domingo, 22 de abril de 2018

O que é ser feminina? - Tati Bernardi


David Magila


Recentemente almocei com um amigo e, ao se despedir, ele me abraçou e lançou: “A maternidade te deixou mais feminina”. Segundo ele, não falar em dinheiro, em pênis, em projetos, e sobretudo em intrigas relacionadas a dinheiro, pênis e projetos, fizeram de mim, finalmente, “uma mulher feminina”.
Apenas para não acordar a bebê sempre no meu colo, adquiri uma nova voz. Mais lenta, mais doce, mais baixa. Quem me telefona sempre comenta: “Nossa, que feminina!”. Gente, será que eu era um mano de regata e tatuagem do Corinthians e até hoje nunca me avisaram?
Como estou de licença maternidade (o que quer dizer que, das 76 coisas que eu fazia, tô fazendo só umas 27), acabei com uns gostos estranhos. Enquanto minha filha dorme, fico googlando mantas de sofá no mais puro algodão, tapetes de banheiro muito felpudos e com antiderrapantes, organizador de meias para gaveta, mini-hortas de temperos orgânicos, uma receita de bolo de banana sem açúcar e sem farinha.
Parei de seguir a vida de ex-namorados, de tentar ler três jornais por dia, de cobrar as produtoras que me devem dinheiro e comecei a curtir os stories de influencers que ensinam a dobrar calcinhas adequadamente. Sim, tá estranho.
Esses dias eu tinha todos os motivos para largar uns sete palavrões seguidos para meu cônjuge mas pensei “vou manter o equilíbrio da casa dizendo apenas um muito delicado ‘não gostei’ e seguir com nossa vidinha pois há coisas mais importantes e sérias a se considerar para a devida manutenção de uma família”. Socorro! Quem é essa pessoa?
Talvez o fato de eu ter gerado uma menina tenha me contaminado de delicadezas.
Talvez minha filha (torço para que faça mais a linha sarcástica do que a “mocinha cor-de-rosa”) não tenha nada a ver com isso. Talvez o amor materno nos torne melhores e ser melhor é sempre mais feminino. Talvez dizer “isso é feminino, isso não é” seja algo bastante besta e machista. Só há uma certeza: todas essas experiências têm sido maravilhosas... Mas também dão uma saudade danada de ser mais masculina.

Pague pela notícia, amigo - Antonio Prata


Adams Carvalho/Folhapress




Vira e mexe eu boto o link da crônica no Twitter ou Facebook e recebo comentários do tipo “Põe o texto na íntegra! A Folha NÃO ME DEIXA LER!!!!!!!”. Gostaria de acreditar que a abundância de exclamações é em razão do interesse por meus escritos, mas percebo que é fruto da indignação: como o jornal ousa cobrar por seu conteúdo? 
Acho curioso. De onde veio essa ideia de que o jornalismo deve (e pode) ser de graça? Este mesmo indignado que exige crônicas na faixa não para na frente do Pão de Açúcar dizendo “Manda dois quilos de acém, meia dúzia de cenouras e dezoito rabanetes pra calçada! O Abílio NÃO ME DEIXA LEVAR!!!!!!!”. 
