quinta-feira, 18 de julho de 2019

Que pena - Ruth Manus

Dizem que pena não é um bom sentimento. Não sei se concordo. Talvez a compaixão pareça um pouco mais nobre, mas parece-me que a pena é mais genuína. E eu sinto pena das pessoas com muita frequência (talvez por isso eu tente me convencer de que a pena não é um sentimento tão ruim assim).
Dentre as situações nas quais meu peito se enche de pena, destaco algumas, não muito óbvias: tenho pena de gente que corre muito para pegar o ônibus e não o alcança (se essa pessoa for eu mesma, também sinto muita pena); tenho pena de gente com dor de dente ou dor de ouvido; tenho pena de gente que estuda alemão; pena de quem não pode comer glúten, lactose, açúcar ou levedura; pena de quem não ama desesperadamente os próprios pais.
Ocorre que hoje eu fui invadida por um sentimento inédito de pena, urgente e gritante. Estava no aeroporto – para variar – e caminhava pelo duty free (que eu ainda gosto de chamar de freeshop, apesar da minha pouca idade) para recolher algumas bobagens que ia levar para o Brasil. Rímel, licor de amêndoa amarga e vinho do Porto. Olhei umas seis vezes para uma barra de chocolate Milka recheada com bolachas, mas firmei o pensamento em Jesus Cristo e no meu vestido de noiva e segui incólume.
Cheguei aos caixas e a menor fila era o caixa 3, operado por um rapaz de cabelos lisos até a altura dos ombros que me lembrou o Mogli, fazendo com que eu simpatizasse automaticamente com ele. Na fila havia 5 pessoas na minha frente. Conforme a fila andava, as pessoas colocavam suas compras na esteira para que eu pudesse analisá-las de forma discreta, porém vergonhosamente invasiva.
O primeiro era um homem careca de cerca de 60 anos. Ele levava apenas uma garrafa de vinho. A máquina fez plim plim e eu pude ver o valor da garrafa: 86 euros. Arregalei os olhos. Mas pensei e fiquei feliz por ele. Aquilo era um grande presente, fosse para ele mesmo ou para alguém com quem ele realmente se importasse. Torci para que fosse para uma comemoração com a mulher dele ou com um amigo de infância. Era uma bela compra.
Depois, uma moça negra, linda, com idade próxima à minha. Ela levava dois pacotes de M&M’s recheados de amendoim, três vidros de esmalte e um perfume masculino. Também era uma compra invejável. Ela gastou 42 euros. Imaginei que o perfume era um presente para o irmão e os chocolates eram para os sobrinhos. Os esmaltes certamente eram dela, cujas unhas estavam impecáveis.
Na sequência, um rapaz com cara de nórdico, de quase 2 metros de altura e seus 20 anos. Ele levava uma garrafa de vodca Absolut e um saco de Twix. Evidentemente, era tudo para ele. Tudo bem, ele está aproveitando a vida. Eu, há dez anos, também podia tomar algumas doses de vodca sem querer morrer no dia seguinte e também podia comer um saco de Twix e conseguir entrar nas minhas calças na semana seguinte. Ele faz bem em fazer isso enquanto pode. Foram 26 euros.
A quarta era uma senhora espanhola, de cabelos presos num belo coque. Ela levava alguns cremes caros para o rosto, um batom Chanel e bichinho de pelúcia lilás. Uma neta. Uma neta de 2 ou 3 anos, imagino eu. Um dos cremes é para a filha. Mais uma compra interessante. No visor, 187 euros.
Por fim, a moça da minha frente. Era miudinha, bonita, de olhos azuis e cabelos bem pretos. Devia ter uns 35 anos, apesar de ser tão pequena. Eu não conseguia ver o que ela tinha no cesto. Imaginei que podia ser um perfume. Um queijo bom. Ou aquelas balas de ursinhos de gelatina para um filho que ficou em casa.
Até que a compra apareceu. Meu peito foi tomado automaticamente por aquele sentimento de pena. 94 euros! 94 euros com aquilo. Tanta coisa boa, tanta gente para presentear e ela fez aquela escolha tão infeliz. Que tristeza. 94 euros em cigarros. Desejava coisa melhor para ela. Que pena, moça, que pena.

