sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Uma criança nasce - Marcelo Rubens Paiva

Observar um filho crescer é a chance de ter em casa um pedaço da história da evolução e dos conflitos humanos. Especialmente se ele ganhar um irmão. Duas crianças numa casa são como duas aldeias, dois países rivais, duas religiões de diferentes profetas em guerra.
Para o relatório anual da escola, fizeram um questionário metafísico ao meu filho Joaquim, 3 anos e meio, assim que ele voltou das férias. Dez questões. As respostas seguem a lógica e simplicidade de uma criança, com os mistérios dos lapsos e traumas, num momento em que eles podem ser analisados:
“O que é alegria?”
“Quando sorrio”, respondeu.
Faltou incluir no final da frase Pedro Bó, personagem escada do humorista Joe Lester, criado por Chico Anysio, que respondia a perguntas consideradas fáceis com respostas óbvias.
“O que é medo?”
“Quando aparece um monstro.”
É a fase dos monstros. Todos nós passamos por ela. Pregos na parede viram cobras, sombras viram jacarés. Uma defesa gerada pelo inconsciente coletivo diante dos perigos da selva, da caverna, da natureza, da vida (Riobaldo). 
“O que é tristeza?”
“Chorar que alguma pessoa não é amiga de outra.”
Profunda demais... É a fase da descoberta do ódio, rancor, competição, que conduz e detém a humanidade. 
“Uma coisa engraçada.”
“Uma pessoa que seja o amigo.”
Escola tradução amigos. E a em que ele está, por alguma magia ou projeto didático que não há em outras, a importância da amizade é reforçada. Não me lembro de amigos da pré-escola. Me lembro dos da rua. Sou do tempo em que a maior parte da vida de uma criança rolava nas ruas. Literalmente sobre rolimãs. Meu filho, hoje, tem mais amigos e é convidado para mais festas do que eu.
“O que você mais gosta da escola?”
“Eu gosto mais de desenhar e pintar e desenhar na parede de azulejo.”
Sabemos muito bem disso. Meu filho é um pequeno Jackson Pollock. Suas telas abstratas se espalham pela casa, penduradas por ele mesmo em locais estratégicos. Muitas cores, traços, formas escondidas sob pinceladas. Vou lamentar muito o dia em que ele abandonar seu estilo visceral e começar a desenhar casinha com chaminé, nuvenzinha e sol.
“O que você mais gosta do mundo?”
“De futebol.”
Novidade. Nunca me deixa assistir a jogos de futebol. Mas é uma esperança. Ele é descendente do grande Vicente Feola, sim, ele mesmo, jogador do São Paulo que foi o técnico da Seleção Brasileira em duas copas. Uma delas, a campeã de 1958.
“Que cor você mais gosta?”
“Preto e muito vermelho e muito amarelo. Amarelo é uma cor muito bonita.”
Isso sabemos de cor: preto e vermelho, por causa do “Homem de Aranha”, o herói complexo de todos os garotos de menos de 5 anos; amarelo, que ele fala “yellow”, por causa do clássico Yellow Submarine. Sim, Beatles ainda fascina. Ainda é a banda número um.
“Qual seu lugar preferido?”
“Na rua em que mora o Totom.”
Totom é um dos seus melhores amigos. A rua do Totom é como uma rua pacata de um bairro pacato. Acredito que ele se referia ao condomínio do Totom, um terreno gigantesco, com campo, piscina, quadras, em que moram muitos colegas da escola em que a primeira coisa que aprendem é que aquele moleque engraçado de cabelos encaracolados não é Tonton nem tonto, mas Totom.
“O que você quer ser quando crescer?”
”Fazer uma novidade com o Pedro.”
Pedro é outro dos melhores amigos. Que novidade seria? A mais intrigante das respostas. Tão metafórica que se torna indecifrável.
“Qual bicho você mais gosta?”
“Leião.”
O rei das selvas continua seu reinado.
“O que é saudade?”
“É quando uma pessoa vai embora.”
Grande resposta. Estilo Fernando Pessoa. 
“Um barulhinho bom...”
“É uma coruja que faz uh, uh, uh...”
Fato. Barulhinho delicioso do símbolo da sabedoria e do seu restaurante favorito, o japa do bairro.
Ontem, depois de pedir um favor, ele disse: “Seu desejo é uma ordem...”. Enquanto eu refletia sobre como e onde aprendeu essa expressão, ele saiu andando, repetindo a frase: “Adoro falar isso, seu desejo é uma ordem...”.
Conta fatos com uma incrível riqueza de detalhes, como: “Quando eu acordei, eu tive um sonho, e depois meu avô chegou em casa, e o coelho me deu um ovo grande e um ovo pequeno de chocolate e o cinza de coco. O vento soprou as pegadas do coelho, e depois eu fiquei muito bravo, porque as pegadas do coelho foram embora”. 
Um misto de Borges com saudades da Páscoa.
No final do relatório, as professoras escreveram: “Muito inteligente e com senso de humor, o pequeno sempre tem tiradas engraçadas! É muito gostoso conviver com ele”. A exclamação é delas. O pai babando até agora...
A História faz o homem. História feita pelo homem, que pode modificá-la, reescrevê-la, revolucioná-la. O homem é cria de uma história construída por ele, que está determinado a mudá-la até alcançar a utopia. 
Uma criança não nasce nazista, fascista, sexista. Uma criança não nasce homofóbica, xenofóbica. Uma criança não tem preconceitos. Não distingue deuses, etnias. Nem sabe o que é certo ou errado, vida e sonho, sonho e pesadelo, vida e morte. Uma criança nasce. E se torna.
Quando um avô que lutou contra os nazistas na Europa, viu amigos tombarem na guerra, vê o neto fazer uma saudação nazista, repensa toda a vida e chora. Sente-se inútil. A História dá rasteiras no criador, o homem.