Produzir rabanetes custa dinheiro. Produzir notícias, idem. E ouso afirmar que no atual estágio de involução do homo sapiens, com as calotas polares derretendo para que produzamos cada vez mais energia para suprir necessidades básicas do homo sapiens, como ir de carro na padaria da esquina e assistir ao Felipe Neto no YouTube, mais importante do que bons rabanetes é bom jornalismo. (A não ser que você considere os rabanetes acompanhados por azeite, sal e umas gotas de limão. Aí eu mando pros diabos o jornalismo, as calotas polares e o homo sapiens).
No início, achei que a exigência de jornalismo grátis fosse coisa de millennials, uma geração que cresceu num mundo “clicável” e nunca teve que buscar conhecimento trabalhando os bíceps numa “Barsa”, turbinando a rinite nos ácaros de uma “Mirador”. Acontece que os comentários vêm de todas as faixas etárias. As pessoas acham justo pagar pelos rabanetes, pelo show do Radiohead, pela assinatura da Netflix, mas não pelo jornalismo, esta instituição fundamental para o bom andamento da democracia. (Se você não gosta da Folha e, pela esquerda ou pela direita, acha que ela não contribui para o bom andamento da democracia, assina a Carta Capital, a Exame, o Nexo, o Valor, a piauí. E por que se restringir ao Brasil? Assinar The Economist, New York Times, Wall Street Journal, Guardian, El País ou a NPR, rádio pública americana, é uma boa maneira de lutar pelo mundo em que você deseja viver.)
Nos meses logo após as últimas eleições norte-americanas, vários jornais e revistas dos EUA experimentaram um grande aumento nas assinaturas, fenômeno a que chamaram de “Trump bump”, algo como, numa livre tradução, “sacolejo do Paspalho” (Se a tradução é livre, posso traduzir “Trump” por “Paspalho”). Foram centenas de milhares de opositores ao presidente eleito que, percebendo como a desinformação e as “fake news” haviam influenciado o pleito, resolveram patrocinar o velho e bom jornalismo.
Sou filho de jornalistas, enteado de jornalista (meu herói, Nirlando Beirão), casado com uma jornalista. Cresci frequentando jornais e revistas, sentado no chão, desenhando com Bics em laudas bege. As Redações eram um mar de gente trabalhando sob um vozerio de mercado árabe, uma sinfonia de telefones e a quase ensurdecedora tempestade metálica das máquinas de escrever. Então veio a internet, as redes sociais e o jornalismo mergulhou numa crise da qual ainda não saiu. São anos e anos seguidos de demissões e o atual raquitismo das Redações me parece inseparável do alastramento das mentiras e boatos que, hoje, pautam o debate mundial, do “Brexit” à velocidade das marginais. 
Pague pela notícia, amigo. O mundo precisa de mais Washington Posts e menos posts de Facebook.