O poeta do 5696 - Humberto Werneck

Por detrás do balcão, o jovem atendente botou na cara um ar de perplexidade quando perguntei se naquele arquivo havia catálogos telefônicos para consultas. Foi como se, numa farmácia, alguém tivesse pedido creme rinse em vez de condicionador, ou dentifrício em vez de pasta de dente. Você sabe: essas palavras em desuso, teias de aranha verbais que por inércia uns desavisados seguem utilizando, e que permitem datá-los, tanto quanto o isótopo radioativo carbono 14 data ossadas de animais pré-históricos.
Pois bem, foi um efeito assim que produzi ao perguntar ao moço por catálogos telefônicos. Já estava informado de que há muito as companhias telefônicas, denominação arcaica das atuais operadoras, não mais editam e distribuem aqueles livrões com listas de assinantes e de endereços, além de anúncios, como fizeram por quase um século, publicações cada vez mais obesas que você devolvia ou jogava fora ao receber a edição atualizada. Eu só não sabia que se tornariam úteis, quando não indispensáveis, para o pesquisador em que, por vocação e ofício, acabei me transformando.
Tomei ciência disso no começo dos anos 90, quando me propus o desafio de contar em livro a história de um artista, há muito falecido, sobre o qual bem pouco se sabia, o compositor, poeta e, sobretudo, extraordinária figura que foi Jayme Ovalle. Não quero valorizar meu esforço, mas bem sei a batalha que foi garimpar seiva para as 400 páginas de O Santo Sujo.
Em dado momento, desesperado com a falta de pistas, sem saber ao menos dos lugares no Rio onde o paraense Ovalle passou a maior parte de seus 61 anos, ocorreu-me a ideia de consultar velhos catálogos, exemplarmente conservados num Museu do Telefone que a Telerj mantinha no bairro do Catete.
Os percursos do protagonista e de vários outros personagens puderam, assim, desenrolar-se sobre chão seguro. Com enorme proveito, para não falar na emoção, pôde o biógrafo refazer, ele mesmo, passos de Ovalle nas ruas do Rio de Janeiro, e, não raro, conhecer prédios onde viveu - em especial aquele, na praia de Copacabana, onde morreu em setembro de 1955.
Um catálogo telefônico daquele ano permitiu localizar o edifício, e, a partir dessa informação, estabelecer contato com a moradora do apartamento 901, uma senhora estrangeira que ficou encantada ao saber que entre suas paredes vivera um artista. Abriu-se caminho para que mais tarde eu voltasse ali, dessa vez com a viúva de Ovalle, a escritora americana Virginia Peckham, em visita ao Rio depois de muitos anos.
Temerosa de emoções além da conta, essa mulher decidida e aparentemente dura relutou em aceitar meu convite para voltar ao lugar onde, mal entrada nos seus 30 anos, e mãe da pequena Mariana, de apenas 3, de repente se achou sozinha na vida. Consegui convencê-la, e só assim pude saber que naquele corredor, batido pelo vento do mar, Ovalle ficava a fumar e a ler jornal, e que em tal quarto e em tal posição ficava a cama onde morreu dormindo. Não esqueço, na saída, a tremura dos dedos de Virginia no meu braço, enquanto me falava da viagem, naquele mesmo elevador, do corpo inerte de seu companheiro.
Década e meia depois, às voltas com outro personagem, outra vez me valem os catálogos telefônicos, consultados nas instalações modernas onde a operadora Oi, herdeira da finada Telerj, conserva e digitaliza as joias do Museu do Telefone. A ela pretendo recorrer para mais rodadas de pesquisa, assim como voltarei aos catálogos de Belo Horizonte, guardados pela mesma empresa na capital de Minas. Chega a me escandalizar que instituições incumbidas de zelar pela memória de um povo não se tenham dado ao trabalho de preservar esse tipo de documento, o único onde é possível encontrar determinado tipo de informação.
De saída, pude conhecer os dois primeiros endereços, dos quatro que teve Carlos Drummond de Andrade no Rio de Janeiro, para onde se mudou em 1934 e onde morreria há quase 30 anos, em 17 de agosto de 1987, 12 dias depois de perder a filha única, Maria Julieta.
Dos dois últimos pousos (em Copacabana, como os anteriores) eu já sabia: na rua Joaquim Nabuco (“Ó esplêndida lua debruçada sobre Joaquim Nabuco, 81...”), onde viveu, até 1962, numa casa de dois pavimentos em seguida posta abaixo, e, não longe dali, um apartamento no 60 da Conselheiro Lafaiete. Mas não sabia que antes da Joaquim Nabuco houve uma casa, já varrida da paisagem, no 8 da República do Peru, que então se chamava 9 de Fevereiro; e, antes dela, mais de uma casa de vila no 412 da avenida Princesa Isabel, àquela altura simples rua, a Salvador Correia, pois não fora ainda duplicado o túnel que liga a cidade a Copacabana.
Ali está, modificada mas ainda em pé, a casa 9, onde o poeta, sua mulher, Dolores, e Maria Julieta se instalaram em 1934, assim como a de n.º 15, que em catálogo subsequente figura como tendo sido o segundo pouso, na mesma vila, do assinante Andrade, dr. C. Drummond.
Novas consultas revelariam uma curiosidade: do primeiro ao último endereço que teve no Rio, acompanharam o poeta os mesmos quatro algarismos finais de seus telefones: 5696. Alguém aí, afeito aos meandros da numerologia, vislumbraria chave na insistência desse número na vida de um homem de letras?

