domingo, 10 de março de 2019

O pescador português - Luis Fernando Verissimo

No dia 14 de agosto de 1945, o marinheiro George Mendonsa, filho de imigrantes portugueses, e eu, estávamos juntos em Nova York, mas em circunstâncias completamente diferentes. Eu prestes a fazer 9 anos de idade, de passagem por NY para pegar um navio que nos traria de volta ao Brasil depois de dois anos na Califórnia, George com 23 anos, ocupado em beijar quem aparecesse na sua frente de saia, para comemorar a rendição do Japão e o fim da Segunda Guerra Mundial. Não, não vi o marinheiro em ação e só depois fiquei sabendo que uma das fotos do beijoqueiro tiradas na Times Square – ele dobrando uma enfermeira ao meio num beijo cinematográfico – tinha se tornado famosa como símbolo da euforia daqueles dias. A revista Life fez uma edição especial da vitória com a foto na capa. O curioso é que o marinheiro e a enfermeira só foram se rever anos depois, quando a identidade dos dois foi posta em dúvida. Como a foto deu dinheiro e as feições do casal se beijando não apareciam com clareza, muita gente reivindicou o que não lhe cabia. O próprio fotógrafo não ganhara muito com seu flagrante histórico. 
*
Outra coisa estava acontecendo, em meio àqueles festejos. No dia 6 de agosto, uma bomba atômica tinha sido lançada em Hiroshima. Dias depois, outra bomba atômica arrasara Nagasaki. Poucos na multidão que lotava a Times Square no dia 14 saberiam dizer onde ficavam Hiroshima e Nagasaki, ou discutiriam a importância de usar qualquer arma, em qualquer grau de horror, para acabar com uma guerra que já matara tantos. Depois da festa, veio a reflexão, quando a decisão de usar ou não usar bombas nucleares sobre zonas habitadas deixou a história das frias opções militares e passou a pertencer à história moral do século. O argumento de que só a ameaça de usar as bombas, em demonstrações sem vítimas, convenceria o Japão a se render, não prosperou. Ou só foi opção quando mais 200 mil já tinham morrido.
*
Nem George Mendonsa nem a multidão na Times Square no dia 14 sabiam da existência do Manhattan Project, o programa ultrassecreto americano que produziu o par de bombas que, literalmente, estouraram sem aviso em nossas vidas. George morreu na semana passada, aos 96 anos de idade. Segundo o New York Times, depois da Marinha, ele tentou fazer várias coisas, mas nada muito excitante parece ter lhe acontecido depois daquele beijo. George acabou indo trabalhar com o pai, como pescador. 

