a mais atuante dos movimentos filofascistas que cresceram nos anos 1930, no Brasil. Ganhou alguma relevância política – e chegou a tentar um golpe – com a ascensão do Getúlio Vargas, que endossava algumas das suas pregações totalitárias, aceitou sua ajuda, mas não lhe deu nada em troca. Tinham um líder, Plínio Salgado, chamado de carismático, mas cujo carisma não sobrevivia nas fotos do jornais mal impressos. Usavam todos camisas verdes e um signo inspirado na suástica nazista, e saudavam-se com o braço direito erguido, também como os fascistas. As manifestações dos camisas verdes atraíam multidões, na época. Era grande a simpatia pelos integralistas.
Há dias participei de uma festa de aniversário de criança em que a principal atração era uma enorme torta, saudada por todos com entusiasmo. “Oba!” exclamou alguém, “Uma Martha Rocha!”. Uma o quê? Ninguém se lembrava que chamavam a torta de Martha Rocha em honra da baiana que deixara de ser escolhida Miss Universo por ter dois centímetros a mais nos quadris, de acordo com o padrão brasileiro, o que causou uma revolta nacional. A maioria dos adultos na festa não se lembrava nem da própria Marta Rocha, que era linda, colorida, alegre e irresistível como... Bem, como uma torta. No caminho do passado que parecem estar querendo nos levar, pensei (mastigando o menor pedaço de torta que a dieta e a consciência me permitiam): que volte a Martha Rocha e que desapareça para sempre o integralismo, ou coisa parecida.



terça-feira, 31 de dezembro de 2019

O surfista cadeirante - Carlos Gerbase

Tem certas coisas na vida que valem a pena, apesar de serem potencialmente perigosas. É o que sempre pensei antes de me atirar no público durante os shows dos Replicantes. Às vezes, quando a plateia estava especialmente compacta, dava umas voltas pelo salão, deitado, erguido por dezenas de braços desconhecidos. Não pensem que esse é um ato de insensatez, ou que é tão excepcional assim. Faz parte da tradição do punk rock, que criou até um pequeno glossário para identificar as possibilidades de expressão corporal do público e dos músicos.
O pogo – que dizem ter sido inventado por Sid Vicious nos primeiros shows dos Sex Pistols – é a dança que parece uma briga, cheia de encontrões, cotoveladas e eventuais botinadas. Tudo com boa educação, pra evitar que os empurrões dessa roda punk virem briga de verdade. É muito divertido.
Recomendo. Atirar-se no público, dando um salto a partir do palco, chama-se stage diving. Aqui no Brasil, muita gente chama de mosh, mas parece que é um erro de tradução. Li recentemente que mosh é o nosso pogo. Antes de mergulhar, é bom ter certeza de que aquelas mãos erguidas vão mesmo te segurar. Recomendo. Com supervisão médica e o telefone do Samu no bolso.
Mas o movimento mais interessante é o “crowd surfing”. Surfar na multidão é estabelecer um pacto existencial com os espectadores: naquele momento não há mais distância entre o músico e a plateia. Somos todos um mesmo corpo, agradecendo aos deuses do rock’n’roll a oportunidade de fazer uma poderosa catarse coletiva, que não tem equivalente no mundo da música e da arte em geral. Também recomendo, sem contraindicações. Não exige prática nem habilidade. Só um pouquinho de coragem.
No show dos 30 anos dos Replicantes, que aconteceu no dia 9 de dezembro, pude reviver, depois de 10 anos, toda essa venerável tradição do punk rock. Claro que, aos 54, não se faz as coisas como se fazia aos 24. Mas e daí? Melhor dois minutos de surf na multidão que dois anos vendo clipes no YouTube.
Mas aquela noite especial tinha que apresentar alguma atração inédita. E ela veio durante a execução de Surfista Calhorda. De repente, olhei para a plateia e, erguido por dezenas de mãos, lá estava um cadeirante passeando pelo bar Opinião. Sorridente, provavelmente mais bêbado que os bêbados que sustentavam sua cadeira, ele erguia os braços, gritava e cantava. Depois de alguns segundos, mergulhou outra vez no oceano e não foi mais visto.
Não sei seu nome, nem de onde veio, nem se o ato foi planejado por seus amigos, ou se foi resultado de uma iluminação súbita. Mas nunca vou esquecer a imagem do surfista cadeirante. Agora posso ficar mais uma dezena de anos me preparando para um show dos Replicantes. A banda terá 40, eu terei 64, e, independentemente da idade que ele tiver, quero ver o surfista cadeirante fazer suas manobras radicais outra vez. E Porto Alegre continuará a ensinar ao mundo uma ou duas coisas sobre o sempre jovem espírito do rock’n’roll.


31/12/3013

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...