terça-feira, 4 de junho de 2019

Como ensinar - Rubem Alves



Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Eu a levaria a passear por parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas simetrias e perfumes; a levaria a uma livraria para que ela visse, nos livros de arte, jardins de outras partes do mundo. Aí, seduzida pela beleza dos jardins, ela me pediria para ensinar-lhe as lições das pás, enxadas e tesouras de podar.
Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música, não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe falaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes.
Se fosse ensinar a uma criança a arte da leitura, não começaria com as letras e as sílabas. Simplesmente leria as estórias mais fascinantes que a fariam entrar no mundo encantado da fantasia. Aí então, com inveja dos meus poderes mágicos, ela desejaria que eu lhe ensinasse o segredo que transforma letras e sílabas em estórias. É muito simples. O mundo de cada pessoa é muito pequeno. Os livros são a porta para um mundo grande. Pela leitura vivemos experiências que não foram nossas e então elas passam a ser nossas. Lemos a estória de um grande amor e experimentamos as alegrias e dores de um grande amor. Lemos estórias de batalhas e nos tornamos guerreiros de espada na mão, sem os perigos das batalhas de verdade. Viajamos para o passado e nos tornamos contemporâneos dos dinossauros. Viajamos para o futuro e nos transportamos para mundos que não existem ainda. Lemos as biografias de pessoas extraordinárias que lutaram por causas bonitas e nos tornamos seus companheiros de lutas. Lendo, fazemos turismo sem sair do lugar. E isso é muito bom
Rubem Alves, no livro “Ostra feliz não faz pérola”. Editora Planeta, 2008.