sábado, 21 de abril de 2018

A menina que chorava - Marcelo Rubens Paiva


Não sei a ética dos moradores de rua na ocupação do espaço público, se há locatários, um dono do ponto, se há privilégios ou prioridades. Dividem a cidade como os não moradores de rua, em calçadas nobres e populares?
Algumas calçadas das cidades são disputadas, como a da Rua Boa Vista, no centro, entre o Pátio do Colégio, em que a cidade foi fundada, e o Largo de São Bento, em que o papa ficou hospedado, vizinha à Bovespa, CCBB e Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania.
Nela, igrejas estacionam vans com roupas e rango de graça (outro dia, quase comi o hot-dog de uma delas). Deve ser a mais disputada, já que respiradores do metrô aquecem a calçada e moradores as ocupam como um jogo de dominó.
Costumo interagir com aqueles que dormem nas calçadas. Por defesa, já que um cumprimento conquista aliados, e identificação. Já fui algumas vezes confundido com um pedinte. Parado numa esquina, ou num ponto de ônibus, no anonimato da noite, na minha cadeira de rodas, mesmo sem estender a mão, já me deram esmolas. Acontece com cadeirantes.
Me sinto muitas vezes intimidado por passar sobre o dormitório temporário de um morador de rua, com minha roda emporcalhada pelo próprio piso, em que o limite da cama, o estrado, é o papelão e um trapo. Peço licença, peço desculpas.
Tenho a ilusão de que um boa-noite, um sorriso, um simples olhar, reparar nele, reconhecer sua existência, reconhecer um cidadão, é tão valioso quanto uma moeda.
A cidade busca anulá-los. Mas eles estão na paisagem desde os tempos de Cristo. Que tocou neles, lavou seus pés, curou, alimentou, defendeu e em sermões os fez acreditarem que eram iguais a todos. Estarão na paisagem por todos os tempos de todas as cidades.
Segunda-feira é um dia que obrigatoriamente saio pelas ruas. Da 89 FM, na Avenida Paulista, em que comento no programa Rock Bola, até meu bairro. Em que a cada semana vejo o número de hóspedes aumentar. Alguns reconheço. Na hora que saio, estão se acomodando em marquises para a noite imprevisível. 
Na Paulista, vou até o metrô. Por vezes, embarco num busão no ponto da esquina da Consolação. Cruzo com nóias, bêbados, esfomeados. Nunca paro. Sei quem cumprimentar e quem evitar. Sei que jamais serei vítima de violência de um morador de rua “profissional”. São solidários também comigo. Mas temo a imprevisibilidade dos nóias, os surtados, os aventureiros.
Certa noite, desci na Estação da Vila Madalena. Consigo olhar meu prédio ao longe. Se a luz do meu andar estiver acesa, vou para casa me divertir com a criançada. Se estiver tudo apagado, vou para o bar, me divertir com a boemia. Por vezes, com luzes acesas, prefiro a boemia, indisposto a aguentar Black e Bloc, que por vezes chamo de Al e Qaeda.
Poucos moradores se hospedam naquele terminal. Na segunda-feira fria, 23h, uma menina bem-vestida estava estendida num canto escuro, logo na saída da estação. Ela chorava copiosamente. As pessoas passavam, não paravam, ela chorava. Passei, não parei, e ela chorava.
No meio do terminal, me perguntei por que não parei, por que chorava, por que ninguém parava, por que ignorávamos a dor de alguém, para não nos machucarmos também? E pensei em quantas pessoas fiz chorar, exatamente daquele jeito, numa calçada, e calculei quantas me fizeram chorar no busão, metrô, carro, na calçada ou solidão.
Ela deve chorar de amor. Pelo desamor. Ou não. Voltei. Ela continuava só. Fiquei ao seu lado. Perguntei se estava tudo bem. Que pergunta estúpida... Claro que nada estava bem. Perguntei se ela queria que eu chamasse alguém. Ela me olhou ainda aos prantos, em profundo desespero, olhar comovente, e me deu a mão, uma mão quente, macia, muito quente, muito macia, que segurei com todo carinho do mundo.
Perguntei se queria que eu ligasse para alguém. Só me olhava e apertava a minha mão. Aconselhei ir para a casa. Acenou positivamente com a cabeça, mas não se mexeu. Me perguntei se a causa não estaria na casa dela.
Perguntei se queria que eu a ajudasse a embarcar num metrô. Ela fez não. Num táxi? Ela não fez nada. Me olhou suplicando ajuda. Mas que ajuda?
Achei que meu gesto encorajaria outros, algum profissional, alguém com mais tato. Ninguém mais parava. Vi uma mulher parada me olhando furiosa. Percebi que, aos desavisados, parecia que eu era responsável por aquele choro. Poderiam se voltar contra mim, aquele que fez aquela inocente criatura chorar.
Voltei a olhar a mulher furiosa. Era ela a responsável por aquela dor tamanha? Voltei para a solitária. Eu disse algo incrível. Foi sem pensar. Foi verdadeiro. Veio do fundo da alma.
Eu disse algo como uma hora passa, vai por mim, a gente consegue avançar, toda a dor do mundo um dia é substituída, fica na memória, nos faz crescer, evoluir, amadurecer, está lá, mas sobrevivemos, enfrentamos, vamos em frente, amaremos de novo, novas aventuras virão, esqueceremos, amaremos mais, nos surpreenderemos todos os dias, o hoje pode ser infeliz, mas o amanhã pode ser incrível.
Ela parou de chorar, me apertou mais a mão e sorriu. Fiz positivo com a cabeça, ela fez o mesmo. E a deixei ali sentada. Fui embora sem olhar para trás. Não fui para o bar.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Rir ou gritar? – João Pereira Coutinho

