domingo, 4 de fevereiro de 2018

A indignação enfurece as vísceras e nos embriaga como se fosse droga - Jorge Coli

cantores de ópera
Cenas do ensaio da ópera "Bodas de Fígaro", em 2014 - Marlene Bergamo - 17.nov.2014/Folhapress


Não faz muito tempo, fui assistir a uma ópera. Era "As Bodas de Fígaro", de Mozart. Lá para o final, o personagem mais importante, Fígaro, faz um retrato cruel das mulheres. Diz: "Abram um pouco os olhos, homens incautos e bobos. Olhem essas mulheres, olhem o que elas são".
Segue enumerando: "São bruxas que enfeitiçam para nos deixar sofrendo, sereias que cantam para nos afogar... São rosas espinhosas, raposas maliciosas, mestras de engano e de angústias, que fingem e mentem, que amor não sentem, não sentem piedade". Conclui: "O resto do que são capazes não digo: cada um já sabe". E Mozart, com seu humor malicioso, faz então soarem as trompas: o nome do instrumento em italiano é "corno".
No século 18, quando "As Bodas de Fígaro" foi composta, a sala toda ficava iluminada. Não se deixava o público no escuro, como hoje. Os cantores podiam então interpelar diretamente a assistência. Na montagem que vi, o diretor de cena teve a ideia de acender as luzes da sala durante a ária de Fígaro, que saiu do palco e dirigiu-se aos homens presentes.
Eu estava na extremidade da fileira, ao lado do corredor por onde ele passava. Logo atrás de mim, na segunda fila, uma senhora furiosa levantou-se. Fez o sinal de "não" nas fuças do pobre cantor e retirou-se protestando em voz alta. De início, pensei que fosse parte do espetáculo —hoje em dia, com as montagens modernas, tudo é possível. Mas não, era uma feminista embravecida.
Pensei que ela poderia ter prestado mais atenção. O tema nuclear de "As Bodas de Fígaro" é atual: trata-se de desmascarar, denunciar e punir um poderoso aristocrata que é violento predador sexual.
A peça da qual a ópera foi extraída é de um francês, Beaumarchais. Pareceu subversiva e foi proibida. Nela, a velha Marcelina proclama, de maneira eloquente, a tirania masculina.
Diz, entre outras coisas: "Mesmo na sociedade mais elevada, as mulheres obtêm dos homens apenas uma consideração irrisória... Somos mantidas numa real submissão, tratadas como menores de idade no que se refere aos nossos bens, mas como maiores quando devemos ser punidas". Mozart excluiu esse trecho para evitar a censura, mas, ainda assim, fez uma clara acusação antimachista.
Aquela senhora furiosa não deu tempo para a conclusão da ópera, não viu a condenação do conde brutal e revoltou-se antes do tempo. Tal suscetibilidade, irritada pela situação inferior em que, do modo mais injusto, as mulheres são mantidas em nossas sociedades, é compreensível. Levou-a a partir antes que as acusações de Fígaro contra o gênero feminino fossem desmentidas. Indignou-se cedo demais.
Indignação: eis o problema. Nunca tive simpatia por essa palavra. Pressupõe cólera e desprezo. Quando estamos sozinhos, a indignação nos embriaga como se fosse uma droga. Arrebata a alma, enfurece as vísceras, dilata os pulmões e nos faz acreditar na veemência do nosso ódio. Viramos heróis justiceiros diante de nós mesmos.
A solidão indignada faz grandes discursos interiores contra aquilo que erigimos como inimigo. Serve para dar boa consciência. É autossatisfatória. Um prazer solitário. Exaltados, arquitetamos vinganças e reparações. Depois, o balão murcha, sobrando apenas nossa miserável impotência. Talvez tenha sido Stendhal o escritor que melhor caracterizou esses estados irritados, ineficazes e inócuos.
Ao se manifestar na presença de outra pessoa, ou de duas, ou num pequeno grupo, a indignação leva ao descontrole. Nervosos, falamos alto e dizemos coisas que, na calma, jamais pronunciaríamos.
Quando um de seus heróis se deixa levar pelos discursos coléricos, Homero faz alguém sempre repreender: "Que palavras ultrapassaram a barreira de teus dentes!". Porque não somos mais nós que falamos, mas algo que está em nós e que ocupou nosso corpo esvaziado de qualquer poder reflexivo: a indignação. Assim também ocorre com os jorros furibundos de palavras que inundam as redes sociais.
A multidão indignada é, por sua vez, uma catástrofe. Tomada por um furacão de pulsões, ela atropela, esmaga, lincha.
A indignação trava as forças racionais. Alimentada pelas paixões, usa uma aparência de razão como fole para soprar nas brasas. Está claro, aceita só argumentos que servem a reforçar e ampliar seu domínio. É feita de radicalismos.
Assim, anula todas as complexidades e nuanças, bloqueia qualquer compreensão que não seja inteira e simplificada. Anula também o outro, como ser humano, se ele não compartilhar de nossa própria indignação.

