domingo, 10 de fevereiro de 2019

Para sair da cama - Luis Fernando Verissimo

Chega a um ponto em que você precisa ter uma razão muito forte para sair da cama de manhã. Nénão? Um motivo sério, imperativo, irrecusável para se levantar, escovar os dentes, tomar banho, se vestir e sair para a vida em vez de ficar na cama o dia inteiro. Essas razões são cada vez mais escassas. E precisam ser hierarquizadas e colocadas numa perspectiva.
Razão nº 1 para sair da cama de manhã: mudar o mundo. Difícil. Sua capacidade para regenerar a humanidade e salvar o planeta da autodestruição é zero. Mesmo se acordasse com superpoderes e, depois de se certificar de que sua sensação de onipotência não era efeito da ressaca da noite anterior, saísse para a tarefa de acabar com a insensatez humana e as barbaridades no mundo, não saberia por onde começar. Dizem que o próprio Super-Homem disse “Cansei”, desistiu de combater o Mal e hoje vive de levar crianças para voar num parque de diversões. Ou então fica na cama o dia inteiro.
Outra razão para sair da cama de manhã: trabalhar. Uma razão nobre. Ganhar a vida honestamente. Garantir meu sustento sem explorar ninguém e garantir o uísque das crianças. Mas já trabalhei demais. As crianças estão encaminhadas na vida. Não me pedem mais dinheiro. Ou me pedem e eu finjo que não ouço, o que é a mesma coisa. O tipo de trabalho que eu faço, na tabela das atividades que afetam a vida e o conhecimento das pessoas, está em 65º lugar, logo depois de empalhador de marmotas. Se eu ficasse o resto da vida na cama, sem trabalhar, ninguém iria notar a diferença.
Razão nº 3 para sair da cama: a perspectiva de um bom café da manhã. Mas um bom café da manhã pode ser servido na cama. O único problema seria convencer sua mulher de que você acordou paralisado e precisa do iogurte na boca – todos os dias!
Outra razão para sair da cama: dar o exemplo. O que diriam os outros cidadãos de um homem ainda razoavelmente saudável e ambulante que prefere ficar na cama o dia inteiro? O que diriam a mulher, os filhos, os vizinhos, a posteridade? Meu legado seria o de alguém que concluiu que nada vale a pena e tudo é inútil, começando por sair da cama. Minha postura seria a de uma estátua simbolizando uma revolta contra a morte e o absurdo da existência, só que na horizontal. Meu legado seria de preguiça, certo, mas de uma preguiça com fundo filosófico.
A última e decisiva razão para sair da cama de manhã: você precisa fazer xixi. Não tem jeito: você sai da cama.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Furacão em Copacabana / Barbas e não barbas - Humberto Werneck