terça-feira, 16 de julho de 2019

Barracos extraliterários - Humberto Werneck

No mundo da literatura, o mais sensacional nem sempre está nas páginas do livro.
Nas histórias que aqui vão, bons autores revelam-se também bons personagens
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“Poetinha de merda”
Difícil, hoje, imaginar Carlos Drummond de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda, dois gigantes das letras nacionais, envolvidos numa troca de sopapos. Pois foi o que aconteceu, não se sabe ao certo se nos últimos dias de 1934 ou nos primeiros de 35. O cenário do entrevero: o prédio onde hoje funciona a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, na Cinelândia, que abrigava então o Ministério da Educação e Saúde Pública. 
O ministro era Gustavo Capanema, e Drummond, seu chefe de gabinete, por ele trazido de Belo Horizonte em meados de 1934. O poeta, aos 32 anos, já era casado com Dolores e pai de Maria Julieta. Tinha dois livros publicados, Alguma Poesia, de 1930, e Brejo das Almas, de 1934. 
Sérgio Buarque, da mesma idade, era jornalista e estava a meses de conhecer Maria Amélia Alvim, com quem se casaria em 1936 – ano, também, de sua estreia nas livrarias, com aquela que ficaria sendo a sua obra mais conhecida e celebrada, Raízes do Brasil.
Solteiro, já deitara raízes de outra natureza: era pai de um filho que jamais chegaria a conhecer, gerado nos anos em que viveu em Berlim, Sergio Ernst, o “irmão alemão” em torno do qual se passará o romance homônimo de Chico Buarque. 
Sem serem íntimos, proximidade que o temperamento reservado do poeta não facilitaria, Sérgio e Carlos eram amigos – camaradagem que o supracitado entrevero viria turvar por algum tempo. Motivo do bafafá: uma namorada de Sérgio, que trabalhava no ministério, e para a qual o chefe de gabinete teria arrastado a asa. 
“A última do Sérgio”, contou Manuel Bandeira, amigo de ambos, a Gilberto Freyre, numa carta de 17 de janeiro de 1935: “A namorada (irmã da Germaninha) foi requisitada para trabalhar no Ministério da Educação. O Carlos Drummond engraçou-se com ela, uma coisa à toa, e o nosso Sérgio entrou pelo gabinete um belo dia e atracou-se com o Carlos. Acudiu o pessoal, o Peregrino levou uma sobra na cara, e o Sérgio gritava indignado para o Carlos: ‘Seu poetinha de merda!’”.
A Germaninha citada por Bandeira era a cantora Germana Bittencourt, falecida em 1931, e o camarada para quem sobrou tabefe, o escritor Peregrino Júnior, futuro membro da Academia Brasileira de Letras. 
A maior vítima da cena de pugilato poderiam ter sido os óculos de Sérgio Buarque de Holanda, que no empurra-empurra lhe saltaram do rosto. Só não foram esmigalhados porque o jornalista Prudente de Morais, neto, amigo dos contendores, os recolheu a tempo. No dia seguinte, o chefe de gabinete do ministro mandou entregar os óculos na casa do adversário. 
Ao contrário do que se chegou a escrever, o incidente não comprometeu a amizade de Sérgio e Drummond, restabelecida ao cabo de um período de estranhamento. Sobre ele, Chico Buarque chegou a conversar com o poeta, numa rememoração a que não faltaram gargalhadas. Lamentavelmente, talvez já não se possa saber quem era a moça pela qual Sérgio e Carlos se engalfinharam.
