sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Orelhas atiradas no meio da rua - Ignácio de Loyola Brandão

Helga estranhou quando o homem que tomava um ristretto, curtíssimo, no The Little Coffee Shop, na Rua Lisboa, sussurrou em seus ouvidos:
– Pode me emprestar sua orelha?
Ela olhou com desdém para aquele indivíduo que lhe dizia coisas estranhas. Como emprestar a orelha a alguém? Mas tudo acontece ali, naquela portinhola minúscula do The Little Coffee Shop, as pessoas mais comuns e mais diferentes são habitués.
O café fica em frente ao Gênova e a cem metros do Tammy Montagna, onde se come um delicadíssimo omelete de gruyère com um suco orgânico. Esse pedacinho da Lisboa está ficando gourmet e chique, é preciso estar atento a ele.
– Como é? – insistiu o homem. Empresta ou não?
– O quê?
– Sua orelha?
– Que ideia mais doida. Nunca vi emprestar a orelha a alguém. Como faço?
– A orelha é rosqueada em nosso corpo. Basta desrosquear e me dar.
– Como se fosse uma lâmpada?
– Exato. Então sabe, já emprestou a alguém?
Helga estava gostando da história. As pessoas no dia a dia estão ficando chatas, sensaboronas, sem loucuras, todo mundo anda anestesiado, só fala em política, lei da Previdência, ter arma, matar bandido como lesma, ou seria como ratos? Não! Parece que disseram barata. Cursos de inglês fazem propaganda: fale como o filho do presidente e ganhe um cargo nos United States vendendo donuts na ONU. Nos filmes policiais, traduzem donuts como bolinhos. Ou talvez seja vender milho cozido na porta da Casa Branca. As pessoas só esperam que o presidente dê uma das suas destrambelhadas, nunca se viu um homem sem a mínima noção de nada. A colaboradora da casa de Helga diz sem loção.
– Vai! Me empresta a sua orelha.
– E fico sem ouvir?
– Por dois dias, só?
– E como vou ouvir sem orelha? Seria como andar sem pés. Aliás, sabe que se a gente cortar os dedos dos pés, fica sem poder andar, perdemos o equilíbrio?
– Para com isso, me empresta a orelha, quero ouvir uma palestra filosófica muito importante, disseram que o homem é magnífico, muda a vida da gente. 
– Pois então, vou eu ouvir essa palestra, estou muito arrasada.
– Agora vejo que o Josué estava errado. Ele me disse que você me emprestaria a orelha.
– Qual Josué? O do sebo Acervo?
– Esse mesmo, um baita cara! Vai me emprestar ou não?
– Claro que não, nem sei se vai devolver. Cadê sua orelha?
– Perdi, de vez.
– Então é melhor ficar assim. Vive bem quem não ouve nada, tem muita gente dizendo besteira. Melhor ficar surdo. Ficar na sua. Quer saber? Também não quero ouvir mais nada, senão, enlouqueço.
Arrancou as duas orelhas e jogou no meio da rua de paralelepípedos, toda irregular, sob o olhar assombrado do João Gianesi, das melhores almas do mundo que viu, horrorizado, um carro passar e esmagar, deixando as orelhas como dois bifes bem batidos, prontos para fritar ou assar na grelha. João entrou para dentro da casa dele, para encontrar sua Terezinha, que o esperava com um prato de jilós crocantes, pensando: Nada mais que outro dia normal em São Paulo. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Balada do louco - Leandro Karnal

