segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Passionária - Luis Fernando Verissimo

Um grupo de jovens do qual eu fazia parte (há muitos anos) entrou na posse de uma galinha viva. Não pergunte como. Levamos a galinha para a nossa mesa no bar de sempre com a intenção de matá-la e pedir para o seu Antonio, dono do bar, cozinhá-la. A galinha, sabidamente um bicho nervoso, parecia resignada ao seu destino. Era uma galinha como qualquer outra. Classe média, um pouco avançada em anos, a doçura do olhar denunciando uma alma sem rancores. Era difícil imaginá-la dourando-se sob um fogo brando como uma ninfa de praia, ou trespassada sobre brasas como uma impúbere Joana D’Arc. Mas, numa panela, na companhia reconfortante de alguns legumes, não parecia um fim indigno para uma vida sem pretensões.
Antes de entregar nossa galinha ao seu Antonio, discutiu-se o “mise-en-scène” do seu sacrifício. Alguém faria uma oração fúnebre? E o nome dela, como seria? Ela não podia morrer anônima como vivera. Fizemos uma votação – Janete? Lurdes? Lady Gagalinha (uma sugestão sonoramente rejeitada) ? Finalmente, escolhemos um nome: “Passionária”. Algo a ver com seu porte espanhol. Como que energizada pelo nome, a galinha pulou para o centro da mesa. E fez mais. Mergulhou a cabeça num copo de chope. Deu três goles e levantou a cabeça envolta em espuma como um Papai Noel.
Imagine o espanto da mesa. Com um gesto, Passionária pulara da sua condição de presa e se tornara uma igual. O grupo devotava um carinho instantâneo e incondicional a quem gostava de chope. Como que pressentindo o alcance da sua ousadia, a galinha repetiu a façanha, desta vez sacudindo o rabo no ar, numa clara demonstração de prazer. Depois, ela agradeceu os aplausos como uma bailarina, mas isso não precisam acreditar. Nascia ali uma onda de solidariedade, exigindo vida longa, chope e um lugar na mesa para a quase ensopada. 
Houve protestos de quem já saboreava a galinha ao molho pardo do seu Antonio, mas os solidários com a “Passionária” insistiram em incorporá-la ao grupo. Decidiu-se fazer um plebiscito. A galinha ficaria aos cuidados do seu Antonio, com direito a chope e salgadinhos, durante uma semana, nas quais os frequentadores do bar votariam: “Passionária” vive ou morre? Sinto dizer que a maioria votou pela sua morte. Mas quase ninguém conseguiu comê-la. 

Meditações sobre o amor romântico - João Pereira Coutinho


Paula Prentiss e Rock Hudson no filme "O Esporte Favorito dos Homens" 


Os mitos do amor romântico servem para escrever livros. Raramente resultam na “vida real”. O cavaleiro andante procura desesperadamente a sua princesa? Risadas. Na “vida real”, são elas que mandam. E são elas que escolhem o príncipe.
 
O diretor Howard Hawks tem um filme a respeito, que aconselho a pais e filhos: “O Esporte Favorito dos Homens” (1964). No filme, Roger (Rock Hudson) tenta exercitar a sua masculinidade no universo da pesca. Mas ele é inábil nesse esporte e são as mulheres —ou, melhor dizendo, uma mulher, Abigail (adorável Paula Prentiss), quem lhe ensina o “métier”.

O personagem de Rock Hudson não passa de uma marionete nas mãos dela, pobre coitado. E o amor só acontece quando Abigail quer, não quando ele quer.
 
A mensagem do filme é simples e poderosamente antirromântica: em matéria sentimental, o máximo que um homem pode fazer é sinalizar que está disposto a ser ensinado. Mais nada. Espero um dia ensinar isso ao meu filho: “Rapaz, não sejas um idiota como o teu pai, que perdeu anos de vida a bater com a cabeça contra as paredes”.
 
O mesmo vale para o mito simpático de que o destino nos reserva uma “alma gêmea”. Pense um bocadinho, leitor ou leitora: quais são as reais hipóteses de, numa vida tão curta e imprevisível, encontrar aquela pessoa com as doses certas de beleza, inteligência, gentileza e bom caráter? 1%? Menos? Eu acho que é bem menos.
 