'Tanta Gente, Mariana' - Ruth Manus

Lembro-me que quando vim morar em Portugal, dentre as muitas promessas que me fiz, me prometi que conheceria melhor a literatura portuguesa, indo além dos clássicos que li para o vestibular e dos livros mais populares que chegam às livrarias brasileiras. Foi uma das poucas promessas que cumpri na vida. Graças a essa decisão, tive a sorte de me apaixonar por Maria Judite de Carvalho, escritora lisboeta que morreu quanto eu tinha 10 anos, mas que eu só soube que existia aos meus 26.
Tanta Gente, Mariana foi uma das histórias mais tristes e mais sensíveis que já li. Uma mulher que sabe que vai morrer em poucos meses e começa a tentar entender como chegou até ali. Mas me lembro de ter ficado genuinamente incomodada com a parte do livro em que entendemos o título da obra. O momento em que o pai diz à filha: “Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode”. 
Suspirei quando li o trecho e discordei profundamente do que o homem estava dizendo à filha que chorava na cama. Tinha certeza de que só acaba sozinho quem tem muito azar ou quem erra muito ao longo do caminho. Depois daquilo nunca parei de pensar nessa frase e acho que agora, aos poucos, começo lentamente a entender a passagem do livro.
Essa história de me aproximar dos 30 anos me trouxe, além da maldita azia e de uma dificuldade maior para perder peso, a noção de que, independentemente do quão cercados de amor estejamos e de quantas pessoas se importem verdadeiramente conosco, a verdade é que a vida, no fundo, é uma jornada muito solitária pelo fato de sermos os únicos responsáveis pelas nossas decisões. Pelas boas e pelas ruins. 
Por melhores que sejam nossos pais, irmãos, cônjuges, familiares e amigos, a consciência de que somos indivíduos – exatamente no sentido da palavra “individual” – é uma angústia que não nos abandona nunca. Podemos pertencer aos melhores grupos, ter o maior dos amparos, mas sabemos que somos sempre indivíduos.
Como meu chefe me disse uma vez, citando o cineasta Orson Welles: “Nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos, morremos sozinhos. Apenas através dos nossos amores e das nossas amizades é que podemos criar a ilusão momentânea de que não estamos sós”. E não é verdade?
E cada dúvida – o pedido no cardápio, atravessar ou não atravessar com o farol aberto, escrever ou não escrever certas palavras, fazer ou não um testamento, pedir ou não pedir demissão, o acerto do relacionamento, da cor do cabelo, da peça de roupa, as pequenas decisões do dia a dia e as grandes decisões da vida toda – faz com que nos lembremos, sutilmente, que estamos, de fato, sozinhos, mesmo que estejamos maravilhosamente acompanhados.
Hoje, acho que começo a entender o que o pai da Mariana queria dizer para aquela filha tão triste. O mundo tem tanta gente (mesmo que gente boa, amada e presente), tanta gente, Mariana, e a verdade é que nós estamos sempre sozinhos (na nossa individualidade, na nossa liberdade e nas nossas decisões) e que, no fundo, realmente ninguém pode fazer nada por nós. Pelo menos não as coisas que realmente importam. Essas são sempre nossas.
É uma verdade muito simples e muito incômoda, que, por vezes, passamos uma vida inteira a evitar – sobretudo essa minha geração mimada –, culpando os outros, o cosmo, Deus e o Diabo pelos nossos escorregões, quando, sejamos honestos, a culpa quase sempre é toda nossa e de mais ninguém.
Obrigada pela clareza, Maria Judite de Carvalho. Foi o pai da Mariana quem disse, mas foi você quem escreveu. E, cá entre nós, se você não tivesse escrito eu provavelmente ainda estaria aqui acreditando que todos os meus erros não são nada além de um belo encadeado de azares, sabotagens e maldições. Melhor assim.