É o mais sólido e tradicional clichê que somos todos, em algum grau, loucos. Como a maioria é algo estranha, ser louco conteria um certo charme. O glamour da insanidade aparece na belíssima Balada do Louco: “Mais louco é quem me diz, e não é feliz...”, dos Mutantes, que ganhou registros com Ney Matogrosso, Rita Lee e Cida Moreira. A normalidade é tediosa, opressiva e até pecaminosa, algo que ecoa Erasmo de Roterdã (O Elogio da Loucura) ou Paulo Apóstolo (I Coríntios 4,10). 
O sonho da contracultura articula-se com a postura de considerar que a vida enquadrada é “careta”, antiga, ultrapassada e você, cumprindo todo o trajeto da “normalidade”, acaba apenas servindo de massa de manobra. A sinceridade dos loucos e outsiders sempre foi admirada como emanação de algum acesso a um conhecimento superior. Não seja mais um tijolo no muro, não marche para a mesmice: é o tema recomendado do clássico The Wall, de Pink Floyd.
Um jovem que não tenha sido seduzido em algum momento pela ideia da insanidade contestadora de um Hamlet a apontar coisas podres no reino da Dinamarca, provavelmente, não é um jovem de verdade. Hoje quase uma denúncia de idade, lembro de um livro clássico da minha juventude: O Louco, de Khalil Gibran.
Narrei a loucura poética. Ela é irmã da contestação, da rebeldia criativa, da insubordinação contra poderes. O louco manso e criativo ri, diz aquilo que está engasgado na garganta dos comuns racionais e infelizes. A poesia-hino do levante contra o tradicional é o famoso Cântico Negro, de José Régio. Sim, a plateia ralou no emprego para obter a soma do ingresso, seguiu ordenadamente até o lugar numerado, chegou no horário previsto, arrumou-se para isso e seguiu organizada e racional. De repente, a genial artista recita o cântico e todos apoiam e gritam. Era o momento permitido de rebeldia. Depois, em ordem e pagando estacionamentos extorsivos, todos voltamos para nossas casas. Para ser muito louco, hoje, precisamos de renda sólida, diferentemente dos filósofos cínicos como Diógenes, que podiam ser pobres e perturbados. 
Tenho temido o crescimento do outro tipo de loucura, aquela amparada na classificação psiquiátrica. Acompanho, com horror, cenas como o perigoso empurrão de uma senhora sobre o padre Marcelo ou o casal de mulheres que tortura e mata um menino: é uma lista infindável de pessoas que não apresentam a loucura risível, todavia a perigosa e assassina. O mesmo Erasmo de Roterdã fazia questão de separar uma loucura espirituosa da fúria, proveniente dos infernos. Crescem as ações perpetradas por pessoas diagnosticadas em alguma página do catálogo médico. Por questões jurídicas, mesmo tendo realizado crimes hediondos ou executado atentados terríveis, por vezes os médicos concluem que são inimputáveis.
Por definição, um grau de perturbação mental elevado pode justificar a inimputabilidade, pois a vítima deixa de ter consciência do que faz. Nós que, com sorte, só temos graus leves de insanidade somos perfeitamente passivos de todo o peso da lei, o que não deixa de causar uma injusta indignação em muitos. Em vários sistemas jurídicos do passado, não existiam atenuantes como transtornos psíquicos.
Na Idade Média, uma criança poderia ser perfeitamente julgada, torturada e condenada, pois ainda inexistia o conceito de inimputabilidade ou mesmo o conceito de criança. Em tradições como a inglesa, os juízes podem decidir que uma criança de 10 anos, tendo realizado um crime grave, pode ser julgada e até condenada. 
O medo social existe sempre. E se um louco me atacar? O que eu posso fazer? Retomando o caso conhecido do padre Marcelo: como evitar o medo de que atos violentos se repitam? Em um ambiente em que tantas pessoas manifestam seus ódios de forma tão polarizada e evidente, em que o rancor aflora de todos os lados em redes sociais, como garantir que os leitores de discursos explosivos sejam pessoas sensatas que saibam que há algo profundamente retórico naquilo tudo?
A loucura dos grandes deve ser vigiada, reflete o rei Cláudio ao pensar nas estranhas ações do jovem Hamlet. E a loucura cotidiana dos pequenos? E o delírio diluído em milhares de pessoas que abastecem seu desvario nas redes? E os seres “normais”, tranquilos, trabalhadores e pontuais que, dirigindo um automóvel privado, moto, táxi, ônibus ou patinete, agem como se fossem Átila e pisoteiam/rodam um solo sobre o qual nem a grama ou a civilização crescerá de novo? Que outros continentes de loucura no oceano da razão descobriremos como o Alienista criado por Machado de Assis? 
Que tempos felizes eram aqueles nos quais os romanos identificavam em Calígula, Nero ou Heliogábalo a insanidade clara e passível de eliminação! Que época abençoada: havia um louco e ele morria e pronto, o mundo melhorava... outra era. O rei George III da Inglaterra e D. Maria I de Portugal foram atacados de insanidade e tiveram o mesmo médico, por sinal. A loucura do governante britânico não impediu a decolagem do poder inglês no século 19. A demência da avó de D. Pedro I não deteve o declínio português.
Parafraseando o coveiro de Hamlet, enviaram D. Maria I, louca, para o Brasil. Aqui se curaria e, se tal não ocorresse, poucos notariam a diferença. D. Maria gritava dos janelões do convento do Carmo no Rio de Janeiro. Ninguém a ouvia. Os gritos dos loucos, no Brasil, raramente superam os da “gente de bem”. É preciso ter esperança e, talvez, alguma sanidade. Enquanto for possível. 