Aquela parte do conjunto - Humberto Werneck

Maldita a hora, conta o Nei, em que a dona da casa lhe propôs tomar um banho. 
Mirtes, vivendo agora em Paris, tinha sido sua colega na faculdade. Depois de bom tempo sem se verem, ele estranhou a metamorfose que havia convertido a moça recatada num ser loquaz a borbotar modernidades.
Escarrapachada no tapete, baseado e birita entre os dedos, ela desfiava um torrencial relato autobiográfico, cravejado de palavras chulas. Em minutos constatou o Nei que a apagadinha moça de família havia incinerado todos os resquícios da sua formação burguesa – ao ponto de haver planejado e ter tido uma filha à revelia de um incauto inseminador. Graça de menina, a Juju, 5 anos de idade, espevitada que nem a mãe.
Deve ter sido a expressão (cansaço? tédio?) do Nei que levou a Mirtes a interromper seu monólogo exterior: quer tomar um banho?
Bem... – hesitou ele, ali como visita apenas. A amiga insistiu: pra que tanta cerimônia, meu? 
Rendido, já ia se trancar no banheiro quando a Juju anunciou: 
– Quero tomar banho com o tio!
Mais inesperada ainda foi a reação da mãe:
– Claro, meu amor!
E agora lá estava o Nei, nu sob o chuveiro e o olhar perscrutador da garotinha. Só falta a Mirtes entrar aqui... – temia ele, ensaboando-se freneticamente para abreviar a agonia. Pela primeira vez, considerou vantagem não ter tanta coisa assim para lavar.
– O que é isto, tio? – quis saber a Juju, por pouco não cutucando o objeto de sua curiosidade.
– Isto... isto... – gaguejou o visitante – ... é o pinto do tio...
– Não! O outro, atrás dele!
– Digamos que faz parte do conjunto – esquivou-se o Nei, encerrando, ainda meio ensaboado, aquele que foi o banho mais rápido de sua vida.
*
A primeira morte
Mal chegou a notícia da morte de dona Almerinda, as quatro irmãs se mandaram para a casa da amiga. Compungidas, cruzaram a varanda, apertaram mãos e, não encontrando caixão na sala, embarafustaram rumo ao quarto da defunta. 
Três delas, ao lado da cama, se persignaram e puxaram reza, enquanto a outra, mais saidinha, se pôs de joelhos e, prestativa, deu uma ajeitada nos lençóis. Foi aí que a falecida, numa comprovação de que não o era, repuxou uma perna e exalou um suspiro, estertoso mas ainda não o derradeiro. 
Desnecessário dizer que as quatro amigas não tiveram condições de dar as caras quando, no dia seguinte, dona Almerinda voltou a suspirar, agora sim, pela última vez.
*
Uma questão de tamanho
Eu estava naquela ótica, em Miami, para entrevistar o dono, sobre assunto que nada tinha a ver com oftalmologia. Enquanto esperava, corri os olhos pelos mostruários – e dei com a armação que há anos vinha procurando. Já ia apanhá-la quando chegou o entrevistado, o que me forçou a mudar de ideia: não ficaria bem misturar os papéis de repórter e de comprador. Deixei para depois.
Na saída, porém, o camarada fez questão de me acompanhar à rua, empatando uma vez mais a compra. Dei um tempo até que ele sumisse nos fundos da loja, catei a armação e corri ao caixa. 
No avião de volta, fui saborear a aquisição – e me dei conta do quanto a pressa me custara: tamanho errado. 
Deu trabalho achar, entre amigos e conhecidos, algum cujo rosto tivesse o diâmetro de um queijo da serra da Canastra.
*
Incidente a bordo
Por falar em queijo:
O alto-falante já dera o último aviso, mas eu não admitia a ideia de deixar Aruba sem um gouda da melhor procedência. Quando, retardatário, entrei no avião, custei a achar espaço nos bagageiros. Precisei abrir uma dúzia de compartimentos para finalmente conseguir, lá nas primeiras filas, acondicionar, no muque, o meu pequeno fardo, nem tão pequeno assim.
Assim que o avião, tremelicante, apontou o focinho para o alto, um dos compartimentos, adivinha qual, se abriu estrepitosamente, fazendo desabar um trambolho no colo de uma passageira – a qual, depois de um berro que dava a impressão de ser o último, se pôs a rugir os palavrões mais crus da língua portuguesa, o bastante para desestimular um passageiro que, encolhido lá atrás, achou prudente renunciar a seu caro – em todos os sentidos – queijo gouda.
*
Com seus botões
Ao cabo de meses de luta contra insidiosa moléstia, como os obituários de então se referiam ao câncer, o doutor Afrânio finalmente esticara as venerandas canelas, e a família já se entregava às providências para o velório, que, como se usava, teria lugar ali mesmo, na residência do finado. 
Filhos e genros se preparavam para empacotar o falecido em sua derradeira indumentária, quando, aberto o guarda-roupa, de lá saltou a encrenca: nenhum dos jaquetões, nenhum, tinha um único botão. E, sendo madrugada, não havia como comprar o que faltava – sem o que nem se poderia dizer que o doutor abotoara o paletó. 
Estavam entregues todos à perplexidade quando um dos filhos se ergueu de arranco e deixou o quarto – para retornar em menos de 1 minuto, trazendo pela orelha um dos netos do defunto, que tinha nas mãos uma caixinha, repleta de craques do futebol de botão.
*
Pesadelo ao vivo
Aquele não foi o único atrapalho na madrugada em que o doutor Afrânio bateu as suas sempre reluzentes botas. 
À meia-noite, exausta, a Elvira, cozinheira vitalícia da família, tinha se recolhido a seu quartinho, em cima da garagem. Acordou pelas 3 horas, empapada de suor e maus presságios, abriu a janela, que dava para a entrada do carro, e, aterrada, achou que o viscoso pesadelo prosseguia: lá vinham uns homens de preto, a carregar um enorme volume. 
– Alguma coisa que eu comi – decidiu a Elvira, devolvendo-se à cama. 
Como voltasse a acordar uma hora mais tarde, resolveu fazer um café para o pessoal. Ao entrar na copa, vinda da cozinha, deu de cara com uns homens, os mesmos do pesadelo!, que desciam a escada com o tal volume, de agora inequívoco conteúdo. Só faltava a moça, varada de pavor, deixar cair a bandeja com o bule, as xícaras, o açucareiro. 
Não faltou.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O alívio de fazer xixi - Suzana Herculano-Houzel



O tema é prosaico, eu sei, mas quem não conhece o alívio, quase prazer, de deixar sua bexiga se esvaziar quando ela já está mais do que esticada? A razão é que segurar o xixi dá trabalho para o cérebro, além de deixar a gente ansioso e sem conseguir pensar em outra coisa.
Urinar é algo que o cérebro consegue fazer sem precisar de controle atento. Conforme a bexiga se enche de urina, a informação sobre o seu estado de distensão é repassada pelos nervos para a medula espinhal e dali para o centro de controle da micção na ponte do cérebro. Assim que a bexiga fica cheia demais, esse centro inicia automaticamente seu esvaziamento.