Nossa Senhora dos Destoantes - Luis Fernando Verissimo


A pequena Capela de Nossa Senhora do Rosário do Padre Faria é uma das tantas joias arquitetônicas de Ouro Preto. O exterior despojado não prepara o visitante para a opulência barroca do interior. O campanário fica afastado do corpo da igreja, como a “casinha” numa morada sem banheiro, e nada tem de imponente. Os sinos da Capela de Padre Faria badalam em concerto com os outros sinos da região, cantando as horas e os eventos, e não soam nem melhor nem pior do que os outros. Mas os sinos da Capela do Padre Faria têm uma história diferente dos outros. 
*
Quando Tiradentes foi enforcado e esquartejado no Rio de Janeiro todos os outros sinos celebraram a notícia. Afinal, tratava-se da execução de um traidor, de um inimigo da sociedade. Os sinos de Ouro Preto festejaram o castigo exemplar de um réprobo e o triunfo da legalidade sobre a rebeldia. Mesmo que o toque festivo não tivesse sido recomendado pela Coroa, a celebração se justificaria. Mas os sinos da Capela do Padre Faria dobraram Finados. Pela primeira e única vez na história, talvez, os sinos da Capela do Padre Faria destoaram do concerto. Tocaram, sozinhos, uma batida fúnebre pelo martírio de Tiradentes.

Não conheço bem a história e não sei o que motivou as badaladas subversivas. Um pedido de secretos simpatizantes da Inconfidência? Apenas uma manifestação de piedade cristã? Um sineiro bêbado? Não sei. Minha tese preferida é que alguém responsável pelos sinos teve um vislumbre histórico. Teve a presciência que ninguém mais teve e ordenou o toque plangente, em homenagem precoce ao futuro herói e pelo ocaso do poder colonial que seu sacrifício desencadearia. 
*
Nossa Senhora do Rosário serviria como padroeira, não necessariamente de quem consegue adivinhar a História, mas de quem entende o momento que está vivendo ou destoa da maioria, com ou sem razão. Destoantes deveriam ir regularmente em romaria à pequena capela e pedir a bênção dessa Nossa Senhora do Contexto Maior, para melhor poder enfrentara a maioria que badala o que não tem importância e o fato errado e menospreza qualquer batida diferente. 
Os outros sineiros de Ouro Preto não tinham como saber que estavam festejando a morte de um herói. Faltava-lhes a perspectiva histórica para entender o momento e só cumpriram o que se esperava deles. Estão perdoados. Mas que nos sirvam de lição.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O GRANDE NADADOR - Franz Kafka tradução: Marcelo Backes

