quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Um índio em Copacabana - Roberto DaMatta

Acreditar em milagre - “creio porque é absurdo”, dizia Tertuliano; cremos - reitera o bom senso - porque a vida sem encantamento não é suficiente.
O milagre é o que acontece a despeito dos limites impostos pela realidade. Houve um tempo em que viajar de avião era um perigo; em outro, supúnhamos que os políticos roubavam, mas não com tanta obstinação.
Na minha longa vida, vivi alguns milagres. Um deles foi ver o Brasil ganhar cinco Copas do Mundo. Outro foi ter sobrevivido à minha audácia antropológica de “viver com índios”. Neguei o futuro previsível àquela época: virar advogado, arquiteto, engenheiro, militar ou médico, para tentar “ser antropólogo”. Uma profissão na qual não se vira porque nela há um encontro conflituoso e transformador - investigar outras gentes produz uma singular experimentação de si mesmo. Insidiosamente, os costumes e as crenças do povo em que se foi um intruso disposto a deslumbrar-se com o seu cotidiano mais banal, acaba perturbando a crença na humanidade onde se nasceu.
Tal como na arte não há como “virar antropólogo”. Há somente como se dispor a experimentar a marginalidade de quem denegou suas crenças para tentar compreender a dos seus anfitriões, cujo estilo de vida é visto como selvagem. Vida de “índios”, como falamos com profunda ignorância e preconceito.
Talvez esse tenha sido um dos meus milagres quando, com Júlio Melatti, passei quatro meses com os índios gaviões no Rio Praia Alta, sul do Pará, em 1961.
Ali ocorreu uma experiência inusitada: éramos dois antropólogos para meia dúzia de nativos cuja cultura os interesses locais haviam dissolvido. Aquela humanidade que hoje, felizmente, conta com cerca de 500 almas, teve a força de superar uma cruel depopulação ao lado da agressão dos “castanheiros”. Sua chamada “integração” ao Estado nacional brasileiro foi violenta.
Relendo os meus diários, a limpidez da velhice me deixa ver, com Joseph Conrad na minha cabeça e Darcy Ribeiro ao meu lado, o coração das trevas. O momento em que uma humanidade se percebe às voltas com sua extinção. O milagre foi testemunhar a sobrevivência dessa sociedade, que eu mesmo condenei à extinção no livro Índios e Castanheiros (escrito com Roque Laraia, em 1967), como uma orgulhosa tribo depois de ter convivido tanto tempo com a morte. 
Foi ali que, caçando, imaginei estar perdido.
*
Em 1962, Kaututere, um índio falante, determinado e curioso que, por isso mesmo, recebeu em Itupiranga o pejorativo apelido de “Doidão”, veio ao Rio, hospedou-se no Leme e o guiei parcialmente. Vale lembrar que na caçada que fizemos, ele me assombrou por sua desenvoltura em localizar os porcos, livrá-los de suas entranhas e levá-los para a aldeia.
Na época, meus pais moravam em Copacabana onde encontrei Kaututere desalinhado nas roupas que vestia e incomodado pelos sapatos que lhe apertavam os pés. Levei-o para ver a praia e as lojas em que ele teve o desconforto de ser visto - tal como fui em sua aldeia - como curiosidade.
Visivelmente inseguro, meu hospedeiro voluntarioso experimentava o reverso do que eu havia vivido entre sua gente. Agora era ele o intruso dependente de um guia. Na mata, eu era uma criança. Agora, andávamos de mãos dadas em Copacabana. Era ele o amedrontado que se surpreendia com a quantidade de “kupen”. De estrangeiros - cujo número ultrapassava sua imaginação. Só relaxou quando, no apartamento, conheceu meus pais, irmãos e tia o que, certamente me humanizava, ao mesmo tempo em que o remetia de volta à humanidade que era a sua, na qual todos se conheciam.
Por ignorância, não repeti a experiência de Franz Boas com um nativo kwakiutl, que o visitara em Nova York. Não Kaututere, o etnólogo gavião, para nenhum lugar especial. Ele foi apenas um índio em Copacabana. Mas fizemos um profundo experimento antropológico: vimos um ao outro de modo reverso por meio do milagre da reciprocidade - esse perfume do humano.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

