terça-feira, 11 de junho de 2019

Orelhas parabólicas - Humberto Werneck

Todo mundo sabe o que é um voyeur, esse olhador sem freio, pudor e respeito pela imagem alheia. Mas poucos estarão informados de que o francês criou palavra, também, para designar aqueles que, não menos indiscretos, fazem de seus ouvidos um voraz aspirador de palavras, à revelia e quase sempre a contragosto de quem as profere nas suas imediações. Em português até existe “escutador” – cujo significado, porém, não chega a ter a carga de malignidade auditiva do écouteur, esse irmão menos conhecido do voyeur, ávido por catar uns cacos de conversa jogada fora, em meio aos quais pode às vezes cintilar alguma pérola, ainda que eventualmente falsa.
*
“Você não tem ninguém? Nem um cachorrinho?”
“Certas pessoas deveriam ter um pouco de complexo.”
“Dinheiro é o meu amor não correspondido.”
“Passou por mim, escovada que nem cavalo de corrida...”
“Pai de família é uma espécie de caixa eletrônico carinhoso.”
“Aquele ali é um sachê de todas as porcarias.”
“Toda manhã, tenho que desistir do suicídio.”
“Bom mesmo é romance inglês, que tem charneca, urzes, tentilhão, mangusto, estorninho...”
“Eu não vou em futebol porque não gosto de ver homem de perna de fora.”
“Me explica uma coisa: se o padre largou os votos e se casou, os casamentos que ele fez seguem valendo?”
“Já não sou o mesmo. Aliás, desconfio que nunca fui o mesmo...”
“Hoje em dia, minha filha, só uso sutiã para segurar o santo...”
“Eu sei que a felicidade não existe, mas a gente tem um jeito mais divertido de não ser feliz.”
“Tá magra demais, moça, põe umas pedras no bolso!”
“Aí entrei em estado de espera, que nem computador.”
“É muito senhor de si – e dos outros...”
“Ele se acha a última coca-cola do deserto!”
“Sou do tempo em que algum decote podia ser considerado ‘ousado’...”
“Eu não desencaminhei ninguém. No máximo, encaminhei...”
“O pescoço lembra um fole. E o corpo tem tantos gomos de banha que fica parecendo aquele boneco da Michelin.” 
“Vou bem. Quer dizer: moderadamente bem. Bem sem exagero...”
“Tem namorada firme, com uns seios também.”
“É de uma mediocridade exaltada! E de uma feiura estridente!”
“Ela tem mais anéis que uma cascavel adulta.”
“Uma pessoa básica, entende? Orgânica, feita em casa. No casamento, deve ter tido chuva de arroz integral.” 
“Pra saber a idade, depois de tanta plástica, só usando o carbono 14...”
“Um texto tão mal-ajambrado que dava a impressão de ter sido escrito por um cinegrafista amador.”
“Esse problema não é da minha terapia!”
“Terapia é uma espécie de reciclagem de lixo existencial.”
“Sou contra a depressão, sabe?”
“A vida passa rápido, que nem os créditos de um filme...”
“Como uma canja ou um quindim, tem gente que é melhor no dia seguinte.”
“Ele tem cara de senhor e roupa de você.”
“Deviam inventar a plástica de voz...”
“O panorama familiar mudou tanto que agora tem o ‘atual filho’...”
“Às vezes a pessoa passa do ponto de morrer...”
“Casamento costuma ser uma união instável.”
“Quando você fica velho, as pessoas passam a te cumprimentar na rua.”
“Depois de velha, deu de prestar atenção em formiga...”
“Tudo muito segmentado. Foi-se o tempo em que você pedia um café, simplesmente, e o balconista entendia.”
“Tanta gente bonita no mundo, e me aparecem esses dois...”
“Ficou parecendo uma pessoa desenhada, sabe como é?”
“Para serem um casal, só faltava brigarem.”
“Quadro de restaurante quase sempre é ruim. Deve ser para a pessoa se concentrar no prato de comida...”
“O apelido dele é Mentira. Não que seja mentiroso. É que tem as pernas curtas.”
“Desossado, o papo dele não passa de conversa mole.”
“Gosta de pagar com moedas, achando que com isso gasta menos...”
“Aquele ali não tem mais filme pra queimar!”
“Errei em cheio...”
“Já tem tempo que eu faço mais sucesso com roupa do que sem. Estou até pensando numa modalidade nova de strip-tease, o strip-tease rebobinado, no qual a pessoa, em vez de tirar, vai botando a roupa...” 
“Gente rica dá festa até pra separar...”
“Está mais preocupado com a sua portabilidade sexual.”
“Quando eu me cansar do corpo, vou para a alma!”
“A coisidade das coisas, tá me entendendo?”
“O aluguel mais caro é a barriga da mãe.”
“Tem mãe que não vale um complexo de Édipo...”
“Fiz uma escova de 50 reais pra me encontrar com ele. Fora os 24 do táxi!”
“Se pernilongo não tivesse áudio, eu nem ligava.”
“Os gregos não eram tão gregos assim.”
“Deviam inventar um supositório de nitroglicerina.”
“Bobo é quem morre...”
“Tudo que é pouco sobra.”
“Tudo demais é muito.”
“Onde está o Alzheimer que não me deixa esquecer essa criatura!”

