quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A morte de um museu - Roberto DaMatta

Como um museu pode morrer? Afinal museus têm muito de cemitérios: eles guardam relíquias, e espécimes embalsamados de fauna, flora e artefatos de sociedades tribais desaparecidas e obras de arte; além de livros – muitos livros que, fechados, jazem ao lado dos diários daqueles que passam a vida dentro deles para aprender o que existe do lado de fora. Ficam fora do mundo para vê-lo com suas doenças, traições, erros e sofrimento. Nesse sentido, um museu é um palácio de tesouros e de objetos sagrados. De artefatos deslocados no tempo e no espaço ininteligíveis aos olhos comuns.
Tal perspectiva me ajuda a elaborar a morte do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista no qual trabalhei como antropólogo social por cerca de três décadas. 
Ao vê-lo ser impiedosamente lambido pelas chamas, pensei nos meus mentores – Luis de Castro Faria, Roberto Cardoso de Oliveira e David Maybury-Lewis – responsáveis pela transformação do Setor de Antropologia num dinâmico Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, que é hoje uma referência mundial. 
O que sentiriam esses fundadores ao ver a catástrofe anunciada pelo total descaso de múltiplos governos, partidos, posicionamentos e hipocrisias tão nacionais e tão isentas ao perigo de incêndio? O que diriam eles que, seja como pesquisadores, professores e administradores como, aliás, foi o meu caso, jamais perderam o rumo da honestidade intelectual para privilegiar suas preferências ideológicas e partidárias? Essa malvada dialética do ser isso ou aquilo vai suicidando o Brasil. 
*
Em todas as minhas pesquisas entre os jê-timbira gaviões e apinajés, encontrei quem me tomasse por um disfarçado espertalhão que se apresentava como etnólogo, mas que, de fato, buscava pedras preciosas, ouro ou urânio naquele mato tomado dos índios e destruído para dar lucro. Para muitos, estudar índios era não apenas uma utilidade dos imbecis, mas uma malandragem inteligente para enricar. Até hoje ouço que pesquisar para compreender e não para tomar partido, é uma mitificação. É triste constatar que não temos neste Brasil, cada vez mais castrado por si mesmo, lugar para o professor, para o estudioso, para o investigador que sabe que não sabe e trabalha na esperança de acrescentar mais um pouco ao saber humano, mesmo seguro de que será inevitavelmente superado e esquecido. 
O Museu Nacional não foi uma vítima somente do descaso. O descaso é o resultado da mais absoluta ausência em nosso horizonte cultural do lugar do professor. O descaso é irmão da nossa aliança com a ignorância, o oportunismo e a esperteza. Ele é filho dileto do abandono dos governos e de governantes orgulhosos de nunca terem lido um livro, mas que se concedem o direito de falar de tudo, sobretudo do que não entendem. Ele é fruto de uma cultura aristocrática, autoritária e beletrista que se compraz nos folguedos de poesia e pensa que contar casos é sabedoria. Um museu que morre por falta de apoio oficial é o que se colhe quando se elegem governantes ignorantes e burros, doutores narcisistas que pensam que entendem de tudo, quando não são meros ladrões patológicos dos bens coletivos. Dessa ópera trágica nacional na qual o papel de professor é nulo, nasce a indiferença muda que testemunha o assassinato dos museus. Fizemos estádios e reformamos o Maracanã ali ao lado do Museu Nacional, que nem sequer foi visitado por alguma autoridade. O Brasil é recordista em incêndios de museus ao lado de ser um fenômeno no que tange ao roubo do povo em seu próprio nome!
Um país no qual a luta pelo poder não tem limites acaba destruindo ideais, valores e a mais chã moralidade. Estudar, investigar e compreender para sondar o escuro e o terror que se esconde em cada um dos nossos corações é algo sem valor. Aí está, sem dúvida, o fósforo que toca fogo nos museus. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Definição - Luis Fernando Verissimo

