quinta-feira, 9 de abril de 2020

O irmão Justiniano - Mario Vargas Llosa

Lembro perfeitamente as dez quadras que havia entre a casa da família Llosa, na Rua Ladislao Cabrera, e o colégio de La Salle. Eu tinha 5 anos e, sem dúvida, estava muito nervoso. Neste dia, meu primeiro dia de aula, as percorri com minha mãe que, inclusive, me acompanhou até a classe e me deixou nas mãos do Irmão Justiniano. Este me apresentou àqueles que seriam meus amigos de Cochabamba desde então: Artero, Román, Gumucio. Ballivián.
O mais querido de todos, Mario Zapata, o filho do fotógrafo que havia documentado todos os casamentos e primeiras comunhões da cidade, seria morto com uma facada, anos mais tarde, em uma picantería (onde servem comidas típicas) de Cala Cala. Como era a criança mais pacífica do mundo, sempre pensei que sua morte horrível foi para defender a honra de uma jovem.
O Irmão Justiniano era um anjo caído na Terra. Tinha cabelos brancos e olhos doces e cativantes. Ele nos pegava pela mão e com ele cantávamos e dançávamos cantigas de roda repetindo o abecedário e as conjugações e assim, brincando, seis meses mais tarde, eu já sabia ler. O carteiro depositava toda semana na casa quatro revistas, três argentinas e uma chilena: Leoplán, para o avô Pedro, Para Ti, que a vovó, mamãe e a tia Lala liam, e para mim Billiken e El Peneca. Esperava estas revistas como o maná do céu e as lia do princípio ao fim, inclusive os anúncios.
Mamãe tinha um professor de violão e era uma leitora empedernida. Ela me emprestou El Árabe e El Hijo del Árabe, mas me proibiu de ler Veinte Poemas de Amor y Una Canción Desesperada, de Pablo Neruda, um livro azul com letras amarelas que escondia no seu criado-mudo e relia à noite: eu a ouvia, entre um bocejo e outro. Evidentemente, o li, escondido; continha uns versos que, eu tinha certeza (“Mi cuerpo de labriego salvaje te socava/ y hace saltar el hijo del fondo de la tierra”), eram pecado mortal.
Aprender a ler foi a coisa mais importante que me aconteceu na vida e, por isso, sempre lembro com gratidão do Irmão Justiniano e das cantigas de roda entre as maletas cantando e dançando enquanto memorizávamos as conjugações. Graças à leitura, este mundo pequenino de Cochabamba se tornou o universo. Graças aos signos que convertia em palavras e em ideias, eu viajava pelo planeta e podia, inclusive, retroceder no tempo e tornar-me um mosqueteiro, cruzado, explorador, ou viajar pelo espaço até o futuro em naves silenciosas.
Mamãe diz que a primeira manifestação do que, com os anos, viria a ser uma vocação literária, foi que, quando os finais dos contos e dos romances que lia não me agradavam, com minha letra torpe de então eu os mudava. Não recordo disso, mas lembro das horas que passava lendo todos os dias, depois de voltar do colégio La Salle e tomar meu copo de leite frio com canela, meu alimento preferido. O avô Pedro zombava de mim: “Para o poeta, a comida é prosa”. Mas eu ainda não escrevia versos em Cochabamba, isso viria logo depois, em Piura.
Agora que, por culpa do coronavírus e do isolamento forçado a que somos submetidos nós, madrilenhos, leio do amanhecer até o anoitecer, dez horas diárias em um estado de felicidade absoluta (moderada pelo medo da peste); aqueles dias de Cochabamba voltam à minha memória com os fantasmas imprecisos das primeiras leituras que o subconsciente me devolve: a orgulhosa Diana Mayo caindo exausta nos braços do seu sequestrador, Ahmed ben Hassan, nos desertos da Argélia; o espadachim que nasceu em uma cela de prisão e, como os gatos, via na escuridão; o Judeu Errante e sua peregrinação incessante pelo mundo. 