A vida acontece enquanto falamos sobre política - Mariliz Pereira Jorge

Na semana passada, tive um compromisso de trabalho e acabei passando a noite em São Paulo, no carinho da casa de uma amiga. Ela chegou tarde, trouxe vinho, ingredientes para um risoto de linguicinha apimentada com abobrinha. Tombei o corpinho cansado na parede da cozinha, só fazendo esforço para levantar a taça, entre o cheiro de cebola frita, o barulho da água que fervia para alimentar o cozinho e a conversa calorosa, apesar do tema árido.
Nos conhecemos desde a época da faculdade, o que significa que já passou um tanto de chão por baixo de nossa história. Depois de formadas, dividimos apartamento, contas, segredos, frustrações, vontades, alegrias, vergonhas e ressacas. Mas nunca nenhum homem.
Ela sempre preferiu um estilo intelectual-malvado-hipster. Eu não tinha tipo, eu cismava, mas não a ponto de encarar alguém com chinelo franciscano, calça de algodão orgânico, desses que enrolam o próprio cigarro. Portanto, nossas preferências nunca trombaram com nossos desejos. O que nos ajudou a garantir mais de duas décadas de amizade sem cobiçar o macho alheio. Sempre fui a primeira a receber notícias fresquinhas sobre o campo fértil de sua vida amorosa - e vice-versa.
Apesar de ser a casa dela, agora, sempre me sinto como se estivesse na minha. Não apenas pelo aconchego, que apenas uma amizade tão longa pode proporcionar, mas porque em cada canto há lembranças de móveis, objetos e aromas que recheavam um antigo endereço que um dia foi nosso.
Passamos algumas horinhas falando sobre o assunto favorito em rodas de amigos, hoje: política. E concluímos que todo mundo está lascado. Todo mundo, nós, o povo.
Já no café da manhã, ela me conta, no mesmo tom de quem falaria que se esqueceu de pendurar roupa no varal, que esteve apaixonada por um fulano.
E antes que eu pudesse dar uns gritinhos histéricos, fizesse uma dancinha pornográfica para simular o casalzinho, perguntasse se foi bom ou se foi apenas efeito de substâncias entorpecentes, aquelas coisas que só a cumplicidade de amizades muito longas permite, me senti, primeiro, traída. Como assim, uma amiga conhece alguém, se apaixona, desapaixona e apenas tomo conhecimento dos restos mortais do romance?
E antes que eu ousasse ficar feliz, curiosa, saber se o moço declama poesia enquanto enrola seu próprio cigarro, se abaixa a tampa da privada depois de usá-la, se carrega suas próprias camisinhas ou se tem "alergia", se não namora porque tem trauma, se foi no Tinder ou no Genial, me senti, num segundo momento, incrédula pela informação sonegada.
Desde quando deixamos de falar de coisas realmente importantes como homens, sexo, dietas, viagens, barbeiragens do cabeleireiro, trânsito, noites mal dormidas, excesso de trabalho ou falta dele, chefes malvados e salários injustos, para discutir sobre política o tempo todo?
A vida adulta é isto? Analisar a distribuição de dinheiro de emendas, compra de deputados, dinheiro para fundo partidário, doação eleitoral sigilosa, corte no salário mínimo, desdobramento da operação Ponto Final, as camareiras da primeira dama, a tornozeleira do homem da mala, a careca do Eike?
Que bela bosta.
É ótimo que a gente fale mais sobre todos os problemas que nos afetam e a política está ligada à maioria deles, mas o tempo todo e nessa ordem de grandeza? Nas redes sociais, nas mesas de bar, na hora de fazer um risoto apimentado, numa sexta fria e chuvosa, quando tudo o que quero saber é com quem minha melhor amiga está transando?
Do jeito que a coisa anda, um dia ainda encontro esta ou outra amiga qualquer, alguém sobre quem acompanho todas as opiniões políticas, em quem votou, se gritou #foradilma ou #foratemer, se foi contra o Brexit, se compartilhou o tweet do Obama, se acredita que nazismo é de direita ou de esquerda, e descubro, que nesse meio tempo, ela se casou, teve gêmeos, mudou de emprego, se separou, trocou de profissão, virou vegana, mora em Pirenópolis.
E a gente discutindo se vota no Macaco Tião ou se muda para Portugal. 