Como distinguir quem é de esquerda de quem é de direita? Pelas suas opiniões, claro. Pelo que dizem. Mas como distinguir um direitista silencioso de um esquerdista lacônico, sem sinais aparentes que os definam? Os da direita sugerem um método prático de identificar esquerdistas. Deve-se procurar um rabo escondido dentro das suas calças e dois chifres camuflados na sua cabeça. O problema com esse método é que ele é exatamente igual ao proposto pelos da esquerda para identificar um direitista. Acaba-se sem saber se o demônio é dos nossos ou dos deles.
A classificação do que é “de direita” e do que é “de esquerda” complica-se ainda mais porque às vezes até os xingamentos trocados entre eles são os mesmos. “Fascista!”, por exemplo, serve para os dois lados. Outros xingamentos pecam pela falta de clareza. “Comunista!”, dependendo de quem acusa, engloba várias graduações de esquerda, da social-democracia ao stalinismo, “reacionário!” inclui de conservadores respeitáveis ao Bolsonaro. Na dificuldade de se chegar à diferença entre esquerda e direita pela divisão política e pela imprecisão semântica do confronto entre os mutuamente demonizados, busca-se uma definição, qualquer definição, em outras áreas.
Estive lendo sobre a Comuna de Paris, os dois meses da primavera de 1871 (Segundo Império, de Luís Napoleão, sobrinho coxinha do Napoleão de verdade), quando trabalhadores botaram a correr o rei e a nobreza e ocuparam e capital da França na esperança de que a revolta se espalhasse pelo resto do país. Depois dos dois meses, as tropas leais ao rei, que tinham fugido para Versailles, retomaram Paris e massacraram os “communards”, mas os dois inebriantes meses da esquerda no poder ficaram como uma espécie de ensaio para conquistas republicanas que viriam.
Mas fiquei sabendo que as agruras da ocupação e da defesa da comuna não impediram os “communards” de aproveitar as chamadas coisas boas da vida, presumivelmente saqueando as caves e despensas da nobreza. E a preferência era por vinhos da Borgonha, considerados “de esquerda”, em contraste com os vinhos de Bordeaux, “de direita” porque vinha de uma região notoriamente reacionária.
Borgonha de esquerda, Bordeaux de direita... A divisão pode se estender a qualquer tipo de gosto ou costume. Mineral sem gás de direita, com gás de esquerda. Carne bem passada de direita, mal passada de esquerda. Mocassim sem meias de direita, havaiana de esquerda.

Os amigos - Luis Fernando Verissimo

Dona Vitória morreu, e a família se reuniu no seu velório. Filhos, filhas, noras, genros, netos e netas. Só a família já lotava a capela, mas não pararam de chegar parentes próximos e afastados, amigos e amigas de dona Vitória – e um tipo estranho, um homem grande, quase um gigante, de barba comprida e negra, carregando um saco nas costas.
Todos se entreolharam. Quem seria aquela figura assustadora? O monstro ficou parado por algum tempo ao lado do caixão aberto, fitando o rosto de dona Vitória. Depois, foi postar-se num canto da capela, indiferente ao burburinho que sua presença causara. E visivelmente emocionado.
– Deve ser um conhecido da mamãe.
Mas onde dona Vitória teria conhecido um tipo daqueles? Ela quase não saía de casa. Talvez fosse alguém que conhecera na juventude. Ninguém sabia muita coisa da juventude de dona Vitória. Pela aparência, o homem era da mesma idade dela. Mas permanecia o mistério: como dona Vitória conhecera uma figura assim?
O filho mais velho de dona Vitória aproximou-se do homem e perguntou:
– O senhor é... – O Bicho-Papão – rugiu o velho. – O quê?
– O Bicho-Papão. A Vitória nunca falou em mim?
E o filho mais velho se lembrou que muitas vezes a mãe ameaçara chamar o Bicho-Papão para levar as crianças desobedientes no seu saco. E o Bicho-Papão existia! E era amigo da dona Vitória!
O filho mais velho só não fez mais perguntas ao Bicho-Papão porque acabara de entrar uma figura ainda mais repelente no velório. Um velho, também. Este mastigava alguma coisa, fazendo muito barulho, e a saliva lhe escorria pelos cantos da boca.
– Já sei – disse o filho. – Você é o Come-Feio. – O senhor já me conhecia?
– De ouvir falar. Mas recebíamos as suas lembranças.
“O Come-Feio mandou lembranças” era um dos refrões usados pela dona Vitória para chamar a atenção de quem comesse fazendo barulho na mesa ou falasse com a boca cheia. Quem poderia imaginar que o Come-Feio – e as suas lembranças – fosse de verdade? O Come-Feio também foi olhar o rosto da dona Vitória e também chorou. Mas era difícil distinguir o que era lágrima e o que era saliva escorrendo no seu rosto.
E chegaram um homem e uma mulher que também foram olhar dona Vitória no caixão e depois se identificaram: – Somos os netos do Neves. – O Neves?
– Dona Vitória foi grande amiga do vovô. Quando ele morreu, ela foi ao enterro dele, por isto achamos que deveríamos vir ao enterro dela.
E o filho da dona Vitória se lembrou do que sua mãe dizia sempre: “Até aí, morreu o Neves...”. O Neves também existia! Ou existira.
A família concordou que era preciso saberem mais sobre a juventude de dona Vitória.

