domingo, 7 de janeiro de 2018

Outros cisnes - Luis Fernando Verissimo


"O amor às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes"

– O que é isso?
– Paulo Mendes Campos.
– Paulo Mendes Campos?!
– Estou relendo. Eu nunca mais tinha lido esta crônica. O Amor Acaba. Uma vez nós lemos juntos, você se lembra?
– Não.
– Faz tempo. 
– Você e eu lendo uma crônica juntos é difícil de acreditar.
– Eu sei. Não fazemos mais nada juntos. Mas eu, pelo menos, me lembro.
– Só você, mesmo, pra desenterrar esse livro velho.
– Foi você que me deu.
– Eu?! 
– Olha a dedicatória. “Com amor eterno.”
– Meu Deus. “Amor eterno”?!
– Uma coisa que existia antigamente.
– Ih, lá vem drama...
– “Diante dos mesmos cisnes...” O que seriam os cisnes, no nosso caso? Que eu me lembre, começamos a namorar numa reunião dançante e eu pedi você em casamento numa fila de cinema. Não havia nenhum cisne por perto.
– Aposto que você se lembra até do filme.
– Era, era...
– Eu não acredito. Você vive no passado. Na outra noite, foi o único do grupo que se lembrava de toda a letra de Marcianita.
– Sabe o que o Ernesto me contou? Olha que história triste. Ninguém entendia por que ele e a Vanda nunca tinham se separado. Não podia ser para manter as aparências. Todo mundo sabia que o casamento deles era um fracasso, nem um nem outro escondia isso. Os filhos já tinham saído de casa, já eram adultos, a separação não os afetaria. Os amigos do casal não se surpreenderiam com um divórcio, era óbvio que o amor entre eles tinha acabado havia muito tempo. Era até bom que se separassem, para nos poupar dos constantes bate-bocas na nossa frente. Você mesmo dizia que não entendia como eles ainda se aturavam, vivendo na mesma casa e se odiando daquele jeito. A gente até especulava: uns achavam que era ela que não dava o divórcio, para infernizar a vida dele, outros achavam que era o contrário. Finalmente se separaram, e ontem o Ernesto me contou por que tinha demorado tanto, e o que o levou a concordar com o divórcio. Foi uma descoberta que ele fez.
– Que descoberta?
– Uma coisa banal. Uma coisa que existe há anos, mas ele não sabia.
– O quê?
– O cortador de unha. Entende? Durante anos, mesmo se odiando, a Vanda cortava as unhas dele com tesourinha. Ele precisava dela para cortar as unhas da sua mão direita e dos pés. Ela talvez usasse a tesourinha como um símbolo do seu domínio sobre ele. Por isso, escondera a existência do cortador de unha, com o qual ele poderia cortar suas próprias unhas, inclusive as da mão direita e as dos pés, e que a tornaria obsoleta. A tesourinha era a última coisa que os unia. Não é uma história triste?
– Não, é uma história ridícula.
– Acho que foi por isso que eu procurei essa crônica do Paulo Mendes Campos. O amor acaba com o tempo. O amor acaba com o esquecimento. O amor acaba como começou, mesmo que seja diante de outros cisnes. E o amor também acaba entre dois cliques de um cortador de unhas.
– Literatice. 
– Olha o fim da crônica: “Em todos os lugares o amor acaba, a qualquer hora o amor acaba, por qualquer motivo o amor acaba, para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba”.
– Me poupe. 