Angelo Abu/Folhapress





Minha oposição ao autoritarismo começa por ser estética. Sempre foi. Teria uns 13 ou 14 anos quando despertei para o mundo sórdido da política. E as minhas perguntas eram recorrentemente as mesmas: como é possível que um povo inteiro possa aplaudir e admirar palhaços torpes como Hitler ou Mussolini? Como levar a sério os seus gestos, as suas poses? Será que as pessoas não veem o ridículo que existe nesses líderes, antes mesmo de escutarmos as suas ideias?
Charles Chaplin tratou do assunto em "O Grande Ditador", filmando o nosso Adolf e o nosso Benito em competição fálica. O filme, mais que uma sátira fantasiosa, era profundamente realista aos meus olhos.
Como seria realista uma sátira igual sobre o pequeno Kim da Coreia do Norte ou até sobre o Maduro venezuelano. Antes de serem antidemocratas, todos eles são personagens grotescos que divertem e horrorizam em partes iguais.
Moral da história: há diretores que procuram retratar a psicopatia política recriando esse estado de medo e desumanidade por artifício artístico. Nunca assisto a esses filmes "sérios" porque existe algo de ofensivo neles: qualquer tentativa de aproximação à verdade é sempre uma confissão de impossibilidade. O "kitsch" é o destino mais comum.
Só aguento filmes sobre a natureza do totalitarismo em tom pícaro. Primeiro, porque a melhor forma de retratar o horror extremo é pela hilaridade extrema: só o absurdo faz justiça ao absurdo. Segundo, porque uma sátira é sempre mais eficaz como denúncia desse horror do que qualquer sermão solene.
"A Morte de Stálin", disponível em DVD pela Amazon britânica, é o melhor exemplo dessa eficácia. Como o título indica, o filme escrito e dirigido pelo impagável Armando Iannucci (o criador de "The Thick of It" e "Veep") apresenta-nos a morte do "Pai dos Povos" e a luta pela sua sucessão.
Corria 1953. O grande camarada tombava, inanimado, nos seus aposentos reais. O comité central reúne-se de emergência e, a medo, sugere que alguém chame um médico. Só existe um problema: os melhores médicos do país foram fuzilados ou estão no gulag. Que fazer?
Arranjam-se clínicos de segunda categoria que atestam o derrame cerebral e, dias depois, a morte de Stálin. O comitê chora (de alegria, obviamente). E começa a luta pela sucessão. Quem será o próximo timoneiro? Beria? Nikita Khrushchov? Malenkov?
A ambição reina, incontrolável. E, com a ambição, vêm novos complôs: para afastar Beria e Malenkov —e para colocar no trono Khrushchov.
Armando Iannucci começa por acertar no respeito pelos fatos: não existe boa sátira sem um contato firme com a realidade.
Em "A Morte de Stálin", é possível assistir ao vaudeville e encontrar um país devastado pelo medo; pelo terror arbitrário; por filhos que denunciam os próprios pais; por uma população que chora voluntariamente a morte de Stálin, mesmo que Stálin seja o responsável último por haver membros da família fuzilados ou enviados para o Gulag.
A grande diferença é que Iannucci filma tudo isso sem nunca "embelezar" esteticamente os fatos com pretensão pedagógica.
Pelo contrário: como qualquer grande satirista, ele limita-se a deixar o absurdo respirar, levando o caos da situação até aos limites mais cômicos e insuportáveis.
O mesmo acontece com os personagens centrais: Stálin, na sua vulgaridade de delinquente georgiano; Beria, o afamado torturador e pedófilo que chefiava a polícia política; Malenkov, figura patética e covarde, que reinou brevemente depois da morte de Stálin; e, claro, Khrushchov, um pragmatista e conspirador grosseiro. Todos eles são simultaneamente assustadores e hilariantes porque assustadora e hilariante era a realidade paralela em que viviam.
Como o próprio diretor explicou à revista "Prospect", só temos duas soluções perante o regime comunista: rir ou gritar.
Ou, então, censurar: na Rússia de Putin, o filme foi proibido pelo governo depois de vários artistas terem pedido intervenção do ministério da Cultura. A obra, nas palavras da "intelligentsia", ofende a história da Mãe Rússia e alguns dos seus "heróis". O ministério agiu em conformidade.
Confere. Anos atrás, Vladimir Putin declarou que o fim da União Soviética foi a maior tragédia do século 20. Para que essa mentira e esse mito sobrevivam, é preciso não ter sentido do ridículo.

