segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Artistas - Marcelo Rubens Paiva

 Por que conservadores odeiam artistas? Por que a cultura entrou em rota de colisão com os ideais do Poder? Por que as leis de incentivo eram o alvo preferido da campanha eleitoral, para demonizar a classe artística? 

Porque, sim, somos vagabundos, e incomodamos. Atrapalhamos. Somos do contra. Preguiçosos, queremos patrocínio, como Mozart, Beethoven, Bach, Chopin, para não trabalharmos, não nos alistarmos, covardes que somos, fujões e beberrões.

Farrearmos, nos entupimos de entorpecentes e paixões estúpidas e malditas, e compomos depois de um pacto com o capeta umas bobagens que logo serão esquecidas, diferentemente dos grandes generais, coronéis, capitães, os verdadeiros heróis da pátria.

Somos inúteis escritores, poetas, viciados, degenerados. Merecemos a masmorra, a tortura, a censura, a Inquisição.

E, por sermos vagabundos, temos tempo de sobra para pintar o teto da Capela Sistina, a Santa Ceia numa parede, esculpir Davi, buscar o sorriso enigmático de Monalisa, representar o horror da guerra em Guernica, pintar o vento, com o Van Gogh, esvaziarmos os cofres públicos para atentarmos contra os bons costumes.

Somos uns inúteis, passamos um tempo precioso e com a grana de outrem fazendo da vida, poesia, questionando a existência, provocando, subvertendo, tornar desconfortável o que era para ser enaltecido.

Questionamos Deus, sexo, tabus, miséria, escravidão, inventamos cores, invertemos formas. Narramos histórias em que baleias gigantes se vingam da caça implacável por seu óleo valioso, que iluminava cidades, ganância que quase as exterminaram. 

Narramos vinganças de Godzillas modificados por desastres nucleares criados pelo progresso, de gorilas gigantes que queriam ficar em paz na floresta, de dinossauros que não tinham nada que ser ressuscitados geneticamente. 

Mostramos cavaleiros lutando contra delírios, mulheres entediadas no casamento, adúlteras, herdeiros que não encontram um sentido na vida, cangaceiro que se apaixona por outro, homens que se transformam em mulheres, que se perguntam “se Deus não existe, tudo é permitido”, e que anunciam que nada faz sentido se a essência vier antes da existência.

É vagabundo, sim, quem escreve, aos 16 anos, “lá ia eu, de mãos nos bolsos rasgados, meu paletó também se tornava um trapo, sob o céu, Musa, eu fui teu súdito leal, caramba!, a sonhar amores destemidos! O meu único par de calças tinha furos. Pequeno Polegar do sonho ao meu redor. Rimas espalho. Me hospedo sob a Ursa Maior. Os meus astros no céu me dão trovões...” 

Vai trabalhar, francesinho vagabundo, andante, que não queria se casar, fugiu da escola, andava seduzindo, provocando sem rumo, e ainda namorou um homem bem mais velho. Revolucionou a poesia. Inventou o modernismo. E daí? Mais útil aquele que inventou o canhão, a dinamite, a cadeira elétrica. Com as quais, se enriqueceram.

Vagabundo e pretensioso o cara que fez do bidê, arte, da banana e Sopa Campbell, artes, da arte abstrata, arte, de um quadro cheio de riscos, arte, da pichação, arte, do grafite, arte, da HQ, arte. 

São uns bêbados, drogados, comunistas, libertinos, fazem recitais com orgias, é o fim da Civilização Ocidental, é a barbárie! 

Pilantra o autor que pintou o tédio no balcão de bar, que cantou pedindo a liberação da maconha, que disse que era mais popular que Jesus Cristo, que pelado na cama pediu paz. Pilantra, pretensioso, vagabundo, inútil, devasso, hedonista, má influência, desprezível, pária, fumou coisa proibida, cheirou todas, perturba a ordem, deve ser banido, censurado, exilado, queimado, como uma bruxa. 

Ressuscitem o inquisidor. Desenterrem a guilhotina. Acendam as fogueiras. Queimem tudo. Não suportamos o questionamento, a dúvida, o avesso. Nossa verdade sólida está em livros sagrados, nas escrituras. Queimem tudo o resto!

A pátria e a família em primeiro lugar. Cancelem figuras proeminentes do pensamento corruptor. Nada de dança que provoque a libido, que nos faça sentir. Não queremos sentir, queremos trabalhar, plantar, minerar, extrair riquezas do solo, construir, aumentar a renda, fazer negócios.

