segunda-feira, 6 de maio de 2019

O Rock e O Preconceito - Paulo Germano

"Não há como se levantar. Suas mãos estão atadas; suas pernas, amarradas

A luz brilha em seus olhos. Você enxerga o fio da navalha

E abre a boca para chorar. Não adianta: a lâmina vai entrar!"

Como você interpreta esses versos? Que cena você enxerga nessa meia dúzia de linhas?

Em 1985, uma associação de mães liderada por Tipper Gore, mulher do então senador Al Gore, sacudiu os Estados Unidos ao abrir uma guerra pública contra bandas de rock e suas gravadoras. Na avaliação dessas mães, letras como a reproduzida acima, do grupo de heavy metal Twisted Sister, exaltavam o estupro, a violência, as drogas, o álcool, o sexo e - que horror! - a masturbação na adolescência.

A ideia era proibir as rádios de tocar uma enorme lista de músicas. E também obrigar as gravadoras a inserir um selo de "alerta aos pais" em capas de discos malcriados - esse selo vingou, existe até hoje. Foi um rebuliço nacional: senadores apoiavam a iniciativa, fãs de rock protestavam nas ruas, a mídia repercutia o caso dia e noite, músicos se enfureciam em entrevistas.

Até que, no fim do ano, o Senado convocou uma audiência histórica com a presença dos astros John Denver, Frank Zappa e Dee Snider - o vocalista e compositor do Twisted Sister. As representantes da associação de mães compareceram indignadas, rugindo em defesa da família e dos valores cristãos.

Ao explicar a letra de Under the Blade (Embaixo da Lâmina), aquela reproduzida no início do texto, Dee Snider revelou que a música fora composta enquanto o guitarrista de sua banda estava no hospital, apavorado porque enfrentaria uma cirurgia na garganta. Não havia qualquer menção a estupro ou violência, como a líder das mães, Tipper Gore, insistia em alegar.

- Se você procurar na letra estupro e violência, pode encontrar. Mas, se procurar cirurgia, vai encontrar também. A única violência da música está na cabeça da senhora Gore - concluiu o metaleiro, antes de um sonoro "oooh" ribombar na plateia.

Snider foi certeiro porque, de fato, é possível enxergar praticamente qualquer coisa em qualquer situação - vai depender apenas da predisposição que houver para isso. Se, na sua cabeça, um cabeludão com cara de louco só pode ser má influência para os jovens, então você verá má influência em tudo o que Snider fizer.

Essa é a manifestação mais literal de preconceito - que nada mais é do que um conceito, ou ponto de vista, formado antes de se obter o conhecimento necessário sobre determinado assunto. Quando o preconceito nos controla, a tendência é sempre enxergarmos na situação um viés que confirme nossas crenças (ainda que elas estejam erradas). Porque estamos predispostos a isso.

Por exemplo:

Se você tem certeza de que todos os males da história da humanidade são culpa da esquerda, você achará uma forma de encontrar esquerda no nazismo. Se sua convicção é de que os empresários são vilões da sociedade, você verá terríveis privatizações na lei que concede à iniciativa privada a administração de praças. Se você se irrita com a ciência - porque ela prova, por exemplo, que transgêneros existem -, então você encontrará em Adão e Eva a explicação para a humanidade. E acreditará que vacina faz mal à saúde e também que a Terra é plana.

O preconceito é o maior inimigo da verdade, porque ele cega: não há o que alguém possa dizer, fazer ou mostrar para o preconceituoso rever suas certezas. E suas certezas são invioláveis não porque são verdadeiras, mas justamente porque, para o preconceito prosseguir, a verdade precisa ser ignorada.

Depois do levante daquelas mães americanas, as gravadoras toparam incluir nos discos o selo de alerta aos pais. "Conteúdo explícito", avisa a etiqueta, que ainda hoje acompanha as obras com linguagem desbocada. O curioso é que esses discos, para desespero da senhora Gore - e regozijo de Dee Snider - dispararam nas vendas. Esgotaram nas lojas, chegaram ao topo das paradas. Porque os jovens só queriam comprar "conteúdo explícito".

Bandas que não precisavam do selo passaram a implorar às gravadoras que lhe dessem a etiqueta. Algumas enfiaram palavrões em suas letras só para ganhar o tal rótulo. E assim o rock'n'roll mostrou o destino justo para toda forma de preconceito: o descrédito e a indiferença que ainda sonho ver de novo.

domingo, 5 de maio de 2019

Super-heróis - Luis Fernando Verissimo

O anúncio era pequeno. “Você pode ter mais poderes do que pensa” e um número de telefone. Os primeiros telefonemas só mostravam curiosidade. “Mais poderes, como?” O primeiro a aparecer no pequeno escritório olhou para todos os lados, desconfiado, fez a mesma pergunta – que história é essa de mais poderes? – e saiu. Só o quinto visitante do pequeno escritório mostrou mais do que apenas interesse. Contou que, desde criança, tinha a certeza de que conseguiria mover objetos a distância, só com a vontade.
*
– E já conseguiu? – perguntou a moça chamada Jandira, que o recebera no pequeno escritório.
– Não. É só um sentimento que eu tenho. Já estou desistindo.
– Não faça isso. Nós ajudamos você a desenvolver seu potencial. Sabe quem foi que começou aqui conosco? O Piroman.
– Quem?
– O Homem Chama. Ele passou meses em que só conseguia se transformar numa fagulha. Hoje, é famoso pela sua capacidade de autocombustão na luta contra o crime. Persistiu e hoje, com nossa ajuda, está preparando um rapaz, que se chamará Centelha, para assisti-lo na luta contra o crime.
– Vocês ensinam pessoas com poderes especiais para desenvolver talentos que desconheciam, é isso?
– É isso. Se num período de um ano não tivermos sucesso, devolvemos o dinheiro. 
– O que seria um exemplo de fracasso?
– O Suarento. Ele estava convencido de que suava tanto que poderia usar esse poder, de alguma maneira, na luta contra o crime. Não conseguiu. E nós não conseguimos encontrá-lo para devolver seu dinheiro. Pobre do Valdir. Era simpático. Nojento, mas simpático.
*
Quais seriam alguns exemplos de sucesso da empresa no ramo de produzir super-heróis? Jandira respondeu com pergunta:
– O senhor se lembra do nome de alguém com superpoderes?
– Hmm... Super-homem... Batman...
– Claro. A velha-guarda. Nem se sabe se os veteranos ainda estão em atividade. Mas e os novos? Desde o Homem-Aranha não apareceu nenhuma novidade digna de nota, Homem-Aranha, por sinal, era produto nosso. Pisaram nele na semana passada, estamos providenciando um substituto. O senhor, por acaso, não gostaria de ser o novo Homem-Aranha?
– Sofro de vertigem nas alturas. Sinto que o meu poder oculto é a telecinesia mesmo.
– Que pena.
– Posso lhe fazer um pergunta?
– Faça.
– Você falou em tentar encontrar um cliente para devolver o dinheiro dele. Notei que esse escritório tem só uma mesa e duas cadeiras duras e um ar-condicionado quebrado. Posso deduzir que vocês estão prontos para fugir da polícia assim que descobrirem essa tramoia.
– Pode. O poder da dedução é o que mais nos incomoda. 

