terça-feira, 29 de outubro de 2019

Dormição - Nílson Souza

A frase genial é do poeta Antônio Maria, e chegou até nós pela boca do colega Paulo Sant’Ana, no pretérito sempre presente de suas andanças pela nossa sala de trabalho. Numa das vezes em que se acomodou na sua poltrona favorita para ressonar e aguardar a inspiração, balbuciou:
– Se eu estiver dormindo, me deixe dormir. Se eu estiver morto, me acorde.
Fiquei tão encantado com a sacada, que imediatamente procurei na editoria de Arte o arteiro Paulo Zarif, e fiz a encomenda: um letreiro bem visível. Quando Sant’Ana acordou, o cartaz com a citação já estava colado na parede acima de sua cabeça. Conhecendo a sensibilidade do cronista atualmente em recesso para tratamento de saúde, tivemos o cuidado de selecionar também uma frase de sua autoria para colocar junto à do poeta que nasceu pernambucano e morreu carioca.
O sono é o prenúncio da morte, escreveu Shakespeare, para horror dos dorminhocos. Alguns menos encucados e mais espiritualizados acreditam que se trata de um momento de liberdade para a alma dar uma saidinha e passear por onde desejar. Materialistas convictos dizem que é apenas uma forma de descansar o corpo, já que o cérebro não para de funcionar, muitas vezes nos levando a reboque pelo mundo dos sonhos.
Nunca fui de muita dormição. Sempre preferi a madrugada para leituras e trabalhos intelectuais, pois o silêncio e o sono dos outros me facilitam a concentração. Mas já ando menos apaixonado pela insônia, principalmente depois que tomei conhecimento de um estudo do Centro de Pesquisa da Luz, de Nova York, sobre a interferência das telinhas luminosas (de celulares, tablets e computadores) no nosso ritmo circadiano, que vem a ser o nosso ritmo de sono. Segundo os cientistas, a luz emitida por esses dispositivos interfere no nosso cérebro e impede a produção do hormônio que nos faz desacelerar e dormir.
Como as pessoas que descansam bem à noite são mais resistentes a doenças e se tornam mais longevas, já ando pensando em trocar o computador pela velha máquina de escrever durante a madrugada. Aí os outros é que não vão dormir.


quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Nosso bairro é um recanto especial - Ignácio de Loyola Brandão

