sábado, 24 de fevereiro de 2018

Swush - Luis Fernando Verissimo

Estamos no século 14. A Peste Negra assola a Europa. Uma cidade sitiada resiste ao cerco de forças inimigas, repele todos os ataques lançados contra as suas muralhas e recusa-se a capitular. O comandante das forças sitiantes tem uma ideia. Manda as catapultas lançarem cadáveres dos que morreram da peste por sobre as muralhas da cidade sitiada, para infectar sua população. 
E lá vão os cadáveres pesteados.
Swush, swush, swush.
Não dá certo.
- General, os habitantes da cidade estão fugindo dos corpos pesteados.
O comandante tem outra ideia.
- Comecem a catapultar pesteados ainda vivos. Assim eles podem correr atrás dos que fogem.
- Sim senhor.
E lá vão os pesteados vivos.
Swush, swush, swush.
Não dá certo.
- General, os pesteados vivos, debilitados, não conseguem alcançar os que fogem.
O comandante tem outra ideia.
- Preparem os intrigantes.
Uma salva de intrigantes é disparada pelas catapultas sobre a cidade, com o objetivo de espalhar boatos infundados e semear a discórdia entre os defensores.
Swush, swush, swush.
Não dá certo. A resolução dos sitiados continua firme, apesar de as intrigas causarem algumas brigas familiares.
- Mandem os sofistas!
Lá vão os sofistas por cima dos muros, para começar discussões filosóficas sobre a futilidade de resistir, e da existência humana em geral.
Swush, swush, swush. 
Não dá certo. A população da cidade parece não ligar muito para filosofia. A resistência continua. 
- Disparar economistas!
Com suas análises e recomendações, em pouco tempo os economistas criarão tamanha confusão na economia da cidade que enfraquecerão sua defesa.
Swush, swush, swush.
Também não dá certo. O comandante se dá conta do seu erro.
Ordena:
- Disparem economistas de escolas diferentes!
Swush, swush, swush, swush, swush, swush, swush.
Como nenhum consenso é possível entre os economistas de escolas diferentes, a confusão que causarão será ainda maior e obrigará a cidade a se render para evitar o caos, ou apenas para fugir da discussão entre eles.
Mas também não dá certo.
Nada do que foi catapultado por sobre os muros da cidade dá certo.
Tudo foi absorvido pelos seus habitantes, até a Peste Negra, e não há indícios de desânimo ou rendição. Pelo contrário. Começa-se a ouvir os sons inconfundíveis de um ensaio para o carnaval vindo de dentro das muralhas. Aparece um habitante da cidade acenando uma bandeira branca, mas não é um sinal de capitulação. É para fazer um pedido:
- Atirem alguém que toque agogô!

Portucado - Português complicado - Maria Aparecida Alves de Oliveira

Seu Firmino, estava lá na roça capinando e mascando seu rolo de fumo... Eis que chega um dotô; e logo vai gastando o portugueis.
_ Boa tarde nobre senhor! O senhor poderia me fazer um obséquio?
_ Ói, eu num sei fazê isso não sinhô! – responde o caipira. 
O “doutor”, achando graça da simplicidade do caipira aproveita para usar e abusar de seu vocabulário erudito...
_ Caro amigo, tão somente peço que me faça uma afabilidade, um favor.
_ Ah! Sendo assim posso sim sinhô. Podi fala.
_ Incauto senhor, sou um grande empresário e é imprescindível que eu chegue logo na cidade para que meus negócios não sejam lesados, ao contrário, que sejam sancionados; porém, meu GPS está danificado e não tenho uma noção precisa da direção a que devo me dirigir...
_ E tudo isso aí é grave dotô? – diz o caipira que não estava entendendo nada do que o homem estava falando.
_ Como assim grave?!
_ Esse negocio de cauto, gps e cindível.
_ Ora quanta ignorância! Caro senhor, quero apenas saber em que direção fica a cidade!
_ Ara, e era só issu? È facin, facin... o dotô segue toda vida nessa estrada até chegá num descampado que tem um pé de Ipê-amarelo bunito qui só, então vira a direita anda mais dois quilometro, faiz o retorno a sua esquerda e entra a terceira a direita, daí uns 10 minutin chega na cidade.
_ Obrigada meu caro vetusto.
O empresário resmunga enquanto entra no carro: “velho mais ignorante”...
Com ouvido apurado pela necessidade, o caipira grita ao longe: “É mais eu sei onde estou”! – e sai resmungando também que “vetusto” é a mãe dele... seja lá o que isso quer dizer.

