segunda-feira, 9 de julho de 2018

Cadernetas - Luis Fernando Verissimo

Sempre acreditei que jogar papel impresso fora é pecado. Já teve um tempo em que eu guardava até volante de dedetizadora distribuído na rua. Minha mulher conseguiu, aos poucos, me trazer para a razão, em parte porque não havia mais lugar em casa para tudo o que eu colecionava. Hoje já aceito que doar livros não é o mesmo que jogá-los no lixo e que o limite da existência de uma revista é exatamente o limite entre o papel e o farelo. Mas ainda sofro para me desfazer de suplementos guardados para ler depois que eu nunca leria, pois já não se distinguiria o texto do mofo.
Por esses dias, tentando arrumar meus papéis e livros num daqueles periódicos surtos de virtude que nos acometem, e do qual nos arrependemos em seguida, dei com algumas cadernetinhas quase em decomposição – e a revelação de como eu era muito mais organizado, na infância e na adolescência, do que sou hoje. As cadernetas serviam como catálogos de tudo que era meu, incluindo meus gibis em ordem cronológica
As cadernetas também serviam para fazer listas. Eram retratos das minhas preferências na época. Uma lista dos melhores diretores de cinema (que fim levou o Laszlo Benedek?), de jogadores que eu convocaria para a Seleção (a maioria do Internacional), de músicas e músicos.
Uma das cadernetas é de números de telefones e endereços caprichosamente anotados e com lembretes crípticos ao lado, como “Ana Paula (a da pintinha)”. Não tenho a menor ideia de quem era a Ana Paula, mas acho que me lembro da pintinha. Há outros nomes femininos, estes sem telefone, endereço ou pintinha, no que talvez também fosse uma lista de minhas preferências em mulheres, embora duvido que eu tenha chegado perto de algumas delas (da Rita Hayworth eu tenho certeza de que não cheguei).
Em outra caderneta, tentei manter um registro detalhado dos meus gastos em Nova York, quando morávamos em Washington e as minhas aventuras solitárias na cidade grande eram com orçamento apertadíssimo. Há alguns espantos nas anotações. Passagem para NY (de ônibus): 5 dólares. Almoço em NY: 90 centavos. Cinema: 70 centavos. Revista (provavelmente de sacanagem): 35 centavos. Subway: 15 centavos. Entrada para ouvir jazz no Birdland: um dólar e 25! O ano é o de 1954, e o mais espantoso de tudo é que eu tinha 18 anos!

Paterson - Fabricio Corsaletti



Acordei antes do despertador tocar, beijei minha namorada na testa, lavei o rosto, me vesti, passei pela cozinha, peguei uma banana, guardei no bolso do casaco, abri a porta da sala, chutei o jornal pra dentro, chamei o elevador, cumprimentei o porteiro, atravessei a rua e vim pra casa a pé.
Ainda não eram sete da manhã e a avenida Pacaembu já estava com trânsito pesado. Buzinas, música alta, gente gritando. Passei na frente do estádio. Como é bonito, pensei. Não só o edifício em si, mas também o lugar onde ele foi erguido, no meio de um vale. Lembrei de uma reportagem lida dias antes numa revista. Dizia que abriram um café ali na entrada. Imaginei mesas espalhadas entre as colunas, debaixo da laje, e em cima delas xícaras, cadernos, óculos, velas, laptops, copos de conhaque. Tirei o celular do bolso e me mandei um e-mail com o assunto "ir café pacaembu logo". Depois subi sem pressa a ladeira da Faap.
Sempre que eu caminhava naquele trecho me chamava a atenção uma janela enferrujada quase encoberta por um galho de goiabeira. De alguma forma, ela era o centro da paisagem. Ou o último fragmento de um mundo em extinção? Estudantes de mochila nas costas e cabeça baixa cruzavam o portão da faculdade. A luz caía fora dos relógios, nas cabeleiras das meninas atrasadas.
Quase parei na padaria da praça Vilaboim, mas fiquei com preguiça de falar com as pessoas. Um senhor de boina veio na minha direção com um cachorro de raça. Onde foram parar os vira-latas do Brasil? No vão das pernas dos mendigos, sem dúvida.
Na semana passada o caixa de uma papelaria me contou uma história louca sobre seus filhos. Demorei pra entender que não eram crianças, mas cachorros. Aí eu disse que também não tinha filhos e, assim como ele, adorava animais. Juro: achei que ele fosse me enfiar um lápis no olho. Por sorte, apenas chamou de fascista. Peguei meu troco e saí. Vivemos numa época estranha. O cara trata bicho como gente e gente como bicho, mas no fundo se considera uma pessoa boa. Quando se torna prefeito de São Paulo, sua primeira atitude é se deixar fotografar com um coala de estimação. No dia seguinte toca fogo nos índios da cracolândia.
Em vez de seguir em frente pelo parque Buenos Aires e tomar o caminho mais curto, peguei à direita e subi na direção da Paulista, entrei na Angélica, virei na rua do Sujinho e fiquei rodando pelo bairro. A maioria das lojas estava fechada. Nos botecos, operários de uniforme e botina tomavam café no balcão e trabalhadores em roupas sociais compravam pães de queijo pra comer no escritório.
Um dia vou abrir um bar, o Bar do Corsaletti. Vou chamar meu amigo Formiga pra comandar a grelha e o som. Vou ganhar dinheiro e olhar pro mapa-múndi como se fosse um cardápio. Vou parar de escrever e arrumar um monte de problemas. Vou beber o dobro e ter que parar de beber. Melhor não abrir bar nenhum. E além do mais tenho três livros pra terminar.
Sobrou pouco espaço pra falar de "Paterson", o novo filme de Jim Jarmusch. Mas concordo: os melhores poemas são escritos no ar, motoristas de ônibus vão salvar o planeta, a serenidade é cheia de fósforos.