sábado, 9 de março de 2019

Sociedade Betta - Marcelo Rubens Paiva

Há um ano, logo depois da barraca de pastel, parada obrigatória das quartas-feiras, uma ambulante boliviana vendia peixes ornamentais na saída da feira em sacos plásticos claustrofóbicos. De dar dó. 
Achei que eram peixes dos Andes, ou da Amazônia boliviana. Foi a primeira e última vez que a vi. Sua venda está conosco até hoje. Afinal, eu costumo levar os filhos para o pastel com caldo de cana das quartas-feiras. 
Meu filho Tião é a pessoa mais popular da feira. Todos o chamam para provar suas frutas. O que ele faz com gosto. Desde os 2 anos, eu o solto e fico atrás escutando: “Tião, Tião!”.
Se Tião tem gosto por comida, e dá gosto vê-lo comer, Joaquim tem por cores, pintar, esculpir na madeira e montar estruturas. Os peixes eram de um azul, verde e roxo de destaque, alguns com a cauda maior do que o corpo, o que chamou sua atenção. Ele escolheu um roxo macho com a maior cauda.
Ao chegar em casa, logo descobrimos que se tratava de um Betta, o “lutador siamês”, e que vive em poças e arrozais da Tailândia, Sudoeste Asiático, não em rios ou lagos andinos. O solitário siamês, pois é um peixe de briga que mata seus oponentes, até a fêmea com quem procria, se ela der bobeira e não cair fora após o abraço nupcial, tem um gênio assustador, que intrigou meu filho, o menino mais sociável do bairro, que cultiva amizades como poucos. 
O Betta quer o isolamento. Odeia seus pares.
Para mim, bastariam uma jarra de vidro, água da torneira e migalhas de pão, e ele sobreviveria uns dias, e todos nos esqueceríamos dele. Que nada. Numa loja pet franqueada, quase fui preso pela inquisição ambiental. 
Pão tem fermento: eu o envenenava. Ele só come ração balanceada própria com 33% de nível proteico e alta digestibilidade, bolinhas minúsculas, alimento extrusado e balanceado de carnitina, vitamina C e carotenoides, que cheira a ração de cachorro.
Vive na água, que deve ser limpa mensalmente por conta dos excrementos (como não pensei nisso?), precisa de um jato eventual de Protect Plus de “alto rendimento”, que “não faz espuma” e “não deixa cheiro”, coloide orgânico que forma uma capa protetora sobre o muco natural do peixe, neutraliza compostos nocivos a ele, como metais pesados, cloro, e diminui o estresse.
A vendedora vigilante, que deve gostar mais de animais de que dos humanos, apesar de vender para humanos, orientou que o peixe não pode ficar mais do que dois dias sem comer, e só podemos dar no máximo três bolinhas por dia. 
Um Betta azul da amiguinha do Joaquim é sem rabo. Uma mutação? Não. Ele comeu o próprio rabo, pois ficou uma semana sem ração. E lógico que sempre dou cinco bolinhas; sou de origem italiana. Agora, vizinhos têm a missão de alimentá-lo quando viajamos.
Ele é carnívoro. Chegamos a catar aranhas e insetos vivos para atirá-los no aquário, que agora é profissional, e vê-lo em ação. Mas o fantasma da vendedora xiita, que deve ser budista e vegetariana, e vê monges reencarnados em qualquer animal, me persegue como o pai de Hamlet. 
Achei que o gesto atormentaria o sensível artista de 5 anos, que chorou quando a mãe matou uma barata a chineladas e gritou: “Morre, desgraçada!”.
Não sou bom para nomes de animais. Tive gatos que se chamaram Kátia, Deise, Otavio, Mário, Hugo, Fábio. Meu amigo Otavio Frias Filho quis conhecer o Otavio, quando soube que eu tinha um gato homônimo. E sempre perguntava dele. Foram apresentados. Mas nunca contei que meu Otavio depois caiu do décimo primeiro andar da janela em que eu morava nas Perdizes. Mário também desabou e morreu. Depois disso, gatos só com redes nas varandas e janelas.
Como sou pouco criativo para nomes, deixei a tarefa a Joaquim. Escolheu Fly-in. Não Flying. O nome pegou. Uma vizinha o chama de Fly-in Rubens Paiva. 
Acontece que Fly-in me reconhece. Quando chego, ele fica feliz. Abana a cauda. Gruda no vidro. Se coloco a mão, ele se aproxima. Ninguém acredita em mim. Se colocarmos um parente, ele mata. Uma namorada, ele mata. Fly-in me ama.
Peixes reconhecem faces humanas com uma precisão surpreendente. A experiência foi feita com um peixe arqueiro (toxotes chatareus) pela Universidade de Oxford. Mostraram um rosto e deram comida. Depois, mostraram 44 outros rostos ao lado do que significava comida. Ele só borrifava água no que dava comida.
“O estudo não apenas demonstra que o arqueiro tem impressionantes habilidades de discriminação, mas também fornece evidências de que um vertebrado sem neocórtex e sem prerrogativa evolutiva de discriminar rostos humanos pode fazê-lo com alto grau de precisão”, publicaram no Scientific Reports.
E eu o amo. Me vejo na sua solidão. Ele está na estante do meu escritório, me vê escrever, o gesto solitário e camuflado de se comunicar de dentro de um aquário com milhões: roteiros, crônicas, posts, mensagens, livros, peças.
Não invejo seu ódio. Ele me lembra os lobos solitários de redes sociais, que atacam pessoas, pedem comida por aplicativos, namoram virtualmente sem vínculo, tornam-se membros ativos e ativistas da sociedade Betta: a rede antissocial. 
“A internet transformou a humanidade de muitas maneiras, deixou muitas coisas mais fáceis e eficientes, mas estamos mais sozinhos e desconectados do que nunca”, disse Orkut Büyükkökten, inventor da primeira grande rede social, ao Canaltech.
A cultura do narcisismo e ódio é criada pelos “cercados de espelhos, que refletem não verdadeiramente como nos sentimos, mas o que queremos que o mundo veja em nós”.