Furacão em Copacabana


Nestes tempos de nerds e startups, fica difícil imaginar as condições para lá de amadorísticas em que surgiu e vicejou, quase 60 anos atrás, um empreendimento vitorioso como a Editora do Autor, marco na história da edição no Brasil, de vida breve mas capaz de fazer a cabeça de uma geração de escribas e leitores. Para que se tenha ideia do grau de improvisação em seus começos, basta dizer que o primeiro lançamento, Furacão sobre Cuba, improvisada coletânea de escritos jornalísticos de Jean-Paul Sartre, levou apenas 7 dias – isto mesmo, uma semaninha – para ser organizado, traduzido, impresso e lançado, com enorme sucesso, no Rio de Janeiro.
Nem Rubem Braga e nem Fernando Sabino, criadores da editora, teriam acreditado, duas semanas antes, naquele furacão editorial sem precedentes, em cujo rastro viriam livros, entre outros, de Drummond, Vinicius, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, João Cabral, Jorge de Lima, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e, claro, de seus editores. 
Rubem, com numerosas seleções de crônicas, e Sabino, com o romance O Encontro Marcado, já eram escritores conhecidos e reconhecidos. O primeiro, contemplativo e de poucas palavras, estava quieto no seu canto, até que Sabino, seu oposto no temperamento, lhe introduziu na cabeça umas indóceis minhocas editoriais. 
Dez por cento sobre o preço de capa dos livros era remuneração curta demais para um escritor, insistia o cronista e romancista mineiro – e, antevendo a caixinha de música que seria o tilintar de moedas na conta bancária, propunha ao Braga: por que não editamos nós mesmos aquilo que escrevemos? A ideia, naquele ano de 1960, lhe viera numa conversa com o jurista Walter Acosta, que se dava bem com um esquema de editar por conta própria seus escritos sobre direito processual penal. 
Cutucado por Sabino, Rubem se animou – e se puseram os dois, e mais Acosta, a formatar (verbo que então nem existia, pois, segundo o Houaiss, só chegou aos dicionários em 1964) a Editora do Autor. Além deles mesmos, mandariam para as livrarias, de saída, obras de amigos como Vinicius de Moraes e Paulo Mendes Campos, que cobriam os respectivos custos. Para tanto, alugou-se espaço no 70 da rua Araújo Porto Alegre, grupo 413. “Acho meio exagerado chamar aquelas salinhas de ‘grupo’”, escreveu o Braga, “mas o Acosta disse que isso dá boa impressão no interior.”
Estavam as coisas ainda meio informes quando, na casa de Jorge Amado, em Salvador, Rubem Braga conheceu Jean-Paul Sartre – e, entre uma birita e outra, na companhia também de Simone de Beauvoir, propôs a ele reunir em livro uma série de artigos que escrevera depois de recente estada em Cuba, onde a Revolução de Fidel e Guevara mal completara um ano no poder. Sartre nem pestanejou seu olho torto: não só deu sinal verde como abriu mão de seus direitos, generosidade que, segundo o Braga, faria dele, do ponto de vista de qualquer editor, “o autor ideal”. 
O cronista, que nas memórias de Simone de Beauvoir é apresentado como “un journaliste de Rio” (melhor do que Sabino, não mais que “um dos amigos” do Braga e “un catholique de gauche”), voou de volta ao Rio, levando aos comparsas a boa nova – mas também um problema: como aprontar o livro a tempo de que o autor pudesse estar no lançamento? 
Os 17 textos de Sartre foram traduzidos no galope, num mutirão para o qual foram mobilizados amigos dos editores, e entregues sem tardança à goela de uma gráfica – tudo, como se disse, em não mais de uma semana. Não se sabe se para encorpar o volume ou pegar carona em Sartre, a Furacão sobre Cuba se acrescentaram reportagens de Braga e Sabino que, meses antes, na comitiva de Jânio Quadros, candidato à presidência da República, tinham visitado a ilha de Fidel.
O livro seguiu direto das máquinas para a noitada de lançamento, dia 17 de setembro, no Super Shopping Center, hoje Shopping Cidade Copacabana, na rua Siqueira Campos, cuja construção ainda nem estava terminada. Houve o sufoco adicional de que, passando já da hora marcada, Sartre não aparecia.
A multidão, impaciente e ruidosa, fora engrossada por um magote de estudantes simpatizantes da revolução cubana. “Estamos fritos”, suava frio Acosta. Sabino, por sua vez, se preocupava com a inexistência de eventual rota de fuga, pois, como contou em crônica três dias mais tarde, os responsáveis pela construção tinham mandado “cercar de tábuas as saídas todas”. Quanto ao Braga, sorrateiramente se escafedera, constatou Sabino, que foi encontrá-lo longe dali, pendurado a um telefone. “Não nos deixe lá sozinhos”, suplicou o sócio, “vem ajudar a aguentar a mão, se acontecer alguma coisa”. 
Felizmente não foi preciso, pois Sartre finalmente deu as caras. Sobre ele, em tietagem frenética, abateu-se a multidão, no que hoje seria um tsunami de selfies. Noite adentro, entre cachimbadas, teve ele que botar seu jamegão em nada menos de 800 exemplares de Furacão sobre Cuba – e não é impossível que, de si para si, tenha confirmado então, na própria pele, sua frase famosa segundo a qual o inferno são os outros.