sábado, 4 de maio de 2019

Um livro que li - Marcelo Rubens Paiva

Seu Luizinho morreu. Não sabia o sobrenome. Nem a profissão. Desde que me mudei para o condomínio o via saudável, grisalho, aposentado. Aposentou-se cedo e tinha uma qualidade de vida invejável para a maioria dos aposentados brasileiros.
Tinha uma Harley-Davidson não muito chamativa. Por vezes, saía montado nela, como um rebelde sem causa. Não sei aonde ia. Um tempo depois, trocou por uma mais discreta, menor. Era flagrado na garagem limpando-a. Tinha todo o tempo do mundo...
Devia ter pouco mais de 70 anos quando morreu. Casado, com dois filhos e duas netinhas sempre de óculos escuros, branquinhas, com quem eventualmente ficava na piscina. Ele morava no quinto. 
Muitas vezes, subíamos o elevador juntos. Ele trazia pão francês, banido pelos nutricionistas, à base da “venenosa” farinha branca, frios e embutidos, banidos por clínicos, umas latinhas de cerveja e dois maços de cigarros, banidos por qualquer manual de medicina, de duas marcas diferentes: um para ele, outro para a mulher. Vida mansa...
Eu parara de fumar por obrigação, me sinto culpado toda vez que como um pão francês e tiro o miolo (a picanha do pão, dizem), não bebo em casa, fora de casa cada vez menos, e sempre traço uma guerra incansável contra a balança, inimiga persistente de cadeirantes, que danifica estética, autoestima e ombros.
Luizinho era amado por todos. No domingo, enquanto os veteranos jogam um futebol bonito de assistir e bem disputado na quadra com a garotada, ele ficava sossegado num banco. Nunca o vi jogar. Mas era um craque anos antes, dizem. Nunca faltou a uma partida. Era o amigão de todos. O mais querido. 
Tinha aquela risada gostosa, discreta, grave. Falava num tom de voz calmo. Nunca o vi afobado. Nunca o vi estressado. Nunca o vi reclamando, doente, mal-humorado, fechado, sempre sorria e amava meus filhos. Dava conselhos aos moradores que desabafavam em seus ouvidos confiáveis. Culto, leu de tudo, mas não se gabava.
Depois do futebol, todos costumam ir à lanchonete da piscina, pegam uma mesa grande e bebem cerveja e caipirinha por horas. A pinga mineira é um néctar. Sou presenteado sempre. O papo vai de futebol à política. Alguns assinantes do Estadão comentam minha coluna do dia anterior. Sei que a turma organiza pescas no Araguaia, até na Argentina. Luizinho ia junto, empolgado. A pescaria durava dias.
Numa ocasião, encostei na mesa, informei que não podia beber, pois tomava antibiótico. Como numa mesa-redonda futebolística, todos deram palpites: que não pode destilado, mas cerveja pode, que é lenda não misturar bebida com antibiótico, que não corta o efeito... 
Dei risada com seu Luizinho, o mais lúcido e sábio. Pois cada um tinha uma opinião diferente, e ficaríamos horas debatendo o enigma que intriga a civilização contemporânea: pode-se misturar álcool com antibiótico? Se, naquela mesa, cada um tinha uma opinião, imagine nos anais...
Um dia, seu Luizinho me provou uma das belezas da literatura. Solucionou outro enigma, o que intriga o mundo acadêmico: qual o papel da arte? Foi o maior elogio como profissional que recebi. Me disse, com os olhos brilhando: “Estou apaixonado pela sua mãe”. Minha mãe morrera. Ele se apaixonara pela personagem. 
Ela morou no bloco ao lado. Mudou-se no limiar do Alzheimer em 2006. Estava ainda lúcida, ficou rapidamente íntima do bairro e de todos, conquistou a gerência do banco, o povo da farmácia, da padoca, da banca, do ponto de táxi, os funcionários do prédio e os moradores, especialmente os mais velhos, quando se rebelou contra a mesa de truco que passava os finais de semana aos berros se xingando, desrespeitando famílias, crianças e idosos que almoçavam ao lado, com palavrões impublicáveis.
Ficou para as atas do condomínio o dia em que minha mãe mandou se calarem. Um jogador a ameaçou. Com que direito a senhora quer impedir nossa jogatina? Ele não sabia com quem se metia: a mulher que enfrentou destemida um levante militar e dormiu em Brasília nos primeiros dias de abril de 1964 com um revólver no colo, o Exército brasileiro, a tortura, o DOI-Codi, com a sociedade civil derrubou a ditadura e delimitou reservas indígenas, enfrentando grileiros, posseiros e mineradoras. 
Minha mãe encostou na mesa e a virou, derrubando cartas, copos, o balde de gelo, a garrafa de uísque. Nunca mais jogaram truco na beira da piscina. O grupo se desfez. O morador que a peitou se mudou. E a paz reina até hoje nos almoços da massa condominial.
Seu Luizinho se apaixonou pela minha mãe de Ainda Estou Aqui, livro que escrevi sobre ela e publiquei em 2014, então já no estágio avançado do Alzheimer, com quase 90 anos. Ela descia com cuidadoras numa cadeirinha de rodas, apagada, esquecida. Reconhecia um ou outro. Não se comunicava. Sua história estava contada em livro. 
Soube chocado que seu Luizinho morreu depois de uma operação. Entrou andando no hospital e saiu no caixão uma semana depois. A dor na perna virou operação no coração e se transformou em septicemia. Deve ter morrido sedado. Lembro-me, da última vez que nos vimos que ele não trazia cigarros da rua. Parara de fumar há um ano. Estava bem. Do mesmo jeito. Um pouco ofegante, de subir a ladeira íngreme com calçadas irregulares do bairro. 
Que estilo de vida... Até sua morte, apesar de triste, que deixa saudades, do futebol, dos moradores, dos amigos, da família, especialmente das netinhas, foi discreta. Eu poderia, num trabalho jornalístico, saber mais detalhes. Mas prefiro ficar com a imagem que fiz. Como se fosse protagonista de um livro que li. Imagem do vizinho sereno e feliz. Com a vida que, eu o dizia, tanto invejava.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Queda que as mulheres têm para os tolos - Machado de Assis