Talvez Ruth, a mais nova das irmãs de Germaninha, a quem Bandeira, em outro escrito, se refere carinhosamente, e que veio a se casar com um futuro brigadeiro, o qual, como o J. Pinto Fernandes do poema de Drummond, não tinha entrado na história.
Tão difícil quanto imaginar aquela briga, seria hoje escalar, entre os escribas em atividade do País, uma dupla cuja estatura literária pudesse comparar-se à de Sérgio Buarque de Holanda e de Carlos Drummond de Andrade.
*
Bofetada no rosto
Outro barraco memorável, embora sem pancadaria, foi aquele que envolveu Manuel Bandeira e um casal de amigos seus: a cantora Elsie Houston, meio brasileira, meio americana, e seu marido, o poeta surrealista francês Benjamin Péret. Quando Elsie se matou em Nova York, em 1943, Bandeira escreveu pequeno e comovido registro no qual menciona uma briga que os separou por anos. A moça, conta, “uma vez, na minha casinha de Santa Teresa, teve um gesto cujo realismo sacrílego encheu-me de revolta e levou-me a cortar relações com o casal”. 
Que sacrilégio teria sido aquele? Bandeira, discreto, preferiu não dizer, mas outro relato, do poeta Murilo Mendes, permitirá fechar a história, ao revelar, não os santos, mas o milagre: “Contaram-me que, em pleno furor do movimento ‘modernista’, na época em que o cúmulo da inteligência e da elegância consistia em se dizer ateu, a-religioso, anticristão etc., um casal de modernistas em delírio (surrealistas) foi visitar Manuel Bandeira (...). Entrando no quarto do poeta, avistaram os dois um crucifixo e ficaram ‘escandalizados’, exigindo do poeta que o atirasse fora. Bandeira indignou-se e convidou o casal a dar o fora logo”.
Da parte de Benjamin Péret, pelo menos, não se tratou de uma agressão isolada. O mesmo Murilo deu notícia de episódio semelhante, ainda mais grave, num dos artigos do livro póstumo Recordações de Ismael Nery: “Em 1929 realizava-se na casa de conhecido poeta uma reunião a que comparecia todo o mundo literário e artístico do Rio e de São Paulo. De repente surge uma discussão sobre assuntos religiosos e um escritor surrealista francês, de passagem pelo Rio, tipo fisicamente forte, arrogante, insulta o Cristo. Ismael aplica-lhe uma bofetada no rosto. Produz-se uma enorme confusão. Os dois contendores são apartados, e a reunião é dissolvida. Foi o apogeu do modernismo”. 
O objeto, de marfim, que tanto horrorizou Elsie e Benjamin era da particular estima de Bandeira, que a ele dedicou um poema, O Crucifixo: “(...) Hoje, em meu quarto colocado,/ ei-lo velando sobre mim./ E quando se cumprir aquele/ instante, que tardando vai,/ de eu deixar esta vida, quero/ morrer agarrado com ele./ Talvez me salve. Como – espero –/Minha mãe, minha irmã, meu pai”. 
Com Péret, não teve volta, mas com Elsie as mágoas puderam se apagar no coração de Bandeira. “Um dia”, contou ele, “em plena Avenida Rio Branco, nos encontramos tão de surpresa, o sorriso de Elsie era tão cordial que, antes de qualquer resolução consciente de minha parte, o abraço veio e fizemos as pazes.”

