quinta-feira, 29 de junho de 2017

'Uma Família de Dois' prega respeito por quem é diferente Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

Omar Sy. Ele é Samuel, o pai de Gloria, vivida por Gloria Colston Foto: Mars Films/Poisson Rouge Pictures
Sucesso de público na França, Uma Família de Dois fez 3,5 milhões de espectadores no país. “Nos demais mercados em que foi lançado fez mais 4,5 milhões, o que significa que já foi visto por 8 milhões de pessoas”, conta numa entrevista por telefone, de Paris, o diretor Hugo Gélin. Algum parentesco com Daniel Gélin, que foi um astro na França nos anos 1940 e 50? “Era meu avô.” Hugo, de 37 anos, admite que o avô despertou seu amor pelo cinema. “A família tem mais atores, mas foi ele, sim.”
Uma Família de Dois estreia nesta quinta, 29, nos cinemas brasileiros. É um remake de Não Aceitamos Devoluções, produção mexicana de 2013 que bateu recordes no país de origem. “Fui bem fiel à história original, mas, se você comparar os dois, vai ver que há uma diferença muito grande. Até o desfecho é o mesmo, mas o filme mexicano puxa para o dramalhão e eu quis fazer meu filme mais leve, divertido.” E, claro que ter Omar Sy como protagonista faz toda diferença. “Escrevi o filme para ele, pensando nele. Se Omar não tivesse aceitado, não creio que conseguisse fazer o filme com outro ator.”
Embora se trate de um remake, Hugo Gélin defende seu filme como ‘bem pessoal’. “Sou pai de um menino de 7 anos, que tive muito novo. A paternidade inesperada fez de mim outro homem, mais responsável. Omar (Sy) nunca havia feito um pai no cinema. Achei que seria um desafio interessante para ele. Esse bon vivant que, de repente, muda sua vida porque tem uma filha. Situar o personagem no universo do cinema - é dublê - lhe permitiu liberar a imaginação em cenas de ação e humor. E os personagens secundários também foram ganhando colorido. O tio gay, a mãe ausente que volta.”
Impossível não pensar em Kramer Vs. Kramer, de Robert Benton, que venceu vários Oscars em 1979. Meryl Streep desaparece, deixando o encargo de criar o filho para Dustin Hoffman. Ele se desdobra para ser esse misto de pai e mãe - ‘pãe’. Quando está numa boa, Meryl reaparece para brigar na Justiça pela guarda do filho. “O filme foi outra referência tão fundamental quanto o original mexicano. Há quase 40 anos, Kramer Vs. Kramer foi pioneiro ao flagrar mudanças na estrutura familiar”, diz Gélin. Em Uma Família de Dois, a mãe volta e briga pela filha. Sucedem-se as reviravoltas. Por mais leve que Hugo Gélin tenha querido ser, o clima pesa. Tem até, olha o spoiler, morte.
Embora a entrevista, a seu pedido, seja feita em francês, Hugo arrisca algumas palavras em português. “Tive uma babá portuguesa, meu melhor amigo é português e eu passei muitas férias em Portugal”, explica. O amigo é cineasta e ele escreveu e produziu A Gaiola Dourada, sobre uma comunidade de portugueses em Paris, para Rubens Alves dirigir. Ama o Brasil. Adolescente, integrou um intercâmbio de estudantes durante o governo do socialista François Mitterrand. Embrenhou-se na floresta amazônica, foi levar medicamentos aos índios, conheceu de perto sua cultura.
“Ao transpor o filme mexicano para a França e colocar Omar Sy no centro da história, acho que estou deslocando o eixo para o ‘outro’, num momento em que há tanta discriminação. Ter estado em Portugal, no Brasil foi muito importante para mim. Mesmo que de forma periférica o filme busca passar esse entendimento, esse respeito por quem é diferente de nós.”
'Não há quem não se renda ao carisma de Omar Sy'
Hugo Gélin, diretor de Uma Família de Dois, concorda com o repórter - Omar Sy é uma força da natureza. “Ele transborda a tela com sua vitalidade e sorriso. Deve haver algum maluco que não, mas não conheço ninguém que não se renda ao carisma de Omar.” Filho de mãe mauritana e pai senegalês, Omar nasceu em Trappes, Yvelines, em janeiro de 1978. Fez carreira como dublador e humorista, em 2000, estreou no cinema.
Tornou-se um fenômeno quando Intocáveis, que protagonizou com François Cluzet, virou o filme francês mais visto de 2011, com 11 milhões de ingressos vendidos, totalizando a maior renda da história do cinema na França. 