Nós, as crianças de então – pelo menos em Cochabamba –, não líamos as revistas em quadrinhos, mas livros, e, sem dúvida, por isso jamais me viciei em Popeye, o marinheiro musculoso. Mas em Tarzan e Jane, com os quais voava, de uma árvore a outra, pelas selvas da África.
Na biblioteca cheia de teias de aranha da Universidade de San Marcos, li minha primeira obra-prima: o Tirant lo Blanc (Tirante o Branco), na edição de Martín de Riquer, de 1948. Antes, porém, quando calouro do Leoncio Prado, devorei a série dos mosqueteiros de Alexandre Dumas, e sonhava com D’Artagnan todas as noites.
Nada me deu tanto prazer e felicidade quando os bons livros, nada me ajudou tanto como eles a superar os momentos difíceis. Sem a literatura, eu me teria suicidado no período atroz em que soube que meu pai estava vivo, quando me levou a viver com ele e me fez descobrir a solidão e o medo. William Faulkner mudou a minha vida em plena adolescência; eu o li com lápis e papel para identificar as mudanças de narrador, os saltos temporais, os redemoinhos dessa prosa que mesclava personagens, tempos e lugares, e no romance aparecia de repente um reordenamento da história melhor do que o cronológico.
Para ler Sartre, Camus, Merleau-Ponty, Simone de Beauvoir e demais colaboradores da revista Les Temps Modernes, aprendi francês e inglês para entender Hemingway, dos Passos, Orwell e Virginia Woolf, e decifrar o Ulisses de Joyce (consegui na terceira vez). Em uma cabana de Perros-Guirec, na Bretanha, no verão de 1962, li o tomo de La Pléiade dedicado a Tolstoi e desde então Guerra e Paz me parece o ápice do romance, com o Dom Quixote e Moby Dick.
Entre as obras do século 20, nada superou, na minha opinião, A Condição Humana, de Malraux, com a exceção de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Em Paris, no primeiro dia em que cheguei, em agosto de 1959, descobri Flaubert e passei a noite toda, no Wetter Hotel, lendo Madame Bovary. Para mim, este foi o mais frutífero dos descobrimentos: graças a Flaubert, soube o escritor que eu queria ser e o não queria ser.
As boas leituras não só produzem felicidade, elas ensinam a falar bem, a pensar com audácia, a fantasiar, e criam cidadãos críticos, receoso das mentiras oficiais dessa arte suprema do mentir que é a política. A vida que não vivemos, podemos sonhá-la; ler os bons livros é outra maneira de viver, mais livre, mais bela, mais autêntica. Esta vida alternativa tem, além disso, a sorte de estar fora do alcance das pragas demoníacas que sempre apavoraram os seres humanos porque viam nelas os demônios, que, diferentemente dos inimigos de carne e osso, eram difíceis de derrotar.
Um bom leitor é o cidadão ideal de uma sociedade democrática: nunca se conforma com aquilo que tem, sempre aspira a mais ou a coisas diferentes das que lhe são oferecidas. Sem esses anticonformistas, seria impossível o progresso verdadeiro, o que, além de enriquecer a vida material, aumenta a liberdade e o leque de escolhas para adequar a própria vida aos nossos sonhos, desejos e ilusões. 
Karl Popper tinha razão: nunca estivemos melhor do que agora (nos países livres, evidentemente). O coronavírus ressuscitou a barbárie no que acreditávamos ser a civilização e a modernidade. Vimos coisas horríveis em Madri, por exemplo, nas residências: idosos aparentemente abandonados por cuidadores que não tinham máscaras nem remédios nem qualquer tipo de ajuda. Os mortos convivendo com os vivos, dormindo nas mesmas camas.
O horror sempre supera o horror, não importa o tempo histórico. Mesmo assim, com toda a ruína econômica e social que essa praga inesperada trará para o país, se, depois de sobrevivermos a ela, houver na Espanha mais um milhão de espanhóis, ou pelo menos cem mil, ganhos para a boa leitura graças à quarentena forçada, os demônios da peste terão realizado um bom trabalho. 

 TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Lugar Ideal - Luis Fernando Verissimo

Um homem resolve fugir da cidade grande em que vive e padece. Bota a família e a bagagem num carro e ruma para... Para onde? Ele não sabe. Vai para o interior do país. Depois para o interior do interior do país. A família se impacienta. Onde ele quer chegar? A cada cidadezinha que passam, a mulher pergunta “é aqui?” , e o homem diz “não”.

A cada lugarejo que cruzam, as crianças, esperançosas, perguntam “aqui não serve?”, e o homem diz “não”. E continua a viagem, rumo ao interior do interior do interior do país. Até que entram numa cidade minúscula, uma cidade de um poste só. E o homem declara: “É aqui que nós vamos morar!”
A família não entende. O que aquela cidade tem de especial? Por que logo ali? E o homem responde:
– Vocês não notaram?
– O quê?
– Os cachorros correndo atrás do carro! Aqui cachorros ainda correm atrás de carros! É aqui que nós vamos ficar!
Em outra versão da mesma história, o homem, à procura de um lugar perfeito para morar, chega numa cidadezinha no interior do interior do interior do interior do país, entra no único bar da cidade e pede:
– Uma Coca-Cola, por favor.
E o dono do bar pergunta:
– Uma o quê?
– É AQUI! – grita o homem.
(Na verdade, como adepto da Coca Diet, meu ideal não seria o mesmo do nosso hipotético buscador. Mas entendo a sua alegria).
Numa lista recém-publicada de países ideais para se viver, o primeiro lugar foi para a Nova Zelândia, seguida da Suíça, da Islândia e da Holanda. Neozelandeses, suíços, islândicos (?) e holandeses morariam nos melhores lugares do mundo, julgados, eu suponho, pelo parâmetro, algo impreciso, da “qualidade de vida”. Imagino que não entre na cotação o grau de chateação cotidiana nestes paraísos, o que desclassificaria pelo menos três dos quatro.
Só se salvaria a Holanda, onde a tolerância com o comportamento individual dos cidadãos em matéria de sexo e drogas é, no mínimo, uma garantia contra o tédio. Pois deveria contar pontos na avaliação dos lugares ideais para se viver o quesito “o que fazer nos sábados à noite”.


