segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Estátuas - Luis Fernando Verissimo




Há uma estátua do Carlos Drummond de Andrade sentado num banco da praia de Copacabana, uma estátua do Fernando Pessoa sentado em frente ao café “A Brasileira” em Lisboa, uma estátua do Mario Quintana sentado num banco da Praça da Alfandega de Porto Alegre. Salvo um cataclismo inimaginável, as três estátuas jamais se encontrarão. Mas, e se se encontrassem?
— Uma estátua é um equívoco em bronze — diria o Mario Quintana, para começar a conversa.
— Do que nos adianta sermos eternos, mas imóveis? — diria Drummond.
Pessoa faria “sim” com a cabeça, se pudesse mexê-la. E acrescentaria:
— Pior é ser este corpo duro sentado num lugar duro. Eu trocaria a eternidade por uma almofada.
— Pior são as câimbras — diria Drummond.
— Pior são os passarinhos — diria Quintana.
— Fizeram estátuas justamente do que menos interessa em nós: nossos corpos mortais.
— Justamente do nosso exterior. Do que escondia a poesia.
— Do que muitas vezes atrapalhava a poesia.
— Espera lá, espera lá — diz Drummond. — Minha poesia também vinha do corpo. Minha cara de padre era um disfarce para a sensualidade. Minha poesia dependia do corpo e dos seus sentidos. E o sentido que mais me faz falta, aqui em bronze, é o do tato. Eu daria a eternidade para ter de volta a sensação na ponta dos meus dedos.
Pessoa:
— O corpo nunca ajudou minha poesia. Eu e meus heterônimos habitávamos o mesmo corpo, com a sua cara de professor de geografia, mas não nos envolvíamos com ele. Nossa poesia era à revelia dele. E fizeram a estátua do professor de geografia.
Quintana:
— Pra mim, o corpo não era nem inspiração nem receptáculo. Acho que já era a minha estátua, esperando para se livrar de mim.
— Pessoa — diria Drummond —, estamos há meia hora com você nesta mesa do Chiado, e você não nos ofereceu nem um cafezinho.
— Não posso — responderia Pessoa. — Não consigo chamar o garçom. Não consigo me mexer. Muito menos estalar os dedos.
— Nós também não...
— Não posso reagir quando sentam à minha volta para serem fotografados, ou retribuir quando me abraçam, ou espantar as crianças que me chutam, ou protestar quando um turista diz “Olha o 
Eça de Queiroz”...
— Em Copacabana é pior — diria Drummond. — Fico de costas para a praia, só ouvindo o ruído do mar e o tintilar das mulheres, sem poder me virar...
— Pior, pior mesmo — diria Quintana — é estar cheio de poemas ainda não escritos e não poder escrevê-los, nem em cima da perna.
Os três concordam: o pior é serem poetas eternos, monumentos de bronze à prova das agressões do tempo, fora poluição e vandalismo — e não poderem escrever nem sobre isto. As estátuas de poetas são a sucata da poesia.
E ficariam os três, desolados e em silêncio, até um turista apontá-los para a mulher e dizer:
— O do meio eu não sei mas os outros dois são o Carlos Gardel e o José Saramago.



Sonhos - Luis Fernando Verissimo

Sonhar é como ir ao cinema. Seus olhos se fechando são como as luzes do cinema se apagando, e seu sonho é como um filme projetado na tela. Só que... Só que, mesmo que você não saiba exatamente o que vai ver no cinema, tem uma ideia. Leu uma sinopse do filme no jornal, viu o cartaz. Sabe se vai ver um drama ou uma comédia. Sabe quem são os atores. Sabe que, se for filme de horror, vai se assustar. Se for um filme com o Sylvester Stallone, vai ter soco etc. Quer dizer: você entra no cinema preparado. Mas você nunca dorme sabendo o que vai sonhar.
Ninguém está preparado para o que vai ver no sonho. Será um pesadelo? Será um sonho romântico? Lúbrico? Engraçado? Um sonho estranho, com tartarugas cantantes acompanhando em coro um dueto lírico do Stallone com aquela sua antiga professora de matemática? Você não sabe. O sonho é sempre uma surpresa.
E outra coisa: se não estiver gostando do filme, você pode sair na metade. Com o sonho, isso é difícil. O ideal seria se você pudesse escolher seu sonho. Ou pelo menos descobrir como ele seria, para você saber o que esperar. Uma espécie de sinopse. Por exemplo...


