quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Um passado pela frente - Claudia Laitano

Brasília: "Livros de direitos humanos são rasgados na biblioteca da UnB". Manaus: "Aluno joga mesa na direção de professor de Letras que abordou fascismo em aula". Natal: "Aula de história terminou com um professor ameaçado de morte por partidários de Bolsonaro". Rio: "Colégio Santo Agostinho suspende uso de livro considerado comunista por grupo de pais".

O país que naturalizou a violência do crime organizado, da miséria e da corrupção cotidiana (que se reflete na classe política) agora precisa aprender a conviver com a violência da palavra, da opinião, da negação do outro e da aniquilação do pensamento. Livros, professores, escolas e o conhecimento em si estão sob ataque. E a História tornou-se uma poeira inconveniente a ser varrida para baixo do tapete.

A polarização política não explica livros rasgados em bibliotecas, professores atacados por seus alunos, pais censurando leituras de escola, amigos trocando insultos pelas redes sociais. A ideia de que o que está em jogo, nestas eleições, é um determinado modelo político ou econômico esbarra na brutalidade, na boçalidade, na truculência - que são, em essência, anárquicas. Não se trata mais de deixar explícita a preferência entre esquerda ou direita, mas de decretar que a convivência com o contraditório não apenas é desnecessária como deve ser evitada.

Este não é um fenômeno exclusivo do Brasil. Está acontecendo no mundo todo, de diferentes formas. Se parece mais agudo por aqui é porque nossa base, como sociedade, é mais frágil. Há descontentamento com governos de direita e de esquerda, com democracias recentes e tradicionais, em países ricos e em países pobres. O que me parece um traço em comum, em todos esses conflitos, é uma dificuldade de aceitar o século 21 em toda a sua complexidade: a tecnologia, as lutas identitárias, o politicamente correto, as transformações no mundo do trabalho, a realidade paralela das redes sociais. 

Diante do que não se entende ou não se aceita, muita gente está optando por enfiar a cabeça embaixo da terra e fazer de conta que é possível voltar no tempo. A um mundo que ainda acreditava que pátria e religião ofereciam todas as respostas. Ou mesmo antes: ao tempo das cavernas.