Estepe - Antonio Prata

A ideia de manter um texto reserva foi do meu pai: 'Vai que a sua mulher te abandona e tudo o que sai são lágrimas?'
Esta não é a crônica que deveria estar aqui: é uma crônica estepe. Se você a está lendo, ludibriado leitor, é porque a outra furou, ou melhor, eu furei e, nesta semana, por razões que desconheço, deixei de entregar minhas maltraçadas ao jornal.
A ideia de manter um texto reserva, bem guardado no porta-malas da redação, foi do meu pai: "Vai que, justo no dia de mandar a coluna, acaba a luz? Vai que te surge uma pedra no rim? Vai que a sua mulher te abandona, você senta pra trabalhar e tudo o que sai são lágrimas e letras do Tim Maia? Deixa uma crônica prontinha com as redatoras, pra uma emergência. Vai por mim".
Eu fui, ou melhor, estou indo: hoje é dia 22 de agosto de 2011 e aqui me encontro, enchendo este estepe com o parco ar de minha inspiração, de modo que nenhum prego, buraco ou pedra no meio do caminho me impeça de, no futuro próximo ou distante, levá-los com segurança e conforto de uma margem a outra desta página.
Hoje de manhã, quando decidi me dedicar à empreitada, senti aquele pequeno orgulho cívico de quem acaba de marcar uma visita de rotina ao dentista ou manda lavar a caixa-d'água, mas aos poucos, enquanto escrevo, percebo a alegria da cautela se escondendo sob a nuvem preta do temor: só consigo pensar no que terá acontecido para que eu tenha deixado de enviar a crônica.
Lembro do dia, faz uns três anos (ou seis? Ou 49?), em que fiz um seguro de vida. Lembro do sorriso estúpido do gerente ao anunciar que, em caso de morte, o "prêmio" seria de R$ 200 mil. "Taí um prêmio que eu não quero ganhar", eu disse, ao que ele me respondeu, seriíssimo: "Não, não, no caso você não ganha nada, quem ganha é o beneficiário". Pensei em simular uma indignação, em exigir que a quantia fosse depositada nos bolsos do meu traje mortuário, tendo o gerente, pessoalmente, o cuidado de disfarçar a bufunfa com algumas flores do caixão, mas respirei fundo e só assinei ao lado do xizinho, um pouco incomodado por saber que eu valia mais morto do que vivo.
Céus, veja o poder daquela nuvem negra: comecei com uma queda de energia e, quatro parágrafos adiante, estou sete palmos abaixo da terra. Não é para tanto. Seria de muito mau gosto o jornal publicar este texto se eu tivesse batido as botas. Donde concluo, aliviado, que se você, póstero leitor, estiver lendo agora a palavra "carambola", seja em 2012, 2021 ou 2043, é porque não morri. Talvez esteja no escuro, talvez tenha uma pedra no rim, quem sabe minha mulher me abandonou e eu me encontre na rua da amargura, bebendo Cynar com Fanta Uva e cantando "Me Dê Motivos", mas estou vivo.
Estou vivo e preso ao dia 22 de agosto de 2011. Vocês estão vivos e deslizando rumo ao futuro, como pinguins sobre placas de gelo. Ó aí, lá vou eu querendo ser trágico de novo. Deixa disso, Antonio: se o futuro é insondável, seja ao menos um pouco otimista. Ok, serei: quem sabe este texto está sendo publicado porque anteontem ganhei o Oscar de melhor roteiro e, numa ressaca de Dom Pérignon, fui incapaz de escrever uma linha? É isso. Semana que vem eu conto como foi a festa e como resisti às insistentes cantadas de Scarlett Johansson, que, mesmo sessentona e um pouco acima do peso, ainda bate um bolão. Até.

