domingo, 7 de julho de 2019

Concordar é tão inútil - Paulo Germano

O homem mais sábio de Atenas, quiçá do mundo, era um mendigo. E dormia num barril. Pelo menos era o que todos comentavam e, quando o rei Alexandre, o Grande, soube da história, quis conhecer o pensador maltrapilho.

Alexandre gostava dos sábios, julgava importante tê-los por perto - não à toa, Aristóteles era seu principal conselheiro. Se o tal mendigo fosse assim tão sabido, talvez pudesse trabalhar para a coroa.

Diógenes era o nome dele.

Sua filosofia pregava que tudo o que é natural não pode estar errado. Ele usava essa premissa para peidar, urinar e se masturbar em público, mas isso nunca impediu a população de admirá-lo. Os atenienses respeitavam sua postura contestadora, sempre denunciando as convenções sociais e a forma como o homem complicava "os mais simples presentes dos deuses". O casamento, dizia Diógenes, era uma forma de complicar o presente natural do sexo.

Ideias meio doidas para a Grécia da época - talvez até mais doidas para o mundo moralista de hoje -, mas carregadas de boas intenções: o velho insistia que, para alcançar a felicidade, ninguém precisaria depender de qualquer coisa externa à própria existência. Bastaria usufruir dos "presentes naturais" e libertar-se das imposições de uma sociedade que mais reprime do que acolhe. Praticamente um hippie, só que 24 séculos antes dos hippies.

Já vou falar de seu encontro com Alexandre, o Grande, até porque estou há cinco parágrafos divulgando uma filosofia da qual discordo de cabo a rabo. Diógenes era um ingênuo, um utopista. E é evidente que grande parte dos atenienses também discordava dele. A questão é que ninguém se recusava a escutá-lo, pelo contrário: todos queriam saber o que Diógenes tinha a dizer simplesmente porque ele tinha, de fato, algo a dizer.

Ainda que fosse um mendigo peidorreiro.

Eu, por exemplo, nem sempre tenho algo a dizer, mas, na semana passada, acho até que tinha. Expus minha interpretação sobre como Jesus veria os homossexuais hoje em dia - tudo com base em trechos da Bíblia e em algumas leituras sobre hermenêutica. Mas, bastava as pessoas lerem o título - e muitas só liam o título -, para escreverem comentários e e-mails sugerindo coisas como me pendurar de ponta-cabeça e arrancar meus olhos com pinça, o que Jesus provavelmente acharia ruim.

As pessoas se enfurecem, espumam de ódio quando esbarram com um ponto de vista diferente. Por que concordar virou tão necessário? Não há nada mais monótono, cômodo e inútil do que concordar em qualquer debate. Aliás, só a divergência pode produzir um debate, só ela tira da inércia, só ela expõe outro ângulo, só ela provoca e nos faz crescer. Como Diógenes provocava.

Então o rei Alexandre, o Grande, chegou a Atenas sobre um cavalo negro. Alguém apontou-lhe a lateral de uma escadaria, e lá estava um barril deitado, com o velho molambo escorado à frente, tomando sol depois do almoço.

- Que queres que faça por ti? - perguntou Alexandre, em pé, mirando o homem no chão.

O problema é que o rei se metera bem na frente do sol. Diógenes ficou brabo com aquela sombra; cara chato, esse rei.

- Não quero nada. Só não me tires o que não podes dar! - e fez sinal para Alexandre cair fora.

O povo gritou "oh!", e um general sacou a espada berrando "como ousas, mendigo insolente?". Diógenes mal ergueu a sobrancelha, só faltou bocejar. E Alexandre, com um gesto de mão, mandou o oficial recuar, despediu-se em voz baixa e foi embora calado, pensando no que ouvira.

- Só não me tires o que não podes dar... - repetia o rei, já retornando.

Diógenes se referia à luz do sol? Ou à sua própria forma de enxergar o mundo? Porque Alexandre, se obrigasse Diógenes a trabalhar para a coroa, mudaria a forma como o velho se relacionava com o mundo. O rei refletiu, então, sobre o que aquele homem pensava do mundo e, bem, talvez nem tenha concordado. E daí? Que diferença faria?