Omar Sy fez também Chocolate, que integrou o Festival Varilux no ano passado. Foi parar em Hollywood, mas o papel (pequeno) em Jurassic World - Mundo dos Dinossauros não dá conta de suas personas. E falando em inglês, ele também perde muito a graça.
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Minha covardia me dá vontade de agredir quem ousa viver "do seu jeito" - Contardo Calligaris

"Divinas Divas" é um filme surpreendente e imperdível. É difícil acreditar que seja o primeiro longa de Leandra Leal. Isso, pela qualidade da escrita e da direção e mais ainda pela maturidade do olhar, do sentir e do pensar.
Em plena ditadura militar, um grupo de artistas travestis montou um espetáculo de revista no Rio de Janeiro, no teatro Rival –que, na época, era dirigido por Américo Leal, avô de Leandra.
Hoje, o mesmo grupo de artistas volta ao palco. E Leandra conta e mostra a história dessa volta.
Saí do cinema com uma tremenda admiração pelas "Divinas Divas". Uma delas, num momento do espetáculo e do filme, canta "My Way" (vivi do meu jeito"¦), a música que ficou famosa na versão de Sinatra. Qualquer uma das artistas, hoje idosas, poderia cantar que ela viveu "do seu jeito", e o efeito em mim seria o mesmo: uma espécie de reverência diante da coragem de quem se aventura a viver encarando o que vier (do escárnio ao ódio) para respeitar seu próprio desejo.
Em geral, supõe-se que agressões e assassinatos contra travestis e transexuais (o Brasil é campeão nisso) sejam o efeito de um interesse sexual mal reprimido: "Bato numa travesti para bater no meu próprio desejo inconfessado de transar com ela ou de ser ela".
Há outra explicação, não excludente: "Bato na travesti que cruzo na rua porque odeio a coragem que ela tem de viver segundo seu desejo –que ela tem, e que eu não tenho. É a vergonha de minha covardia que me dá vontade de agredir quem ousa viver "do seu jeito".
Usei até aqui a expressão "artistas travestis", como se fosse perfeitamente adequada. No melhor dos casos, é uma gambiarra. Em Paris, nos anos 1970, em matéria de "transtornos de gênero", eu entendia muito menos do que hoje; por consequência (cuidado: ironia), eu tinha certezas afiadas e até opinava se e quando operações de mudança de sexo deveriam ser permitidas.
Parêntese. Engraçado, é sempre assim: quanto menos a gente entende, tanto mais a gente parece ter ideias claras e definidas.
Enfim, na época, meu "saber" tinha dois pilares.
O primeiro pilar era feito de distinções categóricas entre travesti, cross-dresser, drag, transformista, transgênero, transexual etc., como se fossem espécies rigorosamente distintas. Pois é, nunca são.
O segundo pilar era a separação pretensamente rigorosa entre transtornos de identidade de gênero e fantasias sexuais que envolvem uma mudança de gênero. Nos transtornos de identidade, o gênero de minha imagem no espelho não corresponde ao gênero ao qual sinto que pertenço: por exemplo, sinto-me mulher, mas o que aparece no espelho é um homem. Nas fantasias sexuais, não estranho minha identidade e meu corpo, mas posso imaginar estar transando e gozando como se eu fosse do sexo oposto.
Corolário dessa distinção: a mudança de sexo deveria ser autorizada a quem se sentisse homem num corpo de mulher ou mulher num corpo de homem, mas seria desaconselhada para quem "apenas" fantasiasse pertencer a outro sexo no coito.
Ora, a separação rigorosa entre transtornos de identidade e fantasias sexuais só existe em monografias e artigos acadêmicos.
É fácil enxergar quanto essa distinção é problemática lendo o último livro de Susan Faludi, "In the Darkroom" (na câmara escura), em que a escritora e ensaísta americana conta a descoberta de que seu pai (que ela não via havia tempo) mudara de sexo.
Na história, o transtorno de identidade de gênero é indissociável do que Faludi descobre das fantasias sexuais do pai dela.
Na verdade, quase sempre a dor de não se reconhecer no gênero de seu corpo é ligada às fantasias sexuais alimentadas pelo próprio projeto de mudar de gênero.
Um jovem transexual, que queria se transformar de mulher em homem, declarava, por exemplo, que ele continuaria desejando homens. O juiz lhe perguntou se não seria mais fácil e adequado, portanto, que ele continuasse sendo mulher. Ele respondeu que queria transar com homens, só que não como mulher, mas como um homossexual masculino. É isto: a identidade e o desejo sexual são intrincados.
Uma das "Divinas Divas", respondendo a uma pergunta, declara querer ser mulher, mas logo hesita. Parece dar se conta de que ela está, de fato, além da alternativa dos dois gêneros. O que ela quis ser é quem ela é: uma mistura única de fantasias, de gêneros –e de coragem.