09/04/2014

terça-feira, 7 de abril de 2020

Nunca fomos tão vizinhos - Humberto Werneck

Nunca fomos tão vizinhos quanto agora. Vamos ver se consigo debulhar esta reflexão que hoje me ocorreu, efeito colateral da pandemia do coronavírus, o mais recente artigo chinês, dizem os mal informados, de que nos tornamos consumidores e por vezes, lamentavelmente, difusores. 
Por favor, não vá pensar que este cronista, mais que nunca à míngua de assunto – pois cronista que não sai à rua é tristeza em dobro –, se acha agora convertido em “coronista”, por força da incorporação de uma vogal suplementar. Se bem me lembro das aulas de português no colégio, teríamos aí um caso de palavra que em algum momento ganhou vogal retardatária, insinuada entre duas consoantes – como ocorreu, dizia o professor, com a barata, sim, esse horror provido de patas e de antenas, que antes se chamava “brata”. Impossível esquecer o mestre a explicar que o fenômeno se chama suarabácti, esquisitice originária do sânscrito significando “separação por meio de vogal”. Para você ver como anda feia a coisa: talvez seja a primeira vez que suarabácti comparece numa crônica, com o risco de torná-la “corônica”. Mais um efeito colateral, quem sabe, da tal covid-19, que no Brasil veio somar-se a outro flagelo, também devastador, essa covid-17 de que sofremos desde as eleições passadas.
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Mas retomemos a tentativa de explicar a frase com que abri esta conversa. A gente sabia, é claro, que outras pessoas moravam no prédio, mas com certeza não estavam nele o tempo todo, como ocorre desde que se adotou isolamento horizontal em edificações verticais. A maioria, que em algum momento do dia se mandava para o mundo, agora não arreda pé – pé esse, por sinal, metido em algum tipo de chinelo. E não falo só de pés-rapados. Dia desses, um querido amigo mandou pelo WhatsApp uma foto em que é visto, na sala de sua mansão, usando máscara antivírus e vestindo elegante bata negra – e, para meu pasmo, usando Havaianas. Havaianas, ele! Nossa camaradagem está para completar 40 anos, mas é provavelmente a primeira vez que o vejo com os pés acondicionados em algo que não sejam tênis os mais refinados, ou em sapatos de cromo no mínimo alemão. Para lembrar de novo o que dizia meu finado pai, a pandemia nos precipitou a todos num “rascunho danado”. 
Todos – ou quase todos, pois em qualquer parte, claro, até mesmo aqui no modesto condomínio Cosme e Damião, tem sempre uns afortunados que, desencadeada a pandemia, foram se refugiar no sítio; já para quem ficou, o panorama é quase de um estado de sítio. Agora trombamos uns nos outros nas 24 horas do dia. Distribuídos por dois pequenos blocos de três andares, no total de 12 apartamentos, chegaremos talvez a isso que temos visto na televisão, condôminos a comemorar aniversário de alguém no prédio em frente. Não seria má ideia. No caso dos avulsos, entre os quais me incluo, em breve haverá o espetáculo de cabeleiras carentes de tesoura. Mas antes isso que chegar àquela situação em que os cabelos param de crescer.
Não tardamos a distinguir quem de nós pilota seu fogão e quem recorre ao delivery, seja ele culinário ou gastronômico. O citado camarada da bata negra com Havaianas (fica a sugestão, querido Ronaldo Fraga), morador nas imediações, fez outro dia a maldade de atiçar a minha inveja com uma foto de mesa posta no capricho, sobre a qual fumegavam iguarias mandadas vir de um dos mais constelados restaurantes dos Jardins. Você pode imaginar a dureza que foi, em seguida, encarar minha omelete com lascas de frango remanescentes de duas ou mais refeições.
*
Não posso me queixar, bem ao contrário, dos vizinhos que tenho ou tive aqui no Cosme e Damião, no qual cheguei há 27 anos e onde sou, de longe, o decano. Onde não sou o decano, aliás, depois que se foram o Niemeyer e a dona Canô? Se ainda não me animei (quem sabe na próxima pandemia?) a escrever um livro intitulado Meus Vizinhos, não é por falta de bons personagens, alguns dos quais por mim tratados no varejo das crônicas. 
O Antônio, para começar, antigo zelador residente, figurinha miúda desprovida de praticamente todos os dentes, mas dotado de invulgar talento para fuçar na intimidade alheia. Nos moldes das folclóricas concièrges da Paris de antigamente, estava inteirado da vida de cada um dos moradores do condomínio. Abelhudo, em mais de uma ocasião me chamou de lado para louvar os feitos galantes de um rapaz cujo apartamento era de fato um entra e sai de moças bonitas. “Ontem foram duas!”, fuxicava o zelador, olhinhos brilhando e a boca desdentada se esbugalhando em admiração: “Duas no mesmo dia!”. 
A mesma fonte, sem que eu perguntasse, me contou que o médico da janela em frente à minha, bigodudo e mal-encarado, de cabelos pintados com um negro de dar inveja à graúna, tinha uma relação mais que patronal com sua diarista, a qual, na realidade, ajudava a desfazer a cama que ela própria arrumava. Não é que o mexeriqueiro estava certo? Ainda que não quisesse, ao chegar-me à janela era impossível não ver o casal, que já não mora aqui, a fumar diante da televisão, dois pares de chinelos Rider pousados na mesa de centro. Às vezes as cortinas se fechavam repentinamente, e lá de dentro escapavam rumores inequívocos de atividade corporal específica. Tudo muito rápido, no breve espaço, quase, de um comercial, antes que as cortinas fossem reabertas e mais cigarros acesos. 
Foi o Antônio quem me ajudou a identificar a minha Vizinha Erótica – autora, sob pseudônimo inglesado, de um conto que me tocou ler quando redator-chefe da Playboy, em cujas 8 laudas e tipos miúdos se espremiam todas as modalidades imagináveis de entreveros carnais – nada daquilo, porém, capaz de remotamente atiçar a lubricidade de quem lesse. Com boa vontade, funcionaria como manual de instruções em academia de ginástica. 
Já contei da surpresa que tive ao emergir da leitura e me deparar, no verso do envelope, sob o nome brasileiríssimo da remetente, com o endereço do meu condomínio. Dissimulado, botei o Antônio para enumerar os moradores do condomínio – e foi assim que soube que a Vizinha Erótica era uma senhora recatadíssima, para lá de outoniça, às voltas com a educação e manutenção de dois sobrinhos órfãos (além de metaleiros). A santa criatura estava, cochichou o Antônio, até vendendo os móveis – e então não houve como não visualizar a cena de um sofá saindo e a dona Geni, sem outra alternativa financeira, a se meter na pele de uma devassa Jennifer O’Hara, para um esforço de imaginação (ou terá sido de memória?) lúbrica. Felizmente se mudou daqui sem ter vivido o constrangimento de saber que o único leitor de seu x-tudo libertino estava bem ao lado.