Onde já se viu fotografar homens pelados, casais se beijando, garimpeiros exaustos, a floresta se queimando, consumida pelo progresso?

Queimem os entediados artistas que duvidam de nossas verdades, acabem com eles! Pelotão de fuzilamento. Cortem a língua dos poetas, furem os olhos dos pintores, esmaguem o crânio de escritores, fechem teatros e cinemas, quebrem as editoras. 

O Estado não tem nada com isso. O Estado não quer arte, artista. O Estado quer crescer, ampliar! Quer pão. Deixe o Estado trabalhar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

A geração corona - Gilberto Amendola

 Filhos gerados durante o isolamento, no lockdown quentinho dos quartos, o futuro é de vocês.

Filhos do medo do beijo, do toque, do álcool em gel ao lado da cama e das máscaras enroladas e perdidas no lençol branco, o futuro é de vocês. 

Crianças que quase nunca viram um sorriso sem focinheira. Crianças que sabem ler os olhos de quem fala (e serão ótimos jogadores de pôquer), o futuro é de vocês.

Crianças que não sabem de quantos dentes é feito um sorriso. Crianças que não mostram a língua. Crianças que sabem lidar com o tédio e brincam sozinhas. Crianças auto suficientes, o futuro é de vocês. 

Crianças desmaterializadas, presentes no ar, no Zoom. Crianças não presenciais. Crianças que não se aglomeram na fila do escorrega. Crianças que aprendem, desde muito cedo, o valor de manter “uma certa distância”. O futuro é de vocês.

Filhos do home office, um dia vocês vão sair de casa e romper a casca. O futuro é de vocês. 

O que será da geração corona? Quantos artistas estão se formando nesse ambiente? Quantos poetas vão escrever odes à vacina? E quantos crescerão negacionistas? Quantas delas serão epidemiologistas? Contadores? Zeladores? Urbanistas?

O que será da geração corona? Quantos políticos estão sendo forjados? Irão acreditar em quê? Em nome de quem? 

A geração corona vai preferir sua parte em dinheiro ou amor? Abraçar árvore ou depositar em dinheiro vivo? 

E o sexo, como vai ser? 

Qual o legado da geração corona? A marca futura? O que estarão prontos para inventar? O que essa geração vai destruir?

Quantos erros irão perpetuar e repetir.

O futuro é de vocês, crianças. Façam bom proveito. Lambuzem-se. Vou ser um velho pré-covid, pré-histórico, daqueles que nunca perdem a oportunidade de lembrar como “no meu tempo era melhor”.

Calem minha boca, por favor. 

O futuro é de vocês. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Miles e Juliette - Luis Fernando Verissimo




 Não sei se existe uma tradução em português da autobiografia do Miles Davis. Imagino que a questão de como traduzir o adjetivo “motherfucker”, que Miles usa para qualificar amigo ou inimigo e homem ou mulher, tenha dissuadido tradutores em potencial. Miles distribui “motherfuckers” do começo ao fim do seu livro. Só poupa uma pessoa, a cantora Juliette Gréco, que morreu há dias, com 93 anos de idade, e só não foi sua namoradinha parisiense porque ninguém ousaria chamar a musa do existencialismo de “namoradinha” de quem quer que fosse. 

Miles e Juliette tiveram não um namoro, mas um tórrido romance. Miles conta que caminhavam abraçados pela beira do Sena e, como nem ele falava francês nem ela falava inglês, passavam o tempo se beijando. Recomeçavam o romance sempre que Miles ia a Paris, como na vez em que foi convidado pelo diretor Louis Malle para improvisar a trilha sonora do seu filme Ascensor Para o Cadafalso. Uma vez, se reencontraram em Nova York. Juliette fora contratada para atuar num filme americano baseado num livro do Hemingway e os produtores a colocaram no hotel Waldorf-Astoria, onde seria assinado o contrato. Miles levou o baterista Art Taylor na sua visita a Juliette no hotel grã-fino, e os dois causaram grande sensação – que Miles descreve com evidente prazer – na sua passagem pelo saguão, vestidos, segundo o próprio Miles, como gigolôs do Harlem, entre caras brancas espantadas.