quarta-feira, 6 de março de 2019

A tristeza de ser a única pessoa certa do mundo - Leandro Karnal

Quando os oficiais chegaram à residência, havia um corpo no primeiro andar. Sem vida, Marc-Antoine Calas encarnaria uma disputa maior do que sua mísera existência. Era um jovem que não completara os estudos e que tinha dívidas de jogos de azar, um fracassado. Morreu na casa de seus pais. A primeira versão era a de que havia sido assassinado. Na falta de suspeito melhor, o próprio pai foi preso e, na cadeia, mudou a história originalmente contada. Passou a sustentar que seu filho cometera suicídio, mas que a família, ao descobrir o corpo, resolvera simular um homicídio.
Estamos na França do século XVIII e, realmente, tirar a vida era visto como uma maldição, o corpo nem sequer poderia encontrar descanso eterno em solo consagrado. Os Calas, juravam, não haviam matado o filho, mas buscavam dissimular sua morte para tentar salvar sua alma. O juiz do caso não se convenceu. Sentenciou Jean Calas à roda e a uma série de outras torturas. Com o corpo todo quebrado e torturado, o comerciante deu seu último suspiro em 10 de março de 1762.
A peça que estava faltando nesse enredo: ele era protestante e a França, um país de maioria católica. O próprio Voltaire analisou o caso e tentou interceder por Calas, mostrando o quanto de intolerância religiosa motivava a condenação. Não foi o suficiente. As suspeitas (infundadas) de que Jean Calas não só era um huguenote como um ativista anticatólico eram fortes. Seu filho mais velho já abandonara a família e se convertera à fé de Roma. Para evitar que o segundo seguisse o mesmo caminho, o pai o matara, diziam. Voltaire mostrou o suicídio e expôs a motivação (dívidas, a falta de formação porque, como protestante, Marc-Antoine fora barrado de completar seus estudos). De que valia escutar a razão se o preconceito era mais reconfortante?
No ano seguinte, o filósofo publicou seu Tratado Sobre a Tolerância, no qual argumentava o quão prejudicial era todo tipo de fanatismo religioso e como identificar tais posições. Acima de tudo, conclamava os religiosos a irmanarem-se em vez de se atacarem. O texto chegou ao rei que, postumamente, perdoou Calas, restabeleceu o bom nome da família, e dispensou o juiz do caso.
Não era a primeira publicação sobre o tema e não seria a última. Décadas antes, por exemplo, em seu exílio na Holanda, John Locke escreveu uma carta a seu amigo Phillip van Limborch, sobre a tolerância. Sem seu consentimento, o texto foi publicado em Londres no tumultuado ano de 1689. No texto, o filósofo inglês argumentava que Estado e Igreja são coisas de natureza e função absolutamente distintas. A primeira era criação humana para cuidar das coisas mundanas e materiais, tendo o poder de coação com quem fugia da lei. A segunda era voltada à Salvação, uma manifestação pública de um compromisso privado de Salvação, de ordem celestial, sem poder coercitivo. Ninguém deveria obedecer à Igreja por medo de coerção, mas por prerrogativa de fé. Logo, um magistrado (um oficial do Estado) nada deveria legislar ou punir em matéria de fé. Um sacerdote, por sua vez, não deveria se intrometer em assuntos de Estado. Locke mantinha fora de sua tolerância os “papistas” e os ateus. Mesmo com essa nota de intolerância, suas ideias inspiraram o Parlamento a aprovar o Ato da Tolerância, que concedeu liberdade de culto aos não conformistas (ainda que com muitos senões).
Uma das grandes construções da modernidade é a separação entre Estado e Igreja. A fé passa ao lugar onde ela tem sentido e até beleza: o foro íntimo, a comunidade no máximo. Deixa de estar amparada pela pompa do Estado e pelo embasamento jurídico. Cada um cultua (ou nega culto) a quem ou ao que desejar. Dentro da lei, todas as liturgias, orações, convicções sobre alma ou anjos saem dos tribunais oficiais e migram para a consciência de cada um. Houve séculos de luta no Brasil, por exemplo, para que uma simples igreja protestante pudesse ter torre, algo só obtido com a República e o fim do Catolicismo como religião oficial no país. Os crentes e não crentes, devotos de religiões de matriz africana, judeus e islâmicos, católicos e evangélicos são unidos pelo denominador comum: cidadãos brasileiros. A liberdade de culto protege os fiéis de ataques de não fiéis e protege todos do discurso totalitário daqueles que querem impor sua vontade a outros. Em países, crenças e formações distintas, tanto Voltaire quanto Locke entenderam o valor da tolerância ativa, a defesa decisiva da liberdade de opiniões. Ela supera o mal tóxico da intolerância. Da mesma forma, evita-se o veneno suave da tolerância passiva: “Respeito suas ideias, mas não se aproxime de mim!” A tolerância ativa é mais do que isso: eu preciso que alguém seja diferente de mim, pois é na diferença que sou obrigado a pensar minha própria forma de ser, alargar meus horizontes, questionar minhas certezas. É uma conquista que garante paz e progresso, desenvolvimento e ordem a todas as sociedades, como a da pioneira Holanda, que entendem que o Estado é a reunião de cidadãos e não assembleia de devotos. Separar Igreja de Estado é um avanço extraordinário. Aprofundar a tolerância ativa é o desafio de todas as gerações. É preciso ter esperança.