E/I - Luis Fernando Verissimo

– Iminência... – Você quer dizer “eminência”.
– O quê? – Você disse “iminência”. O certo é “eminência”.
– Perdão, senhor. Sou um servo, um réptil asqueroso, um nada. Uma sujeira no seu sapato de cetim. Mas sei o que digo. E eu quis dizer “iminência”.
– Mas está errado! Nossa vontade não altera a correção gramatical. O tratamento certo de um rei é “eminência”.
– Não duvido da sua eminência, senhor, mas o senhor também é iminente. Uma iminência eminente. Ou uma eminência iminente.
– Em que sentido?
– No sentido filosófico.
– Você tem dois minutos para se explicar, antes que eu o mande para o calabouço, onde vão os bobos insolentes.
– Somos todos iminentes, senhor. Vivemos num eterno devir, sempre às vésperas de alguma coisa, nem que seja só o próximo segundo. Na iminência do que virá: o almoço ou a morte. À beira do nosso futuro como de um precipício, no qual despencaremos ou alçaremos voo. A iminência é o nosso estado natural. Pois o que somos nós, todos nós, se não expectativas?
– Você, então, se acha igual a mim?
– Nesse sentido, sim. Somos coiminentes.
– Com uma diferença. Eu estou na iminência de mandar açoitá-lo por insolência, e você está na iminência de apanhar.
– O senhor tem esse direito hierárquico. Faz parte da sua eminência.
– Admita que você queria dizer “eminência” e disse “iminência”. E recorreu à filosofia para esconder o erro.
– Só a iminência do açoite me leva a admitir que errei. Se bem que...
– Se bem que?
– Perdão. Sou um verme, uma meleca, menos que nada. Um cisco no seu santo olho, senhor. Mas é tão pequena a diferença entre um “e” e um “i”, que o protesto de vossa eminência soa como prepotência, o que não fica bem num rei. Eminência, iminência, que diferença faz uma letra?
– Ah, é? Ah, é? Uma letra pode mudar tudo. Um emigrante não é um imigrante.
– É um emigrante quando sai de um país e um imigrante quando chega em outro, mas é a mesma pessoa.
– Pois então? Muitas vezes a distância entre um “e” e um “i” pode ser um oceano. E garanto que você terá muitos problemas na vida se não souber diferenciar ônus de ânus.
– Isso são conjunturas.
– Você quer dizer “conjeturas”.
– Não, conjunturas.
– Não é “conjeturas” no sentido de especulações, suposições, hipóteses?
– Não. “Conjunturas” no sentido de situações, momentos históricos.
– Você queria dizer “conjeturas” mas se enganou. Admita.
– Eu disse exatamente o que queria dizer, senhor.
– Você errou!
– Não errei, iminência.
– Eminência! Eminência!
– Está bem, o senhor ganhou... Majestade.

sábado, 18 de agosto de 2018

Fazer Hora - Ricardo Araújo Pereira

Luiza Pannunzio/Folhapress


Lembra-se do que Santo Agostinho disse sobre o tempo? Que, se não lhe perguntassem, ele sabia o que era. Ora, muito obrigado, mas se não me perguntarem eu também sei tudo.
O meu problema, nos exames, nunca foi o conhecimento das matérias, foi perguntarem-me por elas. Santo Agostinho não sabia o que era o tempo porque nunca pôs o relógio para despertar às seis e meia quando tinha de se levantar às sete.
Quem já fez isso sabe tudo sobre o tempo. Aquela meia hora fica um pouco maior. A gente acorda a primeira vez e pensa: "Que cedo. Ainda bem que tenho mais um pouquinho". E carrega no botão. Dali a dez minutos, o relógio toca outra vez e a gente volta a desligar.
A sensação que temos é a de estar a roubar, e ninguém é roubado —o que é excelente porque assim a gente não vai para a cadeia. Passam outros dez minutos e a gente desliga de novo. Às vezes, aqueles dez minutos parecem uma noite inteira. Há tempo para vários sonhos. Mas, ao mesmo tempo, temos a consciência de estar na cama.
É isso que perde quem acorda às sete e se levanta logo: nós ficamos mais um bocadinho. Entramos devagarinho na vida, como quem se habitua à água fria.
Martelar um dedo é outra experiência que Santo Agostinho nunca teve —e precisava. Quando a gente martela um dedo, há um momento entre a martelada e a dor. É um momento muito breve, um instante apenas, mas dá para vários pensamentos. O martelo já bateu mas a dor ainda não veio. Nesse milésimo de segundo, a gente pensa: "Que estúpido,
eu sabia que isso ia
uma vez, quando era pequeno, também
ela disse para eu chamar o carpinteiro mas eu
vai ficar negro, isto
uma bolsa de sangue preto sob a unha
já conheço a dor que vem aí
primeiro um relâmpago e depois vai crescer.
Só depois a dor chega. Ora, se somos capazes de tantos pensamentos naquele instante tão curto, isso significa que estamos a desperdiçar as horas inteiras em que não pensamos em nada.
Talvez devêssemos martelar mais os dedos, para conseguirmos raciocinar muito e depressa. Eis uma solução para o mundo: presidentes de todos os países se fecham numa sala e cada um leva um martelo. E vão martelando as falangetas, em busca daquele instante em que nos ocorrem ideias em catadupa.
Tenho a certeza de que abandonarão a cimeira com uma proposta capaz de salvar o planeta. E com as mãos todas inchadas.