O tempo e o sexo - Leandro Karnal

Quando eu era jovem, ser apresentado aos pais da namorada era um momento decisivo e desafiador. A data era marcada, chegávamos ansiosos à soleira da casa e o contato era de extrema formalidade. Namoros tinham horários e dias marcados. Os dias eram outros e a sociabilidade mudou muito. Havia barreiras, constrangimentos, beijos roubados, etapas e desejos contidos. Namorar implicava técnica de sítio a uma cidade medieval: era preciso cercar e ter paciência. 
“Mudam-se os tempos e mudam-se as vontades.” Todos os meus sobrinhos chamam de sogra e sogro os pais da namorada que conheceram há dias. É prática corrente dos jovens enamorados de agora a coabitação marital consentida e pública desde o primeiro instante. Completam-se três semanas de namoro e o jovem já anuncia à família de origem que terá de passar o Natal na outra casa.
Essa era, há 30 anos, uma negociação após o casamento na igreja. Uma amiga confessou-me o constrangimento de encontrar uma menina desconhecida em trajes menores na sua cozinha em plena e íntima manhã de domingo. A apresentação da candidata a nora é feita ali na cozinha. “Fazer o quê? Melhor que se encontrem aqui em casa do que na rua que é mais perigoso”, justificam os resignados candidatos a sogros.
Do ponto de vista da psique humana, nossa raiva com esses atos nasce, em parte, da irritação que tivemos em ter tantos prazeres negados em nossa época e que agora são tão fáceis para a nova geração. Travestimos de moralidades e discursos elaborados o que seria apenas nossa inveja de não poder ter esses abundantes “test-drives” antes do casamento. Vivendo as responsabilidades de famílias atuais com todo seu corolário de obrigações, olhamos jovens vivendo apenas a parte boa da vida a dois. Não pude ter a alegria que eles possuem hoje e eles não vivem o peso que experimento agora... Eu sei, temos raiva, e uma maneira boa de disfarçar é apelar ao jargão que os “jovens não querem mais nada com nada”. Talvez sejamos nós os adultos de meia-idade que estejamos exaustos de viver o “tudo com tudo”. Nosso peso se ressente com a leveza alheia.
As crianças não sofrem mais castigos físicos e podem emitir livres e desabridas opiniões. Fedelhos recém-saídos dos cueiros determinam o cardápio de casa e eu tinha de deglutir fígado toda semana? Alunos vão para a escola e imaginam que o professor deva tornar a aula lúdica e atraente, ou seja, nada do terror pedagógico que vivemos com autoridades que localizavam sempre o erro em nós. Os livros têm mais ilustrações, os professores sorriem, a sala é mais leve e as provas, menos terríveis hoje. Mesmo assim, eles, sem perspectiva histórica, reclamam da dureza da escola! 
Adolescentes e jovens derrubaram as bastilhas sexuais que nos aprisionavam e foram morar na Versalhes erótica do sexo sem contas a pagar e com corpos perfeitos? Ingressaram no campo da Revolução Sexual sem um Antigo Regime opressivo e moralista? Que raiva! Que injustiça! Que inveja...
A vida não é justa. Por que sou uma pessoa madura no momento da liberdade de jovens que demandam tudo e fui adolescente em um mundo dominado pelo poder de pais e professores? Jovem durante o domínio da gerontocracia e maduro na efebocracia? Que triste.
Tenho uma dúvida que nunca será sanada. Talvez seja uma última boia antes de reconhecer que sou fruto de um azar geracional apenas. Cercado de tabus e autoridades, inundado pelo moralismo religioso, arfando de culpa e de desejo, cada passo da descoberta sexual era um estupor enorme. O que seria um simples “amasso” no mundo atual era uma quase orgia de entrega a bacantes pagãs enfurecidas de desejo. O mundo repressor cria ansiedade e culpa e a culpa aumenta enormemente o prazer. Eu lembro do frêmito, da verdadeira convulsão que cada passo no namoro causava e das memórias que seriam revisitadas a posteriori. Eu arfava e tremia, buscava e extasiava, lograva e bramia. Quem lê imagina um fauno selvagem pelo bosque em meio a festim de infração do sexto mandamento. Menos, caro leitor e querida leitora, muito menos: eu pensava agora no primeiro beijo. Será que um jovem do mundo líquido tem essa ansiedade acompanhada da conquista vitoriosa? Em mundo de corpos fáceis e vida marital precoce há desejos não saciados e prazeres profundos? O jovem Salomão pós-moderno seria o entediado habitante de um palácio com mil esposas/concubinas à disposição e, exatamente assim, afundado em erotismo blasé? Se tivesse sido jovem hoje teria Salomão escrito primeiro o Eclesiastes pessimista do que o Cântico dos Cânticos erotizado?
A pornografia escassa da minha geração foi multiplicada ao toque de um botão. A abundância infinita aumenta ou diminui o prazer? Ter passado fome torna as oportunidades de refeição mais intensas? O excesso esvazia o prazer? Complicado saber onde estamos reavaliando nossa vida e em qual momento estou me projetando no outro. 
Ao final, a minha geração que escalou a montanha do prazer com sacrifício, sem guias e com pouquíssimo material, encontra no topo todos os jovens que chegaram lá no helicóptero da modernidade. Depois de um tempo, o tédio é o legado de todos. Será que eu os invejo porque eles descobrem sem sacrifício o que nós necessitamos de décadas: que no fim dá tudo no mesmo? É preciso ter esperança.