ADVERTÊNCIAEste livro é curto, talvez devera sê-lo mais.
Desejo que ele agrade, como me sai das mãos; mas é com pesar que me
vanglorio por esta obra.
Falar do amor das mulheres pelos tolos, não é arriscar ter por inimigas a
maioria de um e outro sexo?
Diz-se que a matéria é rica e fecunda; eu acrescento que ela tem sido tratada por
muitos. Se tenho, pois, a pretensão de ser breve, não tenho a de ser original.
Contento-me em repetir o que se disse antes de mim; minhas páginas
conscienciosas são um resumo de muitos e valiosos escritos. Propriamente
falando, é uma comparação científica, e eu obteria a mais doce
recompensa de meus esforços, como dizem os eruditos, se inspirasse aos leitores
a idéia de aprofundar um tão importante exemplo.
Quanto à imparcialidade que presidiu à redação deste trabalho, creio que ninguém
a porá em dúvida.
Exalto os tolos sem rancor, e se critico os homens de espírito, é com um
desinteresse, cuja extensão facilmente se compreenderá.


I


Il est des noeuds secrets, il est des sympathies.


Passa em julgado que as mulheres lêem de cadeira em matéria de fazendas,
pérolas e rendas, e que, desde que adotam uma fita, deve-se crer que a essa
escolha presidiram motivos plausíveis.
Partindo deste princípio, entraram os filósofos a indagar se elas mantinham o
mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.
Muitos duvidaram.
Alguns emitiram como axioma, que o que determinava as mulheres, neste ponto, 
não era, nem a razão, nem o amor, nem mesmo o capricho; que se um homem lhes agradava, era por se ter apresentado primeiro que os outros, e que sendo este substituído por outro, não tinha esse outro senão o mérito de ter chegado antes do terceiro.
Permaneceu por muito tempo este sistema irreverente.
Hoje, graças a Deus, a verdade se descobriu: veio a saber-se que as mulheres
escolhem com pleno conhecimento do que fazem. Comparam, examinam, pesam, e só se decidem por um, depois de verificar nele a preciosa qualidade que procuram.
Essa qualidade é... a toleima!


II


Desde a mais remota antiguidade, sempre as mulheres tiveram a sua queda para os tolos.Alcibíades, Sócrates e Platão foram sacrificados por elas aos presumidos do
tempo. Turenne, La Rochefoucauld, Racine e Molière, foram traídos por suas
amantes, que se entregaram a basbaques notórios. No século passado todas as
boas fortunas foram reservadas aos pequenos abades. Estribadas nesses
exemplos, as nossas contemporâneas continuaram a idolatrar os descendentes
dos ídolos das suas avós.
Não é nosso fim censurar uma tendência, que parece invencível; o que queremos é motivá-la.
Por menos observador e menos experiente que seja, qualquer pessoa reconhece
que a toleima é quase sempre um penhor de triunfo. Desgraçadamente ninguém
pode por sua própria vontade gozar das vantagens da toleima. A toleima é mais
do que uma superioridade ordinária: é um dom, é uma graça, é um selo divino.
"O tolo não se faz, nasce feito."
Todavia, como o espírito e como o gênio, a toleima natural fortifica-se e estende-se pelo uso que se faz dela. É estacionária no pobre-diabo, que raramente pode aplicá-la; mas toma proporções desmarcadas nos homens a quem a fortuna, ou a posição social cedo leva à prática do mundo. Este concurso da toleima 
inata e da toleima adquirida é que produz a mais temível espécie de tolos, os tolos que o acadêmico Trublet chamou "tolos completos, tolos integrais, tolos no apogeu da toleima."
O tolo é abençoado do céu pelo fato de ser tolo, e é pelo fato de ser tolo,
que lhe vem a certeza, de que, qualquer carreira que tome, há de chegar
felizmente ao termo. Nunca solicita empregos, aceita-os em virtude do direito
que lhe é próprio:
Nominor leo. Ignora o que é ser corrido ou desdenhado; onde quer que chegue, é festejado como um conviva que se espera.
O que opor-lhe como obstáculo? É tão enérgico no choque, tão igual nos
esforços e tão seguro no resultado! É rocha despegada, que rola, corre, salta e
avança caminho por si, precipitada pela sua própria massa.
Sorri-lhe a fortuna particularmente ao pé das mulheres. Mulher alguma resistiu
nunca a um tolo. Nenhum homem de espírito teve ainda impunemente um
parvo como rival. Por quê?... Há necessidade de perguntar por quê? Em
questão de amor, o paralelo a estabelecer entre o tolo e o homem de siso,

não é para confusão do último?