O elo da ponte em minha mesa - Ignácio de Loyola Brandão


Quem escreve fica assombrado com a história de Euclides da Cunha ter corrigido as páginas impressas da primeira edição de Os Sertões, uma a uma, raspando os erros com canivete e usando caneta com pena fina. Quem escreve e se angústia com alguns (hoje poucos) erros, imagina o que foi Euclides, em 1902, sentado na editora, noites e dias, incansável, raspando acentos, vírgulas, trocando letras, para assombro dos gráficos. Foram 80 erros. Corrigiu um a um nos mil exemplares da edição. Não o fizesse, ficaria louco. Ou já era um pouco movido pela paixão. Isso temos de ser, loucos de paixão pelo que fazemos.
Daí um dos momentos de grande emoção para mim foi folhear - com o cuidado exigido - algumas páginas de um dos volumes sobre os quais Euclides trabalhou, na casa-museu a ele dedicada em São José do Rio Pardo, no sábado passado. Ficaria ali horas, o dia inteiro, em atitude reverente, e me sentindo pequeno, minúsculo, poeira.
Escritores que fazem a via-sacra de editores, devem saber que, pronto o livro, Euclides teve a promessa de edição em segmentos neste jornal, O Estado de S. Paulo, e esperou. Esperou com a mesma paciência que teve ao corrigir. Seis meses depois, nada. Então, amigos levaram o autor ao Rio de Janeiro, à Livraria Laemmert, que o publicou. Euclides pagou a edição que custou o dobro de seu salário. Em oito dias, metade da edição se esgotou.
Claro que aqui escrevo para leigos e não para euclidianos, os especialistas na matéria, entre eles a araraquarense Walnice Nogueira Galvão que organizou a excelente (e bela) edição da UBU-Sesc. Esses estudiosos e apaixonados se reúnem anualmente na Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo, e ali fui para a 80.ª edição. Palestras, cursos, aulas durante dez dias. A Academia Paulista de Letras ali esteve por quatro dias com Gabriel Chalita, José Renato Nalini, Mauricio de Sousa e eu. Esta é a nova academia. Estar onde as coisas acontecem, não se confinar na sede do Arouche.
Coincidências, acasos? Fiz minha fala no mesmo dia em que, antes de partir de São Paulo, recebi da editora o primeiro volume de Desta terra Nada Vai Sobrara Não Ser o Vento Que Sopra Sobre Ela, meu novo romance. Chegou quentinho, recém-saído da gráfica. Eu entrando na van e o motoboy me entregando o livro. É um velho acordo entre Luis Alves, meu editor, e eu. Uma das epígrafes do romance é uma frase de Os Sertões: “A vida normalizara-se naquela anormalidade”. É ou não o Brasil de hoje? Dentro do livro, na página 221, o personagem Felipe viaja em um ônibus atravessando uma paisagem lunar de regiões que foram alagadas pela lama do estouro da barragem em Mariana. Seu companheiro de viagem é Euclides da Cunha, que vai mostrando os terrenos e definindo-os com breves frases de Os Sertões. “Uma geografia impressionadora”, diz. O romance se passa no futuro, mas Euclides ali está, porque um autor faz o que quer para explicar o hoje, atravessa/inventa o tempo, mistura, confunde história, o que parece amanhã pode ser o hoje transplantado. O anormal hoje é o normal.
A vida marca seus pontos e liga-os à sua maneira. No momento em que me convidou para a semana, Ana Paula Lacerda, diretora de Cultura e curadora da Casa de Cultura Euclides da Cunha, não tinha a mínima ideia de que Euclides permeava esse romance. Assim, levei aquele exemplar e a plateia daquela noite foi a primeira a ver o livro que lançarei aqui em São Paulo, no dia 24 de agosto, na Cultura da Paulista. Fiquei 11 anos sem publicar romances. Porém as coisas começaram a me sufocar, apertar, alucinar, sentei-me e conclui após quatro anos. De volta àquele modo satírico, irônico, deprimente, contundente que usei em Não Verás País Nenhum.
Se, além dos professores que tive e sempre cito, tivesse tido aulas com Nicola Costa, eu teria sido outro, estaria alguns pontos adiante. Nem imaginam. Não foi pouco o que aprendi com esse homem no sábado, circulando por São José. O que me foi aclarado sobre Euclides, sua vida trágica, sua neurastenia, ansiedade, o que soube sobre Canudos, a guerra, o Conselheiro, a vila, a mortandade, os crimes praticados pelo Exército. Só a Matadeira daria um romance. Ah, a Matadeira! Esperem.
Fiquei um dia em São José do Rio Pardo, mas levado pelo secretário de Cultura da cidade, Iuri Feres Abraão, e pelo Nicola estive na ponte que Euclides construiu, na pequena cabana de zinco e madeira, onde foi escrita parte do livro, um lugar ajardinado, frente ao rio murmurante e à floresta amena e uma versão estilizada em concreto da “matadeira”, debaixo da qual estão sepultados Euclides e o filho, ambos mortos pelo mesmo homem.
Depois fui tomar café torrado e moído na hora no Senhor Espresso, onde você escolhe o tipo que deseja e Rodrigo cuida do resto. Ali também havia um Mil Folhas - que parecia ter dez mil folhas que derretiam na boca - como só comi no Gigetto, 60 anos atrás. E ainda me levaram ao Bafafá, porque ali, me disseram, se faz uma coxinha única, celebrada até pelo Jefferson Rueda, esse mesmo chef da Casa do Porco, do Hot Pork e da Sorveteria do Centro, aqui em São Paulo, e marido da Janaina, do Bar Dona Onça. Porque Jefferson é de São José e criança ainda deve ter atravessado aquela ponte histórica muitas vezes, enquanto eu só fui vê-la aos 82 anos. De qualquer modo, a vida liga tudo. Na minha mesa, ao lado da caixa vermelha envernizada onde meu avô guardava suas bolinhas de vidro, contemplo um troféu que me deram. Um elo de ferro da ponte de São José do Rio Pardo, trocado em uma das muitas manutenções. Símbolo, prêmio, troféu a me embalar. 