No ginásio e científico, em Araraquara, a hora do recreio estabelecia as classes sociais. Os coxinhas (então a palavra significava mesmo coxinha de galinha) iam direto ao misto quente do Hanai, a classe média buscava o cachorro quente do Oguri e remediados, como eu, consolavam-se com o pão com molho de tomate do Chafih. Os que iam a São Paulo voltavam falando de um hot-dog muito chique e diferente vendido na Augusta, rua dos playboys.
Assim que cheguei aqui, corri ao Hot-Dog, lanchonete vizinha ao cine Paulista, esquina da Oscar Freire. O cinema que foi depredado pelos playboys quando exibiu Ao Balanço das Horas (Rock Around The Clock), com Bill Halley e seus cometas. Hot-Dog. Deliciei-me, achei linda a caixinha listada de vermelho que vinha com batatas fritas, secas. O Paulista também tinha as poltronas com listas em preto e branco. De qualquer modo, fiquei com essa história de cachorro quente na cabeça; até hoje, gosto e não perco festa infantil quando sei que tem mini hot-dog.
Assim, quando a noticia bombou, salivei. Roberta Sudbrack abriu o Suddog, espaço de cachorro quente na Vila Madalena. Estupefação. Afinal, uma das chefs mais sofisticadas do Brasil faz cachorro quente? Aquela Roberta que, chamada por Ruth Cardoso, deu requinte à cozinha do Planalto? A chefe que tem um restaurante excepcional no Jardim Botânico, Rio de janeiro? Pois é, já está fazendo na Vila Madalena, na Rua Girassol, junto a loja Uma.
Não me espantei. Conhecendo Roberta e sua vida e tendo inclusive escrito um caderno especial para o livro dela Eu Sou do Camarão Ensopadinho com Chuchu, posso dizer que essa mulher está fazendo um aceno ao seu início. Sabem como ela começou? Conto. Em Brasília, décadas passadas, pessoas comentavam, entusiasmadas: “Você já comeu o cachorro quente do Canil Quente & Cia?” Era um carrinho que ficava na entrada da 102 Sul, comandado por uma menina com olhos cor de mel. Mal sabiam que o cachorro quente da menina Roberta era apenas o começo. Intuitiva, ela se acumpliciava com os amigos: “Quer ganhar um hot-dog? Vá para os lados da universidade e estacione seu carro junto ao meu carrinho. Finja que é freguês”. As pessoas passavam, viam aquela fila, desciam para olhar, acabavam por experimentar o cachorro quente. Ficavam seduzidos.
Porque o pão, a Sudbrack convencia o padeiro a fazer à maneira dela; porque: “o pão é a alma do sanduíche”. A salsicha tinha sido escolhida no Rio Grande do Sul, terra dela, entre centenas que foram testadas e o molho vinha das panelas da avó Iracema, com quem ela vivia e que a criara. No auge, Roberta vendia 300 cachorros quentes por dia. Tudo de primeira, diferenciado. A batata que chegava ao freguês era fresca, crocante, comprada de madrugada no mercadão brasiliense. Nada de Ruffles plastificada.
Depois de uma temporada nos Estados Unidos, ela – a fim de sobreviver – começou fazer jantares em domicilio, até o dia em que, chamada por José Gregory, preparou um banquete para FHC, que encantou Ruth Cardoso. Vieram anos e anos no Planalto e, enfim, a abertura do próprio restaurante no Rio de Janeiro.
A Rua Girassol é quase vizinha e isso me lembra que, sobre comidas e sanduíches, por aqui estamos bem servidos. A cinquenta metros de casa, na João Moura, abriu-se uma portinhola com o letreiro, Underdog. Xi!!!, disseram, uma lanchonete que vai ser um pé sujo, confusão. Mordemos a língua, calamos a boca! Foi tudo diferente e percebemos pelo perfume intenso da carne que nos fascina quando passamos por ali. Começaram a vir jovens, as poucas mesas lotaram, um mundo de gente em pé, esperando e tomando cervejas artesanais. Tentei ir várias vezes, fracassei. Um dia, mal percebi que estavam colocando as mesas, corri, sentei-me, brinquei com a bela atendente cheia de piercings: ‘Gente da minha idade pode sentar aqui?” Ela sorriu: “quando quiser, chegue antes do meio dia ou pelas cinco e meia da tarde. Vale a pena”. O hambúrguer e as carnes ali não têm igual em questão de ponto, tempero, maciez, sabor. Qualquer dia, aposto que aquelas professoras universitárias aposentadas, que chamo de “as meninas da padaria”, estarão no Underdog. Este recanto João Moura, Artur de Azevedo, Lisboa, Cristiano Viana, nosso mundo, nosso bairro é uma delícia. O pão na chapa é na CPL; se viro a esquina, posso comer uma Vera Porchetta (dia desses falo dela), no bar Vianna. Bolo de banana com café é no pequenino Little Coffee Shop. O advogado Mariz de Oliveira vem enfrentar a Pasta e faggioli no Genova. Subindo um pouco, tem, na Oscar Freire, o Las Chicas, ao lado do Bonde Paulista, onde intelectuais da USP se reúnem aos domingos para comer pizza. E acreditam que, na Quitanda da chinesa Claudia, se faz compra de caderneta? Não somos Jardins, ainda que apenas a Rebouças nos separe. Mas é bem bom por aqui.