domingo, 7 de outubro de 2018

Diferentes tons de ridículo - Ricardo Araújo Pereira

Luiza Pannunzio

Às vezes decido acabar um SMS escrevendo: "Um abraço do Ricardo". Sucede que, sempre que começo a escrever o meu nome, o corretor automático sugere a palavra "ridículo".
Até hoje nunca aceitei a sugestão, mas o celular mantém a convicção de que eu deveria despedir-me dizendo: "Um abraço do Ridículo". Portanto, confirma-se: os smartphones conhecem-nos mesmo muito bem.
Não é difícil. O fato de andar sempre comigo e de assistir às minhas pesquisas no Google faz com que o celular obtenha uma ideia bastante precisa acerca de quem eu sou. Ridículo é um resumo muito perspicaz. Anda assim, há alguns pormenores que ele desconhece —e que ajudariam a compor e reforçar esse retrato. Permitam-me que vos revele um deles, para edificação de todos.
Quando, nas aulas de latim, foi preciso aprender a primeira declinação, o professor dispôs os casos pela ordem do costume (nominativo, vocativo, acusativo, genitivo, dativo, ablativo) e depois escreveu as terminações (singular: a, a, am, ae, ae, a; plural: ae, ae, as, arum, is, is).
E então ocorreu-me que um bom modo de memorizar as desinências seria recitá-las ao som da música infantil "A Machadinha". Foi o que fiz. "A, a, am" era o início da cantiga. "Ae, ae, a" correspondia ao verso "minha machadinha". E por aí fora. Resultou.
Entre a primeira declinação e a "Machadinha" não havia outra semelhança a não ser o fato de uma começar por "A, a, a" e outra por "a, a, am". Ambas eram difíceis de compreender: eu estranhava igualmente que, por um lado, as palavras tivessem uma forma diferente consoante a função que desempenhavam na frase e, por outro, que alguém quisesse cantar sobre uma machadinha que, não se sabia bem como, pulava para o meio da rua.
A voz feminina que cantava na Machadinha acabava a dizer que havia de ir à roda escolher o seu par, que era um rapazinho chamado José. O verso seguinte dizia: "Chamado José, chamado João". Tratava-se, portanto, de um rapazinho que, como as palavras na língua latina, mudava de designação com facilidade.
Resumindo, quando o professor me perguntava pela forma da palavra rosa no genitivo plural, eu cantava mentalmente a Machadinha até a parte "quem te pôs a mão sabendo" e respondia "rosarum".
O professor, desconhecendo o logro que decorria à sua frente, dizia "muito bem". Mas eu não conseguia evitar corar um bocadinho. E foi assim que estudei latim. Um abraço para todos do
Ridículo.


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Pra que servem as mulheres - Marcelo Rubens Paiva

