segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Farmácia portuguesa - Ruth Manus

Quando nós decidimos mudar de país, passamos, inevitavelmente, por uma espécie de nova infância. Muita coisa tem que ser aprendida de novo. Quase tudo, na verdade. Os caminhos, as ruas, as lojas, as amizades, os transportes, os alimentos, os hábitos. Quem embarca para começar uma nova vida, tem que estar pronto para aprender tudo do zero.
Quando eu fechei as malas para vir a Lisboa viver esse amor transatlântico, estava pronta para encarar todos os desafios da vida nova. Só não me lembrei de um problema: as questões farmacêuticas. Trouxe uma abençoada bolsinha com os medicamentos básicos emergenciais, feita pela minha maravilhosa madrinha médica, que achei que seria suficiente por cerca de duas décadas, mas dados os terríveis bichos voadores invisíveis do Hemisfério Norte, logo me vi com novas demandas que me levaram às farmácias portuguesas. E a coisa foi mais complicada do que eu poderia esperar.
Jamais poderia imaginar que um remédio tão básico quanto um tylenolzinho pudesse ser chamado de Ben-u-ron por aqui. Ben-u-ron! Ben-u-ron é nome de gladiador, não de analgésico, como pode uma coisa dessas? Na mesma linha, também tive que aprender que o Advil, aqui se chama Brufen, mas dessa vez não foi um processo tão traumático assim. Achei que estava ficando mais fácil, mas me enganava.
Quando machuquei o dedo, descobri que Nebacetin é Bacitracina e que- pasmem-band-aid se chama penso. Tipo “Penso, logo existo”, que, pela lógica, no Brasil deveria ser “Band-aid, logo existo”. Pior ainda foi descobrir que absorvente também é penso, porém, com sobrenome: penso higiênico- o que me faz questionar se o band-aid seria o penso anti-higiênico. Para piorar, descobri que esparadrapo não tem nome. Simples assim, não dá para pedir um esparadrapo na farmácia, tem que pedir “aquela fita adesiva para colar a gaze ou o algodão na pele da pessoa que se machucou”.
Quando o inverno chegou, descobri que o primo mais próximo do naldecon era o antigrippine e que o número de comprimidos para vencer uma gripe no inverno europeu é cerca de 700 vezes maior do que eu estava habituada. Terrível. Na primavera, com o romântico e bucólico advento da polinização, descobri que o allegra aqui se chama telfast, e que ele seria meu companheiro diário até a chegada do verão. Minha saúde era melhor no hemisfério sul, devo confessar.
Todavia, o que mais me chocou foi saber que nesse país maravilhoso onde se bebe vinho com mais frequência do que se bebe água, o santo Engov nem sequer existe. Isso é um verdadeiro perigo, um risco assombroso. Contudo, eles têm aqui uma coisa efervescente chamada guronsan, que não evita a ressaca da véspera, mas te ajuda um pouco a tentar sair dela quando você já está sofrendo arrependido no sofá na manhã seguinte. E devo dizer que geralmente essa não é uma missão nada fácil.
Nas questões de dor de barriga tive que descobrir que, para conseguirmos o efeito rolha contra uma diarreia violenta, em vez de recorrermos ao imosec, temos que recorrer ao imodium. E quando o problema tem a ver com a ingestão de comidas que fermentam na barriga, em ver de orar a Nossa Senhora do Luftal, oramos a Nossa Senhora do Dulcogas. Pelo menos o eno segue sendo eno, sem maiores desafios para além da digestão em si mesma.
Portugal é um país maravilhoso que todos deveriam visitar pelo menos uma vez na vida. Caso venham, sugiro que tragam seus remedinhos na bagagem. Caso contrário, tragam pelo mesmo esse texto dobradinho em quarto dentro da mala, para vocês não passarem os apuros que passei até descobrir todas essas traduções medicamentosas. Espero que não seja necessário, mas, na dúvida, melhor pecar pelo excesso, né? Sobretudo se der dor de barriga depois de um bacalhau com natas, não há tempo a perder minha gente.