Maria Aparecida Alves de Oliveira é professora de Língua Portuguesa e LEM (Inglês), na E.E. Prof. Casemiro Poffo, em Ribeirão Pires.






Acho tão natural que não se pense - Alberto Caeiro

Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa
Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .
Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

Palavra - Luis Fernando Verissimo

Peguei meu filho no colo (naquele tempo ainda dava), apertei-o com força e disse que só o soltaria se ele dissesse a palavra mágica. E ele disse:
– Mágica.
Foi solto em seguida. Um adulto teria procurado outra palavra, uma encantação que o libertasse. Ele não teve dúvida. Me entendeu mal, mas acertou. Disse o que eu pedi. (Não, não, hoje ele não se dedica às ciências exatas. É cantor e compositor.) Nenhuma palavra era mais mágica do que a palavra “mágica”.
Quem tem o chamado dom da palavra, cedo ou tarde, se descobre um impostor. Ou se regenera, e passa a usar a palavra com economia e precisão, ou se refestela na impostura: Nabokov e seus borboleteios, Borges e seus labirintos. Impostura no bom sentido, claro – nada mais fascinante do que ver um bom mágico em ação. Você está ali pelos truques, não pelo seu desmascaramento.
Mas quem quer usar a palavra não para fascinar mas para transmitir um pensamento ou apenas contar uma história tem um desafio maior, o de fazer mágica sem truques. Não transformar o lenço em pomba, mas usar o lenço para dar o recado, um lenço-correio. Cuidando, o tempo todo, para que as palavras não se tornem mais importantes do que o recado e o artifício – a impostura – não apareça, ou não atrapalhe.
O Mario Quintana disse que estilo é uma dificuldade de expressão. Na época em que a gente não podia escrever tudo o que queria, estilo muitas vezes era disfarce. Apelava-se para metáforas, elipses, entrelinhas, e dê-lhe parábolas sobre déspotas militares – na China, no século 15. Uma impostura maior, a do poder ilegítimo, obrigava à impostura da meia-palavra, do truque mais ou menos óbvio.
O consolo era que o medo da palavra de certa forma a enaltecia: estava implícito que o regime só sobrevivia porque a palavra não podia exercer todo o seu sortilégio. Hoje, nos vemos diante de outro regime ilegítimo, mas livres para escrever o que quisermos e livres da obrigação de dissimular. E nos descobrimos sem nem estilo, nem muita relevância. Pode-se escrever tudo e não adianta nada. A palavra “mágica” é só a palavra “mágica”.