Cuidado com o que não vê - Fabrício Carpinejar

As pessoas estão revoltadas, passionais, imediatistas. Mesmo quando têm razão, perdem a razão pelo descontrole, por gritar, por destratar.

Elas já se sentem enganadas por antecipação. Como se todos, sem exceção, tivessem segundas intenções e ansiassem por obter vantagem.

Os olhos não enxergam mais, somente recebemos a realidade pela boca aberta, disparando insultos.

Uma senhora entrou em um ônibus na Capital, na parada da Igreja São Sebastião.

Percebeu que estava lotado, não havia lugar na frente ou nos fundos. Observou os assentos dianteiros e vermelhos reservados aos idosos, gestantes e deficientes físicos e direcionou o seu ódio a um jovem escorado na janela. Ele cochilava. Ela entendeu que, na verdade, dissimulava, fingia cansaço, disfarçava o roubo da cortesia.

Ela não foi nem um pouquinho educada e discreta:

- Ei, ei, pode levantar daí! Esse lugar não é seu!

- Como assim? - ele respondeu, assustado.

- É uma vergonha deixar uma velha como eu, com quatro netos, aposentada, de pé.

- A senhora acabou de entrar. Não a tinha visto.

- Não importa quando entrei, importa que você não deveria estar sentado aí. Mais respeito com quem merece. É uma roubalheira. Ninguém respeita nada. Tudo é malandragem. Tudo é safadeza.

- A senhora não pode me ofender. Calma, sem escândalo! Vou sair já, um minutinho.

- Escândalo? Lutar pelos nossos direitos é escândalo? Não fica nem vermelho. Um minutinho nada, sai agora seu moleque, sai!

- Não precisa ser grossa.

- Grossa? Agradeça por não ser linchado, por não ser posto para fora do ônibus, por não receber um pontapé na bunda.

O bate-boca foi crescendo de modo assustador. Ela ameaçou bater nele com a sua bolsa, segurando a alça como um chicote.

Os passageiros levantavam os seus celulares filmando e sonhando com os milhões de acessos no YouTube.

O rapaz, então, levantou-se com muito esforço, pedindo licença, pedindo ajuda, pedindo passagem. Estava amparado em muletas, havia perdido a sua perna esquerda.

Houve um silêncio constrangedor. Diante das freadas súbitas do transporte, ele se segurava na barra de cima com uma mão e com a outra buscava manter o frágil equilíbrio da perna inexistente.

A idosa buscou consertar a sua injustiça, e piorou o soneto:

- Não vi que era um aleijado.

O jovem, que ia fazer avaliação no Hospital de Clínicas, na Avenida Ramiro Barcelos, apenas corrigiu: - Aleijado é quem não tem alma.

Depois que ela se vai - Martha Medeiros

Oba, amanhã é dia de faxina! Esse é o comentário entusiasmado de quem deixou 17 copos sujos na pia, de quem não se deu o trabalho de desvirar o vaso de terra que foi derrubado pelo gato no tapete da sala, de quem deixou marcas de dedos no vidro da janela e o pó acumulando no canto dos móveis.

Oba, amanhã é dia de faxina! É o brado dos que largam jornal velho na área de serviço, dos que varrem os farelos do pão pra baixo do balcão da cozinha e dos que não passam nem um papel toalha no fogão depois de um fim de semana de frituras.

Oba, amanhã é dia de faxina, diz o dono de um sobrado num domingo à noite, ao perceber a semelhança do seu pátio com uma avenida após a passagem de um bloco de Carnaval. Oba, amanhã é dia de faxina, exclamam duas preguiçosas que dividem um apê e que não largam o celular nem para recolher os fios de cabelo grudados no ralo do box ou para procurar a tarraxinha do brinco que escorregou para baixo da cama. Uma faxineira na segunda-feira equivale a uma fada madrinha, a uma visita de Nossa Senhora.

Medo! Amanhã é dia de faxina!

Medo? Também. A impecável faxineira deixará tudo brilhando, sem vestígios do churrasco que o patrão fez para 20 amigos e sem vestígio do desleixo das duas molengas que não levantaram da cama no domingo. A faxineira encontrará a tarraxinha e deixará o apartamento um brinco. Ficará tudo tinindo e fora de lugar. É esse o drama: depois que ela se vai, a casa parece outra.