Até a Bolsa deu samba - Humberto Werneck

Muita coisa se passou com as bolsas de valores desde o ano de 1602, quando, em Amsterdã, a Companhia Holandesa das Índias Orientais decidiu instituir e comercializar as primeiras ações a serem colocadas num estabelecimento financeiro. Organismos vivos, nunca lhes faltou o ingrediente da emoção, motor de uma gangorra em cujas pontas riqueza e ruína travam perpétua luta para estar no alto. Na verdade, houve de tudo com as bolsas de valores nesses quatro séculos — até mesmo o dia em que uma delas, no Brasil, é claro, literalmente deu samba, por artes de Chico Buarque. 
Aconteceu há quase meio século, num contexto em que a palavra lira remetia menos à poesia do que à desvalorizada moeda italiana de então. Se não se engana o cronista, antes de Chico, apenas um poeta havia investido nessa insuspeitada musa, a bolsa de valores: Joaquim de Sousa Andrade, o “Sousândrade”, escritor maranhense que, vivendo em Nova York no século 19, lá escreveu os versos de O Inferno de Wall Street, nos quais investe contra o “almighty dollar”, a já então reverenciada moeda americana.
Não por acaso, o samba de Chico, Bolsa de Amores, foi composto em 1971, ano que ficaria marcado no Brasil por um fragoroso crash da bolsa de valores. Em pleno “milagre econômico”, investir no mercado de ações tinha se tornado febre, fazendo ferver uma insensata especulação que culminou num desastre cujos efeitos levariam anos para serem remediados. 
Na época daquele vendaval, dominava a cena a hoje extinta Bolsa de Valores do Rio de Janeiro – e era ali que costumava aplicar suas economias uma figura cult da música popular brasileira, o cantor Mário Reis, cujo modo desempostado de interpretar teria influenciado a voz confidencial com que João Gilberto embalou a Bossa Nova. Em meio a gorjeios tremelicantes e a imperiosos dós-de-peito, sem os quais ninguém podia até então ser considerado um cantor genuíno, Mário foi precursor. É provavelmente a ele que se refere Eulálio d’Assumpção, o personagem do romance Leite Derramado, de Chico Buarque, quando menciona um “cantor com voz de maricas” a desfiar o Jura de Noel Rosa. 
Filho de família abastada, Mário Reis não chegava a ser um milionário, mas, solteirão bon vivant, podia dar-se o luxo de morar no Copacabana Palace, de onde sairia para morrer. Como nos palcos, também ali marcou época. Muitos anos depois de sua morte, ainda havia no Copa quem se lembrasse do discreto e frugal ocupante do apartamento 140, cujo café da manhã, confidenciou ao cronista um antigo camareiro, não ia além de “um cafezinho e um brioche”. Sem prejuízo da elegância com que se vestia, todo o seu guarda-roupa “não enchia mais que uma dessas velhas malas de papelão – e não incluía pijamas nem cuecas”. Era um pouco por amor ao jogo, dizia-se, mais que por amor ao dinheiro, que Mário Reis gostava de aplicar na bolsa suas economias – hábito do qual Chico se lembraria quando o veterano cantor lhe pediu uma canção para o disco que, para encerrar longo jejum fonográfico, planejara lançar em 1971. 
Às voltas com a encomenda, o compositor, em busca de inspiração, se pôs a repassar os discos de Mário Reis, decidido a fazer algo sob medida para o encomendante. Procurou sintonizar com coisas que estavam na moda naquele início de anos 1970. Entre elas, a bolsa. 
Além de trocar “valores” por amores”, o samba tiraria sua graça do duplo sentido do verbo “investir”, aplicável tanto a recursos financeiros como a impulsos amorosos – à maneira, aliás, do que haviam feito Antônio Almeida e João de Barro com a moreninha da famosa marcha, ao equipará-la maliciosamente a outra paixão nacional, a cerveja: “A tua ardência é que me assombra/ Desta maneira /só mesmo te botando/ numa geladeira”. 
Também na brincadeira de Chico para Mário Reis havia uma morena:
Comprei na bolsa de amores/ As ações melhores/ Que encontrei por lá/ Ações de uma morena dessas/ Que dão lucro à beça.
O problema é que o mercado entrou em baixa: 
Já perdi meu lote/ Minha morena me esquecendo/ Não deu dividendo/ Nem deixou filhote/ E eu que queria/ De coração/ Ganhar um dia/ Alguma bonificação/ Bem que dizia / Meu corretor/ A moça é fria/ Ao portador.
Previsivelmente, a Censura do regime militar leu com maus bofes os versos de Bolsa de Amores. Entre os compositores em atividade, nenhum a ocupava mais do que Chico Buarque. Era como inimigo desafiador que a ditadura o via – razão pela qual, como se sabe, ele foi preso em casa, de madrugada, quando veio o AI-5, em dezembro de 1968, e levado para extenuante interrogatório, violência que o fez partir para um autoexílio na Itália. 
Na volta, em março de 1970, Chico não encontrou panorama melhor. Seguia sendo o alvo preferencial da Censura. Se alguma dúvida houvesse, teria sido desfeita pelo episódio Bolsa de Amores. “A comparação entre a ‘moça fria e ordinária’ com o mercado de ações na época em que se vivia o ‘Milagre Brasileiro’ fez com que o samba fosse taxado de ofensivo à imagem da mulher brasileira”, relata Ricardo Cravo Alvin em seu Dicionário da Música Brasileira. 
A gravação original de Bolsa de Amores só seria lançada em 1993, mais de dez anos após a morte do cantor, no CD Mário Reis Canta Suas Criações em Hi-fi, que reúne seus LPs de 1960 e 1971. Na voz de Chico, porém, o samba até hoje não ganhou registro em disco. Não será por falta de investidores chegados em cifras, sejam elas musicais ou não.