Insônia - Luis Fernando Verissimo

Você já leu tudo que queria ler e o sono não veio. Você já repassou tudo o que fez durante o dia e planejou tudo que fará no dia seguinte e o sono não veio. E o dia seguinte ainda está longe.
Será que contar carneirinho pulando a cerca funciona? Não funciona. O jeito é pensar em nada. Fechar os olhos e esvaziar o cérebro. Concentrar o pensamento num ponto no exato centro do seu cérebro, depois transportar esse ponto para o exato centro do Universo. Você não é mais você, você é o que existe em torno desse ponto luminoso, no exato centro do Universo. Você é o Universo! Se você abrir os olhos, o Universo vazará pelos seus olhos e inundará seu quarto, sua vizinhança, o país, o mundo... Suas pálpebras são só o que retém o Universo dentro do seu cérebro e o impede de invadir... o Universo. Não abra os olhos, não abra os olhos, não abra os... Você abre os olhos, em pânico. Quem pode dormir com tanta responsabilidade?
*
Quem sabe ler mais um pouco? Tanta coisa pra ler... Na verdade, só quem tem insônia tem tempo para ler. É por isso que todo intelectual tem aquela cara de zonzo. Não é cultura, é sono. Intelectual não dorme. Não dorme porque é intelectual ou é intelectual porque não dorme e tem tempo pra ler? Você não sabe. A sua insônia não tem qualquer proveito cultural. A sua insônia é burra.
*
Você se lembra que quando era criança achava que tinha um monstro embaixo da cama. Quando precisava fazer xixi durante a noite, dava um pulo da cama, pro monstro não pegar seu pé. E na volta dava outro pulo pra cima da cama. O engraçado era que você nunca imaginava que o monstro fosse sair debaixo da cama. Era um monstro terrível, comedor de pé de criança, mas era preguiçooooso...
Hoje, você acha que até seria bom se houvesse mesmo um monstro embaixo da sua cama. Pelo menos alguém para conversar. Trocar reminiscências da infância... Lembra dos pulos que eu dava para cair na cama sem você me pegar? Você e o monstro dariam boas risadas.
*
Nem precisava ser um monstro. O ideal seria ter um psicanalista embaixo da cama. Alguém que, além de conversar, poderia curar sua insônia.
*
Quem sabe contar psicanalistas pulando a cerca, como carneirinhos? Lá vai um, lá vão dois, lá vão três... O quarto se recusa a ir porque pertence a uma escola psicanalítica diferente dos outros três. Há uma discussão. Lacanianos contra freudianos ortodoxos. Insultos de parte a parte. Quem pode dormir com um barulho desses?!

