quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Aí - Antonio Prata

Peço perdão ao professor Pasquale se invado, aí, a sua seara: sei que meto o bedelho num assunto que ele poderia destrinchar, aí, com muito mais propriedade do que eu, mas não me aguentei. Eu tinha que me manifestar, pois desde a explosão do gerúndio – lá se vão, aí, mais de 10 anos – não aparecia uma moda, aí, tão irritante, aí, como essa do “aí”.
Moro longe, nos cafundós da Granja Viana e sempre que estou, aí, na Raposo Tavares, parado no trânsito ou me movendo, aí, na mesma velocidade que o finado bandeirante devia atingir, aí, a pé, ouço rádio – e as rádios são o celeiro, aí, a estufa, aí, a chocadeira, aí, do “aí”.
Entendo que não deve ser fácil falar ao vivo, aí, pra milhões de pessoas, aí, sobre separatistas na Ucrânia, o novo disco, aí, do Gilberto Gil, o trânsito, aí, na Anhaia Mello. Compreendo que pro sujeito manter, aí, o ritmo, ele às vezes tem que se escorar, aí, numa ou noutra muleta. É como um chiclete que você mastiga, aí, na porta do cinema enquanto espera, aí, uma garota com quem vai sair, aí, pela primeira vez. Mas assim como o ininterrupto sobe e desce da mandíbula pode acabar, aí, irritando a garota, o “aí” também consegue, aí, se sobrepor à informação.
Aí – e aqui eu uso corretamente o “aí”, como advérbio, não como, aí, um soluço fonético – já não consigo mais prestar atenção em nada do que o cara fala: esqueço, aí, as tramoias do Putin, me desinteresso, aí, dos sambas do Gil, ignoro, aí, o caminhão baú que enguiçou na pista da direita da Anhaia Mello – sentido bairro –: só consigo ficar, aí, esperando o momento, aí, que o sujeito soltará, aí, o seu próximo “aí”.
Tenho pensado muito, aí, sobre o “aí” e cheguei à conclusão que ele exerce, aí, duas funções. Por um lado, ele amacia a frase, fazendo, aí, com que a dureza dos dados se acomode, aí, numa almofada de coloquialidade. Por outro lado, paradoxalmente, o “aí” parece dar, aí, mais complexidade à notícia.
Se o repórter fala, aí, que o “O mercado espera um crescimento de 1%, em 2014”, a impressão que temos é que ele teve acesso a um só dado e nos transmitiu. Mas se ele diz, aí, que “O mercado espera um crescimento, aí, de 1%, em 2014”, parece que ele analisou, aí, várias planilhas, viu expectativas de 0,6%, de 0,8%, de 1,3%, de 1,4%, fez seu próprio balanço e chegou à conclusão, aí, de que o crescimento esperado é em torno, aí, de 1%.
É essa falsa profundidade, aí, que me deixa especialmente irritado. Lembra muito o outrora poderoso “No caso”. Teve uma época, aí, em que o brasileiro era incapaz de responder uma pergunta que não começasse, aí, com “No caso”. “Tem Serra Malte?”. “No caso, não”. “A próxima avenida já é a Brasil?”. “No caso, é”. Depois do “No caso” veio, aí, o gerúndio, depois do gerúndio, aí, o “Com certeza” e agora, aí, o “aí”.
Ouso dizer, aí, que o “aí” é mais perigoso do que todos os modismos anteriores, justamente por ser mais discreto. Invisível aos olhos, quase inaudível aos ouvidos, ele se multiplica em nossas bocas como percevejos, aí, numa cama de pensão. Não quero ser alarmista, aí, mas acho que o problema é sério. Ou o Brasil acaba, aí, com o “aí”, ou, no caso, o “aí” vai estar acabando, aí, com o Brasil. Com certeza. Aí.