III


Em matéria de amor, deixa-se o homem de espírito embalar por estranhas
ilusões. As mulheres são para ele entes de mais elevada natureza que a sua, ou
pelo menos ele empresta-lhes as próprias idéias, supõe-lhes um coração como o
seu, imagina-as capazes, como ele, de generosidade, nobreza e grandeza.
Imagina que para agradar-lhes é preciso ter qualidades acima do vulgar.
Naturalmente tímido, exagera mais ao pé delas a sua insuficiência; o sentimento
de que lhe falta muito, torna-o desconfiado, indeciso, atormentado. Respeitoso
até à timidez, não ousa exprimir o seu amor em palavras; exala-o por meio de
uma não interrompida série de meigos cuidados, ternos respeitos e atenções
delicadas. Como nada quer à custa de uma indignidade, não se conserva
continuamente ao pé daquela que ama, não a persegue, não a fatiga com a sua
presença. Para interessá-la em suas mágoas, não toma ares sombrios e tristes;
pelo contrário, esforça-se por ser sempre bom, afetuoso e alegre junto dela.
Quando se retira da sua presença, é que mostra o que sofre, e derrama as suas
lágrimas em segredo.
O tolo, porém, não tem desses escrúpulos. A intrépida opinião que ele tem de si
próprio, o reveste de sangue frio e segurança.
Satisfeito de si, nada lhe paralisa a audácia. Mostra a todos que a ama, e solicita
com instância provas de amor. Para fazer-se notar daquela que ama, importuna-a, acompanha-a nas ruas, vigia-a nas igrejas e espia-a nos espetáculos. Arma-lhe laços grosseiros. À mesa, oferece-lhe uma fruta para comerem ambos, ou passa-lhe misteriosamente, com muito jeito, um bilhete de amores. Aperta-lhe a mão a dançar e saca-lhe o ramalhete de flores no fim do baile. Numa noite de partida, diz-lhe dez vezes ao ouvido: "Como é bela!", porquanto revela-lhe o instinto, que pela adulação é que se alcançam as mulheres, bem como se as perde, tal como acontece com os reis. De resto, como nos tolos tudo é superficial e exterior, não é o amor um acontecimento que lhes mude a vida: continuam como antes a dissipá-la nos jogos, nos salões e nos passeios.


IV


O amor, disse alguém, é uma jornada, cujo ponto de partida é o sentimento, e
cujo termo inevitável a sensação. Se é isto verdade, o que há a fazer, é embelecer a estrada e chegar o mais tarde possível ao fim. Ora, quem melhor do que o homem de espírito sabe parolar à beira do caminho, parar c colher flores, sentar-se às sombras frescas, recitar aventuras e procurar desvios e delongas?
Um caracol de cabelos mal arranjado, um cumprimento menos apressado que de costume, um som de voz discordante, uma palavra mal escolhida, tudo lhe é
pretexto para demorar os passos e prolongar os prazeres da viagem. Mas quantas mulheres apreciam esses castos manejos, e compreendem o encanto dessas paradas à borda de uma veia límpida que reflete o céu? Elas querem amor, qualquer que seja a sua natureza, e o que o tolo lhes oferece é-lhes bastante, por mais insípido que seja.


V


O homem de espírito, quando chega a fazer-se amar, não goza de uma felicidade completa. Atemorizado com a sua ventura, trata antes de saber por que é feliz! Pergunta por que e como é amado; se, para uma amante, é ele uma
necessidade, ou um passatempo; se ela cedeu a um amor invencível; enfim, se é ele amado por si mesmo. Cria ele próprio e com engenho as suas mágoas e
cuidados; é como o Sibarita que, deitado em um leito de flores, sentia-se
incomodado pela dobra de uma folha de rosa. Num olhar, numa palavra,
num gesto, acha ele mil nuanças imperceptíveis, desde que se trata de
interpretá-las contra si. Esquece os encômios que levemente o tocam, para
lembrar-se somente de uma observação feita ao menor dos seus defeitos
e que bastante o tortura. Mas, em compensação desses tormentos, há no seu
amor tanto encanto e delícias! Como estuda, como extrai, como saboreia as
volúpias mais fugitivas até a última essência! Como a sua sensibilidade especial
sabe descobrir o encanto das criancices frívolas, dos invisíveis atrativos, dos
nadas adoráveis!
O tolo é um amante sempre contente e tranqüilo. Tem tão robusta confiança nos
seus predicados, que antes de ter provas, já mostra a certeza de ser amado. E
assim deve ser. Em sua opinião faz uma grande honra à mulher a quem
dedica os seus eflúvios. Não lhe deve felicidade; ele é que lha dá; e
como tudo o leva a exagerar o benefício, não lhe vem à idéia de que se
possa ter para com ele ingratidões. Assim, no meio das alegrias do
amor, saboreia ainda a embriaguez da fatuidade. Mas como, em definitivo, é
ele próprio o objeto de seu culto, depressa o tolo se aborrece, e como o
amor para ele não é mais que um entretenimento que passa, os últimos favores,
longe de o engrandecerem mais, desligam-no pela sociedade.


VI


O homem de espírito vê no amor um grande e sério negócio, ocupa-se dele como do mais grave interesse de sua vida, sem distração, nem reserva. Pode perder nele algumas das suas qualidades viris, mas é para crescer em abnegação, em dedicação, em bondade. Suporta tudo daquela que ama sem nada exigir dela. Quando ela atende a alguns dos seus votos, quando previne
alguns dos seus desejos, longe de ensoberbecer-se, agradece com uma efusão
mesclada de surpresa. Perdoa-lhe generosamente todos os males que lhe causa
porque, muito orgulhoso para enraivecer-se ou lastimar-se, não sabe provocar,
nem a piedade que enternece, nem o medo que faz calar. Oh! que inferno, se
a má ventura lhe depara uma mulher bela e má, uma namoradeira fria de
sentidos, ou uma moça de rabugice precoce!
Sofre então vivamente com a perfídia da mulher amada, mas desculpa-a pela
fragilidade do sexo. A sua indulgência pode então conduzi-lo à degradação. Ele
segue a olhos fechados o declive que o arrasta ao abismo, sem que a
queixa, a ambição, a fortuna possam retê-lo.
O néscio escapa a estes perigos. Como não é ele quem ama, é ele quem domina.
Para vencer uma mulher finge por alguns momentos o excesso de desespero e de paixão; mas isso não passa de um meio de guerra, tática de cerco para enganar e seduzir o inimigo. Logo depois recobra ele a tirania, e não a abdica mais. Para entreter-se nisso, tem o tolo o seu método, as suas regras, a sua linha de conduta. É indiscreto por princípio, porquanto divulgando os favores que recebe, compromete a que lhe concede e ao mesmo tempo afasta as rivalidades nascentes. É suscetível pela razão, cioso por cálculo, a fim de promover estes proveitosos amuos, que lhe servem, a seu grado, para conduzir a uma ruptura definitiva, ou para exigir um novo sacrifício. Mostra uma cruel indiferença, indicando pouca confiança nas provas de simpatia que lhe dão. Num baile, proibindo à sua amante de dançar, não faz caso dela, de propósito. Aflige-a com aparências de infidelidade, falta à hora marcada para se encontrarem, ou,
depois de se ter feito esperar, vem, dando desculpas equívocas de sua