Dois quadros e uma lenda


A Verdade Saindo do Poço,  Jean-Leon Gérôme, 1896



Reza uma lenda do Séc. XIX que um dia a Verdade e a Mentira encontraram-se.
Diz a Mentira à Verdade: “Está um dia tão bonito”.
E estava de fato um dia muito bonito. Passam algum tempo juntas até que chegam junto de um poço.
” A água está tão agradável, porque não tomamos um banho as duas?” sugere a Mentira. A Verdade, embora reticente, lá toca na água e a água estava realmente agradável. Despem-se então e banham-se.
De repente a Mentira sai da água, veste as roupas da Verdade e foge. A Verdade salta do poço e corre todos os lugares para encontrar a Mentira e recuperar as suas vestes.
 O Mundo, vendo-se confrontado com a nudez da Verdade, revira os olhos, entre o desprezo e a raiva. A Verdade volta então ao poço onde desaparece para sempre, escondendo a sua vergonha.
Desde então a Mentira tem percorrido o Mundo com as roupas da Verdade, satisfazendo os caprichos das pessoas e das sociedades, e o Mundo, esse, continua a recusar-se a encarar a Verdade nua.

 2ª versão

Certa vez, a Mentira e a Verdade se encontraram.
A Mentira, dirigindo-se à Verdade, disse-lhe:
– “Bom dia, Dona Verdade!”
Zelosa de seu caráter, a Verdade, ouvindo tal saudação, foi conferir se realmente era um bom dia. Olhou para o alto, sem nuvens de chuva. Os pássaros cantavam. Não havia cheiro de fumaça na mata. Tudo parecia perfeito.
Tendo se assegurado de que realmente era um bom dia, respondeu:
– “Bom dia Dona Mentira!”
Está muito calor hoje, não é mesmo?” – disse a Dona Mentira.
Realmente o dia estava quente demais. Deste modo, vendo que a mentira estava sendo sincera, começou a relaxar, a baixar a guarda. Por qual razão haveria de desconfiar, se a Dona Mentira parecia tão cordial e “verdadeira”?
Diante do calor insuportável, a Mentira, num gesto de amizade convidou a Verdade para juntas banharem-se no rio.
Como não havia mais ninguém por perto, despiu-se de suas vestes, pulou na água e insistiu:
– “Vem Dona Verdade, a água esta uma delicia, simplesmente maravilhosa!
O convite parecia irrecusável. Assim sendo, Dona Verdade, sem duvidar da Mentira, despiu-se de suas vestes, pulou na água, e deu um bom mergulho.
Ao ver que a Verdade havia saltado na água, rapidamente a Mentira pulou para fora, vestiu-se rapidamente com as vestes da Verdade que estavam à margem e se mandou sorrateira.
Tendo suas roubas furtadas, a Verdade sai da água e ciosa de sua reputação, por sua vez, recusa-se a vestir-se com as roupas da Mentira, deixadas para trás.
Certa de sua pureza e inocência, Nada tendo do que se envergonhar, não tendo outra opção, saiu nua.
Desde então, aos olhos das pessoas, ficou mais fácil aceitar a Mentira vestida com vestes da Verdade. do que aceitar a Verdade nua e crua.


