sexta-feira, 4 de maio de 2018

O ponto da ganância - Luis Fernando Verissimo

Tudo pode ser reduzido a uma metáfora culinária. Comparamos mulheres com frutas e revoluções com omeletes e dizemos que as pessoas envelhecem como o vinho – ou ficam melhores, ou azedam. E já ouvi dizerem de uma mulher que ela lembrava um vinho da Borgonha. Nada a ver com sabor ou personalidade, e sim com o formato da garrafa (pescoço longo e ancas largas).
O capitalismo triunfante também evoca uma questão de cozinha, a do ponto. Qual é o ponto em que a ganância humana deixa de ser um propulsor econômico e volta a ser pecado? Da Margaret Thatcher diziam que ela queria o impossível: devolver à Inglaterra os valores morais da era vitoriana ao mesmo tempo em que desencadeava a era do egoísmo sem remorso e declarava que sociedade não existia, só existiam o indivíduo e suas fomes.
Dilema antigo. Desde que o capitalismo e a moral burguesa nasceram, ao mesmo tempo, vivem brigando. Só conseguem viver juntos com a hipocrisia, que teve uma das suas apoteoses na era vitoriana invocada pela sra. Thatcher.
No Brasil de tantos escândalos, cabe a pergunta: qual é o ponto da ganância? Quando é que a mistura desanda, o molho queima e o que era para ser um pudim vira uma vergonha? Há quem diga que o mercado sabe quando e como intervir para salvar a moral burguesa. Digo, o pudim.
Claro que para isso funcionar é preciso confiar que todas as pessoas sejam, no fundo, social-democratas, ou capitalistas só até o ponto certo do cozimento. Ou acreditar que a ganância pode destruir a ideia de sociedade e ao mesmo tempo esperar que a ideia sobreviva nas pessoas, como uma espécie de nostálgica produção caseira.
O capital financeiro que hoje domina o mundo nasceu da usura, que era punida pela Igreja medieval. A história da sua lenta transformação, de pecado em atividade respeitável, culminando com sua adoção pela própria Igreja, é a história da hipocrisia humana. A Inquisição mandava os usurários para a fogueira, onde... Mas é melhor parar com as metáforas culinárias, antes de começar a falar nos grelhados.