Blanquette de veau – Luis Fernando Verissimo



– Mmm. Blanquette de veau...
– Gosta?
– É meu prato preferido.
– Eu sei.
– Sou um especialista em blanquettes de veau.
– Eu sei.
– Acho que o teste de um bom cozinheiro, ou de uma boa cozinheira, é a blanquette de veau. E não tenho paciência com quem se mete a fazer blanquettes de veau sem saber como. Certa vez, fechei um restaurante com a minha crítica ao seu blanquette de veau. O dono leu a minha crítica e fechou o restaurante no mesmo dia. Ouvi dizer que ele se suicidou.
– É verdade.
– Um crítico gastronômico precisa ser implacável. Senão os incompetentes – ou, pior, os pretensiosos – tomam conta.
– Espero que o senhor aprove a minha blanquette.
– A senhorita sabe, claro, que eu não deveria estar aqui. Como crítico gastronômico, não posso aceitar convites como o que me fez. Mas não pude resistir.
– Talvez o meu decote o tenha convencido.
– Certamente ajudou.
– Mas coma, coma... Quero ver se o seu paladar é mesmo aguçado como dizem. Minha blanquette tem alguns ingredientes incomuns...
– Mmmm... Vamos ver. Não posso fazer feio. Detecto o vinho branco seco de qualidade, como convém... A vitela e o creme no ponto... Manteiga, farinha, perfeito. E um certo gosto forte de... sal do Himalaia?
– Cinza.
– Cinza?!
– As cinzas do meu pai, que foi cremado depois de se suicidar por causa da sua crítica.
– Cinza. Interessante. Mas há algo mais... Eu diria...Tomilho?
– Não.
– Estragão?
– Veneno.
– Veneno. Claro. Esta não é uma blanquette de veau, é uma vingança.
– Acertou.

– Eu deveria ter desconfiado do decote...


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

QUE O DEUS VENHA


                                                   Barão Vermelho 1986 - Que O Deus Venha




Trecho do livro: Água viva de  Clarice Lispector

"Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que eu não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas sei que terei paz antes da morte e que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei — assim como se come e se vive o gosto da comida."

A partir deste trecho,  Cazuza apenas rearranjou algumas palavras, sem alterar o sentido  e Roberto Frejat, seu parceiro, musicou o trecho. Assim nasceu a  inédita parceria entre Clarice, Cazuza e Frejat, Que o Deus venha.


                                                 Cássia Eller - Clipe "Que o Deus Venha" (1990)