                                                 Ilustração de Alexandre Teles


"O grande nadador! O grande nadador!", exclamavam as pessoas. Eu vinha das olimpíadas em X, onde havia conquistado um recorde mundial em natação. Estava nas escadarias abertas da estação ferroviária de minha cidade natal —onde é mesmo que ela fica?— e lançava os olhos para a multidão indistinta à luz do crepúsculo. Uma moça, cuja face acariciei fugidiamente, pendurou com agilidade um cachecol em torno de mim, no qual estava escrito em língua estrangeira: "O campeão olímpico." Um automóvel apareceu, alguns senhores me empurraram para dentro, dois deles também entraram, o prefeito e mais alguém. Logo estávamos no salão de festas, nas galerias ao alto um coro cantava e, quando entrei, todos os convidados, eram centenas, levantaram-se e gritaram no mesmo ritmo uma sentença que não consegui compreender ao certo. À minha esquerda, estava sentado um ministro, e não sei porque a palavra me assustou tanto no momento da apresentação, eu o medi selvagemente com meus olhares, mas logo me contive, à direita, estava a mulher do prefeito, uma senhora opulenta, tudo nela, sobretudo à altura dos seios, parecia-me cheio de rosas e penas de pavão. À minha frente, estava sentado um homem gordo de rosto chamativamente branco, não consegui ouvir seu nome na apresentação, ele tinha os cotovelos fincados sobre a mesa —haviam arranjado um lugar especialmente amplo para ele—, estava de cabeça baixa e em silêncio, à direita e à esquerda dele se encontravam duas belas meninas louras, bem divertidas, que não cessavam de ter algo a contar e eu olhava de uma para a outra. Mais adiante, apesar da generosa iluminação, eu não conseguia reconhecer os convidados com nitidez, talvez porque tudo estivesse em movimento, os criados corriam por aí, as comidas eram servidas, os copos, levantados, talvez tudo, inclusive, estivesse iluminado demais. Também havia uma certa desordem —a única, aliás— que consistia no fato de alguns convidados, sobretudo senhoras, estarem sentados de costas para a mesa e de tal modo que não o encosto da cadeira se postasse entre eles, mas as costas quase tocassem a mesa. Eu chamei a atenção das meninas à minha frente para o fato, mas como elas se mantinham tão dispostas a conversar, dessa vez nada disseram, e sim apenas sorriram para mim com longos olhares. A um sinal de sineta —os criados ficaram imóveis entre as fileiras de assentos—, o gordo à minha frente se levantou e fez um discurso. Por que será que o homem estava tão triste?! Durante o discurso, ele tocava o rosto de leve com o lenço, isso até seria tolerável e, inclusive, compreensível, tendo em vista sua gordura, o calor no salão, o esforço do discurso, mas eu percebi com nitidez que tudo aquilo era apenas astúcia disposta a esconder o fato de ele estar secando as lágrimas de seus olhos. Depois de ele ter concluído, naturalmente me levantei e também fiz um discurso. Senti, por assim dizer, a necessidade de falar, pois algumas coisas me pareceram exigir, aqui e provavelmente também alhures, uma explicação pública e aberta, por isso principiei:
"Prezados convidados! Sou dono, há que se admitir, de um recorde mundial, mas se os senhores me perguntassem como foi que o alcancei eu não saberia responder de modo satisfatório. Na verdade, nem sequer sei nadar. Desde sempre quis aprender, mas não consegui encontrar oportunidade para tanto. Mas como foi então que fui mandado por minha pátria às olimpíadas? Esta é justamente a questão que também me ocupa. Primeiramente, sou obrigado a constatar que não estou, aqui, em minha pátria, e, apesar de fazer muito esforço, não consigo compreender uma só palavra daquilo que está sendo dito. A coisa mais óbvia seria acreditar em um engano, mas não há engano, eu bati o recorde, voltei a meu país, meu nome é aquele que os senhores chamam, até este ponto está tudo certo, mas daí em diante nada mais está certo, eu não estou em meu país, não conheço e não compreendo os senhores. Mas, agora, ainda uma coisa que se contrapõe, mesmo que não de modo exato, à possibilidade de um engano: não me incomoda muito o fato de eu não compreender os senhores e aos senhores também parece não incomodar muito o fato de não me compreenderem. Do discurso do prezado senhor que me antecedeu, acredito saber apenas que foi inconsolavelmente triste, mas esse saber não apenas me basta, como já me é demasiado, inclusive. E o mesmo sucede com todas as conversas que tive desde que cheguei aqui. Mas voltemos para o meu recorde mundial...".

