sábado, 31 de agosto de 2019

Pom-pom-poróm, pom-pom-pom - Sérgio Augusto

João Gilberto - Aguarela do Brasil



Dois leitores me perguntaram se considero Aquarela do Brasil a melhor composição de Ary Barroso. Escrevi sobre ela, no Aliás de domingo passado, sem atirar-lhe confetes e muito menos hierarquizá-la na extensa obra do autor. Não é, dos sambas do Ary, o meu preferido, longe disso; mas me curvo à sua incomparável e universal popularidade, e à sua originalidade, pois daquela paleta de hipérboles coloridas nasceu um novo subgênero musical, o samba-exaltação. 
Outro leitor quis saber, justamente, por que e quando o samba-exaltação morreu. Suspeito que tenha sumido por falta de oxigenação e esgotamento de seus chavões. Mas assim como a chanchada trocou o cinema pela televisão, o samba-exaltação sobreviveu nos enredos das escolas de samba, que se ufanam desde que a primeira delas, Deixa Falar, celebrou nos mesmos versos a primavera brasileira e a recém-triunfante Revolução de 1930.
Ainda que eu prefira Morena Boca de Ouro, Pra Machucar Meu Coração, É Luxo Só, entre outras, Aquarela do Brasil é, consensualmente, um marco, um monumento musical. Não me oporia a oficializá-lo como Hino Nacional Brasileiro, pois oficiosamente já o é faz tempo. Por sua causa, a palavra aquarela ganhou no Aurélio uma nova acepção: “Visão alegre ou otimista de uma época, uma situação, um lugar etc.”. No Houaiss ainda não.
Foi composto numa noite chuvosa do verão de 1939. Em sua casa no bairro carioca do Leme, Ary saiu, sorrateiro, de uma conversa fiada com a mulher, Ivone, e o cunhado, sentou-se ao piano e começou a dedilhar alguns acordes, até que encontrou o samba que havia meses buscava, na contramão dos sucessos da moda: sem tristeza nem dor de corno, um samba esfuziante, “um clangor de emoções positivas” sobre esta “terra boa e gostosa”.
Vivíamos, desde o final de 1937, sob o tacão do Estado Novo, eram cada vez mais intensos os rumores de guerra na Europa, mas ainda assim ou talvez por isso Ary insistiu em levantar o nosso moral, enaltecendo riquezas que este país “lindo e trigueiro” tinha ou acreditava ter. Uma delas era ser “a terra de Nosso Senhor”, meu primeiro contato com a crença de que Deus é brasileiro. 
O cunhado de Ary foi o primeiro a invocar com o pleonástico “esse coqueiro que dá coco”, a meu ver, mais enfático do que redundante. De todo modo, a audição doméstica foi exitosa e celebrada com uma garrafa de vinho. E no embalo da euforia, Ary voltou ao piano e compôs a canção As Três Lágrimas, inteirinha. Noitada memorável.
“Este samba tem futuro”, empolgou-se o maestro Radamés Gnatalli, sem dar pelota para as pelancas poéticas da letra: “inzoneiro”, “merencória”, as mais salientes. Objetou a tímida abertura prevista pelo autor, com aquele pom-pom-poróm, pom-pom-pom dedilhado num contrabaixo, que trocou por um imponente quinteto de saxofones.
Escolhida para abrir a cortina do passado e tirar a Mãe Preta do serrado, Aracy de Almeida acabou substituída pelo “Rei da Voz” Francisco Alves, que se consagraria como o mais cobiçado intérprete de sambas-exaltação. Quem, porém, cantou a Aquarela pela primeira vez em público foi o barítono e socialite Cândido Botelho, no espetáculo beneficente Joujoux e Balangandãs, no Teatro Municipal do Rio, em junho e julho daquele ano. Como não há, creio, registro gravado daquela performance, a de Chico Alves, em disco, saiu na frente. 
A histórica gravação, realizada nos estúdios da Odeon em 18 de agosto, foi um arraso. Ambicioso e arrojado, para os padrões da época, o arranjo de Gnatalli previa o dobro do tempo normal de duração de um 78 rotações, o que exigiu a utilização dos dois lados do disco. Conforme a agulha da vitrola se aproximava dos últimos sulcos da face A, a orquestra solava, caindo em BG, para retomar o mesmo solo no início do lado B, com Chico Alves nos arrastando até o apoteótico finale: “Brasil! Brasil! Pra mim... pra mim...”.
Apesar da implicância da Censura estado-novista com a imagem do Brasil como “terra do samba e do pandeiro”, para ela despicienda, a metonímia ficou. 
Na versão americana, assinada por S.K. “Bob” Russell e intitulada Brazil, a terra do mulato inzoneiro virou mero pano de fundo de uma reminiscência romântica, embocadura parcialmente adotada pelo letrista francês Jacques Leruej, que só na segunda parte alude a riachos, gaúchos, tardes quentes e límpidas – e até ao Cruzeiro do Sul. Adotada em Hollywood, onde Ary tentou carreira, Aquarela aninhou-se no repertório de uma legião de cantores e orquestras. Bing Crosby a gravou duas vezes; mas a melhor gravação ainda é a de Frank Sinatra. 
Aloisio de Oliveira, líder do Bando da Lua e parceiro de Carmen Miranda, foi o primeiro a cantá-la na tela em português, no desenho de Walt Disney Alô, Amigos, em 1943. Sua estreia cinematográfica, três anos antes, no filmusical carioca Laranja da China, dirigido por Ruy Costa, tivera um intérprete improvável, o mexicano Pedro Vargas, o que pode ter determinado a identificação de Brazil, no Hit Parade americano, como um tema “originalmente composto em espanhol”.
Estimulado por seu prestígio internacional, Ary planejou adaptá-la a uma ópera rural, uma versão Jeca Tatu de Porgy e Bess movida a congadas, maracatus e capoeira, com assessoria técnica do folclorista Câmara Cascudo, uma pincelada erudita do maestro Guerra Peixe e libreto de Millôr Fernandes e Antonio Callado. Que seria imperdível se não tivesse sido apenas um sonho do Ary.