domingo, 2 de setembro de 2018

Irritantes calmas - Ricardo Araújo Pereira

Luiza Pannunzio/Folhapress

Uma vez, uma pessoa estava transtornadíssima. Tinha passado por um acontecimento traumático e ficara nervosa, enfurecida, desesperada. Mas nessa altura apareceu alguém que disse: "Tenha calma".
E então a pessoa caiu em si e anunciou: "Você tem razão. Vou, de fato, ter calma. É um excelente conselho. Constato agora que tinha optado, erradamente, por uma disposição do quadrante emocional da tensão e da raiva, quando o mais ajuizado é ter calma. Muito obrigado". E depois a pessoa foi à sua vida, descontraída e respirando fundo.
O episódio anterior é, evidentemente, fantasioso. Nunca aconteceu. Jamais, em toda a história da humanidade, alguém se acalmou por lhe recomendarem que tivesse calma.
Isso não impede as pessoas de continuarem a apelar à calma. O fato de um conselho ser completamente inútil não desencoraja ninguém de o oferecer. A recomendação costuma ter, aliás, o efeito contrário. Sugerir a uma pessoa que se acalme, curiosamente, não tem um efeito calmante.
Vou proceder à elaboração de uma exaustiva lista de razões por causa das quais apelar à calma irrita, para ilustração definitiva de todos.
1. Estar calmo não depende da nossa vontade. É bastante raro, creio eu, a gente experimentar voluntariamente emoções. "Vou agora pôr-me nervoso", por exemplo, ou "nos próximos cinco minutos vou dedicar-me a sentir ternura" são projetos que não costumam ser levados a cabo. Com razão.
2. A pessoa que recomenda calma julga estar a ser sensata —e, no entanto, como já vimos, está a propor um absurdo. Ela pensa que nós não sabemos que a calma é superior ao pânico, e que está a dar-nos uma novidade. O fato de não lhe batermos revela que temos mais calma do que ela pensa, o que gera uma vontade ainda maior de a agredir.
3. É fácil propor calma quando não se está de cabeça perdida. Uma experiência interessante seria esmurrar essa pessoa bem no nariz e dizer imediatamente: "Ei, que cara é essa? Calma. Entendeu agora, burro?"
4. Há cartazes muito populares de apelo à calma que circulam na internet. "Keep calm and faça não sei quê", dizem. Ora —e isso é uma lei universal—, nenhum conselho digno de ser seguido é formulado num meme.
Sei bem que listas podem ser bastante irritantes, e esta não foge à regra. Tendo isso em consideração, apelo à calma de todos.

