domingo, 31 de março de 2019

Más Notícias - Luis Fernando Verissimo

Um dia você se olhará no espelho e terá uma revelação estarrecedora. Sua mulher está dormindo com outro homem! Depois descobrirá que o que vê no espelho não é outro, é você mesmo. Só que, por uma razão inexplicável, você está mais velho.
Os espelhos são de uma franqueza brutal. Na era das relações públicas, é inadmissível que a sua imagem trate você com tanta crueza. É inaceitável que o espelho lhe diga “você está com 50 (ou 60, ou, meu Deus, 70) anos assim, na cara, mesmo que quem diga seja a sua própria cara. E de manhã, na hora em que, ainda amarrotado pelo sono e antes de botar o rosto que usará durante o dia, você está mais vulnerável.
Se a cena pudesse ser confiada a um profissional da comunicação, seria diferente. Infelizmente, as piores notícias são sempre dadas por amadores. Num mundo mais justo, sua imagem no espelho poderia ser apresentada por um especialista em marketing, e em vez da sua cara no espelho revelador, você veria, por exemplo, a Patrícia Poeta.
– Patrícia! Você por aqui?
– Vim para lhe dizer que você ficará muito bem, com cabelo grisalho. Aumentará sua credibilidade. Será ótimo para os negócios.
– Eu acho que estou perdendo cabelos.
– E daí? Cabelo demais é desperdício. Os fios que ficam são os melhores.
– Será?
– As rugas realçarão seu caráter. E se um queixo já enfatiza sua masculinidade, imagine dois.
– Patrícia. Cabelos grisalhos, rugas, queixo duplo... Você quer me dizer que eu estou ficando... Velho?
– Maduro.
Ou então você deveria poder mergulhar de ponta-cabeça no espelho para descobrir como seria sua vida do outro lado dos 50 (ou 60, ou, meu Deus, 70). E se consolar com o fato de que ela não será muito diferente da vida que você leva hoje – com alguns reajustes. Você terá que evitar carnes brancas, morenas e mulatas, principalmente depois das refeições. E deixar de frequentar motéis com escadaria. Fora isso... Que venham as rugas!