Bem rápido e bem devagar - Antonio Prata

Adams Carvalho/Folhapress


Teoria da Relatividade é daqueles assuntos com os quais todo mundo finge alguma familiaridade, mas quase ninguém sabe patavinas a respeito. O tempo é relativo. Bonito. Mas o que isso significa, no frigir dos ovos? Que se você frigir os ovos com enxaqueca vai parecer que demora dez horas e se frigir com a cabeça zerada e assoviando "Vai, Malandra" parecerão dez segundos? (Aliás, alguém "frige" ovos fora da expressão "no frigir dos ovos"? Não. No frigir dos ovos, fritamos os ovos).
Na PUC eu tinha um professor de Sociologia I muito picareta; toda vez que ele era questionado por alguma contradição, vestia uma expressão de infinita profundidade e, feito um Nietzsche da Monte Alegre, crente de estar derrubando a marteladas as muralhas do senso comum, mandava: "Tudo é relativo". Pausa dramática. "Albert Einstein."
Sem pretensão de pontificar sobre física e sabendo dos riscos de cair na cova rasa da relatividade-ostentação, confesso que, nos últimos anos, tenho percebido algumas peculiaridades na passagem do tempo. Como explicar? Sinto que o tempo tem passado muito rápido e muito devagar -ao mesmo tempo.
Pense no 7x1. Parece que foi ontem que levamos aquela saraivada, que o David Luiz corria em círculos como o Louco do Mauricio de Sousa, que você voltava de um xixi perguntando "É replay?" e te respondiam, "Não, é gol, o terceiro desde que você foi fazer xixi." Eu diria que o 7x1 foi no ano retrasado, no máximo, mas já se passaram quase quatro anos e em junho tem Copa de novo -por favor, dessa vez evite a qualquer custo fazer xixi.
Agora pense nas manifestações de 2013, iniciadas apenas um ano antes da Copa de 2014. Parece que passou uma década desde que ouvimos "Não é só pelos 20 centavos!", que a PM reprimiu um punhado de barbudinhos na Consolação como se fossem os visigodos derrubando o Império Romano, que a direita e a esquerda se viram batendo boca na Paulista e os "Sem partido!" venceram os "Fascistas, golpistas, não passarão!", que os grupos de WhatsApp das famílias se tornaram o Vietnã.
É como se 2013 tivesse vindo até 2018 de charrete e 2014 de carro, pela faixa de ônibus, num domingo. O percurso de 2013 pra cá é tão lento que mesmo o impeachment, em 2016, parece ter sido há mais tempo do que a Copa de 2014. (Bem, se pensarmos nos discursos dos deputados, parece que foi em 1912).
A imagem do carro e da charrete é ruim. Penso agora num manco cuja perna direita dê passos curtinhos (é a perna 7x1) e a esquerda percorra um grande arco horizontal até chegar lá na frente (é a perna 2013). A perna do 7x1 anda só alguns centímetros cujos marcos na régua são a derrota pra Alemanha, a demissão do Felipão, o fiasco do Dunga, o sucesso do Tite.
Já a perna de 2013 percorre quilômetros da nossa história nacional e pessoal. Eleição, Dilma, Aécio, Joaquim Levy, Mercadante, Cunha, Lava Jato, "vice decorativo", "tem que estancar a sangria", impeachment, "pedofilia", "tem que manter isso aí", bate-bocas no FB, bate-bocas no grupo de WhatsApp da família, "tio Marcão saiu do grupo", "convida o tio Marcão de volta, pessoal!". "Vai pra Cuba!". "Globo fascista!". "Globo comunista!".
Estranho caminhar deste quinquênio, uma perna escrevendo uma quadrinha e a outra "Guerra e Paz". Como é possível? Expressão de infinita profundidade: "Tudo é relativo". Pausa dramática. "Albert Einstein."