Você retorna à tardinha, depois de um dia de trabalho, e está tudo quieto. O desengordurante com aroma de flores silvestres deixou um cheirinho de limpeza no ar, mas o caderno de anotações em cima da sua escrivaninha desapareceu. O porta-retratos com a foto da sua mãe estará na quinta prateleira da estante e não na terceira. Sua pedra espetacular trazida do Marrocos foi jogada no lixo. Os fios do seu equipamento de som foram desconectados - nem o cabo do seu roteador escapou, você está offline.

As fronhas foram colocadas do lado invertido, os copos foram guardados em algum lugar misterioso, os tapetes estão trocados e sua escultura do Buda foi parar no hall de entrada - ficou melhor ali, admita: sua funcionária tem tino para decoração.

Oba, faxina! Exclamação dos que ainda podem se dar ao luxo dessa ajuda. Mas o medo ronda aqueles que sofrem ao perceber que a caixa de fósforos não estará na gaveta habitual, que não suportam ver seus livros dispostos de outro jeito, que ficam fulos ao ver que o violão foi colocado no armário em vez de encostado na parede. Cadê o respeito pela nossa bagunça tão familiar? Quem somos nós sem nossos desarranjos? Quem pode compreender a ordem da nossa desordem? Não é hora de filosofar, e sim de descobrir onde a maluca enfiou o gato.

A terra tremeu - Luis Fernando Verissimo

A Califórnia tremeu por esses dias. Os californianos convivem há anos com a expectativa nervosa do “big one”, o grande terremoto que destruirá tudo e varrerá os escombros que sobrarem para uma grande fenda na Terra. Os especialistas dizem que a questão do “big one” não é se ele virá, mas quando.
Qualquer sacudida (e a Terra treme um pouquinho várias vezes por dia na Califórnia), pode ser um prenúncio de tragédia. Na nossa primeira noite na casa que ocuparíamos durante um ano em São Francisco, o chão balançou, os lustres sacudiram e fomos nos deitar em vigília, certos de que o “big one” nos pegara. Pelo menos já teríamos o que contar em Porto Alegre. Mas a imprensa não disse nada sobre o que fora, aparentemente, um filhote de terremoto, só para assustar brasileiro. 
*
O Millôr certa vez falou da sua emoção ao descobrir o lápis n.º 1. Acho que todo homem reproduz, em algum momento da sua vida, a mesma sensação do primeiro pré-humano que enfiou o dedo num favo de mel e depois lambeu o dedo, e teve um vislumbre das dádivas do mundo – enquanto fugia das abelhas. O meu momento foi na Califórnia, com 7 anos de idade, ao ver meu primeiro gibi a quatro cores. Quadrinhos coloridos! A vida tinha doçuras insuspeitadas. 
*
Mas nunca me orgulhei tanto do que fiz como quando construí um projetor com uma caixa de charutos e projetei na parede um filme desenhado por mim em papel de seda. O filme queimou em dois segundos, mas foram meus melhores dois segundos até agora. Meu pai comprara um projetor de verdade, de 16 mm, mas só dois filmes: um de patinação no gelo, com a Sonja Henie, para a minha irmã, e um do Durango Kid para mim. Víamos os filmes sem parar, e sem cansar. Veríamos qualquer coisa projetada na tela improvisada com o mesmo prazer. O que interessava mesmo era aquela mágica: cinema em casa! 
*
Há algum tempo perguntaram a várias personalidades qual era o filme da sua vida. Curiosamente, os dois filmes mais citados, Amarcord e Cinema Paradiso, são evocações da infância em que o cinema é a referência comum. Como não eram filmes tão antigos assim, sua escolha foi uma maneira indireta de a maioria fazer a ligação de cinema e nostalgia, e dizer que nossa relação com o cinema é sempre a da fascinação infantil.
O filme de Giuseppe Tornatore não é sobre outra coisa. O do Fellini é, entre outras coisas, sobre o impacto do cinema e tudo que ele representava na alma provinciana e na imaginação infantil. Crescemos todos num arrabalde de Hollywood, vendo as suas luzes de longe e sonhando em ser, conhecer ou (mais tarde) comer suas estrelas. Amarcord e Cinema Paradiso são os filmes das nossas vidas literalmente. 
*
Não sei se eu teria algum prurido em responder que o filme que marcou a minha vida foi o Gunga Din. Mas se fosse ser sincero e fiel aos meus excessos – devo ter visto o filme umas 20 vezes – votaria em Gunga Din. Depois, claro, Casablanca e vários Hitchcocks, como uma pessoa normal. Mas somos reféns sentimentais dos nossos prazeres mais remotos. Nenhum foi melhor do que aquele do Durango Kid.