demora. Hábil em semear a inquietação e o susto, faz-se obedecer à força de
ser tirano, e acaba por inspirar uma afeição sincera à força de promovê-la.


VII


O homem de espírito, assustado com o vácuo imenso, que deixa no coração uma afeição que se perde, só rompe o laço que o prende à causa de dilacerações interiores.
Como bem se disse, sendo preciso um dia para conseguir, é preciso mil para se
reconquistar.
Mesmo no momento em que volta a ser livre: quantas vezes um sorriso, um
meneio de cabeça, uma maneira de puxar o vestido, ou de inclinar o chapelinho
de sol, não o faz recair no seu antigo cativeiro!
De resto, a mulher, a quem ele tiver revelado o segredo do seu coração, ficará
sempre para ele como ser à parte. Não a esquece nunca.
Morta, ou separado, nutre por aquela que a perdeu longas saudades. Perseguido
pela lembrança que dela conserva, descobre muitas vezes que as outras mulheres por quem se apaixona só têm o mérito de se parecerem com ela. Dá-se ele então a comparações que o desvairam, que o irritam, que o põem fora de si, exigindo no seu trajar, no seu andar e até no seu falar alguma coisa que lhe recorde o seu implacável ideal.
E se é ele o abandonado, que de torturas que sofre!
Viver sem ser amado parece-lhe intolerável. Nada pode consolá-lo ou distraí-lo.
No caso de tornar a ver os sítios que foram testemunhas da sua felicidade, evoca à sua memória mil circunstâncias perseverantes e cruéis. Ali está a cerca cheirosa, cujos espinhos rasgaram o véu da infiel; aqui, o rio que a medrosa só
ousava atravessar amparada pela sua mão; além está a alameda, cuja areia
fina parece ter ainda o molde de seus ligeiros passos. Contempla na janela as
longas e alvas cortinas, no peitoril os arbustos em flor, na relva a mesa, o banco, as cadeiras em que outrora se sentaram.
É possível que ela tenha mudado tão de repente? Pois não foi ainda
ontem que de volta de um passeio ao bosque, lhe enxugou o suor da testa, e que se prendia em doce e estranho amplexo?...
Hoje, nem mais doçuras, nem mais apertos de mão, nem mais dessas horas
ébrias em que todo o passado ficava esquecido! Ele está só, entregue a si mesmo, sem força, sem alvo: é o delírio do desespero.
O tolo está acima dessas misérias. Não o assusta um futuro prenhe de qualquer
inquietação aflitiva. Sempre acobertado pela bandeira da inconstância, desfaz-se
de uma amante sem luta, nem remorsos; utiliza uma traição para voar a novas
aventuras. Para ele nada há de terrível em uma separação, porque nunca supõe
que se possa colocar a vida numa vida alheia, e que fazendo-se um hábito dessa comunidade de existência, faz-se pouco novamente sofrer, quando ela tiver de quebrar-se.
Da mulher, que deixa de amar, ele só conserva o nome, como o veterano
conserva o nome de uma batalha para glorificar-se, ajuntando-o ao número das
suas campanhas.


VIII


Há uma época em que custa-se muito a amar. Tendo visto e estudado um pouco a mulher, adquire-se uma certa dureza que permite aproximar-se sem perigo das mais belas e sedutoras. Confessa-se sem rebuço a admiração que elas inspiram, mas é uma admiração de artista, um entusiasmo sem ternura. Além disso, ganha-se uma penetração cruel para ver, através de todos os artifícios de casquilha, o que vale a submissão que elas ostentam, a doçura que afetam, a ignorância que fingem. E prenda-se um homem nessas condições!
De ordinário, é entre trinta a trinta e cinco anos, que o coração do homem de
espírito fecha-se assim à simpatia e começa a petrificar-se. É possível que
nele tornem a aparecer os fogos da mocidade, e que ele venha a sentir um
amor tão puro, tão fervente, tão ingênuo como nos frescos anos da adolescência; longe de ter perdido as perturbações, as apreensões, os transportes da alma amorosa, sente-os ele de novo com emoção mais profunda e dá-lhes um preço tanto mais elevado, quanto ele está certo de não os ver renascer.
Oh! então lastima-se o pobre insensato! Ei-lo obrigado a ajoelhar-se aos pés de
uma mulher para quem é nada o mérito de caminhar pouco e pouco atrás de
sua sombra, de fazer exercício em torno aos seus vestidos, de se extasiar
diante de seus bordados, de lisonjear os seus enfeites. Ai, triste! esses longos
suplícios o revoltam, e, Pigmalião desesperado, afasta-se de Galatéia,
cujo amor se não pode reanimar.
Esses sintomas de idade são desconhecidos ao tolo, porquanto cada dia que
passa não lhe faz achar no amor um bem mais caro, ou mais difícil a
conquistar. Não tendo sido, nem melhorado, nem endurecido pelos reveses da
vida, continuando a ver as mulheres com o mesmo olhar, exprime-lhes os seus
amores com as mesmas lágrimas e os mesmos suspiros que lhes reserva para
pintar os antigos tormentos. E como ele só exigiu sempre delas aparências de
paixão, vem facilmente a persuadir-se que é amado. Longe de fugir, persevera e
— triunfa.