Drama de costumes. Você é um cossaco na Rússia imperial e recebe ordens para arrasar um vilarejo onde todos os homens se chamam Rimski e fazem sexo com cabras, o que não seria tão ruim se as cabras não usassem máscaras do tzar. No meio do entrevero surge, misteriosamente, a sua mãe e manda você voltar para casa e não esquecer de lavar as mãos, e o seu cavalo vai rindo o tempo todo.


Drama psicológico. Você está num apartamento que não conhece. Sente que precisa sair dali mas não encontra a saída. Perambula pelas peças vazias até chegar numa em que há um homem estirado num divã. É o dr. Freud dormindo uma sesta. Você o sacode, para perguntar onde fica a saída. Ele acorda, sobressaltado, e diz “ach, bem na hora do chantilly no umbigo!” e passa a persegui-lo por dentro do apartamento, obrigando você a pular por uma janela e cair na cadeira do senador Eduardo Suplicy, que felizmente está viajando. Você tenta fugir de Brasília mas também não encontra a saída.


Comédia romântica. Tudo se passa num resort do Caribe. Você confundiu as Patrícias, combinando um fim de semana com a Pilar mas indo com a Poeta. Descobre que a Pilar chegou no hotel atrás de você. Há cenas hilariantes, como a de você se disfarçando de palmeira para não ser reconhecido e fingindo ser um garçom no luau até tropeçar na Luana Piovani e cair dentro da fogueira. A Luana leva você para fazer curativos na sua cabana enquanto a Pilar e a Poeta, que se juntaram, procuram por você. No fim as três se unem para jogá-lo no mar, onde você é recolhido por um iate e adotado pela Angelina Jolie.


Horror. Você está num bastidor e alguém acaba de lhe dar uma batuta para reger a grande orquestra sinfônica que o espera no palco.
— Vá — diz alguém no seu ouvido.
Há ruídos de impaciência vindos da plateia. A orquestra também está inquieta. Onde está o 
maestro? Mas você não é maestro. Você não entende nada de música. Você não sabe o que está fazendo ali. E você está nu.
— Vá — dizem outra vez.
— Eu estou sem roupa — protesta você.
— Vai assim mesmo, agora não há mais tempo.
Você tenta desesperadamente retardar sua entrada no palco:
— O programa. Eu não sei qual é o programa!
— Toca qualquer coisa — é o conselho que lhe dão. — O importante é entrar no palco.
— Mas eu estou nu!
— Não interessa, entra!
E você é empurrado para o palco. Ouve o som do espanto coletivo da plateia. A orquestra também está de boca aberta. O primeiro violino recua, para evitar qualquer contato com você.
Você sobe no estrado, olha para o lado e o seu horror aumenta. Esperando nos bastidores estão um coro de tartarugas, o Sylvester Stallone e aquela sua antiga professora de matemática esperando a sua vez de entrar.

Stand up: levante-se - Martha Medeiros

Stand up é um termo inglês que significa "ficar de pé" ou "levantar-se". Popularizou-se quando surgiram as primeiras apresentações de comediantes que, sozinhos no palco, sem cenário, dispunham apenas de um microfone para fazer a plateia rir. Mais tarde, o termo passou a designar o remo em pé: stand up paddle. É uma modalidade antiga de surf, originária do Havaí, mas que hoje é praticada também longe das ondas - em rios, lagos e em alto mar, por profissionais e também por amadores que buscam equilíbrio, diversão e condicionamento físico.

Estamos em pleno verão e a menção a esse esporte já justificaria a coluna, mas quem me trouxe ao assunto foi Marcelo Yuka, compositor que fundou a banda O Rappa e que morreu há duas semanas, aos 53 anos, de infecção generalizada. Em 2000, ele levou nove tiros ao tentar socorrer uma mulher durante um assalto e ficou paraplégico. Afora a canção Minha Alma, sucesso que consagrou o verso "Paz sem voz/não é paz/é medo", eu conhecia pouco de seu trabalho, mas aprendi a respeitá-lo através da biografia Não se Preocupe Comigo, escrita pelo jornalista e amigo de Yuka Bruno Levinson. Conheço o Bruno e acompanhei suas manifestações depois que Yuka se foi. Bruno disse que Yuka sempre soube que morreria cedo. "Você já viu algum cadeirante velho?", perguntava Yuka para Bruno. "Não uma pessoa velha que tenha ido pra cadeira de rodas por fraqueza, mas uma pessoa como eu? Não. Nós não fomos feitos para ficar sentados".