sexta-feira, 29 de março de 2019

Aquela casa do Cosme Velho - Ignácio de Loyola Brandão

Não demoro, coloco a primeira frase. Eu a tenho usado dezenas de vezes. Para mim, não existem acasos, coincidências ou o que se chama agora simultaneidade. A vida traça pontos e, quando percebemos, eles estão ligados. Comecemos pela casa do Cosme Velho, no Rio de Janeiro. No dia da eleição, o candidato à Academia Brasileira de Letras deve estar naquela cidade para esperar o telefonema do presidente da ABL, que irá comunicar sua eleição para a vaga pretendida. Em seguida, um grupo de acadêmicos se dirige ao local para os cumprimentos, sendo recebidos com um coquetel. É o cerimonial da celebração.
Quando a eleição se aproximava, e como moro em São Paulo, veio a questão: onde esperar o chamado? Quando a editora Global pensava em alugar um espaço ou reservar hotel, recebi um e-mail de Cicero Sandroni, também acadêmico e amigo de muitos anos. Ele me disse: “Dois eleitos esperaram o anúncio aqui em minha casa, Nelson Pereira dos Santos e José Murilo de Carvalho. Ela, a casa, está à sua disposição. Laura e eu vamos ter o maior prazer se você aceitar”. Ora, adoro Laura Sandroni, das maiores especialistas em literatura infantil deste Brasil e presidente emérita da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Respondi sim e a Global preparou a festa.
No dia, chegamos cedo ao Rio de Janeiro, fomos para o hotel e as horas não passavam. Deveria chegar no máximo às 16h30 à casa de Laura e Cicero, no Cosme Velho, bairro onde morou Machado de Assis. No táxi, inquietos, Marcia, Rita e eu, nos vimos envolvidos pelas manifestações pró-Marielle (esta sim, tornada mito) no aniversário de sua morte. Tudo parado, o motorista tentava se desviar, mas não há muitas variáveis no trânsito do Rio. 
De repente o telefone tocou, era Marco Lucchesi, o presidente da Academia me comunicando: “Vitória unânime. Já estamos indo ao seu encontro”. E eu não estava lá. Apesar do ar condicionado, ansioso, comecei a suar dentro do carro. E se não chegasse antes? Quebraria o ritual? Estava começando mal? 
Chegamos. A casa de Cicero e Laura, aconchegante, fica numa encosta de morro, rodeada de verde. Entrei atordoado, pareceu-me atravessar uma névoa, fui abraçando, reconhecendo as pessoas, tirei fotos com todo mundo, fui levado por fotógrafos, puxado por cinegrafistas, pessoas amigas chegavam, também atrasadas, contentes, a festa rolou. Por horas, aquela família Sandroni, Laura, Paula, Luciana, Cicero e Dudu foram a minha família, eram anfitriões e como que parentes. Pura emoção.
Então, tudo ficou claro. Minha vida tinha muito a ver com esta casa onde eu nunca tinha entrado. No entanto, ela fez parte de minha vida em um momento dos mais importantes para o País, para a cultura e para mim. Aqui nasceu um dos movimentos na luta contra a ditadura militar (essa que Bolsonaro diz não ter existido). Nesta casa, no final de 1976, foi redigido o Manifesto dos 1.046 intelectuais que ousaram repudiar a censura que corria solta. Tudo feito em sigilo, como era necessário, para evitar represálias, prisões e outras coisas desagradáveis (que nosso presidente admite serem necessárias) que costumavam acontecer na época.
No Manifesto, entre outros, figuram nomes como os de Antonio Candido, Sergio Buarque de Holanda, Jorge Amado, Antonio Callado, Carlos Heitor Cony, Otto Maria Carpeaux, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende. 
Foi, desde 1968, a maior manifestação de intelectuais, contra o golpe militar de 1964. Na “sequência de inexplicáveis arbítrios”, diz o documento, “a censura proibira os livros Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, Aracelli, Meu Amor, de José Louzeiro, e Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. O documento destinava-se a frear o trator dos censores, acentuando com veemência: “Nós, para quem a liberdade de expressão é essencial, não podemos ser continuamente silenciados. O nosso amordaçamento há de equivaler ao silêncio do próprio Brasil e à sua inequívoca conversão em país que muito pouco terá a dizer brevemente”.
Zero, escrito durante dez anos, me lançou primeiro nacional e internacionalmente. Graças à coragem de Lygia Jobim, uma editora audaciosa, saiu no Brasil, foi proibido, liberado, está até hoje circulando. Sem ele, não seria o que sou hoje. Nada teria acontecido. Caminhei pela casa do Cosme Velho, ali tinham se reunidos defensores da liberdade de expressão, da cultura, da fala, das opiniões contrárias. Tudo que parece ameaçado de novo outra vez.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Bombeiros, taxistas e professores - Roberto DaMatta

“Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina!”
Ouvi esse estúpido mantra brasileiro desde menino e, quando me tornei um profissional do ensino, pensei muito nesse horror nacional ao estudo e à reflexão, ao lado do entusiasmo permanente com a malandragem e suas éticas e métodos que estudei em Carnavais, Malandros e Heróis, um livro que, por sinal, completa 40 anos. Quem gostava de ler e escrever – e eu sempre fui um devorador de livros porque fazia muitas perguntas para o mundo –, tinha como destino ser pobre ou louco. “Esse menino vai enlouquecer: ele vive lendo...” Sempre tomei essa admoestação como um aviso inútil, porque eu já sabia da minha loucura. 
Mas depois de décadas vivendo de ler, ensinar, escrever e estudar (que, entre outras coisas, é ler até compreender), treinado pelo compasso de uma sociologia comparativa, acho que entendo a reação negativa que a leitura causa no estilo de vida brasileiro. 
A mais importante é, sem dúvida, o rompimento relativo com o grupo social e familiar, já que o livro isola, individualiza e torna o descendente mais sabido do que o ancestral ou  mais rico. A sabedoria é (ou era...) modesta. Ela atua silenciosamente, mas, quando aparece, desmascara a ignorância, quebrando o controle absolutista da autoridade dos pais e dos poderosos. Pode, então, assumir uma feição perigosa num sistema tão amarrado em si mesmo como o nosso. Quase sempre, ler é desobedecer...
Aliás, toda sociedade que universalizou o seu saber se tornou mais igualitária, criando contextos competitivos saudavelmente meritocráticos. Esse aprendizado que o poder à brasileira, baseado nos privilégios do cargo e nos favores pessoais, entende como “fazer política”: isto é, tomar cafezinho, “arrumar colocação” e conversar!
Mesmo nesse Brasil até hoje condenado à ignorância como valor, a melhor escolha é um livro.
*
No final do século 19, dois jovens italianos resolvem imigrar. O mundo se abria para eles na forma de um símbolo de bem-estar social chamado América e de um outro chamado Brasil. Um era frio e puritano; o outro, tropical e misturado – católico. 
Decidiram pelo Brasil e vieram parar em São Paulo onde, em 1888, se tentava branquear a sociedade, mas não havia pão; exceto os fabricados em casa. O mais velho, Nicolau, adaptou-se, o mais novo, Victorio, achou a falta de pão um acinte e partiu para New Jersey, Estados Unidos.
Lá, empregou-se justamente num pioneiro restaurante pizzaria, orgulhoso de manufaturar o próprio pão. Nicolau acabou fundando sua família em Minas Gerais e Victorio fez o mesmo em New Jersey. Diz o folclore da família (que o espírito da literatura me dá o direito de ficcionalizar) que um dos filhos de Victorio,  Salvatore, foi vizinho da família Sinatra em Hoboken e que sua irmã, Sofia, namorou o cantor.
O tempo passou e um dos netos de Nicolau, Vicenzo, virou jornalista, fez um brilhante curso de História em Belo Horizonte e, no Rio de Janeiro, especializou-se em Antropologia Social no Museu Nacional e ali foi pesquisador. Aposentou-se nominalmente, pois continua atuando em Brasília. 
Pelo seu trabalho como professor, educador e pesquisador de ameríndios da área de um Goiás então inóspito e por ter realizado trabalho de campo numa sociedade indígena virgem de estudos, Vicenzo foi honrado com uma bolsa de pesquisa concedida pelo Peabody Museum da Universidade de Harvard. Assim que chegou a Cambridge, Massachusetts, localizou seus tios e primos da família que havia escolhido os Estados Unidos e vivia em New Jersey.
Organizou-se um jantar em sua homenagem. Ao chegar à casa de um dos primos, que exercia a nobre profissão de bombeiro, Vicenzo não pôde deixar de notar o conforto da residência forrada de tapetes e tendo um aparato de cozinha moderno. Ficou impressionado com a geladeira e assombrado com o belo carro Oldsmobile azul de transmissão automática do primo. 
Vicenzo que ainda não tinha uma televisão ou uma torradeira elétrica, e muito menos um carro no Brasil, surpreendeu-se mais ainda com o modo respeitoso e quase bíblico com o qual foi recebido quando seus outros primos chegaram e apertaram sua mão orgulhosos de ter um “professore” e um autor de livros científicos na família.
Sou um mero professor, repetia Vicenzo com o copo cheio de bom vinho, enquanto a família americana, constituída de bombeiros, marceneiros e taxistas, reiterava que ele era o “professore”. Era o  que educava e, com a aparentemente fraca, mas penetrante luz da inteligência,  tentava tornar o mundo um lugar mais feliz e justo. Muito diferente do Brasil onde ninguém reconhecia o seu trabalho como intelectual e onde ele, angustiado, viu na televisão o seu amado Museu Nacional – que ele imaginava eterno – pegar fogo.