Desencontro - Luis Fernando Verissimo

Decidiram que o Juca tinha que conhecer a Helena. Os dois gostavam de ler, entendiam de música e de cinema, formariam um par perfeito. Eram – segundo Miguel, que arranjaria o encontro – almas gêmeas que só precisavam se encontrar. E o encontro se deu, na mesa do bar que a turma frequentava. Toda a turma presente, para não perder o acontecimento.
Devidamente instruído pelo Miguel (que recomendara: “Vai leve, ela é sensível”) Juca começou:
– Então você é a Helena. O pessoal fala muito em você.
– E você é o...
– João Carlos. Juca,
– Juca. Muito prazer.
– Me disseram que você gosta muito de música.
– É verdade.
– Bach ou Mozart?
– Prefiro o Beethoven.
– Beethoven. Hmmm. Um pouco bombástico para o meu gosto.
– Como, “bombástico”?
– E cinema? Fellini ou Antonioni?
– Nenhum dos dois, Fellini sempre foi um farsante, e de que adianta ser italiano como o Antonioni e viver agoniado?
– Espera um pouquinho. Fellini farsante?
– Farsante. Farsante!
Helena estava quase levantando da cadeira. Miguel tentou intervir.
– Gente, calma.
Alguém cobrou:
– Ó Miguel, quem foi que pesquisou esse encontro?
Miguel propôs:
– Quem sabe vocês falam sobre literatura? Vocês preferem Hemingway ou Fitzgerald?
– Nenhum deles! – gritou Helena, possessa – Os dois eram homossexuais, só que o Hemingway disfarçava. O cara era o Faulkner!
– Ah, é? Ah, é?! E o Dos Passos?
– Gente – tentou Miguel – e se vocês falassem de política? Em quem vocês vão vo...
– NÃO! – gritaram todos na mesa, temendo que corresse sangue.

domingo, 23 de setembro de 2018

Nossa Missão - Luis Fernando Verissimo

Você e eu estamos na Terra para nos reproduzir. Nossa missão é transmitir os nossos genes, multiplicar a nossa espécie e dar o fora. Tudo o mais que fazemos, tudo a mais que nos acontece, ou é decorrência ou é passatempo. O que vem antes e depois dos nossos anos férteis é só o prólogo e o epílogo.
Se a Natureza quisesse otimizar seus métodos, já nasceríamos púberes e morreríamos assim que nossos filhos, que também nasceriam púberes, pudessem criar seus filhos (púberes) sem a ajuda dos avós. Daria, no total, aí uns 35, 40 anos de vida, e adeus. O que resolveria a questão demográfica do planeta e, claro, os problemas da Previdência. Mas a Natureza nos dá o resto da vida – a infância e a velhice e todos os prazeres extrarreprodutivos do mundo, inclusive os sexuais – como brinde. Como um chaveiro, um agradecimento pela nossa colaboração.
A laranjeira não existe para dar laranja, existe para produzir e espalhar sua própria semente. A fruta não é o objetivo da planta frutífera, é o que ela usa para carregar suas sementes, é o seu estratagema. Agradecer à laranjeira pela laranja é não entendê-la. Ela não sabe do que nós estamos falando. Suco? Doçura? Vitamina C? Eu?! Você e eu ficamos aí especulando sobre o que a vida quer de nós, e só o que a vida quer é continuar. Seja em nós e na nossa prole, seja na minhoca e na sua.
Nossa missão, nossa explicação são as mesmas do rinoceronte e da anêmona. Estamos aqui para fazer outros iguais a nós. Isto que chamamos, carinhosamente, de “eu”, com suas peculiaridades e sua biografia única, não é mais do que uma laranja personalizada. Um estratagema da Natureza, a polpa com que a Natureza protege a nossa semente e assegura a continuação da vida. Enfim, um grande mal-entendido.
E os que passam pelo mundo sem se reproduzir? São caronas. Mas ganham o brinde da vida assim mesmo. A Natureza não discrimina.