terça-feira, 1 de agosto de 2017

Contar ou não contar ao amigo enganado, eis a questão - João Pereira Coutinho

Angelo Abu/Editoria de Arte/Folha SP



Parece coisa de filme: estar na hora errada, no lugar errado. Ou, para os otimistas, estar na hora certa, no lugar certo. Não sou um otimista.
O dia era promissor: dormi até tarde, fui nadar, almocei com os jornais. E já tinha bilhetes para assistir ao concerto de Woody Allen e sua banda de jazz no Coliseu de Lisboa.
Quando abandonava o restaurante, a namorada de um amigo era beijada por um estranho com intensidade cinematográfica no canto da sala. Instintivamente, pensei que fosse abuso: cavalheiro como sou, avancei para salvar a donzela.
A donzela não precisava ser salva. Eu, sim: quando me viu, desviou o olhar como se não me conhecesse de lado algum e continuou a conversa. Ela sabia que eu sabia que ela sabia, e blá blá blá.
Caminhando pela calçada, repeti a célebre questão do príncipe da Dinamarca: contar ou não contar ao amigo enganado, eis a questão.
Procurei ajuda. Partilhei a revelação com a minha mulher, que logo aconselhou: entre amigos verdadeiros, há conversas verdadeiras. Hipocondríaco que sou, procurei logo uma segunda opinião.
"Não sejas louco", aconselhou-me um amigo em comum. A vida dos outros não é da nossa conta. E a mentira tem pavio curto. "Ele que abra os olhos", eis a sentença implacável.
Como o burro de Buridan, fiquei no meio da ponte. Seria fácil esquecer o assunto se o casal vivesse na China. Azar. Vivemos na mesma cidade e havia um jantar combinado para o sábado seguinte.
Fomos. Ela abriu a porta, cumprimentou-nos e, no meu caso, até perguntou: "Está mais magro ou é impressão minha?".
Eu, com queda para o drama, respondi: "Tenho dormido mal".
Claro que tenho dormido mal. "Não pratica esporte com regularidade", sentenciou o meu amigo, que me apertou os ossos da mão com uma vitalidade obscena. Primeiro pensamento: ela não contou. Segundo pensamento: e agora?.
Vieram as primeiras bebidas. Falei pouco. Eles falaram bastante: as férias em agosto, problemas com os pais dele, um filme qualquer de um diretor qualquer. Eu olhava para ele (com compaixão) e depois para ela (com estupefacção).
Quando nos preparávamos para o jantar, ela fez-me um sinal para falarmos a sós na cozinha. Sorri. Ainda há esperança no mundo?
"Não digas nada", começou a donzela, "mas estive a pensar no presente surpresa para o aniversário dele." O mundo não merece a minha esperança.
O jantar foi tenso. Para mim, não para eles. Estranharam o meu silêncio, pontuado por monossílabos hostis. Ele, para quebrar a modorra, perguntou pelas minhas leituras. "Que tem lido, doutorzinho?"
Com voz áspera, o doutorzinho respondeu: "Os clássicos". E acrescentou, no mesmo tom: "'Anna Kariênina', 'Madame Bovary', 'O Amante de Lady Chatterley'...". Depois, olhei para ela: "Vocês sabem do que estou a falar".
Sabiam e concordaram. "Os clássicos não envelhecem", disse ele, em lamentável clichê. "É como a infidelidade", disse eu. "Exatamente", disse ela, rindo.
Depois do jantar, houve um momento em que fiquei a sós com ele. A oportunidade surgiu com um comentário ("passa-se alguma coisa contigo?"), mas logo desapareceu com a minha covardia ("cansaço, só cansaço."). A conversa ficou por ali.
Regressei para casa com uma fúria sufocada. "Esquece o assunto", aconselhou-me a patroa. Esqueci.
Mentira, claro. Nessa mesma noite, escrevi um e-mail com as entranhas: que a amizade era importante para mim; que a honestidade também; que a minha consciência era uma "puta exigente" e outros melodramas de folhetim. Contei-lhe a verdade.
Recebi silêncio como resposta. Respeitei. Passou quase um mês. Voltei a dormir como um anjo.
Ontem, o dia era promissor: acordei tarde, fui nadar, mudei de restaurante. Quando me sentei à mesa, o sangue parou e congelou: o maldito casal pagava a conta à minha frente.
Levantei-me, aproximei-me e desabafei: "Ainda bem que acabou a farsa, Patrícia".
Ela olhou para mim –primeiro com espanto, depois com um sorriso caridoso– e respondeu com uma pergunta: "O senhor não estaria me confundindo com a minha irmã?".

Os mortos de sobrecasaca - Antonio Prata

Adams Carvalho/Folhapress

O que primeiro me impressiona, mexendo nas fotos, é quão pouco o sítio mudou ao longo de um século. A fachada da casa em Correas, Petrópolis, é idêntica desde 1914. Chegamos à mesma porta de madeira pelos mesmos seis degraus de tijolos aparentes, cimentados ali no início da Primeira Guerra.

A estátua, apesar de ter perdido uns dedos para a chuva ácida e outras intempéries, segue no meio do gramado, circundado pelo caminho de saibro branco. Os bancos do jardim, com os caramanchões de madeira por onde se embrenham os jasmins, estão intactos. Logo em seguida, o que me impressiona é nenhuma das pessoas que povoam os retratos existir mais.

Vejo meu avô com três ou quatro anos, sorrindo de dentro de um carrinho de latão, e não consigo evitar um assombro algo infantil, um susto de índio diante da pólvora. É uma situação tão prosaica, tão corriqueira e real que fecho os olhos e posso ouvir o ruído das rodas sobre o saibro branco –é o carro do Miguel, meu tio, chegando de São Paulo para ajudar na arrumação.

A cena, capturada em 1932, surge entre outras do fundo de uma gaveta, enquanto esvaziamos o escritório –deixaremos o quarto por último. Meu avô sorri, exultante. O céu é tão limpo quanto o de hoje, céu de inverno no campo. Como hoje, ao fundo, as pedras da Alcobaça e da Alcobacinha refletem o sol. Os cheiros do jardim deviam ser iguais, também: a grama molhada, o jasmim do caramanchão, a fumaça do fogão à lenha saindo pela chaminé.

O cenário permaneceu idêntico, mas meu avô, evidentemente, não –e me parece injusto que eu conheça todo o futuro que o garoto, preso para sempre naquele carrinho, ignora: vai se casar, se formar engenheiro, projetar locomotivas, ter sete filhos e dez netos que, dali a oitenta e cinco anos, esvaziarão suas gavetas e o bisbilhotarão brincando no jardim.