sábado, 2 de março de 2019

Dos sonhos - Luis Fernando Verissimo

Conheceram-se na queima de fogos em Copacabana, no fim de 2017. Começaram a conversar ali mesmo, na areia da praia, e só pararam quando acabaram os fogos. Ele pediu o endereço dela e ela – já se afastando, puxada pela mãe impaciente – gritou “é longe!”
E ele: “Onde?”. E ela: “No interior. Longe!”. Ele: 
– Ano que vem! Aqui mesmo! Quinze pra meia-noite!” 
E ela: 
– Tá!
*
Claro que ela não ia se lembrar. Mas se lembrou! Fogos de 2018 em Copacabana e lá estava ela, 15 para a meia-noite, no mesmo lugar, mais linda do que um ano antes, com a mesma mãe atenta.
– Oi.
– Oi.
– Pensei que você tivesse... 
– Esquecido? Passei o ano inteiro pensando neste encontro.
– Eu também!
E quando viram estavam de mãos dadas. Seria possível que ele tinha encontrado a mulher da sua vida, daquele jeito, por acaso, na rua, numa noite de Ano Bom? Essas coisas não acontecem, pensou ele.
– Como foi o seu ano?
– Legal.
– Fora o Temer, né?
– Quem?
*
O ano dele também tinha sido legal. Viajara bastante. Estivera em Nova York e visitara o local das torres gêmeas.
– Torres?
– As torres do World Trade Center, que vieram abaixo. Os atentados.
– Eu não fiquei sabendo. 
Foi quando ele pensou: era bom demais para ser verdade. Não era a mulher dos seus sonhos. Paciência. À meia-noite se abraçaram, não se beijaram porque a mãe estava de olho, mas ele já sabia que não ia dar certo. Não tinha nada contra a moça ser do interior. Mas não tão do interior assim. 
*
– E o que você está achando do Bolsonaro?
– Em que novela?
Pronto, pensou ele. Fim das ilusões. Mas espera um pouquinho! Uma mulher completamente desinformada. Uma mulher sem opinião, que não estaria sempre pedindo a dele... Uma mulher ideal.
E linda. Ainda mais com o rosto iluminado pelos fogos de artifício de Copacabana. 