Aquarela do Brasil - Francisco Alves 1939


Aquarela do Brasil -  Made in Brazil 

Aquarela do Brasil - Gal Costa


Aquarela do Brasil - Ray Conniff 



A noite em que Marieta nos fez rir muito - Ignácio de Loyola Brandão

PIRENÓPOLIS, Goiás. O café da manhã na Pousada do Vigário é o momento em que todos se encontravam entre 8 e 9 da manhã, antes de partirem para as chamadas Itinerâncias. Ali circulavam ideias, falava-se de política e ensino, surgiam fofocas amenas, anedotas, lembranças de outras Flipiris, essa que nasceu da alma de Iris Borges apaixonada por formar leitores, por livros, feiras, edições. Enquanto tomávamos coalhada fresca, sucos de graviola, de abacaxi com hortelã, de cajuzinho do cerrado e água saborizada fazia-se um balanço dos encontros. Depois, todos partiam ao encontro de professores, alunos e mães. Muitas vezes, menos contávamos e mais ouvíamos as crianças a nos recontar. Muitos eram bons na narrativa, que futuro lhes é reservado? A Festa Literária de Pirenópolis ainda resiste, enquanto os “filtros culturais” vêm dizimando uma a uma. É uma árdua a batalha contra a ignorância. Trabalho heroico dos muitos que formam em Brasília a Casa dos Autores. 
Nas últimas semanas, passei da Flipelô (Festa Literária do Pelourinho), em Salvador, para a Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo, segui para a Jornada Literária de Sobradinho, cidade-satélite construída dentro de uma fazenda do mesmo nome. Esse nome veio de um pássaro João de Barro, pássaro que construiu seu ninho em forma de sobradinho e assim ficou. Dali segui para Pirenópolis.
Naquela manhã de quinta-feira, todos partiram, ficou o silêncio das ruas tricentenárias. Histórica, a cidade foi do ouro há três séculos e dos hippies nos anos 70 e hoje é uma espécie de Campos do Jordão para os brasilienses. Envolvido em silêncio absoluto, caminho devagar pela Rua Nova, em busca do número 7, onde mora um ícone da cidade, Eliane Lage. Calma total na cidade de 25 mil habitantes, com seus quintais repletos de frutas e verde. Na casa de Eliane há uma campainha, mas preferi acionar a pequena aldrava de ferro, o som seco repercutiu lá dentro de uma casa que é da maior simplicidade do mundo, cômodos quase monacais, estantes cheias de livros. Nas portas e janelas não há chaves e sim tramelas (ou taramelas, depende da região) de madeira.
Eliane Lage, 91 anos, firme e rija, lúcida, fala mansa, prosa boa, vive há 40 anos nesta cidade de cachoeiras e pousadas, de Cavalhadas, Festas do Divino e dos “Mascarados”. A mulher, bela, sedutora, que foi a maior estrela da Vera Cruz nos anos 1950, atriz de Sinhá Moça, Angela, Terra É Sempre Terra, Ravina, cujo sobrenome ainda nos remete ao Parque Lage, no Rio de Janeiro, hoje vive só e serena. Tranquila, ainda dirige seu carro Volks, cujos vidros se abrem manualmente. “Para que necessito de um cheio de tecnologia, se este me leva a toda parte, igual aos outros?” Ela teve tudo, hoje tem a paz, os amigos, os livros, a sabedoria do bem envelhecer e degusta com prazer um vinho ao jantar. Fizemos juntos a abertura da 10.ª Flipiri e sua fala curta foi um texto poético, agradecendo à cidade que a acolheu. Igualmente lindo foi ouvir a fala de Marieta Souza Amaral, autora local, uma negra experiente e vivida, irônica e destemida, que ao falar de seu livro, Naquele Tempo, levou a plateia às gargalhadas com a sinceridade, a pouca cerimônia, as tiradas rápidas. 
Na manhã de quinta-feira conversamos, Eliane e eu, por horas sem nenhuma sombra de nostalgia. Cinema veio e se foi, a fama também, os livros são seus companheiros, principalmente os poemas completos de Miguel Torga (1907-1995) que ela acabou de trazer de Portugal.