A fogueira e as vaidades - Tati Bernardi


O noticiário da manhã informava que o prédio era da década de 60. Para lá foram 57 viaturas e 160 bombeiros. Eram 24 andares e um terreno de 660 metros quadrados. Tinha uma área construída com pouco mais de 11 mil m². O acidente começou 1h30 da manhã. O edifício desabou às 2h50. Outros três prédios também pegaram fogo. Moradores eram aproximadamente 248. O vídeo mostrava crianças assustadas e suas mochilinhas, algumas deitadas no asfalto imundo, as bochechas ainda enegrecidas pela fumaça... mas da boca dos repórteres só saiam números e mais números.
Invadido, ilegal, irregular, desativado, loteado, ocupado, pago, criminoso, bandido, facção... essas foram algumas das duras palavras que chegaram aos nossos ouvidos muito antes de outras como vítimas, famílias, tragédia, desigualdade, tristeza, solidariedade, comida, cama, água, abrigo.
Preenchendo o buraco, adornando os escombros, ressurgido das cinzas, subiu a poeira dourada da vaidade. Para começar, a minha, que em vez de estar lá tentando ajudar alguém, estou aqui, escrevendo essa coluna para ser lida e comentada. Quiçá, adulada.
Ricardo sem sobrenome (o rapaz engolido pelo fogo, o homem da vinheta fúnebre repetida ad infinitum numa espécie de pesadelo sensacionalista) passou boa parte do noticiário também sem nome. E, assim que foi “reconhecido”, virou a nova febre das redes sociais, a galera “de bem” resolveu não lamentar 
sua morte porque “devia ser um bandido”. Não demoraram a postar fotos incriminatórias. Para que vamos lamentar humanos desabrigados (talvez mortos de forma terrível) se podemos ocupar todo o nosso tempo xingando todos os movimentos populares em nossas pracinhas virtuais? Não estou aqui defendendo o Luta por Moradia Digna, só acho estranha a escolha pelas paixões. Pra que exercer a compaixão quando podemos incitar mais ódio?
A repórter que cobria a tragédia logo cedo estava maquiada para além do que seria mau gosto. Os olhos com uma sombra preta exagerada e a base muito pesada não ornavam com o conteúdo apresentado. “E, ao vivo, estamos com nossa repórter no local do desastre”. E lá vinha ela, sorridente, os cílios alongados, o batom chamativo. Me lembrou aquela “modelo” que fazia fotos sensuais com os danos do furacão Sandy.
À noite, no mesmo canal, um repórter mostrou uma montanha de roupas doadas e falou “as pessoas vêm aqui, pegam o que lhes interessa, e largam o resto”. Ele foi expulso aos berros por um dos ex-moradores que acabara de perder o pouco que tinha. A barriga provavelmente forrada apenas pelos ecos do imenso susto e alguns farelos de bolacha água e sal vencida, não dava para aturar o jovem engomadinho mostrando sua realidade triste e precária como se analisasse o comportamento de ratos em um laboratório a céu aberto.
Faltou humanidade, amigos jornalistas. Vocês pareciam estagiários perdidos vendendo fatalidade como se fosse Carnaval de rua. 
Engrossando o coro de quem substitui o verbo sensibilizar por ostentar, nosso presidente só visitou o local porque pegava mal não dar um pulo na desgracinha dos pobres. Temer não estava preocupado com as famílias que não teriam onde dormir aquela noite (e sabe Deus mais quantas noites!), ele estava agoniado em não “ficar feio na foto” (como se fosse possível a ele ficar bonito de qualquer forma em qualquer foto). 
No Facebook, muitos conhecidos que moram na zona oeste, em horrendos e caros prédios neoclássicos, se marcaram como “seguros” no acidente com o edifício no largo do Paissandu. Oi? Querido, você mora em Pinheiros, não precisa avisar que está tranquilo no trabalho ou de bobs em casa, ninguém estava mesmo preocupado! 
O prédio não tinha condições de abrigar aquelas famílias e nós não temos condições de sequer lamentar por isso.
Benett