Pra que elas sevem? Foi a segunda pergunta que o moleque fez, quando começou a lista de perguntas essenciais sobre o sentido da vida. A primeira? Pra que serve esta bola?
O primeiro indício de que ele não as entendia nasceu da constatação de que a maioria não devolvia as bolas atiradas contra elas. Começava aí o dilema da divisão de papéis. Não entendia por que meninas conversavam com seres inanimados, designados "bonecas", que nomeavam, vestiam, penteavam, alimentavam com comida de mentira, agasalhavam e colocavam para dormir. Não entendia por que meninas reclamavam quando ele arrancava as cabeças de plástico com cílios e cabelos de náilon para ver o que tinha dentro. Não entendia a obsessão delas por cores cítricas e por pôsteres de meninos que cantam em bandas só deles. Não entendia o funcionamento de presilhas para prender cabelos, nem o sentido de esmaltar as unhas. Como não as entendia, passou a ignorá-las.
Até ser matriculado numa escola. Descobriu que uma mulher pilotava muito bem a van, outra, a lanchonete, outra, a classe barulhenta, outra, a própria escola. Aprendeu a ler livrinhos escritos por mulheres e ouvir musiquinhas compostas por elas. Ouviu dizer que países eram governados por elas. Descobriu que apenas as da sua idade eram desinteressantes.
Mas chegou a adolescência. Começou a desconfiar que garotas tinham alguma atribuição na composição social. Especialmente as que tinham irmãs mais velhas. Ele passou a ter uma ideia fixa quando organizaram o campeonato de vôlei feminino no colegial. E contrataram a nova professora de matemática.
Vítima de uma explosão hormonal que o deixou por anos monotemático, descobriu enfim que as mulheres escondiam uma coisa que ele queria muito. Então, descobriu que, entre o objetivo e a conquista, existia planejamento, método, projeto, a corte, algo que faz parte da espécie como o fogo e a flecha, e que os fins justificam os meios.
Passou a amá-las, idealizá-las, compará-las, desejá-las mais que tudo. A trocar jogos com bolas por fantasias solitárias. A sofrer de amor, escrever poemas, cantar, dançar, oferecer mimos, declarar, xavecar.
O xaveco é milenar. O humano conhecido popularmente como Homo sapiens, do grego homem sábio, achou por bem decorar o cantinho de cavernas com pinturas rupestres, exagerar seus feitos em caçadas, oferecer enfeites à base de marfim de mamute, saias de pele de onça e colares com dentes de sabre manipulados para convencer uma pretendente a visitar o escurinho sobre o qual Platão tanto se dedicou e criou um mito. Até o aperfeiçoamento da fala e a invenção da lira, gastou-se muita mímica para simular que o macho não pensava só naquilo, apesar de só pensar naquilo, e que iria mandar um dente decorativo no dia seguinte de algum animal ainda não extinto por ele mesmo.
Pirâmides foram construídas para impressionar amadas. Guerras foram proclamadas, monumentos com colunas, com abóbadas, com ou sem sentido, foram erguidos. Navios enfrentaram tormentas em busca de um amor pleno. Muito papiro, muita tinta, muito blá-blá-blá foi gasto para se conquistar uma mulher.
O moleque namorou, noivou, assinou um pacto e se casou. Descobriu também pra que elas servem na linha evolutiva, ao observar seu grande amor engravidar. Descobriu enfim que, por trás de tanto desejo, admiração, vontade de compartilhar a rotina, existe o corpo de uma mamífera que dá sentido ao tempo perdido em busca da resposta do pra que elas servem: elas procriam!
A cintura arredondada de uma mulher não é apenas para servir de suporte a um biquíni asa delta. Existe ali espaço para caber mais um. E produzir colo. Os peitinhos aumentam, são na verdade mamas. Olha lá, é um design milimetricamente perfeito para alimentar um, até dois, herdeiros. A protuberância chama a embocadura. A aréola circunda o bico para proteger a maciez e criar a ilusão de ótica de que um bebê que enxerga mal precisa. E, surpresa. De dentro, sai alimento na temperatura ideal. É uma pequena fábrica caseira de laticínio mais rico em nutrientes do que tudo que existe.
O ventre é o receptáculo para o acolhimento de genes. Para receber as qualidades do macho alfa, mais forte e capaz. Tem maciez, lubrificação. Para enfiarmos o veículo testado como num túnel de vento da NASA, que transporta informações genéticas que serão selecionadas dentro e escolhidas. Em bilhões, aceitarão um! Que será armazenado, alimentado e protegido com a placenta quimicamente balanceada, num reservatório com tubo personalizado e individual de alimentação, com isolamento acústico e calefação.
Mas o sujeito se pergunta se as mulheres são então apenas umas chocadeiras? Não! A evolução foi brilhante. Como sempre. Deu o quê? Um clitóris. Uma glande em forma de botão com 8 mil terminações nervosas, o dobro da mangueirinha pendurada aí. Que serve para o quê? Para apenas uma coisa. Dar prazer! Não é para "tirar água do joelho", expelir genes, se gabar. É para apenas e tão somente dar prazer, fazê-las gozar, e não uma vez, como um urro, uhhhh, mas muitas vezes, múltiplos. O homem tem uma espingarda de um tiro, um bacamarte, que sai chumbo pra todos os lados. Elas, um rifle de repetição, uma metralhadora, pá-pá-pá!
Elas têm no corpo um órgão que é só para o prazer. Que, se a evolução não nos tivesse dado, talvez elas nunca visitassem o escurinho da caverna que intrigou Platão. Se não fosse o mágico e hipersensível sininho, não haveria procriação, não haveria espécie humana, não haveria Quéops, Troia, Capela Sistina. Nem o sujeito da primeira pergunta, a bola. Nem perguntas haveria.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O moço do coração amarelo - Denise Fraga