O homem-mulher - Sergio Sant'Anna

Marcelo Comparini


O nome dele era Adamastor Magalhães, mas ele preferia ser chamado de Fred Wilson, que era o nome que usava no grupo amador de teatro em que era ator, em Belém do Pará, cidade onde nascera e vivia. Para simplificar, as pessoas passaram a chamá-lo de Fred. Pode-se dizer que tudo começou, externamente, quando ele fez o papel de Claire, em "As Criadas", de Jean Genet, em que, naturalmente, usava uma roupa feminina. E foi com o figurino de Claire que, num Carnaval, ele saiu num bloco de sujos. Mas é de se supor que, morando numa família com mais duas irmãs, tenha experimentado escondidamente vestidos.
E também é provável que, estando na adolescência, tenha sentido um verdadeiro frisson com o ventinho nas pernas e uma calcinha envolvendo o seu pau, quando experimentou uma roupa da irmã pela primeira vez. Ele sentiu esse corpo feminino em si ou contra o seu corpo. Teve de ajudar-se com a mão para gozar, mas a marca ficou indelével: homem e mulher num corpo só, que sente prazer.
Talvez se Adamastor tivesse o pai vivo, pudesse levar uma tremenda bronca ou até uma surra ao ser flagrado usando um vestido. Mas não tinha mais esse pai, e talvez o caso de Fred não se deva explicar pela psicologia: é a sua história, um modo de ser.
Marcelo Comparini
Depois, havia esse lance mais livre dos blocos de Carnaval, e isso era mais do que comum em todas as cidades brasileiras, homens vestidos de mulher, caricaturalmente ou não, em grupos, blocos ou até sozinhos, e não havia quem os chamasse de veados por causa disso. Divertiam-se para valer, Adamastor e seus amigos.
Mas uma experiência verdadeiramente significativa se deu numa segunda-feira de Carnaval em que Adamastor, de vestido, agora da irmã, pois suara no figurino, e uma garota fantasiada de odalisca se enrabicharam, entrando num bloco de mãos dadas, relando aqui e ali e trocando beijos furtivos, procurando não ser vistos pelos pais da garota, de 16 anos (ele tinha 25), que eram turistas de Goiânia, gente severa, tanto é que às 22 horas levaram a mocinha para casa.
Na terça-feira gorda, última noite dela na cidade, Adamastor voltou a sair de Claire, pois a roupa fora lavada e passada, comprou de um amigo um quarto de um frasco de lança-perfume e ele e a menina resolveram escapulir de toda a vigilância. Às 20 horas foram seguindo um bloco, comportadinhos, até que passaram por uma rua mal iluminada, transversal à avenida em que o bloco desfilava, que ia dar no cemitério menor da cidade. Aí começaram a correr para conseguirem chegar a um lugar ermo e poderem cheirar o éter em paz. Mas, ao passarem em frente ao cemitério, viram que havia um portão entreaberto, e Adamastor puxou pela mão a garota, Dalva, e logo já estavam lá dentro, junto ao muro que cercava os túmulos, a capela e o resto todo.
Medo só um pouquinho, de encontrarem alguém que tivera a mesma ideia ou gente de algum velório. Mas não encontraram ninguém, nem o vigia, que devia estar misturado aos foliões, mesmo que fosse só para assistir. Porém, mais do que depressa, se esconderam à entrada de um túmulo grande, desses de família rica. Ofegavam, e a garota, safadinha, pegou a mão direita dele e encostou no seio esquerdo dela. "Olha como o meu coração está batendo." Adamastor aproveitou a deixa e abriu dois botões na blusa da fantasia dela, afastou o sutiã e lançou ali um jato de éter. Ela se contraiu toda e disse: "Que geladinho", mas ele já estava aspirando entre os seios de Dalva e depois chupou um dos mamilos dela. Com o éter, Adamastor sentiu um zunido nos ouvidos, e o mundo era aquela alucinação cheia de túmulos, estátuas e cruzes, tudo muito nítido e com sombras, porque era noite de lua cheia, e aquela garota vivinha da silva.