Thiago Lucas


Gilmar

O escândalo do prazer - Contardo Calligaris

Mariza Dias Costa/Folhapress



Assisti a "Wild Wild Country", o documentário dos irmãos Way (Netflix) que narra a luta travada, nos anos 1980, entre, de um lado, a comunidade rajneesh e, do outro, o povo e o governo do Oregon, EUA.
Bhagwan Shree Rajneesh (também conhecido como Osho) era um guru já famoso nos anos 1970, em Pune, Índia. Quando levou a comunidade de seus seguidores para o vilarejo de Antelope, Oregon, ele encontrou a censura e o ódio da população local.
No embate, os oregonianos se revelaram sinistros, intolerantes, quase fascistas no seu conformismo. Uma troca divertida resume o clima. Um repórter de TV pergunta a Ma Anaand Sheela (secretária de Bhagwan): "É verdade que na sua comunidade o sexo é livre?" e há, no tom dele, aquela mistura de caretice e de excitação reprimida da qual só um censor é capaz. Sheela responde: "Sim, o sexo é livre, a gente não cobra por ele".
Em suma, eu deveria preferir os rajneeshes, só que, infelizmente, não gosto de seitas: a coesão do grupo e a idealização do líder são para mim quase as origens metafísicas do mal.
Sem tomar partido, só me resta tentar entender qual foi o escândalo que tornou os rajneeshes intoleráveis para os oregonianos.
Para evitar qualquer spoiler (o documentário é um thriller), usarei uma lembrança minha.
No começo dos anos 1970, eu vivia entre Paris e Genebra, onde dividia um apartamento com uma amiga milanesa, a qual um dia foi para a Índia e voltou rajneesh, vestindo só a cor laranja.
Da viagem seguinte, ela trouxe um namorado, também de laranja, com quem ela fazia sexo o tempo inteiro —o que me pareceu ótimo.
Outra vez, minha amiga levou a mãe viúva para a Índia. E elas decidiram doar uma parte conspícua de sua fortuna (considerável) para o Bhagwan. Achei suspeito.
Enfim, um dia, minha amiga voltou da Índia com a incumbência de comprar um relógio de presente para Bhagwan. Fomos à Van Cleef & Arpels, rue du Rhône, onde ela encomendou e comprou um patacão cravado de pedras preciosas, uma peça única, por US$ 200 mil.
Estranhei um pouco, e ela me explicou que o carma do Bhagwan estava quase extinto: a qualquer momento, ele se libertaria do ciclo das reencarnações. Os discípulos queriam que ele ficasse na Terra mais um pouco e tentavam segurá-lo com ouro, joias e carros Rolls-Royce. Os presentes ancorariam o Bhagwan, como o lastro que impede o balão de ar quente de subir e perder-se nas alturas do céu.
Não tenho nada contra carros Rolls-Royce e relógios. Também achava interessante o tipo de meditação que Bhagwan propunha (com técnicas de respiração que chegavam a alterar a consciência) e aprovava a liberdade sexual da comunidade rajneesh.
Mas pensei: ela caiu nas mãos de um charlatão fraudulento. É que havia, para mim, uma óbvia contradição entre uma espiritualidade verdadeira e o gosto por relógios ou carros de luxo. De onde me vinha essa ideia?
De fato, eu apenas aceitava um grande lugar-comum que parece ser próprio a todas as culturas em que se pensa que a alma ou o espírito ou a subjetividade da gente sejam diferentes do corpo —ou seja, nas culturas em que cada um diz espontaneamente que ele "tem" um corpo, e nunca que ele "é" um corpo. Pois bem, nessas culturas todas, vige a ideia de que a gente só teria acesso à verdade espiritual pela ascese, ou seja, renunciando (ao menos em parte) ao corpo, ao prazer e aos bens materiais.
Isso vale para o hinduísmo, para o budismo (o caminho do meio budista é moderado, mas não deixa de ser uma ascese) e para o cristianismo. Talvez valha menos para o judaísmo. Mesmo assim, de Deus e do espírito, em qualquer denominação, espera-se que eles reprimam nosso hedonismo "sem-vergonha" e nosso materialismo "desenfreado".
Seguindo o lugar comum, eu achava que só um charlatão promoveria uma espiritualidade sem ascetismo, sem renunciar ao prazer.
Acredito que os cidadãos de Antelope, Oregon, tolerariam os rajneeshes tomarem sol pelados, transarem, pularem e dançarem até orgasmos tântricos. Também tolerariam Bhagwan com seus 20 carros Rolls-Royce, seu jatinho e seus relógios —mas à condição de que tudo isso não fosse declarado compatível com o caminho de uma espiritualidade verdadeira: façam o que quiserem, mas não me digam que isso é religião.
Bhagwan, ainda hoje, continua estranhamente revolucionário: quem mais promove uma espiritualidade que não seja ascética, ou uma religiosidade que não exija uma renúncia ao prazer?