Outros olhos - Adriana Falcão

No fundo de cada cabeça devem existir outros olhos, uns olhos que enxergam para dentro, e provavelmente são eles que vêem as imaginações, as reminiscências, os sonhos, as idéias, as doidices que a gente pensa.
Enquanto os olhos que olham para fora se limitam a contemplar o que está na frente deles, esses tais olhos de dentro ora vêem o que querem, ora o que a gente quer ver.

Às vezes eles são obedientes. Noutras são muito teimosos. Quase sempre são criativos. De vez em quando são tão sensíveis. São imprevisíveis, os olhos de dentro.
Em caso de necessidade, são capazes de reproduzir fielmente as imagens que os de fora já viram, o que é chamado vulgarmente de lembrança, fenômeno fácil de ser compreendido.
É feito foto, filme, computador. Deve estar tudo registrado em alguma parte da memória.
O mais difícil de entender é como eles conseguem inventar coisas que os olhos de fora nunca viram:
Acontecimentos que não aconteceram.
Momentos que jamais passaram.
Situações completamente estapafúrdias.
Condições imaginárias.
Suposições.
Tragédias.
Finais felizes.
Sinais.
Hipóteses.
Subterfúgios.
Absurdos.
Desejos.
Aquilo que não existe, ou não é visível, ou ainda não foi descoberto, o que já foi embora, tudo o que está no brejo, o que está sempre no escuro, soterrado, escondido, após, por trás, o microscópico, a conjectura, o que foi arrancado, o que não foi aberto.
Brincar com os olhos de dentro pode ser engraçado.
É só imaginar o que quiser, por mais maluco que seja, e podem acontecer laranjas azuis – sóis sem luz – duas luas no céu – uma tartaruga veloz – uma fuga, um refúgio, um lugar – outro valor para "Pi" – paz aqui no planeta – cometas, estrelas cadentes, beijos noturnos, mil e uma viagens – paisagens à vontade do freguês – um Saturno sem anéis, uma ilha encantada, uma cidade tranqüila, uma casinha na floresta – festas de chuva no sertão – um patrão mão-aberta (ou qualquer outra pessoa inventada).
Quem manda nos olhos de dentro?
Será um Deus?
Um louco?
Um desenhista?
Um escritor?
Um diretor de cinema?
Será o desejo da gente?
Há quem diga que é o inconsciente.
Há quem pense que é o por acaso.
Eu não sei o que pensar.
Mando meus olhos de dentro pensarem sozinhos e lá se vão eles inventando caminhos.
Deixo o agora para trás.
Olho só para depois.
Encontro um farol.
Sofro uma alucinação?
Tanto faz.
Faço uma poesia, então, e imagino um país.
Vejo a gente feliz num dia de sol.
Tem hora que o melhor que se pode fazer é ver as coisas com outros olhos.