"Agora é a sua vez", ele disse e levantou a sua saia de Claire e, com a mão esquerda, encharcou a calcinha de lança-perfume. Puxando a cabeça da menina para baixo, fez com que ela se ajoelhasse aos seus pés e disse:
"Cheira a minha calcinha o mais forte que conseguir."
Dalva ficou doida demais, o mundo rodopiava, e ela vendo a lua, os túmulos e os vaga-lumes e ouvindo o barulho dos grilos, ao mesmo tempo que tinha um certo medo de estar perto dos mortos. Mas nem teve tempo direito de sentir esse medo, pois Adamastor baixava a calcinha que estava usando e enfiou o pau muito duro na boca da garota e falou: "Chupa maciozinho", e a menina fez direitinho, por pura intuição, porque era a primeira vez e, ainda doidona, excitadíssima com um pau aparecendo sob um vestido e uma calcinha, engoliu a porra e gostou, porque vinha dele e era, assim, um pecado imenso no cemitério.
Não restava muito do lança. Adamastor olhou ao redor e puxou Dalva pelo braço até um túmulo branquinho e cheio de flores, com uma estátua que parecia vestida com roupa de santa, mártir, muito bonita. Dalva acomodou-se na estátua, que era inclinada, e ele levantou a saia dela, que já estava sem calcinha, depois tirou a sua e foi lambendo a xoxota da menina, e depois cheirou éter só na barriga de Dalva, para não arder na boceta, e Dalva continuava doidaça, apesar de o efeito do lança-
perfume já ter quase passado, mas ser lambida na boceta era melhor ainda e ele, Adamastor, o danadinho, quando chegou ao clitóris de Dalva, só roçava com a ponta da língua, como as putas lhe haviam ensinado.
Adamastor jogou lança de novo nas duas calcinhas fora dos corpos, mantendo a dele no rosto de Dalva, e ele tinha o controle de tudo e, tendo cheirado mais na calcinha dela, levantou o vestido da garota e entrou com tudo em Dalva, que gritou de dor, mas abafada pela calcinha que ele pressionava contra o seu rosto. Enquanto isso, lá embaixo, saía o sangue de virgem. Ela não chegou a gozar, por causa da dor, mas estava preenchida e exaltada. E ele, apesar de já ter gozado uma vez, gozou outra, e depois caiu para o lado, juntinho de Dalva sobre a santa, as respirações voltando ao normal. Em silêncio, eles ouviam o barulho dos grilos e do piar de corujas e viam os vaga-lumes e até as estrelas, e ouviam a banda tocando músicas de Carnaval, lá para os lados da praça: "Quanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão, o arlequim está chorando pelo amor da colombina, no meio da multidão...".
Adamastor tentou esguichar mais um pouco de éter na barriga de Dalva, para depois cheirar ali, quando viu que o frasco de lança-perfume estava completamente vazio.
"É melhor a gente ir indo", disse Dalva, se recompondo. "Meus pais devem estar me procurando; eu vou na frente, você vai depois."
"Espera aí, vem cá só um minutinho", Adamastor a puxou pelo braço, também já se recompondo com o vestido de Claire. Iam limpando as roupas como podiam e chegaram, conduzidos por ele, até um canto do cemitério, onde havia um pequeno trecho de terra solta e duas pás, com toda a certeza para cavar uma nova sepultura.
"Essa aí está aguardando um novo morador", ele fez ela rir.
Como as calcinhas tinham sangue, eles não as vestiram; Adamastor, com uma das pás, abriu facilmente um buraco, jogou sua calcinha lá dentro e falou para Dalva imitá-lo, o que ela fez sem hesitação.
Adamastor então jogou o frasco dourado de lança-perfume, que brilhou à luz da lua. Ele abençoou com a mão direita aquele conjunto, pegou a pá e jogou terra por cima e depois fez o sinal da cruz.
Dalva, rindo, segurou o braço dele e disse:
"Eu te amo, Fred."
"Eu também te amo, Dalva", e Adamastor beijou fundo e longamente a boca de Dalva e foi ardentemente correspondido.
"Mas eu te amo é para sempre", disse Dalva.
"Eu também, queridinha."
Primeiro saiu ela, depois saiu ele. E nunca mais se viram.