Ela me presenteou com um curto livro dele, Portugal. Instagrans daquela terra. Passado e presente. Vou ler no avião na viagem de volta. Breve trecho: O girassol do mundo, aberto./ E o coração a vê-lo, sossegado./ Fresco e purificado/ O ar que se respira,/ Os acordes da lira/ Audíveis no silêncio do cenário./ A bem-aventurança sem mentira:/ Asas nos pés e o céu desnecessário. Torga, Eliane. Ele sem a conhecer, conheceu e previu.
Em 1985 estive em Portugal com Ricardo Ramos mais Adélia Prado, em sua primeira viagem à Europa, João Ubaldo Ribeiro, Nélida Piñon, Marly de Oliveira, Osvaldo França Junior. Torga nos recebeu em Coimbra. Fiquei surpreso quando nos contou que mexia em cada um de seus livros em novas edições. Assim, às vezes, era quase outro livro, a cada momento. Torga, pseudônimo de Adolfo Rocha, naquele encontro nos contou que tinha vivido no Brasil e sobreviveu carpindo café em uma fazenda de Minas Gerais. Aos 20 anos, regressou a sua terra. “Era um homem muito tímido”, conta Eliane. Uma amiga dela foi ao seu consultório no Porto. Ele clinicava, era otorrinolaringologista. Durante a consulta, a mulher viu que as estantes estavam repletas dos livros de Torga. Olhava para o médico e para as estantes. Ao escrever a receita, de cabeça baixa, ele acrescentou no canto do papel: “Eu sou Miguel Torga”. A amiga foi direto do consultório à farmácia, apanhou o medicamento e correu para uma livraria, de onde levou o que havia disponível do médico-escritor. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Vilões - Luis Fernando Verissimo

Até onde minha memória alcança – e ela vai longe –, se fala em queimadas no Brasil. A diferença entre as queimadas de hoje e as queimadas de antanho é que aquelas tinham autores conhecidos e universalmente execrados, proprietários rurais que recorriam a métodos primitivos e perigosos de limpar suas terras e prepará-las para a produção, e se danasse quem protestasse. O que mudou de antes para agora é que já não se sabe mais com tanta clareza quem são os vilões desse drama. 
Na minha remota adolescência, ninguém falava na questão ambiental, fora alguns idealistas esquisitos. Para todos os efeitos relevantes, o ambiente não existia. Hoje “vilão” não é mais o proprietário rural sem consciência do mal que suas queimadas fazem, pode ser um investidor ausente que só vê suas terras em chamas da janela de um avião. Contra os protestos de quem quer a Amazônia como o último refúgio de um mundo que se torna rapidamente irrespirável, ganha força um vilão ao qual só faltava uma coisa para se impor, o poder. Agora ele está no poder.
À visão romântica de uma Amazônia refúgio, impõe-se a do tesouro escondido, muito mais realista e excitante. O que haverá de riqueza sob as árvores da Amazônia, uma vez desmatado tudo e afastados os índios, é difícil de imaginar. Madeira, petróleo, ouro... Nada nos faltará. Salvo, claro, ar. 
Iê, Iê, Iê. Falando em memória... Não sei por que pensei nos Beatles. Já sei por quê. Li numa matéria sobre o mercado editorial que três capas garantem as vendas de livros, no mundo todo: capas em que apareçam Lincoln, Hitler ou cachorros. A matéria não explicava a preferência. Os livros sobre Hitler vendem mais na Alemanha, os sobre Lincoln nos Estados Unidos e os sobre cachorros em toda parte. Comecei a imaginar um encontro de Lincoln e Hitler num “pet shop”, mas logo fui tomado por grande melancolia. E os Beatles, por que não eram os mais vendidos? Lembrei que, anos atrás, o Internacional formou um ataque de jovens que logo ganhou o apelido de ataque iê, iê, iê. Um eco do “yeah, yeah, yeah” dos Beatles que, na época, eram a referência cultural de uma geração e ninguém mais canta. Enfim, saudade de mim mesmo. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Chorar - Roberto DaMatta