Nostalgia do mal – Tati Bernardi




Preciso confessar uma saudade profunda de ser péssima. De ser despeitada, amargurada, vingativa, invejosa, biliosa, um ser humano menor. Essa sou eu e estou cansada de disfarçar.
Eu era deliciosamente ridícula até começar a escrever essa coluna e receber críticas construtivas de amigos intelectuais, leitores refinados, colegas militantes, vizinhos politizados, conhecidos espiritualizados, parentes bem-intencionados.
Não fale de você, fale das minorias! Não invente um personagem, aponte uma personalidade contra as minorias e a destrua. Não fale sobre exercitar seus glúteos e sim sobre os absurdos do Exército ou o fundamental exercício da sororidade.
Aos poucos fui me tornando mais uma cronista boazinha que mantém a leitura em dia e um lugarzinho no céu dos ateus. Uma pessoa bacana que pode tranquilamente participar de uma mesa de debates importantes para a sociedade. Ser aceita, ganhar brindes orgânicos, ser marcada em fotos com gente que usa bata (saia rodada, ostenta biblioteca em casa) e sorrir ao lado de celebridades equilibradas e engajadas.
E nisso fui recalcando minha indecência, minha mesquinhez, mil anos de vexatórios pensamentos fúteis e autocentrados dançando ácidos pela goela sufocada. Pare de escrever sobre suas angústias e tente escrever sobre “uma viagem para descobrir a verdade sobre aquele seu parente exilado”. Que parente? Na minha família a gente só vivia exilado por motivos de fobias e falta de dinheiro.
Fiquei muito triste com a prisão do Lula. Lamentei tremendamente os fogos, os idiotas gritando felizes em suas varandas. E aqui não defendo o ex-presidente, mas sim o que ele representou. Todos nós sonhamos (em 2010 sua aprovação era de quase 90%) e não sofrer minimamente com sua chegada na PF é sinônimo de não ter entendido nada.
Tentei escrever um texto lindo que falasse sobre governar para os pobres (putz), para a multidão que o ergueu, sobre acreditar num mundo mais justo, mas travei na frase “todos nós sonhamos” (que considerei extremamente brega) e passei o dia googlando “pijama seda tipo quimono” e “pijama cetim tipo kimono” no Google porque essa sou eu, amigos. Eu estava sensibilizada, eu estava lendo todas as notícias, mas eu também estava era bem focada em comprar essa iguaria para abrilhantar meu belo corpinho doméstico. O texto não saiu a tempo.
No colégio eu tinha um enorme problema chamado Carla. Ela me detestava de forma tão transparente que contorcia a boca em nojinho despudorado dois segundos antes de cruzar comigo pelos corredores.
Gostava de me humilhar na frente dos outros, ria das minhas roupas muito largas, do meu cabelo muito cheio e posicionava o ventilador da classe de modo a piorar a minha rinite. Carla era bailarina, alta, rica e muito perua. “Um dia...” Eu só pensava isso. “Ah, Carla, um dia”. Até hoje não teve um roteiro que escrevi que não tenha como único foco destruir Carla. Espezinhar, bestificar, dar-lhe doenças e solidão, tirar-lhe a pele e a carne e esquartejar seu espírito até a nona encarnação. E é impressionante como as pessoas consomem essa retaliação. Carla me deu quase tudo que tenho. Cansei de responder nas entrevistas que devo tudo a Tchékov, a Camus, às feministas, ao professor de literatura da pós que fiz na USP. Que nada! Eu devo tudo ao ódio desmesurado que alimentei por Carla, recreio após recreio. Ano após ano. E até esse segundo. Ah, que alegria vê-la obesa, desempregada e casada com um mano bizarro em sua página com poucos amigos. Eu quero é escrever sobre Carla! (Que sempre foi contra as minorias, então tá tudo bem.)

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Apresse-se devagar - David Coimbra

Uma frase pouco conhecida guiou a vida de um dos homens de maior inteligência prática da história da humanidade. Falando em latim, ele repetia sempre para si mesmo: "Festina lente". "Apresse-se devagar".

O homem a que me refiro era o imperador Augusto, o primeiro césar de Roma. Foi desta forma, agindo com rapidez e calma ao mesmo tempo, que ele conseguiu entrar para a História sem jamais deixar o trono.

Não é algo fácil de se fazer. É preciso grande autocontrole. Augusto estava sempre em busca deste poder sobre si mesmo - por saber que assim exerceria poder sobre os outros. Por isso, ele se cercava de homens sábios, aos quais ouvia com atenção e humildade. Um deles era o filósofo ateniense Atenodoro, que, depois de passar um tempo na corte romana, decidiu voltar para a Grécia. Ao se despedir do imperador, Atenodoro deu-lhe o seu conselho mais útil:

- Sempre que se encolerizar, nada diga ou faça antes de repetir em pensamento as 24 letras do alfabeto.

Augusto gostou tanto da recomendação, que pediu a Atenodoro que permanecesse mais um ano em Roma. Depois daquele dia, o imperador vivia repetindo: "Nenhum risco acompanha a recompensa que o silêncio traz".