Mimo póstumo - Sérgio Augusto

A primeira vista parecia fake news. “Exército homenageia oficial nazista”, deu nas redes sociais, segunda-feira passada. Mas não era fake, era só news. E ainda mais inacreditável porque o Exército em questão não era o alemão, mas o nosso, aquele que na 2.ª Guerra Mundial enviou 25.700 efetivos para combater as forças armadas nazistas e ajudou a derrotar o 3.º Reich. 
Estampada no Boletim oficial do Ministério da Defesa, a notícia nos dava conta de que um antigo major do exército alemão, cujo nome completo consome 52 caracteres no Tweeter: Eduard Ernest Thilo Otto Maximilian von Westernhagen, teria sua memória “perpetuada”, com direito a placa de bronze, por ter sido “um oficial brilhante” e por seu “desempenho profissional” como aluno da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme). 
Motivo sobressalente: naquele dia, 1.º de julho, fazia 50 anos que ele fora assassinado, com dez tiros à queima-roupa, perto da casa em que morava, numa rua do Jardim Botânico, na zona sul do Rio.
O crime, na época atribuído a dois anônimos assaltantes, pela polícia, a uma organização antinazista, pelos agentes do Dops, e ao Mossad, o serviço de inteligência israelense, pelos militares, só seria esclarecido 19 anos mais tarde pelo historiador e cientista social Jacob Gorender, no livro Combate nas Trevas. O major fora morto por dois integrantes do Comando de Libertação Nacional (Colina). Por engano. 
O grupo guerrilheiro de esquerda planejava vingar a morte de Che Guevara, ocorrida um ano antes na Bolívia, mas, em vez de matar o capitão Gary Prado, comandante das tropas que eliminaram Guevara, confundiu-o com seu colega de curso na Eceme. Uma réplica do equivocado atentado a Carlos Lacerda, em 1954, que terminou com a morte de outro major, Rubem Vaz. 
O Boletim militar justificou a “justa homenagem” ao major Otto por ele ter sido o primeiro oficial da Alemanha a cursar a Eceme, o que é verdade, um “sobrevivente da 2.ª Guerra Mundial”, outra verdade, e das “prisões totalitárias soviéticas”, o que é lorota, ou mera propaganda anticomunista, típica da Guerra Fria. 
Oficial da Wehrmacht, Otto comandou um pelotão de blindados na frente oriental do conflito e acabou promovido a 1.º tenente, por bravura, em 1943. Condecorado por Hitler durante a ocupação da França, ficou ferido quando os russos tomaram Berlim, mas, terminada a guerra, mudou-se para a Argentina, a mais acolhedora Pasárgada de criminosos nazistas, onde trabalhou como fazendeiro, retornando à terra natal para realistar-se no Exército alemão. 
Em 1968, chegou às mãos do general Lucídio Arruda, diretor do Dops, um lauto dossiê sobre o major, com cartas e documentos que comprovavam suas ligações com nazistas. Otto não era exatamente um anjo arrependido. Nem merece ser edulcorado com os mesmos argumentos aplicados por Hannah Arendt em seu perfil de Adolf Eichmann, como há dias tentou o diário curitibano Gazeta do Povo.
Não se discute que a vida do major “foi encurtada”, como afirma o texto do Boletim, mas qualificar de “insano e covarde” o ato terrorista que o vitimou é redundância retórica. Todo ato terrorista é insano e covarde – e só parcialmente covarde se o terrorista chegar ao local do atentado e conceder tempo hábil às suas vítimas em potencial para que deem o fora antes de ele detonar a bomba.
Insano e covarde foi o frustrado atentado à bomba no Riocentro, na véspera do Dia do Trabalho em 1981, executado por um capitão e um sargento ligados à linha dura do Exército contrária à abertura política, que miraculosamente ceifou apenas a vida do sargento e feriu o capitão, estendendo seus danos à reputação do capitão Job Lorena de Sant’Anna, encarregado de mentir oficialmente sobre o ocorrido, por ele imputado a “terroristas de esquerda”. 
Igualmente insanas e covardes foram as torturas com soberba assumidas pelo ídolo confesso de Bolsonaro, o coronel Brilhante Ustra, por sinal citado em epígrafe em outro boletim.
De todo modo pegou mal a homenagem. E não apenas entre os israelitas que aqui vivem. Os descendentes dos pracinhas da FEB também se incomodaram. Afinal, 450 deles e três pilotos da Força Aérea morreram em combate contra os nazistas, sem contar os milhares que não resistiram com vida a ferimentos e mutilações. 
Para piorar, o mimo póstumo ao major coincidiu com o depoimento do ministro Sérgio Moro à Comissão de Justiça da Câmara, de onde o ex-juiz, por sua tática de passar ao largo de perguntas incômodas, saiu apelidado, nas redes sociais, de “Filinto Moro”, inequívoca referência ao chefe da polícia política do Estado Novo, Filinto Müller. Promotor de prisões arbitrárias e tortura de prisioneiros, sempre esquivo em suas respostas, Müller ganhou fama internacional ao deportar a comunista judia Olga Benário, grávida, para a Alemanha, onde morreria executada num campo de concentração.
A ditadura Vargas, não custa lembrar, deu mole para o nazismo. Recusou refugiados judeus, relutou em declarar guerra ao Eixo e promoveu um projeto de nacionalização forçada junto às comunidades de origem teutônica no sul do País, sem no entanto evitar que filhos de alemães que haviam viajado para a Alemanha, para estudar ou buscar trabalho, se alistassem nas forças armadas do 3.º Reich. 
Cercado de generais simpatizantes de Hitler, como Dutra, Góes Monteiro e Milton Cavalcanti, Getúlio chegou a ter seus próprios soldados “arianos”. No final da década passada, o professor paranaense Dennison de Oliveira publicou, pela Editora Juruá, um estudo pioneiro sobre os “soldados alemães de Vargas”, que talvez ainda esteja em circulação.
Sobre o penchant nazista dos imigrantes alemães estabelecidos no interior do Paraná, a fonte mais rica continua sendo o filme de Sylvio Back, Aleluia, Gretchen (1976).