O barulho democrático - Leandro Karnal

Existir é opinar. Tenho considerações sobre culinária ao comer, sobre moda ao vestir, sobre política ao votar e sobre planejamento econômico ao negar dinheiro a um filho. A opinião (doxa para os gregos) envolve minha experiência real, meus gostos subjetivos, minha razão e minha passionalidade. Raramente, minhas opiniões são embasadas em muita reflexão ou em dados. Todos nós dialogamos com o mundo do senso comum e da subjetividade. Argumentos objetivos e verificáveis existem, mas escasseiam nas discussões diárias. Em casos ainda mais raros, temos uma formação profissional/acadêmica sólida que envolveu reflexão prévia e pesquisas anteriores sobre o que falamos. Falamos mais do que pensamos. 
Hoje há uma tripla força para que as opiniões subjetivas e pessoais ganhem destaque. A primeira linha é o estado democrático de direito, vigente há mais de 30 anos no Brasil. Liberdade de expressão é garantida pela Constituição. A segunda força é o crescimento do sujeito como definidor de uma realidade que deve ser respeitada por causa da vontade. “Por que essa profissão? Por que fez tal escolha de casamento?” A resposta que encerra tudo é “porque eu gosto”. O declínio do dever ou da norma e a ascensão do desejo como instaurador de validade são recentes e mereceriam muita análise. A terceira e última força se chama rede social. Não apenas eu tenho o direito, eu também penso assim e, por fim, posso publicar para milhões a minha infinita subjetividade. Estamos no apogeu da doxa como o grande critério da comunicação.
Hoje em dia, qualquer pessoa pode (e fala/escreve) sobre tudo. Vivemos o império da opinião. Os jornais e outras mídias mais tradicionais, para sobreviverem, têm de se abrir ao outrora passivo leitor/espectador. Como funciona atualmente? Você lê uma notícia ou uma coluna e, logo abaixo, os comentários dos leitores! Muitas vezes, temos mais opiniões sobre a notícia do que texto na notícia. Todos querem falar o que pensam. Não raro, há debates entre os leitores, que se esgrimam por suas opiniões. No rádio não é diferente; tampouco na TV. No mais das vezes, se não moderados, são lugares de ofensas, de anonimato, de violência, de lugares-comuns. Isso levou Umberto Eco a emitir sua antipática (e verdadeira?) sentença de que a internet (e principalmente as redes sociais) deu a certeza ao idiota da aldeia de que ele não apenas tem voz; concedeu-lhe a certeza de que tudo sabe; de que sua opinião é a melhor, a mais correta. 
Vejamos mais de perto o problema. Alguns antigos atenienses consideravam a opinião como algo ruim, todavia possível. Para eles, opinar era apenas expressar uma crença irrefletida, uma lógica de senso comum incapaz de ser boa por não conter, em si, nenhum quinhão de reflexão: não se pensava na validade do que se falava nem nas premissas do que se dizia, tampouco nos meios pelos quais e para os quais se opinava. Se lermos trechos pequenos do Banquete de Platão, veremos Sócrates demonstrar isso perguntando a opinião de soldados e outros sobre as coisas mais banais, para então, por meio de sua maiêutica, solapar as minicertezas que saíam seguras das bocas de seus interlocutores. Aristófanes, o comediógrafo, achincalhou Sócrates, sofistas, juízes, políticos e tantos outros em suas peças, pois, para ele, apenas emitiam opiniões e isso contribuía para o solapamento da democracia e o fortalecimento da demagogia.