 Chora-se de pena ou dó e, paradoxalmente, de rir. Choramos muito de saudade, por amor e até de raiva. Impossível viver neste “vale de lágrimas” sem chorar, sem comover-se com o choro como uma expressão permanente e essencial da vida e das relações humanas num mundo cujas circunstâncias não controlamos plenamente.
Existem muitos modos e maneiras de chorar. Tantos que, no Brasil, eles formam até um singular gênero musical: o chorinho no qual se soluça alegre e com ritmo. O choro é um dos mais sublimes dos obrigatórios sentimentos humanos, conforme ensina o grande antropólogo Marcel Mauss. Todo ser humano chora, mas em todo lugar ele pranteia editado e constrangido pelo estilo de choro de sua cultura, língua, idade, gênero, país, casa, família e segmento social. A prova cabal disso é que não verter lágrima em certas situações é mais do que um sinal de frieza; é revelação de distância e desumanidade. Em certas situações, o choro é tão obrigatório quanto elogiar uma comida ou um novo (e horrendo) penteado da esposa. Se você observa o choro em outras sociedades, descobre um inesperado elo entre o pranto dolorido, mas sempre ritmado e melodioso, e a música. 
Não deve ser, portanto, por acaso que muitas melodias sejam uma manifestação de lamento e nos levem à comoção cujo clímax é o soluço. Os compositores russos sempre me comovem e, eventualmente, fazem meus olhos molhados de velho lacrimejarem. Seja de admiração pela beleza dos sons que se harmonizam – a música é uma arte que se faz sem materiais de fora, como ensina Schopenhauer – seja pela capacidade de proporcionar o milagre de ser invadido por uma inexcedível pureza sentimental. Ademais, há melodias que fazem rememorar e há as que assombram pela inovação. 
O fato é que a música, como o incenso, nos penetra e envolve. São mediadores privilegiados entre o céu e a terra e entre os apaixonados. Na forma de hino e palavra de ordem, são máquinas de criação de identidade e coesão grupal. Podemos desviar os olhos de uma tela ou escultura para focar nos seus detalhes, mas com a música (tal como com um perfume) não há como fechar janelas e portas, pois a melodia e a essência nos perseguem como um bom pensamento ou uma assombração.
Quantos tipos de choro você conhece?
Há o pranto gritado das crianças, que cessa quando elas ganham o peito cheio de leite materno; e há o “chororô” dos corruptos que diante da lei vertem lágrimas de vergonha e arrependimento sem, como os crocodilos, comover ninguém. Há também o choro dos sofredores e dos injustiçados, testemunho cabal de sinceridade. A lágrima é uma prova tão forte quanto uma mala de dinheiro, justamente porque desarma os indecisos e os incrédulos.
Existem choradeiras públicas – “choros para fora” como os prantos dos funerais de celebridades. Neles, cada qual mostra sua afeição chorando competitivamente mais forte e mais alto do que o outro. Ao lado desse lamento para fora, porém, há prantos para dentro – o soluço solitário, sem testemunho, no qual você é obrigado a consolar-se e perdoar-se. Chora-se assim por um ente querido, cuja morte súbita nos tira a ilusão do controle das nossas vidas. Nesses casos, curvamo-nos sobre nós mesmos e nos conectamos com aqueles que amamos na forma mais pura de rezar. Tal como os sinos que, na poesia de John Donne, dobram para todos, choramos igualmente por todos e cada um e nós.

Um conto sombrio - Jacqueline da Silva Souza.