quarta-feira, 28 de junho de 2017

Políticos deveriam fazer exames psicológicos e neurológicos regulares - João Pereira Coutinho

O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente. É um dos ensinamentos mais conhecidos de Lord Acton (1834-1902). Assino embaixo.
Experiência pessoal: em 20 anos de jornalismo, conheci muitos políticos e entrevistei vários. Com raríssimas exceções, todos exibiam um nível de imbecilidade que me impressionava e assustava. Não existem diferenças ideológicas. Bastava ocuparem lugares de poder para a imbecilidade se manifestar.
Cautela: não falo de "imbecilidade" no sentido prosaico do termo -burrice, estupidez, ignorância- embora existissem exemplares que também cumpriam esse papel.
Não, não. Falo de um outro tipo de imbecilidade: uma certa alienação face ao mundo, como se este mundo não existisse. Eu, modestamente, habitava o planeta Terra. Eles já estavam numa galáxia distante, onde os gestos, a linguagem e até o senso comum dos terráqueos deixavam de fazer sentido.
Tempos depois, quando assistia à queda de alguns -por incompetência, impopularidade ou até corrupção-, o que espantava não era apenas a infantilidade dos delitos. Era a surpresa dos personagens perante a queda.
Como se um gigante meteorito tivesse aterrado em cima das suas cabeças. Como explicar tanta alienação?