07/04/2015

sábado, 4 de abril de 2020

Aprendendo com a epidemia - Marcelo Rubens Paiva

Pragas estão entre nós desde tempos bíblicos. Quando os primeiros homens e mulheres decidiram seguir o Norte, rodear o Mediterrâneo, se dividir em levas a caminho do Oriente e Ocidente, levaram junto seus companheiros mais íntimos, adaptados por conta de milhões de anos de evolução em contato com outros animais, que continuavam em estado de mutação: caspas, piolhos e vírus. 
Rotas da seda geravam comércio de especiarias e doenças. Quando Constantinopla foi invadida enfim pelos turcos, interrompendo o comércio mundial, as caravelas portuguesas avançaram pelo Atlântico Sul e Índico e, pela primeira vez, juntaram biomas do Hemisfério Norte e Sul e de três florestas tropicais, a do Sudeste da Ásia, a africana e a brasileira. 
Com isso, os vírus de um ambiente viajaram pelas entranhas em caravelas pelos continentes e contaminaram povos distantes ou há milhares de anos isolados. Malária, febre amarela e a mortal, que se transformou em arma de guerra, varíola, até a caspa, atacaram os nativos. 
Os indígenas do Novo Mundo foram dizimados por uma arma mais letal que ferro e chumbo de conquistadores espanhóis e portugueses: o vírus da varíola, além da cólera, gripe, sarampo, tifo, peste bubônica. Conquistadores deixavam roupas imundas para os indígenas levar. Nelas, doenças.
A aglomeração urbana é sinônimo de epidemia. Em Londres, pessoas de um bairro, que colhiam água de uma mesma fonte, começaram a morrer. Era a cólera, entre 1817 e 1823, herdada de colônias como a Índia, doença que por sinal continua ativa e visitou o Brasil anos atrás. 
O saneamento passou a ser prioritário em cidades esvaziadas como Paris e Londres, o Estado se fortaleceu, nasceu uma burocracia fortemente ligada à saúde pública. Os talheres e a etiqueta nas refeições, antes restritos a aristocratas, viraram obrigação.
Em 1917, e sobre ela muito tem se falado, a gripe espanhola, que começou numa base militar americana, varreu a Europa durante a Primeira Guerra, levada por soldados ao front de batalha. Embalagens descartáveis, garrafas e enlatados. No fim dela, o mundo viveu um desbundo: Era do Jazz, República de Weimar. Tudo era possível. Sexo livre, festas, drogas, porres, poesia no ar. Sobrevivemos? Bora, curtir.
Tivemos sífilis e tuberculose. Temos dengue, febre amarela e malária. Recentemente, tivemos contato com novos inimigos, vindos da África e Ásia, como HIV, ebola, H1N1, Sars, chicungunha, zica. Vivemos sob a ameaça constante de uma pandemia avassaladora. Sobrevivemos a todas elas, e o mundo muda, na geopolítica e nas nossas cabeças. 
O HIV trouxe dilemas morais. Sua principal via de contato é o sexo e a seringa de uma agulha. Homossexuais e viciados foram punidos, como os idosos hoje, como se fossem os responsáveis pela doença. “Problema deles que são degenerados”, pensavam os seguidores de Reagan. A Guerra Contra as Drogas, que não deu em nada, começou ali. Hoje se diz: “Problema deles que são velhos e têm doenças preexistentes”. 
O mundo já mudou. No começo da crise da covid-19, vejo gente se perdoando, reatando amizades, valorizando o menos, repensando a economia global, a desigualdade. Vejo pais que se voltaram aos filhos, aos livros. Vejo gente se dedicando a afazeres domésticos antes terceirizados, reaprendendo a cozinhar, valorizando cada grão de comida, gole de bebida. 
A arqueóloga portuguesa Joana Freitas explica: “O homem é um exemplo de superação nas linhas evolutivas. Não éramos fisicamente dominadores, nem estávamos no topo das cadeias alimentares. Éramos caçadores, mas presas fáceis também. A evolução do nosso cérebro, as capacidades intelectuais e de cognição, deu-nos a vantagem. Durante milênios, feitos de avanços e retrocessos, a espécie humana prosperou e ocupou os quatro cantos do planeta. A uma capacidade adaptativa gigante juntou-se a sobrevivência assente na coesão de grupo. Há cerca de 10.000 anos, começam a aparecer as primeiras sociedades sedentárias possíveis pela domesticação, embora incipientes de plantas e animais. Aqui, nesse preciso momento, o homem assinava com o destino. Populações crescentes e fixas num local, convivência diária com os animais domesticados e todos os parasitas a eles associados, formaram as condições perfeitas para as primeiras epidemias”. 
Joana lista as pandemias que mudaram o curso da História, e mortais, e entre elas está a peste bubônica, em Roma, entre 527-565 d.C., sob o comando do imperador Justiniano. Resultado. O império romano entrou em colapso. Nunca mais foi unificado. A data representa o início da era negra da época medieval. O medo da realidade mergulhou o Ocidente no transcendental e na idade das trevas, a Idade Média. Deus castigava aqueles que não tinham fé ou adotavam uma religião pagã. A Igreja Católica se expandiu. Deu na Inquisição.
A peste negra, entre 1343 e 1351, atacou a Ásia e Europa e matou, segundo Joana, cerca de 80 milhões de pessoas. Afetou toda a economia mundial. Porém o caminho foi oposto. A medicina rompeu os tabus do catolicismo e passou a tratar o corpo humano como algo a ser investigado, não como a face de Deus. Deu na Renascença. 
Epidemias trouxeram trevas e iluminismo. Escureceu e acendeu. Nos bloqueou ou nos expandiu. Uma das nossas virtudes é a de ganhar sabedoria de experiências negativas. Nós vamos superar essa, com união e serenidade. E deixemos a estupidez falando sozinha.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Seres irrecuperáveis - Milton Hatoum