Me chamou a atenção a camiseta do moço. Tinha um coração amarelo. Cruzou a rua, fazendo com que o motorista do táxi diminuísse a velocidade. Olhava para o céu. Me contorci no banco de trás para acompanhá-lo.
Chegou à calçada calmamente e continuou olhando para as coisas num estado de contemplação muito raro de se ver. Não era um turista. Tampouco parecia estar sob o efeito de alguma droga. Era um homem comum, calmo, olhando as coisas. Todas as coisas. Fui perdendo-o de vista em meio aos carros e me acomodei de volta à janela lateral do táxi, herdeira de seu estado. O meu amigo do coração amarelo parecia perceber o imperceptível e tê-lo notado, notando tudo, aumentou minha capacidade de absorção daquela morna tarde de sábado. Uma moça de bicicleta, algumas pessoas coreografando uma espera num ponto de ônibus, pedaços de salas e quartos pelas janelas e até o próprio motorista de óculos escuros visto pelo retrovisor se entrelaçavam numa poderosa rede de existência diante do novo olhar que eu herdara do moço que olhava para o céu.
Cheguei ao teatro, tomei meu café e comecei a me maquiar. As pequenas conversas cotidianas foram me devolvendo à realidade. Àquela realidade menos real. Essa nossa vida inventada que teima em nos escamotear o essencial.
Perto das nove horas, tudo preparado, abrimos as portas. Costumamos receber o público na entrada, distribuindo os programas da peça. E foi aí que aconteceu o inesperado. Entre as boas-vindas a um e a outro, dei de cara com a camiseta do coração amarelo. Passou rapidamente por mim, mas não havia dúvida: era o tal moço. Não havia tempo de ir até ele no alvoroço da entrada. Nem saberia o que dizer. Estava boquiaberta com a coincidência. Na verdade, me perguntava se era mesmo uma coincidência. Poderia existir uma chance muito remota de ele ter me visto no táxi e ter decidido ir ao teatro. Mas era muito improvável. Seria ele uma espécie de anjo oculto, enviado para me devolver a atenção ao essencial?
Soou o terceiro sinal e minha concentração voltou para o lugar na forma de um coração amarelo que agora se sentava no meio da plateia e que possivelmente esperava daquela apresentação o mesmo grau de essencialidade que via em todas as coisas. Fiz a peça para o anjo.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Pelo sim e pelo não - Humberto Werneck

O espetáculo de lambança cívica que boa parte da classe política brasileira não se cansa de encenar me faz outra vez pensar se já não passa da hora de levar a sério uma ótima ideia do escritor Cyro dos Anjos e instituir o voto contra. Dar ao cidadão o direito não apenas de eleger fulano, como já acontece, mas também – ou sobretudo – o de “deseleger” beltrano. 
A sugestão do falecido romancista de O Amanuense Belmiro nasceu como brincadeira, na espumante irresponsabilidade de uma roda de chope (quem conta é Fernando Sabino), mas nem por isso deixa de fazer sentido: se as eleições existem para que possa cada um manifestar sua vontade política, por que limitar a liberdade a dizer “sim”, quando tantas vezes o que mais queremos é dizer “não”? 
A alternativa valeria também como recurso para recondicionar fígados intoxicados no fragor de uma campanha eleitoral sujeita a facadas e assolada por fake news. Não venha me dizer que você, democrata e tolerante, nunca teve, a certa altura do processo, vontade de dar uns cascudos no adversário, ou mesmo de beber-lhe o sangue. 
O voto “não” funcionaria, assim, como providencial válvula de escape para excessos de paixão. Um pouco, me ocorre agora, como a sequência que vi num velho documentário americano, na qual o motorista, estressado de tanto dirigir numa autopista de alta velocidade e agressividade ainda mais elevada, interrompe a viagem para um descanso – e no motel encontra, além de banho & cama, uma tela na qual, interminavelmente, se projetam cenas em tudo semelhantes ao tráfego vertiginoso do qual, sabe Deus como, o pobre diabo acaba de emergir. 
À mão, disponibilizada para esse fim pela gerência, uma cesta de frutas podres e potes de matéria malcheirosa que o sobrevivente pode – deve – atirar contra a tela, enquanto, no quarto à prova de ruídos, berra impropérios, até que baixe a fervura dos impulsos homicidas refreados. A casa proporciona limpeza no dia seguinte e, ao lado da cama, pastilhas para cordas vocais esfrangalhadas.
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Em quem você vai desvotar? – os amigos se perguntariam às vésperas do pleito. A chatice do horário eleitoral ganharia inesperado interesse quando na tela surgisse alguém para recomendar: “Vote ‘Não’ neste sujeito aqui!”. Numa lapela a gente poderia espetar um botton do candidato do nosso coração; na outra, o candidato do nosso fígado: “Este, nem pensar!” 
Tudo muito simples: você vai de Bolsonaro, eu vou contra, #eleSim, #eleNão. Nós dois nos anulamos. Muita briga conjugal seria evitada, já que ninguém levou. Feitas as contas, seria pelo menos engraçado constatar que, num universo eleitoral de dezenas de milhões de eleitores, o novo presidente da República chegou lá por 1 a 0. “Nunca antes neste país ou qualquer outro alguém venceu por margem tão apertada”, poderia ele se gabar. 
Não sendo proibido sonhar, o ideal, quem sabe, seria dispor de dois votos “não”, ainda que ao preço de sacrificar um voto “sim” – alternativa que tanta falta me fez naquela eleição para o governo de São Paulo em que na reta final tudo o que se apresentava ao eleitor era escolher entre Maluf e Fleury. Na falta de petardo em dobro, que no caso talvez pudesse ter impedido roubalheira e o massacre do Carandiru, eu me conformo em sonhar com um voto “sim” e um voto “não”. 
*
Haveria, é verdade, a possibilidade de se registrar o que locutores esportivos chamam de “um pálido empate”. A contenda, nesse caso, seria decidida numa prorrogação eleitoral. E se, ainda assim, o impasse persistisse? Não dá para imaginar uma eleição decidida nos pênaltis, mas o legislativo, neste país de jabuticabas jurídicas, haveria de encontrar uma saída. Talvez um duelo na Praça dos Três Poderes, não estando excluída a hipótese, eventualmente bem-vinda, de que nenhum dos finalistas sobreviva.
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Em meio ao mandato, fosse ele executivo ou legislativo – e aqui vai mais uma proposta –, teria o cidadão a possibilidade de avaliar o desempenho de seu representante. Bastaria instituir também um recall eleitoral, em tudo semelhante aos que promovem as montadoras de automóveis. Com a diferença de que, não sendo possível substituir caráter como se faz com um cárter (aquela caixa, esclarece o dicionário Houaiss, “em que se aloja o virabrequim de um motor e onde, nos automóveis, é recolhido e esfriado o óleo aquecido proveniente de outras partes do motor”), seria preciso trocar o fulano – o que, na maioria dos casos, estaria longe de ser um mau negócio para o País. 