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Me deixem ser mulher - Tati Bernardi



Você escreve como uma mulher? Essa é a pergunta da moda. Respondo sempre que sim, escrevo como uma mulher porque, ora pois, sou uma. Para mim é simples assim. Insistem: então você é uma mulher escrevendo? Olha, sou, viu? Sento aqui na minha cadeira, amassando minha vagina com calças que depois da gravidez ficaram apertadas, e escrevo.

Às vezes, com minha voz de mulher, peço ao meu marido que me traga uma água da cozinha. Ele não gosta muito porque homem não gosta de ficar fazendo coisas desse tipo para mulheres. Daí eu faço uma cara que, pude agora verificar no espelho, é de mulher, e digo "por favor, vai", e ele acaba trazendo.
As mãos que digitam, estou confirmando isso neste exato momento, não se parecem com a de um rapaz. Se forço a cervical um pouco mais para baixo (e isso costuma me dar enxaqueca depois) vejo seios. Se eu enfiar agora a mão dentro da calcinha, meus dedos ficarão sujos de sangue. 
Quando nasci, no Hospital Matarazzo, falaram pra minha mãe "é menina". Minha mãe falou pra minha avó "uma menininha" e minha avó falou pro meu pai "você é meio lerdo, vai logo no cartório antes que feche... ah, sim é mulher". Meu pai então foi ao cartório e me registrou como tal. Nunca os chamaram de loucos.
Aos 19 anos eu ficava um pouco entumecida com uma amiga da faculdade que tinha mania de desembaraçar meus cabelos. Aos 30, na festa que ficou mundialmente conhecida em Pinheiros como "open house do ofurô", apalpei peitinhos de amigas e beijei de língua uma gringa. Nunca quis ter pinto, a não ser para pô-lo na mesa quando produtor rico vem com papo de "faz de graça pelo amor à arte". Todo meu respeito a quem tem outras histórias relacionadas a gênero, sexo e amor a arte, mas a minha é essa.
E se meu narrador for masculino? E se meu personagem principal for masculino? E se o narrador-personagem for uma mulher que se identifica com o gênero masculino? E se o narrador onisciente for um homem que, ao longo do tempo que eu demoro pra escrever um livro, se descobrir mulher, mas uma mulher lésbica que, ao longo do tempo que demoro pra editar um livro, mantém o nome de origem para uso exclusivo do Tinder? E se a escritora se sentir mais fálica do que fada? E se Elena Ferrante for um macho branco opressor? E se Philip Roth não tivesse escrito "O Complexo de Portnoy"?
Eu não faço a menor ideia, eu nem entendi nada do que eu acabei de escrever. Em nome de Deus me deixem apenas ser mulher. Durante um dia, enquanto sento aqui nessa cadeira, sou velha, criança, machona, rinoceronte, um poodle deprimido, um assassino, mas, comandando o circo, sou mulher. 
"Sou, sobretudo, uma pessoa". Se você concluir isso, em qualquer mesa, em qualquer debate, em qualquer feira literária, em qualquer lugar com jovens, feministas, jornalistas e pessoas que gostam de livros, você será aplaudida. "Sou, sobretudo, eu mesma, um ser humano". Aplausos! Mas a verdade é que, tirando os "lugares-comuns da Vila Madalena", que falo para não ser apedrejada, eu sou mulher. Desculpa desagradá-los, sei que neste 2018 se espera mais de uma mulher, mas é o que tem pra hoje.
Quem se ofende está entendendo que, implícita na pergunta, pode ter a frase "não tão incrível quanto um homem" ou que gênero não pode limitar a criação. O que eu falo tem tantas idades e gêneros e maldades quanto eu quiser inventar, mas, apesar disso e também por isso, sou mulher. E quem me encher o saco, que pegue no meu pau.

Minha policial ideal - Contardo Calligaris

Mariza Dias Costa/Folhapress

Juliane dos Santos Duarte, 27, policial militar, entrou em férias e foi se divertir. Na noite do dia 2 deste mês, esteve num churrasco e conheceu duas outras jovens mulheres. As três foram para a casa de uma delas. Tudo isso na favela Paraisópolis, cidade e estado de São Paulo (é o que dizem).