domingo, 8 de julho de 2018

Influencers na minha cabeça - Ricardo Araújo Pereira

Luiza Pannunzio/Folhapress


O ser humano é peculiar. Eu sei porque sou um, a maior parte do tempo. Sempre que um maluco ouve vozes na cabeça, elas dizem-lhe para fazer alguma coisa estúpida. Nunca ninguém ouviu vozes sensatas ou bondosas na cabeça.
— Por que é que o senhor doou R$ 1 milhão a esta instituição de solidariedade social?
— Eu não queria, mas vozes na minha cabeça mandaram.
Nunca aconteceu. Coisas bem feitas somos nós que fazemos; coisas estúpidas não são responsabilidade nossa. Com a sorte e o azar é parecido. Temos um azar: por que eu? Temos sorte: silêncio. Nenhuma dúvida, nenhuma surpresa, nenhum "por que, meu Deus?"
Dizem-me que agora há uma profissão chamada influencer. Funciona como as vozes na cabeça, mas, pelo menos por enquanto, pretende apenas acicatar o consumo. Sugerir que você compre esta bebida, frequente aquela academia, calce determinado sapato. São os antigos comerciais da televisão, mas agora mais modernos, porque são feitos por pessoas cuja profissão tem o nome em estrangeiro. E, não sei por que, costuma envolver o jogo da velha. Depois de revelar que é um consumidor feliz de determinado produto, o influencer diz coisas precedidas pelo jogo da velha: #bonsmomentos, #olhasóquemaravilha, #nãoseiseaguentotantafelicidade etc.
A profissão de influencer levanta, contudo, um problema de filosofia da linguagem. Exercer influência sobre outros é uma coisa que se faz, não uma coisa que se diz. É como, por exemplo, a sedução. "Eu agora estou a seduzir-te muito com este meu sensacional encanto" não seduz ninguém. Anunciar "vou seduzir-te" costuma inviabilizar a sedução. O encanto precisa de ser demonstrado com palavras, mas não enunciado.
Ora, o requisito prévio para influenciar pessoas costumava ser omitir o fato de estarmos a tentar influenciá-las. Quando uma pessoa desconfiava que estavam a querer influenciá-la, resistia a ser influenciada. Ser influenciável não era exatamente uma qualidade.
Portanto chamar a uma profissão influencer não parece ser boa ideia. É o mesmo que identificar-se como "explorador de marias-vão-com-as-outras", mas em inglês. É como colocar no cartão de visita: espertalhão que manobra pessoas no sentido de fazerem o que ele quer. Futuras profissões como manipulators, condicionators e dissimulators deveriam ter isto em consideração.

Poema do tapete - Fabrício Corsaletti

Romolo

Não sei por quê, mas sou fascinado por tapetes. Desses grandes de botar na sala, persas ou falsamente persas, com motivos intrincados que a gente nunca decifra. Rosáceas propagando galhos retorcidos de flores que se transformam em arcos que quase encostam em faixas com riscos de fósforos focinhos de felinos.
Quando era criança eu me irritava com a repetição dos padrões. De fato, eles são hipnóticos, e podem se apoderar do nosso olhar como uma música chata que invade o nosso ouvido. Mas agora eu não ligo de 
perder o controle. Fico um bom tempo olhando os tapetes que encontro por aí.
Não tenho tapete em casa. Sou muito alérgico a poeira e preguiçoso demais pra usar o aspirador. Vou ao aniversário de Maíra, e enquanto se fala de política e artes plásticas, abaixo os olhos e me deixo levar pelas cores e formas do seu tapete. Chega a ser meio alucinógeno.
Uma vez passei horas conversando com uma editora de livros em pé em cima de um tapete com bordas que pareciam ripas de madeira entalhadas (janela nova, penteadeira antiga) envolvendo um círculo felpudo de lã azul-turquesa —flocos pretos cintilantes. Foi como pisar no mapa de outro mundo. Lamentei estar no ângulo errado pra cruzar o portal.
Agora lembrei do tapete de Lebowski, o protagonista do filme dos irmãos Coen. The Dude o usava como se fosse uma rede. Deitava no seu “rug” estendido no centro da sala, acendia um baseado e imaginava uma vida melhor: voando pelo céu sem heroísmo, ouvindo Dylan entre as estrelas.
Conheço uma pessoa que reformou o apartamento inteiro, trocou todos os móveis, talheres e roupas de cama; manteve apenas um velho tapete vermelho desbotado, mas que estava com ela no pior momento da sua vida. Um tapete de confiança. 
Um tapete sentimental. Se eu fosse um sultão de mil anos atrás, ia querer só duas coisas: cavalos e tapetes. Cavalos árabes, os mais resistentes, de traços mais delicados —com um rabo que empina e tremula no ar feito bandeira no momento em que o animal começa a galopar. E tapetes na areia, sob as tendas do deserto. (Não curto dança do ventre, embora aprecie danças e ventres.)
Nem oca, nem castelo, nem cabana. Tapetes. Tapetes e toalhas, toalhas e cobertas —tecidos de seda pura. Contra a aspereza da realidade que esfola e sem a ilusão de se proteger do fim. Alívio e vulnerabilidade. Tapetes, olhos e cabelos. E corpos, que se entendem sem razão.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Como é difícil escolher um pão - Ignácio de Loyola Brandão