sábado, 22 de setembro de 2018

Nana, neném, sob ameaça de morte - Ricardo Araújo Pereira

Luiza Pannunzio/Folhapress


Quando as crianças estão a dormir parecem mesmo anjinhos. Durante o resto do tempo é um pouco mais difícil detectar características angelicais —mas, quando estão a dormir, que querubins.
Os pais descansam um pouco, respiram fundo, às vezes ficam tão eufóricos que, durante esse período, acabam cometendo erros tais como conceber novas crianças.
Custa a entender, por isso, que o nosso método para adormecer crianças seja tão bizarramente inadequado. 
Isso parece atravessar todos os tempos e lugares. Gente de culturas diferentes não se entende sobre assuntos simples, tais como: que som faz o cão. 
Para os ingleses, o cão faz woof woof (mas também arf arf). Em Portugal, faz ão ão (mas também béu béu). Para os croatas e os húngaros faz vau vau, mas os indonésios ouvem guk guk. 
No entanto, todos esses povos acham boa ideia contar às crianças histórias de lobos ao deitar. Um lobo mau é primeira figura que ocorre a pais de todo o mundo para proporcionar aos filhos pequenos uma noite descansada.
Sublinhamos que se trata de um lobo mau, não vão as crianças achar que, excepcionalmente, nessa noite o protagonista da história é um lobo com bons sentimentos. Não, não. É mau e está igualmente interessado em comer porquinhos e crianças —que, aparentemente, têm o mesmo sabor (o que não pode deixar de ser considerado um insulto, a juntar ao resto).
Para os falantes da língua portuguesa, ainda assim, isso não parece ser suficiente. Por isso, além das histórias assustadoras, juntamos canções com versos como: “Nana, neném, que a Cuca vem pegar”. Tradicionalmente, consideramos que o melhor modo de tranquilizar um bebê é dizer-lhe: dorme, pequenino, que uma criatura mitológica maligna vem te pegar. 
Certos pais preferem cantar o também calmante “Bicho papão, / sai de cima do telhado. / Deixa esse menino / dormir sossegado”. Se o pai da criança, na hora de deitar, se despedir da mãe dizendo “parece que vi dois ninjas na nossa janela, boa noite, querida”, isso é considerado uma pegadinha sinistra e estúpida. Mas comunicar a um bebê que há um bicho papão no telhado é uma sensata técnica ancestral para adormecê-lo.
Nem o nosso melhor amigo, o cão, entra nessas canções para ajudar, afugentando os bichos.
Provavelmente porque ninguém saberia que som ele iria fazer.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Não é. Não é mesmo - Carlos Gerbase

Recordar não é viver. Memórias são importantes. Elas nos ensinam, elas constituem nossa subjetividade, mas elas não substituem a vida, que é um conjunto de manifestações bioquímicas rumo ao misterioso futuro de cada indivíduo e de cada espécie. Quem vive do passado não é museu. É apenas um ser que desistiu de viver e espera a morte. Que, cansado, às vezes deprimido, acha que não vale a pena planejar o almoço de domingo. Quem sabe, se visitasse um bom museu ainda não incendiado, encontraria motivos para seguir em frente.

Amar não é mudar a alma de casa. É apenas um verso feito para fazer rimar as palavras "casa" e "extravasa". É uma frase que não tem sentido algum fora da poesia de Mário Quintana. Se temos uma alma, ou alguma coisa não material que convencionamos chamar de alma, ela, infelizmente, não muda de casa. Ela, no máximo, deseja sair de casa e sofre por não conseguir.

Cinema não é a melhor diversão. Essa frase foi criada pelos donos das salas de cinema, que na verdade acham que cinema é a melhor maneira de ganhar dinheiro. Literatura é uma diversão narrativa mais antiga, mais diversificada esteticamente e mais desafiadora para nossos cérebros. Cinema também não é a sétima arte. É a oitava. A sétima é a fotografia, uns 70 anos mais antiga, e um suposto cineasta que não conhece o valor da literatura e da fotografia deveria ficar bem longe de roteiros e câmeras.