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Pedro no auge - Daniel Furlan

Luciano Salles/Folhapress



Burocrático. Discreto. Irregular. Esses são os elogios mais otimistas para um peladeiro comum. E Pedro era comum.
Média de um gol por jogo, que no universo das peladas, devido à fragilidade (e principalmente má vontade) dos goleiros, é bem medíocre.
Talvez, se tivesse tido mais planejamento e contabilizado seus gols desde os cinco anos de idade (na infância se toma muito gol bobo), já teria uma marca que muito atacante profissional enche a boca para divulgar. Dos cinco aos seis anos, inclusive, Pedro era bastante veloz, mas a partir dos sete começou sua decadência física e mental.
Entretanto, aos 18 anos um novo mundo se abre diante dos jovens: o futebol do primeiro período da universidade é a grande oportunidade de todo peladeiro sonhador. O que há ali, em meio a totais desconhecidos, é mais que um esporte amador muito mal jogado. É a esperança de redenção, de jogar sem o peso do olhar dos que conhecem seu futebol.
E assim que iniciou-se a partida, pela primeira vez em anos, Pedro pediu uma bola e recebeu. Talvez justamente por não ter tido tempo de ficar inseguro com lembranças de todas as bolas que nunca havia dominado, Pedro esticou-se de supetão e amansou-a como a um animal de circo fortemente sedado. Como que em câmera lenta, foi deixando para trás todos os adversários (talvez literalmente em câmera lenta, já que eram todos meio pesados) e disparou um petardo certeiro no ângulo. 
O goleiro, talvez pela impotência de suas ações, talvez pela total falta de interesse em ser um bom goleiro, só observou a bola entrando. Gostaria de dizer que estufou a rede, mas como não havia rede, acabou atingindo uma aluna de administração que comia um folhado de frango na cantina.
O fato é que foi um golaço. Mais do que a confiança dos novos colegas, Pedro agora tinha a confiança de si mesmo. E foi então que, num golpe de mestre, levou a mão ao posterior da coxa, onde se contundem os grandes craques, e saiu mancando. Fingindo contusão, Pedro deixou os gramados, no auge, para nunca mais retornar.
Pode parecer mesquinho, mas esse ato fez de Pedro, o peladeiro comum, que só teria a perder se continuasse jogando, o maior jogador do curso de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo até hoje. E seu segredo está seguro comigo.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...