Sete da manhã de sábado. Pessoas levam seus cachorros para o passeio matinal. Xixis pelas calçadas. Na padaria, sem pressa, leio meu jornal, tomo meu café, um chapado, ou pão na chapa, com suco de mamão e laranja. Não leio tablets, ocupo o espaço de duas pessoas, porque abro o jornal, me estendo, sou espaçoso. O tempo para, vou para a fila do pão.
Na fila, me vi atrás de uma senhora aflita, que mal alcançava o balcão, apontando para a prateleira onde a funcionária Jô, célebre pelo batom vermelho impecável e um riso desse tamanho, acabara de despejar uma cesta de pães perfumados, saídos do forno há dois segundos. O perfume de pãezinhos assados mexe com sentimentos profundos. Sob o olhar risonho da outra funcionária, a Ada, a mulher aflita explica: 
“Veja se me entende. Olhe. Aquele ali, à direita, ao fundo. Não, esse não. Abaixa um pouco, o outro. Isso, esse aí. Pode pegar”.
Jô coloca o escolhido em um saquinho. A senhora aponta para o meio:
“Agora aquele lá! Conte, é o décimo primeiro da esquerda para a direita. Está seguindo meu dedo? Menina, não sabe contar? O décimo da esquerda para a direita. Não, minha filha, da esquerda para a direita e não da direita para a esquerda”.
Jô, tem a paciência de Jó, como dizia minha mãe. Atrás de mim um sujeito de óculos escuros, lentes negras, traduz:
“Ela quer dizer o onzimo. Conte, dez, onze. Esse é o onzimo”.
Nós, clientes, nos entreolhamos. Onzimo? A freguesa prossegue, indiferente:
“O moreninho, não. Deus me livre! Quem gosta de pão moreninho? O outro. Pra lá, pra lá, um pouquinho mais. Pelo amor de Deus, também não precisa ser branquinho assim. Quem come um pãozinho desses? Está cru. Olhe aqui. Mire a partir do meu dedo. Tem dois chamuscados, não sei como colocam pão assim para vender. Me chama aí o José, preciso reclamar, defender o direito do freguês. Tem um moreninho, um pouco claro, ali, isso, aí, esse, esse mesmo! Perfeito, acertou. Parabéns menina”.
Nós, atrás, quase começávamos a nos irritar, mas preferimos saber onde aquilo ia dar. Ada e Jô, as funcionárias, se entreolhavam, pareciam acostumadas, pacientes, viravam-se para nós na fila, sorríamos para elas, ainda que um mal-humorado tenha dado um qual é:
“Vê se vai logo com isso aí, estou atrasado”. 
Outro entrou na história: 
“Atrasado para o quê? Você é aposentado há dez anos. Nunca mexeu uma palha nem quando trabalhava. Te conheço desde que essa padaria era do Zé Maria”. 
Um personagem o Zé Maria, antigo proprietário, antes do José, o atual. Passeava pela padaria, nunca o vi atrás do balcão, vinha com um sorriso, um aperto de mão e a expressão que o definia: “É só alegria”. Um mantra. Há anos repetido. O que era bom de ouvir. A mulher aflita pensou um minuto, apontou:
“Está vendo ali?”.
O dedo é vago na indicação. Aquele ali está dentro de uma caixa com um metro de largura, contendo talvez 200 pães. 
“Não, não, o compridinho não. Está esquisito esse pão, diferente dos outros. Onde acharam essa forma?”.
Lá de trás da fila vem uma explicação:
“Pãozinho francês não tem forma, dona!”.
A mulher vira-se, lança um olhar de desdém, pede:
“Escuta menina, olhe ali, tem um montinho de quatro, juntos. É daqueles que quero, ao pé deles tem um deitado. Não, não, esse não! É dois para lá dele. Será que estou falando japonês?”.
O homem atrás de mim fez sua intervenção:
“Se estiver falando japonês, melhor chamar o Fernando, o japonês, ele chegou, está na mesinha lá fora, com o cachorro quieto ao pé da mesa”.
O cachorro de Fernando deve estar comendo pão de queijo, trazido pelo José, o dono, este outro José, sempre correndo, atarefado, atento, dá a mão, com um sorriso, pergunta: “E o mestre? está bem?”. Respondo, como é meu hábito: “Sim, bem, até agora”. Ele me oferece um brioche, ou um bolo Bem-casado, em seguida entrega como brinde um bolo de panela a um cliente mais assíduo, ou dá de graça uma média a um carente, pão de queijo para outros pedintes. Com mimos como bolachas e folhadinhos salgados, atende pessoalmente a mesa das professoras aposentadas, que batem ponto aos sábados e domingos e são extrovertidas. 
Penso nessas coisas e a senhora ainda escolhe seus pãezinhos: este aqui, aquele lá, preto, nunca, nem branco demais, crocante. Finalmente, dá-se por satisfeita e se vai. Chega a minha vez, vejo que os pães esfriaram, aponto o dedo: “Quero aquele ali, a 12 centímetros da lateral direita, terceira fila de baixo para cima, junto daquele casadinho, grudado no outro, veja, na diagonal, isso, quero os dois, espera aí vou decidir se quero uma rosca ou uma trança doce pulverizada com açúcar”. 
Jô me interrompe: 
“O senhor não quer nada disso, sei o que quer, vai levar os três pães de sempre”. 
Coloca no saquinho e me entrega. 