A verdade sobre o amarelo - Paulo Germano

Toda vez que alguém aparece de amarelo, toca o telefone na RBS TV. Atende um jornalista.
– Pois não? – Hoje foi no Globo Esporte, aquela apresentadora. Já disse que não pode. – Perdão, senhor, não pode o quê?
– Já falei mil vezes, já liguei para aí mil vezes: eu sou o dono do amarelo! O amarelo é meu, e ninguém me pediu autorização para usar o amarelo!
– Como assim, senhor? – Como assim o quê? Escute aqui: eu inventei o amarelo, sou o dono do amarelo, e nenhuma pessoa tem o direito de usar o amarelo sem minha permissão!
– Mas, senhor, o figurino é definido conforme as cores do cenário e da...
– NÃO ME INTERESSA!!! Você gostaria que pegassem uma coisa sua e enfiassem na TV sem consultá-lo? – Não, mas...
– Gostaria que pegassem uma porcaria de uma câmera, fossem a sua casa e filmassem suas gavetas, seus armários, seus pertences e botassem tudo no ar, ganhando dinheiro com o que é seu, ganhando audiência com o que é seu, sem nunca informar às pessoas que aquilo de fato é seu? Você gostaria disso? Responda, gostaria disso?
– Não, senhor, claro que não. – Então avise esses picaretas, avise essa moça do Globo Esporte, avise todos que o amarelo é meu! É meu, entendeu? O amarelo é meu!
– Só um pouquinho, pera lá. O amarelo é mais do que isso, é como um patrimônio da humanidade.
– Eu sei, obrigado, mas é revoltante atravessar tantos anos sem esse reconhecimento. Por isso, vou processá-los.
– Mas, meu amigo, então o senhor deveria processar o Van Gogh. Ele usava muito o amarelo.
– Só que o Van Gogh sempre me agradeceu.
– Quê? – Jamais escondeu de ninguém quem era o dono do amarelo. Tanto que, quando assinei o Contrato de Cessão de Direitos sobre o Amarelo, ele fez questão de pendurá-lo na parede do ateliê.
– Alô? – Vou levar sua reclamação à instância responsável, senhor.
– Não é uma reclamação, é uma exigência. Uma exigência do dono do amarelo!
Tudo isso é real: articulado e ligeiro no raciocínio, esse homem acredita mesmo ser o proprietário da cor dos girassóis e da camisa da Seleção. Ele sofre por isso, vive para isso – e não há quem possa demovê-lo de sua certeza. É como os donos da verdade.
São tão iludidos e intransigentes como o dono do amarelo. Nunca houve tantos por aí, vociferando dogmas imutáveis, elegendo esquerda ou direita como remédios únicos, rugindo contra qualquer divergência, convictos de que uma só verdade dá conta do mundo.
Seria lindo se todos convivessem com o vermelho e com o azul. Porque nem só de amarelo é feita a vida. E porque a verdade – como o amarelo – não é propriedade de ninguém.