“Personagens complexas são o sal da ficção”, disse Lucrécia, na padaria. “Sem elas, o livro fica insosso e perde interesse. Gosto até mesmo das personagens secundárias...” 
Citou duas ou três personagens inspiradas em pessoas, e acrescentou que a imaginação transformava essas figuras fictícias em seres mais complicados do que nós. 
Concordei, com uma ressalva: algumas pessoas mudam muito pouco, e sempre para pior. E me lembrei do que dizia meu saudoso tio Adam: “Há seres irrecuperáveis. Gente que não inspira nem sequer uma personagem rasa”. 
“Você conheceu pessoas assim?”, riu Lucrécia. “Seres irrecuperáveis?”
Disse que estavam por toda parte, no presente e no passado. E dei um exemplo concreto: o Jamebo da minha juventude. 
“Jamebo... É um apelido, nome ou sobrenome?”
Expliquei que era uma contração do nome com o sobrenome: ambos definiam um sujeito execrável. Aliás, tão execrável que o apelido dele era Jamebão. 
Lucrécia pediu meia dúzia de pães, sentou-se num banco da padaria quase deserta e escutou.
Conheci o Jamebão quando frequentava com meu tio Adam um bar da minha cidade. Aquele sujeito me impressionou... O rosto macilento parecia uma máscara com fissuras. O olhar e a risada insinuavam desdém; e só abria a boca para a infâmia. Quando estava inspirado, trocava a infâmia por um punhado de vulgaridades. Ele parecia desconhecer a serenidade e a reflexão, e tinha o incrível, quase sub-humano poder de simplificar tudo. De início, meu tio percebeu no Jamebão alguma afinidade com o capitão Pistol.
“Quem é esse capitão?”
“Uma personagem secundária de Shakespeare, Lucrécia. Mas tio Adam mudou de ideia. Disse que o capitão Pistol ao menos tinha humour, mas o Jamebão não tinha nada, não servia para personagem.”
Contei que tinha conhecido o Jamebão no simpático bar do Pina, famoso naquela época por reunir intelectuais, jornalistas, artistas e poetas; o bar ficava bem em frente ao quartel da PM, na praça Balbi. Dois militares de bronze, em pose hierática, eram sentinelas do edifício antigo, de estilo neoclássico. O par de bronze ainda está lá, cravado num pedestal de concreto. 
Às vezes, o Jamebão dava as caras nas tardes de sábado. Prestava continência às estátuas e rumava com passos de marcha ao bar do Pina. Vários fregueses se apressavam em pagar a conta. Quem não conhecia o Jamebão, tornava-se testemunha involuntária de um vexame. 
O cara contava piadas horríveis com uma fala atrapalhada, e fazia gestos não menos horríveis. Os passeantes paravam perto do Pina e riam. Não sei se riam das piadas ou dos gestos. Talvez da combinação de ambos. Era uma encenação perfeita de uma arrogância peculiar. E o mais lamentável é que não demonstrava um pingo de vergonha de sua profunda, infinita ignorância. Com o passar do tempo, eu esperava que ele ia mudar. Mas não. Era repetitivo ad nauseum. O que variava nele era o grau de agressividade na voz e nos gestos.
“Ninguém peitava esse imbecil?” 
Certa vez, alguém disse pra ele: “Conta outra, rapaz, tu não entendes nada disso”. O Jamebão, de dedo em riste, cuspiu palavrões com uma voz estúrdia, desorbitada. Não economizava blasfêmias, e escarnecia dos que o contrariavam. No entanto, considerava-se “cristão até o tutano”. 
Tio Adam dizia que alguns rebanhos são atraídos por um tirano sem pensamento claro; às vezes, sem pensamento algum. Meu tio via na atitude do Jamebão uma tirania difusa, um desregramento desbragado, que negava qualquer ato razoável. Ainda me lembro do olhar aflito e das palavras de Adam: “O grande perigo é quando um desses mandões achavascados assumem qualquer tipo de comando”. 
Três da tarde, a padaria ia fechar. Lucrécia pagou os pães e comentou:
“É verdade, esse Jamebão é irrecuperável. Deve ter feito muito estrago na tua cidade. Não serve mesmo para personagem, nem para a mais rasa. Mas pode servir para uma crônica”. 
Ela seguiu com seu saco de pães para a rua dos Macunis. E eu, de mãos vazias, à reclusão numa casinha na Sumidouro. 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Agradável insatisfação - Fabrício Carpinejar