As pessoas são boas - Marcelo Rubens Paiva

Os modais são a minha lei. Não tenho mais dirigido. Saio pela cidade de metrô, busão, táxis, ou pela ciclovia. Convivo com toda espécie de profissional do transporte público, pedestre e passageiro.
Cuja maioria, em São Paulo, é calada, vive na bolha, inerte num mundo sonoro próprio, uma trilha pessoal, com a praga chamada fone de ouvido. Eu que adoro papear em modais fico sem interlocutores. A não ser no busão, em que motoristas e cobradores são adeptos de um papo furado.
No Rio, ocorre o oposto. A simpatia dos pedestres, que se olham e intervêm, oferecem uma mãozinha, contrasta com o mau humor, por vezes a absoluta indiferença, de servidores que estão trabalhando no metrô ou ônibus. Sem contar a pilantragem que rola em alguns táxis, se não capricharmos no sotaque carioca, “m’ermão”.
Busão, pego mais às noites. É rápido, confortável. Cadeirante, sou na verdade embarcado. Quando tem plataforma, que chamamos de elevador, todos esperam o motorista operá-la. Em São Paulo, na minha área, predomina o piso baixo.
No mundo rico, são rampas automáticas amarelas, operadas pelo motorista, que apitam quando abrem, estendem ou fecham. Em São Paulo, a solução é o improviso. Nada de rampas automáticas amarelas caras e de difícil manutenção. São tábuas amarelas, estendidas ou pelo motorista ou pelo personagem que só tem no Brasil, o cobrador.
Faço o sinal no ponto. Param no lugar ideal, são atenciosos, solidários. Sentem orgulho de prestar serviço ao cidadão com necessidades especiais. Ainda atam meu cinto, perguntam onde desembarcarei. Passageiros nunca reclamam da demora.
Nunca um motorista se recusou a parar para mim. Nunca encontrei um com má vontade. Às vezes, é um passageiro quem abre a rampa, ou me apoia para descer, se ela ficou muito íngreme.
Na segunda-feira, a prova da bondade humana se revelou mais uma vez. Nunca tinha acontecido. Temia acontecer na entrada do vagão do metrô, em que tenho que, em velocidade, ultrapassar o vão e subir ou descer degraus que, às vezes, chegam a 10 cm.
Minha cadeira motorizada quebrou no meio da rampa amarela de um busão às 23h num ponto da Avenida Paulista, com cara de chuva. Motorista, cobradora, pedestres me ajudando, e nada. Travou. Pensei rápido. Vou até a esquina de casa e lá me viro. Melhor que ficar travado numa avenida sem a menor chance de me locomover. 
Pedi para colocarem a cadeira em modo manual. Ela fica pesada (comigo em cima, 170 kg), difícil de empurrar, mas fui encaixado no espaço. Cinto atado, partimos. Liguei para a mulher, que por sorte atendeu. Pegue o carro e me pegue na farmácia. Liguei para um jovem sobrinho boêmio, vizinho, que, milagre, estava de bobeira em casa. Me encontre no ponto.
Ao chegarmos, o motorista me perguntou qual o melhor lugar para descer. Na farmácia, depois do ponto. Ele subiu o enorme modal na calçada, me desembarcou com passageiros ajudando, me deixaram na calçada.
Pedestres anônimos me deixaram no estacionamento, na superfície plana. O sobrinho nem acreditou; me esperara no ponto. Em minutos, a mulher chegou. Em casa, troquei de bateria, a cadeira funcionou.
As pessoas se odeiam no trânsito, seguram seus volantes como baterias antiaéreas, usam a buzina como o botão que dá a partida num míssil. Mas, no fundo, as pessoas são boas. E sou testemunha.
Em trem, já fui carregado por um indiano que nunca mais vi. Desconhecidos me subiram e desceram escadas. Não pediram nada em troca. “Quer uma ajuda” é um mantra com o que todo deficiente se habitua rotineiramente. Já tive carro quebrado, no meio do nada, em que alguém me ajudou a consertar.
O ódio existe, sempre existiu. Algumas pessoas se odeiam na internet, discordam-se umas das outras, usam argumentos que consideram ofensivos como “vai ler”, “vai estudar”, expõem um racismo incutido, uma homofobia e misoginia desmedidas. A não ser psicopatas, que não são poucos, algumas pessoas, se flagradas, arrependem-se, choram, pedem desculpas, são fotografadas de cabeça baixa, tristes.
O homem tem empatia. Tem capacidade de sentir (e até prever) o que o outro sente. Foi Kant quem disse que o altruísmo é uma condição humana. E os evolucionistas, leitores dele, como Darwin, garantem que os genes humanos criaram um agente completamente inédito, não biológico, ao comportamento animal: a cultura.
Culinária, confecção, decoração, música, poesia, competições esportivas, folclore, ética, religião, filosofia, narrativas, previsão do futuro, casamento, calendário, compreensão dos astros, divisão do ano em estações, noção do antes e depois, da vida e da morte, leis, sanções penais, superstições, correspondências, documentos são próprios dos homens, nos distinguem, nos diferenciam, nos afastam do passado primata. Como o altruísmo.
Kant insistia: ser solidário versus individualismo e conservar a própria vida são um dever; ser bom quando se pode é um dever; existem pessoas tão capacitadas para o altruísmo, que, mesmo sem qualquer vaidade ou interesse, experimentam uma satisfação grande com o contentamento do outro; fazemos o bem não por uma inclinação, mas por um dever. Daí nasceu a ideia de utopia. Eu prefiro acreditar que ela existe. E lutar por ela.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