O super-herói que procuramos - Paulo Germano

Havia cueca por cima da calça, uma capa imponente, máscara preta e cinto de utilidades. Elementos indispensáveis para um super-herói de respeito. Ele fitou satisfeito o caderninho, onde recém terminara de desenhar o próprio uniforme, depois se aproximou da janela do quarto e olhou para fora: a lua cheia derramava um brilho suave sobre as palmeiras da Osvaldo Aranha. Sorveu um gole de ar e disse, para si mesmo:
– Me aguarde, Bom Fim. Me aguarde!
Poucos dias depois, Capitão Bonfa estava nas ruas. Foi um caso real, surpreendeu Porto Alegre entre 2012 e 2013. Durante alguns meses, um rapaz de 20 e poucos anos cuja identidade ninguém conhecia saiu a socorrer necessitados da Redenção à Independência. Ajudava senhoras a atravessar avenidas, resgatava animais perdidos, carregava sacolas, alertava para o cocô do cachorro, dava atenção a quem quisesse.
Arauto da gentileza, paladino da cortesia (inventei agora esses epítetos), Capitão Bonfa distribuía apitos a moradores e comerciantes durante as suas rondas diárias. Havia um código: bastavam três assobiadas para que o super-herói aparecesse esvoaçando sua capa azul. Uma tarde qualquer, após ouvir o chamado, encontrou um homem ajoelhado em uma garagem, com dois baldes d’água no chão.
– Me ajuda a lavar o carro? – Meu senhor... – sorriu Capitão Bonfa para o abusado. – Há profissionais mais qualificados para esse serviço.
Sua missão era estimular boas práticas, o convívio saudável em sociedade. Nas poucas entrevistas que deu, ressaltou que seu sonho era ver novos super-heróis surgirem em outros bairros da Capital. Como jornalista, alimentei a expectativa de noticiar o Super-Floresta, o Doutor Centro, a Guerreira do Cristal, o Homem Moinho, a Feiticeira da Azenha, quem sabe até as Três Figueiras Fantásticas e a Incrível Aliança Auxiliadora.
Seria encantador, seria inspirador, imagine uma espécie de Liga da Camaradagem, uma corrente voluntária de heróis disseminando valores que, embora tão simples, hoje parecem perder espaço para uma intolerância galopante, para uma hostilidade preocupante, imagine o sopro de esperança, imagine o afago nessa sociedade abrutalhada, mas nada disso deu certo, houve um problema, e o problema foi uma facada no peito de Capitão Bonfa.
Soube disso no ano passado.
No Facebook, onde ele mantinha um perfil com nome falso – porque a rede social não aceitava o seu codinome –, Bonfa me disse que passou dias no hospital após ter sido “atingido por um marginal”. Mas ele sempre jurou que jamais enfrentaria bandidos, que reconhecia a limitação dos seus poderes, que sabia o seu papel.
– Tive que tirar o pé da rua. Pretendo, sim, voltar um dia – escreveu o herói inativo e, desde lá, não respondeu mais, parou de atualizar seu perfil, nunca mais visualizou minhas mensagens.
Não conheci Capitão Bonfa de perto, portanto jamais poderia especular sobre o que houve de fato. O que sei, apenas, é que a gentileza perdeu de novo. Se ainda dá tempo de desejar alguma coisa para este ano, quero algo concreto: quero um movimento, quero um super-herói, quero um líder lutando contra a estupidez nauseante que avança sobre a política, sobre as redes sociais, sobre o convívio entre as pessoas. Prometo aderir à luta, mas tornou-se necessária uma ideia concreta para vencer essa intolerância.
Uma ideia que parta de alguém que, com uma dose de idealismo, também sonhe com a Liga da Camaradagem.

A VIDA COMO ELA YEAH - ADÃO ITURRUSGARAI

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A salsicha da morte - David Coimbra



Saiu uma pesquisa científica que diz que cada salsicha comida equivale a 15 minutos de vida perdidos. Não sei como ainda estou vivo. Sou descendente de alemães, povo apreciador de embutidos. Já comi muita salsicha gentilmente introduzida no meio do pão do cachorro-quente ou picadinha, no molho de um macarrão que faço e que meu amigo Admar Barreto adora, e mesmo a salsicha solitária, temperada com mostarda e regada a cerveja preta, como se fazia com a robusta Bock dos ótimos restaurantes germânicos que quase não existem mais em Porto Alegre.

Vigoram, na Alemanha, 1,5 mil tipos diferentes de salsicha. Quando soube dessa informação, pensei: vou descobrir qual é a campeã. A melhor de todas. Comeria uma salsicha por dia e anotaria criteriosamente suas qualidades e defeitos. Ao cabo de quatro anos e pouco, teria a vencedora. Escreveria o relatório e publicaria primeiro em ZH, depois pela L&PM. Seria um trabalho para ilustrar e iluminar as gerações de comedores de salsicha.

Só que, mais ou menos na mesma época, andava encantado com as Ilhas Maldivas. Via fotos e filmes desse paraíso na Terra. Como o país é formado por 1,2 mil ilhas, planejei reunir os dois projetos: conheceria uma ilha Maldiva por dia e, neste mesmo dia, comeria um tipo de salsicha alemã. Passaria quase três anos e meio na empreitada. Mas, como sobrariam 300 salsichas, decidi experimentá-las com queijos franceses, porque há 246 variedades deles. O general De Gaulle, inclusive, certo dia se queixou dos queijos, indagando:

- Como se pode governar um país que tem 246 tipos diferentes de queijo?

Um problema, de fato.

Mas o maior problema seria finalizar o meu projeto de reunir queijos, salsichas e ilhas, já que ainda faltariam pelo menos 50 salsichas alemãs sem nada para acompanhar, nem ilha Maldiva, nem queijo francês. Foi aí que decidi que acrescentaria à tarefa os pratos com bacalhau que são feitos em Portugal, que, dizem, são 365, um para cada dia do ano, inclusive os feriados.