A ciência acaba de dar uma ajuda. Leio na "Atlantic Monthly" um artigo de Jerry Useem que recomendo. Conta o autor que a psicologia e as neurociências têm chegado às mesmas conclusões: o poder pode provocar no cérebro uma espécie de lesão.
Dacher Keltner, psicólogo de Berkeley, e Sukhvinder Obhi, neurocientista canadense, estudaram o assunto. Em termos comportamentais (Keltner) ou neuroestruturais (Obhi), o poder tende a inibir a capacidade empática dos poderosos.
Explico melhor. Todos somos seres sociais. Todos agimos e reagimos de acordo com o reflexo que obtemos dos outros. Nenhum homem é uma ilha, já dizia o poeta.
Em situações de poder, essa dinâmica se altera, até por razões conjunturais: o homem poderoso tende a rodear-se por uma corte de bajuladores que aplaude automaticamente as suas palavras e gestos.
Sem nenhuma sinalização exterior e dispondo de recursos que escapam aos meros mortais, o homem poderoso caminha na escuridão como se estivesse em pleno dia.
Para os meros mortais, os seus atos podem ser impulsivos, nefastos ou simplesmente criminosos. Para ele, são necessários, benéficos e muito acima da moralidade comum. Ele é um caso de impunidade porque os circuitos inibitórios estão, digamos assim, anestesiados.
Para a ciência, essas lesões podem ser temporárias ou duradouras. Mas existe uma forma de aliviar ou reverter os sintomas: por meio de lições de humildade. Como, por exemplo, recordar a um homem de poder os momentos da sua vida em que ele rastejou por este vale de lágrimas. Dizem os pesquisadores que o cérebro, até do ponto de vista imagiológico, volta a funcionar direito quando há essa "suspensão da irrealidade".
Nada que os antigos não soubessem já. O imperador Marco Aurélio, caminhando por Roma, fazia questão de ter um escravo ao lado para lhe dizer ao ouvido: "És apenas um ser mortal". Mas Marco Aurélio, apesar de mortal, era também um sábio -e a democracia não é o regime dos sábios.
Se as relações entre o poder e o cérebro podem ser problemáticas para os cidadãos, alguns ajustes inspirados pela ciência deveriam ser tentados.
O primeiro seria tornar os mandatos mais curtos (e, obviamente, não renováveis). Encurtar o tempo no poder é uma forma de profilaxia para que as loucuras da dominação não deformem a cabeça humana.
O segundo é admitir que mesmo mandatos curtos podem fazer os seus estragos. Deveria existir uma cláusula constitucional que obrigasse titulares de cargos políticos à realização de exames psicológicos e neurológicos regulares. Só com resultados limpos seria possível continuar.
Finalmente, se as lições de humildade tendem a repor equilíbrios perdidos, defendo há muitos anos a revitalização histórica do "bobo da corte": depois das reuniões formais, o bobo entrava em cena para ridicularizar severamente o líder e os seus asseclas. O bobo seria intocável e inimputável.
Por outro lado, qualquer presidente ou ministro deveria ser obrigado a viver uma semana de cada mês nas mesmas condições de quem recebe o salário mínimo. Para adquirir uma certa perspectiva em falta.
"És apenas um ser mortal", dizia o escravo ao imperador. Felizmente, já não há escravos. Mas ainda subsistem homens doentes que se julgam imortais. 


Angelo Abu

Dicionário da Mutreta - alguém precisava organizar essa bagunça - Gregorio Duvivier


Tramoia: N. Fem. Diz-se do esquema no qual você não está incluído. Distingue-se do trambique pelo profissionalismo. Etimologia: deriva da palavra "tramar" e pressupõe certo requinte.
Trambique: N. Masc. Diz-se do pequeno golpe, praticado de maneira amadora, geralmente pelos outros.
Mamata: N. Masc. Diz-se do esquema do qual usufrui-se com regularidade, e há muito tempo. A mamata, ao contrário do trambique e da tramoia, pressupõe antiguidade e frequência. Não se "comete" mamata mas se "tem" mamatas. Ex.: "Fulana não quis casar no civil porque recebe pensão do pai e não quer perder a mamata".
Mutreta: N. Masc. Espécie de trambique geralmente praticado contra o Estado, logo eticamente perdoável. Ex.: "Alguém conhece alguma mutretinha pra pagar menos imposto?"
Propina: N. Fem. Suborno com mais de três dígitos.Maracutaia: N. Fem. Irregularidade de proporções escandalosas, o equivalente a uma dúzia de tramoias que, juntas, tomaram proporções épicas.
Propinoduto: N. Masc. Canal de pagamento para a propina, quando esta atinge mais de seis dígitos.
Esquema: N. Masc. Tramoia do ponto de vista daquele que participa dela. Ex. "Como faço pra entrar nesse esquema?" "Desculpe, não tem como." "Nesse caso, vou ter que denunciar essa tramoia"
Pacto: N. Masc. Tramoia quando usada para acobertar outras tramoias. "A gente precisa de um pacto nacional, com Supremo, com tudo."
Bandalheira: N. Fem. Maracutaia sem pudor, feita de forma descarada.
Negociata: N. Fem. Diz-se da mutreta quando vintage. Para que se ocorra uma negociata é preciso que todos os negociantes estejam vestindo terno. Senão, é simples mutreta.
Falcatrua: N. Fem. Desfalque intermediário: não tão simples quanto um trambique e nem tão complexo quanto uma maracutaia.
Muamba: N. Fem. Importação que não passa pela alfândega, muitas vezes com a parceria da alfândega ou feita pela própria alfândega.
Faz-me-rir: N. Masc. Suborno de dois dígitos. "Essa multa aqui a gente resolve com um faz-me-rir".
Guaraná: N. Masc. Suborno de um dígito. "Pode parar o carro aqui sim, é só fortalecer o guaraná do colega"
Fortalecer: Verbo. Ato ou efeito de arredondar pra cima um valor estabelecido. "É 80 mas fecha em 100 pra dar aquela fortalecida."
Movimento: N. Masc. Diz-se de grupo dedicado exclusivamente à mutreta. Ex.: Partido do Movimento Democrático Brasileiro. 