Lá vou eu em meu oval - Antonio Prata

Na semana passada, parado em meio a centenas de motoristas, tomando parte nesta sinfonia da cretinice humana chamada engarrafamento, me dei conta de uma mudança pequena, porém sintomática, na epiderme dos automóveis (ou autoimóveis?): os adesivos desapareceram.
Alguns anos atrás, praticamente todo mundo usava o carro para mandar uma mensagem ao mundo. A bandeira da Jamaica informava aos demais cidadãos que ali dentro daquele Fusca havia um cara que curtia reggae, provavelmente fumava maconha e, entre passar as férias em Berlim ou Itacaré, preferiria Itacaré. O “Je parle”, da Aliança Francesa, informava que ali dentro daquele Uno havia uma garota que curtia Godard, provavelmente usava boina e, entre um piquenique no parque e uma ida ao Playcenter, ficaria com o piquenique.
“OPTei” informava a todos que o motorista da Variant era petista. “Deus é fiel” informava a todos que o motorista da Brasília era cristão – embora, por anos, eu tenha pensado que a ideia fosse mostrar que Deus era corintiano. Semana passada, porém, olhei para uns 15 carros à minha volta e encontrei um único adesivo, “Di Cunto soluções em logística” – provavelmente dirigido pelo próprio senhor “Di Cunto”.
Me permitem uma rápida sociologia de botequim? (A crônica, assim como o engarrafamento, é um ambiente quase tão propício à sociologia de botequim quanto o botequim). Minha hipótese é que os adesivos foram engolidos pelas mídias sociais. Antes, estávamos soltos na multidão. Era preciso afirmar nossas individualidades no meio da geral. Como não sabíamos quem, ao nosso redor, era católico, maconheiro, cinéfilo, petista ou tucano, o público do nosso marketing pessoal era a cidade inteira, o carro era nosso outdoor particular. Com Facebook, Twitter, Instagram,
Tinder e que tais, a gente comunica o que a gente é (ou pensa que é, ou finge que é) para os que a gente escolheu. Que se dane o cara do carro ao lado, da frente ou de trás. Meu público, espalhado pelo globo, se concentra na tela do meu celular. (Será coincidência que um dos últimos adesivos a ficar na moda foi o da familinha, a afirmação do núcleo familiar?)
Nos meus dias mais otimistas, acho que essa compartimentação é positiva. Trinta anos atrás, se um cara era o único gay ou o único heavy metal ou o único vegetariano de um vilarejo de 500 habitantes, ele se achava um freak. Hoje, com uns cliques, ele encontra seus pares – no vilarejo ao lado ou do lado de lá do Atlântico.
Nos meus dias mais pessimistas, no entanto, fico me questionando sobre qual será o preço de nos comunicarmos cada vez mais com os nossos semelhantes. Não será essa uma nova forma de vilarejo? O vilarejo dos iguais? Será que essa mesma segmentação que me faz prescindir da opinião do carro ao lado não cria um mundo mais intolerante, mais raivoso, menos aberto à diversidade?
“Lá vou eu em meu eu oval” é um palíndromo da Marina Wisnik. Um frase circular que veste como uma luva – ou como uma uva? – o nosso universo umbigo, onde parece que quem não é igual a mim pode ser trollado, linchado ou atropelado por um caminhão.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Pact, pact, pact - Luis Fernando Verissimo