Treblinka - Fernanda Torres


Marta Mello/Editoria de Arte/Folhapress

Por razões profissionais, procurei Marcelo Freixo para conversar sobre o dia a dia das prisões no Rio de Janeiro. Terminado o café, o deputado me propôs que eu visitasse uma penitenciária.
Acabo de chegar do Evaristo de Moraes, presídio localizado na antiga estrebaria da família real, entre o zoológico da Quinta da Boa Vista e a comunidade da Mangueira. A localização já diz muito, mas me atenho aos números. Planejada para alojar 1.400 presos, a unidade abriga 2.500 detentos e conta com seis guardas que se alternam na ronda, em turnos de 24 horas.
Ali, se amontoam condenados por estupro, assassinato e tráfico. Também estão lá criminosos que traíram ou não têm ligação com as grandes facções e que correriam risco de vida caso fossem alocados em unidades dominadas pelo Comando Vermelho (CV), a Amigos dos Amigos (ADA) e o Terceiro Comando.
Essa é a escória do crime, me disse Castro, que dirige a unidade. Com longa experiência, o diretor explica que é mais difícil estabelecer uma relação de confiança e respeito com uma população carcerária sem hierarquia própria.
Cada cela tem um líder encarregado de fazer reivindicações e manter a ordem nos 200 metros quadrados sob sua responsabilidade. Sem a colaboração dos presos, seria impossível evitar o caos.
Guardas e detentos habitam essa praia imunda, onde o tsunami da desigualdade social dá de arrebentar. Assolada por décadas de ineficiência e corrupção do poder público, a legião de brasileiros sem escola, hospital, creche, transporte e saneamento básico acaba trancada ali, enquanto a sociedade transfere para a polícia o dever de barrar as vagas.
Durante a visita, os presos se alinharam diante das camas, em posição de sentido atrás das grades. Ao verem Freixo, se aproximaram formais, pedindo urgência nos processos, transferência para perto dos familiares e assistência médica.
Tuberculose, erisipela, hérnia, psoríase, sarna, aids: todas as misérias do mundo fazem a festa num presídio úmido e superlotado, com goteiras pingando sobre colchões de espuma sem forro. De short, eles exibiam as cicatrizes, feridas e sequelas de suas tragédias, enquanto tentavam aparentar calma e controle.
"Vamos entrar?" propôs Freixo. Atravessei o corredor de corpos enfileirados, e o que parecia uma massa uniforme de rostos pardos do lado de fora adquiriu individualidade. Didier, a trans que assassinou um cliente a facadas, me mostrou a cópia do passaporte que usou para rodar a Europa; um homem me recitou um poema; outro, ator, disse ter participado de uma oficina de teatro com minha mãe em São João do Meriti.
Percorri os 25 metros até o banheiro e voltei, cercada de uma imobilidade assustadora, resignação sem piedade, uma linha tênue entre a razão e o desespero.
Dos 2.500 presos, só 60 trabalham. O ócio, diz Castro, é um grande inimigo. Mas não há planos, dinheiro, não há estratégia que não a de trancafiar e esquecer. Vigiar e punir. A polícia é tão refém desse sistema quanto os que vivem à margem.
Thiago Castilho, um jovem inteligentíssimo, nos abordou. Abandonado aos nove meses pelo pai e pela mãe, cresceu mendigo, assaltou, matou e tirou seu primeiro documento quando foi condenado. Já tentou o suicídio e foi salvo pela biblioteca e a escola do Evaristo de Moraes, onde foi alfabetizado. Escreveu dois livros: o último acaba de ser publicado. Ele pedia permissão para ir ao lançamento.
Os racistas que atropelaram "commies" nas ruas da Virgínia acenderam o alerta para o retorno do nazifascismo. Mas bastaram 50 metros de caminhada naquela cela para experimentar a rotina de um barracão de Auschwitz, Treblinka, ou coisa que o valha.