'Happy' - Luis Fernando Verissimo

A gente não faz aniversários. Os aniversários é que vão fazendo a gente. E depois, pouco a pouco, nos desfazendo.
Pode-se medir a passagem do tempo pelos diferentes significados da frase “Feliz aniversário!”. Do “Feliz aniversário!” que quer dizer “hoje é seu dia, que alegria, mais um ano da sua vida, comemore porque você merece etc.” ao “Feliz aniversário” que quer dizer “que chato, mais um ano da sua vida que se vai, mas não ligue e comemore - com moderação porque você não tem mais idade”. 
Do “Feliz aniversário!” como exaltação ao “Feliz aniversário” como ironia. 
Até uma certa idade, se faz festa por um ano a mais. Depois de uma certa idade, se faz festa por um ano a menos. Mas aí a festa é para disfarçar.
O valor simbólico do aniversário é que ele marca a nossa integração no Universo - ou, pelo menos, no Sistema Solar. Assim como a Terra, nós também completamos uma volta em redor do Sol, e comemoramos o feito. Não falta quem preferiria acompanhar cada volta de Saturno em torno do Sol, que levaria muito mais tempo, e economizar em cremes faciais e plásticas. Mas estamos presos à Terra e aos seus ritmos. E condenados a envelhecer junto com ela.
Antigamente (eu sou do tempo do antigamente), cantava-se só o Happy Birthday, em inglês, para o aniversariante. Depois surgiu o Parabéns a Você, não sei se por um prurido nacionalista ou porque ninguém acertava como fazer com a língua no “th” do “birthday”.
Dependendo da idade do aniversariante, o trecho do Parabéns a Você que diz “muitos anos de vida” pode ser mudado para algo como “e que folha corrida!” para rimar com “data querida” sem causar constrangimento.
Fora o Parabéns em vez do “Happy Birzdei”, as festas de aniversário não mudaram muito através dos anos. Novidade em matéria de velinhas só a vela que depois de apagada acende de novo, e de novo, e de novo, até o aniversariante impaciente enterrá-la no bolo com um tapa.
Festas de aniversário para crianças modernas são organizadas por empresas especializadas que cuidam de tudo, desde a decoração do ambiente até os doces e os shows de palhaços e mágicos que as crianças ignoram, preferindo fazer guerra de brigadeiros. Mas os rituais continuam basicamente os mesmos, seja para crianças ou para adolescentes: o bolo com as velas, o Parabéns desafinado acompanhado com palmas, as meninas que vão em grupo para o banheiro e não saem mais, o menino chato que dá pontapé em todo o mundo etc., etc.
O que realmente mudou com o tempo foi festa de aniversário para adultos. Hoje, é comum convidarem uma “stripper” (nome que nenhum prurido nacionalista ainda aportuguesou) para o entretenimento quando o aniversariante é homem. O show geralmente termina com a “stripper” nua no colo do aniversariante ou o aniversariante no colo da “stripper” nua e alguém dizendo “Se não servir, pode trocar!” ou coisa parecida. Mas novidade mesmo é “stripper” masculino tirando a roupa em aniversário de mulher. A extensão da sua nudez depende de certos fatores, como a presença ou não na festa da tia Isoldina, que desmaiou na frente do Davi de Michelangelo, ou de não ter havido um mal entendido - como na vez em que o “stripper” se recusou a tirar a cueca e finalmente conseguiu que ouvissem o que ele estava tentando dizer desde que batera na porta, que só estava ali para entregar uma pizza.
Confessemos: quem não gosta de ter seu aniversário lembrado? Os que dizem que não querem festejar porque não ligam para essas coisas, e “não desperdicem tempo e dinheiro comigo”, e “que bobagem”, e “eu nem vou estar aqui” são os que depois mais gostam da festa, e mais riem com a velinha que não apaga, e regem o Parabéns e as palmas, e, se for o caso, saem dançando com a, ou o, “stripper”.
E, além de adorar todos os presentes, adoram comemorar esse fato fantástico: deram outra volta no Sol, e continuam vivos. 