Mas fazer xixi a qualquer momento, simplesmente porque a bexiga ficou cheia, não é considerado civilizado. Humanos e cachorros aprendem rapidamente que xixi tem hora e lugar graças à possibilidade de reconhecer a sensação da bexiga cheia e exercer controle cognitivo sobre o centro pontino da micção.
Se a bexiga ficar cheia demais, não tem jeito: os mecanismos de segurança falam mais alto e lá se vai a urina. Mas, até lá, o centro pontino da micção fica sob o controle do córtex pré-frontal, que só permite a micção quando, além de necessária, ela for socialmente aceitável e puder acontecer em lugar seguro.
O córtex pré-frontal, por sua vez, exerce seu controle informado pelo córtex da ínsula, que representa, entre outras sensações fisiológicas, a sensação da bexiga se enchendo. A ínsula também repassa essa informação para o córtex cingulado, que monitora a situação e dá o alerta para outras regiões do cérebro quando a coisa começa a ficar crítica. Daí em diante, tudo em que se consegue pensar é no banheiro mais próximo, enquanto o córtex pré-frontal segura as pontas, literalmente, mantendo o centro pontino inibido.
Já no banheiro, e com bênção pré-frontal, o centro pontino troca a atividade simpática, que mantém a bexiga distendida e o esfíncter contraído, por ativação parassimpática, que contrai a bexiga e relaxa o esfíncter, permitindo a passagem da urina.
Por isso fazer xixi é tão bom: além de ser um estado de ativação parassimpática, que relaxa o corpo, ainda alivia seu córtex cingulado e o pré-frontal, que estavam dando duro para mantê-lo tenso, no controle e em busca de um banheiro. Daí o alívio mental de poder soltar o xixi. É como poder contar um segredo e parar de sofrer a respeito. Aaaaah..

Suzana Herculano-Houzel, carioca, é neurocientista






domingo, 2 de junho de 2019

Delícias da violência - Mário Corso

Explicar o sucesso da série Guerra dos Tronos requer o mesmo número de páginas dessa obra enciclopédica. Vou pinçar uma das razões pelas quais essa história cativou tanto público: a violência maiúscula e onipresente do começo ao fim. Não há trégua para as mortes, torturas, decapitações, mutilações, estupros, castrações, assassinatos - inclusive de crianças. É uma série em que o mal impera e escancara suas possibilidades.

Falaria alegoricamente do nosso tempo? O senso comum pensa o século 20 e o começo do nosso como épocas bestiais. Afinal, tivemos duas guerras mundiais, bomba atômica, genocídios, totalitarismos brutais. Porém, se examinarmos dados sobre o conjunto de atos considerados crime, e o total de vítimas, estamos em declínio desde a Idade Média. O mundo está se pacificando. Não parece, mas é assim. Sugiro aos descrentes um livro de Steven Pinker: Os Anjos Bons da Nossa Natureza. Ele analisa o lento declínio da violência como um todo e o paradoxo de não acreditarmos no nosso progresso civilizatório.

O que mudou foi a sensibilidade para com a violência, agora mais aguçada. Hoje, qualquer manifestação dela é condenada terminantemente. O problema é que algumas boas almas, não satisfeitas em suprimir a agressividade real, julgam necessário exterminá-la também na virtualidade.

Para um raciocínio caricatural do politicamente correto, a violência ficcional, virtual, lúdica, onírica, enfim, de qualquer forma, seria igualmente nefasta. O ideal seria extirpar qualquer resquício de maldade. Só assim seríamos virtuosos. Falo dessas pessoas que condenam os videogames violentos, filmes de terror, são contra que as crianças brinquem com armas, como se esses produtos educassem para a violência.

Talvez essa boa vontade do higienismo da agressividade funcione em algum povo venusiano, mas certamente não em humanos. Nossa história foi imersa em violência e ainda estamos impregnados dela. Não sai na primeira lavada. Por sorte, progredimos, mas sonhamos com vinganças, na imaginação destroçamos quem nos atrapalha. É contraproducente negar o que resta em nós de primatas briguentos e nos forçar a parecer com anjos que não somos. A audiência da série é a desforra dessa tolice.