Um companheiro constante do casal nos cafés e porões do Quartier Latin era Jean-Paul Sartre. Foi Sartre quem sugeriu que Miles e Juliette se casassem. Subentendido na sugestão de Sartre estava o convite para Miles ficar morando em Paris, ou pelo menos na Europa, como já faziam tantos músicos afro-americanos, para fugir do racismo dos Estados Unidos, entre outras coisas. Americanos autoexilados em Paris constituem, há anos, uma categoria artístico-literária que se solidificou num clichê, que persiste. Miles não aceitou a proposta do “motherfucker” Sartre de se mudar para Paris e viver com Juliette como num clichê. Passeios e beijos pela beira do Sena em visitas esporádicas lhe pareceram uma ideia muito melhor.




quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Lemingues

 Geração lemingue - Luis Fernando Verissimo

24 de setembro de 2020



Sabe lemingue? É aquele bicho que migra em bandos na direção do mar atrás de um líder, qualquer líder, e quando o líder se atira no mar se atira junto e morre. Ninguém entende bem essa propensão do lemingue ao suicídio coletivo, mas está no seu DNA, impossível discuti-la. O lemingue é descrito como um pequeno roedor de cauda curta e cor amarelada, mas essa é sua descrição zoológica. Para nosso efeito, ele é uma pessoa jovem que gosta de aglomeração e para o qual o suicídio coletivo é apenas mais um programa com a turma. 

Me lembrei de um episódio contado pelo Mino Carta. Num cinema do Bexiga, em São Paulo, passa um documentário sobre a vida animal e seus horrores, inclusive cenas sangrentas de pobres gazelas sendo trituradas por bichos mais ferozes do que elas. É quando se ouve uma voz com indisfarçável sotaque do Bexiga, de alguém que provavelmente entrou num cinema pela primeira vez na vida, e diz “Que mentalidade!”. É o comentário que merece a estranha compulsão dos lemingues. Que mentalidade!

2020 vai ser lembrado como o ano que se revelou a vocação para lemingue de toda uma geração. Uma insuspeitada vontade de seguir o contemporâneo que passar por perto com claros sinais de que vai se matar e ir atrás dele com todo o bando para morrer também. O que mais impressiona nos bandos que enchem as praias a caminho do mar e as calçadas dos bares é sua alegria. Sem máscaras e sem distância um do outro. 

Os lemingues estão nas ruas. Se há mesmo uma crise internacional, uma pandemia viral que grassa no planeta sem controle à vista, o problema não é deles. Afinal, que crise internacional é essa em que o presidente de um dos países mais supostamente afetados por ela não acredita nas medidas recomendadas para detê-la? Bolsonaro & Filhos se comporta como se ele também fosse um lemingue, jovem e sem compromisso com a realidade. Que mentalidade!



Bolsonaro e os eleitores lêmingues, por Erick Kayser

21/10/2018

Existe um mito, muito difundido, que os lêmingues – espécie de roedor que vivem no ártico e tundras – seriam animais com um bizarro ímpeto suicida. Conta-se que se um dos líderes do bando se atira de um penhasco, todo o grupo de roedores o seguiriam sem pestanejar, morrendo todos juntos em uma marcha coletiva para a própria morte. Esse suposto hábito suicida dos lêmingues é uma noção muito antiga, nunca fundamentada, mas que se popularizou, principalmente graças a um documentário da Disney, chamado White Wilderness, ganhador do Oscar de Melhor Documentário em 1959.

No documentário aparecem dezenas de lêmingues pulando de um penhasco para o Oceano Ártico, enquanto o narrador conta que os pequenos roedores que nadam em direção ao horizonte vão morrer afogados após um exaustivo e inútil esforço.(cena disponível neste link: https://www.youtube.com/watch?v=xMZlr5Gf9yY . O filme, no entanto, não passou de uma grande farsa. Os produtores da película produziram uma engenhosa montagem para sustentar um mito irreal, soube-se, décadas depois, que não houve suicídio em massa, mas que os animais foram encurralados e jogados deliberadamente na água. 

Hoje sabemos que este mito suicida dos lêmingues, mesmo que muito popular (retratado em animações, jogos de videogame, etc) não corresponde a realidade. Mas o comportamento dos lêmingues serve como uma metáfora válida dos riscos de se seguir as massas estupidamente sem levar em conta riscos e consequências.