Sempre há um exército dos mortos, que amam e propagam a morte - Contardo Calligaris

Na saga de "Game of Thrones" (na HBO), o exército dos mortos está avançando pelos espaços gélidos do grande norte. Ele vem, com o próprio inverno, para acabar com todos os vivos. É quase invencível, pois cada humano que é assim trucidado se transforma em soldado dos mortos. As vítimas do exército são automaticamente seus recrutas.
Talvez os vivos tenham uma chance de resistir se eles conseguirem lutar unidos. Mas o que eles têm em comum que permita que se unam? Jon Snow respondeu no episódio 5: os vivos todos respiram –eles compartilham só isso. No episódio 6 (exibido em 20/8), ele perguntou por que lutar contra o exército dos mortos, visto que todos morreremos um dia, de qualquer forma. Um companheiro lhe respondeu que tanto faz, a morte é o inimigo, e o inimigo sempre ganha, mas mesmo assim precisamos combatê-lo.
Primeiro, devo dizer que não estranho o exército dos mortos de "Game of Thrones".
A morte é comum na iconografia cristã a partir da peste negra de 1346, que matou um quarto, calcula-se, da população mundial da época. Sua imagem mais frequente é a do esqueleto com a foice.
Essa figura não me apavora, desde que meu pai me explicou que a foice, antes de ser o instrumento da morte, era o atributo de Cronos, o tempo, porque a ceifa ocorre a cada ano e marca o passar das estações.
A morte com a foice é a morte natural, efeito esperado, embora não desejado, do tempo que passa e devora nossas vidas.
Outra imagem da morte me impressionava quando eu era criança. Visitei o mosteiro beneditino de Subiaco (dito o Sacro Speco, perto de Roma) aos seis ou sete anos. O edifício é lindo, colado contra a montanha, no lugar onde são Bento viveu um tempo como eremita, mas eu achava a visita cansativa e chata.
Isso até que me apontaram, numa abóbada, se me lembro direito, um afresco (justamente da época da grande peste) que apresentava a morte a cavalo, com uma espada (e não a foice) na mão, atropelando suas vítimas. Não queria me afastar, fugia da visita guiada e voltava para vê-lo novamente.
Anos depois, quando conheci Guernica, de Picasso, pensei que o cavalo no meio do painel era o da morte de Subiaco. Anos depois também, passando férias na Sicília, visitei o Palazzo Abatellis, em Palermo, e esbarrei no gigantesco "Trionfo della Morte", no qual a morte, a cavalo, usa arco e flecha.