Chegamos ao ponto. Não fomos feitos para ficar sentados.

Não fomos feitos para passar horas numa poltrona diante de um computador, horas afundados num sofá com um celular na mão, horas numa cama manejando um controle remoto, horas numa sala de espera enquanto não chamam nosso nome - e esta última situação uso como metáfora para milhões de preguiçosos que estão sentados numa "sala de espera" aguardando para entrar na vida, em vez de alcançá-la com os próprios pés.

Não fomos feitos para o sedentarismo, a pasmaceira, o tédio, a paralisia e os quilos extras que a inatividade traz. Considero vulgar a expressão "tirar a bunda da cadeira", mas é disso que se trata, grosso modo. É exasperante ver que muitos adolescentes com energia de sobra estão desperdiçando-a com um cansaço existencial que nada mais é do que medo de expandirem seu destino, de correrem atrás de projetos sem garantia, de se submeterem a aventuras incertas - como se tudo não fosse incerto. Aboletam-se, atrofiam-se e morrem cedo. Com o agravante de estarem presos a uma cadeira por livre e espontânea vontade, ao contrário de Yuka.

Pois eu, que estou longe dos meus 17 anos, venci a resistência que sempre tive a esportes náuticos: me pus de pé em cima de uma prancha e passei a remar, vacilante e valente ao mesmo tempo, como em toda estreia. Stand up! Levante-se também. Pela razão que achar que mereça, mas levante-se.

Perdedor, vencedor - Luis Fernando Verissimo

O perdedor cumprimentou o vencedor. Apertaram-se as mãos por cima da rede.
Depois foram para o vestiário, lado a lado. No vestiário, enquanto tiravam a roupa, o perdedor apontou para a raquete do outro e comentou, sorrindo:
— Também, com essa raquete...
Era uma raquete importada, último tipo. Muito melhor do que a do perdedor. O vencedor também sorriu, mas não disse nada. Começou a descalçar os tênis. O perdedor comentou, ainda sorrindo:
— Também, com esses tênis...
O vencedor quieto. Também sorrindo. Os dois ficaram nus e entraram no chuveiro. O perdedor examinou o vencedor e comentou:
— Também, com esse físico...
O vencedor perdeu a paciência.
— Olha aqui — disse. — Você poderia ter um físico igual ao meu, se se cuidasse. Se perdesse essa barriga. Você tem dinheiro, senão não seria sócio deste clube. Pode comprar uma raquete igual à minha e tênis melhores do que os meus. Mas sabe de uma coisa? Não é equipamento que ganha jogo. É a pessoa. É a aplicação, a vontade de vencer, a atitude. E você não tem uma atitude
de vencedor. Prefere atribuir sua derrota à minha raquete, aos meus tênis, ao meu físico, a tudo menos a você mesmo. Se parasse de admirar tudo que é meu e mudasse de atitude, você também poderia ser um vencedor, apesar dessa barriga.
O perdedor ficou em silêncio por alguns segundos, depois disse:
— Também, com essa linha de raciocínio...