Quando a namorada escolhe a sua roupa para sair, a minha opinião somente vale para criar dúvidas. Se confesso que adorei, não significa que manterá a combinação. Cinco minutos depois estará com outro traje pedindo a minha opinião de novo. Ou seja, aquele vestido que elogiei já não existe mais, morreu de inédito.
A impressão é que não faz sentido o meu palpite, mas tem uma função eliminatória. Ela é capaz de recusar uma roupa que não gostei, porém não seguirá cegamente o que gostei. Porque precisa gostar mais do que eu. E uma mulher só gosta comparando.
Esqueça o sonho de que ela pegará um figurino no armário e deu, que será rápida e prática. Seu costume é realizar um leilão do seu guarda-roupa. Sempre derrubará os cabides sem medo da bagunça, com a intenção de intercambiar tecidos. É uma pintora diante da tela imensa do espelho, produzindo cores inéditas na paleta. Não esmorecerá até definir a opção certa para o clima e para a ocasião. Não deseja apenas estar bonita, porém ser também oportuna. Odeia a hipótese de chegar num lugar com jeito de fantasiada.
Escolher depende do cruzamento das peças com os acessórios. O costume é aprovar o vestido e não achar um sapato à altura, optar por uma calça e uma camisa e cismar com o cinto. Uma simples hesitação põe o trabalho de horas abaixo.
A importância do encontro pode ser mensurada pelo número de roupas que testou. Mais de cinco é sinal de que leva a sério o passeio.
Não reclamo quando a minha namorada troca de roupa seguidamente. Não reclamo da demora e do atraso. É a minha chance de vê-la nua várias vezes. É a minha chance de vê-la se despindo para mim várias vezes.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...