É guerra! - Luis Fernando Verissimo

Pombas brancas são símbolos de paz, revoadas de pombas dão um toque de alegria a qualquer acontecimento, pombas catando comida sob os pés de turistas, sem medo de serem pisoteadas, representam a harmonia possível entre gente e bichos. Quem não gosta de pombas? Mas as pombas, como todos nós, perdão, defecam. E não escolhem lugar para fazer seu cocô, além de produzir sons desagradáveis e serem, notoriamente, portadoras de doenças. 
Minha mulher declarou guerra às pombas que sujam o quintal da nossa casa. Seguiu os conselhos de vários especialistas em pombas, todos sem a menor ideia de como banir pombas de um jardim, mas especialistas. Chegou-se a pensar em colocar um espantalho na cerejeira, e já discutíamos de quem seria a cara no espantalho para ter maior efeito – a do Gilmar Mendes estava ganhando – quando a sugestão foi abandonada. Daria muito trabalho, e ninguém tinha mais condições para subir em cerejeira.
Outra ideia: foguetes. A intervalos durante o dia, minha mulher lançaria um foguete que explodiria sobre o quintal, espantando as pombas que não morressem de susto. Com o tempo a existência de uma maluca fogueteira se espalharia entre as pombas, que deixariam de frequentar nosso espaço aéreo e sujar nossa cabeça, para sempre. Mas aí surgiu um problema: como explicar para os vizinhos, sem provocar uma ocorrência policial, foguetes explodindo durando todo o dia, todos os dias, sobre suas casas? Também não tínhamos condições de sair no tapa com a vizinhança.
Então a Lucia leu que um inimigo natural das pombas era a coruja. Sim, a velha ave estrigiforme das famílias dos titonídeos e estrigídeos (viva o Google), historicamente um símbolo de sabedoria e ponderação, mas que, talvez para contrabalançar sua natureza filosófica, come insetos e ratos e tem especial predileção por pombas. Comprar uma coruja de verdade só traria, para o quintal, cocô novo. O que fazer? 
Lucia comprou um vaso do tamanho natural de uma coruja e colocou num canteiro, para ver a reação das pombas. Ontem, havia duas pombas pousadas na cabeça da falsa coruja. A expressão na cara da coruja era de grave reprovação moral. A esperança da Lucia, agora, é que, com o tempo, sob o olhar de censura da coruja, as pombas desenvolvam um sentimento de culpa e desapareçam. 

Egoísmo - Ruth Manus

Estávamos indo à padaria quando vimos a mulher sentada no chão. Negra, jovem, obesa, com sua mochila, mãos no rosto. Ficamos angustiados, mas, na nossa pressa, seguimos reto. Na volta ela estava sentada em outra esquina. Seu rosto era só angústia, Filipe foi perguntar se ela precisava de algo.
Ela nos perguntou o caminho para Loures. Começamos a explicar como se ia de metrô. Ela disse que, não, que era a pé. Dissemos que eram quase 20 km. Ela começou a chorar e perguntou se tínhamos água. Mais de 30 graus, ela toda de preto. Filipe foi comprar uma garrafa. Me sentei no chão ao lado dela.
Seu nome era Ana, 24 anos. Filha de uma angolana e um ganês, cresceu na Inglaterra. Mãe de dois filhos, de 2 e 6 anos, mostrou a foto no fundo de tela de um celular velho. Não tem emprego. Vive num quarto de pensão. O dinheiro acabou e o marido, pedreiro, só volta da obra em Caldas da Rainha na terça. 
Não tinha para onde ir com as crianças. Disse que já chegou a dormir com elas uma vez na rua e que assistentes sociais levaram as crianças para um abrigo. Foi seu pior pesadelo. Só poderia pegá-los quando comprovasse que tinha emprego e casa. Tinha pavor de passar por isso de novo. Conseguiu deixar as crianças com uma vizinha para ir até Loures pedir dinheiro a uma amiga. Não tinha dinheiro pro metrô. Pedi que ela ficasse com os 5 euros que eu tinha no bolso. Ela não queria. Eu insisti. Filipe perguntou quanto ela precisava pra poder ficar na pensão até a volta do marido: 25 euros. Ela ia a pé até Loures tentar conseguir 25 euros. Tiramos mais 20 euros do bolso, ela colocou a mão no rosto, chorava, dizia que não podia aceitar. Insistimos. Ela disse que nos pagaria quando conseguisse um emprego.
Depois de uma meia hora conversando, os três no chão, pedimos para que ela fosse caminhando conosco. Trocamos um abraço demorado. No caminho, uma senhora brasileira nos para e pergunta se ela aceita uma ajuda e tira 40 euros da carteira. Ana desata num choro envergonhado, pede o telefone dela para pagar a ela depois. Ela diz que não precisa. A mulher também abraça Ana com calma. 
Seguimos caminhando. Ana pergunta se o segurança do shopping a deixaria entrar pra usar o banheiro. Digo: “Ana, você tem 65 euros, ninguém tem que deixar nada, você é uma cliente. Entre e vá”. Ela nos agradece mais uma vez e chora. Diz que hoje vai poder comprar sopa pras crianças. 
Voltamos pra casa em silêncio. Nada no nosso dia faz mais muito sentido. Chegamos e fizemos o que deveria ter sido feito há muito tempo: roupas, sapatos, brinquedos, malas, tudo. Tanta coisa que sobra, que não faria falta, que pode fazer falta, mas ser mais bem aproveitada por outras pessoas. Enchemos 5 sacolas grandes. Vamos procurar a Ana. Ou outras Anas – o que mais tem nesse mundo é Ana. É mãe que não come pra dar comida pros filhos. Mãe desesperada. Gente procurando emprego. Gente que vai andar 20 km pra tentar que os filhos não durmam na rua.
A real é que a gente é muito merdinha. Nossas bolsas de marca, nossos pares de sapato excedentes, nossos jantares fora, nossos filhos com seus brinquedos intermináveis. Nossos probleminhas ridículos que transformamos em grandes. Nosso jeito de caminhar na rua, sem olhar pra Ana nenhuma. Desconfiados, apressados, egoístas. Deve ser doida, deve querer dinheiro pra droga, por que não tá trabalhando? Por que teve filhos?
A verdadeira miséria está na gente, que fica mais cega e mais anestesiada a cada dia que passa, gastando em brunch o que poderia evitar a fome da família toda por uma semana. Dizendo que não sabe como ajudar, que não há instituições confiáveis. A gente escolhe todo dia, quando acorda, ser egoísta e dormir em paz. Sei lá, eu não quero mais ser assim não. Amanhã é segunda-feira. Talvez dê pra repensar umas coisas.

