sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O corpo - Natalia Borges Polesso

https://medium.com/mulheres-que-escrevem/mulheres-que-escrevem-entrevista-natalia-borges-polesso-ab80fce86f76


Quando o corpo arte representado, como tema em desenhos, pinturas, esculturas, e mais, é ação, fragmento, prática de ser.

Quando o corpo movimento atravessa a geografia e o tempo carrega nos músculos resíduos do planeta, do que já foi o cosmos, do que se é no cosmos.

Quando o corpo sentido aconchega-se à noite, cata uma pedra, uma pena, uma folha, um desejo, para dormir bem na temperatura da própria pele, na sua aspereza talvez.

Quando o corpo sentimento eriça penugem, pestana, quando corrói tripas, quando dilata claraboias, respiradouros, filamentos, avisa complexidades estabelecidas, celebra tratados, contraria Hipócrates.

Quando o corpo consciência englobante decodifica símbolos, em complexas escrituras-imagens, através dos olhos, sistematiza, ordena, destrói viagens.

Quando o corpo ritual, marca indestrutível enquanto tempo, é vida potente, outros ainda dervixes, em movimentos circulares, sequências tibetanas, atualizações dos mitos imitações do universo nas danças da água e do relevo.

Quando o corpo magnetismo de atração-repulsão intrínseca permanente exerce fenômeno na energia duradoura inescapável do outro, é exercício de aceitação, de maleabilidade, de convívio.

Quando o corpo pensamento na História, na tentativa de organizar o Ocidente e o Oriente, na tentativa de compreender o globo, o céu e o grão, na tentativa das grandes narrativas, é ingênuo, mas também é anseio, sede legítima.

Quando o corpo coletivo é massa, é força, trabalho, mudança concreta, quando é manada, intensidade animal, levanta do chão a terra, o mato, o asfalto, o cheiro de mundo.

Quando corpo máquina reduzido a repetências impensadas cria abundâncias e capitais que restritos são inutilidades cruéis, não é mais nem corpo, é outra coisa, utensílio.

No agora, o corpo devastado, triste potência, transcendente-virtualidade, o corpo capaz da luta, do seu refazimento, no agora, apenas o corpo acusado.

O corpo reduzido a lixo, mutismo e perversão, estirado num lodaçal de vozes intransigentes.

Uma história de terror - David Coimbra


Você já ouviu falar em hermafroditas protândricos? Eles nascem como machos e depois se transformam em fêmeas. E, não, isso não tem nada a ver com ideologia de gênero. Os hermafroditas protândricos não são pessoas com a cabeça aberta; são bichos. São as chamadas pulgas-do-mar.

Neste ponto, faço uma advertência: se você não gosta de histórias macabras, pare de ler. O que vou contar sobre a pulga-do-mar é uma mistura de Alien com O Exorcista.

Ocorre que a pulga-do-mar é um parasita. Ela nasce menino, ou seja, um pulgo. Esse pulgo escolhe um peixe para chamar de seu. Quando o encontra, mete-se por dentro das guelras dele e se instala em suas brânquias. Ali, o pulgo vai crescendo, crescendo. Quando está bem gordo, ele vira uma gorda: muda de sexo e se transforma em uma pulga.

Nesse momento, a pulga-do-mar migra para a língua do infeliz peixe. Valendo-se de dentes poderosos, ela fura a carne da língua e ali se aloja. Por mais que o peixe se debata, não conseguirá removê-la. Deve ser horrível, porque a pulga passa a sugar o sangue da língua com voracidade de dez Dráculas, e sua fome é tamanha, que a língua murcha, seca e cai. Aí, a pulga finca as patas traseiras na boca do peixe e passa ela, pulga, a fazer o papel de língua.

Tendo a pulga como língua, o peixe, incrivelmente, consegue se alimentar e sobreviver. Mas em terríveis condições, porque a pulga permanece ali, comendo da mucosa da boca do peixe e bebendo do seu sangue.

Para arrematar essa história horrenda, vou contar algo ainda mais horrendo: é que pulgos machos, ao perceberem que tem pulga na área, invadem as guelras desse mesmo peixe sabe para quê? Para namorar a pulga da língua, que tinha virado fêmea. Aí, o pulgo e a pulga transam na boca do peixe e, mais tarde, é ali que a pulga tem os seus filhotes, um monte de pulguinhos que virarão pulgas.

Cristo!