Um solteirão da província - Milton Hatoum

“ Não conheceste o Valongo”, disse tio Adam. “Usava terno e gravata até nas tardes mais calorentas de agosto... A gravatinha borboleta parecia um coração de rubi, abotoado no pescoço. Era outra época, as pessoas liam poesia, escutavam Mozart e Noel Rosa, e diziam palavras em desuso hoje em dia: com licença, muito obrigado, por gentileza...”
“O que ele fazia?”
“O Valongo? Cultivava e vendia orquídeas da floresta...”
“Orquídeas?”
“O orquidário do grande fotógrafo alemão George Huebner. Em 1935, quando Huebner morreu, Valongo cuidou do estúdio fotográfico e do orquidário. O estúdio durou pouco tempo, mas o orquidário e as fotografias sobreviveram. Vi fotos maravilhosas no livro do teu amigo Andreas Valentin. Índios de várias etnias e regiões fotografados no estúdio de Huebner, aqui em Manaus. Mas Valongo nunca saiu da cidade. Dizia que o alemão tinha viajado por ele, e que as imagens do fotógrafo bastavam. A gente se conheceu numa tarde de 1956... Valongo circulava pela praça da Saudade... Um velho elegante, vestido na pinta, segurando flores de uma orquídea... Aliás, mais galante que elegante. Acho que ele foi com a minha cara e me pagou uma cuia de tacacá. Nossa amizade começou nesta praça, ali perto do caramanchão, onde ficava a banca de tacacá. Valongo tomava duas cuias fumegantes, o suor escorria pelo rosto e molhava a gravatinha vermelha. Quando mastigava as folhas de jambu, o olhar parecia imergir num sonho lúbrico. No finzinho da tarde, ia oferecer flores de orquídea a uma aluna da Escola Normal...”
Morava no centro?
“Numa casa na Joaquim Nabuco, perto da antiga Renascença, o armazém de secos e molhados. Morava sozinho, com as orquídeas e as lembranças. Cultivava orquídeas no quintal, as mesmas espécies que ele tinha visto na chácara de Huebner. Uma vez, disse que a paixão era uma loucura ardilosa, e que as orquídeas que oferecia às moças, na verdade eram oferecidas a uma única mulher, uma viúva que tinha se mudado para o Rio de Janeiro. Fui um covarde, Adam, ele disse, com ar de arrependido. Não sei se falava sério, porque a voz era burlona... Eu tinha uns vinte anos, e ele, a idade que tenho hoje: oitenta. Na casa da Joaquim Nabuco, aprendi a admirar fotografias, orquídeas, lindas trepadeiras... E um dia, uma tarde de 1960, Valongo me chamou para contar um segredo.”
Qual?
“Fiz a mesma pergunta”, riu tio Adam. “Era o segredo do cofre. Um cofre alemão, verde-escuro... Valongo revelou o segredo, mas não abriu o cofre. Revelou também que tinha dois sobrinhos, que raramente o visitavam. Aí, sem mais nem menos, disse que ia dormir um pouco, e que amanhã a gente se encontraria na praça da Saudade. Não, ele não queria tirar um cochilo, queria morrer. E morreu mesmo... Morreu naquela tarde, quase noite... E aí conheci os dois sobrinhos no velório, herdeiros da casinha e do orquidário... Olhavam o morto, mas pensavam no cofre. Desconfiavam que eu tinha o segredo... E ficaram nervosos quando leram o testamento.”
E o que dizia?
“Estava escrito que o dinheiro guardado no cofre deveria ser dividido entre os sobrinhos, e os papéis ficariam comigo. Abri o cofre na presença dos dois marmanjos e de um advogado. O dinheiro era uma mixaria, um valor tão baixo que revoltou os herdeiros. Os papéis eram mais valiosos: sete cartas para uma mulher e uma fotografia dessa mesma mulher com o Valongo. Um bilhete pedia para que eu enviasse as cartas e a foto para um endereço no Rio. Uma casa na Tijuca. E eu fiz isso. Fiz por amizade, e também por uma história de amor. A foto antiga dizia muito... No avesso da fotografia, li esses versos que nunca mais esqueci:
“Minha alma se embriaga/E eu nem preciso beber o vinho do enlevo e do amor/Tua beleza é êxtase/E o teu corpo, meu único abrigo...”.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Árvore Genealógica - Luiz Fernando Veríssimo

- Mãe, vou casar!