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Remorsos - Luis Fernando Verissimo

O ser humano é o único ser que ri mostrando os dentes. Ele saúda os outros revelando sua arma mais agressiva, o que não deixa de ser uma confissão de cinismo. O que nos outros animais é um prenúncio de ataque, para assustar, no ser humano é simpatia. Quanto maior a exibição de caninos dilacerantes e incisivos ameaçadores, maior a falsidade.
Mas está em curso – não sei se notaram – um movimento retributivo, talvez o começo de uma espécie de cultura do remorso, inédita até agora, que vem por aí. 
Não recebeu a atenção que merecia a decisão do Trump de cancelar um ataque americano ao Irã, em represália por um drone derrubado, depois que ele ficou sabendo o número previsto de baixas civis na operação. Trump suspendeu a ação punitiva poucas horas antes de ordená-la, para grande irritação, imagina-se, de John Bolton e os outros hiperfalcões da sua equipe.
Estávamos acostumados a bombardeios americanos anunciados como intervenções “cirúrgicas”, no vocabulário do cinismo. Na invasão do Iraque, por exemplo, quando mais de 100.000 civis morreram, presumivelmente da cirurgia.
Um Trump com bom coração, decidindo quem morre e quem é poupado, de acordo com seu humor matinal, é uma novidade. Fossem quais fossem as razões do Trump, os iranianos que deixaram de pagar por um drone abatido agradecem. 
Um grupo de bilionários, a maioria americanos, pediu ao governo que cobre mais impostos dos ricos, invista mais em programas sociais para diminuir a escandalosa distância entre o um por cento da população que ganha cada vez mais e o resto que ganha o resto.
O movimento não é de esquerdistas sonhadores, inclui gente como Warren Buffett, o americano mais bilionário do mundo, e Bill Gates. Não se sabe se o grupo vai conseguir convencer o governo a adotar seu programa, que já está pronto: é o socialismo, ou o remorso precavido.
De qualquer jeito, um bom modelo para os nossos ricos. Sem riscos. Sempre ouvi dizer que o socialismo só daria certo aqui com um bom patrocinador.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Pro Rio - Luis Fernando Verissimo