E, agora que você sabe a respeito dessa pulga vampira, diga-me uma coisa: que história é essa de que a natureza é boa, a natureza é bela, a natureza é pródiga? Se a Mãe Natureza é de fato mãe, como é que ela permite que aconteça algo assim com o peixe? E as zebras que neste momento estão sendo perseguidas por hienas na savana da África? E as moscas que estão enredadas nas teias enquanto a aranha se aproxima para sugá-las? E o coelho que se debate nas garras do gavião?

Sabe o que é bom, na natureza?

Nós!

Nós, seres humanos, também podemos matar e destruir, mas só nós preservamos o mico-leão-dourado e os gorilas do Congo, só nós plantamos árvores e criamos parques, só nós despoluímos rios e só nós poderíamos tirar a maldita pulga-do-mar da língua do peixe, se víssemos uma.

Lembre-se: cães e gatos só existem porque nós existimos, eles são animais domésticos, que dependem de nós e só vivem por nossa causa. Nós enfeitamos o mundo com coisas grandiosas, como as pirâmides, e belas, como o Moisés de Michelângelo. Nós evoluímos até a Megan Fox. Nós damos passes de trivela, pintamos a Gioconda, escrevemos O Velho e o Mar. Nós somos legais. Viva nós. Por isso, vez em quando podemos tolerar uma geração da qual saem um Bolsonaro, um Lula ou um Temer. Na natureza, há monstros piores. No geral, estamos nos saindo bem.

Saudade quase sem memória - Milton Hatoum

"Existe mesmo o tempo?"
João Guimarães Rosa

“Anos e anos em busca de um objeto”, disse minha amiga, “e quando parei de procurá-lo, ele me encontrou.” 

Que diabo de objeto é esse?
“Um pequeno demônio do passado: um relógio antigo. Quando eu tinha cinco anos, meu avô disse para minha mãe que um relógio não era presente de menina, mas era tudo o que ele tinha de valioso para a única neta. Foi a herança do meu avô. Uns dois meses depois, ele morreu. E eu cresci com ‘uma saudade quase sem memória, uma saudade que a gente nem sabe que tem’. A infância passou com rapidez: foi um salto para outro tempo. Às vezes, no meio da manhã, os ponteiros do relógio antigo marcavam três e cinco, ou quinze e cinco. Era a hora da tarde ou da madrugada, o dia ou a noite. Eu me esquecia de dar corda no relógio, o tempo parecia travado ou interrompido, os ponteiros permaneciam parados numa hora morta. Aí eu pensava nos intervalos da vida. Era uma diversão no fogo da adolescência, que já se apagava. Anos depois, essa diversão passou a aguçar minha memória: o que a gente esquece, e o que a gente não pode esquecer. O tempo no Brasil dá saltos perigosos: avança um tiquinho, tropeça, dá cambalhotas, retrocede muito e corre na direção do abismo. Lembro com nitidez um dia de 1990, ano de um confisco criminoso, feito pelos economistas do caçador de marajás. Naquele ano horrível, muita gente ficou na penúria, meu pai sofreu um enfarte e nos deixou. Tranquei minha matrícula na universidade, tive de trabalhar para sobreviver, minha mãe foi obrigada a vender o relógio. Mas eu não parei de ler. O prazer da leitura prevaleceu sobre a dor do luto e a rotina tediosa do trabalho. O relógio não tinha para mim uma qualidade sobrenatural, era apenas um objeto que lembrava uma pessoa querida. De tanto observar as fotos do meu avô, pensei em escrever um retrato imaginário dele, de poucas páginas. Mas não consegui, e acabei escrevendo um soneto... Quer dizer: reescrevi um poema de um autor que admiro, nós reescrevemos o que lemos, um poema alheio pode ser meu ou de qualquer leitor.” 

Um soneto sobre o tempo?
“Sobre a arte da poesia, o que dá no mesmo. A conversão do ultraje dos anos em uma música, um rumor, um símbolo... Passei vinte e seis anos procurando o presente do meu avô, eu acreditava que um dia o comprador do relógio ia revendê-lo para mim. Esse objeto se tornou uma roseta metálica, um símbolo…” 
Mas isso tem algo de mágico ou sobrenatural, eu disse. 
Minha amiga abriu um sorriso e depois a bolsa, de onde tirou um relógio prateado, e colocou-o sobre a mesa. Era muito antigo, de algibeira, com uma longa corrente de prata, que formava na mesa uma fina serpente em espiral. 
“Hoje, digo brincando que o relógio do meu avô não era exatamente um mecanismo para medir o tempo, e sim um joguete metafísico, uma diversão sem regras, cheia de indagações e dúvidas, que a gente lê nos livros de filosofia e literatura. Nossa mente existe sem uma sucessão de ideias no tempo? Nossa desordem interior não subverte qualquer ideia de sucessão? A dor, o desejo, o sofrimento e o afeto pertencem a alguma categoria temporal? Existe mesmo o tempo?”
E o poema, existe mesmo?
“Sim, no livro do poeta e na minha memória: Olhar o rio feito de tempo e água/ e recordar que o tempo é outro rio,/ saber que nos perdemos como o rio/ e que os rostos passam como a água…”