terça-feira, 27 de junho de 2017

Vacas Magras - Fabrício Carpinejar

Eu enganei a escassez da adolescência participando dos sorteios da rádio. Vivia sintonizado para receber um disco ou um par de ingressos. Meus ouvidos estavam colados na voz do locutor como se fosse números de um bingo.
Morava sozinho, não tinha dinheiro para sair e tampouco passaria a vergonha de pedir ajuda para os pais. O que eu fazia? Caçava enquetes nas rádios. Pulava de um quiz-show para o outro. Soprava nomes de atores, solucionava charadas, descobria letrista oculto em canções, improvisava declarações de amor; topava tudo. Os apresentadores reconheciam a voz e acabavam envergonhados com a minha constante frequência.
Lembro do diálogo:
— Quem fala?
— Fabrício, do bairro Petrópolis.
— Você de novo?
A que mais me municiava o meu rebanho de vacas magras era a Rádio Cidade. Não foram poucas as vezes que eu subi o Morro Santa Tereza para buscar cortesias. As namoradas do período não entendiam como arrumava entradas. Acreditavam na minha influência, mal sabiam da chinelagem disfarçada de glamour. Aparecia de repente com vales para lançamentos, shows e peças de teatro. Grande parte da minha vida social, eu devo para o dial. Jamais abri os meus truques e revelei a roda da fortuna. Mantive a mágica do mistério com um sorriso irônico.
Numa época sem celular e sem telefone fixo no apartamento de solteiro, terminava por me enganchar no orelhão. Rezava primeiro para ser atendido — milhares de pessoas tentavam como eu. Não dava para desistir diante do sinal de ocupado. Depois, quando selecionado para falar, rezava para que as fichas sustentassem a ligação. Não podia me demorar, escutava o aparelho engolindo os meus valiosos minutos com ansiedade e sofreguidão. Quando acertava a resposta no programa ao vivo, vibrava e já desligava abruptamente, antes de ser cortado pela falta de crédito.
Resolvia o final de semana perseguindo promoções. Carregava um radinho de pilha no bolso durante a universidade para não chegar atrasado nas ofertas.
Colecionava, igualmente, cupons de desconto em revistas e jornais. Acho que os meus olhos são feitos de linhas pontilhadas.
Nunca fui redundante, pobre materialmente e de espírito. Compensava a ausência de bens com voluntarismo. Nem tive tempo de ser tímido. Por pior que seja, valorizo a apresentação de um artista em minha cidade. Sei o quanto vale o ingresso. Ao longo da juventude, lutei enormemente com as palavras, e um pouco de cara-de-pau, por cada um deles.

domingo, 25 de junho de 2017

Roquenrol - Luis Fernando Verissimo

O aniversário do Sergeant Pepper, dos Beatles, me pôs a pensar no meu currículo roqueiro. Posso dizer que conheço o roquenrol desde antes de ele nascer, ou pelo menos antes de se chamar assim. Morávamos em Washington e eu ia muito a concertos de “rhythm and blues”, onde geralmente era o único branco na plateia, e lembro quando as primeiras músicas de “r&b” começaram a pular a barreira racial e ser tocadas em programas de rádio para brancos. Em seguida, começaram a aparecer grupos brancos tocando mais ou menos a mesma música com o nome novo. A expressão “rock and roll”, com sua conotação sexual, também vinha da cultura negra, mas foram os grupos brancos que a capitalizaram. Como Bill Halley e seus Cometas, que fizeram a trilha sonora do filme Blackboard Jungle, que levou jovens à loucura e provocou quebra-quebras em muitas cinemas do mundo, e gravaram o Rock Around the Clock, espécie de hino inaugural do movimento.