Nua na enxurrada em plena Augusta - Ignácio de Loyola Brandão

Meio-dia em ponto, final do ano. Dia quente, mulheres se protegendo com sombrinhas. Saí do banco sob um belo sol. Estiada entre duas chuvaradas. Ouvi vozes autoritárias, irritadas: 
“Meu Deus, onde chegamos?”.
“O mundo acabou! Não há mais vergonha neste país.”
“Só faltava essa! Não tem polícia p’ra levar essa mulher?”
“Cadeia, só cadeia.”
“Cadela, vadia, ofendendo a todo mundo desse jeito, merece uma surra.”
Ainda ofuscado pela luz do sol, a princípio, pensei que fosse alguma manifestação contra a ministra do Trabalho não empossada. Então, vi. Nada disso. Uma mulher, parda (ou que expressão devo usar para não incorrer na sanha das redes?), tinha levantado a saia até a cintura. Sem calcinha sentou-se numa corredeira que, junto ao meio-fio, saía de algum prédio e formava uma boa enxurrada de água límpida. Com as mãos, ela jogava água pelo corpo, lavava suas “partes” (como dizem os moralistas), sorria. Feliz. Molhava o rosto e deixava a água escorrer, o vestido todo molhado. Atravessei a rua ao lado de um senhor alto, que me disse se chamar Altério, nome curioso. A mulher nos olhou, sorrimos para ela, que fez um aceno breve, deitou-se inteira na enxurrada, a água respingou. Ela:
“Vocês não me xingaram”.
“Não e até se a gente pudesse entraria nessa água também. Está quente p’ra danar.”
“Estava melada e suada, Deus me trouxe esta água. Geladinha que dá gosto. Precisava disto.”
Altério teve uma ideia:
“Fique aí, compro um sabonete, venho já, já!”.
Tinha uma drogaria a 50 metros. Não foi mão de vaca, trouxe um belo sabonete. A mulher recebeu o presente encantada, olhos faiscando, como se fosse uma joia da Francisca Botelho. Abriu, passou no rosto:
“Melhorou. Fiquei cheirosona. As pessoas se afastam quando passo. Culpa minha? Tanto tempo que não usava sabonete”.
Transeuntes (perdoem tal palavra) passavam indignados:
“Não tem vergonha? O que pensa?”.
“Chama logo a polícia, tem uma delegacia aqui do lado.”
Tem mesmo, na Rua Estados Unidos, e alguém se propôs a correr até lá, mas Altério, duas mulheres que se colocaram ao nosso lado, um jovem com barba e tatuagem e eu seguramos o sujeito:
“Tem coragem de chamar a polícia para prender uma coitada que toma banho? Que tenta ficar limpa no meio da miséria do mundo dela”.
“Que tome banho em casa.”
“Acha que ela tem casa?”
“Vagabunda, com essa indecência.”
“É louca, vamos dar uma surra.”
“Imagine isso numa rua chique como a Augusta.”
Tive vontade de interromper:
“Já foi, minha senhora, já foi! Agora é pura decadência, estacionamento por toda parte, lojas e bancos fechados, muquifos”.
Desisti. Adiantava fazer discurso nessa hora? Juntava mais gente, Altério e eu ajudamos a mulher a se levantar, ela baixou o vestido, ficou a nos olhar. Demos apoio: “Não ligue para essa gente, não! Educação, afeto, ajuda, tudo isso acabou”.
“Acha que escuto? O que ouço toda hora, a vida inteira? Cago pra eles. Senão ficaria louca. Ao menos tomei meu banho, ganhei um sabonete.”
E se foi, molhada, pingando, a cabeça arguida, refrescada e nos parecendo feliz. Alguns ainda a seguiram humilhando. 