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Toda nudez será castigada - Gregorio Duvivier

Catarina Bessell

Um artista nu permite que espectadores manipulem suas articulações. Uma criança, acompanhada da mãe, toca no seu pé.
Sugiro às pessoas que viram erotismo nessa cena que procurem tratamento psicológico. Amigo, você sofre de alguma doença grave: ou tem tesão em crianças, ou tem tesão em pés, ou tem tesão em crianças tocando em pés. Ou é pedófilo, ou podófilo, ou pedopodófilo.
A cena em questão é tão erótica quanto o teto da Capela Sistina (em que Adão, vale lembrar, estava pelado) ou aquela cena do "E.T." em que a criança toca no dedo do extraterrestre (em que Adão, vale lembrar, estava pelado, vestindo apenas um cachecol). Deve ter gente que vê erotismo nisso. E deve ter gente que vê, inclusive, na extremidade vermelha do dedo do E.T. um símbolo fálico. Mas o problema é delas, e não do E.T.. O tesão é de quem vê. O mesmo vale para quem se escandaliza com o seio de uma mãe que amamenta. Isso é coisa de gente muito tarada. Por acaso, o Brasil tá cheio delas.
José Wilker contava que tinha um parente que se relacionava sexualmente com uma cabra, e todo o mundo sabia disso. O tal parente, quando viu "Dona Flor e seus Dois Maridos", ficou tão chocado com a cena da nudez que cortou relações com o Wilker. Brasil, o país em que só a nudez choca. Todo o resto é perdoável.
Viva o país em que o topless é proibido, mas a ejaculação no ônibus é tolerada. Um país em que uma exposição dita profana é cancelada, mas o mandato do Aécio segue firme e forte. O país em que o professor não pode ter partido, mas pode ter igreja, e fazer propaganda da igreja, mesmo na escola pública.
Sabe o que é um crime contra a infância? Ensinar criacionismo nas escolas. Crime contra a infância é a música gospel da Aline Barros que ensina as crianças a pagarem o dízimo: "Jesus se agrada, Jesus se agrada / da ofertinha da criançada / Tirilim, tim, tim / oferta vai caindo dentro da caixinha".
Brasileiro tem orgulho de dizer que adora crianças. Não sei de quais crianças a gente tá falando. Seis milhões de crianças no Brasil vivem em situação de extrema pobreza -muitas delas na rua. Ninguém parece tão chocado quanto com a exposição do MAM. Talvez essas crianças precisassem assistir a uma nudez indevida, talvez precisassem tocar no pé de um artista nu. Aí, sim, o Brasil ia rodar a baiana. "Miséria, desnutrição, analfabetismo, vá lá. O importante é que essa criançada não veja um pinto!"