- Jura, meu filho?! Estou tão feliz! Quem é a moça?

- Não é moça. Vou casar com um moço. O nome dele é Murilo.

- Você falou Murilo... Ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto psicótico?

- Eu falei Murilo. Por que, mãe? Está acontecendo alguma coisa?

- Nada, não. Só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, está tudo ótimo.

- Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo...

- Problema? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora... Ou isso.

- Você vai ter uma nora. Só que uma nora... Meio macho. Ou um genro meio fêmeo. Resumindo: uma nora quase macha, tendendo a um genro quase fêmea...

- E quando eu vou conhecer o meu. A minha... O Murilo?

- Pode chamar ele de Biscoito. É o apelido.

- Está! Biscoito... Já gostei dele... Alguém com esse apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui?

- Por quê?

- Por nada. Só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência.

- Você acha que o Papai não vai aceitar?

- Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver... Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara-metade... E olha que espetáculo: as duas metades com bigode.

- Mãe, que besteira ... Hoje em dia ... praticamente todos os meus amigos são gays.

- Só espero que tenha sobrado algum que não seja... Pra poder apresentar pra tua irmã.

- A Bel já tá namorando.

- A Bel? Namorando?! Ela não me falou nada... Quem é?

- Uma tal de Veruska.

- Como?

- Veruska...

- Ah!, bom! Que susto! Pensei que você tivesse falado Veruska.

- Mãe !!!...

- Tá..., tá..., tudo bem... Se vocês são felizes. Só fico triste porque não vou ter um neto...

- Por que não? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozóides. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos.

- Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada?

- Quando ele era hétero... A Veruska.

- Que Veruska?

- Namorada da Bel.…

- "Peraí". A ex-namorada do teu atual namorado... E a atual namorada da tua irmã. Que é minha filha também... Que se chama Bel. É isso? Porque eu me perdi um pouco...

- É isso. Pois é... A Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero.

- De quem ?

- Da Bel.

- Mas . Logo da Bel?! Quer dizer então... Que a Bel vai gerar um filho teu e do Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska...

- Isso.

- Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel.

- Em termos...

- A criança vai ter duas mães: você e o Biscoito. E dois pais: a Veruska e a Bel.

- Por aí...

- Por outro lado, a Bel.…, além de mãe, é tia... Ou tio.... Porque é tua irmã.

- Exato. E ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska... Com o óvulo da Bel. A gente só vai trocar.

- Só trocar, né ? Agora o óvulo vai ser da Bel. E o ventre da Veruska.

- Exato!

- Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi...

- Entendeu o quê?

- Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos!

- Que swing, mãe?!!…

- É swing, sim! Uma troca de casais... Com os óvulos e os espermatozóides, uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra...

- Mas...

- Mas uns tomates! Isso é uma bacanal de última geração! E pior... Com incesto no meio...

- A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso...

- Sei!!!... E quando elas quiserem ter filhos...

- Nós ajudamos.

- Quer saber? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero, o espermatozóide... A única coisa que eu entendi é que...

- Que...?

- Fazer árvore genealógica daqui pra frente... vai ser tramado...

terça-feira, 1 de outubro de 2019

A Menina e A Boneca - 2 crônicas


Uma mãe menina - Fabrício Carpinejar


Aquilo me marcou para sempre. Estudava em escola pública. Fizemos arrecadação de alimentos para um orfanato do bairro.



No dia da visita, roubei uma boneca da minha irmã Carla para entregar a uma das crianças. Escondi em minha mochila. Procurei alguma que ela não estivesse usando, empoeirada, em cima do armário.

A professora explicou que conheceríamos um lar de transição, de meninos e meninas sem pai nem mãe, que ainda seriam adotados por uma nova família. Jogaríamos futebol, vôlei, brincaríamos no pátio, trocaríamos os nossos sorrisos.