"A Verdade saindo do poço”, Édouard Debat-Ponsan, 1898


quarta-feira, 5 de junho de 2019

Complacências - Roberto DaMatta

Desde que entrei na vida acadêmica (que nem sempre coincide com a universitária e menos ainda com a intelectual), em 1959, e fui profissionalmente iniciado naquele Museu Nacional que pegou fogo, tenho sido alvo de muita complacência. Algumas obviamente necessárias e benéficas, como as dos professores e mentores cuja obrigação é revelar com generosidade e complacência a nossa burrice relativamente a certos assuntos quando, por exemplo, pensamos que “cultura” é refinamento, artes plásticas, literatura e cinema nacional em particular; quando, de fato, “Cultura” é um estilo de vida (entre muitos). É um modo de ser e atuar no mundo. 
Nesse sentido menos aristocrático, “cultura” é parte intrínseca da liberdade humana a qual resulta em diferenças entre grupos com suas línguas, tabus e credos coletivos, que produzem uma diversidade intrigante traduzida nas pesquisas das Ciências Sociais e não pelos doutores em Ciências Ocultas e Letras Apagadas, como dizia o Millôr. 
Ao lado das complacências proativas, existem, entretanto, as condescendências reveladoras de uma assumida superioridade política e moral (as duas dimensões se confundem no Brasil), as quais têm como motivo revelar a minha ignorância, a minha ingenuidade e, sobretudo, o meu reacionarismo.
“Achei aquela sua crônica muito reacionária”, disse-me com superioridade de cardeal da Idade Média um felizmente ex-colega. De uma outra feita, uma jovem ex-aluna me disse, com brutal e complacente sinceridade, não ler um jornal no qual eu escrevia, passando a certeza de que quem lia tais páginas sofria de alguma patologia ideológica. 
Na faculdade, não fui encorajado a ler Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre ou Machado de Assis. O primeiro escrevia em francês – sendo, pois, um alienado. O segundo fazia apologia da intimidade entre senhores e escravos africanos (intimidade somente lida no plano óbvio do biológico e assim classificada como “mestiçagem”); e falava mais da casa e de nossa ambiguidade cultural do que da luta de classes e da famosa “revolução burguesa” que estaria ocorrendo, mas que parece muito difícil de ser partejada entre nós. Já o terceiro – explicaram-me complacentemente – era um mulato maneiroso que escrevia complicado e fugia da luta pela Abolição. Hoje, como se sabe, Machado de Assis foi reclassificado com certo estardalhaço como negro num gesto de anacrônica complacência democrática porque o próprio Machado e seus contemporâneos se tratavam como parte de uma elite que se via como branca, mas que, nos Estados Unidos ou na Europa seria negra, árabe ou asiática. Ter de Machado uma representação fotográfica como “branco” foi, assume-se, um escamoteamento da verdade. Como se fosse factível – usando o mesmo viés ideológico num racismo reverso – pensar do mesmo modo a respeito de alguém que age como “mulher” embora seja “homem”. Quem tem o direito de definir o seu gênero, a sua cor, etnia ou o seu temperamento? O sujeito ou nós que, como fascistas inconscientes, sabemos o que ele realmente é ou deveria ser?
Será que um “feio” pode dizer que é “bonito”? As categorizações são imutáveis e insensíveis a contexto histórico, situação e interesses?
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A homofobia foi criminalizada. E quem calunia por interesse político-partidário uma pessoa como homofóbico? Os acusadores neofascistas que só pensam em excluir devem também morder a língua?
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Do mesmo modo que se tem orgulho de não ler um jornal ou uma revista, fala-se de certos autores. Assim, ouvi dizerem abertamente: jamais abri um livro de Talcott Parsons, de Tocqueville ou de Freud. Eram reacionários e isso liquidava o assunto. Tal como na Inquisição, a fogueira continua acesa entre os “progressistas” com suas complacências. 
Nelas, incluímos também o silêncio tumular sobre a obra de certos autores ao lado da raiva de sua popularidade. O controle da vida intelectual e das indagações destoantes ou marginais sempre caracterizou um inocente autoritarismo nacional. 
Ser autoritário sem saber, tendo – ademais e sobretudo – a complacência de ser democrata acusando os outros de reacionários é um dos paradoxos desses nossos tempos sombrios.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Como ensinar - Rubem Alves



Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Eu a levaria a passear por parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas simetrias e perfumes; a levaria a uma livraria para que ela visse, nos livros de arte, jardins de outras partes do mundo. Aí, seduzida pela beleza dos jardins, ela me pediria para ensinar-lhe as lições das pás, enxadas e tesouras de podar.
Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música, não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe falaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes.
Se fosse ensinar a uma criança a arte da leitura, não começaria com as letras e as sílabas. Simplesmente leria as estórias mais fascinantes que a fariam entrar no mundo encantado da fantasia. Aí então, com inveja dos meus poderes mágicos, ela desejaria que eu lhe ensinasse o segredo que transforma letras e sílabas em estórias. É muito simples. O mundo de cada pessoa é muito pequeno. Os livros são a porta para um mundo grande. Pela leitura vivemos experiências que não foram nossas e então elas passam a ser nossas. Lemos a estória de um grande amor e experimentamos as alegrias e dores de um grande amor. Lemos estórias de batalhas e nos tornamos guerreiros de espada na mão, sem os perigos das batalhas de verdade. Viajamos para o passado e nos tornamos contemporâneos dos dinossauros. Viajamos para o futuro e nos transportamos para mundos que não existem ainda. Lemos as biografias de pessoas extraordinárias que lutaram por causas bonitas e nos tornamos seus companheiros de lutas. Lendo, fazemos turismo sem sair do lugar. E isso é muito bom
Rubem Alves, no livro “Ostra feliz não faz pérola”. Editora Planeta, 2008.