Era uma vez uma cidade - Antonio Prata



Era uma vez uma cidade que se considerava "a locomotiva do Brasil", mas cuja tara rodoviária era, ironicamente, uma das responsáveis por quase não haver locomotivas no Brasil. O lema escrito no escudo da cidade, em latim, era "Não sou conduzido, conduzo", mas bastaria a ela olhar em volta para suspeitar que não fosse especialmente boa na condução. Em cima da frase em latim, no escudo da cidade, havia uns ramos de café, um castelinho e um braço de armadura segurando uma alabarda. O café era uma homenagem à cultura responsável pela derrubada de boa parte da nossa mata atlântica no passado, o castelinho, uma premonição dos prédios neoclássicos no futuro, e a armadura, uma intuição do que seria a nossa polícia, sempre.
Era uma vez uma cidade que se considerava "de primeiro mundo", mas tratava só metade do seu esgoto e reciclava só 3% do seu lixo. Os rios a cruzarem a cidade eram águas mortas a levar nossas fezes, pneus e garrafas na mesma direção em que, séculos atrás, rumaram os bandeirantes para caçar índios e pedras preciosas.
Era uma vez uma cidade que se considerava moderna, mas onde gays apanhavam na rua, crianças dormiam embaixo das pontes e as margens do Ipiranga ainda ouviam, em pleno século 21, o brado retumbante: "Você sabe com quem está falando?!"
Era uma vez uma cidade que se orgulhava de seu espírito empreendedor, mas onde alguns dos maiores empreendedores se viam envolvidos em escândalos de pagamentos de propinas para políticos, visando assim garantir o monopólio do empreendedorismo.
Era uma vez uma cidade que se orgulhava de ser o berço dos dois partidos a governarem o país nas últimas duas décadas, mas cujos partidos se viam envolvidos em escândalos de recebimento de propinas de empresários, visando assim garantir o monopólio da governança. (Contra um dos partidos, é verdade, havia muito mais provas do que contra o outro, o que talvez se explique, entre outras razões, pelo fato de que só um dos partidos vinha sendo sistematicamente investigado.)
Era uma vez uma cidade em que a pobreza era feiíssima –centro degradado, oceanos de autoconstrução sem árvores ou praças, fios legais e ilegais fatiando o céu–, a classe média era feiíssima –avenida Santo Amaro, Eusébio Matoso, shopping Eldorado– e a riqueza era patética –mansões "peru no pires" estilo Casa Branca, prédios chamados "Maison-sei-lá-o-quê" e "Villa-não-sei-das-quantas" com colunas jônicas e pinheirinhos a cinquenta metros de altitude.
Era uma vez uma cidade em que matar 111 presos desarmados era considerado "legítima defesa", mas quem saísse para protestar contra o governo poderia ser encarcerado e enquadrado na lei antiterrorismo –antes mesmo da manifestação.
Era uma vez um país em que acidentes de trânsito matavam mais de 50 mil pessoas todo ano, num planeta que vinha cozinhando por causa da queima de combustíveis fósseis. Era uma vez uma cidade que, a menos de uma semana da eleição municipal, tinha nos três primeiros colocados nas pesquisas defensores ferrenhos do aumento da velocidade dos automóveis e de menor rigor na aplicação das multas de trânsito –as melhores respostas, sem dúvida, para os enormes desafios daquela cidade, daquele país, daquele planeta.
Era uma vez uma cidade.

Igrejinha - Fabrício Corsaletti

à memória de Marco Aurélio Sanchez Coelho


uma igrejinha cor-de-rosa
no estilo gótico brejeiro
não vai durar, não vai durar
é claro que não vai durar
mas ela é única a seu modo
desprotegido e despojado
e me comove quando subo
a Frei Caneca de ressaca
penso na catedral de Chartres
daqui a dois ou três mil anos
toda cercada por turistas —
se ainda houver gente no mundo —
e nenhum deles saberá
que um dia houve uma igrejinha
perto de casa, cor-de-rosa
no estilo gótico rasteiro
com uma torre de chapéu
verde, de ardósia, o mais simpático
de todos os chapéus de igreja
e no entanto condenado
como essas nuvens e estas mãos

domingo, 1 de outubro de 2017

Portuñol - Ruth Manus

Hoy estoy volvendo para mi casa después de 15 dias en México. Estoy enamorada, que maravilla que és este país. Pero este texto no és para hablar de México (bamos a tener muchas chances de hacer-lo en otras ocasiones). Este texto sierve para hablarmos sobre la beleza de este idioma lindo, em cual escrivo, llamado portuñol.
El portuñol nasció por uma razón muy bonita que és la perserberância que nosotros brasileños tenemos cuando queremos nos comunicar com nossos hermanos de América Latina. Pienso que los portugueses también lo hacen con los españoles (pelo mienos mi esposo lisboeta habla un portuñol mucho respectable, o que és claramiente una de las raziones que me llevaram a casar-me con el).
Nosotros, que dominamos el portuñol, tenemos mucha admiración por las personas que saben hablar español de verdad. Nos gustaria mucho. Pero hacemos lo que nos és posible, una vez que, infelizmiente, no frecuentamos el Instituto Cervantes o otra maravillosa instituición de enseño del español. Mas, sobretodo, el portuñol represienta una cosa muy linda que és la resistência a hablar inglés cuando estamos entre hermanos. Por que decir “a glass of water, please” cuando podemos pedir “un copito de aguita” con uma sonrisa nel ruesto? Mucho más lindo.
El facto de hablar portuñol también és um sinctoma de buen senso porque hay mucha gente (lê-se rrrrrrrente) de Brasil que hace una cosa muy constrangedora (lê-se constranrrrrrrredora), que és hablar português cada vez más alto e más despacito, como si eso fuera capaz de hacer nuestros hermanos latinos nos compreedieren sin dificuldades.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...