Marx, esse desconhecido - Vladimir Safatle

Marcelo Cipis/Folhapress


Se me permitem, gostaria de relatar um fato de ordem pessoal. Fiz minha graduação no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo no começo dos anos 1990. A princípio, aquele era, na época, um dos polos de reflexão marxista na universidade.
No entanto, em quatro anos de graduação não tive um curso sequer sobre Marx, mesmo que tivesse cursos de liberais com John Locke ou ainda Hobbes e Stuart Mill.
Se lembro deste anedotário, é para mostrar como Marx é desconhecido, embora muito falado. Amanhã se completarão 200 anos de seu nascimento, o que é uma boa ocasião para se perguntar quem, de fato, é Marx. Pois é certo que um dos eixos maiores de nossa época diz respeito à distância ou à proximidade que estamos dispostos a tomar de Marx.
O que não poderia ser diferente, já que o século 20 fica simplesmente incompreensível sem entender o quanto suas ideias, assim como as leituras de suas ideias, nos definiram. Dificilmente encontraremos um nome que cause tantos arrepios em alguns e entusiasmo em outros. Sendo pró ou contra Marx, é indubitável que a força de seu pensamento moldou nosso passado recente.
Mas aqui começa o paradoxo. Mesmo sendo fonte de uma força enorme, a discussão de seu pensamento é muito menor do que aparenta. Os clichês (economicista, messiânico, necessitarista, autoritário) são legião. No entanto, certamente um retorno a Marx seria proveitoso para nosso tempo.
Pois a radicalidade da experiência prático-teórica chamada Marx vem, entre outros, da junção entre três níveis de exigências que muitos gostariam de dissociar: uma reflexão sobre a liberdade e seu exercício, uma reflexão sobre a emergência de novos sujeitos políticos e sua força revolucionária, uma crítica implacável à vida possível no interior das sociedades capitalistas e em outras formas sociais incapazes de se fundar em estruturas de exploração e violência. O que Marx mostrou é como nenhum destes três níveis de exigência caminham separados.
Que Marx seja um pensador da liberdade e da emancipação, eis algo que vale sempre a pena lembrar. Sua pergunta fundamental não é apenas pelas condições sociais para a realização da liberdade, já que não posso ser livre em uma sociedade não livre, mesmo que acredite que me exilar em minha interioridade seja possível.
A questão de Marx gira em torno de uma crítica implacável a outros modelos de liberdade, em especial esse no interior do qual liberdade e propriedade estão associados. Pois temos a ilusão de podermos ser livres quando somos proprietários de nós mesmos, quando possuímos a nós mesmos.
A base material, jurídica e política das sociedades capitalistas se encontra na generalização da estrutura da propriedade, até mesmo para as relações a si. Mas uma liberdade sem possessão é a única liberdade concreta real, lembrará Marx.
Essa liberdade exige uma transformação radical dos modos de reprodução material da vida. Ela exige que a atividade humana seja liberada da forma do trabalho produtor de valor, trabalho que faz da atividade uma ação unidimensional, disciplinar e alienante.
Ela exige que as relações à natureza deixem de ser uma possessão para ser um "metabolismo". Ela exige que as relações humanas não sejam mais pensadas como a relações entre proprietários que passam entre si contratos. Ao movimento dessa transformação, Marx dá um nome: comunismo.
Essa experiência comunista, experiência da emergência de um comum que não será posse de ninguém exige a reflexão sobre como sujeitos que não tem mais nada que os vincule à vida mutilada das sociedades capitalistas afirmam seu desejo de transformação e agem de forma revolucionária.
Uma revolução não apenas da estrutura do poder e de sua base econômica, mas da forma do exercício do poder e de desativação da exploração econômica.
Um dos teóricos fundamentais do pensamento econômico pensa, na verdade, em como permitir a emergência de uma sociedade pós-econômica, para além das injunções disciplinares que fizeram da economia a verdadeira forma de produção de subjetividades. O que um retorno a Marx nos permitiria seria repensar a importância de uma experiência comunista para nossa época.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Matemática - Luis Fernando Verissimo


O presidente Abraham Lincoln escolheu o general Ulysses S. Grant para liderar as forças do Norte na Guerra Civil americana porque Grant, segundo Lincoln, não tinha medo da matemática.
Além de ser um reconhecido estrategista, Grant não hesitava em ordenar ataques frontais ao inimigo sabendo que a contagem de baixas seria horrorosa. A tétrica aritmética da Guerra Civil americana só seria superada pela da Grande Guerra de 1914, quando milhares de vidas podiam ser sacrificadas num só dia por nada – como na batalha do Somme, em que 50 mil soldados ingleses morreram avançando contra fogo alemão sem que um metro de terreno fosse conquistado. Na verdade, mais de três milhões de seres humanos foram sacrificados nos três anos da Primeira Guerra Mundial sem que a frente de batalha se movesse, para um lado ou para o outro, mais de algumas milhas. Nos dois lados havia generais dispostos a enfrentar a aritmética. Durante três anos, generais, governantes, políticos, intelectuais, imprensa e povo dos dois lados conviveram, patrioticamente, com a aritmética. Justificando-a ou – o mais cômodo, pelo menos para quem não estava numa trincheira – ignorando-a. 
A Guerra de 14 foi um exemplo extremo de estupidez militar e civil e até hoje historiadores discutem as causas reais de tamanha insensatez coletiva. Mas ela teve seus justificadores. Era a Europa liberal resistindo ao militarismo alemão. A Guerra Civil americana também tinha tido, pelo menos na superfície, a justificativa nobre da abolição da escravatura. A aritmética do terror aéreo que a Alemanha lançou na outra grande guerra, a Segundona, depois de ensaiá-lo na Espanha, teve por trás o sonho pan-germânico de Hitler, que só virou coisa de louco porque ele perdeu. A aritmética dos campos de extermínio nazistas era justificada pela purificação da raça ariana. A aritmética dos bombardeios gratuitos de Dresden e de Hiroshima e Nagasaki se justificava como castigo para quem tinha começado a guerra. A aritmética dos gulags e dos expurgos stalinistas se justificava pelo ideal comunista. A aritmética do terrorista suicida palestino se justifica por uma causa, a aritmética da represália israelense se justifica por outra. E há tantas maneiras de ignorar a aritmética como há de defendê-la, ou exaltá-la como uma virtude militar, como Lincoln fez com Grant.
No Brasil convivemos com a desigualdade e com um exército de excluídos que não são menos vítimas de um descaso histórico por serem um genocídio distraído, com o qual nos acostumamos. Mas a matemática do descaso histórico nos bate na cara todos os dias.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