Robespierre e seu executor - Luis Fernando Verissimo



Maximilien Marie Isidore de Robespierre foi um dos líderes da Revolução
Francesa. Chamado de “O Incorruptível”, foi o principal teórico e porta-voz dos jacobinos, a  facção mais radical dos revolucionários, em oposição aos girondinos, mais moderados. Exigiu o guilhotinamento do rei e da rainha e instalou o “Terror”, que liquidou opositores da Revolução, ou apenas suspeitos de se oporem à Revolução, numa orgia de sangue que não poupou nem seu
ex-companheiro Danton (o Trotsky para o seu Stalin, numa analogia um pouco forçada). Pouco depois da execução de Danton, o próprio Robespierre foi preso por seus inimigos girondinos e condenado à morte. Na mesma guilhotina.
Imaginemos que na véspera da sua execução, Robespierre recebe na cela a visita de um verdugo oficial. Que se apresenta:
— Louis-Phillipe Affilè.
— Enchantê.
— Seu admirador.
— Muito obrigado.
— Foi por sua causa que entrei para o serviço público. Foi ouvindo seus discursos que me decidi a servir a Revolução.
— A Revolução agradece.
— Sou obrigado a fazer esta visita, antes de cada execução. Para, por assim dizer, preparar o terreno...
— Você quer dizer, a minha nuca.
— Também devo medir a sua cabeça, para saber o tamanho do cesto. O farei com a devida reverência. É a cabeça mais brilhante da República.
— Esteja à vontade. Minha cabeça não pertence mais à República. A República não a quis mais. Na verdade, minha cabeça já pertence a você.
— O senhor prefere raspar a nuca?
— Como foi com o Danton?
— Ele disse que uma navalha antes da lâmina da guilhotina seria uma apoteose do supérfluo.
— Ah, as frases do Danton. Ele foi o mais frívolo de nós dois. Se contentava em fazer frases.
Eu queria fazer História.
— Maria Antonieta pediu para manter todo o seu cabelo. Disse que era por razões sentimentais. Sentia-se muito apegada a ele.
— Você também foi o executor da Maria Antonieta?
— Sim. Foi no meu turno. Nós os verdugos não temos tido descanso. O senhor nos dá muito trabalho. Ou nos dava...
— Tudo pela Revolução.

— Eu sei. É por isso que mantenho este emprego, apesar das lamúrias dos condenados, das ofertas de propina... Tudo pela Revolução.
— O Danton e a Maria Antonieta ofereceram propina para não serem guilhotinados?
— O Danton não. A Maria Antonieta sim. Uma fortuna. Resisti. Também sou incorruptível. Inspirado no senhor.
— E se eu lhe oferecesse uma fortuna para me ajudar a fugir?
O verdugo fica em silêncio. Depois sorri.
— Eu diria que o senhor está me testando. Para saber se minha admiração pelo senhor é sincera. E se eu sou mesmo incorruptível, como o senhor.
— E se eu insistisse na oferta?
— Então todas as minhas ilusões ruiriam. Minha admiração pelo senhor desapareceria e eu não acreditaria em mais nada. Nem na Revolução.
— Situação interessante — diz Robespierre.
— Para continuar me admirando, você precisa me matar.
Silêncio. O verdugo pergunta:
— Foi um teste, não foi?
— Claro — diz Robespierre.
— E então, vamos raspar a nuca?
— Só uma aparadinha, para o corte da lâmina ser limpo.
 




Aguilar e Banda Performática



domingo, 3 de fevereiro de 2019

Para Lisboa - Luis Fernando Verissimo

Os três lado a lado no avião. A mulher no meio. Não se conhecem. As primeiras escaramuças por espaço. A mulher se posicionando, estabelecendo seu perímetro. Vou botar meus cotovelos aqui para eles botarem os deles atrás, assim na hora da comida a vantagem é minha. Esse a minha direita senta com as pernas abertas, se encostar o joelho na minha perna, eu... Iiiih, já está se preparando para dormir. Melhor. Assim ele não come. Menos um cotovelo na briga. E este aqui? Quanto tempo até ele puxar conversa? Já me examinou bem, nem disfarçou. Deve ser do tipo que...
– Quer um jornal?
Menos tempo do que eu esperava, pensou a mulher.
– Não, obrigada.
– São apertados estes bancos, né?
– Horríveis.
– Vai pra Lisboa?
– Vou.
– Que pergunta cretina! Se não fosse, não estaria nesse avião, não é mesmo? Eliseu.
A mulher levou algum tempo para entender que Eliseu era o nome dele.
Depois, para horror da mulher, ele contou que estava indo a Lisboa para enterrar a mãe. Ela ficou em pânico. Pensou em aceitar o jornal, para interromper a conversa. Qualquer coisa para evitar os detalhes.
– Sinto muito.
– O que vai-se fazer? É a vida.
A mulher concordou que era a vida. Eliseu pareceu se consolar com isso e mudou de assunto. Quando serviram as bandejas com o jantar, ele já tinha contado tudo a seu respeito. 
*
A mulher nem desconfiava que alguém pudesse fazer carreira em o que mesmo? Interruptores. Eliseu precisou levantar a bandeja e a mesinha à sua frente, ameaçando derramar Coca Light nela, para tirar da carteira um cartão com o nome dele e, embaixo, “Interruptores”. Para ela acreditar.
Eliseu comeu tudo da sua bandeja e mais a sobremesa que ela não quis, repetiu sua Coca Light, deu um arroto que ele mesmo recebeu com um “Eliseu!”, como se fosse a sua própria mãe rediviva, e perguntou:
– Você tem algum programa para esta noite?
A mulher, incrédula:
– Mas hoje não é o enterro da sua mãe?
– Que mãe? Ah, não. O enterro vai ser às cinco. Às cinco e meia deve estar tudo liquidado. A gente pode jantar e...
– Não!
– Epa.
Carlinhos se assustou com o tom do “não”.
– E tem outra coisa – disse a mulher.
– O quê?
– Você só soube que sua mãe tinha morrido esta madrugada, certo?
– É...
– Só comprou a passagem esta manhã.
– Foi... Comprei no aeroporto.
– Então como é que eu, que reservei há uma semana, estou no meio e você está na ponta?
– Sei lá. 
– Pois é.
Os dois ficaram em silêncio, Eliseu olhando para ela e ela olhando para a frente. Finalmente, Eliseu falou: 
– Quem sabe só um drinque?
– NÃO! 
Eliseu não disse mais nada, pelo resto da viagem. Só dormiu e roncou. Mas o homem do outro lado da mulher, fingindo que dormia, não parava de encostar o joelho na sua coxa.
– Ó raça – pensou a mulher.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