Mas também acho que as hipóteses serão maiores se as pessoas optarem por anúncios pessoais. Sim, eu sei: os anúncios têm má fama porque não são “românticos”. Persiste ainda a ilusão de que o único amor que vale a pena encontra-se “cá fora”, no mundo, na beleza do acaso.
 
Pelo amor de Deus: basta olhar para Agustina Bessa-Luís, o maior gênio vivo da literatura portuguesa. Quando chegou aos 20 e poucos anos, publicou um anúncio no jornal em que manifestava interesse em se corresponder com uma pessoa culta. Foi assim que conheceu Alberto Luís, com quem esteve casada 72 anos, até à morte dele em 2017.
 
Eu próprio, inspirado pela história, cheguei a redigir um pequeno texto para publicação no jornal quando os 20 anos chegaram:

HOMEM, 20 ANOS, TESTA ALTA MAS BOM CORAÇÃO.
FICHA CLÍNICA RAZOÁVEL. HÁBITOS DE HIGIENE ASSIMILADOS.
AINDA DORME COM LUZ DE PRESENÇA, MAS HÁ PROGRESSOS.
PROCURA MOÇA PARA AMIZADE OU ALGO MAIS.

Ninguém respondeu. Não sei se foi por causa da “testa alta” ou da ficha clínica “razoável”.
 
Hoje, anúncios desses são coisa arcaica. Temos a internet. No Reino Unido, informa o Daily Telegraph, 1 em cada 5 relações começa online. Em 2040, é possível que a cifra atinja os 70%. É um progresso, sem dúvida, que poupa tempo, dinheiro e energia mental.
 
Aliás, esses sites não promovem apenas relacionamentos. Também garantem “feedback”. A jornalista Jemima Lewis investigou o assunto e afirma que apps como o Hinge e o Do I Date são uma espécie de Amazon hormonal: consumimos, classificamos e depois o site sugere novos encontros com outras pessoas. “Se gostou da Teresa, sugerimos a Francisca”, “Se gostou do Luciano, sugerimos o Pedrinho”.
 
O Do I Date vai mais longe e apresenta-se como o TripAdvisor dos relacionamentos: uma pessoa sai, janta, entra em intimidades —e no dia seguinte pode classificar online a performance do outro. “Ronca” ou “Grita 'Superman!' quando atinge o orgasmo” são comentários possíveis. Mas chega de falar de mim.
 
Claro que nem tudo são maravilhas. Na Amazon, por exemplo, existe uma política inteligente de devolução do produto a custo zero. Se o material vem danificado ou se houve erro da empresa, há sempre a possibilidade de troca.
 
Imagino essa liberalidade nos encontros românticos —a conversa rola, ou as intimidades rolam, e um dos comensais confessa:
 
- Mil perdões, não era bem isso que eu estava à espera.
 
- Você vai me devolver?
 
- Vou. Mas, por favor, entenda: o problema não sou eu, é você.