A questão é que sobrariam 315 pratos com bacalhau absolutamente desacompanhados, o que é inadmissível, e eu teria de fazer uma reengenharia no meu programa. O que combinar com o bacalhau? Lembrei que, nos Estados Unidos, há 2,6 mil tipos diferentes de séries de TV. Assim, daria conta dos 315 pratos com bacalhau restantes e ainda teria praticamente 2,3 mil séries para assistir junto com as 1,5 mil salsichas, os 246 queijos e as 1,2 mil ilhas Maldivas.

Todas essas ponderações matemáticas, televisivas, gastronômicas e geográficas estavam me afligindo, até que, ao ler a tal pesquisa científica, concluí que não teria todo esse tempo para fazer tudo isso se continuasse comendo salsichas. Foi Otto von Bismarck, o Chanceler de Ferro, quem um dia disse, de capacete pontudo na cabeça e dedo apontando para o firmamento:

- Se as pessoas soubessem como são feitas as salsichas e as leis, não dormiriam tranquilas.

Agora está provado que tinha razão, o velho Otto. Não comerei mais salsichas. Mas ainda preciso combinar as séries com as ilhas, os queijos e os pratos de bacalhau. A conta não fecha. Por que a vida tem de ser tão complicada?


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O único homem honesto que eu conheci – Fabricio Carpinejar

Meu avô sempre dizia que honesto era o seu pai. Para qualquer situação. Quando ouvia as notícias do rádio de manhã na cozinha, no almoço, quando aprontava alguma malandragem e me passava o pito, quando colocava o seu calção e seu chinelo para o entardecer de chimarrão, antes de me dar boa-noite e, de novo, no bom-dia.

Eu confabulava com os meus botões: o que será que ele fez com descomunal excelência e honradez, para ser um exemplo perfeito e recorrente? Chegava a ser chata a evocação, mas não podia menosprezar o amor da sentença, havia uma homenagem a um caráter de exceção, um reverência a um padrão de vida e de clareza. Quisera que os meus filhos pensassem o mesmo de mim no futuro.

- Meu pai é que era honesto. O único homem honesto que conheci.

Já imaginava o seu pai como um super-herói de Guaporé, de sunga por cima do collant, meias coloridas e capa esvoaçante, prendendo assaltantes de banco, ajudando velhinhas a subir no ônibus, desmoralizando os políticos na Câmara de Vereadores, criticando a indolência dos mendigos nos bancos de pedra da praça, devolvendo o troco dos caixas aos aposentados. Sua figura tomou boa parte da memória de minha infância. Pretendia atingir o mesmo grau de retidão, prometi a mim mesmo não mentir mais, com exceção da hora de comer rúcula, que eu detestava.

Ele devia nunca ter atrasado uma conta, nunca ter passado ninguém para trás, nunca ter enganado esposa, nunca ter faltado ao trabalho, nunca ter omitido a sua opinião, aposto que pedia desculpas no exato momento de uma falha e não cedia à tentação da soberba. Pois o antônimo da honestidade não é a mentira, mas o orgulho.

Surpreso fiquei quando o meu avô pediu que eu buscasse correspondência na agência de Correios da esquina e me entregou a sua identidade para a retirada do volume. Constava que ele era filho de Honesto Carpi.

Nunca um documento causou tanto estrago em minha personalidade. Demorei a minha adolescência inteira para desfazer a fantasia.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Feminismo de hoje é tão reacionário quanto o machismo neandertal - João Pereira Coutinho