Era simples. Apenas uma mudança de acentuação, o samba depurado a uma batida nova. Fácil. Mas então por que era tão difícil? Me lembro dos anos 50, nós vivendo nossos dias de Cuba Libre e grandes ressacas, e tentando aprender. Como era mesmo? Pact, pact, pact, pact-pact, pact...
Não era só a batida, era outro mundo que se inaugurava. Um mundo novo, mas com precursores. Lúcio Alves, Dick Farney e Mário Reis foram exemplos de antitenores que cantavam do mesmo jeito suave do João Gilberto, embora não espaçassem as músicas à sua maneira revolucionária. Nada representava melhor o clima musical da época no Rio do que o Johnny Alf cantando e tocando na boate do Hotel Plaza, na Princesa Isabel, para uma plateia quase toda de músicos. Todas as madrugadas.
Elizete Cardoso, grande dama do samba tradicional, que se apresentava regularmente na boate “Cangaceiro”, contribuiu indiretamente para o nascimento da bossa nova. Foi ela que gravou Chega de Saudade, onde o violão do João fazia sua primeira aparição.
Acho que, forçando só um pouco a comparação, pode-se dizer que Elizete foi no samba o que Miles Davis foi no jazz, um líder de novidades e tendências. Depois do histórico Chega de Saudade ela gravou Elizete Sobe o Morro, inaugurando outra onda, a de sambistas autênticos, muitos esquecidos nos morros. Miles também inaugurou vários movimentos, o também histórico Birth of the Cool, depois uma reação ao “cool”, depois a fusão com o rock, etc. Sempre à frente.
Vi o João Gilberto ao vivo só uma vez. Um grande auditório lotado, em São Paulo. Umas três mil pessoas. Ele sozinho em cima do palco. Demora a começar. Um silêncio tenso da plateia. Nenhuma tosse, nenhum ranger de cadeira. Qual será o problema? Ele nos odeia, é isso. Ele vai nos ... Finalmente, João Gilberto começa a cantar. Todos voltamos a respirar, aliviados. E eu me pergunto que outra pessoa no mundo mereceria aquela reverência?