A base do roquenrol era a progressão harmônica do “blues” e uma das suas raízes estava no “blues” branco, misturado com música caipira, do Sul dos Estados Unidos, de onde saíram Jerry Lee Lewis e Elvis Presley. O “rhythm and blues” negro continuou a existir e gerou muitas das formas que o roquenrol tem hoje, mas foi o roque branco nascido há 60 anos da encampação da música popular negra que tomou conta do mundo e o domina até hoje. Ajudou o fato de que, junto com o roque, começava a existir o Jovem como consumidor diferenciado, e não só de música. Um mercado que também domina o mundo até hoje. Acompanhei o roquenrol até os Beatles se separarem. Lembro que os Beatles e os Rolling Stones representavam correntes adversárias dentro do universo do roque. Os dois grupos vinham da mesma origem proletária, mas os Beatles tinham se sofisticado e, com o álbum do Sgt. Pepper, enveredado para uma coisa mais intelectualizada enquanto os Stones se mantinham fiéis ao “backbeat” básico e à pura energia hormonal, a mesma que atrai os jovens até hoje, embora eles já pareçam as suas próprias múmias. Quando os Beatles acabaram, me desliguei. Fui ouvir meu jazz, minha bossa e meus barrocos, e só tenho prestado atenção quando o roque se transforma em fenômeno psicossocial e a atenção é inescapável - como no caso das apresentações dos Stones. Uma ocasião para refletir sobre estes 60 anos e a durabilidade daquele ato de apropriação, quando os “blues” ficaram brancos. Sem falar, claro, na eternidade do Mick Jagger.