terça-feira, 26 de março de 2019

No dia em que eu for muito culta - Ruth Manus

Um dia eu pretendo ser muito culta. Mas um tipo de pessoa culta na qual tudo parece absolutamente natural. As afirmações mais interessantes e os comentários mais pertinentes fluirão com tamanha leveza que ninguém jamais aventará a hipótese de ser um comportamento guiado pela arrogância. Um dia serei uma pessoa inevitavelmente culta, daquelas que parecem que já nasceram sabendo tudo aquilo e que a cultura, nelas, é tão natural quanto unhas e dentes e cabelos.
Quando for muito culta, ouvirei os nomes das árvores e a imagem delas virá naturalmente até os meus pensamentos. Não precisarei da Barsa, nem do Google. Conhecerei o tronco da seringueira, as folhas do jatobá, os galhos da sequoia e as flores do mogno como conheço a palma da minha própria mão. Caminharei pela rua e direi tranquilamente que os manacás ficam mesmo lindos nessa época do ano.
Quando eu for muito culta, eu saberei diferenciar a quinta da nona sinfonia de Beethoven com obviedade. E a sinfonia número 40 de Mozart me lembrará concertos aos quais já fui e não o toque do velho despertador azul que meu pai tinha na mesa de cabeceira quando eu era criança. Também identificarei com naturalidade quais são os sambas de Nelson Sargento, Riachão e de Dona Ivone Lara. Cantarei as letras de Cartola e Noel com a mesma facilidade com a qual berro os versos de Adoniran em madrugadas embriagadas.
Quando eu for muito culta, terei lido todas as obras-primas dos grandes escritores russos. Tolstoi, Gogol, Chekhov, Dostoievski. E, sobretudo, saberei escrever todos esses nomes sem medo de errar. Outros nomes que saberei escrever sem dúvida alguma serão Schopenhauer, Heidegger, Nietzsche e Kierkegaard. Mencionarei filósofos como quem menciona personagens de novela: próximos, íntimos e passíveis de um juízo de valor exclusivamente meu. Hannah Arendt e Simone de Beauvoir serão como amigas com quem sempre conversei na mesa do bar.
Quando eu for muito culta, serei a rainha das proparoxítonas. Escreverei frases encantadoras como “aquele príncipe húngaro míope, andrógino e bígamo, desceu uma escada íngreme e úmida, ávido por emoções efêmeras, mas foi empurrado por um vândalo nômade e afogou-se num pântano cheio de angústia”. Conhecerei tão, mas tão bem as proparoxítonas da língua portuguesa, que a Construção do Chico parecerá apenas uma pequena ampola dessas palavras mágicas.
Quando eu for muito culta, encontrarei utilidade para tudo o que me ensinaram (ou pelo menos tentaram me ensinar) na escola. Identificarei as orações subordinadas substantivas completivas. Diferenciarei plantas briófitas, pteridófitas, angiospermas e gimnospermas. Aplicarei a distributiva a torto e a direito, depois de resolver boa parte dos problemas da minha vida com a fórmula de Bhaskara. Olharei os rótulos dos meus cosméticos identificando propanona e formaldeído. Ao fazer curvas inexatas com meu carro entenderei se o fato foi obra da força centrípeta ou da força centrífuga. Reconhecerei se o solo no qual piso é arenoso, argiloso, humoso ou calcário. Honrarei cada centavo que meus pais gastaram com a minha educação.
Quando eu for muito culta, todos saberão que sou culta, menos eu. Eu julgarei que todas aquelas são informações absolutamente naturais, cultura atávica talvez. Não julgarei os que não sabem, mas eu sempre saberei. Farei jus ao meu espaço nas folhas do jornal e ao meu título de doutora. Não deverei nada a ninguém. Não haverá brecha para formularem questões sobre merecimento ou privilégios. Será claro e evidente que esta mulher, tão assustadoramente culta, apesar de tudo, não poderia não estar onde está.