Aquela parte do conjunto - Humberto Werneck

Maldita a hora, conta o Nei, em que a dona da casa lhe propôs tomar um banho. 
Mirtes, vivendo agora em Paris, tinha sido sua colega na faculdade. Depois de bom tempo sem se verem, ele estranhou a metamorfose que havia convertido a moça recatada num ser loquaz a borbotar modernidades.
Escarrapachada no tapete, baseado e birita entre os dedos, ela desfiava um torrencial relato autobiográfico, cravejado de palavras chulas. Em minutos constatou o Nei que a apagadinha moça de família havia incinerado todos os resquícios da sua formação burguesa – ao ponto de haver planejado e ter tido uma filha à revelia de um incauto inseminador. Graça de menina, a Juju, 5 anos de idade, espevitada que nem a mãe.
Deve ter sido a expressão (cansaço? tédio?) do Nei que levou a Mirtes a interromper seu monólogo exterior: quer tomar um banho?
Bem... – hesitou ele, ali como visita apenas. A amiga insistiu: pra que tanta cerimônia, meu? 
Rendido, já ia se trancar no banheiro quando a Juju anunciou: 
– Quero tomar banho com o tio!
Mais inesperada ainda foi a reação da mãe:
– Claro, meu amor!
E agora lá estava o Nei, nu sob o chuveiro e o olhar perscrutador da garotinha. Só falta a Mirtes entrar aqui... – temia ele, ensaboando-se freneticamente para abreviar a agonia. Pela primeira vez, considerou vantagem não ter tanta coisa assim para lavar.
– O que é isto, tio? – quis saber a Juju, por pouco não cutucando o objeto de sua curiosidade.
– Isto... isto... – gaguejou o visitante – ... é o pinto do tio...
– Não! O outro, atrás dele!
– Digamos que faz parte do conjunto – esquivou-se o Nei, encerrando, ainda meio ensaboado, aquele que foi o banho mais rápido de sua vida.
*
A primeira morte
Mal chegou a notícia da morte de dona Almerinda, as quatro irmãs se mandaram para a casa da amiga. Compungidas, cruzaram a varanda, apertaram mãos e, não encontrando caixão na sala, embarafustaram rumo ao quarto da defunta. 
Três delas, ao lado da cama, se persignaram e puxaram reza, enquanto a outra, mais saidinha, se pôs de joelhos e, prestativa, deu uma ajeitada nos lençóis. Foi aí que a falecida, numa comprovação de que não o era, repuxou uma perna e exalou um suspiro, estertoso mas ainda não o derradeiro. 
Desnecessário dizer que as quatro amigas não tiveram condições de dar as caras quando, no dia seguinte, dona Almerinda voltou a suspirar, agora sim, pela última vez.
*
Uma questão de tamanho
Eu estava naquela ótica, em Miami, para entrevistar o dono, sobre assunto que nada tinha a ver com oftalmologia. Enquanto esperava, corri os olhos pelos mostruários – e dei com a armação que há anos vinha procurando. Já ia apanhá-la quando chegou o entrevistado, o que me forçou a mudar de ideia: não ficaria bem misturar os papéis de repórter e de comprador. Deixei para depois.
Na saída, porém, o camarada fez questão de me acompanhar à rua, empatando uma vez mais a compra. Dei um tempo até que ele sumisse nos fundos da loja, catei a armação e corri ao caixa. 
No avião de volta, fui saborear a aquisição – e me dei conta do quanto a pressa me custara: tamanho errado. 
Deu trabalho achar, entre amigos e conhecidos, algum cujo rosto tivesse o diâmetro de um queijo da serra da Canastra.
*
Incidente a bordo
Por falar em queijo:
O alto-falante já dera o último aviso, mas eu não admitia a ideia de deixar Aruba sem um gouda da melhor procedência. Quando, retardatário, entrei no avião, custei a achar espaço nos bagageiros. Precisei abrir uma dúzia de compartimentos para finalmente conseguir, lá nas primeiras filas, acondicionar, no muque, o meu pequeno fardo, nem tão pequeno assim.
Assim que o avião, tremelicante, apontou o focinho para o alto, um dos compartimentos, adivinha qual, se abriu estrepitosamente, fazendo desabar um trambolho no colo de uma passageira – a qual, depois de um berro que dava a impressão de ser o último, se pôs a rugir os palavrões mais crus da língua portuguesa, o bastante para desestimular um passageiro que, encolhido lá atrás, achou prudente renunciar a seu caro – em todos os sentidos – queijo gouda.
*
Com seus botões
Ao cabo de meses de luta contra insidiosa moléstia, como os obituários de então se referiam ao câncer, o doutor Afrânio finalmente esticara as venerandas canelas, e a família já se entregava às providências para o velório, que, como se usava, teria lugar ali mesmo, na residência do finado. 
Filhos e genros se preparavam para empacotar o falecido em sua derradeira indumentária, quando, aberto o guarda-roupa, de lá saltou a encrenca: nenhum dos jaquetões, nenhum, tinha um único botão. E, sendo madrugada, não havia como comprar o que faltava – sem o que nem se poderia dizer que o doutor abotoara o paletó. 
Estavam entregues todos à perplexidade quando um dos filhos se ergueu de arranco e deixou o quarto – para retornar em menos de 1 minuto, trazendo pela orelha um dos netos do defunto, que tinha nas mãos uma caixinha, repleta de craques do futebol de botão.
*
Pesadelo ao vivo
Aquele não foi o único atrapalho na madrugada em que o doutor Afrânio bateu as suas sempre reluzentes botas. 
À meia-noite, exausta, a Elvira, cozinheira vitalícia da família, tinha se recolhido a seu quartinho, em cima da garagem. Acordou pelas 3 horas, empapada de suor e maus presságios, abriu a janela, que dava para a entrada do carro, e, aterrada, achou que o viscoso pesadelo prosseguia: lá vinham uns homens de preto, a carregar um enorme volume. 
– Alguma coisa que eu comi – decidiu a Elvira, devolvendo-se à cama. 
Como voltasse a acordar uma hora mais tarde, resolveu fazer um café para o pessoal. Ao entrar na copa, vinda da cozinha, deu de cara com uns homens, os mesmos do pesadelo!, que desciam a escada com o tal volume, de agora inequívoco conteúdo. Só faltava a moça, varada de pavor, deixar cair a bandeja com o bule, as xícaras, o açucareiro. 
Não faltou.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O alívio de fazer xixi - Suzana Herculano-Houzel



O tema é prosaico, eu sei, mas quem não conhece o alívio, quase prazer, de deixar sua bexiga se esvaziar quando ela já está mais do que esticada? A razão é que segurar o xixi dá trabalho para o cérebro, além de deixar a gente ansioso e sem conseguir pensar em outra coisa.
Urinar é algo que o cérebro consegue fazer sem precisar de controle atento. Conforme a bexiga se enche de urina, a informação sobre o seu estado de distensão é repassada pelos nervos para a medula espinhal e dali para o centro de controle da micção na ponte do cérebro. Assim que a bexiga fica cheia demais, esse centro inicia automaticamente seu esvaziamento.