A razão da amargura - David Coimbra

Em qualquer discussão, seja qual for o tema, chega o momento em que alguém usa o nazismo como argumento. Funciona. Em primeiro lugar, porque o nazismo é reconhecido no Ocidente como o mal absoluto. Em segundo, porque faz parte de um contexto tão amplo, que pode ser associado ao que o argumentador bem entender. Dos neoliberais aos comunistas, passando por vegetarianos e abstêmios, todos correm o risco de, em algum momento, ter suas atitudes comparadas com o nazismo. Qualquer um, em qualquer causa, pode usar o nazismo como arma.

Já o irmão mais velho do nazismo, o fascismo, serve mais como espingarda das esquerdas. Esquerdistas adoram chamar direitistas de fascistas.

Só que as realidades se confundem nesse campo ideológico. Ontem, escrevi sobre Getúlio Vargas. A esquerda do século 21 admira Getúlio Vargas e se identifica com ele. Há uma tese de que a divisão da sociedade brasileira vem daquela época: Vargas seria a esquerda que protegia os pobres, e seus inimigos seriam os elitistas da direita que queriam explorar os pobres. Lula, inclusive, tenta emular Vargas. Em seu último discurso antes de ser preso, ele empregou várias imagens que o ligam ao Vargas da carta-testamento. Todas aquelas referências messiânicas, tipo "se meu coração parar de bater, baterá no coração de vocês" ou "não sou mais um homem, sou uma ideia", tudo isso tem o tom dramático de "saio da vida para entrar na história".

Acontece que, na verdade, Vargas foi talvez o maior perseguidor de esquerdistas da história brasileira. Colocou o PC na ilegalidade, prendeu, torturou e matou comunistas. Mais: ele simpatizava tanto com o nazismo, que vacilou até o último instante em apoiar os aliados na II Guerra.

Mas, de fato, havia algo que irmanava Vargas e Lula, Hitler e Mussolini, Stálin e Mao, Fidel e Chávez, Perón e o Marechal Tito: o populismo.

Agora chego ao ponto crucial para responder à pergunta que fiz dias atrás: por que perdemos muito da nossa doçura e da nossa alegria?

É que nós, brasileiros, historicamente nos entregamos à solução fácil do populismo, e o populismo precisa de inimigos para se justificar. Hitler, por exemplo, elegeu os judeus como inimigos internos (não disse que o nazismo sempre é usado como argumento?).

No Brasil, os populistas são pais protetores dos pobres. Para que existam e governem, eles têm de proteger os pobres de alguma ameaça. Logo, há que se apontar um agressor. Durante muito tempo, os agressores foram os políticos tradicionais. Lula e o PT eram o oposto de Maluf, Collor, Calheiros, Sarney, Delfim et caterva. Lula e o PT eram o novo.

Mas Lula e o PT perceberam que, se continuassem se opondo a esses políticos poderosos, jamais chegariam ao poder. Assim, Lula e o PT se amasiaram com eles e com eles partilharam benesses. Cada um levou a sua cota e ficou tudo certo.

Isso por cima.

Por baixo, o governo aquietou a choldra com mimos fáceis - bolsas, vagas na universidade, auxílios variados. Todo mundo parecia contente e a estrutura continuava a mesma.