Política não é a arte de enganar o povo. Quem diz isso não é apenas um cínico. É um indivíduo perigoso, que está a um passo do fascismo. Fazer política é lutar todos os dias para não enganar o povo. É compreender As Suplicantes, peça de Eurípedes, e fazer como Teseu, rei de Atenas: consultar a população antes de entrar numa guerra, mesmo que isso seja demorado e complicado, para que a responsabilidade da decisão seja compartilhada, e até a eventual morte no campo de batalha tenha sentido.


Viver de verdade é superar o passado, lutar para que a alma se sinta bem onde está, ler muito antes e depois de ir ao cinema, suportar estoicamente as dificuldades da democracia. Escrever não é reescrever. E não é mesmo! Se fosse, esse texto não estaria aqui, agora, à sua disposição. Escrever é finalmente colocar um ponto final e deixar o texto fluir rumo ao seu único destino: você.

Maria Bonita está entre nós - Contardo Calligaris

Mariza Dias Costa/Folhapress

É um traço comum às mulheres e aos homens de minha geração: no mínimo na nossa infância, fomos sensíveis ao charme dos fora da lei.
Passei a aurora de minha idade da razão no cinema Pacini, assistindo a qualquer filme que não me fosse proibido (e a vários proibidos, graças a um lanterninha amigo). Muitos filmes dos anos 1950 eram western, ou, como se diz no Brasil, bangue-bangue, em que todo mundo estava fora da lei, inclusive a maioria dos xerifes.
O bangue-bangue talvez explique, então, dois traços (aparentemente opostos) meus e de meus contemporâneos. Por um lado, somos anarquistas, pois começamos a pensar idealizando figuras que faziam a justiça com suas próprias mãos (ou com seu próprio revólver). Pelo outro, temos uma predisposição para o entendimento marxista do mundo, pois o poder oficial (o xerife) parece ser, quase sempre, apenas o braço armado de um grupo ou de uma casta que se impõem aos outros.
O fora da lei que a gente idealizava podia ser mais justo do que o xerife —o qual, por sua vez, podia ser mais criminoso do que o fora da lei.
De qualquer forma, o fora da lei ideal é um "acossado", solto, em fuga e disposto a matar para defender seu único bem: a liberdade. Falando em "Acossado", aliás, o filme de Godard garantia que, fugindo pela França e matando um policial, nossa vida seria curta, mas ganharíamos uma companheira linda e intensa como Jean Seberg.
Justamente, entre os fora da lei, há os solitários, para quem todos olham com medo e admiração (Shane de "Os Brutos Também Amam"), e há os que, nas margens da lei, encontram um tipo de amor que seria inalcançável para os que não enfrentam a vida juntos, de armas na mão, como Bonnie e Clyde, os lendários Calamity Jane e Wild Bill Hickok —e, claro, Maria Bonita e Lampião.
A excelente biografia de Maria Bonita escrita por Adriana Negreiros ("Maria Bonita - Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço", ed. Objetiva) lembra que o mito do casal cangaceiro nasceu quando os dois ainda estavam em vida e em atividade. A existência cotidiana deles talvez não fosse tão invejável assim, mas (compensação pelas durezas do cangaço) eles já habitavam os sonhos de muitos.