sábado, 1 de setembro de 2018

Você, modo de usar - Martha Medeiros




Quando caminho pelas ruas da cidade, ou mesmo quando circulo de carro, reparo em pequenos pontos comerciais em reforma e penso: tomara que seja uma livraria, tomara que seja uma papelaria, tomara que seja uma galeria de arte, tomara que seja um bistrô, tomara que seja uma floricultura. Vou acompanhando a obra com expectativa, até que um dia os tapumes são retirados e, lógico: é mais uma farmácia.

Os laboratórios movimentam fortunas e estimulam o consumo de medicamentos de forma impulsiva e muitas vezes desnecessária. Remédio não é sorvete, não é banana, não é pãozinho. Mas o povo se acostumou a ingerir goela abaixo o que é sugerido sem receita e sem critério, e a indústria farmacêutica prospera.

Conversava outro dia com uma amiga endocrinologista e falávamos justamente sobre como tantas doenças poderiam ser prevenidas através da simples mudança de hábitos. Ninguém nega a importância de uma campanha de prevenção contra o uso do drogas, por exemplo, mas há um número ainda maior de pessoas se viciando em gordura, evitando legumes, se entupindo de refrigerante, não investindo em produtos orgânicos, abusando do sal, do açúcar e das frituras.

Esse é só um exemplo de como a falta de qualidade de vida pode adoecer e até matar. A causa de óbitos geralmente é infarto, câncer, infecção generalizada, falência múltipla de órgãos, mas algumas dessas doenças tendem a iniciar décadas antes, por meio de uma rotina de muito stress, ansiedade, angústia emocional e neuroses não tratadas. Negativismo, raiva, frustração, nada disso colabora com nosso metabolismo.

É aí que pequenas atitudes podem fazer diferença, como praticar atividades físicas, buscar recursos para relaxamento (ioga, meditação, massagem), cultivar amigos, dormir bastante, usar filtro solar, cuidar da postura, beber muita água, controlar o peso, não fumar, não beber em excesso, fazer check-ups periódicos - e não se drogar, lógico. Os médicos têm batido nessa tecla com insistência, mas ainda há quem considere esse blá-blá-blá improdutivo ou politicamente correto demais.

Tem nada a ver com politicamente correto, e sim com inteligência. E inteligência não se vende em frascos.

Farmácias comercializam produtos de primeira necessidade. Sem elas, não teríamos acesso a medicamentos fundamentais para nossa saúde mental e física, devidamente prescritos, mas precisamos de tantos? Creio que teríamos uma sociedade bem mais saudável se a população contasse com muito mais pontos de venda de livros, sucos, flores, livros, discos, bicicletas, livros, frutas, bolas de futebol, raquetes de frescobol, instrumentos musicais, gravuras, livros, livros e, claro, livros.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...