Outro Fla x Flu - Daniel Furlan

Luciano Salles/Folhapress



Não há discussão mais inútil do que cães x gatos, como se fosse haver uma eleição em que as duas espécies disputassem um segundo turno. E, ainda se houvesse, obviamente votaríamos na mais estúpida.
Mas, se por um lado há charme até na coriza jorrando livremente de algumas caras achatadas e nos pêlos contra os quais temos que admitir que perdemos a batalha (como é triste observar as pessoas e seus rolinhos de fita adesiva, achando que vale a pena lutar contra o invencível), por outro lado os defeitos dos cães, pelo menos de raça, parecem menos interessantes.
Ainda que a característica da raça seja ser lindo, uma beleza decorativa não deixa de ser uma aberração. O buldogue, por exemplo, é o que mais intriga. Certamente não é lindo, e em compensação respira mal, anda mal, enxerga mal, além de ter tendências a problemas de pele.
De libido preguiçosa, os buldogues relutam em se reproduzir sozinhos e, ainda que consigam, as fêmeas têm muita dificuldade no parto devido à sua estrutura óssea pouco convencional. Os filhotes não conseguem sair em sua busca desesperada pela vida, mesmo que seja essa vida tão desafortunada que os espera.
Além disso, o focinho voltado para cima dificulta o resfriamento do ar, fazendo com que tenham tendências ao superaquecimento, como um Fiat Palio. Um Fiat Palio pouco inteligente, já que o buldogue não prima pelo raciocínio: ocupa a 77ª posição no ranking de inteligência (mesmo sendo todos os outros competidores cães).
Entretanto, ao contrário dos gatos, certamente quando o buldogue, assim como os cães de maneira geral, são chamados, eles vêm. Não há dúvidas aqui. O que mais resta a uma existência tão vazia como essa a não ser a pequena felicidade de atender a um chamado, qualquer que seja? O pronto atendimento dos cães está mais ligado à carência emocional do que a uma virtude qualquer que seus donos, igualmente carentes emocionalmente, possam inventar, como "lealdade" ou outro absurdo.
O gato, quando chamado, vem apenas se quiser, e essa honestidade é de fato a lealdade mais valiosa de todas --ainda que sejam mais difíceis de se acariciar e de se fotografar, já que sua fuga é mais rápida que a lente, mais rápida que o carinho. Mas tudo bem. Quem não entendeu a natureza desconfiada dos gatos não entendeu nada.

domingo, 18 de novembro de 2018

E no entanto - Ricardo Araújo Pereira

Luiza Pannunzio/Folhapress


A descoberta da gravidade foi um esforço conjunto de Isaac Newton e de uma macieira. Podemos discutir a percentagem de responsabilidade que cada um teve na descoberta, mas não podemos negar a participação fundamental de ambos.
Sem a macieira, que deixou cair a maçã na cabeça de Newton, a descoberta não teria ocorrido. Mas sem Newton também não. Imagino que muitos milhares de pessoas, antes de Newton, tenham levado com fruta madura na cabeça. Nenhuma outra se lembrou de formular uma teoria --ou, pelo menos, uma teoria científica.
Uma vez, tal como Isaac Newton, também eu estava cochilando sob uma macieira. E uma maçã também me caiu na cabeça. Posso afirmar, com orgulho, que formulei uma teoria (até hoje desconhecida): a de que talvez fosse engraçado pegar naquela mesma maçã e acertar com ela na testa do meu primo Carlos. Minutos depois, verifiquei a teoria: foi, de fato, engraçado. Embora o mundo só tenha registrado uma teoria bem-sucedida enunciada na sequência da queda de uma maçã, já houve pelo menos duas.
Mas a grande figura da ciência que mais se parece comigo é Galileu Galilei. A maior lição que Galileu deixou à humanidade não foi científica. Certo, a Terra anda à volta do Sol, mas isso já Copérnico tinha dito.
O que Galileu nos ensinou foi a calar a boca. E esse é o ensinamento mais precioso de todos. A Inquisição obrigou-o a desmentir a sua descoberta e a negar que a Terra se movesse. Galileu sabia que tinha razão, mas fez o que lhe pediam e depois resmungou para si: "E no entanto ela move-se".
Todas as minhas discussões conjugais seguem esse modelo. Quando discutimos com gente mais poderosa do que nós, a atitude inteligente é ceder, mantendo embora a nossa convicção íntima. O mais provável é que Galileu tivesse aprendido essa lição em casa.
Um dia, ele subiu à torre de Pisa para descobrir se uma pedra grande caía mais depressa do que uma pedra pequena. É o tipo de projeto elaborado por um homem que anda à procura de pretextos para sair de casa. A senhora Galilei devia ser difícil de aturar.

Por isso, ele aplicou no tribunal os conhecimentos adquiridos em casa. Disse à Inquisição: sim, querida, tens razão. Mas todos sabemos que quem tinha razão era ele. E a Igreja acabou por perdoá-lo. Levou 500 anos, mas perdoou. A minha mulher costuma levar um pouco mais.