Valendo-se desta figuração dos lêmingues, é inescapável a comparação com os chamados “Bolsominions”, o barulhento grupo de apoiadores radicais do candidato Bolsonaro. Grupo de baixa capacidade argumentativa, eles basicamente repetem, de forma agressiva, os argumentos de seu líder, por mais absurdos e ilógicos que eles sejam. Incapazes de refletir sobre qualquer tema que escape a um binarismo primário, muitos destes abraçam abertamente as teses mais tresloucadas, muitas delas ferindo a seus próprios interesses imediatos.

 

Um exemplo: uma quantidade importante de apoiadores do Bolsonaro são trabalhadores, pessoas que dependem da renda de seu trabalho para sobreviver. Mesmo assim, abraçam e apoiam teses que lhes retiraram direitos básicos, como Carteira de Trabalho, 13º salário, férias remuneradas, etc.

 

Neste mesmo terreno, é interessante observar nas pesquisas do 2º turno apontam que, para a maioria dos eleitores, Bolsonaro representaria uma candidatura alinhada aos interesses dos ricos. Sabemos que a imensa maioria do povo brasileiro não é constituída por pessoas ricas, no entanto, a maioria dos eleitores entrevistados expressaram intenção em votar no militar da reserva. O que faria pessoas votarem em alguém que, sabidamente, não defenderá os seus próprios direitos, mas de uma minoria de privilegiados?

Outro exemplo é o próprio tema da democracia: abraçam teses autoritárias e de supressão da democracia sem refletir, por nenhum momento, que o fim da democracia não atingirá apenas seus oponentes, mas a todos e todas. O aliado circunstancial de hoje será o alvo da perseguição de amanhã. Todos os regimes ditatoriais do século XX tiveram este comportamento de, após eliminar as oposições, perseguir alguns setores que lhe deram sustentação, num movimento de “purificação” contra setores mais moderados (portanto, menos convictos da infalibilidade de seu líder) ou ainda contra setores excessivamente radicais (por estarem indo muito além da vontade expressa pelo regime).

 

A marcha suicida dos lêmingues é um mito, mas os seguidores do “mito” agem como os lêmingues da Disney: marcham decididamente para o abismo, mesmo que isso os leve ao seu próprio fim.

https://jornalggn.com.br/opiniao/bolsonaro-e-os-eleitores-lemingues/




Por que os lemingues se atiram no mar? 

Esses pequenos roedores, que habitam os países escandinavos, não se atiram e sim caem no mar por acidente. Assim, não passa de ficção a história de que correm em bandos até a beirada de precipícios e se jogam de propósito no oceano em um cinematográfico suicídio coletivo. Os especialistas chegaram à conclusão de que isso por causa de explosões populacionais que surgem, em média, a cada quatro anos. Quando o número de lemingues cresce demais, falta comida e eles iniciam, no final do verão ou no outono, movimentos migratórios em busca de alimento. Esse deslocamento nem sempre é ordenado e muitos acabam se dirigindo para as bordas de penhascos e despencando no mar, pressionados pelo numeroso bando de lemingues que vem logo atrás deles. “É uma estratégia natural de sobrevivência. Se eles ficarem no mesmo lugar, morrerão de fome. Quando se deslocam, no entanto, muitos caem e se afogam em rios e lagos”, afirma o biólogo Peter Tuchin, da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos.

https://super.abril.com.br/mundo-estranho/por-que-os-lemingues-se-atiram-no-mar/


 



quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Máscaras e dúvidas - Roberto DaMatta

 Quebrei um dente e fui obrigado a romper a quarentena atual e a outra, de 50 anos, para visitar o Dr. Rodrigo Medina, meu competente dentista. Como era uma emergência, marcamos ao anoitecer, quando seria prontamente atendido.

Devidamente mascarado e me sentindo um pouco bandido de história em quadrinho ou um reles político nacional, andei pelos intermináveis corredores do prédio e, driblando a insegurança da idade, cheguei ao consultório, sentei-me e fiquei esperando minha vez. 

Vivemos com grande intensidade e, em todo lugar, a experiência de entrar numa democrática fila, instituição sobre a qual, em 2007, produzi com Alberto Junqueira o livro virgem de leitores Fila & Democracia. Seguro de um atendimento igualitário, suspirei alegre, agasalhado pela confiança que me era dada pela rotina da fila avessa à hierarquia brasileira – do quem chega primeiro, é primeiro atendido. 

Minutos depois, entrou no consultório uma jovem senhora. Após os reconhecimentos mútuos demandados pela “boa educação”, começamos uma conversa trivial. Observamos o terror da pandemia que nos obrigava a usar máscaras; comentamos o nosso nojo pelos governantes que roubaram recursos médicos e construíram hospitais fantasmas. Notando a percepção de minha companheira de espera, perguntei no que ela trabalhava.