Essa é uma sabedoria antiga de 2 mil anos, e sempre válida. Mas como praticá-la, diante da necessidade atual de se expressar com pressa?

Eu, agora, estou usando o método de Augusto. Com uma vantagem: recito o alfabeto com k, w e y. Isto é: 26 letras, não 24. Em geral, é o suficiente para dar tempo ao silêncio. Uma conquista preciosa nesta época de paixões em chamas.

Há muitas pessoas de quem gosto e que respeito, algumas que até considero inteligentes e que, na política, são dominadas por um sentimento religioso, pela crença crua. Não há como discutir com elas. Matéria de fé não se discute, porque a fé é incontornável. Então, mesmo que você ouça asneiras, o melhor é calar. Até porque não fará nenhuma diferença argumentar.

Trago aqui comigo, inclusive, a sólida convicção de que não sou apenas eu que cheguei a essa conclusão. Há, em todas as sociedades, aquilo que os americanos chamam de silent majority, a maioria silenciosa. Essas pessoas não expressam suas ideias facilmente, não se expõem nas redes sociais, nem brigam por candidatos. São elas o pesadelo das pesquisas de opinião. Elas sempre existiram, mas, hoje, nesta época de ânimos inflamados, existem em número ainda maior - a maioria está aumentando.

Sem precisar da filosofia dos gregos, sem precisar da sabedoria dos imperadores, a maioria sabe o valor do silêncio. Essa maioria quer que o Brasil mude, essa maioria já está mudando o Brasil. E vai se manifestar na hora certa - nas eleições. Ainda neste ano, o grito dos silenciosos vai assombrar o Brasil.

Quem decide do que você gosta? - Fábio Bernardi

Na edição de fim de semana desta Zero Hora, a colunista Claudia Laitano escreveu sobre o inevitável fechamento da locadora Espaço Vídeo, um daqueles lugares icônicos da cidade que representam um tempo e um segmento de negócios que não voltam mais. Hoje, ninguém mais precisa "locar" nada porque, agora, todo mundo "baixa". O acesso foi reconfigurado em tempos de streaming e vídeos on demand.

No entanto, apesar de parecer mais fácil não ir até uma locadora, carregar fitas, pagar diárias e ter de devolver depois, a reconfiguração do consumo digital oferece dois problemas para a formação cultural das novas gerações.

O primeiro são, justamente, os algoritmos, que espiam o tempo inteiro aquilo que você lê, ouve, vê ou compra na internet. São eles que nos sugerem livros, filmes, músicas e notícias conforme padrões do nosso gosto. Ou seja, nos dão apenas aquilo que já sabemos que gostamos. Os algoritmos nos mantêm na bolha que nós mesmos criamos, retroalimentando a nossa própria visão de mundo e empobrecendo nosso olhar e nossas referências. Quanto mais assistimos, ouvimos, lemos e compartilhamos uma coisa, mais iremos assistir, ouvir, ler e receber aquela mesma coisa. O mundo digital potencializa o pecado do analógico: sem curiosidade para o novo, nosso universo fica menor. Só vemos o que sabemos e só sabemos o que vemos. Assim, obviamente, saberemos cada vez menos.

O segundo problema é oriundo do primeiro. Quanto mais assertivos os algoritmos, mais eles tornam obsoletos conteúdos que não agradam um número maior de pessoas. E como não há espaço infinito, e a produção cultural aumenta exponencialmente numa época em que todo mundo produz conteúdo, como armazenar tudo que é produzido? Quem diz o que é qualidade, aquilo que merece fazer parte de um acervo? Onde você vai achar aquele filme europeu? Aquele livro de um autor obscuro que marcou sua infância? Aquilo de que só você gosta?

É um paradoxo estranho no qual tudo pode ser customizado, mas o gosto coletivo influencia no que é disponibilizado para o consumo individual. Você gosta daquilo que mais vê, mas vai ver cada vez mais aquilo de que a maioria gosta. Mesmo na loja física da Amazon estão apenas os 5 mil livros mais consumidos digitalmente.

O problema de sermos convertidos em dados é que o seu algoritmo é o você de ontem, oferecendo o que é parecido com o que você já conhece. E isso é a morte da criatividade, que será ainda mais importante em um mundo robotizado. Daqui pra frente, seja curioso e enlouqueça o seu algoritmo.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...