Boas-pintas - Luis Fernando Verissimo

A foto do Bellini levantando a taça no final da Copa do Mundo de 58, na Suécia, a primeira que nós ganhamos, virou ícone instantâneo. De todas as imagens que ficaram daquela Copa sem TV – o Garrincha fazendo vários Joões dançarem, o Didi pegando a bola no fundo do nosso gol depois que a Suécia marcou primeiro, no último jogo, e caminhando com ela embaixo do braço como um pai carregando uma criança malcriada pra casa, o lençol do Pelé sobre um sueco atônito antes de marcar o mais bonito dos seus seis gols na competição –, a do gesto triunfal do Bellini foi a que mais ficou.
Tanto que, dizem, nas convocações para as Copas futuras houve a preocupação de se prever a repetição da cena: quem levantasse a taça teria que ser uma figura igualmente hierárquica e bonita
Na Copa seguinte – 62, no Chile –, o Bellini estava na delegação, mas o titular foi o paulista Mauro, que também era alto e, como se dizia na época, boa-pinta, e fotogênico. Foi ele quem levantou a taça. Não sei se é verdade, mas contavam que depois do Bellini o quesito “boa-pinta” passou a ser critério para escolha do capitão, ou pelo menos de um dos zagueiros, da Seleção.
Só isto explicaria a convocação, por exemplo, do baiano Fontana, um jogador supostamente medíocre, mas bonito, que fazia dupla com o Brito no Vasco da Gama e não faria feio imitando o Bellini de 58 numa vitória no México em 70. Fontana não chegou a jogar na Copa do México, que eu me lembre. Brito e Piazza foram os nossos zagueiros de área. Mas diziam que, no caso de a vitória do Brasil na final estar assegurada, o Brito, com sua cara de homem das cavernas, seria rapidamente substituído pelo Fontana antes do fim do jogo só para este ser fotografado levantando a taça. Mas isto já deve ser maldade.
Nada a ver, mas também dizem que uma das condições para chegar a comandante de aviões de passageiros é ter voz de comandante. Duvido que exista mesmo esta norma, mas a verdade é que até hoje não ouvi nenhum comandante de voz fina. O preconceito não se justificaria: nada impede que um piloto de voz fina seja mais confiável do que um de voz grossa. Mas entende-se a preocupação.
Os cursos de pilotagem incluiriam aulas de dicção e impostação de voz, ou então – também se especula – alguns aviões teriam, na cabine de comando, um locutor cuja única função seria dirigir-se aos passageiros numa voz máscula e firme, de quem estará nos controles e saberá o que fazer não importa a situação, no lugar de um piloto esganiçado que poderia causar pânico entre os passageiros com sua primeira comunicação. Para voar com segurança você precisa imaginar que o comandante é o William Bonner.

A Revolução Não Acontecerá Pela Internet


Gil Scott-Heron - The Revolution Will Not Be Televised



You will not be able to stay home, brother
You will not be able to plug in, turn on and drop out
You will not be able to lose yourself on skag and skip
Skip out for beer during commercials
Because the revolution will not be televised
The revolution will not be televised
The revolution will not be brought to you by Xerox
In 4 parts without commercial interruption
The revolution will not show you pictures of Nixon
Blowing a bugle and leading a charge by John Mitchell
General Abrams and Spiro Agnew to eat
Hog maws confiscated from a Harlem sanctuary
The revolution will not be televised
The revolution will be brought to you by the Schaefer Award Theatre and
will not star Natalie Wood and Steve McQueen or Bullwinkle and Julia
The revolution will not give your mouth sex appeal
The revolution will not get rid of the nubs
The revolution will not make you look five pounds
Thinner, because The revolution will not be televised, Brother
There will be no pictures of you and Willie Mays
Pushing that cart down the block on the dead run
Or trying to slide that color television into a stolen ambulance
NBC will not predict the winner at 8:32or the count from 29 districts
The revolution will not be televised
There will be no pictures of pigs shooting down
Brothers in the instant replay
There will be no pictures of young being 
Run out of Harlem on a rail with a brand new process
There will be no slow motion or still life of 
Roy Wilkens strolling through Watts in a red, black and
Green liberation jumpsuit that he had been saving
For just the right occasion
Green Acres, The Beverly Hillbillies, and 
Hooterville Junction will no longer be so damned relevant
and Women will not care if Dick finally gets down with
Jane on Search for Tomorrow because Black people
will be in the street looking for a brighter day
The revolution will not be televised
There will be no highlights on the eleven o'clock News
and no pictures of hairy armed women Liberationists and 
Jackie Onassis blowing her nose
The theme song will not be written by Jim Webb, Francis Scott Key
nor sung by Glen Campbell, Tom Jones, Johnny Cash
Englebert Humperdink, or the Rare Earth
The revolution will not be televised
The revolution will not be right back after a message 
About a whitetornado, white lightning, or white people
You will not have to worry about a germ on your Bedroom
a tiger in your tank, or the giant in your toilet bowl
The revolution will not go better with Coke
The revolution will not fight the germs that cause bad breath
The revolution WILL put you in the driver's seat
The revolution will not be televised
WILL not be televised, WILL NOT BE TELEVISED
The revolution will be no re-run brothers
The revolution will be live