Andrew - Luis Fernando Verissimo

Desde os rumores de que Jack o Estripador era um membro da família real inglesa, que circularam no fim do século 19 e ainda circulam em especulações modernas sobre a identidade do assassino, que nunca foi preso, ninguém daquela augusta linhagem foi citado em crimes. Pelo menos não em crimes sérios, o que exclui os chapéus da rainha.
Agora se sabe que o príncipe Andrew, duque de York, segundo filho de Elizabeth e Philip, oitavo na linha de sucessão ao trono da Inglaterra, durante anos foi amigão do bilionário americano Jeffrey Epstein, frequentando suas muitas mansões, andando no seu belo iate, viajando no seu avião particular e sendo apresentado às meninas, quase todas da chamada menor idade, que Jeffrey cultivava para o seu próprio uso e para suprir os amigões.
Entre estes, o ex-presidente Bill Clinton e o atual presidente Donald Trump – que, numa entrevista publicada há alguns anos, elogiou Jeffrey e comentou que ele gostava de mulheres bonitas, “como eu, de preferência as mais novas”, uma sugestão pública de gosto pela pedofilia que prefaciou todas as barbaridades que Trump viria a dizer na presidência, depois.
Jeffrey Epstein se suicidou na prisão, onde aguardava indiciamento. Ou foi suicidado. Como, ainda não está claro. Os presos não podem usar cintos ou cordões de sapatos nas celas. Ele teria se estrangulado ou sido estrangulado com um lençol? Difícil. Já tinha tentado se suicidar antes, deveria estar sob observação constante, mas os dois guardas encarregados de cuidar dele não estavam em serviço, por diferentes razões, na noite em que Jeffrey morreu.
As teorias conspiratórias se multiplicam. A quem interessaria a morte de Jeffrey antes que ele começasse a “cantar”, dar nomes e incriminar meio mundo no seu esquema de favores? A julgar pela quantidade de gente importante e ligações poderosas no caderninho do bilionário, “incriminar meio mundo” não é exagero. Meio mundo deve ter respirado aliviado com a notícia da sua morte.
Andrew não tem com o que se preocupar. Dormir com menininhas não é, assim, como eviscerar mulheres. Ele talvez passe por um período de ostracismo na corte, mas isso passa. E ele continuará com sua simpática cara de zonzo, própria dos príncipes desocupados.