Celebrar baleias falantes é ignorância - Mariliz Pereira Jorge



Pode parece fofo e inofensivo uma baleia orca no noticiário mostrando como aprendeu a dizer “hello”. Vi colegas jornalistas festejando o feito, pessoas compartilhando reportagens e vídeos, infelizmente.
Não se trata de maldade, apenas falta de informação. Eu mesma num passado, um tanto distante, me diverti muito ao ver orcas e golfinhos dando piruetas num desses parques aquáticos espalhados ao redor do mundo, sem me dar conta de que passam a vida confinados em tanques de água, sendo treinados para fazer acrobacias para o deleite da plateia, que ignora o que existe por trás de tanta desenvoltura e interação .
Mas é impossível desprezar a triste realidade desses mamíferos depois que dois documentários mostraram sem nenhum tipo de romantização o que acontece com os animais que ou são capturados em condições brutais ou nascem em cativeiro, o que parece ser situação tão ruim quanto.
Os pesquisadores que conseguiram o feito de arrancar cinco sons similares a palavras humanas de duas orcas deram justificativas diversas para o “estudo”, talvez já prevendo críticas. De como isso pode contribuir para entender a capacidade de comunicação das orcas, dando a entender que o fato é essencial para a preservação da espécie. Sei. Outra desculpa é as baleias cativas já nasceram confinadas e não conseguiriam se adaptar à vida selvagem. E por isso podem ser submetidas a um intensivão de inglês?
Será que todo dinheiro investido nessas pesquisas tão reveladoras não poderia ser usado para monitorar a adaptação das orcas no mar?
Longe de ser ecochata, mas parece cada vez mais claro que não faz o menor sentido que animais sejam submetidos a qualquer tipo de “treinamento” e muitas vezes a condições degradantes, apenas para nosso entretenimento.
Com exceção dos santuários criados para salvar animais vítimas de maus tratos, de tráfico, resgatados de zoológicos, qual a necessidade de trancafiar qualquer tipo de espécie em jaulas ou tanques de água? Isso vale para rinhas de galo, brigas de cães, corridas de cavalo, touradas e vaquejadas. Essas últimas continuam rolando soltas depois da aprovação de uma emenda parlamentar que contraria a decisão do Supremo Tribunal Federal de proibi-las em todo país.
Já me posicionei contra as vaquejadas mais de uma vez. Numa delas, um senador favorável a essa aberração chegou a me ligar e disse que sua região era carente de shopping centers e que a população não poderia ser privada desse “lazer”. Percebe-se o nível dos nossos parlamentares.
No final do ano, durante um mergulho dei de cara com um tubarão. Foi certamente uma das experiências mais inesquecíveis da vida. Mas depois disso, voltei para casa e ele continuou lá na dele. É inegável que a vida animal exerce um fascínio enorme e que muita gente quer ter contato com esse universo. Imagino que safaris de observação na África devam ser muito enriquecedores, mas qual a graça em ver um leão dentro de um cercadinho recebendo carne três vezes ao dia como se fosse fast-food?
Nadar com golfinhos deve ser mágico, mas depois de assistir ao documentário The Cove, vencedor do Oscar em 2010, a ideia parece inconcebível. O filme mostra como os animais são capturados na costa japonesa, selecionados para serem vendidos a parques do mundo todo. Os golfinhos são encurralados numa enseada, escolhidos como se estivessem numa vitrine e o restante é sacrificado, deixando um mar de sangue no local.
Vale ressaltar que uma das pessoas por trás desse doc é Rick O’Berry, um dos maiores treinadores de golfinhos do mundo, responsável pelos animais da série Flipper. O’Berry é, hoje, um dos grandes defensores da libertação dos golfinhos e autor de várias denúncias sobre os maus tratos físicos e psicológicos aos quais os animais são impostos.
E, finalmente, Blackfish, que mostrou a triste história da baleia Tilikun, estrela do Sea World. A orca, capturada na Islândia, matou três pessoas, incluindo a sua treinadora durante uma apresentação, em frente a uma plateia lotada. O documentário fala do estresse dos animais por causa dos treinamentos, dos tanques apertados, além de maus tratos. Há inúmeros casos abafados de ataques de orcas dentro dos cativeiros.
Talvez elas tenham que aprender a dizer “nos deixem em paz”, porque parece que treinadores e pesquisadores, além de parte do público, não entendeu o recado.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...