Foi quando conheci Mirela, de seis anos, olhos negros, com tranças longas e um jeito tímido e abafado de conversar. Eu era dois anos mais velho. Não consegui descobrir muito dela, a não ser que gostava de desenhar árvores, a ponto de ultrapassar o tamanho da folha. Ela me mostrou um desenho, onde via apenas um tronco marrom ocupando inteiramente a página em branco. A copa e as folhas não apareciam. A árvore chegava até o céu, de acordo com a sua lógica.

Entreguei o presente para ela, cuidando para não ser visto. Ninguém falou que não poderíamos entregar lembranças, mas ninguém também tinha falado que poderíamos. Não quis puxar o assunto com a professora e sofrer uma possível censura.

Na hora em que eu dei a boneca, ela me devolveu, daí eu dei de novo, e ela me devolveu de novo, até que eu dei e saí correndo. Ficou um empurra-empurra estranho, finalizado porque fugi e não possibilitei mais proximidade para outra devolução.

Evidente que a minha "sora" descobriu, três dias depois, por um evento incomum no orfanato.

Mirela dormiu no chão na noite seguinte à nossa visita, encontrada no piso frio do inverno, encolhida, usando os sapatos de travesseiro. A orientadora do lar deduziu que a queda havia sido provocada por algum pesadelo ou medo de um monstro. Não desconsiderou a hipótese de bullying de seus colegas.

Mas não. Mirela explicou que ofereceu a sua cama quente e seus cobertores fofos para a boneca.

A boneca ficou deitada em seu colchão, enquanto ela se recolheu ao piso. De tanto que gostou do brinquedo, cedeu o que possuía de mais valioso.

Montou um berço para a sua filha recém-chegada. Zelou os cabelos dela. Arrancou dentro de si a mãe que nunca teve na vida para criar um ventre de pano.

Tão franzina, tão pequena, Mirela não fez nenhuma loucura. Fez com a boneca o que sempre sonhou para si.