Porém, a manutenção da estrutura torta pesava cada vez mais exatamente sobre quem a sustentava - o contribuinte. Ao mesmo tempo, os desvios do sistema passaram a ser descobertos. Isso enfraqueceu e expôs o governo. Exposto, o governo começou a ser atacado. Atacado, teve de se defender. Como? Com a estratégia de todo populista: alegando que ele, governo, protege os pobres e que seus inimigos são inimigos dos pobres.

Foi esse discurso, potencializado pelas redes sociais, que tornou o Brasil amargo. Mas o mais grave é que a reação de parte da população ao populismo de esquerda foi atirar-se nos braços do populismo de direita. Isto é: a amargura só aumenta.

Voltando ao exemplo onipresente do nazismo, é alvissareiro lembrar que a Alemanha, por fim, conseguiu livrar-se do populismo. Os governantes alemães das últimas décadas são sensatos, prudentes e saudavelmente monótonos. Mas, para chegar a esse nível, eles tiveram de passar por uma guerra. Resolve, mas não vale a pena. Espero que, no caso do Brasil, baste o combate virtual.

Um texto irresponsável - Marcos Piangers

Esta é uma história real. O telefone tocou no escritório. Um garoto quer falar com você, me disse um colega. Transfere. Alô. ? Alô. ?É o Marcos Piangers? Sim. Não acredito que estou falando com o Marcos Piangers. Está. Meu Deus, não acredito! Como é fácil falar com o Marcos Piangers. Ok, cara. Era isso? Não! ?Eu quero saber uma coisa: eu trabalho em algo que eu odeio. Eu odeio meu emprego. Meu sonho é trabalhar com produção de vídeos. Você acha que eu devo pedir demissão?

Abre parênteses. Acho que naquele dia eu devia estar muito inconsequente. Fecha parênteses. Você odeia seu emprego? Sim. Você quer fazer outra coisa? Sim. Você é novo e tem família pra te ajudar? Sim, moro com meus pais. Então, acho que você deve pedir demissão hoje mesmo e ir atrás do seu sonho. Sério? Sério. Ok? Ok. Obrigado. De nada. Tchau. Tchau.

Oito meses depois. Recebo um e-mail do garoto que me ligou. Dizia, em outras palavras, o seguinte: "Piangers, depois daquela ligação cheguei no meu emprego e realmente pedi demissão. Fui o herói de mim mesmo. Saí de forma gloriosa por aquela porta, para qualquer coisa que a vida me reservaria. Durante meses, entreguei meu currículo em agências e produtoras de vídeo. 

Nenhuma me respondeu. Por um tempo, ia a entrevistas de emprego apenas para comer a bolacha e tomar o café que oferecem nesses lugares. Comecei a ficar meio desesperado. Até que um dia uma produtora me ligou. Comecei a trabalhar com o que eu amo, aprendi técnicas, com meu primeiro salário fiz um curso online. Em algum tempo, estava pegando trabalhos mais legais, ganhando mais dinheiro. Hoje, trabalho com o que eu amo. Estou muito feliz. Obrigado por ter atendido aquela ligação".

Quando li o e-mail, fiquei boquiaberto. Como eu tinha tido a irresponsabilidade de dizer pra um jovem ir atrás do seu sonho? Ele deveria ter batalhado por 65 anos em um trabalho que odeia, como todo mundo faz.

Lembrei dessa história quando perguntei pra um amigo como ele conseguiu o emprego dos sonhos: viajar o mundo fazendo imagens de surf. Ele disse que, anos atrás, estava trabalhando em um escritório, matando tempo, olhando vídeos no computador. Até que viu um vídeo de um surfista. Um vídeo de 45 segundos, mostrando as praias pelas quais aquele surfista tinha passado no último mês. Ele viu aquele vídeo de 45 segundos, se levantou, pediu demissão e foi embora. Não sei se pra cada vitorioso desses temos mil fracassados. Só sei que, sempre que um telefone tocar e alguém disser que odeia seu emprego, eu vou recomendar o enfrentamento deste medo. Esse frio na barriga. Você saindo pela porta da empresa. Vamos ver o que a vida lhe reserva.

Macho Alfa - Antonio Prata

  ilustração: Adams Carvalho Anteontem, vejam só, meu pneu furou. Todos aqueles que, como eu, estão neste rolê desde as últimas décadas do s...