Ficções como Guerra dos Tronos espelham nossa selvageria íntima, como se a tirássemos de dentro para lhe conhecer a cara, ou melhor, as garras. Só depois de olharmos nosso chimpanzé interior nos olhos podemos domesticá-lo. É o cão que late e não morde.


Enquanto os reinos do escritor George Martin rosnam entre si, nosso lobo essencial uiva suas maldades. Depois de purgadas, esvai-se a vontade de morder os semelhantes. É difícil encontrar fórmulas para diminuir a violência, mas fazer de conta que ela não nos constitui apenas fecha a possibilidade de a arte sublimar parte dela.

Menstruação - Drauzio Varella



Ciclo biológico sempre foi cercado de tabus que dificultaram a realização de estudos dos transtornos causados por ele

Menstruar é uma característica humana, raríssima entre os mamíferos. Menstruam as mulheres, as chimpanzés, as fêmeas de algumas espécies de morcegos e do musaranho-elefante, animal africano do tamanho de um rato.

Enquanto nas demais espécies a camada que reveste a parte interna do útero (endométrio) é absorvida no fim de cada ciclo, e a fase fértil exibida por meio de inchaço dos genitais externos, de alterações comportamentais e de odores que atraem os machos, nas mulheres a ovulação é mantida em segredo. O único sinal visível de fertilidade é o sangramento vaginal, estrategicamente exposto nos dias em que não há óvulos a fecundar.

Virginia Sole-Smith faz uma revisão na revista Scientific American, na qual explica que o endométrio se espessa no decorrer do ciclo, em preparação para aninhar os óvulos fecundados. Mantê-lo nutrido indefinidamente em condições ideais para a nidação exigiria gastos metabólicos permanentes, evitados ao eliminá-lo para reconstruí-lo no ciclo seguinte.

A menstruação sempre foi cercada de tabus que dificultaram a realização de estudos dos transtornos causados por ela.

Publicada em 2018, uma pesquisa com 738 mulheres da Arábia Saudita revelou que 91% delas referiam pelo menos uma queixa menstrual: irregularidade, interrupção, dores, sangramento abundante.

Levantamentos conduzidos em outros países mostraram que: 1) uma em cada cinco mulheres tem cólicas menstruais fortes, a ponto de limitar as tarefas diárias; 2) uma em cada 16 mulheres sofrem as dores intensas da endometriose, doença em que sangue menstrual e restos de endométrio migram para o interior da cavidade abdominal, instalando-se nos órgãos pélvicos, nos intestinos e no peritônio; 3) uma em cada 10 mulheres apresenta a síndrome do ovário policístico, capaz de provocar irregularidades nos ciclos, problemas dermatológicos e infertilidade; 4) cerca de 80% das mulheres se queixam de sintomas do transtorno disfórico pré-menstrual (TPM) - irritabilidade, depressão, ansiedade - na semana anterior à menstruação, que persistem até o segundo ou terceiro dia depois que o sangramento se instala.

Menstruar 12 vezes por ano, durante anos consecutivos, é fenômeno moderno. Antes da segunda metade do século 20, as mulheres engravidavam cedo e as taxas de natalidade eram altas. Somados aos nove meses de gravidez os períodos de amamentação, cada filho significava dois a três anos de amenorreia. Estima-se que durante a vida fértil uma mulher do passado menstruasse cerca de 100 vezes, número incomparável à média de 400 menstruações atuais.

Além da tendência moderna de engravidar mais tarde e de dar à luz menos vezes, as meninas de hoje menstruam mais cedo. No Brasil e em muitos países, a menarca ocorre em média aos 12 anos de idade. Há apenas 20 ou 30 anos, acontecia seis meses mais tarde; no início do século 20, aos 14 anos.

Dietas com densidade calórica alta, obesidade infantil, sedentarismo, estresse e até fatores ambientais, como a exposição aos bisfenois e ftalatos contidos nos plásticos, explicariam essa precocidade.

O tabu da menstruação vem de longe. Em 1920, o húngaro Béla Shick assegurou ter observado que buquês de flores murchavam mais depressa em mãos de mulheres menstruadas. Concluiu que o sangue menstrual conteria uma espécie de veneno. Na Amazônia, há quem jure que o boto cor de rosa ataca as canoas que transportam mulheres "naqueles dias".