Combinações - Roberto DaMatta

Quando combinamos coisas separadas, digamos, bananas com laranjas (uma “baranja”, Oriente com Ocidente, igualdade com hierarquia, riqueza despreocupada com pobreza como destino, fogo com água – a lista é imensa e complexa – juntando imaginativamente objetos de natureza diferenciada, causamos espanto e surpresa.
Pois inventamos algo com o potencial de ser lido como um insulto (“filho de uma cadela” ou “burro doutor”), uma abominação (Lúcifer, o anjo mau), uma extraordinária novidade (o samba-jazz o surrealismo ou a poesia sem rima), uma ironia crítica como fez o economista Edmar Bacha ao, em 1974, em plena ditadura militar, criar Belíndia. Um país não gramatical – metade democrático e rico como a Bélgica e metade como a Índia, atrasado e pobre; ou, simplesmente, algo tolo, mas curioso, como “baranja”, uma fruta inventada 
O denominador comum de todas as combinações é a criatividade resultante do encontro negativo ou positivo (mas sempre curioso) de coisas, papéis sociais, ritmos, bebidas, comidas, roupas, moradias, conceitos ou linguagens antes separados pelo tempo, pela moralidade, religião, cultura. Coisas e instituições que, em muitos casos, eram tidas como estanques como o masculino e o feminino, a juventude e a velhice, o dia e a noite. 
Se os sociólogos franceses do início do século 20, inspirados em Durkheim, falaram da sociedade como um sistema de classificação, eles deixaram de lado o fato de que, se em cada sistema havia um “lugar para cada coisa; e cada coisa em seu lugar”, existia – em paralelo – uma luta clara ou oculta com gestos, objetos e valores que, por dentro e por fora, desafiam as classificações. 
Todas as muralhas, como todas as “normalidades”, foram feitas para ser ultrapassadas. Nenhuma língua natural deixa de entender e até mesmo incorporar palavras de outras línguas. O humano é feito numa dialética de impulsos internos e de isolamento e de incorporação do que vem de fora. A existência de pureza (associada a perigo e responsabilidade como bem viu a antropóloga Mary Douglas) ao lado da impureza, associada ao diferente, ao proibido, ao estrangeiro e a alguma forma de conjunção contraditória ou liminar, como dizia meu amigo e mentor Victor Turner, entre coisas anteriormente separadas, é uma constante da dinâmica social.
É uma dimensão com que a comunicação densa, instantânea e globalizada nos obriga a lidar diariamente. Viver, como dizia Freud, é lidar com as circunstâncias que nos são impiedosamente impostas de fora, as quais contrariam desejos e planos que, por sua vez, são reprimidos de dentro... 
O que me espanta no Brasil atual não é só a polarização lida pelo seu lado negativo, uma prova da ignorância de que a competição política exige regras claras sendo, por isso mesmo, um ponto central das democracias modernas; mas tomá-la como patologia. Como uma anomalia reveladora de como somos contrários ao debate, à disputa e ao saudável (mas mal-educado) bate-boca. Esse viés traz à tona nossa velha matriz autoritária. Nela, discordar é equivalente a rebeldia e a desobediência, pecados mortais nos sistemas hierarquizados.
Nesse Brasil, só há lugar para a diversidade hierárquica (homens e mulheres, senhores e escravos, ricos e pobres, povo e governo) e foi ela que criou como contrabando cultural o jeitinho – esse lado jeitoso do agressivo “Você sabe com quem está falando?”. O nacionalismo radical é uma nobre expressão de uma alergia à difusão cultural – que nos torna humanos – com suas desafiadoras criatividades.
A existência, portanto, de coisas como “baranja” talvez seja tão rotineira quanto o esforço de não confundir bananas e laranjas e, com isso, perder o prazer de tomar uma salada de frutas. 
Enquanto os ricos das Bélgicas nacionais estavam em cima e os pobres indianos não existiam civicamente, havia senso. O problema é quando verificamos que a Belíndia do Bacha não foi e há enormes resistências para desmanchá-la. 

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Reino do crochê - Fabrício Carpinejar

A casa da avó e a casa da mãe e a minha casa são iguais por dentro: o reino do crochê.

Mantenho o mesmo hábito de enfeitar ou proteger os móveis com os trançados. Azuis, rosa, verdes, vermelhos, brancos, a cor da linha muda, mas não o uso ostensivo pela família.