Ângelo Abu/Folhapress



Passei as festividades natalinas lendo Camille Paglia. Não sei se é pecado. Talvez seja. Mas que alegria –e que prazer!– ler uma feminista com atividade cerebral completa, que não se limita a defender a dignidade das mulheres –mas a dos homens também.
O título da sua coletânea de ensaios –"Free Women, Free Men: Sex, Gender, Feminism" (libertem mulheres, libertem homens: sexo, gênero e feminismo)– diz tudo: queremos uma sociedade de mulheres e homens livres –ou uma farsa infantil onde as mulheres são tratadas como espécies protegidas e os homens como selvagens inimputáveis?
O feminismo de Paglia, que provoca horrores mil nas "neofeministas", pode parecer demasiado severo para a sensibilidade histérica dos nossos dias. Mas subscrevo esse feminismo, não apenas por razões intelectuais –mas pessoais.
Cresci entre mulheres. Vivo entre elas. E quando relembro as mulheres da minha vida todas elas parecem encarnar o ideal de Paglia. Independentes. Irônicas. Corajosas. Que, sem surpresas, sempre gostaram de partilhar o espaço com homens adultos, dignos, refinados.
Para Paglia, o novo feminismo abandonou esse imperativo de exigência para que as mulheres sejam "amazonas", ou seja, senhoras da sua liberdade. Transformou as mulheres em seres débeis e vulneráveis, que devem ser constantemente protegidas de um mundo hostil e predatório.
Nota importante: Paglia não nega que o mundo é hostil e predatório. Sempre foi, sempre será. Ela apenas reafirma que as mulheres devem aprender a lidar com isso, não a retirar-se da arena como seres assustadiços.
Infelizmente, a voz de Camille Paglia foi abafada pela cultura da vitimização reinante. A Europa, nesse quesito, é terra devastada.
Leio na imprensa que a virada do ano em Berlim teve, pela primeira vez, uma "zona segura" para as mulheres. Em 2016, centenas foram abusadas por homens de "aparência árabe e norte-africana". Em 2017, houve uma espécie de "resort" para as espécies femininas que se sintam ameaçadas –e com a presença permanente da Cruz Vermelha.
Pode parecer piada. Ou cenário de guerra. Não é. As autoridades do país entenderam que a melhor forma de proteger as senhoras é pela segregação social (como nos países islâmicos). Será preciso elaborar sobre a aberração?
O papel de uma sociedade política civilizada não passa pela separação dos sexos. Passa pela garantia de segurança e ordem para todos. E de punição exemplar para os criminosos, independentemente da etnia, religião ou tara privada.
Será que a única coisa que o feminismo do século 21 tem para oferecer às mulheres é uma jaula? E não será essa oferta um insulto e uma degradação das próprias mulheres?
Mas a Alemanha não é caso isolado. Na Suécia, há uma nova lei a caminho para punir a violação. O premiê Stefan Löfven fala em "reforma histórica" –e eu tremo: relações sexuais, só com "consentimento explícito". Mas de que "consentimento" falamos? Verbal? Gestual? Só vejo uma forma de produzir uma prova de inocência irrefutável: um documento escrito.
Imagino: dois amantes, em momento de excitação. Subitamente, um deles para o andamento da dança e entrega um formulário para ser preenchido e assinado pela donzela arfante.
Dizer que isso é um dramático "turn-off" é um eufemismo. Mas não é um eufemismo declarar que uma lei dessas, mesmo na versão oral ("sim, declaro solenemente que tens a minha autorização para contatos fálico-vaginais"), é uma caricatura grotesca da intimidade entre adultos.
Será que a única coisa que o feminismo do século 21 tem para oferecer às mulheres é um papel e uma lapiseira?
Não tenho filhas. Se tivesse, Camille Paglia seria leitura obrigatória. Só para que elas aprendessem que as mulheres não são vítimas naturais de um mundo que existe para as amedrontar ou violar.
As mulheres devem ser mulheres: livres, independentes, conscientes do seu poder sexual, capazes de avaliar os riscos (e os homens) sem a mão paternalista de outras mulheres (ou de outros homens) que gostam de defender as suas "honras".
"Defender a honra?" Precisamente. O feminismo contemporâneo é tão reacionário como o machismo neandertal: ambos tratam as mulheres com a mesma condescendência. Ambos olham para as mulheres como o "sexo fraco".
É o eterno retorno.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...