Repúblicas brasileiras - Cristovão Tezza

Vânia Medeiros/Folhapress


O bizarro padrão estético das mensagens do presidente eleito via redes sociais é uma mistura abrutalhada de exército islâmico e pastor de almas, gestos de campanha (nos sentidos eleitoral e militar do termo) e parolagem à Chávez e Maduro: a ameaça de aprovar ele mesmo as questões do Enem é tipicamente venezuelana, embora imagine-se trumpista.
A ideologização do seu discurso, pregando o controle dos conteúdos das escolas segundo os valores da "família conservadora", que é a "verdade", sugere que Bolsonaro não foi eleito presidente da República, mas o bedel moral do povo brasileiro. Para quem tem como herói, declaradamente, um torturador, é uma fratura intrigante, o que os fiéis descartam aos gritos (Vai pra Cuba! Foice! Petista! Comunista!).
A continuar assim, o futuro governo desenha-se institucionalmente como o mais ignorante da história do país  —e olha que a competição na área é feroz.
Mas a noção de República não é mesmo simples ou intuitiva; é uma penosa construção da cultura. A nossa "Belíndia", expressão que sintetiza a Bélgica e a Índia que coexistem no Brasil, marcado desde sempre pela desigualdade econômica, é também uma divisão cultural.
Há muitas variáveis em jogo, incluindo-se o advento avassalador da internet; se de um lado ela abriu com pendor democrático as comportas da hierarquia do saber, potencialmente universalizando o acesso à informação, de outro (como lembrava Umberto Eco) deu voz ativa e agressiva a milhões de imbecis. Ingênuos acreditam que o WhatsApp os liberou da "manipulação"; agora eles têm acesso direto aos "fatos", que se resume a uma guerrilha primitiva de tuítes. Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, o frenesi contemporâneo da cultura identitária e relativista estilhaçou o pressuposto basilar da política moderna, de raiz iluminista, que é o princípio da igualdade universal sob a luz da razão. O problema é que há muitas razões em jogo.
O conceito de cidadão vem daí, mas nunca foi plenamente absorvido na cultura brasileira. Para acompanhar essa dura história, acabo de ler dois ótimos livros. "Ser Republicano no Brasil Colônia", de Heloisa M. Starling (Companhia das Letras), investiga o sentido que a palavra "república" ganhou entre nós desde o início. O seu primeiro significado, em uma terra destinada apenas a fornecer riqueza para Portugal, é operacional.
Em sua "Historia do Brazil" (1627), frei Vicente do Salvador já lamentava, como hoje se lamenta, que "nenhum homem nesta terra é repúblico, nem zela ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular". Ser republicano era zelar pela metrópole.
No século 18, o conceito de República vai ganhando o perfil dos modos de organização do Estado, num caldeirão explosivo que começa no desejo genérico de autonomia e liberdade e termina na ideia radicalmente revolucionária, segundo a qual "todos os homens nascem iguais".
Em seu sentido primeiro, a República se opõe à tirania; em outro, que triunfou no Brasil, opõe-se apenas à monarquia. A igualdade sonhada a partir da matriz francesa esbarrava aqui no estatuto da escravidão, que literalmente carregou o país nas costas e desde sempre foi a armadilha mortal do nosso atraso. O livro faz uma viagem conceitual fascinante e precisa sobre os impasses republicanos da história brasileira.
Em seguida, mergulhei em "O Tiradentes  uma Biografia de Joaquim José da Silva Xavier", de Lucas Figueiredo (Companhia das Letras). Numa narrativa límpida do início ao fim, atentamente documentada, o livro é uma viva demonstração de como a luta republicana se materializou de fato entre nós nos detalhes e nos meandros da Inconfidência Mineira, a segunda maior conjuração republicana das Américas depois da revolução americana.
Movimento rebelde que nasceu entranhado na maior mina de ouro do mundo, de onde Portugal extraía a imensa riqueza que dilapidava em seguida por força da inacreditável inépcia de uma monarquia enlouquecida, a Inconfidência foi uma aventura eletrizante. Envolveu pontas de todo o espectro da elite política e econômica da região, alimentou-se do ideário letrado do Iluminismo e da Revolução Americana, e terminou com o enforcamento e esquartejamento de um alferes injustiçado, entusiasmado, boquirroto e irrelevante —um pequeno Cristo à brasileira, o Tiradentes.
Duas belas leituras sobre o conceito de República, úteis para o momento em que o futuro presidente nos pastoreia com a "verdade".