É mais do que uma mania de decoração, representa uma mentalidade cuidadora. Expõe o nosso afã em zelar pela memória dos objetos. Ter algo é, acima de tudo, conservar. Agradece-se uma compra alcançada prolongando a sua duração.

A lã é a gratidão que envolve os pertences, o véu do lar, o embrulho das alegrias cotidianas, o forro essencial na prevenção ao manuseio, a escolta estratégica para nada quebrar ou sair do lugar.

Na mesinha da sala, debaixo dos porta-retratos, coloquei paninhos de crochê.

Jarros de flores têm a base decorada de crochê. Além dos pratinhos, há os modelos de invariáveis círculos concêntricos resguardando a madeira.

O liquidificador é protegido por um aparador de crochê. O puxa-saco atrás da porta da cozinha é de crochê.

O tampo de vidro do fogão, quando em merecido descanso e brilho, leva a toalhinha de crochê e a chaleira por cima.

O botijão de gás tem a capa de crochê.

A manta da cabeceira do sofá da sala e as almofadas apresentam a resistência do crochê. Tanto que sempre acordo dos cochilos com o rosto avermelhado, impresso em grades.

Em dias felizes, a cama de casal é arrumada com colcha de crochê.

Até a tampa da privada merece o agasalho (fundamental por dois motivos, para inspirar que o povo familiar baixe a tampa ao sair e também para aquecer o traseiro na troca de roupa).

Poderia dizer que a residência inteira está vestida para o inverno.

É emblemático que o primeiro presente que recebi na vida foi um sapatinho de crochê, dado pela minha tia materna e posto depois na porta do quarto com um prego para celebrar o meu nascimento. Meu vício pela saudade já começou no berço, instruído a bordar os espaços da intimidade e costurar os tempos entre diferentes gerações, educado a nunca deixar a poeira e o abandono cobrirem as recordações.

Eu saí do interior do Estado, porém o interior do Estado jamais saiu de mim.

Artes de cama & mesa - Humberto Werneck

"Cada qual com sua manha: uma, para amolecer o feijão, outra para garantir a atenção do Criador."
Grazie, prego.
Feijoada mais completa do que aquela, impossível: tinha até os pais do noivo, distinto casal que a família da noiva iria finalmente conhecer. Gente de certa cerimônia, desconfiava a futura sogra – e toca remexer na panela onde o feijão borbulhava.
O problema era este: borbulhava, mas nada de amaciar. Logo com ela, famosa por sua feijoada, e logo naquele dia, com o risco de fazer feio para os pais do moço! Como é que foi me acontecer uma coisa dessas, meu Deus? – se lamuriava, e cravava o dente em mais um grão obstinado em não amolecer.
Ao lado, a cozinheira saboreava a aflição da patroa, uma ingrata que nas ocasiões especiais, quando poderia brilhar, lhe dava um chega pra lá e assumia o fogão, rebaixando-a a coadjuvante. Quem manda?, tripudiou para si mesma. Mas, diferentemente do feijão empedernido, aos poucos seu coração amoleceu, e ela se dispôs a conceder um de seus segredos de cozinha: 
– O jeito é botar prego – receitou.
Botar prego?! – reagiu madame, horrorizada, como se não conhecesse aquela fulana. Ah, conhecia! Toda cheia de truques e manias, incapaz de fazer pipoca sem batucar na tampa com a colher, desenhando imaginárias cruzes, para não dar piruá – e não sobrava um grão por estourar! Na hora de bater a maionese, aquele ritual de ligar e desligar rapidamente o liquidificador, cinco vezes, para a pasta não desandar – e não desandava mesmo. Já quando era a dona da casa a pilotar o liquidificador...
Católica e instruída, a patroa se irritava com aquela macumbeira cheia de reza braba e simpatias. Fosse apenas a multidão de santos populares lá no quartinho de empregada – mas não, era na sua cozinha! E o pior é que, no fim, invariavelmente dava certo para a danada. Foi por isso que, em desespero de causa, um olho no relógio, outro no caldeirão, lá pelas tantas entregou os pontos e topou a maluquice dos pregos na fervura.
E agora quem comandava, triunfante, era a danada. Catou três pregos meio enferrujados, que lavou mal e mal antes de amarrar em feixe com um barbante – e mergulhou aquilo no feijão. Seja o que Deus quiser, suspirou a patroa.
Mistério para Ele ou a ciência explicar: em pouco tempo estava pronta a feijoada, acondicionada agora na melhor sopeira, louça da Companhia das Índias, triunfante no centro da mesa. O pai do noivo, médico ilustre, não resistiu e avançou o narigão, inebriado.
E não é que, na hora de servir, o feixe de pregos foi desabar, com inconfundível baque metálico, justamente no prato do doutor? Ela vai ver comigo, rosnou para dentro a dona da casa, coberta de vergonha socioculinária. Só relaxou quando o futuro consogro, achando graça no desastre, depois de dar cabo de dois pratos transbordantes, louvou a feijoada e mais ainda as macumbas da cozinheira. Quanto ao feixe de pregos, parece ter servido de exemplo para os noivos, pois anos depois seguem atados um ao outro, felizes da vida.