"Trionfo della Morte" (1446), obra de autor desconhecido exposta na galeria do Palazzo Abatellis

Em suma, a morte de "Game of Thrones", a cavalo, liderando um exército de cadáveres, é para mim uma imagem familiar, uma versão quase padrão do quarto cavaleiro do Apocalipse.
Vamos agora à resposta do companheiro de Jon Snow: ele apenas diz que, por sermos vivos, deveríamos combater do lado da vida. Ele não diz que a vida seria um valor em si –prova disso, ele e o grupinho de Snow estão dispostos a morrer combatendo contra a morte. Concordo com eles, sobretudo porque não tenho nenhuma simpatia por quem está do lado da morte.
O que significa estar do lado da morte? Significa erotizar a morte, torná-la desejável e venerá-la como um valor. Será que, fora o improvável exército dos mortos, alguém faz isso? Claro que sim.
Antes de discutir se fascistas e nazistas são de esquerda ou de direita, seria bom lembrar que eles estão sobretudo do lado da morte: legiões de jovens com caveiras no braço, na lapela ou na boina, deliciando-se com a promessa de seu próprio sacrifício e do extermínio dos outros.
Mas não são só eles: sempre há um exército dos mortos em marcha. A literatura e o cinema nos lembram disso o tempo todo. Basta escutá-los. Quem eram os soldados do exército de zumbis que apareceu em 1968, na "Noite dos Mortos-Vivos", de George Romero? É bom se perguntar, porque eles ainda estão marchando.
Em 1997, um grande (e pouco conhecido) escritor italiano, Giorgio de Maria, escrevia "Le 20 Giornate di Torino" (os 20 dias de Turim), em que estranhos fantasmas habitam a cidade e tramam a morte dos cidadãos. Não há melhor retrato da Itália dos anos 1970, devastada pelas bombas de direita e pelos tiros de esquerda.

Quem são os vultos que vê Alina, em "As Perguntas" (Companhia das Letras), de Antônio Xerxenesky, que comecei a ler e não consigo parar?
O grande exército dos mortos dos nossos dias são os terroristas; são eles, hoje, que propagam e amam a morte, dos outros e deles mesmos.
E sua última aparição foi logo em Barcelona, onde, décadas atrás, os franquistas já gritavam "Viva la muerte!".

Droneiro - Fabrício Corsaletti



Meu pai me pede que eu o acompanhe. Não sei pra onde ele vai, mas topo ir junto. Dou um beijo na minha mãe, que está lendo no quarto, e vou pra garagem. Mas meu pai já está no meio da rua com o carro ligado.
Duas quadras depois, ele saca um boné do bolso da jaqueta e diz solenemente:
— Filho, você sabe que existe o Paulinho Corsaletti dentista, um profissional sério, que nunca deixa um cliente na mão. Esse não usa boné. (Olho pra sua careca.) Mas também existe o Paulinho Corsaletti violeiro, que não recusa uma festa ou um botequim. Esse está sempre de boné. (Ele coloca o boné na cabeça.) Hoje você vai conhecer o Paulinho droneiro. Esse usa o boné assim. (Ele tira o boné e o coloca de novo, com a aba virada pra trás.)
Paramos numa curva de uma estrada de terra, debaixo de uma árvore, e meu pai monta o drone. Tenta me explicar a função de cada peça, mas de repente paro de acompanhar o raciocínio. Não me interesso muito por tecnologia. Meu pai sabe disso e diz pra eu não me preocupar com a parte técnica, que o melhor está por vir.
Feito uma mosca gigante de ficção científica, logo o drone está sobrevoando os pastos. Na tela do smartphone acoplado ao controle, vemos o vale do Sapo, o rio da Âncora, o rebanho de vacas e alguns cavalos do Camil. O zunido do aparelho assusta os animais. Eles correm, em miniatura, como corriam na minha imaginação quando eu brincava com meu Forte Apache.
Então meu pai conduz o drone em direção à cidade. A estação de trem, as casas velhas —alguns meninos soltando pipa. A praça Ataliba Leonel, com sua fonte em forma de vitória-régia. E no alto do morro a igreja amarela e branca, idêntica a uma peça de maquete.
A vida toda é desse tamaínho. Meu pai se anima: vamos fazer uma visita pra Paula.
Ele baixa o drone em cima da casa da minha irmã, ao mesmo tempo em que telefona pra ela. Sai aí no quintal. E lá está ela! Em seguida surgem minha sobrinha e meu cunhado. Eles acenam pra câmera e voltam pra dentro. (Mais tarde me contam que dias antes deram um churrasco pra uns amigos e não convidaram meus pais. Minha mãe não se importou, imagina. Mas meu pai fez o drone descer a uns dois ou três metros da piscina com um cartaz: "ESTOU DE OLHO EM VOCÊS, TRAIDORES".)
Depois meu pai telefona pro Buinha. Cadê você, seu viado? Está no Bar do Serginho, com Betinho e Aguinaldo. Vamos lá também. Na calçada, rindo e pulando com um taco de sinuca nas mãos, o Buinha ameaça arrebentar o drone.
Revejo os pátios das duas escolas onde estudei, os quintais dos amigos, os escombros do supermercado que pegou fogo.
Um carcará pousa numa cerca não muito longe de nós e sinto vontade de tomar uma cerveja. Meu pai concorda que já deu e guarda a tralha toda numa caixa cinza de isopor.
De carro, presos mais uma vez em nossos corpos grandes e pesados, meu pai me pergunta como vão as coisas em São Paulo.