Barbas e não barbas

Foi dito aqui, na última conversa, que Rubem Braga e Fernando Sabino, na improvisada estreia de sua Editora do Autor, em setembro de 1960, adicionaram escritos seus ao livro Furacão sobre Cuba – coletânea de artigos de Jean-Paul Sartre a propósito de visita que fizera à ilha de Fidel Castro, onde a revolução tomara o poder fazia pouco mais de um ano. Lembrou-se ainda que os dois cronistas também tinham estado em Havana, em março daquele ano, acompanhando, como jornalistas, uma comitiva de Jânio Quadros, então candidato à Presidência da República. Na volta, publicaram suas impressões – Braga na revista Senhor, Sabino no Jornal do Brasil. E, na amalucada aventura de organizar, traduzir e botar na praça – tudo isso em sete dias – a prosa jornalística do filósofo francês, decidiram acrescentar a ela as suas próprias reportagens. 
A crônica da semana passada ateou em vários leitores – sim, os há! – a vontade de saber dos textos que ajudaram a encorpar o lançamento inaugural da Editora do Autor, escritos que, por decisão de Braga e Sabino, não tardaram a desaparecer das reedições de Furacão sobre Cuba. Os motivos da subtração editorial não foram revelados, mas é possível imaginar o que levou a ela. Primeiro, tratava-se de textos jornalísticos, por sua natureza escritos para o dia, para no máximo o mês seguinte. Depois, a radicalização do regime cubano, cada vez mais embicado para a esquerda, pode ter levado os dois cronistas, no início simpáticos à novidade, como tanta gente, a concluir que era hora de tirar o time.
Quase seis décadas depois, quem quiser ler o relato de Rubem Braga terá que garimpar nas hemerotecas a edição de junho de 1960 da Senhor, ou recorrer a uma seleta da revista editada por Ruy Castro para a Imprensa Oficial paulista. O texto, sob título morno – “Cuba: o assunto é revolução” –, não demorou a se cobrir de pátina. Mesmo quando em tinta fresca, aliás, a reportagem quase nada tinha da graça daquele que Stanislaw Ponte Preta apelidou de “O sabiá da crônica”. Talvez um pio no quarto parágrafo, no qual o Braga alfineta Fidel Castro por não ter cumprido a promessa de raspar a barba tão logo tomasse o poder. 
A explicação, arrisca o cronista, poderia estar no fato de que o movimento não estava ainda suficientemente firme nos arreios; e também na constatação de que o jovem (33 anos) Fidel, embora dono de “testa bonita e um invejável nariz grego”, tinha “o queixo curto”, imperfeição da natureza que uma barba viera camuflar, de modo a conferir “dignidade” à cabeça do cabeça da Revolução. 
Tão escaldado quanto cético, Braga observou que Cuba estava sendo “governada por jovens inexperientes”, sendo de admirar que não tivessem praticado “um maior número de tolices”. E reproduziu o que ouvira de um brasileiro estabelecido no país havia décadas: “Você bota um Carlos Lacerda esquerdista de presidente da República e os rapazes da UNE formando o ministério, e terá uma ideia do governo de Cuba”. 
Ao contrário de Rubem Braga, Fernando Sabino, passados alguns anos, não viu problema em exumar sua reportagem cubana – “A revolução dos jovens iluminados” – e incluí-la em livro. Competente editor que era, não o fez sem antes barbear e escanhoar o texto, tosando aqui e ali madeixas que a empolgação da hora fizera por demais assanhadas. Ladino, viu que o assunto renderia mais de uma abordagem, para publicação em diferentes coletâneas de escritos (De cabeça para baixoO gato sou eu e o interessante e pouco lido Livro aberto), nas quais encaixou também histórias colhidas nas franjas da reportagem. 
Dessas, uma das mais saborosas ocorreu numa recepção na embaixada brasileira, durante a qual Fidel conversou com jornalistas. Antes do papo, alguém o convenceu a tirar o cinturão em que levava seu intimidador Colt 45. Mais tarde, nas despedidas, o comandante distraiu-se, e bom tempo se passou até que, longe dali, desse pela falta da arma. 
Uns gatos pingados remanesciam na embaixada quando, sem avisar, Fidel irrompeu no salão. Não encontrando mais que o cinturão, mandou às favas a diplomacia: “Detesto ladrões”, rugiu ele, acrescentando que preferia “levar um tiro a ser roubado”. 
Único jornalista presente no esgarçado fim de noite, Sabino chegou a temer que as suspeitas recaíssem sobre ele. Se isso acontecesse, programou, nada lhe restaria senão sacar a frase célebre de Fidel ao ser condenado, em 1953, pela ditadura de Fulgencio Batista, que ele poria abaixo poucos anos mais tarde: “A História me absolverá!”. 
Nunca se soube quem surrupiou a pistola do timoneiro da revolução cubana – “presente de Che Guevara”, registrou Sabino, “chapeada a ouro na culatra, com o seu nome gravado”. Teria sido a mesma criatura que ele viu catar como relíquia um toco de charuto deixado pelo comandante num cinzeiro? O mistério do Colt 45 se somaria a outro, igualmente insolúvel, o do sumiço de um terno que Jânio Quadros confiou à lavanderia do Hotel Riviera e nunca mais recuperou. 
Em outra ocasião, Sabino por pouco não se meteu numa enrascada. Durante uma coletiva, perguntou a Fidel o que tinha acontecido a Camilo Cienfuegos, romântico herói da revolução, desaparecido na queda de um aviãozinho do qual jamais se encontrou um só destroço. “Esta pergunta é ofensiva aos ideais da revolução”, fulminou o comandante, encerrando abruptamente a entrevista e desafiando Sabino a levar a provocação “ao povo cubano”. Num momento em que a televisão exibia a execução de adversários no paredón revolucionário, o perguntador, mineiramente, achou prudente pôr de molho as barbas que não tinha.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Estátuas - Luis Fernando Verissimo