Qual ideologia de gênero? - Contardo Calligaris

Mariza Dias Costa/Folhapress



Se digo que o vírus HIV (causador da Aids) pode ser transmitido por transfusão de sangue ou numa relação sexual, especialmente anal, isso é hoje conhecimento. Posso acrescentar que, portanto, a transmissão é mais frequente em pessoas promíscuas e em hemofílicos, que precisam de transfusões assíduas: isso também é conhecimento.
Mas, se digo que o HIV é um flagelo divino para punir os promíscuos e particularmente os homossexuais, que transam muito (e nem é para se reproduzir), isso não é conhecimento, é ideologia. Isso, só para verificar que falamos a mesma língua.
Nessa linha, a “ideologia de gênero” seriam as opiniões ou crenças em matéria de gênero —diferentes do conhecimento que vamos acumulando, aos poucos, sobre o tema. Exemplos.
A partir dos anos 1970, alguns militantes, querendo proteger a vida e os direitos de indivíduos que tentavam mudar de gênero, afirmaram que os gêneros seriam construções puramente sociais: não existiriam, aliás, apenas o gênero masculino e o feminino, mas um leque de nuances de gênero, onde cada indivíduo encontraria livremente seu lugar.
Essa afirmação é parcialmente ideológica, pois não é exato dizer que cada um escolhe seu gênero “livremente”, como a gente escolhe a roupa do dia. E é parcialmente correta (não ideológica) porque, de fato, como vou mostrar mais adiante, não existem só dois gêneros.
Agora, a ideia de que o gênero poderia ser “livremente” escolhido pareceu perigosíssima (não sei bem por que) aos defensores da família tradicional e da ordem. E eles acusaram os ativistas já mencionados de praticarem uma “ideologia de gênero”. De fato, a crença dos tais defensores da tradição, de que haveria só dois gêneros, é também uma ideologia. Ela é, aliás, a grande ideologia de gênero contemporânea, aquela que impera nos botequins e nas igrejas.
Moral da história: em matéria de gênero, temos duas ideologias opostas. Uma diz que os gêneros são construções culturais que nos são impostas e que deveríamos poder escolher livremente. E a outra diz que só há dois gêneros, e o resto seria papo furado e sem-vergonhice.
O que realmente sabemos sobre gêneros, ideologias à parte? Sabemos que o sexo aparente de um indivíduo pode não corresponder ao gênero ao qual o indivíduo se sente pertencer —nesses casos, o indivíduo pode se tornar transgênero, ou seja, mudar sua aparência e seu sexo, para caber no gênero ao qual ele se sente pertencer. Quando isso acontece, há uma mistura complexa (e ainda bastante pouco definida) de fatores em jogo: genéticos, hormonais e psíquicos.
Mas o que me importa hoje é que também sabemos que o sexo aparente de um indivíduo pode não concordar com seus órgãos sexuais internos ou com o sexo indicado por seus cromossomos. 
Por exemplo, alguém pode ter cromossomos XY (masculinos), nascer com vulva e vagina e, no lugar onde se esperaria que estivessem seus ovários, apresentar testículos. O feto desse indivíduo apenas respondeu de maneira atípica aos andrógenos masculinizantes (talvez uma deficiência de 5-alfarredutase).
A lista das condições genéticas e hormonais que produzem indivíduos intersexos (nem homens nem mulheres) é longa. Uma estimativa plausível diz que 1,7% dos nascimentos são de indivíduos mais ou menos intersexos.
A medicina foi truculenta e abusiva com esses indivíduos. Classicamente, até dez anos atrás, num caso como o que citei antes, os médicos decidiriam tirar os testículos e “fabricar” uma menina.
Hoje prefere-se deixar cada um crescer e viver como ele ou ela decidir. Nos últimos anos, as operações e mutilações de crianças intersexos são mais raras, até porque, em alguns países, o indivíduo mutilado na infância pode, uma vez adulto, recorrer à Justiça e pedir indenização a médicos e pais. Também se começa a pensar na possibilidade de os intersexos declararem oficialmente seu gênero como neutro.
Enquanto isso, a ideologia de gênero insiste em declarar que Deus só cria homens e mulheres. Os botequins e os pastores que pretendem isso estão comprometendo a reputação de Deus, pois, obviamente, sua fábrica de humanos, se Ele estivesse fabricando só homens e mulheres, teria um seríssimo problema de controle de qualidade.
Uma questão, que fica para outra vez: por que a existência de intersexos e transgêneros é negada pela ideologia de gênero de botequins e pastores?