Naquela noite de setembro de 1980, deparei –me com meu corpo deitado em minha cama. Fiquei em choque, não sabia o que estava acontecendo e tentava gritar, mexer no meu corpo, tudo em vão. Comecei a chorar e a rezar, pedia que Deus me deixasse voltar. De repente, retornei como uma bomba. Acordei ofegante e completamente aturdida.
Na manhã seguinte já recuperada, contei às amigas da escola, o que me sucedera na noite anterior, obviamente que todas riram. Apesar disso tudo, fiquei intrigada, mas logo entramos em sala de aula e o assunto perdeu-se de contexto.
Ao chegar a casa, depois de terminar todos os afazeres domésticos, pois ajudava minha mãe e meu pai com os meus irmãos, porque éramos muito pobres, fui me deitar e novamente aquela sensação estranha, um torpor que me envolvia de maneira que não podia impedir...
E novamente fora do corpo, desta vez, alguém mais estava em meu quarto e me tomou pelas mãos e disse – Venha, estou à sua espera desde longa data... – não consegui ver seu rosto, confesso que fiquei com muito medo, mas o segui. Ele me levou a um casarão que tinha um salão repugnante, terrível, escuro e com um cheiro insuportável. Lá pude ver diversos corpos que serviam de alimentos para outros seres horríveis que se debatiam com ferocidade ao comer aquelas carnes...
Acordei novamente com um profundo pavor, mas enfim, fora um pesadelo – pensei.
De volta à escola, conversei com minhas amigas Ana e Simone, que desta vez, ficaram a me olhar como se eu fosse louca, entretanto me disseram pra deixar pra lá, porque a minha imaginação estava aflorada demais.
Dias depois, correu um boato nas redondezas de que algumas pessoas estavam desaparecendo, então se instalou o pânico e ninguém mais queria sair à noite. Até na rádio da cidade, pediram que ficassem em seus lares e vigiassem uns aos outros.
Logo começaram a surgir pedaços de corpos jogados nas portas das pessoas, daí a comoção foi geral e a população queria investigações sobre aquela coisa macabra, só podia ser algum psicopata desumano e cruel, todavia nada foi resolvido.
Passaram-se alguns dias e tudo voltou ao normal. Retornamos à escola e nos encontrávamos tranquilas, minhas amigas e eu, até que me recordei do sonho e disse às meninas que achava uma certa ligação com o que envolvera a cidade nos últimos tempos.
Lembrava-me do caminho e fomos a um casarão que ficava fora das redondezas. Já na entrada um odor de podre... e lá vimos um homem com um casaco preto, velho, parecia um morador de rua. Quando nos percebeu, virou-se contra nós e vimos seu rosto sombrio e monstruoso, com presas no lugar dos dentes. Vociferou e nos levou para dentro do salão. Havia muitos corpos lá, e também os tenebrosos seres dos infernos...
Percebemos que ele os alimentava raptando as pessoas da cidade...
Minha surpresa maior foi saber que eu fazia parte daquilo tudo, porque deixei as meninas lá para serem sacrificadas. Olhei para o homem, que era o mesmo dos meus sonhos, que me conduzia todas as noites até aquele lugar, para que me lembrasse e entendesse que eu também era responsável por aquelas criaturas...

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Os porcos, entre nós - Demétrio Magnoli


A Revolução dos Bichos - George Orwell - Dublado



A Revolução dos Bichos (Animal Farm - HD - George Orwell - Legendado)