Miniditaduras da liberdade - Mariliz Pereira Jorge



Pela primeira vez na história do Google, no Brasil, a procura por "cabelos encaracolados" superou a sanha desenfreada pelo tipo liso. Tem mais, as buscas por madeixas afro cresceram 309% nos últimos dois anos.
Isso não é só uma boa notícia, é uma baita vitória para as mulheres brasileiras, que estão entre as que mais gastam com produtos para cabelo no mundo, as que mais levam tempo lavando, secando, alisando, enrolando, fazendo qualquer coisa que deixe a juba diferente do que é naturalmente.
Estamos a um passo de ver mulheres mais felizes, com autoestima elevada, satisfeitas com o que têm, certo?
Errado.
Num papo com uma blogueira negra, que tem os cabelos tão maravilhosos que eu queria esconder meus fiozinhos mirrados num boné, descobri que a liberdade para os cabelos afro criou uma mini-opressão. As mulheres se livraram das correntes da chapinha para sofrer de outra forma sob a ditadura do cacho perfeito.
Tornou-se uma nova obsessão, motivo de ciumeira e treta, disputa pelo olimpo dos caracóis. E uma vez crespa, nunca mais pense em fazer uma escova, sob o risco de ser acusada de traidora do "movimento".
Foi isso que aconteceu há uns meses com a atriz e roteirista Lena Dunham, que ousou trair a causa das gordinhas que amam seu corpo e não estão nem aí para o que os outros pensam. O cérebro por trás da série americana "Girls" teve que explicar sua silhueta mais magra depois que foi exaustivamente atacada por seguidoras. Levou na testa um carimbo de hipócrita. Até tu, Lena, nessa de barriga tanquinho?
Do outro lado, parte da mídia internacional caça-clique celebrava a perda de peso da atriz. Até que ela disse que precisou mudar o estilo de vida para tratar uma endometriose. Olha, desculpa, tô magra, mas sou doente, ninguém precisa me amar ou me odiar por isso. Duvido que ela tenha se importado com a patrulha, mas pelo menos deixaram a moça em paz.
A gente ainda vive uma cultura enorme de gordofobia, mas acabar com um preconceito não deveria criar outro. Experimente dizer que quer emagrecer se o seu interlocutor achar que não é necessário. Você vai receber de graça um discurso, que não pediu, sobre os padrões de beleza que deveriam ser combatidos por gente inteligente como você.
Você não disse que vai trocar a birita por whey protein. Muito menos que está com foco no corpo da Patricia Poeta. Apenas teve a audácia de revelar que quer enxugar uns quilinhos que sobram. A pessoa não sabe se o colesterol está alto e a gordura abdominal explode na sua legging preta. Se você precisa entrar num maldito vestido de casamento, que custou uma pequena fortuna, e que agora não passa no quadril. Para esses miniditadores você é exagerada e se deixa influenciar por blogueiras desmioladas. E mesmo que fosse?
Cada um sabe onde aperta a sua calça. Não adianta libertar os gordos e aprisionar o desejo de alguém fazer dieta e crossfit. Quero ser magra, dane-se o mundo, escreveu uma amiga num grupo de WhatsApp. O tom era de revelação, por um momento achei que ela usava drogas e precisava de ajuda, tamanho suspense. Eu também quero. Rimos e nos abraçamos virtualmente. Marcamos um jantar para celebrar a dieta, o direito de ser o que a gente quiser e de reclamar do cabelo.