Compositor: Gil Scott-Heron


Tradução: Lubi Prates
Você não vai poder ficar em casa, amigo.
Você não vai poder desativar o roaming ou roubar o wi-fi do vizinho.
Você não vai poder continuar jogando Candy Crush
ou olhando as fotos de gatinhos no Facebook
porque a revolução não acontecerá pela internet.
A revolução não acontecerá pela internet.
A revolução não será vista com filtros do Snapchat ou Instagram,
num p&b vintage ou, previsivelmente, apenas em branco.
A revolução não virá por drone ou se organizará pela deep web
ou estourará quando vazar o sex tape onde Donald Trump, Marine Le Pen e Putin
gozam como porcos com as mãos de Perón restauradas,
com nail art e germicida gel.
A revolução não acontecerá pela internet.
A revolução não sairá, com exclusividade, no Netflix, produzida pelo Tom Hanks, dirigida pelo Oliver Stone e protagonizada pelo Gael García Bernal porque ser progressista não diminui a elegância.
A revolução não esculpirá milimetricamente em você o abdômen com o qual sempre sonhou,
ou te dotará com um milagroso pau com garras,
ou te fará crescer uma barba de lenhador mais forte e mais sedosa,
porque a revolução não acontecerá pela internet, amigo.
A revolução não apagará por dermobrasão
essa tatuagem do Che que você fez nos anos noventa.
Não aumentará o tráfego do seu site, não te dará mil likes,
não te transformará em um Twitterstar ou num garanhão do Tinder.
A revolução, se acontecer, não será coisa de machões.
A revolução não acontecerá pela internet.
Não verá por streaming a polícia reprimindo,
metendo bala de borracha e gás lacrimogênio,
porque minha avó contou que um taxista lhe disse
que escutou no rádio que esses manifestantes
não gostam de trabalhar, mas precisamos de um país sério,
uma revolução de alegria.
Ninguém deixará comentários anônimos
nos sites dos jornais e ninguém assistirá
Dança dos famosos ou Almoço com as estrelas
ou a Primeira Divisão, ninguém falará sobre o Fantástico
ou sobre o Fala que eu escuto.
E as crianças, em vez de caçar Pokémon,
estarão nas ruas buscando algo melhor.
Não será trending topic ou tema de algum documentário
coproduzido pela UNESCO e pela Goldman Sachs, que mencione de passagem o #NiUnaMenos,
e seja narrado pelos filhos importados de Brad Pitt e Angelina.
O soundtrack não será U2 nem Mano Chao.
Calle 13 também não fará seu “grãozinho de areia” pela paz e se falará de Silvio Rodriguez menos ainda:
ele estará procurando seu unicórnio.
A revolução não acontecerá pela internet.
A revolução não será monetizada pelo Adsense, mas se você quiser
poderá inseri-la no seu perfil do Linkedin que, como todo mundo sabe,
é a mentira mais piedosa do capitalismo.
A revolução não passará no desafio da brancura.
A revolução não arrancará o tigre que há em você, nem o empresário.
A revolução não limpará sua privada ou sua mente liberal.
A revolução não te vestirá a camiseta ou a calça.
A revolução vai te pilhar.
A revolução não estará em todos os seus dispositivos, amigo.
A revolução será ao vivo.

Fracassos no infinitivo - Bernadette Mayer


Bernadette Mayer é uma poeta, escritora e artista visual americana associada aos poetas da Linguagem e à New York School.