A revolução dos bichos, publicado em agosto de 1945, faz 70 anos. Minha filha leu-o, avidamente, aos 11. No fim, anunciou o desejo de ler a “parte 2” – e ficou decepcionada quando informei-lhe que isso não existe. George Orwell não era um propagandista: no encerramento de sua alegoria, os porcos (os bolcheviques) já não se distinguem dos humanos (os capitalistas). A continuação que minha filha queria apareceu, porém, numa falsificação da CIA. O agente Howard Hunt comprou secretamente os direitos de adaptação cinematográfica e produziu uma versão em desenho animado. Nela, a trama ganha outro desfecho: os animais tomam de assalto a casa da fazenda ocupada pelos porcos e, com essa segunda revolução, libertam-se finalmente. Propaganda e verdade — os dois termos acompanham a trajetória de Orwell, conferindo-lhe atualidade.
Orwell aprendeu menos com os livros que com a vida. Dias na Birmânia, publicado em 1934, é uma narrativa de descoberta do imperialismo. Mas, para o jovem policial numa província da Índia Britânica, imperialismo significava algo mais decisivo que um conceito político e econômico. A sua revolta pessoal dirigia-se contra a “sujeira do Império”: os hábitos dos colonizadores. Naqueles “dias”, um tempo empapado pela ideia de raça, Orwell tatuou, entre os nós dos dedos, símbolos usados pelos birmaneses.
A jornada de libertação prosseguiu no East End londrino e na Rue du Pot de Fer, em Paris, depois da conversão do policial em escritor. Na pior em Paris e Londres, de 1933, que retoma o fio tecido por Jack London meio século antes, é o resultado de sua experiência nos pardieiros, entre os miseráveis. Nele, Orwell registra a presença de chineses, lascares de Bengala, dravidianos do Ceilão e sikhs do Punjab. Uma passagem menciona a beleza das mulheres e especula que seria fruto da “mistura de sangue”. Ele procurava a verdade, uma humanidade compartilhada, e jogava fora a armadura da “pureza racial”.
O “ato de um idiota” – assim, num restaurante de Paris, Henry Miller crismou a decisão de Orwell, seu companheiro de mesa, que já estava a caminho de engajar-se ao lado dos republicanos espanhóis antifranquistas. Miller era um cínico incorrigível; Orwell, um moralista e um asceta. Lutando na Espanha, de 1938, conta uma história clandestina, proibida, enterrada sob os espessos sedimentos de propaganda do comunismo oficial, que ganharia novos e pungentes detalhes no Memórias de um revolucionário, de Victor Serge, publicado apenas em 1951. Operando sob ordens de Moscou, o Partido Comunista Espanhol (PCE) preferia combater os anarquistas e trotskistas reunidos no Partido Operário de Unificação Marxista (Poum) a fazer a guerra contra as forças franquistas.
“Aquela foi a primeira vez que eu vi uma pessoa cuja profissão era contar mentiras — a não ser que você inclua os jornalistas”, escreveu sobre um gordo agente soviético baseado em Barcelona que se dedicava a difamar os militantes do Poum, classificando-os como espiões. Orwell temia, mais que tudo, o “evanescimento” do conceito de verdade objetiva no mundo, destroçado pelas campanhas de propaganda partidária. Desse temor, nasceram A revolução dos bichos e 1984, obras cujo foco não é tanto a política, mas a linguagem política e sua degeneração.
Os porcos estão vivos – e entre nós. Os comunistas, primeiro, e os nazistas, em seguida, descobriram que a verdade objetiva é uma película fina, vulnerável aos golpes de uma propaganda sistemática organizada em torno de vetores abstratos, mas de fácil compreensão. “Trabalhadores” versus “exploradores”, “alemães” versus “judeus”, “nacional” versus “estrangeiro”, “povo” versus “elite”, “nós” contra “eles”: a partição de uma realidade complexa em polos antagônicos bem simples é capaz de produzir o milagre da substituição do fato pela versão. A lição da propaganda partidária do totalitarismo difundiu-se no mercado da política, inspirando a gramática e as fórmulas utilizadas no marketing eleitoral. “É tudo culpa de FHC”: ao mentiroso, as batatas.
A difamação de Orwell ganhou tração no pós-guerra, logo após sua morte, por iniciativa do Grupo de Historiadores do Partido Comunista Britânico, que contava com figuras como Maurice Dobb, Cristopher Hill, Eric Hobsbawm e Edward P. Thompson. Eles não o perdoavam pela sua crítica implacável aos intelectuais de esquerda que, colocando um sinal de igual entre democracia e fascismo, tinham oferecido suporte ao Pacto Germano-Soviético de 1939.
A operação difamatória funcionava menos como vingança e mais como uma queima de arquivo. Nas vésperas da guerra, os intelectuais comunistas britânicos distribuíram panfletos celebrando a aliança entre Stalin e Hitler. Crismar Orwell com a marca do traidor era um expediente destinado a incinerar os textos perigosos, lavando as reputações dos “amigos do povo”. Thompson, em especial, consagrou-se à missão purificadora. Aproveitando-se da circunstância de que um homem morto não pode retrucar, recorreu simplesmente à mentira, acusando-o de ser “obsessivamente” sensível à “menor insinceridade” da esquerda, mas surdo e cego à “desumanidade da direita”. A ideia era relegar o alvo ao esquecimento, o exílio mais pesado para um escritor.
No fim, Orwell triunfou. É bem certo que os porcos ainda estão entre nós – continuam a se confundir com os humanos e, inclusive, se multiplicaram. Entretanto, a condenação ao exílio não funcionou. A revolução dos bichos, recusada por diversos editores britânicos e americanos que se curvavam aos interditos da esquerda oficial, converteu-se numa das obras definidoras do século 20. É uma obra especial, capaz de encantar uma criança de 11 anos que nunca ouvira falar da Revolução Russa, de Stalin, dos Processos de Moscou, da Guerra Civil Espanhola e de toda essa pilha de cadáveres insepultos nos campos de guerra das utopias ideológicas.