A Menina e A Boneca de Milho - Rangel Alves da Costa


Era uma vez... Sim, era uma vez porque toda história bonita deve começar assim, indicando que algo alegre ou triste aconteceu e que precisa ser contado. Então conto o que me contaram...
Era uma vez uma menina muito pobre, vivendo num mundo distante da cidade grande, filha única de uma família que mal tinha o alimento do dia a dia. Não estudava porque a escola mais próxima ficava a meio dia de caminhada, não tinha amigos na mesma idade porque não havia outra casa na vizinhança.
Aos três anos, com muito esforço seu pai lhe presenteou com uma bonequinha de plástico. Dessas toda nua e com cabelo que não suporta um puxão. Mas daí em diante a bonequinha se tornou sua companheira inseparável. E com ela continuou até que o cachorro segurou o brinquedo na boca e deu sumiço.
A menina chorou dois dias e duas noites. Já estava com mais de cinco anos e os pais ficaram num aperreio danado ao ver o sofrimento da filha. E o pior, não poder fazer nada que a agradasse. O pai, desesperado com a tristeza da menina, logo procurou alguma coisa que trouxesse de volta aquele singelo sorriso.
Caçou uma borboleta de duas cores, mas a menina soltou-a num sopro entristecido. Trouxe um passarinho do mato, mas a filha fez a mesma coisa. Cortou pedaço de pau para uma casinha de bonequinha, mas foi pior. Não queria casinha de boneca se não existia mais a boneca, disse a menina chorando.
O pai chamou a esposa num canto e disse que tudo já tinha feito e agora não havia mais o que fazer, a não ser deixar o tempo passar até que ele fosse até a cidade e ver se sobrava algum tostão para comprar outra boneca na feira. Então tá certo, mas ela precisa comer, disse a esposa.
Então o pai se dirigiu até o roçado para catar algumas espigas de milho verde para colocar na panela. A menina gostava de milho e talvez ela esquecesse um pouco o motivo do sofrimento e comesse uma ou duas espigas. E depois certamente adormeceria para acordar mais confortada.
Ao retornar do roçado com uma braçada de milho verde, o pai cuidou de colocar as espigas num tronco diante da casa e gritou para que a esposa fosse até ali para retirar as palhas. Ao ouvir a voz do pai, a menina levantou a cabeça na janela e pareceu não acreditar no que via.
Das espigas colocadas no tronco, uma mais novinha se sobressaia pela verdura da palha e pelos fiozinhos dourados que desciam feitos cabelos alongados. Uma boneca, uma boneca, eu quero essa boneca pra mim, gritou a menina, já correndo na direção das espigas.
Mas é só uma boneca de milho novo, minha filha, muito diferente daquela que você tinha e que era de plástico, disse a mãe. Mas eu quero essa pra mim, eu quero brincar com ela, insistia a menina, enquanto recebia sua boneca de milho.
Como se sabe, toda boneca de milho possui espiga molinha, cabelos que descem além da palha, formando um brinquedo perfeito para quem gosta de se divertir com os encantos inusitados da natureza. E aquela boneca era linda mesmo, só que com efêmera duração de vida.
A menina não sabia, mas se ela quisesse brincar com boneca de milho não havia lugar melhor que no próprio roçado, junto às plantas ainda verdejantes. Aquela bonequinha que tinha em mãos, por mais carinho e cuidado que recebesse, não duraria mais que dois dias. Logo a palha começaria a secar, a espiga endurecer e os cabelos caírem totalmente.
Os pais sabiam que não duraria muito aquela alegria da filha. O temor maior era que o sofrimento voltasse e ela novamente definhasse de vez. Mas era tão bonito e festivo ao coração vê-la assim tão feliz e contente, sorrindo e conversando com sua bonequinha, que o pai segredou à mãe o que poderia fazer para prolongar aquele estado de felicidade.
E assim, quando a noite caía e a menina dormia ao lado da bonequinha, o pai corria até o roçado e trazia uma boneca de milho nova. Ao acordar e não percebendo nada, a menina voltava ao encantamento. Mas numa manhã a menina achou sua boneca diferente, maior e mais envelhecida.
É que como a gente, a boneca de milho também cresce, vai envelhecendo, tentou justificar a mãe. E disse isso já com o coração dolorido, pois sabia que não demoraria muito para não restar uma espiga de milho sequer. O roçado já estava seco, as plantas murchando, tudo esturricando.
Chegou o dia que não havia mais nenhuma espiga de milho para ser reposta ao lado da filha. A menina acordou com sua boneca com as palhas secas e tristes, com os cabelos rareando e prestes a cair. Então, por instinto, ela foi tirando as palhas de cima e deixando as mais novas. Até que não restava mais nenhuma palha e a boneca, com grãos secos e sem cabelos, ficou completamente nua.
Diante da boneca nua, a menina chamou os pais e disse que seu brinquedo estava muito doente e que ia morrer. Mas pediu para ficar com ela assim mesmo, até que sumisse de vez de suas mãos. E continuou, até que ela renasceu quando as chuvas novamente caíram e os pés de milho brotaram da terra.



quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Re Piketty - Luis Fernando Verissimo