Fogosa ao pé do fogo

Quando foi atrás de cozinheira, ela não esperava que lhe aparecesse uma exuberante morena de novela, e menos ainda uma jovem como aquela empregada do poeta Paulo Mendes Campos que não só lia Drummond como, ao pedir as contas, surrupiou do patrão um exemplar de A Rosa do Povo com dedicatória. Nestes tempos de apagão, brincava a calejada senhora, estava disposta a conformar-se com alguém de poucas luzes – desde que a candidata atendesse a uns tantos requisitos, a começar por este, eliminatório: 
– Cozinheira tem que ser bem fogosa. 
Nem precisaria explicar:
– Mulher que não está em dia com o sexo não tem gosto pra temperar.
Nesse particular, não há dúvida de que madame acertou na escolha, pois a nova cozinheira, na sua avaliação, tinha bem resolvidas as questões do “hemisfério sul”, cujo mau funcionamento, como se sabe, pode comprometer as coisas cá em cima, no “hemisfério norte”. (Para quem estranha essa cartografia humana, seja dito que a linha do Equador passa em torno da cintura.) 
Não era esse, felizmente, o caso daquela moça, como a patroa pôde constatar já no primeiro papo, ocasião em que a jovem, desinibida, se pôs a reclamar do namorado: 
– Ele não faz volume, a senhora sabe como é? 
(A outra, vivida, sabia muito bem como era, mas não passou recibo.)
Nesse quesito, acrescentou a cozinheira, o atual titular de seu coração e tudo o mais não era páreo para o antecessor: 
– Ah, o outro ficava logo todo enfeitado... – suspirou ela, sublinhando o adjetivo e abrindo as mãos em leque como cauda de pavão, nostálgica sabe Deus de que entreveros carnais. Não que fosse uma devassa – nem havia segundas intenções quando anunciava, em seu português saboroso: 
– Vou no espermercado. 
A moça tinha lá seus momentos de messalina tropical, que tratava de contrabalançar com os antídotos de uma interesseira fé religiosa: com a mesma proficiência com que limpava o fogão depois da janta, apressava-se em passar na alma um detergente espiritual para remover suas sem-vergonhices. 
Aos domingos, com os hormônios em ebulição, botava a melhor roupa, afogava-se em perfume e se jogava no mundo, à procura, vai ver, de um bom “volume” – mas não deixava o dia se fechar sem missa e comunhão, certa de assim estar zerando seu deve/haver junto às Altas Instâncias. Como quem leva o carro a um lava-rápido, submetia a alma a periódicas faxinas, sob a forma de confissões no capricho. Chegava a anotar os pecados num papelzinho que, ajoelhada no confessionário, consultava com um rabo de olho, para não correr o risco de vir a sonegar ao Senhor o menor de seus escorregões morais. 
Apesar disso, um dia se deu conta de que suas preces deixaram de ser atendidas. O que estaria acontecendo? – e a pecadora arrependida se martirizou, até matar a charada: o problema era a superlotação espiritual na casa do Senhor.
– Na igreja tem gente demais rezando – explicou à patroa –, e nisso Deus acaba confundindo.
Desde então, trata de comparecer quando não haja muito movimento, e de pedir audiência privada com o Criador, cuidando sempre de se apresentar, para que o Interlocutor não se confunda: 
– Olha, Deus, aqui é a Maria José, filha do Luís e da Zoraide, neta do Expedito...
Não é que voltou a ser atendida?