Os loucos da província - Milton Hatoum

Ele era o louco dos sábados. Um estrambótico simpático, com mania de pacificador, e feioso de dar dó.
Os pontos azuis e vermelhos brilhavam, longe, às oito da manhã, e quase sempre nos sábados quentes do equador. As manchas coloridas cresciam na avenida Getúlio Vargas, se alongavam em figuras geométricas, e quando passavam em frente à janela do meu quarto davam forma e volume ao corpo.
Vermelhos o rosto, o pescoço e a cabeça calva; azuis e brancas as listras do pijama, inesquecível. Ali marchava o Bombalá, o primeiro louco da minha vida de jovem ginasiano.
Marchava descalço, à frente da banda da PM; os soldados-músicos não molestavam seu maestro distraído, de passos incertos e sinuosos. Vez ou outra, Bombalá estacava para admirar um pássaro, que só ele enxergava; depois ria, batia asas e conversava com a ave, que já voava, longe; mas o papo se prolongava num diálogo secreto: o homem na terra, o pássaro no silêncio do espaço, enquanto a banda militar passava como um estrondo de metais e tambores na manhã incomum.
Foi num sábado tumultuado que a gente viu o Bombalá de muito perto. Qualquer música ao vivo e em movimento o atraía, e dessa vez eram os hinos patrióticos e marchas militares interpretados pelas bandas do Colégio Estadual do Amazonas e do Rui Barbosa.
Ensaiávamos de uniforme completo, tão adaptado ao clima quente e úmido: camisa de manga comprida com abotoaduras, gravata preta com a insígnia dourada, cinturão de couro sobre a calça comprida de flanela cinza, botas e meias pretas. Os alunos do Rui Barbosa usavam um uniforme azul, da cor da bandeira pátria.
As bandas tocavam músicas diferentes, e marchavam em direções opostas, mas na mesma pista da avenida. O encontro era inevitável; o choque e a batalha, imprevisíveis.
Lembro que voaram baquetas e cornetas, a boca de uma tuba sufocou uma cabeça miúda, os metais se chocavam numa gritaria de gralhas, e o Chiado, do segundo ginasial, tombou ensanguentado nas pedras cinzentas.
A valentia e o destemor podiam ser atributos da idade, mas o ódio mútuo era inexplicável. No auge da selvageria surgiu o estrambótico de pijama listrado. Ficou plantado entre os que vinham à direita da avenida e os que iam à esquerda, mas agora tudo estava confuso, fundido na mesma massa de rancor e sangue. Impávido, ele gesticulava como um maestro do outro mundo, e gritava, cheio de alegria: “Cambada de doidos! Eu sou o Bombalá e não sei quem sou, mas vim em paz e quero a paz!”.
Só louco mesmo para alimentar tanta fantasia de paz entre bandos inimigos e furiosos, numa batalha em que todos perderiam. Mas foi assim que terminaram os ensaios para o desfile do Dia da Pátria naquele sábado: 5 de setembro de 1964.
Às vezes, quando a banda da PM dava meia-volta na Getúlio Vargas, o Bombalá prosseguia sua marcha sem cadência na larga avenida, a cabeça raspada, escaldada pelo sol a pino, os pés esfolados pelas pedras em brasa. Da janela do quarto, eu seguia com o olhar o maestro pacificador. Aos poucos a cabeça e o pijama se tornavam pontos vermelhos e azuis, e essa mancha colorida entrava na Joaquim Nabuco, continuava pela Vila Municipal até o fim da cidade, depois se embrenhava na floresta, atravessava o Brasil até aparecer na minha lembrança em pleno carnaval na rua do Sumidouro, onde o fedor do rio Pinheiros é insuportável, e o Bloco dos Duendes batuca e pula numa alegria doida de Bombalá. 

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...