IX


O homem de espírito é o menos hábil para escrever a uma mulher.
Quando se arrisca a escrever uma carta, sente dificuldades incríveis. Desprezando o vasconço da galanteria, não sabe como se há de fazer entender. Quer ser reservado e parece frio; quer dizer o que espera e indica receio; confessa que nada tem para agradar, e é apanhado pela palavra. Comete o crime de não ser comum ou vulgar. As suas cartas saem do coração e não da cabeça; têm o estilo simples, claro e límpido, contendo apenas alguns detalhes tocantes. Mas é exatamente o que faz com que elas não sejam lidas, nem compreendidas. São cartas decentes, quando as pedem estúpidas.
O tolo é fortíssimo em correspondência amorosa, e tem consciência disso. Longe
de recuar diante da remessa de uma carta, é muitas vezes por aí que ele
começa. Tem uma coleção de cartas prontas para todos os graus de paixão.
Alega nelas em linguagem brusca o
ardor de sua chama; a cada palavra repete:meu anjo, eu vos adoro. As suas fórmulas são enfáticas e chatas; nada que
indique uma personalidade. Não faz suspeitar excentricidade ou poesia; é
quanto basta; é medíocre e ridículo, tanto melhor. Efetivamente o estranho que
ler as suas missivas, nada tem a dizer; na mocidade o pai da menina escrevia
assim; a própria menina não esperava outra coisa. Todos estão satisfeitos, até os 
amigos. Que querem mais?


X


Enfim, o homem de espírito, em vista do que é, inspira às mulheres uma
secreta repulsa. Elas se admiram com o ver tímido, acanham-se com o
ver delicado, humilham-se com vê-lo distinto.
Por muito que ele faça para descer até elas, nunca consegue fazê-las perder o
acanhamento; choca-as, incomoda-as, e esse acanhamento, de que ele é causa,
torna frias as conversações mais indiferentes, afasta a familiaridade e assusta a
inclinação prestes a nascer.
Mas o tolo não atrapalha, nem ofusca as mulheres. Desde a primeira entrevista,
ele as anima e fraterniza-se com elas. Eleva-se sem acanhamento nas conversas mais insulsas, palra e requebra-se como elas. Compreende-as e elas o compreendem. Longe de se sentirem deslocadas na sua companhia, elas a
procuram, porque brilham nela. Podem diante dele absorver todos os assuntos e
conversar sobre tudo, inocentemente, sem conseqüência. Na persuasão de que
ele não pensa melhor, nem contrário a elas, auxiliam o triste, quando a idéia lhe
falta, suprem-lhe a indigência. Como se fazem valer por ele, é justo que lhe
paguem, e por isso consentem em ouvi-lo em tudo. Entregam-lhe assim os seus
ouvidos, que é o caminho do seu coração, e um belo dia admiram-se de ter
encontrado no amigo complacente um senhor imperioso!


XI


Compreende-se, por este curto esboço, como e quanto diferem os tolos e os
homens de espírito nos seus meios de sedução. A conclusão final é, que os tolos
triunfam, e os homens de espírito falham, resultado importante e deplorável,
nesta matéria sobretudo.


XII


Depois de ter indagado as causas da felicidade dos tolos, e da desgraça dos
homens de espírito: perderemos tempo precioso em acusar as mulheres? Não
hesitamos em deitar as culpas sobre os homens de espírito, como fez o profundo Champcenets.
Por que não estudam os tolos, diz-lhes este autor, para conseguir imitá-los? Há de custar-vos muito fazer um tal papel: mas há proveito sem desar? E depois,
quando assim sois a isso obrigado, visto como não vos dão outro meio de
solução, querer subtrair o belo sexo a império dos tolos, descortinando-lhe a
perversidade do seu gosto, é coisa em que ninguém deve pensar, é uma loucura; fora o mesmo que querer mudar a natureza, ou contrariar a fatalidade.
Porquanto, ficai sabendo, continua Champcenets, que as mulheres não são
senhoras de si próprias; que nelas tudo é instinto ou temperamento, e que
portanto elas não podem ser culpadas de suas preferências. Só respondemos pelo que praticamos com intenção e discernimento. Ora, qual delas pode dizer que predileção a impele, que paixão a obriga, que sentimento a faz ingrata, ou que vingança lhe dita as malignidades? Debalde procurareis delas tão cruel prodígio; nenhuma é cúmplice do mal que causa: a este respeito, o seu estouvamento atesta-lhes a candura.

Por que vos obstinais em pedir-lhes o que a Providência não lhes deu? Elas se
apresentam belas, apetitosas e cegas: não vos basta isto? Querê-las com juízo,
penetrantes e sensíveis, é não conhecê-las.
Procurai as mulheres nas mulheres, admirai-lhes a figura elegante e flexível,
afagai-lhes os cabelos, beijai-lhes as mãos mimosas; mas tomai como um
brinquedo o seu desdém, aceitai os seus ultrajes sem azedume, e às suas cóleras mostrai indiferença. Para conquistar esses entes frágeis e ligeiros, é preciso atordoá-los pelo rumor dos vossos louvores, pelo fasto do vosso vestuário, pela publicidade das vossas homenagens.