Cérebro reptiliano - Antonio Prata

Adams Carvalho


Vejo o lagarto parado no meio do gramado e o lagarto me vê. Acho-o bonito: preto, branco e amarelo, um minijacaré, um minidinossauro se aquecendo ao sol. E ele: o que achará de mim? Terá medo? Curiosidade? Raiva? “Saco, terei que correr de novo pro meio das Marias-Sem-Vergonha...”? Imagino se um dia, no futuro, será possível frequentarmos as mentes de outros seres vivos.
(Não entendo picas de neurologia, mas os neurologistas de hoje tampouco sabem patavinas do que será a neurologia em 100, 200 anos, de modo que me sinto plenamente autorizado a dar sequência a estas divagações pseudocientíficas).
Digamos que daqui a uns 100, 200 anos, criassem um lagarto num laboratório. Que monitorassem toda sua atividade neuronal desde o ovo. Um computador armazenaria cada sinapse da vida do lagarto. Teríamos um HD externo de sua mente.
Há camadas profundas do nosso cérebro que se assemelham ao cérebro de um lagarto. Isso torna possível, portanto, segundo fontes seguras que acabo de inventar, ir a um laboratório que “desligaria” em seu cérebro, temporariamente, tudo o que não é lagarto. E os cientistas “rodariam” no seu fac-símile de cérebro lagarto as estruturas de “pensamento” daquele lagarto específico. E te mostrariam, em realidade virtual, sua própria imagem chegando, no gramado.
Então você experimentaria o que o lagarto experimentou ao te ver chegar. Da mesma forma, poderíamos enxergar o mundo pelos olhos de uma galinha. De uma baleia azul. “Sentir” uma pitanga a 50 metros pelo sonar de um morcego.
Bem, se for possível vivenciar a experiência de outro espécime, por que não habitarmos, por alguns momentos, a consciência de outro ser humano? Caso o download cerebral fosse viável, quem sabe poderíamos, digamos, resgatar do cérebro do Pelé cada gol de sua carreira e reviver as experiências?
Não, talvez as experiências não fiquem gravadas como ranhuras num disco de vinil. Mais provável que sejam narrativas vivas que são recontadas de nós para nós mesmos o tempo inteiro, mudando a cada recontagem, contaminadas pelas experiências posteriores.
Mas digamos, sei lá, que a nossa neurologia seja tão avançada daqui a 100, 200 anos que os cientistas consigam ir apagando as memórias pelas datas, de modo a reconfigurar o cérebro de alguém como era aos quarenta anos, aos vinte e cinco, no dia três de agosto do ano de seu quinto aniversário. E assim cheguem às memórias fresquinhas. Mais: ao momento antes da memória, à experiência.
Pra que videogame, com uma tecnologia dessas? Imagino um mercado pornô. “Vê aí Kennedy com Marilyn, por favor?”. “Do ponto de vista dele ou dela?”. Imagino um mercado de terror. Cérebros de serial killers escaneados e vendidos no mercado negro: a sensação de cometer os crimes mais atrozes. Para mediação de conflitos, as partes envolvidas veriam a si próprias, via realidade virtual, através das consciências de seus oponentes. Jamais nos perguntaríamos, “afinal, por que chora este bebê?”.
Talvez se torne possível contrabandear apenas partes destes softwares, por alguns momentos. “Amigo, tô indo jantar com uma garota pela primeira vez. Configura aí pra mim a segurança do Muhammad Ali?”. E se as pessoas começarem a baixar mentes inteiras e se trocar por outros? Milhões de Joões se tornando Marks Zuckerbergs. Josés virando Einsteins. Antonios adotando Cabos Daciolos?
O lagarto sai correndo e some no meio das Marias-Sem-Vergonha. Estava com medo —bem, pelo menos foi o que sugeriu esta limitada percepção de primata.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...