Nos anos 1950, pesquisadores da Universidade Harvard injetaram sangue menstrual em animais. As mortes ocorridas não foram interpretadas como resultantes de infecções bacterianas, mas provocadas por improváveis substâncias tóxicas, às quais deram o nome de menotoxinas.

Associar a menstruação às impurezas é crença presente em diversas culturas. O mesmo preconceito está por trás da dificuldade que as mulheres têm em tocar nesse assunto, em geral restrito à intimidade entre elas.

A falta de pesquisas para desvendar a natureza de um fenômeno biológico que interfere com o cotidiano de metade da população mundial, durante décadas, é reflexo do valor que a sociedade atribui ao sofrimento das mulheres e do comportamento autoritário que os homens insistem em manter para subjugar os desígnios do corpo feminino.

Se sofrêssemos, prezado leitor, as cólicas e os desconfortos comportamentais do período menstrual, aceitaríamos com passividade a justificativa de que "isso é coisa de homem"?





Spoiler de vida - Leandro Karnal

O termo inglês spoiler entrou no nosso vocabulário com força. Toda vez que alguém vai escrever sobre um filme ou seriado, deve colocar um “alerta de spoiler”. Assim, se o leitor prosseguir por sua conta e risco, sabe que poderá ter o final revelado. 
Spoiler deriva de espoliar, ou seja, roubar, privar alguém de algo. Há quadros famosos, como o de El Greco na catedral de Toledo (Espanha), que mostram a retirada da roupa de Jesus antes da cruz (El Expolio). Espoliar é retirar, degradar, diminuir, tomar algo. Hoje é lido quase exclusivamente como negar a alguém o privilégio da surpresa do desenlace de uma narrativa. 
Não foi sempre assim. Auerbach começa seu clássico Mimesis (1946) comparando com aOdisseia, atribuída a Homero, não trabalha com ansiedade narrativa, diferentemente do episódio do sacrifício de Isaac, no Gênesis. Shakespeare está mais próximo de Homero: revela o final de Romeu e Julieta logo nos primeiros versos. Ninguém teria lido Agatha Christie se a primeira linha denunciasse a identidade do assassino. Já falei disso em outra crônica: vivemos o apogeu da expectativa da tensão dramática; o final é mais importante do que tudo.
“Já viu o último episódio da série X? Não me conte, ainda não assisti.” A tensão narrativa, a ansiedade pela revelação do final do filme, ao que parece, é nosso maior prazer. Isso explica que estejamos longe de clássicos da literatura. O mais importante em Hamlet, por exemplo, é a reflexão sobre a ação, o deleite de cada trecho com monólogos que entremeiam os fatos. Sabemos quem é o assassino no primeiro ato. Hamlet já intuía: “Oh, minha alma profética!”. Todos os atos restantes envolvem o aprofundamento da ação sob a desculpa de ter mais certeza. Para Shakespeare, uma revelação bombástica no estilo do clichê mexicano: “Eu não sou seu mordomo, Maria Leocádia, sou seu filho, Filipe Antônio!” não valeria se a trama anterior não fosse um bom texto sobre vingança, bastardia e destino. Assim, raramente no autor inglês a cena final é a melhor de todas ou a mais densa. Hamlet morrendo é menos do que Hamlet vivendo. A floresta subindo até Macbeth é inferior a sua reflexão antes de matar o rei. Comparado com o enredo em si, o final de Othello é previsível. Oposto ao nosso momento, a personagem do Bardo vive para viver e não para fazer fotos que registrem o momento da existência. 
Hoje a ansiedade pelo final é tão forte que, quase sempre, existe decepção com o resultado. Cria-se tanta carga de expectativas que existe pouca possibilidade de atender plenamente ao desejo do público. A série Guerra dos Tronos foi espetacular? Sim, responderão milhões de fãs. E o último capítulo? Encontro pouca gente feliz. Grande parte da narrativa da luta pelo trono de ferro foi o vazio do poder, a violência sem sentido, o desespero da morte de personagens centrais, a insanidade e a cobiça desviando quase todos os que detinham força e a impotência do bem. Ao final, era inevitável que o eixo fosse reafirmado. Porém, nossa ansiedade gera uma vontade enorme de redenção dada pela cena derradeira. Vencidos os mortos e incinerados os vivos, que restaria a narrar? Shakespeare gostaria. Era uma Guerra das Rosas com elementos mágicos, um pouco de Ricardo III e Sonho de uma Noite de Verão narrados por Puck. “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum”, diria o poeta de Stratford. Pelo menos, o sentido não pode ser dado apenas pela última cena, mas por todo o processo. Uma grande lição para Westeros, para a Inglaterra e para nós.
O esforço da densidade nunca deveria ser um espasmo apenas. Lutar para que apenas o final seja bom parece ser coisa de show fraco, que, não tendo muito a mostrar, enfatiza os fogos de artifício de encerramento. Sempre me pareceu que, quanto mais alta a música da cena final, mais forte a luz e maior a agitação do palco, pior tinha sido a peça. Para uma civilização como a nossa que avalia um texto pelo último capítulo, julga a vida de trabalho pela aposentadoria e pergunta se um casamento foi bom pela maneira que terminou e não pelo tom que existiu antes disso, parece ser um grande desafio. 
O filme belga Novíssimo Testamento (Von Dormael, 2016) contém uma cena curiosa. Todos os seres humanos recebem, em seus celulares, o momento exato da sua morte. Assim, a tensão narrativa desaparece e recebemos o final no meio da trama. A maioria reage muito mal à novidade. Como você agiria se soubesse que tem mais seis meses ou dez anos de vida? Como distribuiria o tempo?
Como priorizaria atividades? Que coisas deixaria de fazer? O filme leva à discussão do quanto o capítulo final, sendo conhecido, tornaria os anteriores inúteis? Talvez não possamos ter spoiler do nosso final. Talvez por isso não toleramos saber o final de nada antes de viver. Não queremos ser espoliados das nossas expectativas. Porém, contradição da nossa existência, passamos grande parte da vida adulta tomando decisões de saúde, de família e de finanças para que o último capítulo seja escrito do jeito que queremos. O acaso ou Deus, se você preferir, parece sempre ser um autor rebelde. O final é sempre surpreendente. Resta viver bem a série inteira chamada vida da melhor maneira possível. 