Fracassos no infinitivo
Tradução: Mariana Ruggieri
por que estou fazendo isso? Fracasso para
manter meu trabalho em ordem para então
poder encontrar coisas para
pintar a casa para
ganhar dinheiro suficiente para viver para
reorganizar a casa para então
poder pintar a casa & para
poder encontrar coisas e
ganhar dinheiro suficiente para então
poder costurar livros para
publicar obras e livros para
ter tempo para
responder correspondências & telefonemas para
lavar as janelas para
tornar a cozinha melhor para o trabalho para
ter dinheiro para comprar um rádio simples para
escutar enquanto trabalho na cozinha para
saber o suficiente para fazer no mundo o trabalho adulto para
transcender minha atitude para
uma pobreza compulsória para
poder esperar os cheques
chegar a tempo pelo correio para
não sempre esperar que eles não vão para
esquecer as atitudes da minha mãe com a humildade ou para
continuar a
assumir sem sofrer para
esquecer como minha mãe enlouquecia meu pai
com dinheiro, minha irmã sobre não posso dizer
fracasso para esquecer mãe e pai o suficiente para
ser mais velha, para esquecer para
esquecer meu tio obssessivo para
lembrar de outra maneira para
lembrar com precisão seus preconceitos para
cessar de sonhar com leões que para sempre é
sonhar com eles, eu coloco minha mão na boca do leão para
arrefecer sua raiva, isso não é um fracasso para
perceber que eles eram assim; fracasso para
trocar de planta os vasos para
ser organizada para
criar & manter superfícies limpas para
deixar um sofá ou uma cadeira ser um lugar para sentar
e não uma mesa para
deixar a mesa ser um lugar para comer & não uma escrivaninha para
escutar mais música popular para
aprender as letras para
não precisar de dinheiro para então
poder escrever o tempo todo para
não ter que pagar aluguel, condomínio ou contas de telefone
esquecer a morte precoce de pais e tios para então
ficar livre de esperar cuidados; fracasso para
amar objetos
encontrar neles qualquer valor; fracasso para
preservar objetos
comprar objetos e
agora deixar caídos na sarjeta; fracasso para
pensar em poemas como objetos
pensar o corpo como um objeto; fracasso para
acreditar; fracasso para
saber nada; fracasso para
saber tudo; fracasso para
lembrar como soletrar fracasso; fracasso para
acreditar no dicionário & que há algo para
alcançar; fracasso para
ensinar direito; fracasso para
acreditar no ensino para
só achar que todo mundo sabe tudo
que não é o meu fracasso; eu sei que todo mundo sabe; fracasso para
ver que não todo mundo acredita nesse saber e
pensar que não podemos durar até o sucesso do saber
lavar toda a louça leva apenas dez minutos
escrever mil poemas em uma hora para
fazer um épico, abra a janela suja para
deixar entrar você sabe quem e para
expirar pensamentos e poemas longe dos problemas para
deixar a gente saber, a gente deixa para
pintar seus tetos & paredes de graça
______________________________________________________________________________
Failures in Infinitives
Bernadette Mayer
why am i doing this? Failure
to keep my work in order so as
to be able to find things
to paint the house
to earn enough money to live on
to reorganize the house so as
to be able to paint the house &
to be able to find things and
earn enough money so as
to be able to put books together
to publish works and books
to have time
to answer mail & phone calls
to wash the windows
to make the kitchen better to work in
to have the money to buy a simple radio
to listen to while working in the kitchen
to know enough to do grownups work in the world
to transcend my attitude
to an enforced poverty
to be able to expect my checks
to arrive on time in the mail
to not always expect that they will not
to forget my mother’s attitudes on humility or
to continue
to assume them without suffering
to forget how my mother taunted my father
about money, my sister about i cant say it
failure to forget mother and father enough
to be older, to forget them
to forget my obsessive uncle
to remember them some other way
to remember their bigotry accurately
to cease to dream about lions which always is
to dream about them, I put my hand in the lion’s mouth
to assuage its anger, this is not a failure
to notice that’s how they were; failure
to repot the plants
to be neat
to create & maintain clear surfaces
to let a couch or a chair be a place for sitting down
and not a table
to let a table be a place for eating & not a desk
to listen to more popular music
to learn the lyrics
to not need money so as
to be able to write all the time
to not have to pay rent, con ed or telephone bills
to forget parents’ and uncle’s early deaths so as
to be free of expecting care; failure
to love objects
to find them valuable in any way; failure
to preserve objects
to buy them and
to now let them fall by the wayside; failure
to think of poems as objects
to think of the body as an object; failure
to believe; failure
to know nothing; failure
to know everything; failure
to remember how to spell failure; failure
to believe the dictionary & that there is anything
to teach; failure
to teach properly; failure
to believe in teaching
to just think that everybody knows everything
which is not my failure; I know everyone does; failure
to see not everyone believes this knowing and
to think we cannot last till the success of knowing
to wash all the dishes only takes ten minutes
to write a thousand poems in an hour
to do an epic, open the unwashed window
to let in you know who and
to spirit thoughts and poems away from concerns
to just let us know, we will
to paint your ceilings & walls for free

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...