(M?)(H?)otel - Antonio Prata




A pergunta que me faço sempre que passo pelo luminoso, há anos, é se estamos diante de um M disfarçado de H ou de um H que finge ser M. Embora as duas hipóteses encontrem argumentos, tendo a me inclinar em direção à primeira: trata-se de um motel envergonhado.
O estabelecimento fica quase na Raposo Tavares --e é esse "quase", acredito, que explica sua indecisão. Logo ali, menos de três quilômetros adiante, os Ms já não terão pudor de exibir seus rubros decotes à beira da estrada: Motel L'Amour, Motel Belle, Sedutti e Fox Trot Motel. Uma estrada, contudo, é uma estrada, uma cidade é uma cidade. O ambíguo luminoso brilha entre uma imobiliária e uma casa de família: suas piscadelas vão para os trabalhadores no ponto de ônibus, para os estudantes da USP, para a secretária que, a caminho do metrô, compra uns chocolates do ambulante. É melhor que as lâmpadas brancas não esclareçam totalmente os contornos da moldura vermelha: assim, só quem sabe o que busca verá, no sorriso discreto do H, o púbis desnudo do M.
Ou não --como diria o poeta. Afinal, por que teria de se esconder, um motel? Um motel não é um bordel. Ninguém se choca com sua existência. Não atrai "gente diferenciada". Associações de bairro não tentam evitar sua construção. O Feliciano, a bispa Sônia ou o papa, até onde eu sei, jamais fizeram dele o alvo de seus recalques. Será que, em vez de um motel envergonhado, estamos diante de um hotel atrevido? Um pequeno hotel cujo peso das contas a pagar, todo mês, acabou por flexibilizar o austero H, levando-o a ampliar seu público? Se o caminhoneiro cansado quiser dormir algumas horas antes de seguir para Sorocaba, encontrará uma cama limpa. Se o casal afobado não aguentar chegar à Raposo, terá uma cama redonda.
Motel acanhado ou hotel saidinho, a mesma dúvida me traz: como lidará a clientela com tal indecisão gráfica e mercadológica? Convenhamos, a única concordância entre quem busca o sono e quem procura o sexo é sobre a conveniência de um colchão: afora isso, tudo os separa. Uns aspiram ao silêncio decorativo, no qual espelharão a tranquilidade domiciliar, os outros desejam exatamente o contrário, o estímulo excêntrico que os faça esquecer do tédio do lar.
Tentar unir roncos e gemidos parece uma receita para o fracasso e, no entanto, o negócio resiste, há anos. Ocorre-me agora que ele talvez perdure não apesar da ambiguidade, mas justamente por causa dela. As lâmpadas brancas, sem esclarecer totalmente os contornos da moldura vermelha, não são a senha para quem sabe o que busca, mas um convite aos trabalhadores no ponto de ônibus, à secretária comprando chocolates, ao ambulante, aos estudantes da USP, ao caminhoneiro a caminho de Sorocaba. Quem sabe se as promessas de aventura do motel, somadas ao lastro de segurança de um hotel, não trazem vez por outra certas ideias a esses incautos pedestres que, atraídos pelo sorriso discreto do H, acabam seguindo a seta do M? Talvez as duas letras, mais do que divergentes, sejam consoantes.


Celso Blues Boy - Blues Motel



Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...