Mais tarde, a cerveja acabando, Juliane foi para um bar, onde se interessou por mais uma moça, e as duas também se beijaram. Nesse bar, alguém anunciou que tinham roubado seu celular. Na tentativa de resolver o caso, Juliane revelou que ela era policial militar.
Logo depois, chegaram dois ou três bandidos que atiraram nela e a levaram de lá, ferida. Um dia depois, com calma, o crime decidiu executá-la.
No último domingo (12), Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha, dedicou sua coluna a uma reportagem publicada no jornal do dia 9 sob o título: "Policial Juliane teve seus últimos momentos com bebida, pegação e dança". Segundo a ombudsman, a reação contra essa reportagem e seu título conseguiu reunir um conjunto variado de leitores: de militantes feministas de esquerda até o candidato Jair Bolsonaro. Pois é, junto-me a esse estranho clube.
A reportagem em questão revelava o que tinha acontecido antes de a policial ser ferida e assassinada. O relato não acarretava em si nenhum juízo de valor explícito, mas a manchete parecia feita para indignar aqueles leitores (e são numerosos) segundo os quais uma policial não poderia e não deveria se comportar como Juliane: como é que uma policial militar, mesmo em dia de férias, cairia na farra?
E tomando cerveja? E frequentando bares? E beijando três mulheres na mesma noite? Se ao menos fossem homens, mas... Mulheres?
Para esses leitores, que, suponho, gostaram da manchete, os criminosos, no fundo, foram a espada de um deus bitolado e puniram nossa guardiã da ordem pela desordem de sua vida.
Fato curioso, quando li a reportagem do dia 9, pensei exatamente o oposto: para mim, Juliane é o protótipo da policial militar em quem confio para cuidar da segurança dos cidadãos (ou seja, da minha). Cuidado: não estou dizendo que deveríamos ser tolerantes com nossos policiais e aceitar que eles se divirtam e cometam, às vezes, alguns excessos.
Estou dizendo que SÓ quero policiais capazes de cair na farra, SÓ me sinto protegido por quem não corre o risco de confundir o crime com o que alguns, segundo suas eventuais crenças religiosas, imaginariam ser o pecado.
Não quero policiais que pensem que quem circula à noite nos bares é suspeito. Não quero policiais que pensem que ficar com três pessoas, ainda por cima do mesmo sexo, na mesma noite seja sinal de uma pecaminosa promiscuidade.
Aliás, não quero policiais que se preocupem com o que é pecaminoso: quero policiais que se preocupem com o que é legal ou ilegal.
Voltando à reportagem: Juliane não foi morta por ser festeira e homossexual, ela foi morta por ser policial.
O fato notável (e o escândalo) não é que ela estivesse, numa noite de férias, beijando meninas em um bar de Paraisópolis. Isso é normal e é bom.
O fato notável (e o escândalo) é que existam espaços urbanos que são administrados por um poder que não é da nossa República, que têm um serviço de ordem "alternativo" e exerce uma "justiça" também "alternativa".
O escândalo é que aceitemos viver num país que admite a existência de zonas de ocupação, em que o Estado brasileiro não é soberano, em que declarar que você é policial significa ser morta como se você fosse um espião infiltrado em território inimigo.
O título da reportagem me incomodou, em suma, porque desviava a atenção do leitor. Era como se alguém tentasse despertar o moralista hipócrita em nós (olha a policial beijando meninas!) para que não enxergássemos a verdadeira tragédia, que é a seguinte: vivemos num país em que os policiais que moram nos bairros "errados" devem estar à paisana indo ao trabalho ou voltando dele e, ainda, quando lavam sua farda, "optam" por pendurá-la para secar em casa, atrás da geladeira, e não na área.
Uma manchete que nos diz que Juliane, policial, bebia e beijava na sua primeira noite de férias serve só para que nos esqueçamos da vergonha que deveríamos sentir diante do fato de que uma policial não foi "só" morta —foi ferida, julgada e condenada à morte por ser policial. Isso dentro do que é, em tese, o território nacional.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Fricções - Luis Fernando Verissimo