Há uma estátua do Carlos Drummond de Andrade sentado num banco da praia de Copacabana, uma estátua do Fernando Pessoa sentado em frente ao café “A Brasileira” em Lisboa, uma estátua do Mario Quintana sentado num banco da Praça da Alfandega de Porto Alegre. Salvo um cataclismo inimaginável, as três estátuas jamais se encontrarão. Mas, e se se encontrassem?
— Uma estátua é um equívoco em bronze — diria o Mario Quintana, para começar a conversa.
— Do que nos adianta sermos eternos, mas imóveis? — diria Drummond.
Pessoa faria “sim” com a cabeça, se pudesse mexê-la. E acrescentaria:
— Pior é ser este corpo duro sentado num lugar duro. Eu trocaria a eternidade por uma almofada.
— Pior são as câimbras — diria Drummond.
— Pior são os passarinhos — diria Quintana.
— Fizeram estátuas justamente do que menos interessa em nós: nossos corpos mortais.
— Justamente do nosso exterior. Do que escondia a poesia.
— Do que muitas vezes atrapalhava a poesia.
— Espera lá, espera lá — diz Drummond. — Minha poesia também vinha do corpo. Minha cara de padre era um disfarce para a sensualidade. Minha poesia dependia do corpo e dos seus sentidos. E o sentido que mais me faz falta, aqui em bronze, é o do tato. Eu daria a eternidade para ter de volta a sensação na ponta dos meus dedos.
Pessoa:
— O corpo nunca ajudou minha poesia. Eu e meus heterônimos habitávamos o mesmo corpo, com a sua cara de professor de geografia, mas não nos envolvíamos com ele. Nossa poesia era à revelia dele. E fizeram a estátua do professor de geografia.
Quintana:
— Pra mim, o corpo não era nem inspiração nem receptáculo. Acho que já era a minha estátua, esperando para se livrar de mim.
— Pessoa — diria Drummond —, estamos há meia hora com você nesta mesa do Chiado, e você não nos ofereceu nem um cafezinho.
— Não posso — responderia Pessoa. — Não consigo chamar o garçom. Não consigo me mexer. Muito menos estalar os dedos.
— Nós também não...
— Não posso reagir quando sentam à minha volta para serem fotografados, ou retribuir quando me abraçam, ou espantar as crianças que me chutam, ou protestar quando um turista diz “Olha o 
Eça de Queiroz”...
— Em Copacabana é pior — diria Drummond. — Fico de costas para a praia, só ouvindo o ruído do mar e o tintilar das mulheres, sem poder me virar...
— Pior, pior mesmo — diria Quintana — é estar cheio de poemas ainda não escritos e não poder escrevê-los, nem em cima da perna.
Os três concordam: o pior é serem poetas eternos, monumentos de bronze à prova das agressões do tempo, fora poluição e vandalismo — e não poderem escrever nem sobre isto. As estátuas de poetas são a sucata da poesia.
E ficariam os três, desolados e em silêncio, até um turista apontá-los para a mulher e dizer:
— O do meio eu não sei mas os outros dois são o Carlos Gardel e o José Saramago.