O poder da persuasão, daquele que manipula com sua opinião, talvez seja o mote da peça As Aves, em que uma utopia é revertida numa tirania apenas pelo convencimento. A tradição do teatro manteve viva a crítica à opinião e, milênios depois de Aristófanes, Molière ironizava as opiniões rasas de um ex-comerciante enobrecido em O Burguês Fidalgo. Em resumo: há uma linha (tênue, entretanto há) entre Aristófanes, Molière e Eco, uma espécie de satanização do idiota que fala. Por trás disso, há a noção de que aquele que é fechado em si mesmo (o idiota na raiz da palavra) seja o avesso do que realmente precisa a arena pública. Se a democracia for entendida como o espaço em que apenas os que realmente estão dispostos ou são capazes de pensar o espaço público sejam chamados à Assembleia (Pnyx), eles estão corretos.
Por outro lado, se uma característica da democracia é a mais absoluta liberdade de expressão, eles são apenas conservadores rancorosos. Pois qual seria a alternativa a dar voz aos idiotas? A censura prévia, a ditadura? Nos críticos há um suspiro aristocratizante, mas também um ponto nevrálgico. Questão complexa: quem pode dar opinião? Quem está realmente disposto a ouvir uma opinião e ponderar a partir dela? Quem definiria o que é idiota do que é sábio?
A solução é complexa e passa por diversos níveis. Um deles é pessoal. Devo saber que tenho direito a pensar por mim mesmo, no entanto jamais serei especialista em tudo. Ter opinião sobre tudo, portanto, torna-me um idiota, querendo ou não. Um segundo nível é público, coletivo: a educação no século 21 tem de encarar de frente o papel de registrar a capacidade da construção de argumentos, da arte do diálogo, do debate. Teremos mais gente versada e com capacidade de dialogar. Em uma esfera legal, devemos ser duros (e justos) quando a opinião extrapola seus limites ou flerta com o ilógico. Leis não podem ser feitas tendo como base a opinião de alguém sobre um assunto; uma pessoa ofendida pela opinião alheia pode exigir reparação. Ainda assim e sempre: é melhor o charabiá dos idiotas em um estado democrático de direito do que a mordaça silenciosa das ditaduras. 

Perigo - Fabrício Corsaletti

Era a primeira vez do tio Abraão no Rio de Janeiro. No aeroporto de Santa Catarina, os parentes o alertaram:
— Os taxistas lá são folgados. Seja firme. Fale grosso. Mostre quem está no comando.
Tio Abraão era enorme, usava barba comprida, camisa aberta até o umbigo. Não acreditava que corresse perigo.
Por via das dúvidas, quando chegou a hora, abriu a porta do carro, sentou atrás do motorista, puxou a porta com força e ordenou:
— Toca pro Flamengo!
O motorista respondeu um "sim, senhor" que deixou tio Abraão satisfeito, mas também com remorso - talvez tivesse exagerado.
Só algumas quadras adiante percebeu que o motorista estava tremendo e, ao menos no painel, não havia taxímetro. O motorista agora estava quase chorando. Tio Abraão fez a pergunta absurda:
— Isso não é um táxi?
Ao que o outro respondeu:
— Isso não é um assalto?

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...