A fila do Everest - Luis Fernando Verissimo

Por certo, nenhuma imagem publicada na imprensa mundial nos últimos dias impressionou tanto quanto a foto daqueles alpinistas fazendo fila para chegar ao topo do monte Everest, colocar uma bandeirinha do seu país ou uma lembrancinha da sua mãe e pedir para o cara de trás tirar uma selfie. A fila não é pequena, é enorme. Presume-se que não seja novidade e que se forme todos os dias, resistindo ao frio, ao vento, à falta de ar, à morte e à impaciência do cara de trás. O que aconteceu para que o desafio se tornasse corriqueiro?
*
O Everest continua onde sempre esteve. Seu pico deve aumentar ou diminuir com as variações no tempo, mas não muito. O desafio ainda é o mesmo, ainda se sofre para chegar ao cume da grande montanha. Tanto quanto sofreu o neozelandês Edmund Hillary, primeiro a chegar lá, em 29 de maio de 1953. Hillary tornou-se uma celebridade mundial e viveu dos direitos da sua aventura até morrer, em 2008. O guia da expedição que culminou, trocadilho intencional, com a conquista de Hillary, o nepalês Tenzing Norgay viveu menos do que Hillary (morreu em 1986), mas foi uma espécie de subcelebridade, bem recompensada, embora pouco lembrada depois da aventura. Hillary foi um autêntico herói ocidental que falava a língua dos colonizadores. Ninguém esperava que o nome de um nepalês aparecesse nos créditos junto com o nome de um neozelandês. Não neste mundo.
*
A questão dos créditos sempre foi uma questão de nomes. Você imaginaria que o nome “Everest” seria uma justa homenagem a alguma divindade oriental ou monumento nacional, e não a um cientista e explorador inglês, como é. Quando apareceu reproduzido num mapa pela primeira vez, na China, o monte foi identificado como Qomolangma. No Tibete ele era, ou ainda é, Chomolungma. Também na China, seu nome era ou é Zhugmulanga Feng. 
*
Como se explica a fila do Everest? Descobriram uma nova rota de subida? A população do mundo está maior do que se pensava, está sobrando gente para fazer fila, qualquer fila? Como fomos de Hillary e Norgay se arrastando na neve a vendedores de água mineral e biscoitos Globo na fila, sem nos darmos conta? 

tem FILA pra chegar no topo do Everest!


Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...