Negreiros dedica páginas (hilárias) à história da tentativa de transformar o casal cangaceiro em garoto-propaganda da Cafiaspirina, com direito a cartaz com Lampião (assassino procurado por todas as polícias) distribuindo drágeas para seus acólitos.
Mas não critico as empresas envolvidas. Afinal, eu mesmo descobri Lampião e Maria Bonita numa celebração de suas figuras: claro, eles estavam já mortos, mas conheci o Carnaval carioca, anos atrás, desfilando na avenida pela São Clemente, num bloco de Lampião e Maria Bonita. Não me sobrou nada da fantasia; até a escopeta de plástico se perdeu em alguma mudança.
Li o livro de Negreiros em duas sentadas, com um tremendo prazer (tremendo é o adjetivo que convém, ao tratar do cangaço). Além disso, a história de Maria Bonita me forçou a pensar nos estranhos e vagos anseios que assombram a mente de todos nós, modernos.
Por que Maria Bonita deixou o casamento com Zé de Neném, o sapateiro pimpão da fotografia que está no livro?
Negreiros escreve: "A famosa violência dos cangaceiros não desestimulava algumas sertanejas a querer entrar para o grupo. Reduzidas a uma vida em que sóis se punham e nasciam sem que nada de extraordinário movimentasse suas existências, muitas moças sonhavam com a rotina de ouro, dança e aventura que permeava o imaginário popular sobre o cangaço".
Uma cangaceira diz a uma candidata: "Você não queira saber o que é dormir no molhado, andar no espinho, subir saltada, correndo, tomando tiro". Tanto faz: "Quando uma jovem decidia se amancebar a cangaceiro, não havia conselho que a fizesse demover da ideia" (pág. 122).
Será que era para conseguir riquezas (as quais, de qualquer forma, ficariam escondidas no árido)? Ou será que a fuga para o cangaço era o grito de rebeldia contra uma vida que parecia insignificante?
Li a história de Maria Bonita pensando o tempo todo em Madame Bovary e até em Anna Karênina —ou seja, como uma contribuição ao difícil entendimento da insatisfação e dos atos aos quais ela nos leva.
Nota: essa insatisfação está longe de ser especificamente feminina. Nesse caso, o privilégio das mulheres é que elas, mais que os homens, conseguem pensar no enigma de nossas aspirações mais abstratas.
Bonnie e Clyde foram contemporâneos de Lampião e Maria Bonita. Bonnie deixou uns poemas que, aposto, Clyde não devia entender muito bem. "The Trail's End", o fim da linha, é o grito comovedor de uma vida encurtada na esperança (falida) de ganhar assim algum sentido.
Negreiros escreve que Lampião "negociava rifles, revólveres e munição com os próprios soldados", cujos vencimentos "eram inferiores ao salário que Lampião pagava aos seus subordinados". Por isso, "vender bala e pistola para cangaceiro era uma maneira de complementar a renda" (pág. 82).
Mas não são tanto esses fatos que deveriam nos parecer familiares. Mais grave e mais inquietante é constatar que o tráfico e o crime continuam exercendo, sobre meninos e meninas, a mesma sedução do cangaço —uma sedução que não é só econômica. Meditar sobre a história de Maria Bonita é urgente.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Dormir no emprego - Humberto Werneck