sábado, 24 de junho de 2017

Eros de revisão - Sérgio Augusto

Foi de propósito. Digitei “eros”, mesmo, mas é bastante provável que você, na pressa ou na distração, tenha entendido “erros de revisão”. Acertadamente. São desprezíveis as falhas tipográficas que os próprios leitores podem corrigir, fazendo uso da lógica ou induzidos por locuções consagradas, como, por exemplo, “erro de revisão”. A bem dizer, todo erro de revisão é, antes de tudo, um erro de digitação - ou de datilografia, como antigamente se dizia e cometia - que o revisor encarregado de reconhecê-lo e eliminá-lo deixou passar.
Os gringos têm um vocábulo enxuto e consanguíneo para identificar lapsos tipográficos: typos. Os franceses empregam “coquille” (literalmente, concha) e nós, gralha, gato e pastel. Até por ser o mais antigo, gralha afinal venceu a concorrência. 
No mais recente Bloomsday, semana passada, ao reavivar na memória um episódio ocorrido com James Joyce, ocorreu-me inventar um calemburgo que só tem graça em inglês: “This is not a typo, but a word in progress”. (Literalmente: “Isto não é um erro tipográfico, mas um neologismo em andamento”.) Pois, acredite, há gralhas que vêm para o bem. Como prova o aludido episódio envolvendo Joyce.
Estava o escritor irlandês a ditar Finnegans Wake ao conterrâneo Samuel Beckett, que então o secretariava, quando alguém bateu à porta e Joyce ordenou “come in” (entre). Concentrado em seu afazer, Beckett incluiu o “come in”, automaticamente, no texto que anotava. Embora não fizesse, nele, o menor sentido, Joyce tanto apreciou o erro que o manteve na edição final de sua “obra em andamento”. 
Mas quase sempre a gralha é um transtorno, uma calamidade. “É o único erro humano que, a meu ver, merece pena de morte”, prescrevia Otto Lara Resende, desavindo com revisores desatentos desde que na edição portuguesa de O Retrato na Gaveta flagrara um “ânus” onde originalmente sobrevoava um anu, o pássaro, pouco importa se cuculiforme. 
Segundo Eduardo Frieiro, que há 76 anos coletou uma série de gralhas históricas, não existe livro que não tenha sido vitimado por vacilos de tipógrafos e revisores. Claro que existem, mas são cada vez mais raros. Em outros tempos, com outro espírito, outra economia e mais leitores, as editoras investiam forte na contratação de editores, supervisores de textos e técnicos em checagem. Para abater custos e queimar etapas na produção de um livro, vários desses intermediários entre o, por assim dizer, manuscrito e o texto final foram sendo eliminados e precariamente substituídos por corretores automáticos e similares prodígios da era digital, exímios na troca de um erro por outros. 
O computador ajudou menos do que se pensa. “O uso do processador de texto resultou num declínio substancial na disciplina e atenção do autor”, constatou o editor chefe da Little, Brown and Company, Geoff Shandler. “Os manuscritos ficaram mais longos e mais desleixados, apesar de bem impressos.” Ou seja, os autores não são apenas vítimas daqueles a quem Otto Lara ameaçava com a pena capital. F. Scott Fitzgerald cometia erros primários de ortografia em seus originais. Nesse e em outros exemplos de grandes escritores, tais tropeços são irrelevantes porque corrigíveis. Escrever bem e escrever corretamente são departamentos distintos.
Nem as Sagradas Escrituras, cuidadas com devoto desvelo por escribas e tipógrafos, escaparam da maldição. Pelo menos cinco de suas versões, impressas entre meados do século 16 e começo do século 19, chegaram às mãos dos fiéis com intrusos cochilos, alguns constrangedores, como a ausência de um não no Sétimo Mandamento (liberando a roubalheira) e a falta de outro naquela epístola aos coríntios que veda aos perversos a entrada no Reino dos Céus. 
Segundo consta, a primeira grande vítima de uma gralha, entre nós, foi o poeta Cláudio Manuel da Costa, cuja obra introdutória do Arcadismo no Brasil saiu, em 1768, com um vistoso typo (“Orbas” em vez de “Obras”) na folha de rosto: Estampada na capa, chamaria ainda mais atenção, como aconteceu com a tradução dos Quatro Quartetos, de T. S. Eliot, editada pela Artenova, nos anos 1960, com um ele a mais no sobrenome do poeta. 
Em alguns exemplares do primeiro romance da série Harry Potter, J.K. Rowling virou J.A. Rowling, e foram prontamente recolhidos pela editora. Não eram tantos quanto os 80.000 exemplares do romance Liberdade, de Jonathan Franzen, que chegaram a ser impressos a partir de uma versão sem as alterações e correções do autor, e postos à venda em livrarias. Franzen descobriu a mancada enquanto lia um trecho do livro, durante um programa de entrevistas na TV britânica. Imagine a cena. Imagine o choque do autor. Imagine o prejuízo da editora.
Sorte teve a editora Garnier, cuja negligência no controle de qualidade da segunda edição das Poesias Completas de Machado de Assis, em 1902, beneficiou-se de uma brigada de corretores amigos do autor, que a nanquim emendaram, em mutirão, cada “cagara” que usurpara o pretérito mais-que-perfeito do verbo cegar numa estrofe do poema Advertência. Por outra versão da mesma história, Machado teria corrigido tudo sozinho. É possível. As tiragens de livros de poesia já eram bem módicas naquela época.
Dia desses repassei os olhos numa rara e autografada primeira edição de Angústia, de Graciliano Ramos, que herdei de Lúcio Rangel, amicíssimo do Velho Graça. Publicado em 1936 pela José Olympio, com o escritor encarcerado pelo Estado Novo e outra ortografia em vigor no País, tamanha era a quantidade de gralhas no texto que Graciliano, depois de posto em liberdade, pegou de volta o exemplar presenteado a Lúcio, entulhou suas margens de correções a caneta e, com nova dedicatória, devolveu-o ao amigo. 
Não sei quanto vale tal preciosidade no mercado bibliográfico. Um dos exemplares das poesias de Machado corrigidas a nanquim estava sendo oferecido, pouco tempo atrás, por R$ 900 na Estante Virtual. Café-pequeno se comparado aos livros coalhados de typos disputados em leilões lá fora. Em 15 de junho, a citada primeira edição de Harry Potter e a Pedra Filosofal, com o nome da autora grafado errado, foi arrematada por £ 10.000. Ano passado, um exemplar do mesmo livro com a palavra “philosopher” sem uma das letras na contracapa foi comprado por um empresário londrino por £ 43.750. 


Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...