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Já era - Luis Fernando Verissimo

Disse o homem para o garoto:
“Fiquei velho na época errada. Toda a minha vida foi assim. Cheguei às diferentes fases da vida quando elas já tinham perdido as suas vantagens. Ou antes de adquirirem vantagens novas. Passei minha vida com aquela impressão de quem entrou na festa quando ela já tinha acabado ou saiu quando ela ia ficar boa.
“Veja você: a infância. Houve um tempo em que crianças, assim, da minha classe eram tratadas como príncipes e princesas. Está certo, elas também apanhavam muito. Mas havia as compensações. Geralmente uma avó morava junto ou morava perto e as consolava com colo e doces. E as mães não trabalhavam fora nem faziam academia ou pintura em cerâmica. Ficavam em casa, inventando maneiras de estragar os filhos.
“Você alguma vez teve roupa de veludo? Nem eu. Sou da geração pós-veludo e pré-jeans. Às vezes olho fotografias daquelas crianças antigas com roupas ridículas, golas rendadas e babados, e me dá uma inveja... Aquilo sim era maneira de tratar criança. Acho que a minha geração deu no que deu porque nunca usou roupa de veludo. Ou cacho nos cabelos.
“Outra coisa: psicologia. Fui da primeira geração criada com psicologia. Nada de castigo - conversa. Ele rabiscou toda a parede? Está tentando expressar alguma coisa. E usou o batom da mãe? Ih, cuidado, uma surra agora pode deflagrar um processo de introjeção edipiana e traumatizá-lo para sempre. Também fui da primeira geração que, com a invenção da calculadora de bolso, não precisou decorar a tabuada. Resultado: cresci sem a noção de duas coisas importantíssimas: pecado e matemática.
“Cheguei tarde à infância e muito cedo à adolescência. A revolução sexual começou exatamente um dia depois que eu casei com a minha mulher porque era a única maneira de poder dormir com ela. Nos casamos num sábado e a revolução sexual começou no domingo. Ainda tentei desfazer o casamento, já que não precisava mais, mas não deu, estava feito.
“Minha adolescência foi um martírio. Me lembro dela como uma única e interminável tentativa de desengatar sutiãs. Os sutiãs eram presos atrás de mil maneiras. Ganchos, presilhas, botões, solda. Você precisava de um curso de engenharia para desengatá-los. Uma namorada minha usava um sutiã com uma fechadura atrás. Com combinação, como um cofre, juro. Dezessete para a esquerda, cinco para a direita, rápido que a mãe vem vindo! Você, garoto, nem deve saber o que é sutiã.
“Eu pensava ser um jovem adulto sério, engajado nas melhores causas, talvez até um ativista político, um guerrilheiro. Quando cheguei à idade, os jovens adultos estavam cuidando das suas carreiras e das suas carteiras de ações. Fui da primeira geração que quando falava em ir para as montanhas queria dizer para um fim de semana na serra. E a última que ainda usou a palavra “alienação”, mas já sem saber o que queria dizer.
“Tudo bem, pensei. Vou me preparar para a velhice e os seus privilégios, com minha pensão e meus netos. Mas a Previdência está quase quebrando e minha aposentadoria é uma piada, e meus netos, quando me olham, parecem estar me medindo para um asilo geriátrico. E há meia hora que eu estou aqui chateando você com toda essa conversa e você ainda não se levantou para me dar o seu lugar.”
E disse o garoto: “Pô, qual é, coroa? Esse negócio de dar lugar pra velho já era”.
E suspirou o homem: “Eu não disse? Também cheguei tarde à velhice”. 

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...