Mas fazer xixi a qualquer momento, simplesmente porque a bexiga ficou cheia, não é considerado civilizado. Humanos e cachorros aprendem rapidamente que xixi tem hora e lugar graças à possibilidade de reconhecer a sensação da bexiga cheia e exercer controle cognitivo sobre o centro pontino da micção.
Se a bexiga ficar cheia demais, não tem jeito: os mecanismos de segurança falam mais alto e lá se vai a urina. Mas, até lá, o centro pontino da micção fica sob o controle do córtex pré-frontal, que só permite a micção quando, além de necessária, ela for socialmente aceitável e puder acontecer em lugar seguro.
O córtex pré-frontal, por sua vez, exerce seu controle informado pelo córtex da ínsula, que representa, entre outras sensações fisiológicas, a sensação da bexiga se enchendo. A ínsula também repassa essa informação para o córtex cingulado, que monitora a situação e dá o alerta para outras regiões do cérebro quando a coisa começa a ficar crítica. Daí em diante, tudo em que se consegue pensar é no banheiro mais próximo, enquanto o córtex pré-frontal segura as pontas, literalmente, mantendo o centro pontino inibido.
Já no banheiro, e com bênção pré-frontal, o centro pontino troca a atividade simpática, que mantém a bexiga distendida e o esfíncter contraído, por ativação parassimpática, que contrai a bexiga e relaxa o esfíncter, permitindo a passagem da urina.
Por isso fazer xixi é tão bom: além de ser um estado de ativação parassimpática, que relaxa o corpo, ainda alivia seu córtex cingulado e o pré-frontal, que estavam dando duro para mantê-lo tenso, no controle e em busca de um banheiro. Daí o alívio mental de poder soltar o xixi. É como poder contar um segredo e parar de sofrer a respeito. Aaaaah..

Suzana Herculano-Houzel, carioca, é neurocientista






domingo, 2 de junho de 2019

Delícias da violência - Mário Corso

Explicar o sucesso da série Guerra dos Tronos requer o mesmo número de páginas dessa obra enciclopédica. Vou pinçar uma das razões pelas quais essa história cativou tanto público: a violência maiúscula e onipresente do começo ao fim. Não há trégua para as mortes, torturas, decapitações, mutilações, estupros, castrações, assassinatos - inclusive de crianças. É uma série em que o mal impera e escancara suas possibilidades.

Falaria alegoricamente do nosso tempo? O senso comum pensa o século 20 e o começo do nosso como épocas bestiais. Afinal, tivemos duas guerras mundiais, bomba atômica, genocídios, totalitarismos brutais. Porém, se examinarmos dados sobre o conjunto de atos considerados crime, e o total de vítimas, estamos em declínio desde a Idade Média. O mundo está se pacificando. Não parece, mas é assim. Sugiro aos descrentes um livro de Steven Pinker: Os Anjos Bons da Nossa Natureza. Ele analisa o lento declínio da violência como um todo e o paradoxo de não acreditarmos no nosso progresso civilizatório.

O que mudou foi a sensibilidade para com a violência, agora mais aguçada. Hoje, qualquer manifestação dela é condenada terminantemente. O problema é que algumas boas almas, não satisfeitas em suprimir a agressividade real, julgam necessário exterminá-la também na virtualidade.

Para um raciocínio caricatural do politicamente correto, a violência ficcional, virtual, lúdica, onírica, enfim, de qualquer forma, seria igualmente nefasta. O ideal seria extirpar qualquer resquício de maldade. Só assim seríamos virtuosos. Falo dessas pessoas que condenam os videogames violentos, filmes de terror, são contra que as crianças brinquem com armas, como se esses produtos educassem para a violência.

Talvez essa boa vontade do higienismo da agressividade funcione em algum povo venusiano, mas certamente não em humanos. Nossa história foi imersa em violência e ainda estamos impregnados dela. Não sai na primeira lavada. Por sorte, progredimos, mas sonhamos com vinganças, na imaginação destroçamos quem nos atrapalha. É contraproducente negar o que resta em nós de primatas briguentos e nos forçar a parecer com anjos que não somos. A audiência da série é a desforra dessa tolice.

Ficções como Guerra dos Tronos espelham nossa selvageria íntima, como se a tirássemos de dentro para lhe conhecer a cara, ou melhor, as garras. Só depois de olharmos nosso chimpanzé interior nos olhos podemos domesticá-lo. É o cão que late e não morde.


Enquanto os reinos do escritor George Martin rosnam entre si, nosso lobo essencial uiva suas maldades. Depois de purgadas, esvai-se a vontade de morder os semelhantes. É difícil encontrar fórmulas para diminuir a violência, mas fazer de conta que ela não nos constitui apenas fecha a possibilidade de a arte sublimar parte dela.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...