XIII


Sim, sim, é mister ousar tudo para com as mulheres.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Um modelo para as damas - Leandro Karnal

A presidência de uma república, como concebemos hoje, foi reinventada no fim do século 18. Na esteira da revolução americana, o novo país adotou o modelo antes restrito a poucas cidades italianas e áreas menores. Era um fato notável e implicava adaptações. Uma delas foi como tratar o seu líder, o chefe do Executivo. Para evitar associação com monarquia ou concentração de poderes, usou-se, depois de muito debate, a fórmula Mr. President, Senhor Presidente. Era respeitoso, mas prosaico, lembrando a quem estivesse no cargo sua origem como cidadão comum.
Das muitas coisas que foram levantadas naquele debate, não passou pela cabeça dos pais-fundadores a ideia de mulheres na presidência da República. Embora Abigail Adams tivesse escrito ao marido: remember the ladies, na hora de fazer leis inclusivas no novo país, ninguém sonhava com cidadania plena para elas, quanto mais colocá-las no topo do poder político. De fato, até hoje, os EUA nunca tiveram uma presidente. 
Foi apenas no século 19 que movimentos sufragistas espocaram. Obtiveram ainda mais força no século 20. Mulheres ganharam direitos políticos, mas ainda nem sequer eram cogitadas à presidência pela maioria votante. A primeira mulher eleita para cargo executivo máximo foi na República de Tuva, em 1940 (Khertek Anchimaa-Toka).
No nosso continente, tivemos mulheres presidentes na Argentina (duas vezes), Nicarágua, Panamá, Guiana, Costa Rica, Chile e Brasil. Houve interinas na Bolívia, Haiti e Equador. No cargo de primeira-ministra, alguns exemplos notáveis: Índia, Alemanha, Israel e, recentemente, Nova Zelândia. Rainhas não contam, pois não foram eleitas e fogem ao nosso levantamento parcial. Ainda assim, soberanas foram notáveis na Rússia, Havaí e Inglaterra. Mesmo que a política não seja mais um lugar exclusivamente masculino, está bem longe de ser um campo do feminino. O debate que houve no Brasil recente sobre o gênero da palavra presidente mostra que o tema do empoderamento feminino é pouco usual para muitos. 
Em um universo dominado por cargos masculinos, surge a figura republicana mais comum: a primeira-dama. É uma quase “instituição curiosa”, pois seu pressuposto é o de uma mulher que não tenha carreira, apenas acompanhe o marido em eventos públicos. Espera-se que seja simpática, fale pouco, corte fitas e dê apoio ao eleito. Deve gerenciar instituições beneméritas, promover atividades caritativas e, acima de tudo, claro, ser e parecer honesta, como convém à mulher de César. 
Os norte-americanos amaram Eleanor Roosevelt, Jackie Kennedy (enquanto foi Kennedy), Barbara Bush e Michelle Obama. Nem sempre tiveram relação simpática com Hillary Clinton. No mundo, há as internacionalmente atacadas: Imelda Marcos e Elena Ceausescu. 
No Brasil, o título foi inaugurado pela esposa do Marechal Deodoro, Mariana Cecília de Sousa Meirelles da Fonseca. O mundo elitizado da capital da República se encantou com o casamento de Nair de Tefé com o presidente Hermes. Ela era uma mulher talentosa, pioneira na arte da caricatura e pianista que escandalizava os palacianos tocando maxixe. A esposa de Getúlio, Dona Darcy, criou a Legião Brasileira de Assistência (LBA), que, no começo, era voltada aos familiares dos nossos expedicionários. Nos “anos dourados”, dona Sara, esposa de JK, foi muito louvada. Os atritos do casal nunca chegaram à grande imprensa. A mulher de Jango, Maria Teresa, era destacada pela beleza. A imagem de Costa e Silva no hospital com sua esposa ao lado (a curitibana Iolanda) comoveu muita gente. Era um modelo esperado de devoção matrimonial. Ruth Vilaça Correia Leite Cardoso (esposa de FHC, a única que de fato conheci, pois foi minha professora) era uma intelectual respeitada e detestava o título de primeira-dama. Talvez seja a preferida da classe média brasileira. Dona Marisa Letícia pouco falou em oito anos. Sua sucessora foi lembrada pela tatuagem com o nome do marido na nuca. A atual primeira-dama, Michelle Bolsonaro, causou excelente impressão inicial com seu discurso em Libras. 
Houve esposas que “quase” alcançaram o título. Alice era mulher do presidente cuja posse o movimento de 1930 impediu: Júlio Prestes. Em 1969, Mariquita Aleixo seria primeira-dama, porém, os militares acharam melhor que o vice não seguisse a Constituição. Importante trazer à memória o nome de Risoleta Neves, mulher de grande equilíbrio em meio a crises. O tamanho da crônica não permite citar todas. 
Tudo o que eu falei antes evidencia um mundo ainda precisando repensar valores. As mulheres dos presidentes são lembradas, dominantemente, por serem bonitas ou não, simpáticas ou não, tatuadas ou não e bem menos se foram pessoas autônomas. Ao lado dos fatos isolados que alcançaram a mídia, existem imensos silêncios sobre o feminino e o poder. A própria memória de tudo já mostra opções de gênero a serem repensadas. Independente da beleza, simpatia ou discrição: ainda existe um mundo para uma primeira-dama? A opção política de um marido deve envolver a esposa necessariamente? Seriam funções cerimoniais inócuas ou seria o símbolo de perpetuação de um domínio já insustentável na prática? Uma primeira-dama seria um mau exemplo para as meninas que pensam em carreira e autonomia ou algo que devemos preservar?
A própria palavra “dama” implica o controle aveludado do cavalheirismo? Por fim, lembremos de Gauthier Destenay, casado com o primeiro-ministro de Luxemburgo, Xavier Bettel, que posou para fotos e participou de atividades ao lado de outras primeiras-damas em reuniões atendidas por seu marido. São boas questões para o debate. É preciso ter esperança.