Sonhos - Luis Fernando Verissimo

Sonhar é como ir ao cinema. Seus olhos se fechando são como as luzes do cinema se apagando, e seu sonho é como um filme projetado na tela. Só que... Só que, mesmo que você não saiba exatamente o que vai ver no cinema, tem uma ideia. Leu uma sinopse do filme no jornal, viu o cartaz. Sabe se vai ver um drama ou uma comédia. Sabe quem são os atores. Sabe que, se for filme de horror, vai se assustar. Se for um filme com o Sylvester Stallone, vai ter soco etc. Quer dizer: você entra no cinema preparado. Mas você nunca dorme sabendo o que vai sonhar.
Ninguém está preparado para o que vai ver no sonho. Será um pesadelo? Será um sonho romântico? Lúbrico? Engraçado? Um sonho estranho, com tartarugas cantantes acompanhando em coro um dueto lírico do Stallone com aquela sua antiga professora de matemática? Você não sabe. O sonho é sempre uma surpresa.
E outra coisa: se não estiver gostando do filme, você pode sair na metade. Com o sonho, isso é difícil. O ideal seria se você pudesse escolher seu sonho. Ou pelo menos descobrir como ele seria, para você saber o que esperar. Uma espécie de sinopse. Por exemplo...


Drama de costumes. Você é um cossaco na Rússia imperial e recebe ordens para arrasar um vilarejo onde todos os homens se chamam Rimski e fazem sexo com cabras, o que não seria tão ruim se as cabras não usassem máscaras do tzar. No meio do entrevero surge, misteriosamente, a sua mãe e manda você voltar para casa e não esquecer de lavar as mãos, e o seu cavalo vai rindo o tempo todo.


Drama psicológico. Você está num apartamento que não conhece. Sente que precisa sair dali mas não encontra a saída. Perambula pelas peças vazias até chegar numa em que há um homem estirado num divã. É o dr. Freud dormindo uma sesta. Você o sacode, para perguntar onde fica a saída. Ele acorda, sobressaltado, e diz “ach, bem na hora do chantilly no umbigo!” e passa a persegui-lo por dentro do apartamento, obrigando você a pular por uma janela e cair na cadeira do senador Eduardo Suplicy, que felizmente está viajando. Você tenta fugir de Brasília mas também não encontra a saída.


Comédia romântica. Tudo se passa num resort do Caribe. Você confundiu as Patrícias, combinando um fim de semana com a Pilar mas indo com a Poeta. Descobre que a Pilar chegou no hotel atrás de você. Há cenas hilariantes, como a de você se disfarçando de palmeira para não ser reconhecido e fingindo ser um garçom no luau até tropeçar na Luana Piovani e cair dentro da fogueira. A Luana leva você para fazer curativos na sua cabana enquanto a Pilar e a Poeta, que se juntaram, procuram por você. No fim as três se unem para jogá-lo no mar, onde você é recolhido por um iate e adotado pela Angelina Jolie.


Horror. Você está num bastidor e alguém acaba de lhe dar uma batuta para reger a grande orquestra sinfônica que o espera no palco.
— Vá — diz alguém no seu ouvido.
Há ruídos de impaciência vindos da plateia. A orquestra também está inquieta. Onde está o 
maestro? Mas você não é maestro. Você não entende nada de música. Você não sabe o que está fazendo ali. E você está nu.
— Vá — dizem outra vez.
— Eu estou sem roupa — protesta você.
— Vai assim mesmo, agora não há mais tempo.
Você tenta desesperadamente retardar sua entrada no palco:
— O programa. Eu não sei qual é o programa!
— Toca qualquer coisa — é o conselho que lhe dão. — O importante é entrar no palco.
— Mas eu estou nu!
— Não interessa, entra!
E você é empurrado para o palco. Ouve o som do espanto coletivo da plateia. A orquestra também está de boca aberta. O primeiro violino recua, para evitar qualquer contato com você.
Você sobe no estrado, olha para o lado e o seu horror aumenta. Esperando nos bastidores estão um coro de tartarugas, o Sylvester Stallone e aquela sua antiga professora de matemática esperando a sua vez de entrar.