– Sou professora, disse. E você?

– Sou do mesmo ramo, sou professor da PUC-Rio.

– De quê?

– De Antropologia Social ou Cultural, respondi de pronto como sempre faço para explicar que o “cultural” que eu ensino nada tem a ver com “show business” (teatro, cinema, TV, etc...), mas com valores e costumes...

– O senhor conhece o Roberto DaMatta?, perguntou imediatamente a minha companheira de espera.

– Acho que sim, disse o mascarado, creio que conheço um pouco...

– Eu adoro o que ele escreve. Como ele é?, perguntou a moça para uma cara surpresa, escondida pela máscara.

A pergunta banal me pegou. Afinal, quem era mesmo eu? Seria o pai, avô, irmão, filho, viúvo, tio e primo? Ou seria um velho professor pesquisador conjugado por um esforçado cronista e autor? Ou simplesmente um velho?

– Bem, respondi, ele é um cara complicado, indeciso, enfático e até mesmo grosseiro. Acho que é impaciente com a burrice nacional, mas isso é um direito dele... 

– Então, você teve convivência com ele..., questionou a moça do rosto escondido.

– Convivo com ele desde os tempos de primeira comunhão, escola e faculdade... Aliás, fui ao seu casamento e ao lançamento do seu primeiro livro aqui em Niterói... Ele é muito difícil de conviver, pois sempre usa uma máscara.

– É mascarado?

– Não. Mas sofre de uma profunda e neurótica honestidade, disse, tirando a minha máscara e revelando que era eu quem – num raro momento – falava da minha própria pessoa...

A moça sorriu e pediu uma desculpa impossível, pois sempre vivemos num país no qual todos devem saber com quem falam. Exceto quando nos mascaramos como fazem os governantes desonestos, os poderosos e os muitos ricos...

Em seguida, fui consertar o dente.

PS: O fato é real, mas foi devidamente mascarado.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Mudança de apartamento - Gilberto Amendola

 Essa é uma das últimas crônicas que escrevo nesse apartamento. Depois de quase 18 anos morando no mesmo endereço, deixo o lugar que foi o cenário dos meus piores e melhores momentos. 

Pelo apartamento 23, passaram todos os meus amigos. Aqui, vivi o suficiente para encher as prateleiras da memória com essas bugigangas emocionais que um adulto costuma carregar. 

O fato da mudança acontecer durante a pandemia do coronavírus só está agregando um traço dramático a algo que, por si só, já é bastante intenso. 

Não sei se consigo lidar com tantas coisas práticas de uma só vez. Para muitos não deve ser nada demais, mas me sinto movendo um Everest de pequenos (e médios) pepinos. Eis o bololô de ações, contra-ações e obrigações da minha mudança: “Procurar apartamento na internet. Mandar e-mail. Marcar visita. O corretor pode no fim de semana? Presta atenção no piso. Tem piso solto. Cabe no orçamento? O taco está novo? E a vizinhança? Tem que dar sorte com vizinho. O apartamento tem vazamento? E armário? Os quartos têm armário? Olha que armário é caro.

Aí vem a proposta, a contraproposta, os contratempos e o contrato. As letras miúdas e as letras graúdas que não fazem sentido. Quanto é o IPTU? Precisa de fiador? Prefere seguro-fiança? Vou amolar meu pai com essa história de fiador. Precisa reconhecer firma?

Reconhecer firma! Em que ano estamos? Ir ao cartório no meio da pandemia. Tem aglomeração no cartório? Pra que isso? Eu nem tenho uma assinatura decente. Olha o carimbo! Carimba logo duas vezes. A sala é boa, mas a cozinha é pequena demais. Será que cabe a máquina de lavar? Vamos tirar as medidas da máquina de lavar! Eu tinha que ter visto isso antes. Onde eu coloco a televisão?Não tem lugar para essa prateleira. Será que eu preciso trocar o fogão? Eu nem cozinho. Tenho que ligar para o serviço de TV a cabo. Tenho que instalar a internet logo para não atrapalhar meu home office. Cuidado com o computador do jornal.