Saiu outro livro do Thomas Piketty, o economista francês cujo livro anterior, O Capital no Século XXI, causou enjoos na direita e euforia na esquerda porque destruía a tese de que era só deixar o capitalismo solto que com o tempo ele resolveria tudo, da desigualdade social ao bicho de pé. O título do novo livro é Capitalismo e Ideologia e ele consegue ser maior em número de páginas do que o anterior. Apesar do alvoroço que causou, O Capital no Século XXI não fez maiores estragos no pensamento econômico da época porque, segundo os cínicos, ninguém conseguia carregar, o que dirá ler, um volume daquele tamanho. Ler na cama, arriscando um aprofundamento do esterno, então, nem pensar.
Mesmo assim, O Capital no Século XXI vendeu mais de 2 milhões de exemplares e foi considerado o mais bem-sucedido livro sobre economia publicado no mundo depois da Teoria Geral do John Maynard Keynes. Com uma diferença: o livro de Keynes foi lançado no fim da Segunda Guerra Mundial, quando o mundo se organizava para evitar a repetição de tragédias como a guerra e o clima geral de otimismo permitia pensar na economia como uma entidade racionalizável, seguindo a teoria de Keynes. Já Piketty lança seus livros num mundo radicalizado pelo predomínio do capital financeiro e uma desigualdade social explosiva que parece irreversível, imune a qualquer tipo de racionalização. Outra diferença entre Keynes e Piketty é o estilo, não das teses, mas da sua apresentação. Keynes era um intelectual de gostos finos, Piketty recorre à cultura pop e a personagens da ficção popular (Jane Austen, Dickens, Balzac) para tornar a leitura dos seus tijolos mais agradável.
O novo Piketty foi publicado, por enquanto, só na França. Sairá em inglês em março. Sua mensagem é a mesma do outro livro: o capitalismo, do jeito que vai, caminha para um desastre. Como evitar o desastre? Taxar mais os mais ricos. Mudar as leis de sucessão que só favorecem fortunas herdadas. Etc. Piketty não é comunista. Se declara um social-democrata no modelo europeu, só disposto a levar o social e o democrático um pouco mais longe. Um bom exemplo.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Inveja benigna - Humberto Werneck