À beira do abismo - Luis Fernando Verissimo

Até hoje penso naquela viagem como uma experiência surreal. Talvez, com o tempo, eu tenha exagerado seus perigos e seus mistérios, mas na minha memória ela ficou como uma passagem estreita entre tragédia e encanto, que tanto poderia terminar em reminiscências indolores como esta, muitos anos depois, quanto no fundo de um abismo.
Tínhamos alugado um carro em Los Angeles para irmos a San Francisco pela estrada da costa. Depois de passar pela praia de Malibu, rumo ao Norte, a estrada começa a subir e em pouco tempo nos vimos numa via de apenas duas pistas, contornando as montanhas, com uma magnifica vista do pôr do sol no Pacifico à nossa esquerda. Até aí, tudo ótimo. Curvas sinuosas atrás de curvas sinuosas, mas nada que um motorista experiente, de vida limpa e confiante no seu braço, não pudesse enfrentar. Mas com a noite veio a cerração, e dentro da cerração a chuva. E eu passei a não ver nada, a só enxergar a curva sinuosa seguinte quando já estava em cima dela, obrigado a frear, com o risco de levar uma bangornada (termo de origem obscura, não encontrado em dicionários, o mesmo que chapuletada, só mais forte) de algum carro que viesse de trás, às cegas como eu, e ser atirado para a pista da esquerda, onde um caminhão gigantesco nos pegaria e nos lançaria no Pacifico, em chamas. Pensei: só falta o freio falhar para isto se transformar num filme de suspense. Um filme que eu decididamente não queria ver.
Vislumbrei, no meio da bruma letal, o anúncio de um motel. Salvação! Entramos na recepção do motel — que não era a recepção de um motel, ou pelo menos de um motel convencional. Um enorme salão atapetado e mal iluminado. Um clima fantasmagórico. Parecia que tínhamos interrompido um coquetel. Pessoas jovens e elegantes, segurando drinques coloridos, nos examinaram com divertida curiosidade. O que era aquilo? Cheguei a pensar que o acidente tinha acontecido, que o caminhão tinha mesmo nos jogado no abismo, e que estávamos no céu, ou no mínimo numa antessala. Uma moça nos sorria de trás de uma mesa que, deduzi, era onde deveríamos nos registrar. Recuamos, cautelosamente, e saímos pela porta com alguma pressa. O risco da estrada parecia menor comparado ao que nos esperava naquele saguão lúgubre — que até hoje eu não imagino o que seria.
A poucos quilômetros dali encontramos outro motel, simples e nada ameaçador. Dormimos bem e na manhã seguinte retomamos a estrada, agora sem cerração ou chuva. O Pacífico continuava no lugar, à nossa frente estavam Big Sur, Carmel, Monterrey e a bela San Francisco. A volta de carro para Los Angeles foi pelo interior, longe dos abismos, por uma estrada reconfortadoramente reta.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...