Stand up: levante-se - Martha Medeiros

Stand up é um termo inglês que significa "ficar de pé" ou "levantar-se". Popularizou-se quando surgiram as primeiras apresentações de comediantes que, sozinhos no palco, sem cenário, dispunham apenas de um microfone para fazer a plateia rir. Mais tarde, o termo passou a designar o remo em pé: stand up paddle. É uma modalidade antiga de surf, originária do Havaí, mas que hoje é praticada também longe das ondas - em rios, lagos e em alto mar, por profissionais e também por amadores que buscam equilíbrio, diversão e condicionamento físico.

Estamos em pleno verão e a menção a esse esporte já justificaria a coluna, mas quem me trouxe ao assunto foi Marcelo Yuka, compositor que fundou a banda O Rappa e que morreu há duas semanas, aos 53 anos, de infecção generalizada. Em 2000, ele levou nove tiros ao tentar socorrer uma mulher durante um assalto e ficou paraplégico. Afora a canção Minha Alma, sucesso que consagrou o verso "Paz sem voz/não é paz/é medo", eu conhecia pouco de seu trabalho, mas aprendi a respeitá-lo através da biografia Não se Preocupe Comigo, escrita pelo jornalista e amigo de Yuka Bruno Levinson. Conheço o Bruno e acompanhei suas manifestações depois que Yuka se foi. Bruno disse que Yuka sempre soube que morreria cedo. "Você já viu algum cadeirante velho?", perguntava Yuka para Bruno. "Não uma pessoa velha que tenha ido pra cadeira de rodas por fraqueza, mas uma pessoa como eu? Não. Nós não fomos feitos para ficar sentados".

Chegamos ao ponto. Não fomos feitos para ficar sentados.

Não fomos feitos para passar horas numa poltrona diante de um computador, horas afundados num sofá com um celular na mão, horas numa cama manejando um controle remoto, horas numa sala de espera enquanto não chamam nosso nome - e esta última situação uso como metáfora para milhões de preguiçosos que estão sentados numa "sala de espera" aguardando para entrar na vida, em vez de alcançá-la com os próprios pés.

Não fomos feitos para o sedentarismo, a pasmaceira, o tédio, a paralisia e os quilos extras que a inatividade traz. Considero vulgar a expressão "tirar a bunda da cadeira", mas é disso que se trata, grosso modo. É exasperante ver que muitos adolescentes com energia de sobra estão desperdiçando-a com um cansaço existencial que nada mais é do que medo de expandirem seu destino, de correrem atrás de projetos sem garantia, de se submeterem a aventuras incertas - como se tudo não fosse incerto. Aboletam-se, atrofiam-se e morrem cedo. Com o agravante de estarem presos a uma cadeira por livre e espontânea vontade, ao contrário de Yuka.

Pois eu, que estou longe dos meus 17 anos, venci a resistência que sempre tive a esportes náuticos: me pus de pé em cima de uma prancha e passei a remar, vacilante e valente ao mesmo tempo, como em toda estreia. Stand up! Levante-se também. Pela razão que achar que mereça, mas levante-se.

Perdedor, vencedor - Luis Fernando Verissimo

O perdedor cumprimentou o vencedor. Apertaram-se as mãos por cima da rede.
Depois foram para o vestiário, lado a lado. No vestiário, enquanto tiravam a roupa, o perdedor apontou para a raquete do outro e comentou, sorrindo:
— Também, com essa raquete...
Era uma raquete importada, último tipo. Muito melhor do que a do perdedor. O vencedor também sorriu, mas não disse nada. Começou a descalçar os tênis. O perdedor comentou, ainda sorrindo:
— Também, com esses tênis...
O vencedor quieto. Também sorrindo. Os dois ficaram nus e entraram no chuveiro. O perdedor examinou o vencedor e comentou:
— Também, com esse físico...
O vencedor perdeu a paciência.
— Olha aqui — disse. — Você poderia ter um físico igual ao meu, se se cuidasse. Se perdesse essa barriga. Você tem dinheiro, senão não seria sócio deste clube. Pode comprar uma raquete igual à minha e tênis melhores do que os meus. Mas sabe de uma coisa? Não é equipamento que ganha jogo. É a pessoa. É a aplicação, a vontade de vencer, a atitude. E você não tem uma atitude
de vencedor. Prefere atribuir sua derrota à minha raquete, aos meus tênis, ao meu físico, a tudo menos a você mesmo. Se parasse de admirar tudo que é meu e mudasse de atitude, você também poderia ser um vencedor, apesar dessa barriga.
O perdedor ficou em silêncio por alguns segundos, depois disse:
— Também, com essa linha de raciocínio...