Meu plano era o seguinte: ir para o Rio, trabalhar em qualquer coisa, ganhar dinheiro e seguir para Londres. Naquela época estava todo mundo seguindo para Londres. Eu não tinha diploma de nada ou qualquer aptidão ou talento aparente, mas o “qualquer coisa” que me enriqueceria não parecia uma ambição tão irrealista.
Em um ano fazendo “qualquer coisa” (talvez publicidade, talvez traduções do inglês, talvez batendo carteira) no Rio, eu encheria os bolsos e me mandaria. Fácil.
*
A ideia era cinema, fazer cinema. Às vezes imagino como seria se não tivesse saído da casa do pai e esperado a vida ir me buscar. Não resistir ao impulso de ir embora foi uma decisão difícil, ainda mais para um tímido incurável e comodista nato. Me convenci de que chegara a hora de ir pro Rio.
Não me desanimou o medo de que quem reprime seus impulsos, e faz tudo que dá vontade de fazer na hora em que dá vontade, acaba preso ou gravemente desfigurado. Civilização é autocontrole. Só chegamos vivos a esse ponto porque resistimos à tentação de dizer aquela verdade, enterrar o nariz entre aqueles seios fazendo “ióim, ióim”, jogar tudo no 17 ou sair dançando com o magistrado.
Todo homem – pensava eu, atrás de razões para não sair de casa – é a soma não das suas decisões, mas das suas hesitações, ou do que, pensando melhor, decidiu não fazer. Nunca lamente o caminho não tomado, ele provavelmente levaria à ruína. 
*
Quanta gente você não teve vontade de esgoelar e, no fim, apenas sorriu e limpou um fio de cabelo imaginário da sua lapela? Quanto jornal você não teve vontade de amarrotar e jogar no lixo, desejando que em vez do jornal fosse o articulista, mas se conteve e passou, educadamente, à página seguinte? Deveria ter se controlado.
Fez bem em ignorar o aviso de que a repressão de impulsos leva a manchas na pele, cavernas no fígado e sono agitado do qual você acorda soqueando o travesseiro. Uma retrospectiva de tudo o que você imaginou fazer e não fez o convenceria que foi mais prudente abandonar aquele plano de dinamitar o Ministério da Fazenda e, em vez disso, mandar uma carta com ironias pesadas sobre o modelo econômico aos jornais? A orelha dela estava ali, a poucos palmos da sua boca, por que não dar uma mordidinha, só porque vocês estavam numa roda com outros, inclusive o marido dela, e ninguém entenderia quando você explicasse que confundira a orelha com um canapé? Mas você recuou, civilizadamente. Fez bem. 
Eu já, por exemplo, tinha resistido ao impulso de fugir de casa para ser aviador. Poupei-me da frustração de descobrir que eles não aceitavam pilotos de caça com menos de 6 anos de idade. Fiz bem. Corri atrás de uma menina para dizer que a amava, pensei melhor e apenas esbarrei nela, esperando que ela interpretasse a colisão como uma declaração. Deixei-a sentada no chão, chorando, mas escapei do ridículo, pois eu nem sabia seu nome.
Pensei vagamente em estudar arquitetura, como todo o mundo. Acabaria como todos que eu conheço que estudaram arquitetura, fazendo outra coisa. Poupei-me daquela outra coisa, mesmo que não tenha me formado em nada e acabado fazendo esta outra coisa. Mas não resisti ao impulso de ir pro Rio. Onde, um dia, apareceu a Lucia na minha vida.
*
Às vezes, me pergunto como teria sido se eu não tivesse reprimido o impulso de ir estudar cinema em Londres. Eu hoje poderia ser, sei lá, um dos melhores lavadores de prato do Soho. 

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...