Recruta Zero - Mort Walker
Praticamente incapaz de dar às minhas coisas - materiais ou não - aquele mínimo de ordem, tenho inveja de quem o faz, e mais ainda de quem, num passo adiante, cria sistema próprio de organização. Como certa senhora de minhas relações, muito querida, que ao morrer de morte repentina não legou sofrimento adicional a seus familiares. Não se foi, aliás, sem antes tomar um banho e perfumar-se, só não tendo tido tempo de polvilhar os pés com talco, cuidado a seu ver indispensável, ainda mais em dia como aquele, de verão. 
Além de instruções precisas, incluindo gestos de carinho para distribuição póstuma, a boa criatura deixou na gaveta do criado-mudo uns envelopes com combustível monetário suficiente para as primeiras, segundas e até terceiras providências. Não se esqueceu sequer da fotografia e dos dizeres do santinho a ser distribuído na missa de sétimo dia. Não me espantaria se num daqueles envelopes jazesse a nota fiscal de compra de um caixão, guardado na intimidade do quartinho dos fundos, sob uma lona para não assustar ninguém, à espera de quem o haveria de habitar. Não há exagero em dizer que, tivesse o Criador lhe concedido uns minutinhos mais, teria ela própria, para não dar trabalho aos outros, se acondicionado no ataúde, depois de acender os quatro círios fúnebres, e então cruzado as mãos no peito. 
Não aspiro a tanto, quem sou eu. A mim me bastaria a manha básica de saber juntar coisa com coisa. A barafunda, por exemplo, das estantes do escritório (já nem falo das pilhas pelo chão), que ultimamente tem me levado a comprar livro em duplicata, para daí a pouco encontrar o que já dava por sumido, tudo isso, enfim, tem a ver, para começo de conversa, com a incapacidade de decidir como organizar essa montanha de papel impresso, se por gênero literário ou nacionalidade dos autores.
O panorama é tal que começo a considerar com simpatia aquela faxineira que alguns anos atrás, diante da evidência de que o patrão não dava conta de domar o caos, tomou a iniciativa de organizar os livros a partir do critério cromático. Quando voltei de viagem, ela, triunfante, sequiosa por um elogio, fez questão de me conduzir ao escritório e exibir estantes onde lombadas não se misturavam com outras que não fossem da mesma cor. O arranjo obedecia também ao critério estatura, para evitar que um volume de bolso passasse vergonha ao lado de um vizinho muito mais alentado, ainda que tivessem ambos em comum o fato de serem azuis. Não sei como não dei à moça, no ato, o famoso bilhete dessa mesma cor.
*
Até não me faltam impulsos heroicos do tipo “é hoje!”, em geral num desses fins de semana em que o mau tempo nos convence a não sair à rua. Decidido, esqueço por ora a livralhada e vou exumando caixas dos armários, todas delas identificadas com hidrográfica e a invariável indicação: “Papéis a organizar”. Umas três ou quatro, de bom tamanho, estão repletas desse anacronismo que se chama carta, e para nelas mergulhar me muno de máscaras compradas em farmácia. É hoje! 
Pena que o perigo não esteja apenas nas nuvens de pó acumulado. O verdadeiro problema reside não nos ácaros, mas em quem permitiu que se avolumasse praticamente tudo o que lhe foi trazendo o correio desde profundas entranhas do século 20. Antes me limitasse eu, nesses meus repentes organizatórios, a ler nomes de missivistas para mim hoje tão apagados quanto a esmaecida caligrafia no envelope, e em seguida conjugar o verbo sob medida para a circunstância: descartar. Quando dou por mim, já encerrei a arrumação sem tê-la iniciado, e o corpo buscou assento para a leitura da prosa epistolar bem mais do que cinquentenária da namoradinha dos meus 15 anos. Lá estou eu, adolescente, de volta ao Grande Hotel de Araxá, fervilhante de hormônios, sem saber se já se acham reunidas as condições para dar o bote na mão da carioquinha de franja ao lado no sofá. A mão, agora de um senhor para lá de maduro, volta a hesitar, antes de devolver à caixa as duas ou três cartas da Graziela, até que sobrevenha um novo surto de arrumação.
Quanto ao papelório que não cessa de crescer sobre a mesa de trabalho, cujo tampo não se vê faz tempo, às vezes penso, com o risco de vir a pagar pela língua, que o que me falta é um bom incêndio. Bate em mim, outra vez, a invejosa admiração que sinto por Fernando Sabino, capaz de achar em 40 segundos qualquer papelucho nas gavetas de seu quarto e sala da rua Canning, 22, fronteira de Copacabana com Ipanema. 
Inveja também, já nem digo literária, de Carlos Drummond de Andrade, a poucas quadras dali, na Conselheiro Lafaiete, 60, cujo esmero o levava a transcrever em cadernetas De Luxe, de espiral, as dedicatórias versificadas que distribuía, rotina da qual haveria de resultar uma coletânea de fac-símiles, Versos de Circunstância, organizada três décadas depois de sua morte pelo poeta Eucanaã Ferraz e lindamente editada pelo Instituto Moreira Salles.
Quando entrevistei Drummond para a IstoÉ, em abril de 1985, pedi que autografasse meu exemplar de sua obra na edição da Nova Aguilar - e confesso que por um segundo sucumbi à pretensiosa ilusão de que o poeta estivesse improvisando uma quadrinha sob medida para o repórter. Como me restasse aquela mínima noção das coisas, tratei de quietar o facho da apoteose mental. Limitei-me a admirar a capacidade do autor octogenário de guardar de cor uns versos, escritos, soube depois, quase 20 anos antes, mais exatamente em 11 de outubro de 1966, por certo para alguém de mais merecimento, e com os quais vim a topar na página 251 da citada coletânea. 
Em tempos mais recentes, numa visita a outro admirador do poeta, vi o anfitrião chegar às lágrimas ao me contar que Carlos Drummond escreveu para ele uma dedicatória, mais do que isso, em versos!, no seu volume da Nova Aguilar, que fez questão de ir buscar lá dentro, igualzinho ao meu, para que eu pudesse ler uma quadrinha, adivinha qual. 
“Sonetilho do Falso Fernando Pessoa” 

Onde nasci, morri
 Onde morri, existo.
 E das peles que visto
  muitas há que não vi.


 Sem mim como sem ti
  posso durar. Desisto
  de tudo quanto é misto
  e que odiei ou senti.


  Nem Fausto nem Mefisto,
 à deusa que se ri
  deste nosso oaristo,


 eis-me a dizer: assisto
  além, nenhum, aqui
  mas não sou eu, nem isto.



Uma Leitura de Pessoa por Drummond: Sonetilho do Falso Fernando Pessoa Prof.ª Dr.ª Cristina de Fátima Lourenço Marques - UNIP 

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...