Não é que o olho da rua estivesse piscando para mim. Eu tinha essa coisa hoje um tanto rara chamada emprego, e mais que isso, um bom emprego. Acontece que, após décadas de carteira assinada, deu vontade de saber como me sentiria sendo avulso no mercado. 
Na verdade, o espelho deixava claro que eu já me expunha à inelutável aversão do patronato por cabelos brancos, não importando se dentro da cabeça as coisas ainda funcionem a contento. 

Por fim, sabia, por experiência própria, que um pedido de demissão pode trazer à alma um tipo refinado de gratificação: a alegria de haver tomado a iniciativa de ir às favas (a palavra não é esta, mas estamos num jornal de família) antes que a elas nos mandassem. Sensação tão boa que, desconfio, deve ter gente que pede emprego só pelo gostinho de se demitir.
Faz quase 18 anos, e, malgrado a falta de 13.º salário, férias remuneradas e fundo de garantia, ainda não me arrependi. 
Nos primeiros tempos, em lua de mel com uma liberdade inédita, cheguei a tripudiar sobre amigos escravizados a algum empregador, anunciando a eles a intenção de comprar umas roupas de trabalho. Sim, bermudas, camisetas, havaianas... 
Havia outros encantos na disponibilidade. Podia decidir que uma terça-feira era domingo e que um domingo chato já virou segunda-feira. 
*
O lado menos gostável do voluntário corte das amarras, que novos tempos converteriam em insensatez, foi me dar conta de que, tendo despedido as empresas em geral, precisaria agora transformar-me numa delas, condição para receber por aquilo que viesse a dedilhar neste meu teclado não musical. 
Cedo percebi que no mundo do trabalho as pessoas jurídicas são cada vez mais numerosas do que as físicas. Num exame admissional, já não se pede exame médico, e sim CNPJ. 
Na hora de constituir minha pujante firma, por pouco não resisti à tentação de me registrar na Junta Comercial como Humberto Werneck Limitado. Mal desconfiava do que havia de realidade na denominação galhofeira. Não tardei a descobrir em mim um patrão tirânico como jamais tivera, capaz de abolir qualquer fronteira entre o trabalho e o lazer, desses que ligam em fim de semana ou a horas mortas para falar do serviço.
Misto de moradia e escritório, minha base física acabou não sendo nem uma coisa nem outra. Terminado o expediente, se é que terminava, o trabalhador continuava no mesmo espaço. 
Como as empregadas de antigamente, eu dormia no emprego.
*
Bem que tentei estabelecer limites nítidos naquilo que, em meus 100 metros quadrados, fosse local de trabalho e, a partir de certo horário, local de moradia. Fracassei. Muitas vezes acordei de madrugada para beber água ou para operação inversa – e, no caminho de volta à cama, me batia alguma ideia, uma sacada, algo urgente a anotar ou a desenvolver – e, quando dava por mim, já passava do meio-dia e lá estava eu, de cueca, fazendo ranger minha cadeira de trabalho. 
Nessas ocasiões, ainda grogue de escrevinhação e sono, entrava no banho, mandava um café da manhã que a rigor já seria almoço – e, pelas 2 da tarde, tocava para essa instituição que abomino, o cinema de shopping, excepcionalmente bem-vindo porque ali era mais fácil encontrar um filme, qualquer um, prestes a começar. 
No guichê de ingressos, procedia com o automatismo daquele coelho de quermesse (em Minas se diria barraquinha) que, liberado da gaiola, entra no picadeiro e vai refugiar-se na primeira casinha que se lhe apresente, fazendo assim a felicidade do apostador respectivo. Não raras vezes me aconteceu aboletar-me na poltrona e só então constatar que tinha entrado em filme visto dias antes. 
*
Para não misturar os canais, cheguei a recorrer ao expediente risível de, toda manhã, vestir-me como se fosse para o trabalho, dar quatro passos no corredor, dobrar à direita – e, como quem tivesse atravessado um tanto de cidade, chegar ao escritório. 
Não durou muito essa comédia, felizmente sem testemunhas.
Sem testemunhas, sim – para o bem e para o mal. Como escriba, tiro proveito, não da solidão, com seu desamparo, mas da sozinhez, essa condição que nos permite dialogar sem interlocutor ou desafinar longe do chuveiro. 
Sucede, porém, que às vezes não me sinto boa companhia sequer para mim mesmo. No mais, quando o trabalho empaca, tendo a derrapar rumo a providências domésticas protelatórias. Aguar as plantas. Botar roupa na máquina. Dar um jeito nas estantes. Procurar algum papel, qual mesmo?
*
Escaldado por uma infinidade de propósitos que mal passaram disso, sei que é cedo para comemoração – mas eis que vejo estruturar-se em minha vida uma rotina nova, até o momento propiciatória. Incapaz de fazer conviverem trabalho e lazer sob o mesmo teto, estou empenhado, faz umas semanas, num modus vivendi semelhante ao de casais que, para preservarem a relação, escolhem ter cada qual a sua casa, num literal meu bem pra cá, meu bem pra lá. 
Não, não aluguei outro canto; digamos que, para efeitos lítero-jornalísticos, achei espaço num acolhedor poleiro coletivo. Estou sabendo que tem nome, coworking. E mais não digo, de medo de quebrar-se o encanto. Se dali não trouxer mais que minha prosa chinfrim, ao menos terei recuperado um prazer banal, para mim especialíssimo, o de voltar para casa depois de um dia de trabalho. 

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...