Orwell e as sete pistas para descobrir ditadura 

 Sheila Leirner ( Estado de São Paulo - 24 de agosto de 2019)

Sabe-se que ‘1984’ e ‘A Revolução dos Bichos’ de George Orwell ajudam a compreender as ditaduras do século 20. Michel Onfray, em seu novo livro ‘Teoria da Ditadura’ (Ed. Robert Laffont), apresenta a hipótese de que estas obras permitem igualmente entender as ditaduras de sempre. Como certos governos instauram novas ditaduras nos dias de hoje? Como descobrir se um país está em vias de, ou se já se transformou em ditadura sem que tenhamos percebido?
Para responder a estas questões, o filósofo conseguiu, com brilho e livre de qualquer posição política ou ideologia, destacar sete pistas que prefiro não comentar nem analisar, para deixar que funcionem como bolinhas de bilhar. Compondo-as, empurrando-as com o taco e fazendo com que se choquem umas contra as outras, a inteligência e sagacidade do leitor farão com que todas entrem nas caçapas certas.
Os indícios de ditadura são: destruição da liberdade, empobrecimento da língua, abolição da verdade, supressão da história, negação da natureza, propagação do ódio, aspiração ao Império.
Segundo o filósofo, cada um deles exige cuidados que, por sua vez, também são pistas:
Para destruir a liberdade é preciso assegurar uma vigilância perpétua, arruinar a vida pessoal, suprimir a solidão, regozijar-se de festas obrigatórias, padronizar a opinião, denunciar o pensamento como crime.
Para empobrecer a língua é preciso praticar um novo linguajar, usar linguagem dupla, empregar expressões chulas, reduzir o vocabulário, destruir palavras, oralizar a língua, falar apenas um idioma, suprimir os clássicos.
Para abolir a verdade é preciso ser orientado por charlatães, conselheiros e/ou gurus, ensinar ideologia, instrumentalizar a imprensa, propagar fake news, fabricar o real, manipular subliminarmente as consciências pelas redes sociais.
Para eliminar a história é preciso apagar o passado, reescrever a história, inventar a memória, destruir livros, industrializar a literatura.
Para negar a natureza é preciso extirpar a pulsão de vida, moralizar os costumes, usar a religião, organizar a frustração sexual, higienizar o modo de viver, fazer procriar segundo regras, desconsiderar a ecologia, praticar o ceticismo climático.
Para propagar o ódio é preciso criar um inimigo, fomentar guerras e/ou disputas inúteis, ‘psiquiatrizar’ o pensamento crítico, derrubar o último humano.
Para aspirar ao Império, é preciso formatar as crianças, administrar a oposição, governar com as elites, escravizar graças ao progresso, dissimular o poder.
Até a próxima que agora é hoje, e a sinuca é de sete bolas. Tomara que consigamos sair dela!