terça-feira, 9 de julho de 2019

Patinete não é mais aquela - Humberto Werneck

Na cidade onde nasci e me criei, Belo Horizonte, a ninguém ocorreria pôr em dúvida o gênero a que pertencia a palavra patinete. A engenhoca não-motorizada sobre a qual a minha geração atravessou toda uma década, a de 1950, era a patinete, substantivo feminino, e estávamos conversados. Sem qualquer contestação ou solavanco lexicográfico, a mesma certeza deslizava também no Rio de Janeiro, conforme atestam contemporâneos meus que lá cresceram – como, de resto, em todo o território nacional, cujos extremos norte e sul, aliás, eram então o Oiapoque e o Chuí, e não, como se soube depois, o Chuí e o monte Caburaí, em Roraima. Nossa certeza se apoiava não apenas numa prancha de madeira resistente, mas na unanimidade dos dicionários em circulação – o que, de resto, segue acontecendo.
Mas acontece também que, por algum motivo, uma quantidade crescente de brasileiros, talvez já majoritária, vem de decidir que a graciosa patinete é agora o impetuoso patinete, macho ao ponto de exigir capacete e limite de velocidade. Em outras palavras: patinete, meus amigos, não é mais aquela. Mesmo gente bem rodada tem se convertido a um modismo que, tudo indica, veio para ficar. “Quando eu comprar o meu, vou usar o patinete, porque não sou um arrogante e antiquado doutrinador”, comunica na internet um consultor para assuntos de língua portuguesa.
Para quem leve a sério a ministra Damares, aquela do Jesus na goiabeira, tornou-se imperioso revestir de azul o que até há pouco era indubitavelmente rosa. Mais difícil, para a ministra e seu rebanho, e mesmo francamente embaraçoso, será admitir que o patinete vem a ser um cabuloso caso de transgênero vocabular.
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Já confessei, inclusive por escrito, a mania que arrasto, desde a infância, de ler dicionário. No começo, admito, era guiado por impulsos pecaminosos. Minhas investidas no Caldas Aulete e no Laudelino Freire, cada um deles com seus cinco tomos, eram quase sempre uma excitada garimpagem de palavras ditas “feias”, aquelas que não convinha proferir, numa treva mineiro-católica em que até mesmo “seio da família” poderia acender em nós, meninos, uma hipótese de lubricidade.
A fase passou, mas não o vício solitário de catar palavras. Não tardei a me dar conta de que o dicionário não precisa ser apenas uma caixa de primeiros socorros, lúbricos ou não, mas também manancial para quem queira explorar as virtualidades da língua, guiado pela suspeita de que a cada coisa corresponde uma palavra.
Também nisso, porém, me parecia haver um tanto de pecaminoso; no mínimo, perda de tempo de quem deveria catar ocupação mais útil em vez de colecionar esquisitices do tipo hápax, alpondras, amaxofobia.
Foi uma alegria, bem mais tarde, descobrir que Monteiro Lobato e Godofredo Rangel, escritores de nomeada e cavalheiros acima de qualquer suspeita, também eram dados à leitura de dicionários. “Estou lendo e marcando as palavras úteis para o meu caso, os sentidos figurados aproveitáveis nesta ‘nossa’ literatura, etc.”, escreveu Lobato ao romancista de Vida Ociosa. “Ainda estou no ‘A’ e já tenho belos achados. É um verdadeiro mariscar de peneira.”
Empolgado, a certa altura o criador do Sítio do Picapau Amarelo chegou a pôr de lado a feitura de contos para embrenhar-se no Aulete. Já então na letra M, explicou ao amigo: “Dá-me mais prazer isto, além das vantagens que traz – prazer pitoresco, variado como o de um general que assistisse ao desfile de 70 mil homens não uniformizados, cada um vestido dum jeito e lá com sua cara diferente”.
Nem por isso o criador do Sítio do Picapau Amarelo saía por aí, semostrador, a disparar as excentricidades verbais que desenterrava, como costuma fazer a Solange, minha prima que adora falar difícil, à qual, não por outro motivo, já dediquei meia dúzia de crônicas.
“Depois do enriquecimento vocabular é preciso que aprendamos a bem gastar o acumulado”, ensinou Lobato, “senão viramos nouveaux riches e insensivelmente nos metemos a ostentar riqueza vocabular.”
Pena que não esteja mais aqui o Lobato, para nos dizer se patinete fica melhor de azul ou cor-de-rosa.
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Já que você me acompanhou até aqui, me permita mudar o tom e desatar declaração de amor pelo objeto da conversa torta que desenrolei:
Tomar a palavra como coisa viva, pulsante, não como vogais e consoantes na tela ou na folha de papel; tomá-la como vocais, soantes, não como pobre envoltório de informações cerebrais. Nos olhos, na boca, nos ouvidos, na pele dos dedos e do corpo, para sentir antes de compreender. Considerá-la como fim, bem mais que meio, como destino bem mais que veículo. E, gostosa brincadeira, repeti-la, repeti-la, repeti-la à exaustão, até que à força da repetição o significado se esvaia, se desprenda, como a ostra de sua concha, e em seguida pescar, no aquário das sonoridades, uma nova ostra para aquela concha. Mais justa, exata e palatável que a primeira, a deslizar na língua, em todos os sentidos. Quem sabe, trocar os habitantes de diversas conchas para que eles, em casa nova, se carreguem de energia como bateria a que se dá um novo sopro: onde isto ficará melhor? Despir conteúdos cansados de seus invólucros, buscar para eles a vestimenta mais precisa na gôndola dos magazines verbais, no mar das palavras em situação dicionária (obrigado, João Cabral), e provar, prover, provocar, esgotar as mil possibilidades desse espelho em que se ajusta o foco da perfeição.
Em nome do prazer, ignorar categorias – gramaticais, ortográficas, sintáticas, sexuais. Como quem descobre o som de uma temperatura, o tempero da temperatura na boca sorvendo o líquido não suficientemente frio: a cerveja meio quente, dizia o poeta Hélio Pellegrino, não está morna, está môrna. Pense, em suma, no que fizeram imigrantes japoneses com aquele bairro paulistano, e faça o mesmo com as palavras: tome a liberdade. 

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...