O Jorge Luis Borges chamou o espelho de método de reprodução humana anticonvencional. O sexo e o espelho são, os dois, culpados de multiplicar pessoas, e assim contribuir para as misérias do mundo. Borges escreveu sobre seus pesadelos com espelhos e labirintos e tinha um notório problema edipiano com o pai, além de um notório ascetismo com relação ao sexo. O pavor de espelhos e o desgosto com sexo e paternidade se acoplam na aversão de Borges ao produto das duas coisas: gente. Mais gente.

Mas enquanto lamentava a proliferação humana de um lado e do outro do espelho, Borges também colaborava para aumentar a demografia imaginária da Terra, inventando pessoas. Ao contrário dos espelhos, os ficcionistas não copiam gente, criam gente, e lançam irresponsavelmente no mundo. Como se não bastassem os parentes e os vizinhos e os bilhões de chineses, temos que nos preocupar com a Antígona, o Hamlet, o Raskolnikov, o Swann, centenas de personagens que, só por serem inventados, não ocupam espaço menor em nossas vidas, e nunca vão embora. A ficção também é um método de reprodução humana, de uma fertilidade espantosa.
Certa vez tive a ideia de imitar o “Ficciones” do Borges e escrever um livro só de histórias eróticas chamado “Fricções". O livro começaria não com uma ficção, o que só agravaria a densidade demográfica de gente inventada, mas com uma reminiscência. Em 1959 eu estava em Paris (disse ele só para dizer que estava em Paris) e tinha 22 anos. Num café, conheci uma moça húngara. Seu francês era quase nenhum. O meu era de Aliança Francesa, mas eu faltava muito. Conversamos em inglês. E acabamos indo para o seu quarto num prédio sem elevador. Quantos andares eram? Quem estava contando?! Meu único medo era que, na confusão das línguas, tivesse havido algum mal-entendido, e meu último franco tinha ido para pagar o café. Mas não, era sexo de graça mesmo. Só que sexo com uma especificação. Na cama, ela ordenou:
— Hit me!
— What?
— Hit me! Hit me!
Ela queria que eu batesse nela. Em 1956 a União Soviética tinha invadido a Hungria para abafar uma revolta contra a dominação comunista e ocupado o país por um bom tempo. Não fiz como os soviéticos. Bati, mas em retirada. Ainda mais que a húngara era grande.



O Globo 14/08/2014

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...