Robespierre e seu executor - Luis Fernando Verissimo



Maximilien Marie Isidore de Robespierre foi um dos líderes da Revolução
Francesa. Chamado de “O Incorruptível”, foi o principal teórico e porta-voz dos jacobinos, a  facção mais radical dos revolucionários, em oposição aos girondinos, mais moderados. Exigiu o guilhotinamento do rei e da rainha e instalou o “Terror”, que liquidou opositores da Revolução, ou apenas suspeitos de se oporem à Revolução, numa orgia de sangue que não poupou nem seu
ex-companheiro Danton (o Trotsky para o seu Stalin, numa analogia um pouco forçada). Pouco depois da execução de Danton, o próprio Robespierre foi preso por seus inimigos girondinos e condenado à morte. Na mesma guilhotina.
Imaginemos que na véspera da sua execução, Robespierre recebe na cela a visita de um verdugo oficial. Que se apresenta:
— Louis-Phillipe Affilè.
— Enchantê.
— Seu admirador.
— Muito obrigado.
— Foi por sua causa que entrei para o serviço público. Foi ouvindo seus discursos que me decidi a servir a Revolução.
— A Revolução agradece.
— Sou obrigado a fazer esta visita, antes de cada execução. Para, por assim dizer, preparar o terreno...
— Você quer dizer, a minha nuca.
— Também devo medir a sua cabeça, para saber o tamanho do cesto. O farei com a devida reverência. É a cabeça mais brilhante da República.
— Esteja à vontade. Minha cabeça não pertence mais à República. A República não a quis mais. Na verdade, minha cabeça já pertence a você.
— O senhor prefere raspar a nuca?
— Como foi com o Danton?
— Ele disse que uma navalha antes da lâmina da guilhotina seria uma apoteose do supérfluo.
— Ah, as frases do Danton. Ele foi o mais frívolo de nós dois. Se contentava em fazer frases.
Eu queria fazer História.
— Maria Antonieta pediu para manter todo o seu cabelo. Disse que era por razões sentimentais. Sentia-se muito apegada a ele.
— Você também foi o executor da Maria Antonieta?
— Sim. Foi no meu turno. Nós os verdugos não temos tido descanso. O senhor nos dá muito trabalho. Ou nos dava...
— Tudo pela Revolução.

— Eu sei. É por isso que mantenho este emprego, apesar das lamúrias dos condenados, das ofertas de propina... Tudo pela Revolução.
— O Danton e a Maria Antonieta ofereceram propina para não serem guilhotinados?
— O Danton não. A Maria Antonieta sim. Uma fortuna. Resisti. Também sou incorruptível. Inspirado no senhor.
— E se eu lhe oferecesse uma fortuna para me ajudar a fugir?
O verdugo fica em silêncio. Depois sorri.
— Eu diria que o senhor está me testando. Para saber se minha admiração pelo senhor é sincera. E se eu sou mesmo incorruptível, como o senhor.
— E se eu insistisse na oferta?
— Então todas as minhas ilusões ruiriam. Minha admiração pelo senhor desapareceria e eu não acreditaria em mais nada. Nem na Revolução.
— Situação interessante — diz Robespierre.
— Para continuar me admirando, você precisa me matar.
Silêncio. O verdugo pergunta:
— Foi um teste, não foi?
— Claro — diz Robespierre.
— E então, vamos raspar a nuca?
— Só uma aparadinha, para o corte da lâmina ser limpo.
 




Aguilar e Banda Performática



Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...