domingo, 11 de agosto de 2019

Compensações - Luis Fernando Verissimo

Sarampo, caxumba e catapora podiam matar se mal curadas. Engolir chiclete era perigoso porque o chiclete engolido colava nas tripas. Fazer careta era perigoso porque se batesse um vento você ficaria com o rosto deformado pelo resto da vida. Pés descalços em ladrilho: pneumonia. Banho depois de comer: congestão. Melancia com leite: morte certa.
*
Depois vinham outros perigos e outras falhas de caráter e comportamento. Desatenção na escola, notas baixas: você era irremediavelmente burro e não tinha nenhum futuro. A adolescência era uma zona de horrores na qual você dificilmente sobreviveria se não tomasse precauções. Sexo, melhor evitá-lo. Histórias terríveis de camisinhas furadas levando a gravidezes indesejadas e ruína. Maus amigos, más influências, drogas. Ruína moral e física. Nenhum futuro. 
Sarampo, caxumba e catapora podiam matar se mal curadas. Engolir chiclete era perigoso porque o chiclete engolido colava nas tripas. Fazer careta era perigoso porque se batesse um vento você ficaria com o rosto deformado pelo resto da vida. Pés descalços em ladrilho: pneumonia. Banho depois de comer: congestão. Melancia com leite: morte certa.
*
Depois vinham outros perigos e outras falhas de caráter e comportamento. Desatenção na escola, notas baixas: você era irremediavelmente burro e não tinha nenhum futuro. A adolescência era uma zona de horrores na qual você dificilmente sobreviveria se não tomasse precauções. Sexo, melhor evitá-lo. Histórias terríveis de camisinhas furadas levando a gravidezes indesejadas e ruína. Maus amigos, más influências, drogas. Ruína moral e física. Nenhum futuro. 
*                                                                                                                                          Mas havia o grande amor. Ou os grandes amores. As que deixavam até o meio da coxa, as que espantavam a sua mão como um mosquito, as que diziam “Gosto de ti como um ermão”, mas só não deixavam dentro. No caso de transgressão do paralelo 38, que dividia a menina como as duas partes da Coreia em guerra na época, o Norte e, meu Deus, o Sul, imagino que soariam alarmes e haveria até o perigo de intervenção americana.                                        
*                                                                                                                                        E havia outras compensações para os riscos de atravessar a infância e a adolescência pisando de precaução em precaução, como nas pedras de uma correnteza mortal. O orgulho de um pião bem lançado, por exemplo. O prazer de abrir um envelope e dar com a figurinha rara que faltava no seu álbum. O volume voluptuoso de uma bola de gude daquelas boas entre os dedos. A primeira bola de futebol, de couro, oficial, número 5, que você ganhou e hesitava em chutar para não arranhar.                                                                        *
E os cheiros da infância. Terra úmida. Caderno novo. Vick Vaporub! Você embaixo das cobertas, ouvindo o barulho da chuva lá fora, se sentindo seguro e, definitivamente, com algum futuro pela frente.
*
Agora, se você for um homem brasileiro em razoável estado de funcionamento, vai concordar comigo que nada compensava as agruras da vida, nem acordar com febre e não precisar ir à aula, nem fazer xixi em piscina, como passe de calcanhar que dava certo. 

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...