Astrólogos, bruxos e cartomantes - Roberto DaMatta

Nascido no século passado e sendo inevitavelmente marcado por essa época, padres, cartomantes, videntes, fantasmas e conspirações fazem parte da minha vida. 
Tinham-se empregadas (conhecidas apenas pelo primeiro nome e, em geral, por um apelido de duas sílabas), faziam-se compras em armazéns e quitandas nas quais a “dona da casa” era “freguesa”; e rezava-se numa igreja cujo padre era em geral coadjuvado por um mago, um médium, uma cartomante ou um astrólogo. 
Os ritos de passagem oficiais e indispensáveis (batismo, primeira comunhão, casamento, ritos funerários) eram realizados dentro do catolicismo, mas o outro mundo era compartilhado e dividido. Noto que o protestantismo era, ao contrário de hoje em dia, ausente.
O sagrado dominante era católico romano, mas os paradoxos, os acidentes da vida – essa esfera que de modo muito claro inflige um limite ao lado rotineiro – eram complementados por cartomantes, astrólogos e médiuns e outros especialistas em “ciências ocultas e letras apagadas”. As confusões do presente e um futuro duvidoso pertenciam aos astrólogos, bruxos e às cartomantes. 
Minha mãe dizia que era católica, mas acreditava no espiritismo. Penso que não é um exagero afirmar que essa duplicidade de códigos destinados ao entendimento do futuro e do sofrimento é parte das origens e da formação do Brasil. 
Nascemos em uma colônia semiabandonada, mas num século 19 revolucionário e napoleônico passamos de periferia a centro do Reino de Portugal e Algarve. A vinda da família real e da corte para o Rio de Janeiro teve profundas consequências socioculturais.
Houve uma inversão geopolítica singular em paralelo a uma visão íntima e realista da realeza e da aristocracia. Esse “futuro” imprevisível para historiadores e jornalistas, era – porém – previsível para bruxos e astrólogos.
O oficial e o rotineiro sempre estiveram em combate complementar entre nós – e cada qual tinha os seus teólogos e sacerdotes. No livro testemunho de Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias (de 1855) – a trama é movida pelo padre da Sé, por um feiticeiro do Mangue, pelo Leonardo Pataca, um meirinho, por fidalgos, por uma viúva rica e por uma cigana.
O Major Vidigal faz – como ensina Antonio Candido num ensaio clássico – um contraponto – uma espécie de polícia e juiz daquele sistema.
Na nossa casa – formada por uma família de três gerações com seus criados – o menino testemunhou encontros com espíritos por meio de um copo imantado que recebia suas mensagens. As almas do outro mundo que assombravam pedindo rezas, uma tia solteirona.
Já as entidades acessadas por meio do copo, eram todas favoráveis aos projetos da mãe. Ao lado disso, o oratório da casa pululava de santos protetores tal como nos “lares” dos antigos romanos.
A polarização entre nobres e comuns (teoricamente brancos ou mestiços) e ex-escravos negros – até hoje vigente, mas ameaçada por desarmonias políticas dificultava um sistema submetido a uma modernização capitalista personalizada e aparelhada – conduzia sempre a desfechos imprevisíveis. Neles, o fake, o fuxico, as anedotas, as intrigas enfeixadas por múltiplas teorias conspiratórias, revelam uma sociedade na qual o código pessoal do saber com quem se fala (que vive com privilégio e na aristocracia) tem como alternativa um sistema impessoal ainda visto como uma ameaça desumanizadora justo quando as reformas cidadãs, tornam-se inexoráveis. 
As desavenças entre matrizes largamente inconscientes sempre foram explicadas por magos, astrólogos, cartomantes e bruxos hoje relativamente substituídos por “especialistas”, cronistas e comentadores – esses mediadores entre os fatos e o seu significado.
A grande questão sempre foi a de saber se o mundo tem finalidade ou se o acaso é o grande senhor, cabendo a nós o dever da construção e da compreensão. Ou se o Brasil presta ou está condenado a uma autoproclamada ruína.  
*
PS: Declaro o meu repúdio à ideia de suprimir sociologia, antropologia e outras disciplinas dos saberes humanos das salas de aula. Sem elas, corremos o risco de criar um mundo no qual uma fulgurante irracionalidade (que já envolve o governo Bolsonaro) vai se acasalar com uma profunda ignorância de nós mesmos. O resultado é a burrice – essa matéria-prima das censuras. 

segunda-feira, 29 de abril de 2019

A retranqueta - Luis Fernando Verissimo

A mentira é um mal necessário. Sem a mentira nossa vida social seria impossível. Sem a mentira, muitos casamentos não resistiriam a duas semanas.
Não estou falando da falsa bajulação e das falsas juras, das declarações insinceras que os casais trocam para se agradar mutuamente, do orgasmo fingido ou das repetidas promessas de não molhar mais o banheiro como um urso depois do banho. Me refiro às pequenas mentiras que mantêm um relacionamento estável, mesmo que dependam de algum autocontrole da parte da mulher, para não rir ou ficar fazendo cara de “conta outra”, enquanto a mentira dele fica cada vez mais improvável. Pois ele pode estar mentindo para o seu bem e o bem do seu casamento. Por exemplo.
Se o homem diz que deve ser algum problema com a retranqueta do polidor, quando não tem a menor ideia do que há de errado com o carro, não é para proteger o orgulho dele. Está mentindo para a tranquilidade dela. Para que ela não saiba que está vivendo com alguém que não tem bem certeza nem onde fica o motor do carro quanto mais qual é o seu problema. Você se sentiria segura sabendo que, no caso de o carro enguiçar, no meio da noite, perto do Morro das Metralhadoras de Uso Exclusivo das Forças Armadas, a única providência técnica que ele poderia tomar seria trancar as portas por dentro? Está certo, não existe o polidor e muito menos a sua retranqueta – até onde eu sei – mas o importante é você pensar que o polidor existe, e que ele sabe exatamente onde fica e o que precisa ser feito para consertá-lo, além de gritar por socorro. 
– É só dar um repique na retranqueta e equalizar o polidor.
Mulher, mulher. Acima de tudo, não se meta. Se no dia seguinte ele deixar o carro em casa, alegando que não quer forçar a retranqueta para não anodizar o parkerson, em hipótese alguma receba-o em casa na volta do trabalho com a notícia de que você levou o carro na oficina por sua conta.
– O quê?! E o que você disse que era?
– O que você falou. A retranqueta do polidor.
Pronto. Ele nunca mais vai poder olhar o mecânico na cara. A esta altura, toda a oficina já sabe que ele provavelmente pensa que “afogador” é um assassino de praia. Ele está arrasado. Você o destruiu. A não ser que...
– E o que foi que o mecânico disse?
– Que ia dar um repique na retranqueta e equalizar o polidor.
O casamento está salvo – por uma mentira. Ele não precisa se preocupar em ser desmascarado.
Agora, só precisa se preocupar com o mecânico, que obviamente sabe menos do que ele.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...