Numa outra foto, anterior à do meu avô, é Carnaval. Década de 20. Minha avó, que ainda nem era nascida, tenta identificar os presentes. A jovem odalisca é a tia Elvira. O pirata com a espada na boca: será o tio Mauro? A morena de olhos claros, vestido rodado, ninguém sabe quem é.

Quase escrevo que ela tem "o olhar triste das moças de antigamente", mas sou resgatado do anacronismo pela foto seguinte: quatro mulheres riem enquanto dois homens de terno branco, taças em punho, beijam as bochechas da estátua. Minha avó reconhece os homens. O da esquerda era um tal Humboldt, dono do sítio vizinho, fez fortuna com café, depois sumiu no meio de uma viagem de navio à Europa. Parece que saltou no mar. O outro homem era primo da tia Iaiá, fazia todos rirem imitando os parentes, contraiu tuberculose, curou-se, ninguém lembra que fim levou.

Aos poucos, esvaziando as gavetas, vai se formando entre mim e aquelas pessoas uma insuspeita cumplicidade. Não conheço ninguém ali, exceto meu avô. Estamos separados por quase um século, mas dividimos o mesmo espaço: piso no chão em que eles pisavam, sinto os cheiros que sentiam, vejo o sol refletido na Alcobaça e na Alcobacinha, sob o mesmo céu.


Volto pra morena de olhos claros, esquecida em seu Carnaval de 1920, e sinto uma espécie de déjà vu ao contrário: súbito, sou eu preso naqueles retratos, nas mãos de um homem que ainda está para nascer. "Esse de óculos, olhando umas fotografias, alguém sabe quem é?"

Sequência - Fabrício Corsaletti



na tarde anterior
ela dispôs as fotos
da família na mesinha
de centro
de noite encheu a cara
no balcão de um bar e
levou para casa o sujeito
a quem pediu carona
comeu duas torradas
com manteiga e açúcar
no café da manhã
olhando fixamente para fora
na banheira o cigarro
diminuía enquanto a sua
compreensão do desastre
aumentava
agora toca Bach
e ela abre as duas
folhas da janela
para deixar entrar
a vida você pensa
ao ver a luz
invadir a sala

então ela salta

O tomate – Luis Fernando Verissimo



Cristóvão Colombo examinou o tomate que o indígena acabava de lhe dar e exclamou:
– Um pomo d’oro!
O tomate reluzindo ao sol da América recém-descoberta pareceu ao almirante uma maçã selvagem. Colombo perguntou ao indígena para que servia aquilo. – Saladas – respondeu o nativo. – Refogados. Molhos.
Colombo pensou na sua avó italiana, que cozinhava o espaguete que Marco Polo trouxera do Oriente, mas sempre reclamava de que faltava alguma coisa. Colombo descobrira, além da América, o que faltava na macarronada da nona. O índio quis saber o que Colombo lhe daria em troca do tomate e Colombo lhe deu uma miçanga.
Que outras novidades o índio tinha para oferecer? A batata. Colombo teve uma premonição de fritas, noisettes e rostis, botou a batata na algibeira e deu em troca um espelhinho.
O que mais? O fruto do cacaueiro, de onde sairia o chocolate, com importante repercussão na história do mundo, principalmente da Suíça e da Bahia. E Colombo trocou o cacau por outro espelhinho.
O que mais? Fumo. Em breve todos estariam experimentando as delícias do tabaco e o novo hábito se espalharia. Como um brinde, o índio incluiu no pacote a planta de coca, que daria um barato ainda maior.
O que mais? Milho. Aipim. Papagaios. E essa argola que você tem no nariz. É de ouro? Manda.
E Colombo ordenou a seus homens que recolhessem todas as argolas de ouro que encontrassem e, se fosse preciso, trouxessem os narizes junto. Em troca, ofereceu mais contas, que o índio recusou. Ofereceu mais miçangas. Moedinhas. Chaveiros. Vales-transporte. O índio recusou tudo. E como era impossível derrotar os invasores pelas armas, o índio amaldiçoou Colombo, e praguejou. Que a batata tornasse a sua raça obesa, o chocolate enchesse suas artérias de colesterol, o fumo lhe desse câncer, a cocaína o enlouquecesse e o ouro destruísse a sua alma.

E que o tomate se transformasse em ketchup.



Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...