Inesquecível canoa furada - Humberto Werneck

Neste 27 de agosto faz 40 anos que, aguardado com muita expectativa, atracou nas bancas o Jornal da República, canoa que não tardaria a se tornar – ou a se revelar – irremediavelmente furada, e que iria a pique em menos de seis meses. Da tripulação fazia parte este cronista – o qual, na saudável temeridade de seus 30 e poucos anos, não só se jogou de cabeça na aventura como dela jamais se arrependeu por completo. E olha que, para estar a bordo daquela precária embarcação, deixei para trás, pelo mesmo salário, uma posição confortável na redação da Veja, onde era muito bom trabalhar.
Ainda resisti quando veio, do Roberto Pompeu de Toledo, um primeiro convite, que recusei por me faltar o indispensável apetite para encarar distantes pautas de uma editoria de Internacional. Mas veio também, irrecusável, uma proposta do Nirlando Beirão, amigo e ex-chefe na Veja, para trabalhar com ele na editoria de Cultura e Esporte. 
Habituado a comodidades de que então se desfrutava sob a árvore da Editora Abril, hoje tristemente desfolhada, fui cair no ambiente espartano de um 11.º andar no centro da cidade. Transplante que não cheguei a lamentar – pelo contrário, gostei da ideia de retornar a uma região de que tenho tão boas lembranças, as imediações da antiga sede do Estadão, na Rua Major Quedinho, 28, onde, em maio de 1970, recém-chegado de Minas, batalhei e conquistei, no Jornal da Tarde, o meu primeiro emprego paulistano. 
Repetiria a dose a partir de 1983, quando, encerrada uma segunda encarnação na Veja, fui trabalhar na redação da revista que, nostálgico de tempos melhores, chamei depois de IstoEra, instalada exatamente naquele 11.º andar onde surgiu e se apagou o Jornal da República. 
Sempre achei reconfortante, terminado um fechamento, baixar à rua num lugar onde a vida me parecesse circular com mais calor e colorido, em contraste com o confinamento em pontos remotos da cidade, nos quais o movimento predominante, nas 24 horas do dia, costuma ser o de ônibus e caminhões a caminho de alguma rodovia. Uma vez mais, devo estar enganado, pois a tendência, que não é de hoje, aponta para o lado oposto – mas sigo achando que jornais e revistas refletiriam com mais fidelidade a vida quando feitos no bulício e trepidação de um centro de cidade.
Mas voltemos àquele 11.º andar da Rua da Consolação, 293, um espaço estreito e longo no qual, se bem me lembro, não havia o conforto mínimo de uma garrafa térmica de café. Não me fazia falta. Era esplêndido estar ali na companhia de craques do jornalismo como o Roberto Pompeu, o Nirlando, o Claudio Abramo, o Ricardo Kotscho, o Paulo Sotero, o Aloisio Biondi, o Clovis Rossi, o Paulo Markun e tantos outros que não há como citar aqui, sob o comando do Mino Carta, dando largada a um jornal que se propunha ser independente no momento em que a ditadura do golpe de 64 dava mostras de entrar num processo de esfarinhamento sob controle.
No dia seguinte ao da chegada do jornal às bancas, aliás, veio a anistia, não aquela com que sonhávamos, que não pusesse no mesmo saco torturados e torturadores, mas, em todo caso, anistia, suficiente para trazer de volta os exilados.
No alto do expediente do jornal, como diretor-presidente, tínhamos ninguém menos que Raymundo Faoro, que no clássico Os Donos do Poder esmiuçara a formação de nossas classes dominantes. E tudo parecia ir muitíssimo bem naquela segunda-feira, 27 de agosto de 1979, em que em poucas horas se esgotaram os 72 mil exemplares da edição inaugural do Jornal da República, com 28 páginas e fartura de publicidade. Começava a se formar um time de colaboradores de que fariam parte, entre outros, Hélio Pellegrino, Leandro Konder, Moacyr Werneck de Castro, Franklin de Oliveira, Henfil, Plínio Marcos. Lembro-me de que o n.º 1 trouxe, sem especial destaque, artigo de um líder sindical que ainda não incorporara o apelido ao nome, e que seis meses depois formalizaria a existência de um promissor partido político. 
Tudo parecia ir bem, e no entanto... Não sou eu quem poderá contar o que se passou nas coxias para que já em setembro Domingos Alzugaray, dono da Editora Três, batesse em retirada, deixando o sócio Mino Carta no topo de uma escada que já não existia. 
Eu era, naquele momento, editor de Cultura e Esporte, substituindo o Nirlando, que o Mino alçara a mais altas cavalariças, e estava às voltas com o desafio de encher, com uma brava e diminuta equipe – Carmen Cagno, Tonico Duarte, Dina Amendola, Osmar Freitas Jr. –, e meios cada vez mais insuficientes, um latifúndio de papel em branco, correspondente, se bem me lembro, a uma boa metade das habituais 16 páginas do Jornal da República. 
Era um dos editores, mas não chegavam a mim senão fiapos de informação sobre investidas de Mino Carta em busca de novos sócios ou, em desespero de causa, compradores para a publicação. Só no final de dezembro a tropa exausta soube que a nossa canoinha fazia água. Uma segunda acepção da palavra “fechamento”, assustadora, passou a predominar em nossas preocupações. Na Rua da Consolação, tornou-se para nós indispensável o exercício de um tanto de molecagem, molecagem benigna, como contrapeso para a derrocada que se avizinhava. Imbatível nessa modalidade, o repórter Chico Malfitani, nas semanas finais, deu de subir na mesa e dali cocoricar, de cócoras, desatando um coro arrematado por muita gargalhada: “O galinho cantou / e o jornal não fechou!”. 
Nesse clima entrou janeiro, e, por mais que o galinho cantasse, cada um de nós tratou de ir atrás de um escaler, de um colete salva-vidas. É hoje! Não foi. Da semana não passa... – e assim chegamos ao 21 de janeiro em que pela última vez se ouviu ali o matraquear de nossas máquinas de escrever. 
Houve um quê de ironia amarga na derradeira tarefa que me tocou naquela redação, em meio a uma unanimidade de expressões fatigadas, lágrimas discretas e, lá pelas tantas, uma circulação desinibida de cerveja. 
Era, como no dia da estreia, uma segunda-feira, e a última – em mais de um sentido – página do esquálido, exangue Jornal da República, a de n.º 12, sob meus cuidados, seria dedicada a um acontecimento em que muitos já não acreditavam: a tão sonhada e mil vezes adiada vinda de Frank Sinatra ao Rio de Janeiro. Estava bom demais para ser só alegria.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...