Quando vou pegar as chaves? Quando vou devolver as chaves? Preciso pintar o apartamento antes de devolver. Que cor é essa? Não, não, antes de pintar tem que tampar os buracos dos quadros. Como tem maçaneta quebrada? Em que lugar a gente compra maçaneta? Preciso chamar um chaveiro. Preciso arrumar o banheiro. Será que vou precisar pagar dois aluguéis? Alguém vai querer esse sofá. O cachorro destruiu, mas talvez se aproveite alguma coisa. Quanto custa um sofá? Quero trocar de cama, mas não tenho grana. E os livros? Quais devo doar? Esse, aquele, nenhum... Eu preciso me desfazer das coisas, mas as coisas são parte de mim. Não quero acumular, mas sou fruto de toda essa acumulação. Essa camiseta não serve mais em mim. Vou doar tudo.

Não quero mais nada. Coragem. Lembrete: comprar plástico bolha. Tenho uma centena de garrafas para embalar. Máximo cuidado para não quebrar nada. Alguma coisa eu vou quebrar. Esse copo era da minha avó. Já era. Quebrou. O pessoal do caminhão não é muito cuidadoso. Eles estão de máscara. Outro lembrete: trocar titularidade das contas. Como é que faz isso? Pela internet? Mas tô sem internet. Será que o zelador do meu novo prédio pode me ajudar. Não consigo lidar com esses móveis de montar. Nunca montei direito. Preciso de ajuda. Quanto? Cinquentinha. O que eu faço com essa chave philips? Que raios é uma chave philips? Vou morar sozinho e não sei usar uma chave philips. Quando eu vou chamar meu novo apartamento de lar? Quando vence o aluguel?

Essa mudança nunca termina. Olha quanta caixa, quanta coisa fora do lugar. Pra que tudo isso? Tem até foto da ex, conta de 2011, jornal velho, poema ruim, romance inacabado, bilhete de suicídio. Esse apartamento ainda vai ficar com a minha cara? O que é a minha cara? Isso nunca vai ter fim. Espero que o cachorro acostume. Socorro. Alguém viu essa chave phillips por aí?” 

domingo, 6 de setembro de 2020

A Lua - Luis Fernando Verissimo

 “Todos eles estão errados, a Lua é dos namorados.” Lembra da música? Não sei se seu lançamento coincidiu com a chegada dos americanos ao nosso satélite em 1969, mas sua mensagem era clara: a Lua não é de nenhuma grande potência, a Lua é de quem sabe aproveitá-la, a Lua é um adereço do amor. Deixem-na em paz, americanos. Mas nós também nos enganamos com a Lua. A ideia de que ela só existe como complemento de uma paisagem romântica - ou seja, não existe para nada aproveitável - é falsa. 

A Terra é o único planeta no sistema solar com um satélite do tamanho da nossa Lua, o que faz dela menos um satélite do que um planeta companheiro. Os dois satélites de Marte têm meros dez quilômetros de diâmetro cada um. A Lua tem quase um quarto do diâmetro da Terra. Esta relação é importante porque sem a influência estabilizadora da Lua a Terra andaria pelo espaço como um bêbado, com consequências inimagináveis no nosso clima, sem falar no nosso equilíbrio. É a força gravitacional da Lua que faz a Terra girar na velocidade, no ângulo e com a sobriedade que garantem sua estabilidade e a existência de vida na sua superfície.

Agora, a má notícia. Sinto muito, mas a Lua está se afastando de nós, uma polegada e meia por ano, todos os anos. Daqui a dois bilhões de anos, ela estará tão longe que não poderá mais influenciar a vida na Terra. Você pode se consolar imaginando que serão descendentes seus os namorados que em dois bilhões de anos estarão olhando para o céu e se perguntando que fim levou a tal de Lua que tanto cantavam os poetas.

*

Cientistas fizeram os cálculos e concluíram que a vida na Terra seria impossível se o nosso planeta estivesse 5% mais perto ou 15% mais longe do Sol. Mais perto e a Terra seria uma queimada permanente em que nada sobreviveria, mais longe e tudo congelaria. A conclusão é que somos todos filhos fortuitos de uma eventualidade, o fato de habitarmos um planeta com todas as condições para nos alimentar e sustentar, se não fizermos a burrice de dilapidá-las. O que dá razão a quem especula que em todo o Universo só este planetinha tem vida, mas também dá razão ao físico e matemático inglês Freeman Dyson, que disse: “Quanto mais eu examino o Universo e estudo os detalhes da sua arquitetura, mais evidência eu encontro que o Universo, em algum sentido, deve ter sabido que nós viríamos”.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...